A Beleza do Trabalho Constituindo Subjetividades

Resumo: O presente artigo busca elucidar as relações de trabalho existentes entre os funcionários, direção e clientes em um Salão de Beleza, com o objetivo de investigar a dinâmica existente entre o homem e seu trabalho e quais as consequências desta no processo saúde/doença do trabalhador. Foram realizadas observações por meio das quais, foi possível levantar os dados necessários para a análise e discussão desta proposta. Com base na discussão dos conceitos sobre beleza e a profissão cabeleireiro em conjunto com os pressupostos teóricos da Psicologia do Trabalho concluiu-se que o estar belo é uma regra nos dias de hoje, porém é necessário olhar atentamente para estes profissionais produtores de beleza, pois a realização de seu trabalho implica em inúmeras consequências, às vezes nefastas, tanto no âmbito físico quanto mental. É nesse aspecto que a Psicologia do trabalho se fundamenta, no sentido de como o trabalho auxilia a compreender o ser humano.

Palavras-chave: psicologia organizacional, subjetividade, trabalho

1. Introdução

A crescente busca pela beleza física, os cuidados do corpo e sua estética constituem uma nova forma de subjetividade na sociedade contemporânea, onde o ter e aparecer são mais valorizados que o ser. Nesse sentido, os salões de beleza ganham espaço, pois oferecem um mundo de opções, métodos e meios para esta transformação. 

Partindo deste pressuposto, procura-se conhecer este ambiente de trabalho, através da observação feita em um salão de beleza localizado na cidade de Passo Fundo/RS, com o objetivo de conhecer o funcionamento e a rotina das atividades realizadas no local, as dificuldades, facilidades e os possíveis riscos que esta atividade pode causar à saúde física e mental nas pessoas envolvidas neste trabalho, bem como entender as motivações que levam estes profissionais a atuarem neste segmento, quais as percepções que estes têm da atividade que exercem observando também a integração entre os funcionários e clientes do salão.

O objetivo deste artigo, portanto é compreender a dinâmica das relações que se estabelecem entre funcionários, direção e clientes neste ambiente de trabalho e assim entender um pouco mais a respeito da complexidade da inter-relação entre o trabalho e o processo saúde-doença. Em outras palavras, espera-se, com base numa revisão teórica e na experiência de observação no local de trabalho, poder sistematizar conhecimentos que permitam fazer uma reflexão crítica acerca dos papéis que trabalhador e organização exercem, apontando as diversas dimensões subjetivas da relação do homem com o seu trabalho.

2. Referencial Teórico

A busca pela beleza sempre esteve presente, há registros de que há 5000 a. C. já se utilizava maquiagem, produtos de beleza e adornos de cabelos e que o primeiro salão de cabeleireiros surgiu em 1635 em Paris, cujo nome era “Champagne”.  Estudiosos da história da beleza feminina mostram que, do século XVI para cá, ocorreu uma lenta descoberta de territórios e objetos corporais que foram insensivelmente valorizados. No decorrer dos séculos houveram inúmeras transformações na exploração da beleza, sendo que somente em 1970 a mulher pode escolher sua aparência segundo seu estilo de vida. Hoje a mulher tem liberdade para incorporar seu estilo, possui enorme diversificação de instrumentos, produtos e procedimentos que realizam o seu desejo de estar bela.

A profissão de cabeleireiro é uma das mais antigas da humanidade. Achados arqueológicos, como pentes e navalhas feitos em pedra, mostram que a preocupação com as madeixas vem da pré-história. Contudo, foi no Egito, há aproximadamente cinco mil anos, que a arte de cuidar dos cabelos chegou ao ápice. Foi nessa época que surgiram perucas sofisticadas, as quais mostravam a habilidade dos cabeleireiros, que gozavam de grande prestígio na corte dos faraós.

Foram os gregos que criaram os primeiros salões de cabeleireiro (koureia), em Atenas, construídos sobre a praça pública, o Ágora. Lá, os Kosmetes ou "Embelezadores de Cabelo", escravos especiais, circulavam soberanos. Os escravos cuidavam dos homens e as escravas das mulheres. No Império Greco-Romano, gregos e gregas faziam os cabelos dos romanos e penteavam as romanas. Nesses salões, discutiam-se novidades e propagavam-se as fofocas.

Se antes existiam particularidades regionais, a partir de Luís XIV, a moda francesa dominou todas as civilizações.

