Assédio Moral Com Trabalhadores Bancários: Humilhação e Reação

Assédio Moral Com Trabalhadores Bancários: Humilhação e Reação
(Tempo de leitura: 28 - 56 minutos)

Resumo: O presente artigo busca identificar as formas de assédio dentro da instituição bancária, assim como as consequências relatadas pelos sujeitos de pesquisa. Através de uma pesquisa qualitativa com sete voluntários foi possível verificar, além do sofrimento, as formas de reação que esses trabalhadores, os sujeitos de pesquisa, encontram para suportar essa horrível demanda. Observa-se sofrimento intenso derivado dos modos organizacionais nesse meio e, a decepção frente às atitudes de um banco que busca a cada dia, ganhos imensuráveis através de um trabalho desumano.   

Palavras-chave: Assédio moral, Trabalho, Banco, Sofrimento.

1. Introdução

A pesquisa “Assédio Moral no Setor Bancário: Humilhação e Reação” investigou a influência do assédio moral em trabalhadores bancários e seus reflexos, tanto para sua vida profissional quanto para a pessoal. Portanto, o problema de pesquisa configura-se na seguinte pergunta: - Quais os sentidos pessoais, profissionais do assédio moral segundo a percepção dos sujeitos trabalhadores do segmento bancário? O problema desdobra-se em perguntas subsequentes: Quais os tipos de assédio identificados no contexto da pesquisa?; Quais os reflexos e repercussões do assédio moral na sua trajetória de vida?; Quais as resistências do trabalhador bancário em relação ao assédio moral?; Como o trabalhador elaborou seu conflito?

A presente pesquisa foi desenvolvida através da abordagem qualitativa, caracterizando um estudo do tipo exploratório, utilizando a análise de conteúdo. Portanto as verbalizações dos sujeitos envolvidos foram mensagens que passaram por um sistema de categorizações. Tal análise serviu para agrupar e classificar determinados elementos que possuem um sentido comum. A pesquisa qualitativa, segundo Minayo (2010), é um procedimento racional e sistemático que tem como objetivo proporcionar respostas a problemas complexos.

A busca dos participantes foi realizada de forma aleatória, através de canais de comunicação com o Sindicato dos Bancários em Porto Alegre. Dessa forma, conforme as indicações deste órgão, obtivemos sete profissionais do setor bancário que sofreram assédio moral no ambiente de trabalho e estavam buscando auxilio para reparação do dano nesta instituição.

Como principal instrumento, foi empregada a entrevista semi-estruturada que, segundo Gil (2008) é uma ferramenta que permite, ao pesquisador, observar desde a postura do entrevistado até mesmo a maneira que expressa suas emoções, garantindo uma maior profundidade e flexibilidade proporcionando melhor resultado nas respostas.

Segundo Deslandes (2012), através da análise de conteúdo, pode-se encontrar respostas para as questões formuladas e também pode-se confirmar ou não as afirmações estabelecidas antes do trabalho de investigação. A escolha pelo assunto dessa pesquisa manifestou-se pelo interesse de conhecer a realidade vivenciada por trabalhadores que desempenham suas atividades profissionais dentro de instituições financeiras. Na antiguidade, a história revela que as atividades ligadas aos serviços financeiros, realizadas pelos bancários/ ourives, trazia grande poder e status para o trabalhador que a exercia.

Após diversas mudanças, devido a crises mundiais e a busca incessante pelo lucro e a sobrevivência das grandes instituições bancárias, também os reflexos decorrentes das crises no Brasil, desencadeou uma reestruturação no trabalho, a fim de proteger as instituições financeiras para que as mesmas não sofressem com crises futuras. Deu-se início a muitas mudanças no modus operandi nas instituições bancárias para o trabalhador.

