Repercussões da Cura para Pacientes Oncológicos em Fase de Manutenção

Repercussões da Cura para Pacientes Oncológicos em Fase de Manutenção
(Tempo de leitura: 13 - 26 minutos)

Resumo: O câncer é definido como um grupo de doenças que promovem alterações nas células acarretando em uma divisão excessiva das mesmas.  Os principais tratamentos utilizados para o seu controle são a quimioterapia, a radioterapia e a cirurgia. Apesar dos avanços tecnológicos para a cura do câncer, ainda existem estigmas relacionados a esta doença, dentre os quais destacam-se a associação desta com a morte e a deterioração da imagem corporal. Desta forma, este trabalho teve como objetivo compreender como os pacientes oncológicos em fase de manutenção vivenciam seu processo de cura. Para isto, foram feitas entrevistas com cinco mulheres entre 54 e 66 anos, de uma clínica de oncologia de Salvador - Bahia. Foi identificado que o câncer, apesar da crescente escalada científica para sua cura e controle ainda mantém uma relação com a morte e que o apoio da família é importante durante o diagnóstico e terapêutica. É perceptível também que as pessoas se apegam a forças divinas como forma de suporte para enfrentar esse processo e obter a cura. Esta pesquisa tem como finalidade colaborar com os profissionais da área de saúde para tentar oferecer uma assistência mais humanizada que corrobore no resgate da identidade e autoestima do indivíduo.

Palavras-chave: Câncer; Tratamento; Cura; Fase de manutenção.

Introdução

As estimativas de 2010 do Instituto Nacional do Câncer - INCA (2011)1 apontam que no Brasil foram esperados mais de 400 mil novos casos de câncer. O aumento na incidência da doença vem preocupando os profissionais de saúde que tentam discutir a influência dessa enfermidade na vida das pessoas. Sabe-se que o câncer foi percebido pela sociedade, durante muito tempo, como uma enfermidade que devasta a integridade humana, por se tratar de uma moléstia que modifica o cotidiano do sujeito no que se refere às dimensões de ordem física, psíquica e social.

No século XIX, a sociedade, de modo geral, compreendia o câncer como uma doença incurável que levava o sujeito à morte. Os pacientes oncológicos usualmente eram discriminados e marginalizados, uma vez que o meio social percebia a doença como manifestação do pecado, da sujeira física e moral. Isso acabava promovendo uma baixa autoestima, relação de dependência e isolamento social dessas pessoas. Atualmente, o câncer é compreendido como uma patologia que promove alterações nas células, acarretando em uma divisão excessiva destas. Muitos fatores favorecem o aparecimento dessa doença, tais quais a predisposição genética, aspectos ambientais, dentre outros (CAMON, 2006)3.

No século XX, surgiram alguns tipos de tratamento de combate ao câncer. Vale citar, como exemplo, a quimioterapia, a radioterapia e a imunoterapia. Segundo Espíndula e Valle (2001)4, o recurso terapêutico se dá em duas fases: a indução e a manutenção. Na primeira, o paciente é hospitalizado de imediato para ser cuidado pelos profissionais de saúde e realizar exames. Na segunda, o tratamento já foi feito e o indivíduo não é internado. Isto só ocorre se houver uma modificação do seu estado de saúde. Esse período corresponde aos anos posteriores ao término do tratamento.

Apesar da disponibilidade de diversos procedimentos terapêuticos, a cura do câncer se torna mais eficaz quando há um tratamento inicial adequado, cuidados básicos são tomados e o diagnóstico é obtido precocemente (TAVARES; TRAD, 2005)2.

A cura foi durante muito tempo associada ao restabelecimento da saúde ou à superação da doença. Muitos profissionais a entendiam como algo simplesmente biológico, partindo da compreensão de que a extinção de uma patologia só poderia ocorrer através de procedimentos cirúrgicos ou efeitos medicamentosos.  No entanto, nos dias de hoje, a cura é entendida como parte de uma rede de significados que possibilita um sentido à vida humana (JUCÁ, 2003)5. Ou seja, o indivíduo absorve informações da sociedade, formulando a partir disto sua noção de cura.

