A Relação de Trabalho: Sob a Ótica da Clínica da Atividade do Profissional Bombeiro no Município de São Mateus/ES

(Tempo de leitura: 8 - 15 minutos)

Introdução: Neste artigo temos como objetivo compreender os processos e organização do trabalho à partir de uma entrevista semi dirigida realizada à um profissional do Corpo de Bombeiros na cidade de São Mateus/ES. Entre várias perguntas e respostas, algumas foram significativas para serem evidenciadas neste artigo, como por exemplo: Ao ser questionado sobre algum tipo de adoecimento no ambiente de trabalho sua resposta foi: “Não, mas já me senti psicologicamente frustrado e esgotado, por não conseguir solucionar algumas questões que não estavam ao meu alcance”. Tal cobrança demanda confrontos, sentimentos e estratégias de defesa em um espaço coletivo e potencialmente criativo e transformador, ampliando assim o conceito do trabalho Prescrito e Real. Assim, diante desta compreensão é possível reorganizar, problematizar e propor um método capaz de produzir novas normas para o enfrentamento das adversidades encontradas no cotidiano de trabalho. Uma proposta interventiva de ferramentas metodológicas e funcionais sob a ótica da Clínica da Atividade no campo da Psicologia do Trabalho.

Palavras-chave: Estratégia, Saúde, Sofrimento.

1. Introdução

O trabalho para o ser humano é de extrema importância em sua sobrevivência e realização. É através do trabalho que o homem se realiza transformando a natureza em algo que sonha, deseja e necessita. Conforme o homem transforma a natureza, ele também vai se transformando e se aperfeiçoando, até porque o homem possui diferentes tipos de necessidades, ou seja, este processo é contínuo e ininterrupto.

O trabalho, então, é a transformação da natureza para a satisfação das necessidades humanas. É condição para existência da sociedade e sua constante evolução. Ao transformar a natureza o homem se reconhece no seu produto e fica orgulhoso daquilo que fabricou. Ele enxerga o lápis e se reconhece no objeto que produziu, como se olhasse em um espelho. Assim, o trabalho é, (...) ou seja, produz objetos e utensílios que vão servir à humanidade para suprir determinada necessidade, e, portanto, é indispensável para a existência de sociedades (ZANANDRÉA, 2012, s/p).

Esta evolução faz parte da condição humana e de sua construção enquanto sujeito. O homem necessita do trabalho para se transformar, ficando então orgulhoso daquilo que está produzindo. Sem ele, há uma “quebra” em sua autoimagem, afetando sua evolução.

Por outro lado, com o capitalismo, houve uma alteração desse pensamento, afetando a sociabilidade do homem e sua emancipação. A lógica do trabalho, enquanto evolução é alterada. Fica claro que, a revolução industrial possibilitou o surgimento de contradições no mundo do trabalho; ou seja, quanto mais se produzia, mais as classes se dividiam na sociedade. Isso se deu através do capitalismo, separando os trabalhadores dos proprietários das fábricas (donos do capital) (ANTUNES, 1998).

Sendo assim, nenhum objeto surge do nada. Há uma necessidade do homem para realizar determinado trabalho, ou seja, sempre vão surgir novas necessidades ou situações que fazem com que a história do homem não se repita. É através do trabalho que o homem concretiza todo o seu conhecimento (ANTUNES, 1998).

Desta forma, Lukács (1978) apud Antunes (1998) define que o trabalho é um ato de  pôr consciente e, portanto, pressupõe um conhecimento concreto, ainda que jamais perfeito, de determinadas finalidades e de determinados meios. Nesse contexto, o autor ainda enfatiza que o trabalho também é fundamental na vida porque é a condição para a sua existência social. Por isso, quando o homem em qualquer tempo histórico trabalha somente para realizar  as necessidades de outra pessoa, caracteriza-se um trabalho alienado, pois, a satisfação é dada para a classe dominante e para o desenvolvimento da riqueza dessa classe.

Iamamoto (2010) diz que o processo de alienação é inerente à produção capitalista, dominando o próprio homem e suas relações sociais, onde o pensamento fetichista converte a relação de produção em uma coisa (dinheiro). Conforme o capital se expande mundialmente; a exploração do trabalho aprofunda as fraturas, lutas e desigualdades, impulsionando as crises e sofrimentos [01]. Produzindo então um homem incentivado a processar, captar e devolver as informações com seu comportamento, tornando-se assim um “homem máquina”.

Não temos dado espaço para que o pensamento possa ser lugar de resposta, de reprodução de verdades, mas sim de inquietude, de exercício de invenção, de afirmações provisórias que, em lugar de calar, possam provocar, produzir sempre novas possibilidades (TEIXEIRA, 2008, p.13).

