Adoção Sob as Interfaces Jurídica e Psicanalítica

(Tempo de leitura: 13 - 26 minutos)

Introdução: O presente artigo aborda o processo adotivo sob as interfaces jurídica, no Brasil, e psicanalítica. Inicialmente, serão contemplados conceitos de Adoção, elucidando aspectos históricos e jurídicos para legitimação jurídica de um filho (a) não consanguíneo (a), e as implicações ocorridas durante este processo, deslumbrando os principais desafios da família adotante e o indivíduo a ser adotado, no tocante ao amadurecimento emocional à luz psicanalítica. Alertando ao que vem a favorecer esse amadurecimento emocional ser satisfatório ou patológico. Diante do exposto, este estudo tem como objetivo melhor compreender como ocorre o processo de adoção nos campos jurídico e psicoafetivo a partir da abordagem psicanalítica. A produção desta pesquisa qualitativa ocorreu através de revisão de literatura, utilizando fichamentos de artigos pesquisados na base de dados Google Academic, Pepsic, Scielo, portais de faculdades e universidades e do Governo Federal do Brasil a partir das produções referentes à adoção, psicologia jurídica e psicanálise, requisitos para a construção deste trabalho. Esta pesquisa possibilitou compreender que a abordagem psicanalítica pode vir a contribuir no processo de Adoção no Brasil, no tocante aos profissionais que possam utilizá-las como embasamento teórico em realizar avaliações ou perícias solicitadas pelo juiz para identificar se a família candidata está apta à adoção de um filho (a). Mas, também, que antes de todo o processo jurídico, a adoção é uma escolha psicoafetiva entre a pessoa que deseja um filho (a) e a que deseja pertencer a um grupo parental, possibilitando a elaboração da família, transcendendo a consanguinidade.

Palavras-chave: Adoção, Psicanálise, Desenvolvimento Emocional.

1. Introdução

Neste artigo, procurou-se tecer algumas considerações da adoção sob as interfaces jurídica e psicanalítica. Primeiramente, será discorrido um pouco sobre conceitos de adoção. Depois, serão abordados os aspectos históricos e jurídicos da adoção no Brasil, elucidando o progresso legislativo em relação a este tema. E por último, serão explanadas algumas considerações sobre as implicações na perspectiva psicanalítica no processo de adoção, deslumbrando os principais desafios da família adotante e o indivíduo adotado.

Na conceituação de adoção será trazido Levinzon (2009), Maux e Dutra (2010) para contextualizar o processo de valorização do filho adotivo, como também será elucidado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para possibilitar a compreensão de como é julgado o processo de adoção de crianças e adolescentes na esfera jurídica e, por fim serão citados Adrados (1988) e Pereira (2011) para mostrar a importância do papel do profissional psicólogo neste processo e, os fatores necessários à efetivação da adoção.

Os aspectos históricos e jurídicos da adoção no Brasil foram fundamentados através de Maux e Dutra (2010) para contextualizar a trajetória da história da adoção no Brasil; Fontoura (2011) e Lara (2008) para elucidar a evolução da Doutrina da Situação Irregular à Doutrina da Proteção Integral e Silva et. al (2017) para elucidar motivos que impulsionaram essa evolução. E, por fim, como se encontra a condição atual de adoção no Brasil, a partir das pesquisas do Governo do Brasil (BRASIL, 2013; 2017).

Quanto às implicações na perspectiva psicanalítica no processo adotivo Alvarenga e Bittencourt (2013) esclarecem, à luz winnicottiana, a integração do adotado ao modelo da nova família, a angústia do mesmo em relação à perda da família biológica, conceituando o “ambiente facilitador” (mãe suficientemente boa) e, a integração do self do adotado através da pessoa que cumpre a função de maternagem. Logo após, para esclarecer o entendimento de Alvarenga e Bittencourt, faz-se menção à contribuição da teoria do pediatra psicanalista Donald Winnicott, em que o processo do amadurecimento do ser humano ocorre através da díade mãe-bebê (ambiente facilitador-bebê) e que vem a favorecer um desenvolvimento físico e/ou emocional patológico ou satisfatório.

Para finalizar e concluir o quanto são necessárias habilidades emocionais dos pais para superar os estágios de amadurecimento de um filho, será citado Bowbly (1990), em que se faz menção à prevalência do “apego seguro” que acarretará ao bebê a capacidade de vinculação com valor de sobrevivência.