Pode-se afirmar que o câncer ainda é percebido, pela maioria da sociedade, como uma doença incurável. Esta visão sofreu poucas modificações ao longo da história. De modo geral, as pessoas compreendem que os avanços científicos na área da oncologia não asseguram aos pacientes a possibilidade concreta da cura, assim como não eliminam o medo da recidiva. Gera-se dessa forma, uma ansiedade acerca do retorno da doença ou mesmo, da morte (LINARD; SILVA; SILVA, 2002)6.

O presente trabalho tem como objetivo geral investigar como os pacientes oncológicos vivenciam seu processo de cura após o término do tratamento. Os objetivos específicos dessa pesquisa são: identificar como foi para os sujeitos a descoberta do câncer, a experiência do tratamento e o efeito de ambos em sua vida; compreender a percepção do câncer para os pacientes que apresentaram a doença; verificar como os indivíduos experienciam as revisões periódicas (exames) após a finalização dos procedimentos terapêuticos e entender o que seria a cura para estes pacientes.

Trata-se de pesquisa importante, pois poucos investimentos foram realizados nesse estudo a fim de abordar o significado da cura para pacientes oncológicos. Facilmente se constata que os materiais disponíveis em livros e artigos científicos sobre o tema são insuficientes. Considera-se que este trabalho pode ajudar de forma contundente a atuação dos profissionais de saúde no tratamento de pacientes com câncer. Isso porque, tais profissionais devem buscar compreender o ser humano em sua totalidade, e oferecer, por consequência, uma assistência mais humanizada que colabore no resgate da identidade e autoestima do sujeito.

Metodologia

Esse estudo se caracteriza por ser uma pesquisa empírica e foi realizado em uma instituição particular de atendimento a pacientes com câncer, na capital da Bahia. Buscou-se entrevistar cinco pacientes do sexo feminino entre 54 e 66 anos que vivenciaram o período de manutenção. A escolha das participantes ocorreu de acordo com a disponibilidade e interesse das mesmas. Não houve intuito de selecionar apenas uma amostra do sexo feminino, entretanto, os homens não se disponibilizaram para a realização da pesquisa. As entrevistadas fazem parte de um grupo terapêutico da instituição e foram indicadas pela psicóloga da mesma.

Nessa pesquisa, utilizou-se como técnica de coleta de dados, a entrevista semi-estruturada. Optou-se por esse tipo de entrevista, pois ela possibilita uma conversação mais informal, que acaba disponibilizando maior liberdade ao interlocutor. Nesse processo de coleta de dados, foi usado caneta, papel e gravador. A interpretação dos conteúdos foi realizada por meio de uma abordagem metodológica qualitativa.

Para uma melhor estruturação do trabalho, o texto foi dividido em quatro categorias de análise: descoberta da doença, significado do câncer, itinerário terapêutico e compreensão da cura. Estas foram escolhidas a partir da estruturação do conteúdo da entrevista, ou seja, as questões se agruparam de acordo com as características semelhantes que retratavam os conceitos referentes às categorias supra descritas.

No que se refere aos aspectos éticos do estudo, procurou-se obedecer à Resolução 196/96. Esta orienta o respeito e sigilo para com “as normas e diretrizes que regulamentam o planejamento e a execução de pesquisas científicas que envolvem, direta ou indiretamente, seres humanos” (FLEITH; COSTA JUNIOR, 2005, p.45-46)7. Por esse motivo, elaborou-se um termo de consentimento para que ficassem claros os objetivos e a justificativa da pesquisa, com o intuito de maior esclarecimento acerca do que se tentou obter através das entrevistas com os participantes.

Resultados e Discussões

a) Descoberta da Doença

Bergamasco e Ângelo (2001)8 discutem que o diagnóstico de câncer de mama carrega consigo reações e sentimentos que podem variar de indiferença a medo. A espera durante o resultado dos exames e o laudo médico acarreta sinais de ansiedade, angústia e desamparo, levando muitas vezes, o indivíduo à crença de que irá morrer. Maia (2005)9 afirma que essas emoções são despertadas desde o momento em que há uma suspeita do paciente em relação à sua patologia.  

“[...] na realidade pra mim eu não tive choque [...]” (Entrevistada 1, 60 anos).

