Subjetividade e Adoecimento: Implicações Físicas e Psíquicas do Trabalho no Técnico de Enfermagem

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Resumo: Este estudo discute as possíveis implicações físicas e psíquicas do trabalho do técnico de enfermagem em sua subjetividade. Com base na experiência de vida como profissional, em um hospital de grande porte, foi realizado um estudo teórico, no qual foram abordadas questões referentes à subjetividade, aos mecanismos defensivos utilizados no enfrentamento do processo do cuidar, as manifestações físicas e psíquicas decorrentes desse trabalho, que apresenta nível de envolvimento emocional elevado e auto responsabilização pelo  adoecimento e sofrimento das pessoas. Este estudo justifica-se no sentido de haver pouco espaço para os trabalhadores dessa área colocarem questões referentes às dificuldades que encontram em sua atividade, que são geradoras de ansiedade, de sentimentos de impotência, incompetência e indignação, que podem acarretar doenças físicas e psíquicas, recorrentes nesse meio. Entre estas se destacam dores musculares, cefaleias, perturbações gástricas, esgotamento emocional, estresse, que aparecem com maior frequência. Por fim, propõem-se reflexões a fim de que novas medidas estratégicas possam ser implantadas para dar conta dessa demanda.

Palavras-chave: Enfermagem, Subjetividade, Adoecimento, Trabalho.

1. Introdução

Em se tratando de profissões da saúde, a enfermagem requer grande capacidade de lidar com questões que vão além das habilidades técnicas, sendo o técnico de enfermagem um dos profissionais da área da saúde que mais tem contato com os pacientes. Este trabalho provoca reações e sentimentos diante dos diversos tipos de doenças e a morte dos pacientes, que são vivenciadas no dia a dia por estes profissionais e que podem desencadear instabilidade emocional e física, sendo inevitável manter-se neutro em situações que envolvam seres humanos, onde cada um reage e sente de forma diferente diante das situações que se apresentam.

Não existe teoria que ensine as pessoas a ficarem indiferentes ao sofrimento do outro e, por isso, exige-se nesse trabalho capacidade e mecanismos de enfrentamento que são subjetivos de cada profissional. Muitas vezes, porém, os recursos internos são insuficientes ou inadequados e acabam acometendo além de sua saúde, também as relações de trabalho, ocasionando doenças físicas e psíquicas nesses indivíduos, como a Síndrome de Burnout e somatizações.

A ideia do presente trabalho surgiu após ter deixado de exercer a profissão de técnica de enfermagem e perceber que esse ambiente causa transformações no modo de ver, compreender e atuar no mundo, de maneira diferente em cada profissional dependendo da sua própria subjetividade.

A importância desse estudo justifica-se, pois é um trabalho que exige muita dedicação e responsabilidade dos técnicos de enfermagem, com grande envolvimento emocional em relações intensas tanto com o paciente, quanto com os familiares, onde se está em contato direto com a dor e sofrimento do outro e desenvolvendo tarefas que exigem cuidados extremos com a vida das pessoas. Porém sabe-se que há um número elevado e crescente de doenças desencadeadas pelo alto grau de envolvimento emocional, e surge assim a preocupação em poder fazer um estudo tendo como embasamento minha própria experiência como técnica de enfermagem.

Aos psicólogos cabe analisar aspectos subjetivos diante da vivência desse trabalho e da finalidade que cada um dá ao enfrentamento das situações diárias, que podem desencadear sofrimentos que se manifestam de diferentes formas, e poder auxiliar na elaboração psíquica dos mesmos, buscando meios que possam ser desenvolvidos para que se previnam doenças e se desenvolva um trabalho com mais qualidade de vida.

O trabalho é realizado a partir de pesquisa bibliográfica, cujos procedimentos envolveram leitura, síntese e sistematização de ideias. Dividido em quatro capítulos, o primeiro apresenta a subjetividade no artificio do cuidador técnico de enfermagem, apontando suas transformações, sensações e representações. No segundo, é abordado o sofrimento psíquico e os mecanismos de defesa, utilizados frente ao trabalho no ambiente hospitalar. No terceiro capítulo são analisadas as possíveis implicações físicas e psíquicas do técnico de enfermagem. No quarto capítulo são abordadas as estratégias de manutenção da saúde mental do cuidador em enfermagem.

Para finalizar, é apresentado um breve relato da experiência como profissional técnica de enfermagem, apontando sentimentos e percepções frente ao trabalho. A discussão dos fatos apresentados, numa intersecção da teoria com a prática, possibilita uma compreensão subjetiva e psicossocial dessa atividade.

2. Revisão Bibliográfica

2.1 A subjetividade no artifício do cuidador técnico de enfermagem

Antes de ser um profissional inserido no contexto hospitalar, cada um tem a sua própria subjetividade advinda de toda experiência de vida que já vivenciou. No âmbito hospitalar as subjetividades são atravessadas por questões do trabalho, sendo que cada um envolve-se de maneira diferente com a demanda que surge, reagindo e sentindo conforme suas próprias percepções diante do cuidado que estabelece a quem está em sofrimento, pelas doenças que apresentam e diante da morte.

As circunstâncias ou condições demográficas, econômicas, sociais, culturais, políticas em que o ser humano vive podem determinar modos de ser, pensar e agir característicos de grupos ou setores da população ou de todo um povo de um país o que lhes dá uma identidade. Essas condições atingem cada pessoa de modo bastante peculiar, o que produz as singularidades e as diferenças entre elas, e que vão se configurando na interação com o outro, onde vivência, experimenta, age e significa, e assim vai configurando sua própria subjetividade (BOCK, 2007).

Com o passar do tempo novas percepções podem surgir decorrentes desse trabalho, podendo alterar o modo de ver e sentir, e gerar novas formas de subjetivação e também podendo levar ao adoecimento psíquico do sujeito. Segundo Brum (2004), a relação entre os valores pessoais e papéis sociais no trabalho geram mudanças, que podem vir a apresentar  novas formas de adoecimento psíquico e de subjetivação.

A subjetividade no trabalho pode ser vista pela maneira como estão organizadas as experiências cotidianas, o mundo das sensações e percepções, construindo novos sentidos sobre si e seu contexto sócio histórico, sendo no hospital o local onde se entra em contato direto com situações de intenso sofrimento dos pacientes e familiares na rotina das atividades.

O sujeito é um efeito provisório, em se tratando de construções de subjetividades, sempre está em transformações, uma vez que cada um produz e ao mesmo tempo emite e absorve, através do contato, interação com as outras pessoas, fazendo dessas trocas uma construção coletiva viva (GUATARRI; ROLNIK, 2011).

A dimensão da subjetividade no contexto das relações interpessoais na enfermagem é entendida pela troca de confiança que se estabelece entre pacientes e colegas, da responsabilidade frente ao trabalho, da ética, da colaboração e da cooperação mútua.

Por ser um sistema complexo, a subjetividade possui dois espaços de constituição: o individual e o social, ambos se constituem de maneira conexa, onde um compõe o outro. A subjetividade social é simultaneamente constituída e constituinte nos níveis social e individual. Não está associada somente as experiências atuais de um sujeito ou instância social, mas na forma em que uma experiência atual adquire sentido e significação dentro da configuração subjetiva da história do sujeito. Implica de maneira simultânea o interno e o externo, o intrapsíquico e o interativo, onde são produzidos significados e sentidos no mesmo espaço em que se integram o sujeito e a subjetividade social em múltiplas formas (REY, 2003).

Os modos de subjetivação podem tomar as mais diferentes configurações, sendo que estas cooperam para produzir formas de vida e formas de organização social, distintas e mutantes. Na área da enfermagem os intensos laços de interação com os colegas e o contato com os pacientes, vai moldando outras percepções influenciadas por esse ambiente e assim outras formas de pensar e agir, que também pode levar ao adoecimento psíquico e físico, conforme o sentido e o destino que é dado a essas novas percepções e sentimentos que surgem.