2. Adoção: o que é?

Segundo Levinzon (2009), como uma experiência humana básica, adoção ocorre em todas as culturas e existe desde tempos imemoriais. A palavra “adotar” provém do latim “adoptare” que significa considerar, cuidar, escolher (LEVINZON, p. 12). De tal forma que a questão da adoção tem uma articulação entre o jurídico e o afeto.  

Em tempos passados, não havia um interesse genuíno de cuidado pela criança necessitada ou abandonada (MAUX; DUTRA, 2010). No decorrer da Antiguidade, a valorização do filho adotivo esteve relacionada com a perspectiva de perpetuação do nome de uma família para os integrantes que não tinham descendentes. Na Idade Média, a Igreja Católica influenciara a sociedade a enxergar a adoção de forma negativa, tendo como justificativa o fato de que poderia interferir o reconhecimento legal dos filhos adulterinos ou incestuosos. Já na Idade Moderna, a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente passam a dar um maior amparo a estes menores. (MAUX; DUTRA, 2010)

Contudo, “podemos dizer que toda filiação é, antes de tudo, uma adoção. A criança adotiva é uma criança como as outras, com todas as vicissitudes do ser humano” (LEVINZON, 2009, p. 25).

Porém, é preciso pesquisar psicologicamente os verdadeiros motivos que levam uma família a querer adotar uma criança. Comumente, podem ser conduzidos a isso por motivações inconscientes de teor neurótico ou por sentimentos não muito consideráveis e que eles mesmos desconhecem. Caso busquem orientação de um psicólogo para resolver suas dúvidas em relação à adoção, cabe a esse profissional a tarefa de esclarecer os verdadeiros motivos que levam um casal a adotar uma criança (ADRADOS, 1988).

Pois, para que a adoção efetive-se com sucesso, não se pode considerar apenas o ato em si, considerando que ela deve atender tanto às necessidades da criança como dos pais, possibilitando um ambiente que contribua na formação e no desenvolvimento do adotado. Dentre os estudos sobre adoção, alguns indicam que as crianças adotadas representam um número significativo da amostra das crianças que buscam atendimento psicológico (PEREIRA, 2011).

3. Aspectos Históricos e Jurídicos da Adoção no Brasil

No Brasil, a história da adoção tem uma trajetória extensa, pois ocorre desde a época da colonização. Inicialmente, era vista como um ato de caridade, em que os mais ricos prestavam assistência aos mais pobres. Porém, essa assistência acontecia mediante a mão de obra gratuita que a pessoa adotada poderia fornecer, a qual era vista pela Igreja como a “mais necessitada”.  Dessa maneira, foi através da possibilidade de trabalhadores baratos e da caridade cristã, que a prática da adoção foi iniciada no país (PAIVA, 2004 apud MAUX; DUTRA, 2010).

A adoção até o século XIX era algo que se caracterizava por uma situação de desatenção e falta de regulamentação legal adequada. Contudo, os direitos da criança e do adolescente foram reconhecidos em determinados momentos históricos, nos quais, felizmente, mostram evolução positiva (FONTOURA, 2011). E em Lara (2008), percebe-se que a regulamentação mais adequada foi à substituição da Doutrina de Situação Irregular em 1979 pela Doutrina da Proteção Integral, em meados de 1980.

A Doutrina da Situação Irregular foi introduzida com a edição do segundo Código de Menores de 1979 – Lei Nº 6.697/1979. Nessa fase, o menor não era julgado, o juiz apenas classificava a demanda como situação irregular e aplicava medidas terapêuticas, mas que eram baseadas na repreensão e exclusão (LARA, 2008). Em meados de 1980, essa doutrina foi substituída pela Doutrina de Proteção Integral, através dos movimentos sociais em defesa dos direitos da criança e do adolescente, fundados em diversos Pactos e Convenções, em que ascendeu e consagrou-se com o objetivo de conceber os direitos às crianças e aos adolescentes, reconhecendo-os como sujeitos de direitos civis (LARA, 2008).

