Correlações entre Psicopatia e Assassinatos em Série

Resumo: O presente trabalho tem por objetivo analisar as correlações existentes entre o transtorno de personalidade antissocial e o cometimento de assassinatos em série pelos serial killers. A relevância de tal pesquisa se dá em decorrência da contemporaneidade do tema e, principalmente, devido a escassez de estudo que abordem os dois assuntos de maneira conjunta e inter-relacionada. Para a consecução do que foi proposto, lançou-se mão sobre as técnicas de revisão bibliográfica, leitura exploratória e seletiva do material de pesquisa, assim como sua revisão integrativa, no intuito de contribuir para o processo de síntese e análise dos resultados; como método de abordagem, utilizou-se o qualitativo. Na construção do referencial teórico, mostrou-se necessário o estabelecimento de algumas etapas a serem realizadas: exposição dos conceitos de psicopatia e serial killer, a partir de estudos realizados por diversos autores e pesquisadores da área, a exemplo de Robert Hare, Hilda Morana, Ilana Casoy, entre outros; verificação dos vínculos existentes entre psicopatia e assassinatos em sérios e; avaliação do grau de incidência do transtorno sobre a consumação dos homicídios em série. A partir das discussões foi possível constatar que, apesar de poder possuir características semelhantes àquelas encontradas na maioria dos serial killers (desvio comportamental, impulsividade, agressividade, ausência de compaixão, superficialidade das relações sociais, etc.), não constitui regra o fato de que um psicopata, por estar nessa condição, venha a se tornar um assassino serial; o estudo revela exatamente o contrário: é baixíssimo o número de indivíduos afetados pela psicopatia que, de fato, realizam condutas criminais e, menor ainda, a porcentagem de psicopatas serial killers.

Palavras-chave: Psicopatia, Assassinos em série, Transtorno de personalidade antissocial.

1. Introdução

A mente humana sempre foi rodeada por inúmeros mistérios. Um verdadeiro universo que, por mais fascinante que seja, levanta uma antiga questão: qual o limite da (in)sanidade do homem? Assassinos em série são indivíduos que, com uma frequência assustadora, fazem com que a sociedade sinta-se perplexa com a brutalidade causada pela prática de seus crimes. Esses criminosos de alta periculosidade geralmente compartilham características específicas que nos permitem encaixá-los no grupo dos psicopatas.

Portanto, o presente trabalho tem por finalidade analisar as correlações existentes entre a psicopatia e o cometimento de homicídios por indivíduos considerados serial killers. Buscando sempre compreender até que ponto um transtorno de personalidade antissocial é capaz de influenciar na execução de assassinatos em série.

A relevância do tema proposto reside na sua contemporaneidade e nos diversos questionamentos da comunidade científica/acadêmica a respeito da psicopatia, fazendo com que o assunto represente, hoje, uma enorme interrogação para os estudiosos da área. Além disso, cabe salientar o fato de que os assassinatos em série crescem a cada dia e, de uma forma sigilosa e, ao mesmo tempo, assustadora, são inseridos no cotidiano de diversas comunidades, apavorando os indivíduos que as compõem.

Para a consecução do objetivo principal do trabalho, faz-se necessário o estabelecimento de algumas etapas a serem realizadas no seu desenvolvimento, tais como descrever os conceitos de psicopatia e serial killer, a partir de estudos realizados por diversos autores e pesquisadores da área, a exemplo de Robert Hare, Hilda Morana, Ilana Casoy, entre outros. Além de verificar os aspectos do vínculo entre psicopatia e o assassino serial e, por fim, avaliar o grau de incidência do transtorno sobre a consumação dos homicídios em série.

A partir da revisão bibliográfica, buscar-se-á refutar, por meio de argumentação científica, a crença da maior parte da população, que acredita que todo psicopata, independentemente das circunstâncias, acaba por se tornar um serial killer em razão de ser portador do transtorno. E, com isso, enfatizar que mesmo que assassinos em série e outros psicopatas tenham anormalidades ou disfunções cerebrais semelhantes, ou mesmo idênticas, é a experiência pessoal e o ambiente que representam o fator determinante na moldagem do assassino em série.