No começo do século XVIII, as mulheres casadas usavam uma touca para esconder os cabelos e somente o marido delas poderia ver seus cabelos soltos.

Contudo, foi no século XX que a moda dos cabelos aliou-se à tecnologia. A pesquisa científica sobre cabelos começou quando a higiene pessoal se tornou um meio de prevenir o acúmulo de piolhos e sujeira, que ficavam escondidos sob as perucas, pós, perfumes e poções que vinham sendo usados pelo homem. No início do século apareceram os salões de beleza para mulheres, os quais não serviam apenas para cuidar dos cabelos, mas eram um ponto de encontro como as barbearias na Grécia Antiga.

A partir da década de 70, houve ampla aceitação de estilos variados tanto para homens quanto para mulheres, desde os cabelos soltos e naturais até o estilo "punk".

Seja por superstição, por costume, ou por vaidade, a verdade é que o ser humano sempre dispensou, e continua dispensando, grande atenção a essa parte do corpo.

Wanderley Codo discute o trabalho como um dos grandes promotores de saúde ou capaz de ser agente psicológico na doença mental, vendo-o como uma categoria estruturante do sujeito, isto é, o ser humano se constrói pelo trabalho. Nesse sentido a Psicologia do Trabalho percebe que a experiência do trabalho real e dos trabalhadores se configura como categoria central na compreensão da subjetividade, do desenvolvimento do sujeito e dos processos saúde-doença. Assim, certos aspectos da organização do trabalho e o próprio desenvolvimento da atividade devem ser examinados de perto, junto com aqueles que trabalham no intuito de identificar situações que contribuem para o desenvolvimento e aquelas que são potencialmente perigosas a saúde mental, uma vez que a mera descrição de uma função não equivale aquilo que realmente é feito pelo trabalhador para alcançar os objetivos determinados.

Em situação de trabalho o trabalhador é convocado a lidar com problemas que não poderiam ser antecipados ou respondidos de forma satisfatória pelos chamados “procedimentos padrões”, configurando um intervalo entre o trabalho prescrito e o trabalho real e será nesse intervalo que o trabalhador irá construir de forma parcialmente singular o jeito de fazer sua tarefa. Seu modo operatório e o desenrolar de sua atividade fundam-se, sobre tudo, no reconhecimento dos problemas, das variabilidades e contradições que surgem no real do trabalho, que, raramente, são conhecidas ou analisadas por aqueles que compõem a organização e os procedimentos técnicos do trabalho. Ao prescindir da análise das situações e da organização real do trabalho, os gestores só conseguem entender os problemas que aparecem como decorrentes das dificuldades pessoais ou das relações interpessoais. Essa visão conduz frequentemente a culpabilização do trabalhador sendo comum atribuir apenas à preguiça, a má vontade ou a personalidade das pessoas a razão pela qual as coisas dão erradas, excluindo a análise do problema como uma inadequação do trabalho às características humanas. O resultado é segundo Lancman e Sznelwar (2008), que a questão do trabalho, do ser humano na produção fica relegada para segundo ou ultimo plano – na realidade o ser humano é “encaixado” na produção. Assim, para Dejours et all (1993) a questão fundamental é “Qual é o lugar do sujeito no trabalho e de que liberdade ele dispõe para elaborar um compromisso nos conflitos que surgem no confronto de sua personalidade e de seu desejo com a Organização de Trabalho?”

Todas as atividades têm exigências e decorrências, exigências físicas, ambientais, sensoriais, sensório-motoras e mentais. O trabalho dos cabeleireiros e auxiliares nos salões de beleza exige esforço e movimentos específicos que ao longo dos anos podem resultar em doenças ocupacionais. O profissional cabeleireiro tende a ser polivalente, além disso trabalha em horários extremamente irregulares e em posições desconfortáveis, durante longos períodos, não tendo horários específicos para almoço ou pausas para descanso. Muitos desses trabalhadores realizam algum tipo de esforço ou movimento demasiado para realização de suas tarefas tal como a grande quantidade de movimentos para realização de uma escova de cabelo. Atentam-se ainda para a reclamação do peso e do barulho excessivo do secador e de realizar mais de uma atividade especifica.