Sendo assim, a Clínica da Atividade surge com a proposta de um homem capaz de mudar a natureza e ser modificado também por ela; um homem que procura romper com a sua própria mecanização e a otimização do trabalho, reorganizando novas formas de trabalhar através dos fazeres compartilhados. Indo além das atividades prescritas mas capaz de dialogar consigo mesmo e compartilhar suas ideias e experiências; tornando possível então, romper com o sofrimento produzido, com o intuito de fortalecer sua saúde e por fim, obter a capacidade de alterar uma situação opressora, criando novas formas de agir, entendendo e potencializando o “não dito” que surge no dia a dia do trabalhador.

De maneira que, à partir de algumas respostas dadas pelo profissional do Corpo de Bombeiro da cidade de São Mateus/ES, foi possível pensar na Clínica da Atividade como uma ferramenta metodológica através de oficinas; ampliando assim o espaço vivido pelo trabalhador gerando a capacidade dele criar propostas para um futuro melhor.

2. Indo Além do Trabalho Prescrito X Trabalho Real

Voltando-se para o entrevistado em sua resposta dada “(...) mas já me senti psicologicamente frustrado e esgotado, por não conseguir solucionar algumas questões que não estavam ao meu alcance”. Uma resposta rica em material teórico; é possível perceber a limitação e a frustração por não conseguir ir além das normas, da obediência; do código de conduta militar, e da hierarquia que rege todas as regras em seu ambiente de trabalho.

Sob comandos e regras, o corpo de Bombeiros, de acordo com o art. 5º da Organização Militar Estadual (OME) do Espírito Santo, segue as mesmas hierarquias e condutas dadas a Polícia Militar do Espírito Santo (PMES). Caracterizando assim, o respeito, a disciplina militar, a obediência, a dedicação em tempo integral se for necessário e as penalidades sofridas caso alguma regra seja descumprida (BRASIL, 2000).

Mesmo sabendo que na prática de um trabalhador existem diferenças entre o que está estabelecido como normas prescritas em sua conduta e o que realmente se executa no seu dia a dia; para o bombeiro, esta diferenciação torna-se ainda mais “dolorosa”, pois supera as tarefas de um trabalhador civil; sendo seu trabalho prescrito uma condição de conduta legalmente imposta; ou seja, seu processo, sua atuação segue normas inquestionáveis em sua prática. Porém, como em qualquer prática, haverá sempre situações distintas do que foi determinado por terceiros. Sobre isso, o autor Andrade (2017, s/p.) diz que:

 Essa defasagem existente entre trabalho prescrito (tarefa) e trabalho real (atividade) se deve ao fato de as situações reais de trabalho serem dinâmicas, instáveis e submetidas a imprevistos. Isso acontece porque as prescrições são recursos incompletos, uma vez que desde a sua concepção elas não são capazes de contemplar todas as situações encontradas no exercício cotidiano de trabalhar.

Significa a presença de variáveis no cotidiano que transcende normas e regulamentos; mas, não deixam de serem contraditórias e gerarem conflitos internos no bombeiro  entrevistado. Esse sentimento de frustração é gerado pela vontade de ir além do prescrito e real, devido a incapacidade de executar de uma forma mais completa e definitiva ações em determinadas situações, pois, a execução se esbarra na obediência a uma hierarquia militar que rege todas as normas e regras no trabalho.

Em um segundo momento é questionado sobre seu sentimento quando ele falta ao trabalho, ao qual responde: “Não me sinto confortável, porque quando falta material humano temos que ajeitar muitas coisas pela demora da liberação das licitações”.

Percebe-se na entrevista que o prescrito está longe do real até mesmo onde os pontos fortes são as normas por viver de acordo com o regime militar, pois, a burocracia dificulta a execução dos afazeres, fazendo assim que o imprevisto emerja dificultando o batalhão em executar suas tarefas corretamente; acarretando: desvios de funções; sobrecarregando alguns; escassez de mão de obra; matéria prima qualificada; verbas para algum tipo de acabamento específico e contratação de um profissional especializado para determinado serviço.

Quando o trabalhador é impedido de colocar em prática sua criatividade, ou seja deixar de realizar sua demanda para exercer atividades solicitadas fora da sua área ou função; nesse momento, ele se sente frustrado ou sobrecarregado, pois desvia os seus conhecimentos para execução de atividades que estão sobre a sua competência, causando, assim, aborrecimento por não dar conta de finalizar o seu trabalho imposto no dia.