Por fim, resta enfatizar que a realização deste trabalho visa contribuir para com a difusão do conhecimento na comunidade, tanto acadêmica como de maneira geral, a respeito de um tema relevante e atual que, infelizmente, se faz presente de maneira significativa na sociedade contemporânea. Além disso, propõe-se, a partir dos resultados finais, afastar o conceito preestabelecido a respeito dos portadores de transtorno de personalidade antissocial, que os caracteriza, em sua totalidade, como potenciais serial killers e acaba por prejudicá-los, ao mesmo tempo que fortalece a estigmatizante crença de que todo psicopata é um assassino em série.

2. Referencial Teórico

2.1 Serial Killer

Atualmente, a definição mais aceita do termo serial killers consiste em indivíduos que, durante um determinado espaço de tempo, cometem uma série de homicídios, em que sejam respeitados alguns dias de intervalo entre a consumação de um crime e outro. E é justamente esse período de tempo que intercala os delitos que diferencia os assassinatos em série dos homicídios em massa, quais sejam aqueles em que inúmeras pessoas são mortas por determinado(s) indivíduo(s) em curtos intervalos temporais (CASOY, 2004).

Reforçando essa compreensão, Schechter (2013) estabelece que assassinatos em série equivalem a três ou mais eventos que ocorrem, também, separadamente em três ou mais locais distintos, com um período de certa “calmaria” entre eles. O intervalo entre os crimes pode variar de horas a anos.

O autor acrescenta que, apesar de serem fenômenos cometidos de maneira separada, os assassinatos em série nem sempre são consumados por um único indivíduo, atuando solitariamente. Além disso, na maioria das vezes, a motivação dos crimes decorre do estado psicológico do assassino, e seu comportamento, bem como as provas materiais encontradas nos locais dos crimes, refletem aspectos sádicos e sexuais (SCHECHTER, 2013).

O assassino em série, diferentemente do assassino em massa, escolhe meticulosamente suas vítimas, as quais, na maior parte das vezes, consistem em pessoas do mesmo tipo e com características semelhantes. Dessa forma, cabe ressaltar que um dos principais elementos para o diagnóstico de um serial killer é justamente a adoção de um padrão geralmente bem definido no modo com o qual ele se relaciona com o crime. Esse padrão revela-se, especialmente, por meio de uma determinada seleção das vítimas, comumente pertencentes a um mesmo grupo social, como prostitutas ou homossexuais (BALLONE; MOURA, 2008).

A grande maioria dos autores destaca algumas características em comum nos assassinos em série, contudo, uma infância traumática decorrente de maus-tratos, tanto físicos como psíquicos, é que geralmente é apontada como a principal razão pelo comportamento isolado da sociedade, bem como pelo constante desejo de vingança. “Entre os mais sádicos dos serial killers, existem vários que experimentaram grande violência e humilhação nas mãos de um ou de ambos os pais” (MORANA; STONE; ABDALLA-FILHO, 2006).

Casoy (2004) relata que cerca de 82% dos serial killers sofreram abusos físicos, sexuais, emocionais ou foram vítimas de negligência e abandonados quando crianças. Raros são os casos em que tais características encontram-se ausentes. A autora menciona ainda a chamada “terrível tríade”, que, durante a infância do assassino em série, compõe-se dos seguintes elementos: enurese noturna, isto é, urinar na cama involuntariamente durante o sono; destruição de coisa alheia e; atos de crueldade contra animais e outras crianças menores.

São as lembranças dessas experiências frustrantes que, na maioria das vezes, fazem com que os assassinos em série sejam “transportados” para uma espécie de mundo imaginário, considerado, por eles, mais atraente que o real, lugar onde podem reviver suas lembranças cruéis, porém, desta vez, assumindo o papel do agressor. Provavelmente, por esta razão que os casos de assassinatos em série caracterizam-se pelo contato do assassino diretamente com a vítima, o que é evidenciado pelo uso de armas brancas, estrangulamentos e golpes corporais. Raramente são utilizadas armas de fogo (MARTA; MAZZONI, 2010).

Casoy (2004) divide os serial killers em quatro tipos:

  1. Visionário: aquele que possui comportamento insano, decorrente de psicose. Costuma obedecer ordens vindas de vozes em suas mentes, além de ter constantes alucinações;
  2. Missionário: não demonstra seu comportamento psicótico no meio social, não costuma externalizá-lo, contudo, em seu interior, repugna e sente a necessidade de livrar-se daquilo que julga imoral ou indigno. Este tipo costuma atacar determinado grupo social, como homossexuais;
  3. Emotivos: divertem-se com a matança. De todos os tipos de serial killers, é este o que realmente sente prazer em matar sua vítima. Comete seus assassinatos com requintes de sadismo e crueldade;
  4. Libertinos: são assassinos sexuais. Sentem prazer sexual com a morte de sua vítima. Excitam-se com o sofrimento causado por tortura e mutilação. Encaixam-se aqui os necrófilos e canibais.