Portanto, com esse progresso, a inserção da criança e/ou adolescente em família substituta, corresponde, na atualidade, a uma medida de proteção (art. 101, inciso VIII, do Estatuto da Criança e do Adolescente), seja ela através de guarda, tutela ou adoção, quando apresentar-se inviável a manutenção da criança junto à família natural. Em situações específicas de adoção, tratando-se de adotando adolescente, sua aprovação será indispensável (art. 45, § 2º, do Estatuto da Criança e do Adolescente). (AZAMUJA, 2008)

A evolução da legislação representou uma transformação cultural em relação ao tema, principalmente no que se refere às constantes transformações familiares ocorridas nas últimas décadas. Pois, a estrutura familiar é cada vez mais diversa, com crescente número de adolescentes grávidas, pessoas que optam por conceber e criar filhos sozinhos, filhos de pais separados e recasados, aumento nos casos de infertilidade, famílias homoafetivas, entre outras configurações existentes (SILVA et. al, 2017).

Em 2008, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), através de uma pesquisa afirmaram que apenas 35%, caso desejassem adotar, buscariam uma criança por meio dessas varas, enquanto 66,1% recorreriam aos hospitais, maternidades ou abrigos (BRASIL, 2013).

De certa forma, isso é alarmante no tocante ao motivo do desejo de adoção das pessoas que desempenharão os papéis de pai e /ou mãe. Visto que, a adoção concedida pelo juiz de direito, implica o encaminhamento destes pais à orientação psicossocial e jurídica. Em que, tem por objetivo trazer reflexões acerca da nova dinâmica familiar que surgirá com a chegada deste (s) filho (a) / os (as). Isso se faz necessário no que se refere à essencialidade do afeto que estruturará não somente a família, como irá contribuir na formação da personalidade desse novo ser em seu novo seio familiar.

Atualmente, no Brasil, mais de 8 mil crianças e adolescentes esperam na fila do Cadastro Nacional de Adoção para serem adotadas e acolhidas por uma família (BRASIL, 2017). Desproporcionalmente a isso, 38 mil candidatos a pais estão cadastrados para receber uma dessas crianças. Para reduzir essa disparidade e agilizar os processos de adoção, sancionou-se uma lei que facilita a adoção de crianças com deficiência e irmãos que se encontram em abrigos (BRASIL, 2017). Portanto, é notório que, a adoção no Brasil inclui a superação de desafios legais e a conscientização de que o ato é em benefício da criança, mas não solução para a pobreza.

4. Processos de Adoção – suas implicações na perspectiva Psicanalítica quanto ao amadurecimento emocional

Com a chegada do filho adotivo na família, na fase inicial, o mesmo procura integrar-se ao modelo da nova família, que costuma ser seguido por uma fase de desilusão estruturante, marcada por atitudes agressivas desse novo integrante. Isso ocorre devido à necessidade de desprender-se da pele comum, criada para “auxiliar na constituição de uma identidade específica, em que iniciará um período doloroso no qual se espera que os pais consigam suportar as tensões, os ataques de fúria, o silêncio” (ALVARENGA; BITTENCOURT, 2013, p. 44).

A criança, ao experimentar a fantasia de poder ser destruída pelo objeto acolhedor, pode vir a projetar essa fantasia e viver as angústias persecutórias, produto das fantasias persecutórias, assim rejeita e se faz rejeitar. Isso ocorre devido ao medo do aniquilamento que sofreu na cisão com a mãe biológica. E, em virtude disso, terá o desafio de integrar o self ao atravessar a posição esquizo-paranóide e, perceber de forma dialética que a nova família que frustra é a mesma que gratifica, culminando numa posição depressiva, renunciando à atração das primeiras fantasias parentais para vincular-se aos pais adotivos reais (ALVARENGA; BITTENCOURT, 2013).

Nesse processo, há outra etapa a se cumprir, o holding (suporte materno) que é sempre um desafio em um momento tão delicado como o início da convivência e inserção da criança adotada com sua nova família. É certo, que o mesmo exerce diferentes funções nos diversos momentos da vida e sua importância se mantém, visto que estruturação e reconhecimento são elementos imprescindíveis na vida afetiva do ser humano (WINNICOTT, 1983 apud ALVARENGA; BITTENCOURT, 2013).

Nessa etapa, o sentimento de pertencimento a uma nova linhagem exige o luto das imagens parentais originárias (biológicas) e uma reconstrução de seu romance de origem apoiada nos novos pais. Então, espera-se que com a finalização desse processo de luto pela família originária, a representação dos pais biológicos, mantida inconsciente, possa coabitar com a dos pais adotivos. Portanto, como os pais biológicos de um bebê necessitam realizar “um trabalho de luto do filho ideal para aprender a amá-lo na realidade, a adoção de uma criança ou de um adolescente exige capacidade de adaptação e um descolamento da criança real em relação à criança imaginária” (ALVARENGA; BITTENCOURT, 2013, p. 45).