O Panorama econômico mundial sofreu diversas mudanças ao longo das décadas. O sistema bancário redefiniu sua forma de atuação deixando de lado seu cunho social, tornando-se uma máquina cujo principal objetivo é o lucro aos seus acionistas. A economia globalizada sofreu alguns baques em seu sistema que teve reflexos nos principais bancos privados, o que gerou desemprego, demissões voluntárias e necessidades de readaptação dos trabalhadores em seus postos de trabalho, novos produtos foram sendo desenvolvidos para venda pelos bancários que são obrigados a traçar rotas mortais para atingir metas de vendas de produtos que sequer são atrativos para os clientes o que torna os escriturários atores de uma peça sombria em busca de um negócio que nem mesmo eles sabem o propósito.  A tecnologia surge também como um concorrente forte no que diz respeito à precarização do trabalho dos escriturários. Em uma agência onde era necessária uma equipe de 15 empregados, hoje com os caixas eletrônicos e máquinas de auto-atendimento, reduziu a equipe para um terço.

Jornadas extenuantes, exposição à violência urbana e os ataques a agências bancárias. A concorrência interna pela permanência e manutenção do emprego, as doenças ocupacionais que geram dor e sofrimento ao trabalhador tornam-se um foco de adoecimento para esse perfil dentro do sistema bancário.

Muito se conhece de assédio moral e ou humilhação de superiores para com esses funcionários, sendo assim, o que os motivam a continuar nesse trabalho? É possível permanecer? Quais os impactos causados por essa experiência e de que forma é subjetivado pelo individuo assediado?

Todos os trabalhadores a serem entrevistados serão escolhidos de forma aleatória, onde podem ter algum vínculo pessoal ou profissional, assim como podem desconhecer uns aos outros. Busca-se através da pesquisa, entender como se transforma a subjetividade dos trabalhadores, no que tange a organização do trabalho, as relações de trabalho e os impactos na saúde mental destes trabalhadores.

Pode-se a partir desse conhecimento, modificar a forma como as empresas, representadas por seus líderes e gestores veem e atuam contra as práticas de assédio moral, mudando também a forma de verem esses grandes profissionais dentro da empresa, assim como a sociedade que pode posicionar-se de forma a prevenir e combater práticas de assédio consideradas inaceitáveis e que como consequência trazem danos psicológicos, sociais muitas vezes irreparáveis, incapacitando ao trabalho, sujeitos fisicamente saudáveis, porém afetados do ponto de vista moral e afetivo.

O Trabalho em empresas pode auxiliar a enxergar diversos estilos de assédio, a ponto de conseguirmos buscar a mudança nesses locais, nesses padrões de gestão, ocorrendo assédio de maneira hierárquica, com trabalhadores operacionais. Na convivência com profissionais da área jurídica trabalhista, foi possível verificar um grande número de ex-bancários que buscam na justiça forças para reparar, de uma maneira financeira, os danos que seu trabalho gerou.

Nesse ponto, nos interrogamos até que ponto o sistema capitalista está interligado com os assédios dentro da empresa, e de que maneira a gestão do trabalho é executado nesses locais? Profissionais com bons níveis de escolaridade, que escolheram sua carreira profissional, sejam por status, salários ou sonhos, optaram por esse trabalho e hoje carregam consigo marcas irreparáveis.

2. Trabalho

Conforme Cattani e Holzmann (2006), o trabalho é atividade produzida através do dispêndio de energias física e mental, direta ou indiretamente voltada à produção de bens, contribuindo, assim, para a evolução do homem, individual e social. De acordo com Barreto (2006), o trabalho, ao longo vida em sociedade, é fundamental na relação do homem com a natureza.

Cria-se uma troca, colocando em movimento a vida humana, seus órgãos, aparelhos e sistemas, na busca de produtos, os quais o alimentarão, vestirão e permitirão sua reprodução e produção social. O homem, com sua ação, transformam seu entorno e, nesse processo, é transformado. Devolve a sociedade, humanizando-se.

Conforme Cattani e Holzmann (2006), a noção de trabalho humano associa-se a um duplo significado. De um lado penoso, e de outro, gratificante. Segundo Barreto (2006), na Europa, o sentido do trabalho foi comparado por muito tempo ao esforço do ato realizado pela mulher na hora do parto, onde aparece misturado a dor e a criação, e foi glorificado como destino do homem. A corrente humanista via no esforço do trabalhador e na realização do trabalho o mais alto grau de potência na criatividade humana, enquanto o marxismo compreendia o trabalho como central no “reino das necessidades”, que se torna um elemento fundamental da essência do homem. 