Pode-se, ainda, subdividi-los em organizados ou desorganizados, bem como geograficamente estáveis ou não. Os fatores comuns entre todos os tipos de assassinos em série são o sadismo e a presença de uma desordem crônica e progressiva (CASOY, 2004).

Com relação aos serial killers organizados e desorganizados, Marta e Mazzoni (2009) ensinam que: os indivíduos do primeiro grupo tendem a ser mais astutos e preparam seus crimes de maneira minuciosa, com o intuito de não deixarem pistas. Já os do segundo grupo caracterizam-se por serem mais impulsivos e menos calculistas, atuando sem que haja preocupação com eventuais erros cometidos

Ressalta-se que grande parte dos assassinos em série possui inteligência acima da média, alguns com QI de verdadeiros gênios. Contudo, de maneira paradoxal, muitos demonstram fraco rendimento escolar, não chegando a concluir o ensino básico (BONFIM, 2004 apud MARTA; MAZZONI, 2010).

Vellasques (2008) afirma que os serial killers são indivíduos que têm dificuldade em compreender as regras morais e sociais e estão sempre em busca de novas sensações e experiências. A tendência a um comportamento agressivo e furioso, em conjunto com experiências precoces inadequadas com a infância, propiciam o desenvolvimento desse tipo de personalidade.

A autora cita ainda a classificação estabelecida pelo Dr. Joel Norris, que especifica seis fases do ciclo de um serial killer:

  1. Fase Áurea: aqui o assassino começa a perder o senso de realidade;
  2. Fase da Pesca: a procura do assassino pela vítima ideal;
  3. Fase Galanteadora: quando a vítima se deixa seduzir pelo assassino;
  4. Fase da Armadilha: o momento em que a vítima cai na armadilha;
  5. Fase do Assassinato: o auge da emoção para o assassino; e
  6. Fase da Depressão: o sentimento pós-assassinato.

Após esta última, o serial killer “rebobina” todo o processo e, então, retorna à primeira fase.

Resta salientar que a maioria dos serial killers apresenta um comportamento sexual sádico. Para esses indivíduos, mais importante do que o sofrimento da outra pessoa, é a sensação de domínio e a subjugação da vítima aos seus desejos sádicos sexuais (MORANA; STONE; ABDALLA-FILHO, 2006).

2.2 Psicopatia

Na maior parte das fontes consultadas é comum o entendimento de que, quando se pretende abordar os aspectos psicológicos dos assassinos em série, deve-se atentar a uma característica em especial: a personalidade. A personalidade é algo inerente do ser humano, traduzindo-se na sua maneira de se viver, de agir e de reagir perante todas as situações do cotidiano, bem como de se expressar emoções (HARE, 2013; MORANA; STONE; ABDALLA-FILHO, 2006).

Assim como existem pessoas com personalidades consideradas “normais”, também existem indivíduos com perturbações em suas tendências comportamentais. Os transtornos de personalidade não são considerados doenças propriamente ditas, mas, sim, anomalias do desenvolvimento psíquico de determinado indivíduo, como perturbação da saúde mental. “Esses transtornos envolvem a desarmonia da afetividade e da excitabilidade com integração deficitária dos impulsos, das atitudes e das condutas, manifestando-se no relacionamento interpessoal” (MORANA; STONE; ABDALLA-FILHO, 2006).

De acordo com CID-10 (OMS, 2008), os transtornos de personalidade são considerados graves distúrbios da constituição caracterológica e das disposições comportamentais do indivíduo, que não estão necessariamente relacionados a uma doença, lesão ou anomalia cerebral. Tais distúrbios habitualmente englobam diversos elementos referentes à personalidade, podendo ser acompanhados de angústia pessoal e desorganização cerebral. Geralmente demonstram-se durante a infância ou na adolescência, persistindo duradouramente na vida adulta.