Assim percebe-se a importância da Psicologia do Trabalho que busca descrever e explicar fenômenos e processos psicológicos na atividade de trabalho a partir das condições estabelecidas pelo meio técnico e social. Tendo por base que não é possível pensar no trabalho deslocado da ação humana, para estudar o trabalho torna-se necessário fazer delimitações e situá-lo no contexto que ocorre, exigência, riscos, carga e desempenho humano devem ser explorados, independente da natureza da atividade que esta sendo enfocada. Priorizando o fator prevencionista, o qual interrelaciona o trabalho e o processo saúde – doença, as quais são as principais variáveis que relacionadas em certo grau, frequência e intensidade contribuem para prevalência de bem estar ou mal-estar do trabalho (AZEVEDO; CRUZ, 2006, p89-98). Dando assim o primeiro passo para o grande desafio de superar a atual distância existente entre organização prescrita e organização real do trabalho, levando em conta todos os perigos que tal distância atualmente representa – para a saúde, para a segurança e para a qualidade do que é produzido.

3. Metodologia

Baseando-se na proposta da disciplina de Psicologia do Trabalho II, entrou-se em contato com a proprietária do estabelecimento ao qual se optou realizar o trabalho, por meio da carta de apresentação, disponibilizada pelo professor/supervisor deste trabalho. Ao receber a confirmação de adesão ao trabalho, foram realizadas cinco visitas ao estabelecimento, nas quais se observava o desenvolvimento das tarefas, a organização de trabalho, o manejo com os clientes e as relações entre chefia, clientes e funcionários.

Houveram algumas conversas/entrevistas informais com a chefia e auxiliares, bem como a aplicação de um questionário abordando questões sobre o funcionamento do local, as exigências do trabalho, as percepções individuais a respeito desta profissão e a implicância deste trabalho no processo saúde-doença.

Não houve pré-agendamento dos horários para as visitas e entrevistas realizadas. Apenas solicitou-se autorização para a aplicação do questionário e para a observação das pessoas durante seus afazeres. Foram observados trabalhadores com posto de trabalho específico, somente relacionado às atividades de salão de beleza, não sendo considerados aqueles administrativos e auxiliares de serviços gerais.

4. Apresentação e análise dos resultados

O salão de beleza observado encontra-se no mercado de trabalho a aproximadamente 45 anos, passando por diversas mudanças de localização. Hoje o estabelecimento possui duas sócias proprietárias, três trabalhadoras autônomas que são responsáveis pela maquiagem e alinhamento de sobrancelha, depilação e manicure e mais cinco funcionários dentre os quais quatro são auxiliares do cabelo que realizam o trabalho de passagem de química, escova, lavagem e secagem do cabelo. Uma secretária responsável pela administração do caixa e recepção dos clientes e um funcionário encarregado pela parte financeira do salão.

Através de conversas com as funcionárias do salão a respeito do estilo da mulher de hoje e a importância de ser/estar belo nota-se as mudanças que ocorrem nesse mundo da beleza, uma vez que o estilo e a beleza são influenciados por fatores multiculturais, pelas personalidades das épocas, pelos símbolos e ideais de beleza vigentes, percebemos isto em duas falas, onde uma nos diz, “antigamente as mulheres não saiam de casa sem se arrumar, era uma época em que usavam perucas e pagar era muito barato, minha mãe dizia que a mulher pagava a penteadeira com o troco do pão” e outra agrega que o perfil de consumo mudou “hoje a mulher não passa mais sem fazer cabelo, sobrancelha e mão, é uma cliente semanal” relatando também que o estilo da mulher de hoje é muito variado, pois o cuidado se popularizou, há mais profissionais, assim como uma gama de produtos de beleza que permitem as mulheres arrumar-se em casa, “hoje tem de tudo desde a mulher que se arruma por que precisa até a mulher que se arruma por se arrumar” sendo que antigamente as mulheres, utilizavam um estilo padrão e atualmente a beleza passou a ser sinônimo de bem estar e a diversidade de estilos forma um novo perfil, a individualidade, a beleza personalizada, o que vale é ser único e ter seu próprio estilo.