Segundo Dejours (1988), o trabalho pode influenciar no aparelho psíquico, desencadeando sofrimentos relacionados à sua história individual e em relação ao desenvolvimento do trabalho podem surgir enfermidades decorrentes do trabalho.

2.2 Sofrimento psíquico e mecanismos de defesa frente ao trabalho no ambiente hospitalar

Diante do contexto hospitalar aonde o trabalho apresenta uma carga psíquica intensa, com multiplicidade de tarefas e procedimentos, deposita-se bastante atenção às tarefas técnicas e acaba deixando um pouco de lado o contato mais intimo com o paciente, sendo esse um recurso essencial para melhora do mesmo, mas muitas vezes é evitado pela falta de tempo ou para que não aconteça um envolvimento afetivo, a fim de proteger-se emocionalmente diante de complicações que possam acontecer com os pacientes.

O indivíduo que ingressa em qualquer profissão que lida com gente precisa desenvolver um distanciamento profissional adequado conseguindo assim aprender a controlar seus sentimentos, refrear um envolvimento excessivo, evitar identificações perturbadoras, manter sua independência profissional contra a manipulação e a solicitação de um comportamento não profissional (MENZIES, 1970 apud FILIZOLA; FERREIRA, 1997).

Muitas são as dificuldades enfrentadas pelos profissionais de enfermagem, onde buscam se auto proteger da impotência diante a morte e sofrimento diante de doenças. O fato de estarem trabalhando com o imprescindível exige da equipe um posicionamento e estratégias pessoais que permitam suportar a pressão emocional.

Os profissionais que lidam com pacientes graves, ao perceberem que estão lidando com seres humanos como eles, parecem experimentar uma vivência de extrema angústia. Aproximar-se do paciente que está morrendo, lembra-o de que ele também é mortal. (OLIVEIRA, 2002 apud SILVA, 2009).

O profissional de saúde, nas suas rotinas diárias de trabalho, presencia situações que mobilizam o emocional e de maneira bastante intensa, que pode desencadear sofrimento psíquico e assim mobilizam-se recursos psíquicos para tentar continuar o trabalho sem se envolver e sofrer.

Os profissionais se defendem de sua impotência e fragilidade através de fantasias de onipotência e, quando essas defesas falham, a “descompensação”, por vezes vista como vergonhosa, costuma ser atribuída a outros fatores. Assim, a situação fica mascarada, o sofrimento não é levado em conta e tampouco providências são tomadas no sentido de encontrar mecanismos que proporcionem a salubridade no trabalho (LABATE; CASSORLA 1999 apud SILVA, 2009).

A incapacidade de agir frente a algumas situações limites provoca tensão, fadiga, irritabilidade, tristeza e angústia, podendo essas consequências ser elaboradas ou reprimidas. Como diz Martins (2003), os hospitais são sistemas complexos, são organizações que provocam a vivência de situações emocionalmente intensas, ligadas a doenças e à morte. Por isso, profissionais ali inseridos apresentam ansiedade, tensão física e mental.

Algumas defesas psíquicas são usadas então para tentar se defender, como a racionalização e a negação, havendo assim um distanciamento e encobrimento dos sentimentos. Os mecanismos são processados pelo ego e são na maioria das vezes INCS.

A função do ego é de rejeitar de qualquer forma, através da utilização de diversas formas de negação, a repressão, a onipotência, idealização, projeção, introjeção. A seguir segue alguns dos mecanismos que são possivelmente utilizados no decorrer da execução do trabalho do técnico de enfermagem:

  • Negação: O mecanismo de defesa denominado “negação” tem como origem a repressão; ou seja, as imagens têm acesso à consciência de modo parcial, contudo, são negadas, sendo temporariamente removidas ou reprimidas (ALMEIDA, 1996). Esse mecanismo aparece sendo uma solução passageira para a questão da morte, por exemplo, quando nega a realidade e recusa a enfrentar situações desagradáveis, a fim de evitar a realidade;
  • Repressão: Em princípio, a repressão é definida como método de defesa usado pela mente humana para evitar que a consciência tenha acesso às representações desconfortáveis, ligadas ou não à pulsão frente às exigências do próprio ego (ALMEIDA, 1996). Esse mecanismo aparece quando se quer evitar entrar em contato com questões dolorosas desse trabalho, ou questões pessoais que são relembradas pela situação do paciente;
  • Onipotência: A onipotência é a sensação de poder ilimitado que o ser humano obtém da fantasia de que é possível manejar o mundo dos objetos e das coisas através do pensamento (FREUD 2006). Esse mecanismo também se faz presente no trabalho, pois o “cuidar da melhor forma possível” o paciente, acredita-se que não vai ter complicações ou recaídas, e vai se recuperar. O cuidado é fundamental, mas depende principalmente das condições do paciente;
  • Idealização: A idealização do objeto serve como defesa contra a percepção dos impulsos destrutivos do objeto amado (FREUD, 2006). Assim, a idealização do objeto está relacionada com a uma clivagem do objeto em objeto bom (idealizado) e objeto mau (negado);
  • Projeção: De acordo com Freud (2006), o efeito do mecanismo de projeção busca romper a ligação entre os representantes ideativos das moções pulsionais perigosas e o ego, impedindo que seja percebido deslocando para o mundo externo. Esse mecanismo também é usado no ambiente hospitalar, quando alguns conflitos podiam ser resolvidos em via psíquica, mas é colocado pra fora, no outro.
  • Introjeção: A introjeção seria uma defesa contra a insatisfação causada pela ausência exterior do objeto. Processo inconsciente através do qual um objeto externo ou qualidades dele passa a fazer parte do espaço mental de uma pessoa (FREUD, 2006). Esse mecanismo é usado quando surge sofrimento diante à situação do paciente, onde sente-se tristeza frente ao quadro do paciente. Quanto mais estruturado esse ego, mais recursos ele terá para lidar, como a utilização da racionalização e sublimação.
  • Racionalização: Quando ocorre um conflito que causa ameaça à psiqué, surge este mecanismo de defesa com a finalidade de recobrar o equilíbrio; de maneira inconsciente, o mecanismo seleciona as escolhas, intelectualizando cada uma delas (ALMEIDA, 1996). No hospital, quando usado esse mecanismo, pode-se realizar um trabalho conseguindo se angustiar menos diante as situações, pois se olha para elas e percebe que ninguém está livre de doenças e complicações, e a enfermagem está ali para procurar ajudar na recuperação, sabendo que nem sempre é possível;
  • Sublimação: A sublimação é uma saída pulsional que não faz desmoronar o funcionamento psíquico e somático, pois é o mais eficaz dos mecanismos de defesa, na medida em que canaliza os impulsos libidinais para uma postura socialmente útil e aceitável (FENICHEL, 2000). Nesse mecanismo,  apesar de todo sofrimento que é sentido, as situações tensas e impactantes que se está submetido diante do trabalho, se está ali para tentar ajudar o paciente a melhorar, a salvar sua vida e lhe auxiliar no ganho pela saúde novamente.

Todos os mecanismos servem para manter a afetividade distanciada, através das substituições, inventando-se desculpas na tentativa de dar um destino aos sentimentos que surgem. Se houver falhas no funcionamento dessas defesas pode atingir tanto a saúde física como mental. Segundo Fernandes (2002), o corpo psicanalítico aparece como palco, lugar de encenação das relações entre psíquico e somático. De fato, este corpo é regido segundo uma dupla racionalidade, a do somático e do psíquico.

2.3 Complicações físicas e psíquicas do cuidado de enfermagem

Diante das experiências de sentimentos negativos e desagradáveis no trabalho que, ao mesmo tempo, são gratificantes e também desgastantes, o organismo do indivíduo torna-se vulnerável ao desencadeamento de doenças tanto psíquicas como físicas, quadros depressivos e de ansiedade, síndrome de Burnout e além de outras manifestações psicossomáticas, que são complicações comuns decorrentes da elevada tensão psíquica e stress, sendo que cada um vai reagir de maneira diferente a fim de dar seus próprios destinos.