“Antes de tudo eu acho que o medo indescritível [...]” (Entrevistada 2, 60 anos).

Maluf, Mori e Barros (2005)10 afirmam que havendo a confirmação de que é um tumor, a mulher passará por um conflito interno e pelos sentimentos descritos acima. No momento da negação, ela buscará a opinião de outros profissionais com o intuito de que haja um parecer diferente, até que a aceitação da doença possa acontecer. Esses conflitos são alterações psicológicas que não terminam após a cirurgia, mas repercutem também durante a quimioterapia e a radioterapia.

“[...] Dr. R. o que ele (outro médico) falou é verdade? [...]” (Entrevistada 3, 54 anos).

De acordo com Maia (2005)9, perguntas como “Por que eu?” ou “Porque para nós?” caracterizam o segundo estágio, descrito como raiva ou revolta por Kübler–Ross. Cagnin, Liston e Dupas (2004) acrescentam ainda que o diagnóstico de câncer acarreta uma inquietude e incerteza a respeito da vida, fazendo com que o paciente se pergunte: “Será que posso morrer?”.

“[...] o primeiro pensamento que você tem é que você não merecia, por que eu? [...] (Entrevistada 2,60 anos).

O diagnóstico do câncer, que é sentido na maioria das vezes como sentença de morte, rompe o equilíbrio individual e familiar (CARVALHO, 2003 apud MAIA 2005)9.  Durante a etapa de aceitação da doença, o apoio de familiares e amigos é de extrema importância. Entretanto, em alguns casos, isto se torna difícil devido aos laços afetivos que unem estas pessoas e pelo desconhecimento da evolução da patologia e da terapêutica. Ou seja, não estando esses indivíduos cientes das características da doença, não poderão dar suporte psíquico a esta paciente (MALUF; MORI; BARROS, 2005)10.

“ [...] eu achei assim, que ela (mãe), em nenhum momento ela sublimou [...] eu fiquei muito sozinha e eu acho que minha tia pra mim é mil vezes mais que minha mãe” (Entrevistada 2, 60 anos).

Diante disso, Caponero (2006)11 afirma que a perda da saúde leva o indivíduo a pensar sobre os mistérios da vida e a possibilidade da morte “faz-nos deixar de lado a falsa hierarquia de valores” (p. 13).

“[...] Tudo deixa de ter valor, dinheiro, roupa, beleza [...]” (Entrevistada 2, 60 anos)

“[...] A gente pensa que viver bem e ter qualidade de vida é ter dinheiro. Não! Viver bem é quando você presencia que o jardim tá todo bonito, todo verdinho [...]” (Entrevistada 3, 54 anos).

Em suma, a descoberta do câncer leva o sujeito a refletir acerca de suas vivências e a se questionar sobre a postura que assume diante do mundo.

b) Significado do Câncer

Soares e Lôbo (2007)12 apontam que alguns pacientes tendem a fazer uma correlação do aparecimento da doença a fatores estressantes como mágoas, dores, ressentimentos, problemas conjugais, financeiros, dentre outros. Estes sentimentos quando não são externalizados através da fala, por exemplo, podem desencadear reações corporais como o câncer. Esse dado foi percebido também na presente pesquisa, a partir dos discursos a seguir.

“Eu acho que o câncer é um alerta pra vida das pessoas. É pra que acorde, as coisas não estão bem, mágoas, ressentimentos [...]” (Entrevistada 4, 66 anos).

“[...] Eu faço um esforço grande pra não repetir determinadas atitudes, comportamentos pra que a célula fique aonde ela estagnou” (Entrevistada 1, 60 anos).

Dóro et al (2004)13 afirma que, em geral, o câncer está vinculado ao sinônimo de morte, à idéia de algo sem controle, no qual o tratamento é drástico e negativo e quase sempre com efeitos colaterais desagradáveis.

Pode-se perceber que o temor da morte aparece não apenas quando o prognóstico da doença é desfavorável, pois a própria patologia carrega esse estigma. Mesmo com a evolução da tecnologia e da ciência em relação à descoberta de novas intervenções como a cirurgia, a quimioterapia, a radioterapia, remanesce essa visão negativa acerca do câncer. No relato abaixo, descreve-se os sentimentos de uma paciente com câncer de mama que já vivenciou um histórico dessa doença no contexto familiar obtendo resultados favoráveis quanto à cura.  Apesar disto, o temor da morte ainda se faz presente em seu discurso.