O sentido do trabalho constitui um processo complexo resultante de um contexto de interações e construções sociais que envolvem o campo da auto-realização, da independência, da valorização e da sobrevivência. Contém a objetividade e a subjetividade individual/coletiva, e envolve um intricado jogo de sentimentos, emoções, pensamentos, desejos e necessidades. É reflexo da maneira como percebemos e vivemos nossa história, as relações e as interações com o outro. É o “tudo” de nossas vidas, nosso modo particular de “olhar” o mundo (BARRETO, 2006, p. 127).

3. Sofrimento no Trabalho

Para Dejours (2003), o sofrimento é descrito como o campo que separa a doença da saúde e em um conceito menos restritivo que envolve a psicodinâmica do trabalho, onde se aplica em determinadas situações um espaço de liberdade que permite negociações e um plano de liberdade ao trabalhador para adaptar as suas necessidades e desejos à realização das suas atividades, existindo nesse ponto uma relação que, fluindo de forma satisfatória, traz o prazer ao sujeito. Porém, quando essa fluência é bloqueada ou não há o equilíbrio na relação entre o homem e a organização, passa a desencadear o sofrimento e a luta contra este.

A relação do homem com a organização do trabalho é origem de carga psíquica do trabalho. Uma organização de trabalho autoritária, que não oferece uma saída apropriada à energia pulsional, conduz a um aumento da carga psíquica (DEJOURS, 2003, p. 51).

Para Codo (1994), os trabalhadores, quando estão em sofrimento, rompem com a ideia de afeto/trabalho, utilizando do afeto restritamente à família e ao lar, expulsando assim o trabalho da sua relação afetiva; sendo assim, o trabalho se torna insuportável.

Conforme Chalant (1996), os sofrimentos estão associados a fatores históricos, laborativos e àqueles favoráveis ou não para a vida do trabalhador, relacionados à própria vida humana e ao trabalho, sendo descriminados como: 1) Sofrimento singular: herdado da história psíquica de cada indivíduo; 2) Sofrimento atual: quando ocorre reencontro do sujeito com o trabalho; 3) Sofrimento criativo: quando o sujeito produz soluções favoráveis para sua via, principalmente para sua saúde; 4) Sofrimento patogênico: quando o sujeito produz soluções desfavoráveis para sua vida, que está relacionada com a sua saúde.

4. Trabalho Bancário no Brasil

Conforme Jinkings (1996), o trabalho bancário assume um status diferenciado no mercado financeiro, uma vez que deixa de atuar de forma conduzir trabalhos burocráticos, passando para uma consultoria de negócios, sendo necessárias características próprias do trabalho imaterial.

Segundo Harvey (2001), nas décadas de 1960/1970, a flexibilização estava unicamente no setor monetário, o que levou a uma onda inflacionária. O desencadeamento do processo inflacionário conduziu o capital a repensar suas estruturas, buscando a reestruturação. Ainda como consequência dessa nova fase, há uma mão-de-obra que vem tornando-se cada vez mais barata, e trabalhadores que são sobrecarregados de trabalho.

De acordo com Dieese (2014), essas alterações provocam mudanças no agir do trabalhador bancário, que tem de adequar-se as novas exigências, constituir-se em sujeito de respostas mais rápidas, uma vez que seu trabalho está acompanhando a velocidade dos computadores. O bancário tradicional, denominado antigo, que tinha como principal meio de trabalho a moeda, começa a perder espaço para um novo bancário, um profissional que tem na informação sua principal ferramenta de trabalho.

Informam Grisci e Bessi (2004), que há ainda uma significativa mudança no status da profissão bancário, que vive ameaçada pelo desemprego proveniente de processos de automatização de serviços. Assim como Segnini (1999) já relacionava a redução no mercado de trabalho bancário à eliminação de postos de trabalho superpostos, superposição de agências, reestruturação das formas de gestão, fusão de postos de trabalho, bem como ao uso intensivo de tecnologias da informação.

Segundo Grisci e Bessi (2004), antes da onda mais forte de automatização bancária, iniciada no Brasil, nas décadas de 1980/1990, o trabalho bancário tinha um sentido diferente dos dias atuais. A natureza do trabalho, o seu produto e o status da função de bancário proporcionavam a esses trabalhadores um sentimento de importância para a sociedade.