Teoricamente, cada doença é psicossomática, uma vez que fatores emocionais influenciam todos os processos do corpo, através das vias nervosas humorais e que os fenômenos somáticos e psicológicos ocorrem no mesmo organismo e são apenas dois aspectos do mesmo processo (ALEXANDER, 1989 apud CERCHIARI, 2000).

Cada vez que uma pessoa não consegue suportar no plano psíquico uma situação. Ela acaba produzindo e deslocando sintomas no corpo pela descarga de emoções no corpo físico e podem vir a desenvolver doenças físicas, sendo o ambiente hospitalar um local aonde se presencia situações intensas na rotina dos trabalhadores da enfermagem, com sofrimento físico e psicológico dos pacientes, mortes, doenças terminais, entre outras. Para McDougall (2001), a somatização é uma possibilidade de mostrar a dor mental. Em momentos de estresse o psiquismo não da conta e transborda, sendo que esses conflitos não sendo reconhecidos ao nível do pensamento verbal, podendo ser evacuados através de expressão psíquica vazam para o corpo.

O corpo é lugar da passagem do outro, lugar de onde nasce o sujeito. Sendo assim pode-se dizer, que essa dupla racionalidade como estando articulada pelo desejo inconsciente, e a leitura se dá no corpo. Conforme Dejours (1994), as somatizações são frequentes em processos de adoecimento no trabalho, com vistas a dar conta da energia pulsional excedente que não encontra uma descarga adequada no trabalho e que, portanto, “transborda” para o corpo em forma de perturbações orgânicas.

Outra consequência que pode, então, aparecer ao aparelho psíquico dos trabalhadores da enfermagem resulta na Síndrome de Burnout. Isso ocorre por ser um trabalho que gera intensas e contínuas situações de tensão, pois se está oferecendo cuidados às pessoas em sofrimento, além de envolvimento com questões pessoais e familiares dos pacientes.

Segundo Tamayo e Tróccoli (2002), o Burnout é caracterizado pelas dimensões: exaustão emocional, despersonalização e diminuição da realização pessoal. Corresponde à resposta emocional às situações de estresse crônico em razão de relações intensas de trabalho com outras pessoas, com contato direto com usuários e atividades de cuidado intenso, na qual o trabalhador perde o sentido da sua relação com o trabalho e faz com que as coisas já não tenham mais importância, qualquer esforço lhe parece ser inútil.

Os profissionais da área da saúde formam um conjunto significativo, que vem sendo estudado pelos pesquisadores deste campo como um grupo altamente exposto ao aparecimento deste comportamento de exaustão e colapso. Segundo Arantes e Vieira (2010), o reconhecimento de Burnout como uma manifestação de estresse em fase de esgotamento tornou-se uma evidencia preocupante, quando se torna uma manifestação comum entre os profissionais da área da saúde e que cuidam de outras pessoas.

Há um esgotamento que desequilibra todo o organismo, desencadeando alterações físicas e psíquicas decorrentes dessa patologia.

Os sintomas da Síndrome de Burnout se dividem em quatro categorias: físicas, psíquicas, emocionais e distúrbios de comportamento. Nos sintomas físicos a autora destaca a sensação de fadiga constante e progressiva e os distúrbios do sono. Como sintomas psíquicos há uma diminuição da memória evocativa e de fixação, e dificuldade de concentração. Há uma redução da capacidade de tomar decisões. Nos sintomas emocionais, o elemento mais constante é o desânimo. Há uma perda do entusiasmo e da alegria e, com frequência, há ansiedade e depressão, sendo esta de caráter situacional, aparecendo ou diminuindo diante do ambiente e situação estressora. Como últimos sintomas aparecem os distúrbios do comportamento, onde há uma tendência ao isolamento, fazendo com que a pessoa tenha dificuldades em contatar com seus clientes ou colegas, passando a evitar encontros sociais (FRANÇA, 1987 apud RUVIARO; BARDAGI, 2010).

As possibilidades de resistência vão sendo permanentemente minadas e se não tiver percepção do próprio trabalhador, ou da própria equipe de enfermagem, de que alguma coisa não está bem, poderão aparecer doenças de maior complexidade e causar complicações mais graves, tanto físicas como psicológicas.

2.4 Saúde mental do cuidador em enfermagem

Diante as diversas mudanças que passam a acontecer no contexto hospitalar, se faz necessário que algumas estratégias sejam criadas para dar conta da demanda e manter um equilíbrio emocional adequado. Uma das estratégias a que vem beneficiar o trabalho é a capacidade de os membros da equipe se apoiarem, por isso da importância de se trabalhar com relacionamentos nas equipes, pois sempre há dificuldades individuas e no coletivo.

“Evidentemente, a melhor forma de prevenir e controlar o estresse, sobretudo em relação ao trabalho e as atividades ocupacionais, vai exigir dois pressupostos: uma análise da situação do trabalho e cuidado com o individuo que trabalha” (ARANTES; VIEIRA, 2010, p. 134).

Um trabalho com maiores benefícios acontece quando o profissional se envolve emocionalmente com o paciente e com a família, para oferecer uma relação autêntica e terapêutica. Na medida em que há satisfação por ajudar o outro e a diferença que faz na vida das pessoas, vai reforçando questões pessoais que fazem parte dos recursos internos encontrados para que o trabalho que envolve tanto sofrimento se transforme em ganhos psíquicos, fazendo com que se proteja do adoecimento.

Mesmo estando, às vezes, no seu limite, o trabalhador supera o cansaço, a raiva, e submete-se à realidade de seu cotidiano, contudo transformando-se, e fortalecendo-se. Este movimento ambíguo entre revolta e resignação é o cerne da resiliência, quando o indivíduo reflete sobre situações adversas e se adapta para prosseguir. De acordo com Carmelo (2008), o resiliente aperfeiçoa sua energia, registrando os recursos pessoais e coletivos existentes, reconhecendo problemas e limitações a enfrentar e comunicando seus sentimentos e ideias de maneira clara, objetiva, honesta e transparente.

Com o tempo se torna tudo mais técnico, mas cada paciente é único e então precisa ter um atendimento acolhedor em todos os sentidos, tanto emocional como físico. Conforme Jaques e Codo (2007), cuidar exige tensão emocional constante, atenção, dedicação, entrega. O trabalho pontuado como de responsabilidade e doação. O trabalhador se envolve afetivamente, e por um lado se desgasta na tensão gerada entre envolver-se afetivamente e sentir-se incapaz de modificar as situações a sua frente. Na falta de estratégias internas de enfrentamento para os problemas vivenciados, a desistência simbólica passa a ser uma boa alternativa. Mas está também traz sofrimentos.

Quando há muita cobrança direta e indiretamente, sem reconhecimento, sem um trabalho em que se tenha um pouco de autonomia fica difícil acreditar que o trabalho está tendo resultados bons. Outra questão que poderia contribuir é fazer com que o técnico de enfermagem tenha autonomia para fazer os procedimentos podendo propor, colocar novas ideias, mas nem sempre uma sugestão é bem vinda por parte da chefia de enfermagem, então acaba fazendo o básico replicando procedimentos já determinados, criando barreiras às vivências de prazer e satisfação.

Segundo Arantes e Vieira (2010, p. 134):

Ampliando a possibilidade de cuidado com o indivíduo, tanto o que está vinculado a uma empresa, a uma instituição, a uma sociedade, a uma associação, ou pensando em qualquer indivíduo que pessoalmente esteja vivendo uma situação de exaustão e falência das forças de resistência ao estresse, todos podem se beneficiar com um tratamento assistido por profissionais da área da saúde.

Sentir o trabalho reconhecido pode inclusive, transformar o sofrimento em algo mais agradável, ou seja, a partir do momento em que a qualidade de seu trabalho é reconhecida, o trabalhador constata que suas dúvidas, decepções e desânimo têm sentido, o que faz dele um sujeito diferente daquele que era antes do reconhecimento.