[...] por dentro eu estava destruída, destruída e sempre assim com aquela sensação de que de uma hora pra outra você vai morrer (Entrevistada 2, 60 anos).

Verificou-se também que, a priori, a morte é sentida como impactante. Porém, após os tratamentos e a vivência dessa enfermidade, a paciente sente-se mais segura em relação à sua condição e passa a perceber o câncer como uma doença qualquer, levando em consideração as variadas formas terapêuticas. 

Em uma pesquisa realizada por Dóro et al (2004)13  a respeito da representação simbólica do câncer, constatou-se que os indivíduos acometidos por essa doença a percebem como algo fatal, comparando-a à AIDS em alguns momentos. Entretanto, observou-se neste estudo que algumas entrevistadas não apresentam essa visão acerca da enfermidade, contrariando as conclusões obtidas no trabalho desses pesquisadores. As pacientes afirmaram que não houve mudanças em suas vidas. A discrepância de resultados pode ser em decorrência do fato de que, na presente pesquisa, as entrevistadas já estavam na fase de manutenção. Em contrapartida, a população investigada por Dóro et al, apresentava-se na fase de indução, ou seja, em tratamento, e, portanto, vivenciando as dificuldades dos procedimentos e a incerteza da cura.    

“[...] antes, pra mim era um coisa assim terrível. [...] Foi câncer não tinha jeito, mas hoje eu já penso diferente. Eu acho que a gente não tem que se apavorar tanto. É uma doença como outra qualquer. Tratamentos vários.[...]” (Entrevistada 5, 60 anos).

“[...] Na realidade, pra mim é um processo como qualquer outro. [...] Se voltar, a gente vivencia [...]” (Entrevistada 1, 60 anos).

Linard, Silva e Silva (2002)6 perceberam que as pacientes têm  mudanças no cotidiano ocasionadas pelos limites físicos impostos após a terapêutica da quimioterapia e radioterapia. Tal constatação repete-se nesta pesquisa, consoante se depreende da leitura do trecho infra transcrito:

“[...] Afetou minha vida porque nos primeiros meses, nos primeiros momentos a gente fica sem chão realmente. [...]. Eu deixei de trabalhar. Eu fiquei um ano de licença médica” (Entrevistada 5, 60 anos).

Estes procedimentos e a própria doença, trazem uma debilidade corporal, o que impossibilita essas pessoas de exercerem atividades rotineiras como trabalhar, estudar, dentre outros. Essas barreiras fazem com que as mesmas se percebam, na maioria das vezes, inúteis, pois o câncer quase sempre modifica a vida do indivíduo.

c) Itinerário Terapêutico

Santos e Gonçalves (2006)14 perceberam que a quimioterapia é vista pelas pacientes como um procedimento que as afastam das atividades sociais, e como algo que destrói e agride o seu corpo alterando a sua autoimagem, devido à alopécia e outros efeitos colaterais como náusea, enjôos e falta de apetite. O tratamento quimioterápico também é visto como algo necessário, pois disponibiliza recursos para a cura. Algumas reações puderam ser demonstradas nos discursos descritos abaixo:

“[...] Foi muito difícil o período né? Porque a quimioterapia debilita você muito. [...] Perdi muito peso. [...] Tive assim uma crise alérgica. [...] tive muita, muita ardência no estômago. A boca ficou muito cheia de afta [...]” (Entrevistada 5, 60 anos).

“[...] Meus olhos inflamaram muito [...] E a sensibilidade da pele. [...] Uma vez ou outra eu lavo (peça íntima), mas se eu lavar todos os dias, minha mão estoura. Porque a quimio é uma droga mesmo. É necessária, mas deixa muitas sequelas, traz muitas consequências na vida [...]” (Entrevistada 4, 66 anos).