Em Uma Criança foi Espancada, Freud interpreta que a primeira fantasia criada pelo bebê é de uma satisfação autoerótica, em que se refere a um traço primário de perversão, ao qual o sujeito está fixado e que se evidenciou prematuramente da sexualidade infantil, classificada como uma perversidade polimorfa, que se apresenta em diversas formas. (FREUD, 1980 apud CARREIRA, 2009).

“Essa perversão é um dos processos típicos da vida sexual da criança em relação ao objeto de amor incestuoso e, posteriormente, permanecendo como herdeiro da carga de libido do Complexo de Édipo que cedeu ao recalque” (FREUD, 1980 apud CARREIRA, 2009, p. 158).

Na neurose, a perversão é interrompida, restando apenas um de seus traços, ao qual a pessoa se fixa e mantém-se ao fundo de seu desenvolvimento sexual, removendo-lhe permanentemente certa quantidade de energia. Em que esse traço que não se fortalece e que, enquanto satisfação autoerótica, perdura como resquício ou cicatriz do Complexo de Édipo (FREUD, 1980 apud CARREIRA, 2009). Esse traço de perversão, ao encontrar o recalque como destino, fará retornar constantemente como compulsão nos sintomas, como também há a possibilidade de ser sublimado através do recalque de maneira especial (FREUD, 1980 apud CARREIRA, 2009).

De certo que a perspectiva de Alvarenga e Bittencourt (2013) dá ênfase ao mundo interno da criança, o mundo das fantasias. Da mesma forma, é importante o papel do ambiente, a “criança faz o ambiente” e o “ambiente faz a criança”. Portanto, é imprescindível que os adotantes sejam capazes de não permitirem ferir a si mesmos profundamente em sua capacidade de pais e em sua autoestima, e possam conter e serem depositários da memória da criança, possibilitando uma regressão necessária, que antecede à retomada do processo de desenvolvimento. Esse processo é imperioso para que funcione para que os pais sejam um continente estável, propício de continuidade, e metabolizem as ansiedades infantis, e não reforcem a vivência traumática pré-existente (ALVARENGA; BITTENCOURT, 2013).

A última fase refere-se à elaboração do desenvolvimento de ilusão e desilusão em relação uma criança idealizada pelo desejo parental, que será determinante para a consolidação dos vínculos objetais com ela e para a constituição de um representante relacional que permita ocorrer o processo de amadurecimento (WINNICOTT, 2000).

O grande pediatra psicanalista inglês, Donald Woods Winnicott, através do tratamento que realizara com crianças mentalmente transtornadas percebera que a relação estabelecida entre mãe e filho era pilar para o desenvolvimento e construção de personalidade do ser humano, seja ele psíquico ou físico. Através do seu trabalho, percebe que cada pessoa tem o potencial inato ao amadurecimento, à integração; mas, o fato de essa tendência ser inata não assegura que se efetive. Pois, isso necessitará de um ambiente facilitador que ofereça cuidados que dependem de cada criança, e esse ambiente é desempenhado pela mãe suficientemente boa.  

Ao nascer, o bebê deve considerar que é ele quem controla o ritmo dessa vivência: “neste estágio inicial, o ambiente favorável está dando ao lactente a experiência da onipotência; com isso quero dizer mais do que controle mágico, e quero incluir no termo o aspecto criativo da experiência” (WINNICOTT, 1983, p. 164).

A partir disso, Winnicott origina o termo criatividade primária em que parte da constatação de que “o lactente cria o que de fato está ao seu redor esperando para ser encontrado. E, também, aí o objeto é criado, e não encontrado [...] Um objeto bom não é bom para o lactente a menos que seja criado por este” (WINNICOTT, 1983, p. 165).  Nesse sentido, na fase inicial de maturação do bebê, este ainda não é um sujeito, e sim, uma unidade dual, no contexto de uma lógica paradoxal de seu pensamento. E é essa união mãe-bebê que possibilita, mais tarde, que o indivíduo se experimente e se apodere de si (RODRIGUES; PEIXOTO JÚNIOR, 2015).