O processo de reestruturação para dentro (reorganização interna) dos bancos brasileiros ocorre mais intensamente a partir da segunda metade da década de 80, e caracteriza-se pela redução dos custos operacionais, intensificação da automação, desenvolvimento e incentivo ao auto-atendimento, mudanças nas táticas de gestão, redução de postos de trabalho e terceirização (GRISCI; BESSI, 2004, p. 15).

Para Segnini (1999), a implantação de políticas econômicas financeiras governamentais possibilitou aos bancos se reestruturarem, em termos operacionais, mantendo a obtenção de lucros, reduzindo os custos operacionais com o uso da informática, que criou novos modos de comunicação, inclusive com os clientes, como, por exemplo, o home bank.

Conforme Grisci e Bessi (2004), por volta de 1990, com a institucionalização da figura de banco múltiplo e o fim da exigência da carta patente para abrir uma instituição financeira, se aceleraram as mudanças nos bancos, aumentando a concorrência no mercado bancário brasileiro. Assim, no final de 1994, o sistema financeiro brasileiro direciona-se ao desenvolvimento de novos produtos e serviços, ao tratamento diferenciado de clientes, conforme o perfil de renda e potencial de consumo dos serviços e produtos financeiros.

Conforme Segnini (1999) existem três fenômenos sócios que caracterizam o processo de reestruturação nos bancos: grande desemprego, terceirização e precarização do trabalho, e aumento na carga de trabalho. Para Laranjeira (1997), com a entrada de bancos estrangeiros no país se cria uma nova concepção de serviços bancários, trabalhando com a prestação de assessoria aos clientes e não clientes, para ajudá-los na aplicação de seus recursos. E, como consequências negativas de todas essas medidas, se ilustram redução de postos de trabalho no setor bancário, assim como um esforço maior, tanto fico quanto mental, na ambiente de trabalho.

5. Assédio Moral no Trabalho

Conforme Espíndula (2006), assédio moral no trabalho pode ser compreendido por uma agressão moral, repetida e prolongada que acomete os trabalhadores em situações humilhantes, constrangedoras e de desqualificação no ambiente de trabalho. Essa prática ocorre de forma mais comum, em situações de trabalho onde há relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, nas quais a vítima é geralmente subordinada à pessoa que assedia, não descartando a ocorrência entre colegas do mesmo nível hierárquico. O assédio moral é caracterizado pela intenção do agressor de debilitar a vítima nas relações de poder, humilhando-a e constrangendo-a.

O assédio moral leva a degradação das condições de trabalho, influenciando diretamente o grau de produtividade, tanto do funcionário, como também da instituição em que acontece. Afeta a subjetividade e a autoestima dos trabalhadores, podendo ocasionar graves danos à saúde física e mental, podendo também levar a incapacidade laboral, ao desemprego, à depressão e até a morte (ESPÍNDULA, 2006, p. 33).

Para Zenun (1998), no assédio moral, as dores, os sentimentos e os sofrimentos pertencem ao maior patrimônio do ser humano, que tem alma, onde as lesões possuem maior intensidade e é individual, variando de pessoa para pessoa. Segundo Espíndula (2006), cada país tem uma maneira de referir-se a esse fenômeno e em 1996, o sueco Heinz Leymann chamou-o de “psicoterror”, utilizando do termo “mobbing” para designar as práticas perversas nas organizações.

Para Nascimento (2011), entre os direitos fundamentais do trabalhador está a proteção à vida e integridade física, onde se enquadra a preservação do meio ambiente do trabalho, e é garantida não apenas a subordinados, mas àqueles que pessoalmente prestam serviços não subordinados também, em especial aquele que, na qualidade de autônomo, executa serviços sem subordinação a outrem.

Conforme Nascimento (2011), a primeira condição que o empregador está obrigado a cumprir é assegurar aos trabalhadores um local ao qual possa ter o desenvolvimento das suas atividades em ambiente moral e rodeado de segurança e higiene. Para esse fim, além de outros, é que surgiu o direito do trabalho.

6. Assédio Moral em Trabalhadores Bancários

Segnini (1999) esclarece que as reestruturações produtivas nos bancos resultaram no fechamento de inúmeras agências; as que restaram, sofreram fortes enxugamentos e a terceirização dos serviços foi intensificada, que acabam por modificar a estrutura do setor bancário e reduziram postos de trabalho.