Existem diversos transtornos relacionados à personalidade de um indivíduo, contudo o presente trabalho limitar-se-á àquele referente à personalidade antissocial. O DSM-V (APA, 2014) estabelece alguns critérios para o diagnóstico desse tipo de transtorno:

Um padrão difuso de desconsideração e violação dos direitos das outras pessoas que ocorre desde os 15 anos de idade, conforme indicado por três (ou mais) dos seguintes: 1. Fracasso em ajustar-se às normas sociais relativas a comportamentos legais, conforme indicado pela repetição de atos que constituem motivos de detenção. 2. Tendência à falsidade, conforme indicado por mentiras repetidas, uso de nomes falsos ou de trapaça para ganho ou prazer pessoal. 3. Impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro. 4. Irritabilidade e agressividade, conforme indicado por repetidas lutas corporais ou agressões físicas. 5. Descaso pela segurança de si ou de outros. 6. Irresponsabilidade reiterada, conforme indicado por falha repetida em manter uma conduta consistente no trabalho ou honrar obrigações financeiras. 7. Ausência de remorso, conforme indicado pela indiferença ou racionalização em relação a ter ferido, maltratado ou roubado outras pessoas. B. O indivíduo tem no mínimo 18 anos de idade. C. Há evidências de transtorno da conduta com surgimento anterior aos 15 anos de idade. D. A ocorrência de comportamento antissocial não se dá exclusivamente durante o curso de esquizofrenia ou transtorno bipolar.

Pouco se sabe a respeito das causas da psicopatia. Entretanto, Gomes e Almeida (2010) apontam a existência de certos aspectos biológicos (fatores genéticos, hereditários e lesões cerebrais), psicológicos e sociais que podem estar associados ao transtorno. Tais fatores biopsicossociais, em tese, contribuem para a formação da personalidade desde a infância e podem ou não influenciar no desenvolvimento da psicopatia na vida adulta.

Cleckley (1941) em sua obra “The Mask of Sanity”, definiu diversos aspetos que caracterizam indivíduos psicopatas, dos quais vale ressaltar: charme superficial e inteligência aguçada; ausência de delírios ou irracionalidade; ausência de nervosismo ou manifestações psiconeuróticas; desconfiança; falta de sinceridade e senso de justiça; falta de vergonha ou remorso; comportamento antissocial; julgamento pobre e aprendizagem debilitada; egocentrismo e incapacidade de amar; problemas em relações afetivas, deficiência de insight (compreensão da realidade) entre outros.

Hare (2013) ensina que a psicopatia é definida por um conjunto de comportamentos ligados a traços da personalidade do indivíduo, muitos dos quais são vistos socialmente de maneira pejorativa. O autor acrescenta que, de acordo com sua escala PCL-R, as principais características de um psicopata são a ausência de sentimentos morais, tais como remorso ou gratidão, uma extrema facilidade para contar mentiras e enorme capacidade de manipulação.

Gonçalves (2007) afirma que os psicopatas caracterizam-se, em essência, por sua falta de sinceridade, uma personalidade manipuladora e utilitária, assim como o frequente uso de agressividade na resolução dos mais diversos problemas. Características essas que, somadas ao egocentrismo, à ausência de sentimento de culpa ou remorso pelas consequências de seus atos, contribuem para que seja estabelecido o chamado “estilo de vida criminal”.

Dutton (2012) também enxerga essa relação entre personalidades antissociais e o cometimento de condutas criminais. Contudo, para o autor, tal ideia não engloba por completo a realidade vivenciada por psicopatas.

Nesse sentido, Hauck-Filho, Teixeira e Dias (2009) ressaltam que a criminalidade não constitui um elemento essencial para a definição do psicopata, mas sim o comportamento antissocial. Tal comportamento pode, como já citado, incluir alguns delitos, porém não se resume a isso. Assim, pode-se inferir que o comportamento abusivo nas relações interpessoais não chega a representar violações da lei.

O psicopata não age de modo antissocial todo o tempo, podendo, inclusive, praticar certas condutas socialmente aceitas e valorizadas, como ignorar oportunidade de realizar condutas ilícitas. Porém, é impossível afirmar por quanto tempo essa boa conduta perdurará (HENRIQUES, 2009).

Para Hare (2009), ninguém nasce psicopata, mas sim com tendências para a psicopatia. Este transtorno não funciona como uma categoria descritiva, como dizer se alguém é homem ou mulher. Trata-se de uma medida, como peso ou altura, que pode variar para mais ou para menos. Nessa compreensão, Hauck-Filho, Teixeira e Dias (2009) apontam que os traços que definem a psicopatia são, teoricamente, compartilhados por todos os indivíduos de uma sociedade, em maior ou menor grau.