E que, é através dessa díade, por meio da mãe / cuidador (a) que o bebê possa vir a ter um desenvolvimento emocional satisfatório ou patológico.  Para Winnicott, quando o ambiente possui falhas excessivas, o desenvolvimento emocional decorre nas relações de dependências às agonias primitivas do bebê, as quais são originadas através do trauma, agonias impensáveis e falso si-mesmo (falso self) (LEJARRAGA, 2008).  

Todo esse processo acontece com a criança adotada devido à separação da mãe ao nascer, ao romper um laço biológico que inclui todo o contato que ocorrera durante a gestação. A agonia primitiva ocorre advinda do medo do colapso como um mecanismo de defesa, contra uma agonia primitiva e de aniquilamento do ambiente facilitador (mãe), por este ter possuído falhas excessivas. Nessa esfera, deduz-se que o medo do adotado é de se “fragmentar, de se dissociar do corpo, de ficar desorientado e isolado, de não mais estabelecer relações objetais” (LEJARRAGA, 2008, p. 128).

Winnicott nomeia esse processo de “angústia primitiva” pelo excesso de falhas constantes do ambiente facilitador, então, pode-se deduzir que quando o bebê é gestado de forma insegura, o seu desenvolvimento emocional pode acometê-lo de angústias de aniquilamento, em que possui medo de uma queda sem fim, de se despedaçar, de morrer perdendo toda a esperança de restabelecer o contato com o ambiente facilitador (mãe) (WINNICOTT, 1992 apud RODRIGUES; PEIXOTO JÚNIOR, 2015), o que vem a acarretar as patologias mencionadas no parágrafo acima.

A separação da mãe biológica expõe a criança a uma cisão da continuidade da relação mãe-bebê, e lhe exige uma necessidade precoce de se adaptar a um novo ambiente, que inclui uma mãe com outro ritmo cardíaco, outro modo de andar, outra voz, outro cheiro (MONTEIRO, 2003). Nesse momento, a pessoa que cumpre os papéis de pai e o marido se conjuga na função de suporte ambiental, de proteção, de apoio físico e psicológico (MONTEIRO, 2003).

É imperioso alertar que, quando a mãe é insuficientemente boa, Winnicott considera que a constância de falhas excessivas por esse ambiente facilitador pode dar origem à psicose e os estados borderline como um mecanismo de defesa contra essa agonia primitiva, em que há o medo da perda da unidade do self (CHAMOND, 2010).

Portanto, “a adaptação às necessidades do bebê só pode ser bem feita, ou suficientemente bem feita, pela mãe que, temporariamente, se dedica por completo aos cuidados do bebê” (WINNICOT, 2006, p.74). Esta característica simbiótica e de dependência pode despertar na mãe sentimentos e comportamentos para que esta dê conta e possa proporcionar prazer. Nesse período, ela poderá desenvolver qualidades de uma mãe suficientemente boa, como o zelo e a dedicação, mesmo que exerça seu papel de maneira comum, respeitando o limite tênue entre estimular e ser intrusiva (AZEVEDO, 2017).

É importante mencionar que, na visão freudiana, é através do contato com os objetos (pai e mãe) que ocorre o Complexo de Édipo, podendo ser “direto” ou “invertido”.  Em que o fenômeno edípico se alicerça na conjectura de uma simetria onde tanto os meninos quanto as meninas se sentiriam naturalmente atraídos pelo progenitor do sexo oposto, repudiando ainda aquele do mesmo, ou sendo atraído pelo mesmo sexo e repudiando o do sexo oposto, respectivamente (SOUZA, 2006).

Da mesma forma, Rosa (2017) afirma que após o alcance do self, a deficiência no ambiente causa “deprivação”, em que o bebê é visto como “suficientemente bom”, o que vem a lhe acometer a tendência antissocial.  Portanto, a “deprivação” é uma tentativa de reivindicar a perda física ou psicológica do ambiente facilitador (mãe). Pois, esse termo expressa que a criança teve um bom começo, já havia atingido a capacidade de acreditar em algo, contar com, e sofrido em seguida a perda de algo com que já contava. Nessa época, tem suficiente maturidade para compreender que a perda foi decorrente do ambiente, ou seja, que houve falha ou omissão externa (WINNICOTT, 2002).

A “deprivação” pode ser uma característica de crianças normais e em crianças de qualquer tipo de diagnóstico psicopatológico, com exceção da esquizofrenia, pois não é suficientemente madura para sofrer privação. Contudo, quando o sujeito se identifica com o estilo de vida antissocial adquire a delinquência em busca desse ambiente facilitador na criminalidade, devido aos ganhos secundários (WINNICOTT, 2000).

