Análise de uma Entrevista com Policial Realizada em uma Cidade do Oeste Baiano

Análise de uma Entrevista com Policial Realizada em uma Cidade do Oeste Baiano
(Tempo de leitura: 3 - 6 minutos)

Resumo: O presente estudo busca compreender a relação do trabalho com o homem e a natureza, compreende-se que o trabalho é a forma que o ser homem reflete sua própria ação impulsionadora, a qual regula e controla seu intercâmbio com a natureza. O objetivo foi problematizar e compreender o impacto da atividade policial em sua vida familiar como também na sua saúde. A metodologia utilizada foi qualitativa, ou seja, não tem pretensão de numerar ou medir unidades ou categorias homogêneas. Como instrumento, foi aplicada uma entrevista semi-estruturada na sala de Custódia do Complexo Policial em uma cidade do Oeste baiano.  Nos resultados foram constatados que a dinâmica familiar do policial é afetada devido aos plantões extras realizados no período da noite, durante suas folgas, restando-lhe pouco tempo para usufruir do lazer com a família. Quanto à saúde desse profissional foi possível verificar que o entrevistado apresenta estresse, tensão muscular, insônia, apatia, cansaço excessivo, tristeza e sensação de incapacidade. Tais fatores intensificam frente às funções em preenchimento de Boletim de Ocorrência (BO). Cabe acrescentar que esta clientela é caracterizada de risco para Síndrome de Burnout. Conclui-se que o trabalho policial acarreta sofrimento psíquico que afeta as relações familiares e à sua saúde. Assim, é necessário pensar políticas públicas preventivas, educativas, promotoras de saúde e bem-estar voltadas para esses profissionais da Segurança Nacional. 

Introdução

Segundo Marx (1980, p. 202) o trabalho é um processo de que participa o homem e a natureza, processo em que o ser homem com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. O trabalho, é portanto, necessário à vida humana, a partir dele os indivíduos se constroem e transformam realidades. Contudo, conforme a situação, o mesmo pode ser fator tanto desencadeante como agravante da saúde mental e física do trabalhador.

Partindo dessa perspectiva, o presente estudo tem como objetivo problematizar as condições de trabalho de um profissional da Polícia Civil, a partir de uma entrevista semi-estruturada a qual o entrevistado foi submetido (vide apêndice), na tentativa de compreender o impacto da atividade policial em sua vida social e familiar, bem como, em sua saúde.

Para tanto, será feita uma análise crítica dos dados coletados a partir de perspectivas teóricas sugeridas por Marx, Codo e Seligman-Silva.

Metodologia

Foi aplicada uma entrevista semi-estruturada na sala de Custódia do Complexo Policial em uma cidade do Oeste baiano. Faz-se aqui necessário, salientar a preservação do anonimato do entrevistado, tendo em vista que sua identidade será mantida em sigilo.

Análise de Dados

A jornada de trabalho do entrevistado é quinzenal, oito horas por dia. Segundo o mesmo, o trabalho necessita de certo cuidado e atenção por estar em contato direto com os presidiários, também exerce a função de realizar cadastro de familiares.  Segundo Seligman-Silva (1994) a carga de trabalho pode ser entendida como o conjunto de esforços físicos, cognitivos e emocionais, desenvolvidos para atender às exigências das tarefas. No caso de sobrecarga, ocorre quando um esforço para se realizar uma atividade se torna exagerado ou sem medida, resultando num desgaste e sofrimento que acaba comprometendo a saúde, resultando em cansaço excessivo, insônia, irritabilidade e perda de senso de humor.

Ao se tratar das relações de amizade na instituição, o policial civil entrevistado afirma que “são boas”. Considerando que para qualquer trabalho manter-se produtivo e em harmonia se faz necessário uma boa interação entre a equipe, o entrevistado relata que tal interação pode ser vista no rodízio feito entre a equipe plantonista: “o sistema de rodízio possibilita o descanso, pois cada um pode dormir um pouco na madrugada, na tentativa de minimizar o cansaço e o estresse adquiridos no cotidiano”.

Na dinâmica que envolve qualquer trabalho podem ocorrer relações de ambivalência entre o sofrimento e o prazer. Pode-se afirmar que no dia-a-dia do policial, os serviços prestados estão intimamente ligados à violência, sofrimento, agressão, entre outras coisas. O entrevistado cometa saber do perigo e risco que corre todos os dias e quando foi perguntado sobre, quais são os maiores riscos da profissão o mesmo respondeu que “o risco de perder a vida continua sendo o maior de todos”.

De acordo com Codo (1999) os policiais estão entre as profissões de risco para o Burnout, uma síndrome em que o trabalhador perde o sentido de sua relação com o trabalho, passando a apresentar uma reação de tensão emocional crônica gerada a partir do contato direto com outras pessoas no ambiente de trabalho, experimentando três fases que variam desde uma exaustão emocional, despersonalização até falta de envolvimento pessoal no trabalho.  O entrevistado raramente apresenta tal quadro sintomático: estresse, tensão muscular, insônia, tontura, sensação de incompetência, apatia, tristeza e cansaço excessivo. Enfatizou que tais sintomas eram mais intensos quando desempenhava funções em preenchimentos de Boletim de Ocorrência (BO). 

Para o Policial Civil sua profissão lhe exige bastante atenção e agilidade, sobretudo por lidar com infratores e estar exposto a situações que ameaçam sua vida. Quando questionado sobre a prioridade que o mesmo dava ao seu trabalho, comentou que este ficava em primeiro plano, já que era dele que retirava o seu sustento. O que reforça a hipótese que o mesmo ainda não se encontra num quadro de Burnout, tendo em vista que o mesmo coloca seu trabalho em primeiro plano caso estivesse com a síndrome, o mesmo perderia totalmente o interesse pelo trabalho, demonstrando não aquentar mais tal situação.

A dinâmica familiar também é afetada diretamente pela profissão exercida pelo policial, pelo fato de ter que realizar plantões extras às noites, durante as folgas, restando-lhe pouco tempo para usufruir do lazer com a família. Dentre as atividades realizadas nas mínimas horas de lazer estão: ir ao Rio de Ondas a cada quinze (15) dias e jogar futebol com os amigos.

Considerações Finais

Diante do exposto, percebe-se um considerável sofrimento psíquico que atividade policial acarreta para a vida do entrevistado, interferindo em sua saúde, relações familiares e sociais.

Apesar de o Policial Civil exercer uma carga horária de trabalho de quinze dias consecutivos e intensos (trabalha de 15 em 15 dias), vale ressaltar que tais atividades apesar de serem quinzenais e que geram desgastes físico e psíquico. Apesar de este trabalho ser cansativo, o resultado do questionário não evidenciou um quadro sintomático grave, mas sim um leve nível de estresse.

Considerando a importância da atuação dos policiais para a segurança da sociedade, este estudo vislumbra a necessidade de pensar políticas públicas voltadas para esses profissionais, visando medidas preventivas, educativas e promotoras de saúde e bem-estar. Aliás, conforme propõe Codo (1999) tais profissionais estão entre a clientela de risco para a Síndrome de Burnout.

Referências:

CODO, W. Educação, Carinho e Trabalho. Petrópolis: Vozes, 1999.

MARX, Karl. O Capital (Crítica de Economia Política) Livro 1, vol. 1 , Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 6ª. Edição, 1980.

SELIGMAN-SILVA, E. Desgaste Mental no Trabalho Dominado. Rio de Janeiro: UFRJ, 1994.

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