Para Menossi e Lima (2000)15, os efeitos colaterais mais frequentes e estressantes do tratamento são as náuseas e o vômito. Tais sintomas, geralmente, acarretam em consequências metabólicas (perda de secreções estomacais), psicossociais (incapacidade de realizar atividades diárias), comportamentais e fisiológicas (anorexia) que podem ocasionar um quadro de infecções, caquexia e morte. Rocha de Jesus e Gonçalves (2006)16 asseguram que o paciente submetido a esse tratamento sofre diante dos efeitos colaterais. O procedimento, muitas vezes, soa como mais amedrontador que o próprio câncer, já que esse promove reações corporais desagradáveis. As consequências em nível físico da quimioterapia são relatadas abaixo por uma paciente:

“(Sentimento em relação à queda de cabelo). (Me senti) Nua [...] quando o cabelo está caindo você pensa que você tá indo junto né [...] caiu todo [...] A gente tá muito acostumado a se ver com o cabelo né. E a sensação de você se ver sem cabelo é muito ruim. Eu usava lenço direto, até em casa eu não conseguia ficar sem” (Entrevistada 3, 60 anos).

A alopécia é o fenômeno mais destacado pela paciente. Essa é considerada como uma manifestação corporal terrível, já que promove uma desfiguração física perceptível tanto para ela quanto para os outros.  A mulher diante desse fato perde a sua identidade e parece se tornar estranha às pessoas que a cercam. Ela sente-se discriminada, com medo, com vergonha e triste pela sua condição atual e pelo receio do que os outros podem falar a seu respeito (ROCHA DE JESUS; GONÇALVES, 2006)16. Menossi e Lima (2000)15 enfatizam que a prevenção e o controle dessas manifestações sintomáticas são de fundamental importância para melhorar a qualidade de vida do sujeito. 

Segundo Silva, Melo e Rodrigues (1999), no tratamento de pacientes com câncer se faz necessário a presença de familiares, amigos e equipe de saúde para que estes possam ajudar o indivíduo a significar o seu processo de tratamento de tal sorte a gerar uma efetiva contribuição em suas recuperações.  Percebe-se, nos discursos abaixo, que o acolhimento é de fundamental importância para amenizar o sofrimento do sujeito com câncer.

“Eu contei com familiares. [...] meus familiares mandaram em mim durante três meses [...]. Estive com [...] a psicóloga. [...]. Foi à equipe médica que me deu apoio” (Entrevistada 1, 60 anos).

 “Tive muito apoio entendeu? Meus filhos, minha família, meus amigos, meus colegas de trabalho. [...] oncologista. [...] meu cirurgião” (Entrevistada 3, 60 anos).

Na perspectiva de Rubim Pedro e Funguetto (2005)17, a família do paciente tenta se adaptar à nova realidade se organizando para enfrentar a doença. O vínculo entre paciente, equipe de saúde e família tem de ser reforçado desde o momento do diagnóstico. Os profissionais da área de saúde devem adotar uma prática humanista que se aproprie das significações do sujeito acerca do seu sofrimento, sentimento, dúvida e recuperação.

Para Ortiz e Lima (2007)18, os cuidados e as orientações médicas tendem a ser seguidos com rigor pelos pacientes e familiares após o término do tratamento. Esses buscam manter uma prevenção do seu estado de saúde tentando evitar alterações de ordem física e/ou psíquica que venham a desencadear um processo de recidiva.

“[...] Eu acho que os acompanhamentos são necessários, tem que ter. [...] De três em três meses” (Entrevistada 3, 54 anos).

“[...] quando chega nessas horas das revisões é a hora que mexe muito [...]” (Entrevistada 4, 66 anos).

Ortiz e Lima (2007) discutem ainda que a fase de manutenção é um período  marcado por conflitos de sentimentos em que os indivíduos verbalizam suas angústias, medos e expectativas em relação a doença.

d) Compreensão da Cura

De acordo com Aquino e Zago (2007)19, geralmente, as pessoas tendem a se apegar a uma força divina como uma forma de suporte para enfrentar os tratamentos terapêuticos e para obter a cura. A fé religiosa é destacada como uma estratégia de negociação para a sobrevivência ao câncer, trazendo expectativas para o futuro dos indivíduos e proporcionando-lhes uma relação de bem-estar e auto-controle. A religião promove um alívio ao sofrimento humano na medida em que modifica as representações do paciente sobre a doença e o processo de cura. Podemos perceber a importância da espiritualidade nos relatos descritos abaixo:

“Pra mim, o que é estar curado? É dar graças a Deus porque eu estou viva [...]” (Entrevistada 5, 60 anos).