Estudos sobre o trabalho dos profissionais de saúde têm ganhado crescente atenção nos meios acadêmicos da psicologia, onde de um lado observa-se o caráter estressante e sacrificante da profissão, assim como a complexidade da atividade realizada por esses profissionais e, de outro, as reclamações populares de atendimento de má qualidade traduzidas em comportamentos e atitudes de descaso e indiferença para com os usuários (TAMAYO, 1997).

3 Perfil Profissional

3.1 Descrição profissional da atividade

A enfermagem tem, como principal objetivo promover, através de sua atuação, a promoção, conservação e restabelecimento da saúde do paciente.

Segundo a Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986:

  • Art. 10. O Técnico de Enfermagem exerce as atividades auxiliares, de nível médio técnico, atribuídas à equipe de enfermagem, cabendo-lhe:

    I - assistir ao Enfermeiro:

a) no planejamento, programação, orientação e supervisão das atividades de assistência de enfermagem;

b) na prestação de cuidados diretos de enfermagem a pacientes em estado grave;

c) na prevenção e controle das doenças transmissíveis em geral em programas de vigilância epidemiológica;

d) na prevenção e no controle sistemático da infecção hospitalar;

e) na prevenção e controle sistemático de danos físicos que possam ser causados a pacientes durante a assistência de saúde;

   II - executar atividades de assistência de enfermagem, excetuadas as privativas do    enfermeiro e as referidas no art. 9º deste Decreto;

   III - integrar a equipe de saúde.

3.2 Principais atividades do Técnico em Enfermagem

  • Prestar assistência de enfermagem segura, humanizada e individualizada aos clientes, sob supervisão do enfermeiro, assim como colaborar nas atividades de ensino e pesquisa desenvolvidas na Instituição;
  • Auxiliar o superior na prevenção e controle das doenças transmissíveis em geral, em programas de vigilância epidemiológica e no controle sistemático da infecção hospitalar;
  • Preparar clientes para consultas e exames, orientando-os sobre as condições de realização dos mesmos;
  • Colher e ou auxiliar o cliente na coleta de material para exames de laboratório, segundo orientação;
  • Realizar exames de eletro diagnósticos e registrar os eletrocardiogramas efetuados, segundo instruções médicas ou de enfermagem;
  • Orientar e auxiliar clientes, prestando informações relativas à higiene, alimentação, utilização de medicamentos e cuidados específicos em tratamento de saúde;
  • Verificar os sinais vitais e as condições gerais dos clientes, segundo prescrição médica e de enfermagem;
  • Preparar e administrar medicações por via oral, tópica, subcutânea, intramuscular, endovenosa e retal, segundo prescrição médica e sob supervisão do enfermeiro;
  • Cumprir prescrições de assistência médica e de enfermagem. Realizar a movimentação e o transporte de clientes de maneira segura;
  • Auxiliar nos atendimentos de urgência e emergência;
  • Realizar controles e registros das atividades do setor e outros que se fizerem necessários para a realização de relatórios e controle estatístico;
  • Circular e instrumentar em salas cirúrgicas e obstétricas, preparando-as conforme o necessário;
  • Efetuar o controle diário do material utilizado, bem como requisitar, conforme as normas da Instituição, o material necessário à prestação da assistência à saúde do cliente;
  • Controlar materiais, equipamentos e medicamentos sob sua responsabilidade;
  • Manter equipamentos e a unidade de trabalho organizada, zelando pela sua conservação e comunicando ao superior eventuais problemas;
  • Executar atividades de limpeza, desinfecção, esterilização de materiais e equipamentos, bem como seu armazenamento e distribuição.

4. Relato De Experiência

4.1 Setores de trabalho

Por cinco anos trabalhei como técnica de enfermagem num hospital de grande porte numa cidade do interior do Estado do Rio Grande do Sul. Iniciei atuando na Sala de Recuperação I(SRI), destinada a pacientes em pós-operatório e, no último desses 5 anos, trabalhei no Centro de Terapia Intensiva(CTI), na área da Cardiologia, destinada aos cuidados de pacientes no pós-operatório de cirurgias cardíacas e doenças do coração. Muitas lembranças surgem dessa trajetória, que foi traçada por inúmeras transformações no modo de ver a vida e as pessoas ao meu redor, devido às experiências que tive nesses ambientes de trabalho.

4.1.1 Sala de Recuperação I - SR I

O trabalho na SRI era desgastante física e psicologicamente, pois eram realizadas em média umas 80 a 100 cirurgias todos os dias úteis da semana, e todos os pacientes passavam pela SRI. Muitas vezes não havia leito para colocar os pacientes que chegavam, eram muitos pacientes para atender, não havia muito tempo para trocar muitas palavras com os mesmos. Por muitas vezes a equipe sobrecarregava-se com o trabalho, pois cada um dos membros da equipe tinha vários procedimentos para realizar e pacientes para atender, não sendo possível, portanto, contar com a ajuda do colega.

As atividades tornavam-se cansativas, impossibilitando de dar toda a atenção necessária e de forma adequada a todos os pacientes.

4.1.2 CTI Cardiológica

Já na cardiologia não havia tanta “correria”, mas o trabalho exigia uma atenção mais focada, bem como um cuidado intenso e repetitivo, onde o controle dos sinais vitais tinha que ser contínuo. De 15 em 15 minutos deviam ser registrados estes sinais, devendo o técnico ficar ao lado do monitor cardíaco e monitorar os sinais vitais enquanto fosse necessário, sem deixar o paciente sozinho em nenhum momento. Quando fosse necessário se ausentar, outro colega deveria ficar em seu lugar.

4.2 O contato com o paciente

As primeiras semanas de trabalho no hospital me deixaram com insônia, sendo este um relato comum entre os colegas que iniciavam essa atividade.

Os pacientes eram lembrados pelo sofrimento que apresentavam e isso mexia com meus próprios sentimentos. Por serem situações que somente quem trabalha em hospitais vai entrar em contato, no início tudo é novidade e por isso é lembrado com mais frequência, até mesmo em casa. Passava a sentir tristeza de ver os pacientes sofrendo, lutando contra suas doenças, impossibilitados de ter uma vida ativa e estarem dependentes dos recursos dos hospitais.

O contato direto com todo tipo de sofrimento não é uma tarefa fácil, pois é sempre um momento em que o paciente evidencia muita fragilidade. Ele torna-se dependente dos serviços prestados e cabea nós, o profissional de enfermagem, proporcionar-lhes o conforto necessário, a fim de aliviar a dor, o medo e a ansiedade, além de trabalhar com a incerteza de seu quadro de saúde.

Frente a esse quadro surgem então sentimentos de compaixão, misturados com ansiedade, em poder dar o melhor sempre, e poder aliviar o que o paciente está sentindo. Isso vai fazendo com que se reflita sobre várias questões de vida, pois, por vezes, coloca-se no lugar do paciente, o que acaba fortalecendo os próprios valores pessoais, e passa-se a dar um novo sentido à própria vida. Particularmente, passei a valorizar mais a saúde, a família e os amigos e não os bens materiais, pois o que temos de mais importante em nossas vidas, é a saúde.

Na atividade do técnico de enfermagem, constata-se que, com o passar dos anos, se consegue desenvolver maiores habilidades e conhecimento, o que possibilita “dar conta” de todo tipo de paciente. Mas, mesmo assim, nenhuma situação, em se tratando de pessoas, é passada despercebida. Mesmo que não se fale nestas situações, há sofrimento junto com os pacientes. É difícil aceitar certas doenças, acidentes ou estados de saúde como doenças terminais e câncer, ainda mais quando são pessoas de idade próxima, jovens, e se pensa que qualquer um de nós poderia estar nesta situação.