Neste novo modelo de gestão das instituições financeiras, merece destaque o papel dos programas de qualidade, à medida que tais estratégias modulam, de forma sutil, a subjetividade dos trabalhadores, cooptando-os a serem produtivos, flexíveis, motivados, etc. Além disso, a remuneração variável, atrelada à produtividade e ao alcance de metas, também se constitui pela intensificação do trabalho e extensão da jornada laboral. Contribui, ainda, para o comprometimento das relações sociais entre colegas, tendo em vista que a remuneração depende da produtividade do grupo de trabalho, gerando controle deste sobre o trabalho de cada um e alimentando a competitividade. Também, as metas comumente são estabelecidas por superiores hierárquicos, de forma autoritária e unilateral, e não raramente são consideradas inatingíveis pelos trabalhadores (JACQUES; AMAZARRAY, 2006, p. 97).

Na perspectiva de Fonseca (2002), à reestruturação produtiva ou à (des) reestruturação produtiva, vista a bagunça posta no mundo do trabalho, sucede-se à (des)reestruturação subjetiva.

O assédio moral no trabalho apresenta-se como um importante fator de risco no trabalho bancário, podendo acarretar graves consequências sobre a saúde. Caracteriza-se como uma forma sutil de violência, que, em geral, institui-se de modo insidioso e invisível nas relações de trabalho e compreende uma diversidade de comportamentos: pressões psicológicas, coações, humilhações, intimidações, ameaças, atitudes rudes e agressivas, comportamentos hostis, violações de direitos e assédio psicológico (JACQUES; AMAZARRAY, 2006, p.102).

Chalant (1996) chamou de “neurose da excelência” um quadro típico, onde o trabalhador toma para si, psicologicamente, os modelos de gestão da organização e a reproduz de maneira sintomática. Nesse sentido, pode-se verificar que os modelos de trabalho contemporâneo contribuem significativamente para gerar sofrimento e transtornos psíquicos.

Ultimamente, têm sido descritos aumentos da prevalência da síndrome de esgotamento profissional em trabalhadores provenientes de ambientes e trabalho que passam por transformações organizacionais, como dispensas temporárias do trabalho, diminuição da semana de trabalho, sem reposição de substitutos e enxugamento (downsizing) na chamada reestruturação produtiva (BRASIL, 2001, p. 192).

Segundo Segnini (1999), a exigência de polivalência no trabalhador bancário merece destaque, pois se refere a comportamentos esperados do bancário vendedor que modulam determinadas formas de ser e de trabalhar: disposição e habilidade para vender produtos e serviços, para competir, ser amável, comunicativo, equilibrado, responder às demandas dos clientes, saber fidelizar o cliente para o banco, ser capaz de adaptar-se ao intenso ritmo de trabalho, e tolerar a pressão e o estresse.

7. Apresentação e Análise dos Dados

As categorias oriundas das falas dos sujeitos foram assim nomeadas: motivos pelos quais o sujeito foi vítima de assédio, os tipos de assédio nas instituições bancárias, compartilhamento da experiência do assédio, atitudes frente ao assédio, busca de auxílio médico – psicológico, desligamento da empresa e retorno ao trabalho, repercussões do assédio na vida dos trabalhadores bancários, atividade atual, ensinamentos frente ao assédio, atitudes ao ser testemunha de assédio, reparação do dano. Tais categorias representam a análise de conteúdo, consequente das entrevistas semiestruturadas, dividas por unidades de sentidos percebidas por semelhança discursiva. Anteriormente, a apresentação das categorias supracitadas dará a ver, alguns dados para estruturar o contexto dos sujeitos, como as diversas formações educacionais, faixas etárias e gênero, bem como, a trajetória profissional sintetizada.

NÚM.