Diversos autores utilizam as terminologias malsucedidos, para os psicopatas criminosos e bem-sucedidos, para psicopatas sem registros criminais. A principal diferença entre os dois grupos reside no fato que os psicopatas bem-sucedidos, como pessoas da população em geral, aparentam um comportamento bem menos antissocial do que os psicopatas criminosos (HAUCK-FILHO; TEIXEIRA; DIAS, 2009).

3. Método

Esta pesquisa fundamenta-se no método dedutivo como forma de viabilizar a tomada de decisões acerca do alcance da investigação, das regras de explicação dos fatos e da validade de suas generalizações. No que se refere aos procedimentos, o presente estudo configura-se como pesquisa bibliográfica e documental. Quanto à natureza do estudo, trata-se de pesquisa básica, objetivando-se a obtenção de novos conhecimentos que, de alguma forma, possam contribuir para o avanço científico. Do ponto de vista dos objetivos, a presente pesquisa classifica-se como explicativa e descritiva, tendo por finalidade expor e explicar o tema em análise e as relações propostas em epígrafe. Em relação à forma de abordagem ao problema, adota-se a pesquisa qualitativa, haja vista que o estudo preocupa-se, principalmente, com o aprofundamento da compreensão psicológica de determinados “grupos sociais”, quais sejam os serial killers e os psicopatas.

Para a consecução do que foi proposto, lança-se mão sobre as técnicas de revisão bibliográfica, leitura exploratória e seletiva do material de pesquisa, assim como sua revisão integrativa, no intuito de contribuir para o processo de síntese e análise dos resultados. A pesquisa foi – e está sendo – delineada da seguinte forma: levantamento e seleção bibliográfica, coleta de dados, crítica, leitura e fichamento das fontes, argumentação (discussão) e, por fim, conclusão.

A pesquisa busca descrever e evidenciar os principais aspectos relacionados à psicopatia e aos assassinatos em série, por meio de pesquisa bibliográfica, utilizando-se como fontes de busca: livros técnicos, teses, dissertações, artigos científicos e periódicos publicados por autores, instituições e entidades de reconhecida importância no meio acadêmico nacional e internacional; e relatórios, publicações, estudos e artigos de organizações e instituições nacionais e internacionais relativas ao tema em estudo.

Critérios de inclusão: estudos qualitativos publicados em português, inglês ou espanhol; estudos publicados até 2017 e; estudos que descrevam os aspectos da psicopatia, dos assassinos em série e da correlação entre esses dois assuntos.

Critérios de exclusão: estudos cujo foco central seja divergente do tema em análise; estudos com desenho de pesquisa pouco definido e/ou explicitado e; estudo publicados/divulgados sem comprovação técnica/científica por um fonte de relevância no meio acadêmico.

4. Discussão

4.1 Correlação Entre Psicopatia e Assassinatos em Série

Alguns autores apontam uma forte relação entre a psicopatia e o cometimento de crimes. Para eles, os psicopatas têm a capacidade de provocar instabilidade e instaurar um sentimento de periculosidade na vida das pessoas que os cercam, o que acaba por gerar uma angústia social (HENRIQUES, 2009; SOEIRO; GONÇALVES, 2010).

Uma característica marcante presente nos indivíduos psicopatas é a contrariedade às normas sociais de conduta. Para eles, tais regras não constituem uma força limitante, e a ideia de um bem comum é meramente uma abstração confusa e inconveniente. O mesmo pode-se afirmar em relação aos serial killers, tendo em vista sua repulsa pelas regras sociais (MARTA; MAZZONI, 2009).

Para Marta e Mazzoni (2009), os assassinos em série, evidentemente, não se tratam de pessoas normais. As autoras afirmam que tais criminosos podem ser classificados tanto como psicóticos (portadores de transtornos mentais que causam delírios e alucinações) quanto como psicopatas – neste caso, portadores do transtorno antissocial que, embora possam não conseguir controlar seus impulsos, não apresentam delírios ou pensamentos irracionais, demonstrando, pelo contrário, um elevado senso de realidade e uma inteligência acima da média.

Nesse mesmo raciocínio, Ballone e Moura (2008) afirmam que os assassinos em série, por serem, em sua grande maioria, diagnosticados com transtorno de personalidade antissocial, sabem muito bem distinguir o certo do errado. São capazes de dissimular muito bem seu lado criminoso, criando uma espécie de “verniz social” (CASOY, 2004).