O paciente tem sua própria intimidade sendo que, no hospital, esta intimidade vai ser mantida até onde entra nosso trabalho, pois é preciso realizar as atividades específicas, como dar o banho de leito, sendo este um momento de maior intimidade com o paciente, onde se passa a higienizar seu corpo, entrando em contato com seus odores, com suas intimidades mais profundas. Este trabalho requer muita seriedade e profissionalismo, pois é muito constrangedor, tanto para o paciente quanto para nós e constata-se que para ambos é difícil aceitar que ele está impossibilitado de realizar e ser responsável pelo seu próprio cuidado.

Quando era necessário conter os pacientes, como quando estes apresentavam episódios de agitação e desorientação, com delírios e alucinações, tal situação causava muito constrangimento. Mesmo percebendo que o paciente não sabe o porquê de estar reagindo assim, sendo a contenção o melhor para sua recuperação, eu sentia como se fizesse o paciente sofrer ainda mais, como se estivesse fazendo algo de ruim para o paciente.

Quando os pacientes agrediam, verbal ou até mesmo fisicamente, um membro da equipe, tais atitudes causavam tristeza aos funcionários, pois mesmo que na maioria das vezes, eles não tivessem consciência do que estavam dizendo ou fazendo, o sentimento da equipe é de que eles desvalorizavam o trabalho e todo o cuidado a eles prestados, sendo que a equipe recebia “palavrões” em resposta ao cuidado prestado. Isso exigia da equipe um equilíbrio para compreender o lado do paciente e não reagir, nem se ofender pelo que estava sendo dito e continuar realizando, adequadamente, o trabalho necessário.

Alguns quadros de pacientes, como os acidentados, geravam espanto por ver a pessoa num estado desfigurado, ou lhes faltando um membro. Esses eram os casos mais impactantes, pois era impossível não se comover com a situação dos mesmos e também era difícil conversar com os familiares sobre o quadro do paciente. Quando o atendimento era complexo, em casos de extrema gravidade, ao ver a situação tendo que atender e auxiliar sob grande estado de tensão psíquica, gerava nos técnicos uma série de sintomas que iam desde cefaleias a náuseas e irritações gástricas, entre outros sintomas.

Quando se atendiam presidiários e se tomava conhecimento sobre o histórico pessoal de cada um deles, o atendimento técnico era realizado de maneira igual a todos os outros pacientes, mas não acontecia uma aproximação com os mesmos. Era realizado somente o cuidado padrão, necessário a cada caso. Muitas vezes, por serem situações que envolviam homicídio, latrocínio, casos de pedofilia e roubos, entre outros, havia um distanciamento emocional, por considerar revoltante ver que algumas pessoas que lutaram tanto contra as suas doenças que lhes acometiam, enquanto outras estavam causando doenças e sofrimento.

No hospital não existe preconceitos. Todos os pacientes devem ser atendidos da mesma forma, mas, nestes casos, o que prevalecia era o cuidado técnico.

4.3 Sentimentos decorrentes da atividade

De início, os sentimentos que surgiam eram de angústia e ansiedade frente ao desconhecido, por ter que dar conta de acompanhar a equipe, aliviar a dor e atender aos pedidos e necessidades dos pacientes, de maneira adequada e eficaz.

Cada paciente é único e com patologias e sofrimentos diferentes. Por isso, a cada dia, ocorriam situações novas e diferentes. Essa diversidade é assustadora no início, pois nem sempre se sabe de imediato, o que fazer com o paciente. O que se sabe é que, é uma vida que está diante de você.

Com o passar do tempo, acostumei-me com a rotina hospitalar. Entretanto, fora do ambiente hospitalar, procurava não lembrar-me dos pacientes, procurava desligar-me do hospital. Mas, dependendo da situação do paciente, ao sair do hospital restava uma preocupação, pois ficava pensando sobre o estado de saúde do mesmo, sobre como ele iria passar a noite, se iria ou não sobreviver. Entretanto, quando o paciente reagia e conseguia se recuperar bem, a sensação de ter auxiliado na recuperação era gratificante.

Outra preocupação que surgia, quanto aos procedimentos, é se estes foram ou não realizados corretamente. Até surgiam pensamentos de culpa em algumas intercorrências, ao pensar se estas poderiam ou não ser evitadas.

No momento em que se entra no hospital é necessário estar focado nesse ambiente, pois o mesmo exige muita concentração, observação e agilidade, a medicação certa, o paciente certo, o preparo correto, pois uma ação indevida pode vir a prejudica-lo ou, até mesmo, deixar alguma sequela.

Há erros na área hospitalar, como em outras áreas, somos humanos e em algum momento podemos errar ou esquecer alguma coisa e por isso exige muita atenção psíquica.

O paciente requer todo o cuidado. Então, passa-se a cuidar do outro e fazer o melhor pelo outro, mas sabe-se que nem sempre é possível estar bem com nós mesmos, pois também vivemos situações pessoais difíceis. Porém, é essencial criar recursos para separar os problemas que são nossos para fazer o melhor pelo paciente.

4.4 A pressão emocional

Há uma pressão emocional constante na rotina de trabalho. O contato direto com pessoas em situações estressantes com intenso e contínuo contato interpessoal exige muito equilíbrio e manejo ao lidar com a vida e com a morte.

A rotina vai se tornando desgastante. É a pressão de todo dia em atender mais pacientes do que compete ao local, o que se torna praticamente uma “calamidade”, onde muitas vezes o paciente torna-se quase um objeto, pois se aplica a medicação e não resta tempo para ouvir suas preocupações, que estão por trás da doença ou lesão física.

As cobranças chegam de toda parte, direta ou indiretamente. Sabe-se que todos os minutos em que se está dentro do hospital podem ser valiosos e fazer a diferença na vida das pessoas, o que causa uma sobrecarga psíquica “o estar num estado de alerta contínuo”, pois tudo pode acontecer. Nada é previsível e um erro pode ser fatal.

Na cardiologia os pacientes estavam conversando e repentinamente entravam em parada cardíaca. Essas situações faziam com que ficássemos em estado de alerta continuo, sempre observando, atentos ao monitor, aos sinais vitais, pois cada um tinha seus pacientes, e era responsabilidade de cada membro da equipe monitorar os pacientes.

Diante de algumas situações complicadas de pacientes graves cheguei a passar mal, a ponto de ter dor abdominal, náuseas, fortes dores de cabeça, insônia. Também os colegas passavam por isso, pois sabíamos que a tensão e a cobrança eram constantes.

Quando as intercorrências aconteciam, a tensão surgia de todos os lados. O coração passa a acelerar, tudo precisa ser feito rápido. Estes, realmente, são os momentos mais difíceis, pois se fica no limite decisivo entre a vida e a morte, e essa chega sem avisar e causa constrangimento ao ver a pessoa morrendo, deixando uma família, uma história de vida e imaginar que poderia ser um familiar próximo, levando a refletir que a morte chega para todos, de todas as formas e em todas as idades.

Estresse, esforço físico, esgotamento mental, isso causa impaciência, irritabilidade, devido à sobrecarga de atividades que precisam ser realizadas, levava muitas vezes a uma postura de total desumanização hospitalar, tornando um descaso para a saúde do paciente, não tinha como atender tanta gente ao mesmo tempo e na maioria das vezes se tinha várias solicitações para atender.

Lidar com a morte e o morrer; paciente com dor; doença terminal; lidar com necessidades emocionais do paciente e da família; pacientes e familiares agressivos; incerteza quanto ao tratamento do paciente, afetam o psicológico de quem está realizando o atendimento, é uma pressão emocional que surge.

Na SRI, sempre havia muitos pacientes que referiam sentir muitas dores e quando se medicava os pacientes, era uma pessoa para todo setor. Então, vinha o colega, o médico, a enfermeira, enfim, eram vários profissionais pedindo algo ao mesmo tempo e para vários pacientes. Não podia esperar, precisava atender, mas sendo uma única pessoa, era uma sobrecarga muito grande. Sempre achei um absurdo ter que medicar tantos pacientes ao mesmo tempo, ficava com cefaleia de tanta informação e “correria” pra atender a demanda.