NOME

IDADE

SEXO

ESCOLARIDADE

1

NV

51

F

SUP. INCOMPLETO

2

RR

42

M

SUPERIOR

3

EM

51

M

MÉDIO

4

LR

49

M

SUPERIOR

5

ED

46

F

SUP. INCOMPLETO

6

LC

36

M

SUPERIOR

7

ARM

46

F

SUPERIOR

7.1 História Profissional:

NV: Iniciou carreira aos 17 anos, através da indicação de um tio que já trabalhava no banco, fazendo teste e sendo aprovada. Atuou em todas as áreas administrativas de uma agência. Por cursar arquitetura, acabou atuando no setor de engenharia do banco. Motivações: Oportunidade de fazer faculdade, e achar que estava trabalhando na área.

RR Iniciou como escriturário em 1993, pelo interesse financeiro, desenvolvendo carreira até atingir o cargo de gerência geral. Motivações: Salário acima da média, condições facilitadas para obter crédito e status social.

EM: Iniciou em 1984, como praticante através de indicação, sendo promovido para escriturário. Hoje atua no cargo de supervisor. Motivações: Oportunidade de crescimento e status social.

LR: Iniciou carreira em 1982, em banco privado através de indicação, atualmente atua em banco de origem internacional como gerente regional do departamento de câmbio. Motivações: Para poder atuar na mesma área de estudo, comércio exterior.

ED: Iniciou em 1994 em banco privado através de indicação familiar, atualmente ocupa o cargo de assistente de gerência. Motivação: Atendimento ao público.

LC: Iniciou em 2004 em banco público por razões financeiras, atualmente atua como escriturário no mesmo banco. Motivações: Reconhecimento e oportunidades de ganho.

ARM: Iniciou em 1989, por indicação do chefe da irmã, trabalhando com vendas de capitalização em uma empresa do grupo bancário. Devido à escolha por um curso diurno, pediu transferência para turno da noite. O setor fechou e foi transferida para o jurídico onde trabalha atualmente.

7.2 Motivos pelos quais o sujeito foi vítima de assédio:

Os motivos alegados foram: venda do banco, troca para banco privado, políticas, não enquadramento no perfil esperado pela nova reestruturação, metas inatingíveis e diminuição do quadro de funcionários acarretando acúmulos de serviços. Conforme as falas, estas indicam a solidão e o desmantelamento relativo à privatização que fez com que as pessoas perdessem a dimensão do valor de seu perfil profissional. A grande carga de trabalho vindo da nova forma de organização e exigência em processos e resultados transformaram seus sujeitos. Foram sucateados e jogados “fora”, assim como os próximos trabalhadores que também virão.

Conforme Hoefel (2003), uma das primeiras ações dos programas de reestruturação foi à redução de pessoal, através de demissões ou de programas de demissões voluntárias. Tais ações são geradoras de grande ansiedade e competitividade entre os pares. A identidade do trabalhador é ameaçada, os atributos de valor a ela associados se desfazem e a identidade psicológica tem dificuldade de se reconstruir a partir de outros parâmetros. Para aqueles que permanecem na instituição bancária, além do desgaste pela intensificação do trabalho, são comuns sentimentos de culpa, ansiedade, depressa, além de muito sofrimento psíquico, caracterizados como “síndrome do sobrevivente”.

NV: Ah.. Foram muitos motivos, tipo: venda de banco, troca para banco privado, outra política, não me enquadrava mais no perfil, assim como vejo tantos outros que estão passando pelo mesmo que eu já passei.

ARM: O que vejo hoje é que o grande problema do banco é o mínimo de funcionários para uma demanda extremamente alta, com muita pressão psicológica. A reestruturação ocorrida dentro dos bancos acarretou diversas mudanças dentro de todos os setores. O enxugamento de pessoal, as demissões voluntárias, o aumento da carga de trabalho, pressões para aumento das vendas e cumprimento de metas, privatização de inúmeros bancos, assim como fechamento e ou fusões causaram o sentimento chamado “síndrome do sobrevivente”, e fizeram parte dos motivos de assédio moral.

Já nas falas abaixo, pode-se perceber que as metas são motivos de stress e de sentimento de culpa e humilhação pelos bancários. O interesse da instituição em obter mais, acaba por exacerbar nas cobranças profissionais, prejudicando o trabalhador bancário psicologicamente.

Conforme Kalil (2013), no contexto atual das cobranças pela obtenção de resultados, é importante estabelecer até que ponto as exigências feitas pelo empregador são aceitáveis e estão dentro dos limites do poder de gestão, e quando tais cobranças são exageradas e desmedidas, tornando a conduta do empregador abusiva, afetando o estado psicológico e social do trabalhador, configurando assim o assédio moral.