As experiências infantis são essenciais no processo de configuração e estabelecimento de vínculos afetivos futuros. Ou seja, a maternidade possuirá todos os outros vínculos da vida da mãe como reflexo, essencialmente o vínculo primitivo, com seus próprios pais (WINNICOTT, 1998; BOWBLY, 2006 apud GUTIERREZ; CASTRO; PONTES, 2011).

Portanto, crianças com apegos seguros tendem a desempenhar melhores soluções de problemas, apresentando jogos simbólicos mais complexos e criativos (SHAFFER, 2005; BEE, 2003 apud COSTA, 2017). Dessa maneira, evidenciando mais emoções positivas do que negativas, são mais perceptíveis por outras crianças como companheiras, em que se tornam líderes sociais nas escolas, dão início às brincadeiras com facilidade, são empáticas às outras crianças, são curiosas e autocentradas para aprender; ao contrário das crianças com apego desorganizado as quais têm a possibilidade de tornarem-se hostis e agressivas, e ainda de ter uma inclinação a ser rejeitada por seus pares (SHAFFER, 2005 apud COSTA, 2017). Para Bowbly (1990), a prevalência do “apego seguro” acarretará ao bebê a capacidade de vinculação com valor de sobrevivência.

Vale ressaltar que, isso pode vir a refletir na adolescência e fase adulta do sujeito, pois adolescentes seguros têm amizades mais íntimas, detém de autoestima elevada, são considerados como líderes e possuem a tendência de praticar sexo seguro ao dar início à vida sexual (BEE, 2003 apud COSTA, 2017). Além disso, demonstram menos raiva e evitação disfuncional, possuem mais assertividade e os adolescentes com apego inseguro possui menos amizades positivas e que lhe apõem e, tendem dar início precocemente a vida sexual e praticar sexo menos seguro (JOHNSON; WHIFFEN, 2012 apud COSTA, 2017).

Em suma, indubitavelmente, o bebê humano nasce prematuro, como apontou Freud, ou seja, em circunstância de incompletude, imaturidade e vulnerabilidade psicossocial e física, em condições de dependência de um ambiente que o adote e, como resultado, lhe proporcione os cuidados que garantam sua sobrevivência. O cuidado ao ser exercido por uma figura específica – a mãe ou um cuidador substituto que tenha responsabilidade, essa figura é denominada “Figuras de Apego”, e, essa disponibilidade poderá proporcionar à criança um desenvolvimento biopsicossocial saudável e seguro (BOWLBY, 2004 apud COSTA, 2017).

5. Conclusão

No decorrer da produção deste artigo, foi percebido que o termo “mãe” para algumas bibliografias é a pessoa que exerce a maternagem como sendo apenas a mãe, ou seja, a progenitora mulher. Contudo, sabe-se que há casos em que as crianças não são criadas pelas suas progenitoras, mas sim por outro alguém (pai, avós, outros parentes, casais homoafetivos, etc.) que realiza essa função e, também, contribui para o amadurecimento emocional / personalidade da criança e/ou adolescente. Contudo, as teorias psicanalíticas podem vir a contribuir no processo de Adoção no Brasil, no tocante aos psicólogos que possam utilizá-las como embasamento ao realizar avaliações (perícias) solicitadas pelo juiz de direito a fim de identificar se a família está apta física, sócio, econômica e psicologicamente para adotar um filho, para que, assim, o magistrado possa conceder a adoção e ajudar a promover a elaboração de uma nova família para a criança adotada e realizar o desejo dos pais. Portanto, sendo ou não em âmbito forense, o psicólogo deve embasar sua interpretação teoricamente, de forma que possibilite intervenções clínicas que promovam elaborações psíquicas satisfatórias e coerentes ao adotante e ao adotado. Pois, a adoção é um processo de elaboração psicoafetiva tanto do adotante quanto do adotado.

Sobre os Autores:

Laisa Santos de Souza - Graduanda em Psicologia pelas Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão – FAINTVISA.

Glaudston Cordeiro de Lima - Mestrado em Antropologia Cultural pela Universidade Federal de Pernambuco (1998). Graduação em Psicologia pela Universidade Católica de Pernambuco (1993). Docente do Departamento de Psicologia e Coordenador do Serviço de Psicologia das Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão – FAINTVISA.

Referências:

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