Alguns médicos eram atenciosos com a enfermagem. Outros então somente cobravam, não viam o nosso lado e, se acontecesse alguma coisa com o paciente, algumas vezes a “culpa” acabava sendo dos técnicos de enfermagem. Mas, com o tempo, se aprende que tudo deve ser comunicado, pois se viesse a acontecer alguma coisa, os enfermeiros ou médicos já sido informados, era uma maneira que encontrei de não tomar pra mim a culpa se viesse a acontecer alguma coisa, num espaço em que cada um tem suas responsabilidades.

Um médico na CIT Cardiológica sempre procurava contar piadas para a equipe, ou fazer alguma brincadeira. Esta era uma maneira que ele encontrava para aliviar um pouco a tensão do ambiente.

4.5 O envolvimento com os familiares

Os pacientes e familiares projetam suas esperanças na equipe dizendo: “ele está em suas mãos” ou “cuida bem dele”.

Mesmo cuidando da melhor forma possível, há aspectos que fogem ao nosso alcance, acarretando uma sensação de impotência, pois é um trabalho no qual não se tem certeza da evolução da melhora, onde quem está bem pode passar mal a qualquer momento.

Para quem trabalha para manter a vida e convive ao mesmo tempo, com a morte bem de perto, passa a testemunhar a dor da perda, sendo esta uma tarefa inexplicável, onde o silêncio toma conta de todos, a ponto de não ter palavras para consolar o familiar. É muito triste e impactante ver o desespero do familiar, sendo que esse sofre junto com o paciente na luta pela vida.

Muitas vezes os familiares sem conhecer o hospital, sozinhos, angustiados, desamparados e esgotados, permaneciam em busca de esperanças, insistindo em respostas para suas dúvidas, em busca de alguma notícia de melhora. Era difícil dizer-lhes que tudo iria ficar bem, sendo que não se saberia como iria ficar, ou que o quadro de saúde não estava tendo evolução esperada.

Alguns perguntavam: “se iria ter alguma sequela”, “se iria continuar tendo uma vida ativa”, ainda perguntavam: “de 0 a 10, quanto de chance tem para se salvar?”. Então, qualquer informação é marcante para o familiar e não falar nada também deixava o familiar com dúvidas. Não se sabe exatamente o que falar em uma situação onde ninguém tem certeza absoluta sobre a evolução do quadro de saúde do paciente.

Nem todo familiar aceita o que está acontecendo, culpando a enfermagem e causando a impressão de incompetência frente ao trabalho desenvolvido. Alguns se desesperam gritando, outros desmaiam, outros rezam e há casos de alguns que até invadem o local e querem ver o seu familiar. Este é um momento de desespero para eles, sendo necessário entender o lado destes familiares.

4.6 O trabalho em equipe

O trabalho do técnico de enfermagem requer uma boa interação com todos os colegas da equipe, pois cada um precisa sempre estar contribuindo com o outro, o tempo todo, e isso vai tendo que ser moldado conforme a personalidade de cada um, pois há pessoas que colaboram, outras preferem ficar mais isoladas, os mais velhos muitas vezes se acomodam, o que faz com que a sobrecarga recaia sobre alguns. Muitas vezes isso não era visto pela chefia, essa que nem sempre conseguia dar conta de trabalhar questões de organização da equipe, sendo esta uma necessidade para uma melhor distribuição das tarefas, o que causava atritos entre os colegas, pois uns faziam as atividades e outros não.

Em se tratando de atendimento na enfermagem, cada um tem seu modo de atender o paciente, mas a maneira como se passa a trabalhar vai se moldando conforme a rotina do setor, conforme os outros colegas se organizam para trabalhar. Mesmo sendo diferente, o trabalho precisa ter sintonia, é necessária uma visão parecida entre os colegas, para que se consiga ter uma sequência adequada e uma melhor desenvoltura e eficácia no trabalho a ser realizado.

5. Discussão dos Dados

Os dados estão divididos em categorias, de acordo com os conteúdos apontados no relato de experiência, visando uma maior reflexão e aprofundamento da discussão sobre adoecimento e o trabalho, e as possíveis implicações físicas e psíquicas decorrentes do mesmo, considerando a subjetividade de cada um.

O trabalhador, inserido numa determinada organização de trabalho, desenvolve uma carga psíquica resultante das excitações exógenas e endógenas às quais é submetido constantemente. Estas são acumuladas, retidas ou elaboradas e, dependendo disso, podem acarretar tensão psíquica.

A energia pulsional acumulada necessita de uma via de descarga, precisa ser canalizada de alguma maneira, a fim de assegurar um equilíbrio, diminuindo a carga psíquica e a tensão. Mas, o que se nota na organização do trabalho é exatamente o oposto, tornando o trabalho esgotante por não oferecer a via de descarga necessária, a energia é acumulada e ocorre conflito entre o desejo do trabalhador e a real organização de trabalho estabelecida.

5.1 Quanto ao contato com o paciente

a) Fisicamente

Para realizar as atividades de enfermagem é necessário esforço físico intenso, pois é utilizada a força física do próprio corpo do profissional para realizar as atividades de cuidado, como a higiene do paciente, para transportá-lo, auxiliá-lo na locomoção, o que pode vir a desencadear dores musculares, torções e cansaço, dentre outros sintomas físicos, decorrentes de atividades ergonômicas.

Diante do contato com o paciente percebe-se que há o aparecimento de somatizações que surgem pelo processo do trabalho. Quando há uma dificuldade de elaboração psíquica e afetiva provenientes de situações trágicas, por exemplo, pode gerar uma tensão psíquica e esse psiquismo, não dando conta de elaborar tal tensão, transfere para o corpo em forma de sintomas físicos, apresentando dor abdominal, náuseas, cefaleias, palpitações, entre outras complicações que podem aparecer decorrentes dessas citadas, como doenças cardíacas e úlceras gástricas, sendo que os componentes psíquicos se manifestam por meio de doenças orgânicas, e o corpo vai sinalizando que o psicológico não está bem. Segundo Dejours (1994), a energia pulsional excedente que não encontra uma descarga adequada no trabalho “transborda” para o corpo em forma de perturbações orgânicas.

O estresse que também surge decorrente desse contato com os pacientes, pode influenciar o sistema endocrinológico, pois os hormônios também são influenciados conforme os estímulos que chegam até eles. O cortisol é um hormônio que pode alterar seus níveis diante situações estressantes, por exemplo, e acaba acometendo a capacidade de concentração e raciocínio, e assim, contribuindo para outros desequilíbrios corporais. “As células do sistema imune encontram-se sob uma complexa rede de influência dos sistemas nervoso e endócrino. Os neurotransmissores e hormônios diversos são mediadores da imunidade” (BALLONE; ORTOLANI, 2007, p. 87).

Percebe-se que algumas implicações físicas podem ser desencadeadas também pelo cansaço ou esgotamento emocional. Como nas “paradas cardíacas”, o corpo também sente uma tensão diante dessa situação e responde ao SNA, que  faz o controle das reações que esse corpo apresentar. Nesse caso, pode liberar uma série de neurotransmissores, como adrenalina e noradrenalina, que passam a acelerar os batimentos cardíacos, podendo até fazer com que haja uma descarga de tensão nesse corpo e, assim, acarretar problemas digestivos, cefaleias, palpitações, dores no corpo todo, baixando a imunidade e deixando o organismo vulnerável a outras doenças. “É certo que o aumento da adrenalina e noradrenalina inibem a resposta aos anticorpos” (BALLONE; ORTOLANI, 2007, p. 87).

Acredita-se que é de grande importância que o trabalhador de enfermagem encontre prazer nas atividades que desenvolve, pois uma descarga de energia psíquica adequada estaria resguardando o sujeito contra os riscos de adoecimento no trabalho.