“É a sua fé. A certeza de que você não vai ter mais (câncer) [...]” (Entrevistada 4, 66 anos).

Linard, Silva e Silva (2002)6 destacam que a fé e a confiança em Deus amenizam a dor dos indivíduos reduzindo as incertezas sobre o câncer e trazendo esperanças de cura da enfermidade.

Correia (2007)20 destaca que a cura remete a um estado de equilíbrio entre os sistemas biológico, psíquico, espiritual e social. Esses contextos estão associados à manutenção de uma boa qualidade de vida pelo sujeito que participa ativamente do seu processo de tratamento. Tavares e Trad (2005)2 acrescentam que a cura está associada à manutenção de hábitos de vida saudáveis tais como: alimentação adequada, prática de atividades físicas e melhoria nas relações sociais. Essa conceituação foi observada nos discursos das entrevistadas:

“[...] cura depende muito do seu estado d’alma né. O estado interior. Como você convive com você, com seu corpo, suas emoções, sua mente, seu espírito e com o outro [...]” (Entrevistada 1, 60 anos).

“Pra mim estar curado [..]. é ter uma boa qualidade de vida, é ter a consciência de que a gente tem que monitorar [..]. é achar que [...] nem tudo tá bom [...]” (Entrevistada 3, 54 anos).

Segundo Ortiz e Lima (2007)18, a constante ameaça de recaída da doença e a possibilidade de recomeçar um novo ciclo de tratamento demonstram um sentimento de insegurança nos pacientes oncológicos e familiares que mantém uma incerteza sobre a cura do câncer.

“[...] eu acho que eu tô curada desse câncer, mas eu não sei o meu amanhã, pode ser um câncer completamente novo [...]” (Entrevistada 2, 60 anos). 

Na perspectiva de Linard, Silva e Silva (2002)6, a incerteza da cura do câncer pelos pacientes acompanha a falta de expectativa no futuro, a insegurança em relação à recorrência da doença e o medo desses de ficarem isolados não obtendo o apoio de algum familiar ou amigo. Esses sentimentos se encontram presentes no processo de readaptação do indivíduo ao seu cotidiano e denotam a vulnerabilidade humana frente ao retorno da enfermidade e a possibilidade da morte. Tavares e Trad (2005)2 consideram que os pacientes com câncer apresentam um quadro de ansiedade ocasionado pela constante ameaça de recidiva da doença e medo da morte.

Conclusão

Inicialmente, cumpre observar que se constatou um déficit na literatura a respeito do tema, fato que impossibilitou o detalhamento mais aprimorado desta pesquisa.

Percebeu-se durante as entrevistas, que o diagnóstico da doença causa um grande impacto na vida dos indivíduos, pois estes tendem a associar o câncer ao término da vida. Em geral, as reações mais frequentes ao descobrir-se com essa patologia são a ansiedade, angústia, sentimento de desamparo, indiferença e medo. Nesse momento, a assistência de familiares, amigos e equipe de saúde se faz necessária, visto que a fragilidade e a dor do paciente podem lhe impedir de elaborar o seu processo de adoecimento, trazendo como consequência, em algumas situações, a negação dessa enfermidade.

Em relação ao significado da doença, constatou-se que há a crença de que fatores estressantes, como brigas, mágoas e ressentimentos podem desencadear o surgimento do câncer e apesar dos avanços tecnológicos e científicos na área da oncologia, essa enfermidade ainda encontra-se interligada ao estigma da morte. A maioria das entrevistadas afirmou que o câncer traz modificações na vida cotidiana, na medida em que as impediu de executar atividades rotineiras (domésticas e profissionais).

Os procedimentos terapêuticos proporcionam sofrimentos psíquicos e físicos, uma vez que deterioram a imagem corporal da mulher modificando sua auto-estima. Isso se dá principalmente quando ela passa por mutilações que afetam as suas representações acerca da feminilidade, como a retirada da mama e a queda do cabelo. Quanto aos aspectos físicos, todos os tratamentos usados no combate da doença podem trazer inúmeros efeitos colaterais que interferem no bem-estar da paciente.