RR: Na minha opinião, a maioria dos profissionais de bancos privados, em algum momento de suas carreiras sofreram algum tipo de assédio, normalmente executados pela chefia imediata. No meu caso, pensando no caso das metas, ao ser comparado com resultados dos demais colegas e ter sido desrespeitado em publico nas reuniões ou até mesmo no próprio ambiente de trabalho.

EM: Devido a não conseguir atingir as metas absurdas, fui exposto em frente aos colegas de forma humilhante.

LR: Sofri com muita exposição, metas abusivas e não mensuráveis. ED: Porque vendia com qualidade e empatia e acabava sendo descriminada e humilhada. Não conseguia bater as metas.

LC: Cobranças absurdas. As metas eram colocadas e não importava a maneira como seriam realizadas.

Haja vista que as metas são resultado de uma sociedade capitalista que protege o setor no nosso país, e a busca por resultados pela instituição não mede esforços para esses trabalhadores. As cobranças do setor bancário, no trabalho atual, causam humilhações, exposições, discriminações, comparações, insultos e desrespeito, em um lugar onde a ética profissional não mais importa na busca por lucros de uma instituição que só cresce a cada dia nesse país.

7.3 Tipos de Assédio nas Instituições Bancárias

Os tipos de assédio que apareceram nas instituições bancárias foram: assédio organizacional e assédio vertical descendente. As falas demonstram que no assédio organizacional, o sujeito sofre com o abuso do poder por parte do empregador. A busca por produtividade pela instituição invade o psicológico do trabalhador, gerando mal estar psíquico e esforços físicos além do que corpo suporta.

Conforme Alvarenga (2011), configura o assédio moral organizacional  condutas abusivas, de qualquer natureza, exercido de forma sistemática e prolongada, dentro de uma relação de trabalho, e que resulte na humilhação ou constrangimento de uma ou mais vítimas, com finalidade de enfraquecimento subjetivo de todo o grupo à políticas e metas da administração.

Logo, de acordo com Dejours (2003), o medo é utilizado pela direção como alavanca para fazer trabalhar. Assim, a direção mantém voluntariamente os trabalhadores em um estado de alerta permanente. O medo serve à produtividade.

NV: O assediador foi o banco, de várias maneiras, como cobranças de metas, tendo horário pra chegar e não tendo horário para sair, muitas horas extras que não foram pagas, levando trabalho para casa para atingir as metas, viajando e não tendo horário pra chegar em casa.

ED: Através de metas abusivas por parte do banco. Por mais que se esforçasse, não tinha como batê-las.

A instituição, como empregador, dentro de uma organização de trabalho abusiva, obriga seus subordinados a seguir normas e regras pertencentes àquele local, onde não é possível argumentações ou questionamentos, muito menos, que suas exigências não sejam cumpridas. O mercado de trabalho no meio bancário está aberto para profissionais que obedeçam, cumpram e batam as metas impostas pela instituição, e o medo de perder seu lugar é usado como “motivador” para atingir os resultados esperados.

Entretanto, de acordo com as falas que aparecem abaixo, o assédio vertical descendente é um dos assédios mais reconhecidos e presentes no banco. A chefia ou superior imediato agem conforme as normas institucionais e atravessam o espaço individual de cada sujeito e dominam seu psicológico causando o psicoterror.

De acordo com Luckemeyer (2008), a forma vertical de assédio ocorre entre sujeitos de diferentes níveis hierárquicos, que estão envolvidos entre si, por uma relação jurídica de subordinação. Esse assédio pode subdividir-se em descendente ou ascendente. O assédio vertical descendente é a conduta abusiva praticada pela direção da empresa ou pelo superior hierárquico em relação ao subordinado.