É notório que há necessidade de se ter espaços para mostrar aos funcionários da enfermagem diferentes visões frente ao cuidado que estabelecem, e da forma como reagem e se defendem, o que poderia vir a contribuir para um melhor entendimento da sua rotina, e uma melhor resolução dos conflitos internos que surgem decorrentes do trabalho.

b) Psiquicamente

O contato direto com o paciente exige um grande equilíbrio emocional, pois há situações impactantes e de muito sofrimento, como a morte, acidentes graves, doenças terminais, agressões do paciente, que acabam afetando emocionalmente cada trabalhador de maneira diferente, por vezes deixando-o angustiado e esgotado, desencadeando crises de estresse. O psíquico e o físico estão interligados e o que chega no psíquico afeta o físico e vice-versa. Conforme Fernandes (2002), o corpo é regido segundo uma dupla racionalidade, a do somático e do psíquico.

Pode-se perceber a presença de alguns mecanismos psíquicos que são usados pelo profissional para não se deixar envolver por situações complicadas, pois essas causam certo impacto ao realizar o atendimento direto ao paciente. É impossível não se envolver com as situações, elas acabam sendo sentidas de alguma forma, mesmo que se use de mecanismos psíquicos.

Em relação à Síndrome de Burnout, ao comparar a teoria ao relato de experiência aqui apresentado, constata-se que o trabalho da enfermagem é uma profissão desgastante pelo contato constante e direto com pessoas em sofrimento e, por ser de extrema responsabilidade, o profissional pode vir a desenvolver esta síndrome. Segundo Arantes e Vieira (2010), a Síndrome de Burnout tornou-se uma evidência preocupante, sobretudo quando se torna uma manifestação comum entre os profissionais da área da saúde e que cuidam de outras pessoas.

O que poderia ajudar na prevenção de implicações decorrentes desse trabalho, seria a existência de um espaço para compartilhar as situações que causam sofrimento ao trabalhador e feito o entendimento do que acontece no seu trabalho, para que o profissional não tome para si as angústias que são vivenciadas todos os dias.

Uma forma de oferecer um contato ainda mais acolhedor ao paciente é o profissional se colocar no lugar do mesmo, o que faz com que possamos vê-lo para além do corpo físico doente, que há um sujeito psíquico que também pode adoecer, juntamente com o físico.

5.2 Quanto aos sentimentos frente ao trabalho

a) Fisicamente

As preocupações e ansiedades afetam o organismo e este é um fator a mais a ser considerado na exaustão física. “Esta ansiedade que raramente se fala, participa do mesmo modo que a carga física do trabalho, ao esgotamento progressivo e ao desgaste dos trabalhadores” (DEJOURS, 1997, p. 73).

A ansiedade responde também ao ritmo de trabalho, às condições que o ambiente proporciona, à organização do trabalho e se faz necessária uma análise do ambiente, de como as pessoas estão submetidas a esse trabalho. “É de natureza mental a ansiedade resultante das ameaças à integridade física, sendo sequela psíquica do risco que a nocividade das condições de trabalho impõe ao corpo” (DEJOURS, 1997, p. 78).

b) Psiquicamente

Pode-se perceber que com o passar do tempo novas percepções surgem frente ao trabalho, pois no início tudo é novo, causa ansiedades e medos por não se saber lidar com os diferentes tipos de pacientes e de doenças. Com o decorrer do tempo, os medos e ansiedades passam a diminuir, e isso se deve a uma melhor habilidade e domínio no trabalho. Novas percepções surgem, passando a se ver o paciente num todo, e as situações de sofrimento de maneira diferente. Segundo Martins (2003), é uma organização de sujeitos afrontados com situações emocionalmente intensas, como vida, doença e morte, que fazem com que os profissionais ali inseridos apresentem ansiedade, tensão física e mental.

Os profissionais de saúde, como qualquer ser humano, apresentam dificuldades para compreender e enfrentar a morte e a finitude, o que mobiliza demais o cuidador, deixando-o angustiado, podendo interferir no cumprimento de suas tarefas. Percebe-se que, frente a essas situações geradoras de ansiedades, são utilizados mecanismos defensivos, alguns mais primitivos, como negação, repressão, onipotência, idealização, projeção, introjeção, que aparecem a fim de encobrir ou disfarçar o sofrimento que surge decorrente do trabalho. E outros recursos psíquicos mais elaborados, como racionalização e sublimação que possibilitam um entendimento do trabalho de modo que não ocorra sofrimento psíquico. “O esforço para conseguir soluções pode vir a precipitar desgaste psicológico e esvaziamento de energia psíquica, surgindo uma sensação interna de pressão, consumidora do tônus vital, constatável sob forma de apatia e perda de motivação” (BERGAMINI, 1982, p. 14).

5.3 Quanto à pressão emocional

a) Fisicamente

A pressão emocional afeta o corpo físico, pois a tensão também é sentida pelo corpo e pode desencadear sintomas, o que na psicologia está associado às doenças psicossomáticas. Percebe-se que na área da enfermagem, por haver uma pressão emocional constante, o corpo poderá apresentar uma carga elevada de tensão. Dependendo dos recursos psíquicos de cada profissional, pode ser resolvido ao nível psíquico ou descarregado no corpo, pois somos muito mais do que um corpo físico, somos sentimentos, pensamentos e emoções.

Conforme Alexander (1989 apud CERCHIARI, 2000), fatores emocionais influenciam todos os processos do corpo, através das vias nervosas humorais, e que os fenômenos somáticos epsicológicos ocorrem no mesmo organismo.

b) Psiquicamente

A enfermagem é uma das profissões que apresentam elevada pressão emocional e, segundo reportagens na mídia e pesquisas que foram e vem sendo realizadas, há influência direta da tensão no corpo e na mente das pessoas, havendo um elevado número de pessoas que são acometidas por doenças desencadeadas pelo trabalho, e a área da saúde é uma das áreas que tem mostrado essa elevação.

Uma das doenças que tem relação direta com a pressão emocional é a Síndrome de Burnout. Os autores Tamayo e Tróccoli (2002), apontam que a Síndrome de Burnout é decorre da tensão emocional crônica no trabalho, e é caracterizada pelas dimensões: exaustão emocional, despersonalização e diminuição da realização pessoal. Percebe-se que o trabalho do técnico de enfermagem oferece um ambiente propício para o desenvolvimento dessa doença, onde há uma pressão constante, direta e indiretamente.

A Síndrome de Burnout pode ser evitada, desde que a cultura da organização favoreça a execução de atividades preventivas do estresse crônico, a partir da atuação em equipes multidisciplinares, numa perspectiva de resgatar as características afetivas contidas no cotidiano de quem cuida e não estarem somente voltadas ao trabalho técnico. O trabalho técnico será mais efetivo quando se estiver com um psicológico em equilíbrio, podendo beneficiar indiretamente o paciente, conseguindo transmitir um cuidado ainda mais humanizado. Segundo Araújo e Ferreira (2011), os profissionais de enfermagem, assim como qualquer profissional da área da saúde, para desenvolver seu trabalho de forma eficiente, atendendo aos seus objetivos e estimulando a população em busca de qualidade de vida, precisa de recursos apropriados.

Recomenda-se que, em um ambiente como as CTIs, precisa de espaços que possibilitem conversar sobre as situações, pois por vezes são de extrema complexidade e a cobrança que se tem frente ao trabalho exige muito equilíbrio psicológico. “A desorganização dos investimentos afetivos, provocada pela organização de trabalho pode colocar em perigo o equilíbrio mental dos trabalhadores” (DEJOURS, 1997, p.77).

Observou-se que a dinâmica organizacional do trabalho em setores com muitos pacientes, ou com paciente graves, gera uma sobrecarga de movimento e tensão ocupacional, sendo necessário monitorar periodicamente a saúde mental e física desses trabalhadores, a fim de desenvolver estratégias que possam reorganizar o processo de trabalho, diminuindo as fontes de estresse. “Os problemas e situações desagradáveis exigem que cada um empregue recursos a fim de colimar soluções mais confortáveis” (BERGAMINI, 1982, p. 14).