Comumente, os cuidados e orientações médicas tendem a ser cumpridos com rigor após o término do tratamento, uma vez que são encarados como formas de obtenção da cura. Mesmo adotando algumas prevenções (realização de exames periódicos, mudança na alimentação e práticas de atividades físicas) o temor da recidiva ainda se faz presente entre algumas pacientes, basicamente, pela crença da incerteza da cura do câncer. Algumas pessoas acreditam que a cura é proporcionada pela busca da qualidade de vida e do equilíbrio entre o sistema biológico, psicológico, social e espiritual. O apego à religiosidade parece servir como suporte para enfrentar os procedimentos terapêuticos, as limitações da doença e a obtenção da cura. 

Diante do que foi exposto, percebe-se que ainda existe uma dificuldade de alguns profissionais de saúde em compreender como o paciente enfrenta sua vida após a doença. Tais profissionais parecem estar mais focados nos aspectos físicos e acabam negligenciando a dinâmica psicológica, social e cultural a qual o individuo está inserido. Compreender a cura através de um modelo puramente biomédico é distanciar o sujeito dos seus valores e crenças, tornando-o passivo diante de sua realidade e do seu tratamento. A equipe de saúde deve compreender o sujeito dentro de uma visão holística, levando em consideração a espiritualidade como forma de esperança e expectativa para a cura (AQUINO; ZAGO, 2007)19.

Sobre os Autores:

Laila Sheila Farias de Oliveira - Psicóloga. Pós-graduanda em Psicologia Hospitalar pela Faculdade Ruy Barbosa. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. , Salvador (Bahia) – Brasil.

Taís Pamponet Veiga - Psicóloga. Pós-graduanda em Psicologia Hospitalar pela Faculdade Ruy Barbosa. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo., Salvador (Bahia) – Brasil.

Referências:

1. INCA, Instituto Nacional de Câncer. O que é Câncer? Disponível em: http:// http://www.inca.gov.br/estimativa/2010/index.asp?link=conteudo_view.asp&ID=5. Acesso em: 22/03/2011.

2. TAVARES, J. S. C. & TRAD, L. A. B. Metáforas e Significados do Câncer de Mama na Perspectiva de Cinco Famílias Afetadas. Cad. Saúde Pública vol.21 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2005.Disponível em:http://www.scielosp.org/scielo.php?pid=S0102-311X2005000200009&script= sci_arttext&lng=pt. Acesso em:18/04/2008.

3. CAMON, V. A. A. Um pouco da história da psico-oncologia no Brasil. In: GIMENES, M. G., MAGUI, M. M. M. J. C. & CARVALHO, V. A. Psicologia da saúde: um novo significado para a prática clínica. São Paulo: Thomson Learning, 2006, p. 48-49.

4. ESPÍNDULA, J. A. & VALLE, E. R. M. Informações Básicas sobre a recidiva do câncer na família. In: VALLE, E. R. M. Psico-oncologia Pediátrica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001, p. 131-173.

5. JUCÁ, V. J. S. O Normal, o Patológico e a Cura. In: ______ Os Sentidos da Cura em Saúde Mental. 2003. p. 29-50. Tese (Doutorado em Saúde Pública) – Universidade Federal da Bahia, Salvador.

6. LINARD, A. G., SILVA, F. A. D. & SILVA, R. M. Mulheres submetidas a tratamento para câncer de colo uterino - percepção de como enfrentam a realidade. Revista Brasileira de Cancerologia, 2002, 48(4): 493-498 493. Disponível em: http://www.inca.gov.br/rbc/n_48/v04/pdf/artigo1.pdf. Acesso em: 09/04/09.

7. FLEITH, D. S. & JUNIOR, A. L. C. Métodos de Pesquisa em Psicologia do Desenvolvimento: o que é relevante considerar? In: DESSEN, M. A.; JUNIOR, A. L. C. e (col.).A Ciência do Desenvolvimento Humano: tendências atuais e perspectives futuras. Porto Alegre: Artmed, 2005, p. 37-49.