A produção da beleza é total, engloba roupas, os cabelos, o andar, os cheiros, os valores e os modelos possíveis de felicidade. Neste sentido o uso de uniforme é obrigatório, as funcionárias devem estar bem maquiadas e com o cabelo arrumado, realizando cursos de aperfeiçoamento para o bom atendimento ao cliente, desde servir um café, saber abordar os diferentes clientes, oferecer a utilização e compra dos produtos bem como saber explicar sobre os produtos que estão sendo usados, divulgando assim o serviço prestado no salão, uma vez que elas ganham comissão em cima dos produtos, escovas progressivas e tratamentos que vendem ali, por isso segundo a funcionária “a abordagem começa no lavatório”.  Outra exigência desse local de trabalho é o bom humor, devem sempre sorrir e passar a impressão de estar tudo bem, pois o salão preza pela qualidade, porém constata-se através desta fala “sempre temos que estar bem alinhadas para receber o cliente, escova, maquiadas, boa aparência, bom humor, por mais que não estejamos” o desconforto de ter que representar sentimentos que nem sempre condizem com o momento.

Tendo o salão como um lugar de produção de beleza e autoestima, este deve ser um ambiente acolhedor, organizado, com boas condições físicas, sendo um meio de desenvolvimento pessoal e social, proporcionando boas condições de trabalho que acarretam em um nível de produtividade adequado. Nesse sentido tem-se o trabalhador como ator de seu trabalho, da construção de sua saúde e de suas competências.

Seguindo este conceito observa-se que a produtividade das funcionárias esta intrinsecamente relacionada com as máquinas e produtos que aceleram o processo de embelezamento, com a carga de trabalho e com o relacionamento com a chefia. Através da observação é possível notar que há um descanso na metade da tarde e que o uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI’s) é fornecido pelo ambiente de trabalho, mas não é utilizado por opção das funcionárias que acreditam que hoje os produtos são mais sofisticados e, portanto não oferecem danos a saúde. Os movimentos repetitivos fazem parte da rotina, podendo levar a Lesões por Esforço Repetitivo (LER), sendo que neste ambiente de trabalho é comum encontrar funcionárias com tendinite crônica. É sabido que os distúrbios osteomusculares e as lesões por esforços repetitivos DORT-LER, além dos transtornos psíquicos, são hoje as principais causas de afastamento no trabalho e de aposentadoria precoces, com forte impacto nas contas da Previdência.

E quanto ao barulho dos aparelhos e secadores de cabelo chama a atenção o fato de que elas não se incomodam com o mesmo, entram em sintonia como afirma uma delas, “chego a sentir falta nos finais de semana”, o que soa um tanto quanto irreal, pois o barulho incomoda.

É interessante notar a satisfação das funcionárias quanto ao trabalho que exercem “é muita satisfação vendemos beleza, bem estar e conforto, as clientes saem daqui felizes”, as quais salientam ser muito gratificante para elas as clientes saírem altamente satisfeitas com seus serviços, “umas quase têm orgasmo”. Observa-se nesta afirmação que o salão de beleza é quase um espaço terapêutico, visto que as mulheres que ali estão, buscam através destes serviços sentir-se melhores, de bem consigo mesmas, cuidar de si e claro encontrar um ambiente onde possa desabafar suas angustias  ou bater um simples papo.

Nota-se pelo relato das funcionárias que a produtividade melhorou com a contratação de uma moça só para a limpeza, pois antes eram as próprias funcionárias que eram encarregadas de limpar o salão e a exigência da chefe era maçante para elas na realização desta tarefa. Além disso, colocam que a redução da equipe foi uma atitude que colaborou para o melhor desempenho de suas tarefas, pois quando indagadas a respeito das dificuldades de convivência respondem que há tempos atrás já tiveram muitos problemas com a equipe maior “agora que a equipe ficou redondinha, não mais”. Este discurso corrobora com nossas percepções de o ambiente ser tenso e não ser muito aberto entre chefia e funcionários, outro fato que denota este aspecto é que as reuniões de equipe são realizadas em conjunto com uma assessora empresarial, a qual é encarregada de repassar os assuntos discutidos para as chefes, mostrando barreiras entre chefe e funcionários sendo que a empresa é de pequeno porte. Lembremo-nos que trabalhar não é tão só produzir, trabalhar é ainda viver junto, sendo o trabalho o maior fator de produção de sentido para a integração social.

Observa-se que as poucas falas que existem são de cunho agressivo e não construtivo o que nos leva a pensar em um ambiente de trabalho hierárquico e restringido.