Segundo Morana, Stone e Abdalla-Filho (2006), estudos comprovaram que cerca de 86,5% dos serial killers podem ser considerados psicopatas, uma vez que preenchem os critérios estabelecidos por Hare. Além disso, 9% apresentam traços psicopáticos, mas não o suficiente para serem encaixados no nível de psicopatia.

Não obstante, Hare (2009) acredita que, mesmo que o quantitativo de psicopatas entre os serial killers seja elevado (quase 90%), o contrário, entretanto, não aplica. Para exemplificar tal afirmação, o autor cita a população dos Estados Unidos, a qual acredita-se possuir cerca de 3 milhões de psicopatas, que se levada em consideração o número de serial killers em atividade (em torno de 50, à época), revela uma minúscula participação desses criminosos no universo da psicopatia.

Nesse sentido, Cleckley (1941) esclarece que os psicopatas não são necessariamente criminosos. São, pois, indivíduos que possuem determinadas características (já abordadas anteriormente) que, segundo o autor, podem estar presentes em empresários, cientistas e até mesmo em psicólogos ou psiquiatras.

Apesar de Gonçalves (2007) citar o termo “estilo de vida criminal” quando fala dos padrões comportamentais dos psicopatas, de acordo com o DSM-V, “o transtorno da personalidade antissocial deve ser distinguido do comportamento criminoso” (APA, 2014). A criminalidade, pois, não configura valor necessariamente inerente ao psicopata, o comportamento antissocial, sim (HAUCK-FILHO; TEIXEIRA; DIAS, 2009).

Hare (2013) lembra que, apesar de a psicopatia ser comumente associada à figura dos serial killers – cujos crimes, por sua natureza horripilante, parecem estar atrelados a graves problemas mentais –, os psicopatas não são loucos, de acordo com padrões psiquiátricos e jurídicos aceitáveis. Seus atos, como já citados, revelam uma racionalidade fria e calculista que, atrelada à sua indiferença para com os demais seres humanos, constituem um padrão comportamental moralmente incompreensível por pessoas normais.

O autor alerta ainda que, por mais que isso possa soar incoerente, ou mesmo “perturbador”, é necessário ter em mente o fato de que a grande maioria dos psicopatas realiza todas as suas condutas sem cometer qualquer homicídio. Não devemos, portanto, voltar todas as atenções para “exemplos mais brutais” e fecharmos os olhos para “o outro lado da moeda”, que, de fato, representa os indivíduos com transtorno antissocial (HARE, 2013).

Para Dutton (2012), é possível afirmar que a maioria dos indivíduos afetados pelo transtorno da personalidade antissocial lança mão sobre a violência de forma instrumental, isto é, como meio para se alcançar determinado fim. Ao contrário do que se imagina, a maior parte dos psicopatas não está “abarrotada” na maldade e no sadismo. É possível, inclusive, verificar-se algo de “bom” em seu comportamento. Nesse sentido, Dutton acredita que a psicopatia pode ser boa, ao menos com moderação, obviamente. Nas palavras do autor, a psicopatia é como a luz do sol: se há exposição em demasia, pode-se levar ao fim de maneira “grotesca e cancerígena” – o que ele chama de “câncer da personalidade”; ao passo que a exposição regular, de maneira controlada, pode gerar impactos positivos e significativos para o bem-estar e a qualidade de vida – o denominado “bronzeamento da personalidade” (DUTTON, 2012).

As compreensões de Hare (2009) e Dutton (2012) convergem em dois pontos principais. Primeiro, quando ambos afirmam que nem todos os psicopatas são malucos ou maus. E segundo, no sentido de não considerarem a psicopatia como uma “categoria descritiva”, como afirma Hare, ou como um “problema de tudo ou nada”, nas palavras de Dutton; a psicopatia seria uma espécie de “medida”, a exemplo da altura ou peso, que pode variar para mais ou para menos.

Nessa concepção, Dutton enxerga como fatores determinantes da psicopatia a inteligência e a violência – a depender do grau de incidência de cada um desses espectros, um psicopata pode ser classificado desde um executivo bem-sucedido ao mais temível serial killer. A principal diferença entre assassinos em série e empresários psicopatas, é que, entre aqueles indivíduos, o traquejo social é bem menor e a capacidade de agir agressivamente, bem maior (DUTTON, 2012).