Não basta reorganizar formas de executar tarefas, ampliar o prescrito e o real; é necessário problematizar o trabalho, abrindo espaços para a coletividade e mudanças na maneira como trabalhamos.

A globalização e os avanços tecnológicos aproximam pessoas de diferentes nacionalidades em uma densidade cada vez maior, onde uma constante mestiçagem de forças fazem as pessoas acompanharem o contorno da situação, muitas vezes não é definida; colocando em “cheque” seus habituais contornos, pulverizando com isso a identidade, criando padrões de comportamento estereotipados pelo trabalho e consumidos pelas subjetividades que muitas vezes resistem a esta lógica (ROLNIK, 1996).

(...) um novo modo de subjetivação (...) parecem estar traumatizando o saber psicanalítico (...) se a psicanálise não puder suportar os efeitos (...) da desestabilização (...) com certeza outros métodos serão capazes de fazê-lo (...). Há sem dúvida, outras forças em jogo. Elas aparecem nas tentativas de problematizar a situação que estamos vivendo... (ROLNIK, 1996, p.5).

Então à partir desta problematização, é possível que o Estilo de Ação [02] sofra mudanças em seu Gênero [03], ampliando as maneiras que o trabalhador execute suas tarefas e o conceito da Atividade. Um conceito que facilitará a compreensão daquele trabalhador que estiver entrando em sofrimento.

Cabe uma tomada de consciência da proporção e magnitude da subjetividade contemporânea que perpetua nas relações sociais em uma rede de fios embaralhados, onde o sujeito se aliena e os profissionais urgem por teorias e técnicas que acompanhem tamanha densidade. O importante é que a Clínica da Atividade corresponda tais expectativas e não se corrompa ao furor da pulverização e globalização.

3. A Clínica da Atividade Promovendo Saúde

À partir do real da Atividade é possível o homem (trabalhador) se diferenciar das máquinas, estando o homem como protagonista, e não como mero executor. O homem se vê naquilo que ainda não foi verbalizado, não foi realizado e nem aconteceu. Algo que advém de seu desejo e pensamento e que ao seu modo poderia ser executado.

(...) a atividade dos sujeitos se encontra não afetada, quando as coisas, na esfera profissional, começam a estabelecer entre si relações que ocorrem independentemente dessa iniciativa possível. Paradoxalmente a pessoa age, mas não está ativa. Essa desafecção deprecia o sujeito, torna-o menos real, para além dos efeitos sobre sua saúde, torna a atividade impedida (ALVES, 2013 apud ALVES; SILVA, 2014, p. 64).

Em detrimento a este assunto, o entrevistado Bombeiro ao ser questionado sobre a  existência de alguns desafios em sua prática profissional a resposta foi: “Sim, os Recursos Humanos que dificulta um pouco as liberações e a carga horária, pois grande parte da tropa mora fora da cidade”.

O processo de limitação da capacidade de criar novos modos de vida; sofrimento por não conseguir alterar uma situação agressora (conforme citado na entrevista, existe uma dificuldade grande em viver em ambiente familiar devido ao tempo de deslocamento e a dificuldade de conciliar horários para lazer e momentos fora da unidade de trabalho, deixando de vivenciar datas e momentos que seriam de suma importância para estrutura familiar mais sólida.

Então, há um processo dinâmico e contínuo, estando o Trabalho Prescrito – o Real e o Real da Atividade. Todo esse processo possibilita ao homem uma transformação que do interno se estende para o externo. Nesse instante, o homem deixa de admitir uma única norma prescrita pelo seu trabalho, diminuindo sua vida e deixando-o doente para algo majestoso, para uma saúde de pura criação de novas normas com poder de agir de maneira inventiva e potencialmente cheio de possibilidades.

Sendo assim, à partir da Clínica da Atividade a metodologia parte do princípio do trabalhador ser capaz de analisar sua atividade, visualizando mentalmente o que poderia ser feito nos processos analisados. Isto permitirá que os instrumentos sejam melhores definidos, indo de encontro a melhor oficina a ser utilizada como método de análise. Que neste caso seria como proposta a : “Oficina de Fotografia”.

Ao propormos o método da oficina de fotos, estamos fazendo com que as controvérsias e diferenças de pensamento existente surjam, em parte, em um diálogo mediado por vários interlocutores e, nos casos bem sucedidos favorecendo que o trabalhador se coloque como protagonista da ação (ALVES; SILVA, 2014, p. 65).