Percebe-se que as funcionárias já estão nesse trabalho ha muitos anos, no entanto estas não possuem autonomia para cortarem o cabelo, “aprender a cortar o cabelo foi uma oportunidade aberta apenas este ano, antes não havia espaço” o que nos leva a questionar: seria um receio de ensinar e perder a funcionária para a concorrência ou pura questão de autoritarismo e superioridade? Ao mesmo tempo em que notamos no discurso das funcionárias que as relações são satisfatórias “como uma família” e que fazem atividade de lazer com a equipe de trabalho fora do salão, comemoram aniversários ou apenas se encontram para relaxar e trazem uma chefe sempre pronta para ajudar priorizando o aprendizado, elevando-as “as melhores professoras são as chefes”.

O público alvo do salão são homens e mulheres, sendo a maioria de classe média, média alta, pois o salão por possuir um status já consagrado na cidade é de alta qualidade o que também é visto pela presença de clientes que frequentam o salão há anos. Assim observa-se que a escolha do salão é feita pelo seu diferencial, pois procura preservar o estilo de cada mulher, não seguindo a massa da população. Diante disso tem-se uma clientela muita exigente, mas as funcionárias dizem sentir-se preparadas para tal exigência, afirmando também que não há clientes chatos, apenas alguns que por estarem com problemas pessoais, acabam descarregando nelas “mas a gente tira de letra”.

5. Considerações finais

O artigo procurou ilustrar as dinâmicas relacionais no ambiente de trabalho, observando o conteúdo simbólico presente neste, com seus aspectos invisíveis, com as relações subjetivas do trabalhador, com sua atividade, com o sofrimento e desgaste gerado pelo trabalho e com seus efeitos sobre a saúde física e mental dos sujeitos. Diante disso percebe-se que há uma incessante busca pela beleza física a qualquer custo, ao mesmo tempo que estudos atuais aliam a beleza com a saúde e o bem estar. Com isso os salões de beleza se tornam o grande pólo fornecedor desta beleza transformando-se ás vezes em grandes centros de estética.

Nesse sentido o profissional cabeleireiro acaba agregando a sua função cada vez mais serviços deixando a carga de trabalho mais extensa e intensa. Tendo-se em vista que o trabalho é o elemento central na promoção do desenvolvimento psíquico e da constituição da identidade observa-se também uma promoção de doenças ligadas ao trabalho, evidencia-se assim um paradoxo - se, por um lado, o mundo do trabalho é gerador de sofrimento – na medida em que confronta as pessoas com imposições externas – por outro, o trabalho é também a oportunidade central de crescimento e de desenvolvimento psíquico do adulto. Ou seja, se o trabalho leva ao sofrimento, este mesmo trabalho pode constituir-se em fonte de prazer e de desenvolvimento humano do sujeito tanto quanto adoecimento. Lembrando que o caminho que conduz o trabalho saudável é o mesmo que respeita a identidade em sua construção plena dentro de um trabalho cuja organização seja eticamente prescrita, respeitando potenciais e limites da condição humana, levando à criatividade e ao comprometimento com a realização de um trabalho de alta qualidade.

Conforme visto na análise ocorrem algumas percepções sobre o local, dentre elas podemos citar o clima de tensão existente no ambiente, dificuldade de abertura entre funcionários e chefias, o que pode se levar a pensar em um certo grau de hierarquia, o qual poderia ser aprimorado através de encontros com a chefia que visem a discussão e reflexão dos assuntos relativos ao dia-a-dia de trabalho. A carga física também é muito intensa devido aos movimentos repetitivos que necessitam fazer em seu trabalho, bem como a carga ambiental no manejo dos produtos químicos utilizados. O que pode ser minimizado com a ginástica laboral diária e com o uso de EPIs.

Sabe-se que estas sugestões assim como o objetivo desse trabalho não acabarão com os problemas referentes ao processo de saúde-doença do trabalhador, mas conceberam novas formas de olhar este trabalho, como afirma Dejours, “não podemos conceber uma organização do trabalho sem sofrimento, mas organizações do trabalho mais favoráveis a negociação da superação desse sofrimento”.

Sobre os Autores:

Eloisa Bocchi Barbiero - Aluna da disciplina de Psicologia do Trabalho II, V nível do curso de Psicologia da Universidade de Passo Fundo.

Juliê da Cunha Putrich - Aluna da disciplina de Psicologia do Trabalho II, V nível do curso de Psicologia da Universidade de Passo Fundo.

Referências:

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