5.4 Quanto ao envolvimento com familiares

a) Fisicamente

Não há indícios de que o envolvimento com os familiares afete fisicamente o profissional de enfermagem em algum sentido, mas constata-se que a colaboração dos mesmos, nos cuidados com o enfermo, pode auxiliar e fazer a diferença no esforço físico necessário para realizar os cuidados de higiene pessoal e em sua locomoção, por exemplo.

b) Psiquicamente

Há um envolvimento emocional do técnico de enfermagem frente ao sofrimento dos familiares, pois estes sofrem junto com o paciente. Sendo assim, eles acabam se aproximando da enfermagem para saber sobre o quadro do paciente, o que acaba sendo gratificante, mas que também pode ser perturbador, pois há familiares que não aceitam o quadro do enfermo e descarregam suas angústias no técnico de enfermagem, por vezes de forma áspera e agressiva.

As exigências psicológicas que são feitas por pacientes e familiares à equipe de enfermagem se apresentam de modo sutil ou direto, e vão além do simples cuidado físico, das tomadas de pressão e da aplicação de medicações terapêuticas.

Na CTI, os familiares estão num nível de sofrimento ainda mais elevado. A  aproximação desses familiares com a enfermagem é fundamental, pois mesmo sabendo que é difícil dar algum parecer sobre o quadro de saúde do paciente, fazer com que os mesmos percebam que realmente há alguém que está cuidando bem do seu familiar, é uma forma que lhes possibilita se sentirem mais confiantes e aliviar um pouco o sofrimento. Conforme Silva e Bousso (2011), a participação e o envolvimento de famílias no cuidado à saúde são considerados aspectos cruciais da prática de enfermagem, já que a família contribui para o bem-estar e para a saúde dos seus membros e influencia a doença.

Outra questão que aparece como fundamental é mostrar para os familiares a importância de cada um cuidar da sua própria saúde física e emocional, para assim poderem dar continuidade a um adequado cuidado ao paciente, e também poder identificar quando estão apresentando alguma dificuldade. O hospital poderia oferecer algum serviço, possibilitando momentos de troca com esses familiares, principalmente em setores como nas CTIs. Segundo Bolander (1998), a internação hospitalar causa uma ruptura do estilo de vida da família, onde predispõe o aparecimento de depressão, ansiedade, frustração e exaustão que poderão levar a estados patológicos.

5.5 Quanto ao trabalho em equipe

a) Fisicamente

Se há um trabalho em equipe eficiente, com ajuda constante dos colegas, o esforço físico é então dividido pelo grupo e não há sobrecarrega de tarefas.

b) Psiquicamente

O desempenho profissional na área da saúde envolve uma série de atividades que necessitam de um controle mental e emocional, muito maior que em outras profissões. Em se tratando de equipe, cada um tem um jeito de trabalhar, com percepções próprias frente ao ambiente e ao trabalho que realiza, sendo necessária uma conexão dos colegas de equipe para que ocorra um atendimento adequado.

Quando no grupo há falta de sintonia entre os colegas, torna-se inviável um trabalho com qualidade, pois acaba sobrecarregando uns, enquanto outros não. Esse é um fator que precisa ser levado em conta pela chefia de enfermagem, pois gera revolta e, consequentemente, a rotina vai se tornando desgastante e estressante, assim esgotando o profissional técnico de enfermagem. “Evidentemente, a melhor forma de prevenir e controlar o estresse, sobretudo em relação ao trabalho e as atividades ocupacionais, vai exigir dois pressupostos: uma análise da situação do trabalho e cuidado com o individuo que trabalha” (ARANTES; VIEIRA, 2010, p. 134).

Percebe-se a importância de ter uma equipe unida, que possa compartilhar do medo e da ansiedade que surgem, principalmente nas situações mais difíceis, como a chegada da morte. Segundo Arantes e Vieira (2010), qualquer individuo que pessoalmente esteja vivendo uma situação de exaustão e falência das forças de resistência ao estresse, podem se beneficiar com um tratamento assistido por profissionais da área da saúde.

6. Considerações Finais

Através da elaboração desse estudo, onde os dados apresentados da minha experiência profissional passaram pela minha própria subjetividade, com análise direta e indireta dos mesmos, pode-se constatar que há implicações físicas e psíquicas advindas da influência dessa atividade diretamente na subjetividade do trabalhador. A magnitude dessas implicações depende dos recursos psíquicos de cada pessoa, bem como do nível de estresse gerado, o que pode levar ao adoecimento físico e psicológico do profissional.

No ambiente hospitalar há fatores estressantes que surgem pela alta exigência e pelo grau de responsabilidades, que podem implicar na saúde do técnico de enfermagem. Alguns recursos psíquicos são criados para dar conta da pressão, como forma de descarga do excesso de tensão psíquica. Entretanto, poderá haver implicações que vão além destes recursos, desencadeando doenças físicas e psíquicas.

O relato de experiência mostra o quanto a enfermagem está vulnerável a desenvolver doenças psicossomáticas e a Síndrome de Burnout, sendo que a análise dos dados, aqui apresentados, baseou-se em estudos e pesquisas realizadas na área hospitalar, bem como em livros que apontam resultados e considerações semelhantes, e que associam o trabalho da enfermagem ao  adoecimento do corpo e da mente.

Diante das colocações feitas e das interpretações levantadas, constata-se que a atividade profissional do técnico de enfermagem desencadeia prazer e sofrimento, ao mesmo tempo. Em relação ao prazer, possibilita ao técnico de enfermagem sentir-se útil para com as pessoas que se beneficiam do seu trabalho e pelo fato de estar oferecendo cuidado ao bem mais precioso, que é a vida das pessoas. Sofrimento porque se está muito próximo da dor que é imensurável, das doenças que acometem as pessoas de forma brusca e intensa, mostrando o quanto a vida é frágil e o quanto se faz necessário manter um equilíbrio emocional para dar conta de oferecer o melhor cuidado ao paciente.

A pressão psicológica que se encontra no hospital, decorrente do contato com o paciente, dos sentimentos que surgem, do envolvimento com os familiares e do trabalho em equipe, precisa ter uma via de elaboração psíquica no próprio ambiente hospitalar, aonde haja espaços que propiciem a compreensão das angústias que aparecem, e a percepção não somente como um técnico de enfermagem, mas como um ser humano que sente e sofre pelo sofrimento das outras pessoas, considerando que cada trabalhador sente de maneira diferente e precisa ser compreendido conforme sua própria subjetividade.

Diante disso, esse estudo possibilita criar novas percepções e reflexões acerca da atuação do técnico de enfermagem, através do resgate da experiência de vida sob um viés psicológico, em relação à produção de novas subjetividades e dos processos saúde-doença no trabalho, mostrando a necessidade da atuação da Psicologia nas questões relativas à saúde do trabalhador inserido nesse contexto, considerando-se que a prevenção das doenças no contexto de trabalho depende também dos recursos que o próprio ambiente oferece para os sentimentos dos trabalhadores.

A área da Psicologia nem sempre interage diretamente com o trabalho da enfermagem no hospital. Mesmo assim, cabe aos psicólogos estudarem, refletirem e proporem novas ações no sentido de encontrar condições para a manutenção da saúde do trabalhador, seja na área hospitalar, onde os processos de adoecimento são tão evidentes, como em outras áreas profissionais.

A presença de psicólogos nesse contexto pode contribuir ativamente na criação de grupos de trabalho, propiciando melhores condições de diálogo e compartilhando seu conhecimento com outros saberes, de forma que a saúde e o bem-estar do trabalhador sejam valorizados e acompanhados, podendo contribuir na prevenção tanto de doenças físicas, como psicológicas, e proporcionar saúde, a saúde de quem cuida da saúde.

Sobre o Autor:

Fátima Modelski - Graduada em Psicologia na Universidade de Passo Fundo. Possui formação no Curso de Técnico em Enfermagem pela Universidade de Passo Fundo.

Orientadora: Christiane Albuquerque de Miranda - Professora Mestre orientadora do Curso de Psicologia na Universidade de Passo Fundo.

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