Estando então como um protagonista, o bombeiro e seus colegas de trabalho serão capazes de tomarem decisões, escolherem, improvisarem e criarem meios para viabilizar as tarefas prescritas. Será uma atividade desenvolvida e realizada coletivamente, mediando todos os conflitos que surgem no cotidiano de suas funções. Através das fotos produzidas e observadas por todos, será possível emergir vários assuntos convergentes e divergentes mas, com finalidade de fomentar uma produção, um diálogo coletivo e a capacidade de auto confrontação cruzada cujo finalidade final será que os Bombeiros sejam capazes de ação (OSORIO, 2011 apud ALVES; SILVA, 2014).

4. Conclusão

O grupo de trabalho baseou muitas das discussões em material didático fornecido pela professora da disciplina de Relações Sociais e de Trabalho sob a perspectiva do autor Clot (1998, 2008) debatidos em sala de aula. Uma visão geral desta relação entre o poder do trabalho na vida dos sujeitos.

Através deste trabalho foi possível aprofundar uma aprendizagem de métodos a serem utilizados enquanto futuros psicólogos; em que prioriza um olhar voltado para este trabalhador através da Cínica de Atividade. Uma ferramenta do profissional para incentivar uma produção e transformação saudável no cotidiano do trabalho.

Mesmo sabendo da existência do Trabalho Prescrito e Real, é importante reconhecer essa dinâmica que perpassa o Real da Atividade, fazendo com que este trabalhador após problematizar suas tarefas, seja capaz de criar, reorganizar e ampliar sua atuação de maneira coletiva. Tudo voltado para a obtenção de uma vida saudável, com capacidade de tirar entre os parêntese suas ricas atividades e novas produções; diminuindo assim seu sofrimento neste processo.

Sobre os Autores:

Edilson Santos de Araújo - Graduando Psicologia pela Faculdade Multivix.

Jadilson Alves de Almeida - Graduando Psicologia pela Faculdade Multivix.

Geiza Coelho Barbosa - Graduanda em Psicologia pela Faculdade Multivix.

Mairessa Mello - Graduanda em Psicologia pela Faculdade Multivix.

Referências:

ALVES, Emanuelle de A. P.; SLVA, Claudia O. Clínica da atividade e oficina de fotos: eletricistas em foco. Programa de Mestrado e Doutorado em Psicologia, UCDB - Campo Grande, MS. Revista Psicologia e Saúde, v. 6, n. 2, jul. /dez. 2014, p. 62-71. Disponível em< http://www.gpec.ucdb.br/pssa/index.php/pssa/article/view/360> Acessado em 25 de novembro de 2017.

ANDRADE, Ariel de. Você sabe qual a diferença entre trabalho prescrito e trabalho real?. Assessor de Vendas da RH Consultoria Júnior – UFMG. Postado em 5 de março de 2017. Disponível em< http://rhjr.com.br/diferenca-entre-trabalho-prescrito-e-trabalho-real/> Acessado em 25 de novembro de 2017.

ANTUNES, R. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. Campinas/SP: Ed.Cortez, 1998

BRASIL. Decreto no 254-R, de 11 de Agosto de 2000. Aprova o Regulamento Disciplinar da Polícia Militar do Espírito Santo. Disponível em< https://agempmbmes.com.br/leispdf/1478193464.pdf> Acessado em 20 de novembro de 2017.

IAMAMOTO, Marilda Villela. Serviço Social em Tempo de Capital Fetiche. Ed. Cortez, 2010, p.48-59.

ROLNIK, Suely. Toxicômanos de identidade : subjetividade em tempo de globalização. Caderno Mais da folha de São Paulo em 19/05/96. 5p.

TEIXEIRA, Danielle V. Experimentações em Clínica da Atividade: cartografias na escola. Universidade Federal do Espírito Santo – Centro de Ciências Humanas e Naturais – Programa de Pós Graduação em Psicologia Institucional. Vitória, 2008. Disponível em< portais4.ufes.br/.../tese_3110_DANIELLE%20VASCONCELOS%20TEIXEIRA.pdf> Acessado em 25 de novembro de 2017;

ZANANDRÉA, Flávio. A Persuasão da História. Postado em 18 de novembro de 2012. Disponível em< http://profeflavioz.blogspot.com.br/2012/> Acessado em 18 de novembro de 2017.

Leia mais com Kindle

Tenha a melhor experiência de leitura com seus livros em um Kindle.

Curso online de

Psicologia Organizacional

 Psicologia Organizacional

Curso 100% online e com certificado de 60 Horas

Boletim por e-mail

Junte-se aos mais de 98.210 leitores que recebem nosso boletim eletrônico:


Parceiros

Portal Psicologia