Toda a discussão até aqui exposta leva-nos ao entendimento de que diversos fatores – ocorrência de traumas durante a infância, convivência em ambientes impróprios/hostis e tendências comportamentais agressivas – acabam por desencadear a incidência da psicopatia sobre a conduta de um indivíduo. Contudo, essa “inclinação para a criminalidade” não resulta, necessariamente, no cometimento de assassinatos. Na maioria dos casos, o psicopata busca outros meios (lícitos ou não) que possam satisfazer o seu prazer – a exemplo do médico, que pode manipular indiscriminadamente o corpo de um paciente durante a cirurgia, ou do soldado de elite, que pode matar seus alvos sem qualquer hesitação. Dessa forma, transformando o que, a princípio, seria inaceitável, em algo “útil” para a sociedade.

5. Considerações Finais

Este trabalho objetivou investigar a correlação entre o transtorno de personalidade antissocial, também conhecido como psicopatia, e os assassinatos em série, cometidos pelos famigerados serial killers. Os principais fatores norteadores da pesquisa foram o crescente número de casos de assassinatos em série nos últimos anos, que geram cada vez mais repercussões negativas no convívio social, bem como o esclarecimento acerca de pontos que possam conduzir a conclusões precipitadas pelo senso comum.

Dito isso, ressalta-se que em muitos casos o serial killer é, também, um psicopata. Contudo, deve-se compreender que um psicopata não tem que ser, necessariamente, um assassino em série, haja vista que somente uma ínfima parcela daqueles indivíduos é responsável por homicídios seriados. Em relação aos serial killers, conclui-se que a grande maioria é afetada por alguma patologia cerebral. Mas os psicopatas, que margeiam as normas sociais, via de regra, não se tornam matadores seriais; geralmente, a depender do grau da psicopatia desenvolvida, podem praticar, no máximo, delitos ou condutas de outros gêneros.

Os serial killers, como visto, podem, igualmente, ser psicóticos – estes, sim, doentes mentais, e não psicopatas. De certo, sabe-se que as características como desvio comportamental, impulsividade, agressividade, ausência de compaixão, superficialidade das relações sociais, entre outros, comuns aos psicopatas, facilitam o surgimento do serial killer, haja visto que a superação de condutas delituosas de menor relevância (como molestar animais durante a infância), pode acarretar na busca do máximo prazer, sendo esta saciada somente por meio do cometimento de crimes contra seres humanos.

Contudo, não se pode presumir que, por ser psicopata, um indivíduo seja, necessariamente, violento e vá, futuramente, cometer crimes, considerando-se o baixíssimo percentual de casos em que psicopatas praticam condutas delituosas, convivendo a maioria deles em sociedade “normalmente”, apresentando apenas determinados traços de personalidade que podem ser considerados antiquados, mas que não chegam a ultrapassar o limite legalmente previsto, tendo em vista que tais características comportamentais podem ser encontrados em qualquer outra pessoa.

Longe de pretender esgotar as discussões a respeito do tema, o presente estudo tem por finalidade ser uma contribuição para a comunidade científica, em especial da Psicologia, abordando assuntos de grande interesse popular, aprofundando seu estudo, mesmo que de maneira sucinta, e realizando um liame entre os mesmos. Com isso, espera-se incentivar o leitor a buscar informações confiáveis principalmente no que se refere a pautas de ampla relevância, afastando-se daquilo que reproduz, muitas das vezes erroneamente, o senso comum. Por fim, busca-se incentivar a produção acadêmica a respeito dos temas abordados, uma vez que abarcam problemas e possíveis soluções para um dos principais males da sociedade: a violência.

Resta salientar que se constatou a existência de poucos trabalhos científicos e acadêmicos que relacionam a psicopatia e os assassinatos em série, uma vez que a maioria dos estudos, especialmente no Brasil, costumam abstrair um pouco o tema e associar a psicopatia à criminalidade em geral e, não, especificamente a determinados grupos, como o dos serial killers.

Nesse contexto, ressalta-se a importância da formação de especialistas, em especial no ramo da Psicologia e da Psiquiatria Forenses, para que, dessa forma, possam ser desenvolvidos novos meios de avaliações comportamentais, não só para fins de diagnósticos, mas também como uma forma de prognosticar potenciais assassinos em série. 