8. BERGAMASCO, R. B. & ÂNGELO, M. O sofrimento de descobrir-se com câncer de mama: como o diagnóstico é experienciado pela mulher. Revista Brasileira de Cancerologia, 2007. Disponível em: http://www.inca.gov.br/rbc/n_47/v03/pdf/artigo4.pdf. Acesso em: 03/04/2009.

9. MAIA, S. A. F. Câncer e Morte: o impacto sobre o paciente e a família. Trabalho de Conclusão do Curso de Especialização em Psiconcologia, Hospital Erasto Gaertner,

Curitiba – PR. maio. 2005. Disponível em: http://www.intercef.com.br/artigo.pdf. Acesso em: 11.04.2009.

 

10. MALUF, M. F. de M.; MORI, L. J. & BARROS, A. C. S. D. O impacto psicológico do câncer de mama. Disponível em: http://www.inca.gov.br/rbc/n_51/v02/pdf/revisao1.pdf. Acesso em: 04/04/2009.

11. CAPONERO, R. A evolução do movimento hospice. In: PIMENTA, C. A. M.; MOTA, D. D. C. F & CRUZ, D. A. L. Dor e cuidados paliativos. São Paulo: Manole, 2006. p. 1-15.

12. SOARES, A. de O. & LÔBO, R. C. de M. M. Do imaginário ao simbólico: o desabamento do sujeito frente à doença oncológica. Epistemo-somática v.4 n.1 Belo Horizonte jul. 2007. Disponível em: http://www.bvs-psi.org.br/. Acesso em: 02/03/2009.

13. DORÓ, M. P. Et al. O câncer e sua representação simbólica Psicol. cienc. prof. v.24 n.2 Brasília jun. 2004. Disponível em: http://scielo.bvs-psi.org.br/scielo.php?pid=S1414-98932004000200013&script=sci_arttext&tlng=pt. Acesso em: 04/06/2009.

14. SANTOS, G. C. & GONÇALVES, L. L. C. Mulheres mastectomizadas com recidiva de câncer: o significado do novo ciclo de quimioterapia. Rev. enferm. UERJ vol.14 no.2 Rio de Janeiro June 2006. Disponível em: http://www.bvs-psi.org.br/. Acesso em: 04/04/2009.

15. MENOSSI, M. J.; LIMA, R. A. G. A problemática do sofrimento: percepção do adolescente com câncer. Rev. esc. enferm. USP vol.34 no.1 São Paulo Mar. 2000. Disponível em: http://www.bvs-psi.org.br/. Acesso em: 04/04/2009.

16. ROCHA DE JESUS, L. K. & GONÇALVES, L. L. C. O cotidiano de adolescentes com leucemia: o significado da quimioterapia.  Rev. enferm. UERJ v.14 n.4 Rio de Janeiro dez. 2006. Disponível em: http://www.bvs-psi.org.br/. Acesso em: 04/04/2009.

17. RUBIM PEDRO, E. N. & FUNGUETTO, S. S. Concepções de cuidado para os cuidadores: um estudo com a criança hospitalizada com câncer. Rev. Gaúcha Enferm, Porto Alegre (RS) 2005 ago; 26(2):210-9. Disponível em: 04/04/2009.

18. ORTIZ, M. C. A. & LIMA, R. A. G. Experiências de familiares de crianças e adolescentes, após o término do tratamento contra câncer: subsídios para o cuidado de enfermagem. Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.15 no.3 Ribeirão Preto June 2007. Disponível em: http://www.bvs-psi.org.br/. Acesso em: 04/04/2009.

19. AQUINO, V. V. & ZAGO, M. M. F. O significado das crenças religiosas para um grupo de pacientes oncológicos em reabilitação. Rev. Latino-Am. Enfermagem v.15 n.1 Ribeirão Preto jan./fev. 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0104-11692007000100007&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em: 06/04/2009.

20. CORREIA, F., V. F. Saúde e Religiosidade.In: ______ Saúde e Religiosidade: o enfrentamento religioso no tratamento de pacientes oncológicos. 2007. p. 27-31. (Monografia) Universidade Salvador- Unifacs.

Informar um Erro Assinar o Psicologado