Sobre as Autoras:

Poliana Sampaio Cunha Barroso - (Discente) Graduanda de Psicologia da Faculdade Cathedral, Boa Vista-RR

Profª. Msc. Mariana de Souza Cruz - (Orientadora) Mestre em Teoria e Pesquisa do Comportamento pela Universidade Federal do Pará e docente do Curso de Psicologia da Faculdade Cathedral, Boa Vista-RR.

Referências:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION - APA. Manual de Diagnósticos e Estatísticos de Transtornos Mentais DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BALLONE, G. J.; MOURA, E. C. Personalidade Criminosa. PsiqWeb. 2008. Disponível em: <http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=185>. Acesso em 21 de maio de 2017.

CASOY, I. Serial Killer: Louco ou Cruel? 6. ed. São Paulo: Madras, 2004.

CLECKLEY, H. (1941). The mask of sanity. 5. ed. St Louis, MO: Mosby.

DUTTON, Kevin. The Wisdom of Psychopaths: What Saints, Spies, and Serial Killers Can Teach Us About Success. New York: Scientific American / Farrar, Straus and Giroux, 2012.

GOMES C. C; ALMEIDA, R. M. M. Psicopatia em homens e mulheres. Arq. bras. psicol. Rio de Janeiro, v. 62, n. 1, p. 13-21, abr. 2010. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S180952672010000100003&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 02 de março 2017.

GONÇALVES, R. A. Promover a mudança em personalidades antissociais: Punir, tratar e controlar. Aná. Psicológica, Lisboa, v. 25, n. 4, p. 571-583, out. 2007.

HAUCK-FILHO, N.; TEIXEIRA, M. A. P.; DIAS, A. C. G. Psicopatia: o construto e sua avaliação. Aval. psicol., Porto Alegre, v. 8, n. 3, p. 337-346, dez. 2009.

HARE, R. Psicopata no divã. Revista Veja, São Paulo, 1 abr. 2009. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/010409/entrevista.shtml>. Acesso em: 22 de março 2017.

________. Sem Consciência: o mundo perturbador dos Psicopatas que vivem entre nós. Porto Alegre: Artmed, 2013.

HENRIQUES, R. P. De H. Cleckley ao DSM-IV-TR: a evolução do conceito de psicopatia rumo à medicalização da delinquência. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., São Paulo, v. 12, n. 2, p. 285-302, jun. 2009.

MARTA, T. N; MAZZONI, H. M, O. Assassinos em série: uma questão legal ou psicológica? Revista USCS – Direito, ano X, n. 17, jul-dez. 2009.

MORANA, H. C. P.; STONE, M. H.; ABDALLA-FILHO, E. Transtornos de personalidade, psicopatia e serial killers. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, 28, Suplemento II, p. 74-9. 2006.

Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 2008. Disponível em: <http://www.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f60_f69.htm>. Acesso em 21 de maio de 2017.

SCHECHTER. H. Serial Killers: Anatomia do Mal. Tradução de Lucas Magdiel. Rio de Janeiro: Darkseids Books, 2013. 480p.

SOEIRO, C.; GONÇALVES, R. A. O estado de arte do conceito de psicopatia. Análise Psicológica, Lisboa, v. 28, n 1, p. 227-240. 2010.

VELLASQUES, C. T. O perfil criminal dos serial killers. Presidente Prudente, 81 f. Monografia de Graduação – Faculdades Integradas Antônio Eufrásio de Toledo, 2008.

Como citar este artigo:

Seguindo normatização ABNT para citação de sites e artigos online:

BARROSO, Poliana Sampaio Cunha; CRUZ, Mariana de Souza. Correlações entre Psicopatia e Assassinatos em Série. Psicologado, [S.l.]. (2019). Disponível em https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-juridica/correlacoes-entre-psicopatia-e-assassinatos-em-serie . Acesso em .

Seguindo normatização APA para citação de sites:

Barroso, P. S. C. & Cruz, M. S., 2019. Correlações entre Psicopatia e Assassinatos em Série. [online] Psicologado. Available at: https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-juridica/correlacoes-entre-psicopatia-e-assassinatos-em-serie [Acessed 22 Sep 2020]

Seguindo normatização ISO 690/2010 para citação de sites:

BARROSO, Poliana Sampaio Cunha; CRUZ, Mariana de Souza. Correlações entre Psicopatia e Assassinatos em Série [online]. Psicologado, (2019) [viewed date: 22 Sep 2020]. Available from https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-juridica/correlacoes-entre-psicopatia-e-assassinatos-em-serie