NV: O mais grave para mim foi minha chefia ter ficado 8 meses num andar eu e meu colega sozinhos, sem chefia, sem atividade, até mesmo sem cartão ponto, nos deixando juntamente com móveis velhos, sem uso, me senti um lixo, foi como se a empresa dissesse para mim: não te quero mais. Aí eu me perguntava, eu não mereço isso, porque fez isso comigo? Eu que sempre fui leal, honesta, te dei minha juventude, minha vida, abri mão de muitas coisas importantes na vida de uma mulher. Pode ser que eu tenha coragem e fale mais tarde. Pelo fato de que o banco não pode me demitir e nem rebaixar o salário, a resposta foi de exclusão tanto por pressões abusivas como em colocar trabalhadores em locais insalubres. Seria como uma vingança e uma reação à saída. Quando voltamos, retornamos para algo bem pior.

RR: O assédio aconteceu pela chefia imediata. Como característica posso dizer que é ameaçador, trata os subordinados aos berros, não aceita explicações por parte dos assediados.

EM: Meu superior direto foi quem fez assédio comigo. Posso dizer que ele é truculento e trata os subordinados de maneira humilhante e constrangedora.

LR: O assédio ocorreu através dos superiores imediatos. Era uma pessoa determinada, mas sem gestão, trata os funcionários sem respeito na hora de cobrá-los. Ahh... Por exemplo: reunião sul americano – Brasil, Argentina e Chile – o superior dizia “Porto Alegre escutem o que vocês estão fazendo” e colocava o som de uma descarga.  Vocês têm metas esse mês, se não ocorrer, cabeças irão rolar.

LC: Meu assediador foi o superintendente.  Ele é fechado e arrogante. Acontecia por exemplo o seguinte: Ou você faz, ou está demitido.

ARM: Gerente imediato me assediava muito. Uma pessoa sem qualquer polimento, grossa e má. Ele não sabe o que é gerência de pessoas. Tipo, ele ficava atrás de mim, vendo o que eu estava escrevendo no computador e ouvindo as ligações para comprovar se eram profissionais. Era chamada de incompetente, sempre buscando um defeito no trabalho para me xingar. Acusava que eu era o problema e que eu nunca seria promovida. Fazia isso na frente de outros colegas que até choravam de presenciar aquelas barbaridades. Fui impedida de fazer um curso oferecido pelo banco, pois meu gerente achava que o meu sistema estava com muito trabalho pendente.

O assédio moral vertical descendente é caracterizado por uma linha de “cima para baixo”. Há casos diferentes nesse formato de assédio, porém em todos os casos, a má gestão e ou a falta de intimidade com o cargo ocupado faz com que este assédio seja o mais abrangente dentro dos bancos. Além de trabalhar em um local onde ocorre o assédio de forma “natural”, os superiores conseguem aumentar o grau do dano causado com atitudes humilhantes, grosseiras e desrespeitosas.

7.4 Reação perante o assédio

Esta categoria divide-se em duas sub-categorias, sendo elas: Compartilhamento no âmbito privado: médico e família e Compartilhamento no âmbito  público: Grupos de Apoio Solidário.

7.5 Compartilhamento no âmbito privado: médico e família

Foi possível observar na fala dos sujeitos a busca por profissionais que pudessem atender a demanda do sofrimento individual. Essa ajuda é importante e se faz necessária. É evidente a busca por profissionais da saúde, seja através de médico ou psicólogo. A busca demarca bem o período no qual o trabalhador começa a tomar consciência de que o assédio lhe gerou uma doença. Existe aqui, uma marcação cronológica: antes e depois do assédio.

Conforme é possível verificar nas falas abaixo, os sujeitos apontam a necessidade da busca especializada médica / psicológica para as demandas existentes.

NV: Fiquei muito depressiva, fui me tratar com psiquiatra, levei 2 anos em tratamento, mas são atitudes que marcam para o resto da tua vida, e que  procuro esquecer, mas estão lá como uma ferida, que é só mexer que ela vem, me faz muito mal relembrar e contar meu passado bancário, mas penso que minha experiência pode ajudar os mais novos. Prefiro falar de um Banco que sempre teve consideração por mim, que apostou e me concedeu vários cursos, viagens, mas vejo que tudo era ilusório. Hoje, nos encontramos doentes e com idade, não há mais interesse, ai vem o descaso e a discriminação, não há interesse pelo Banco de saber o quanto e o que fez pelo banco.

Para Carreteiro (2003), o acontecimento que causa impacto na existência traz em si uma ruptura. Ao romper com a ideia ilusória de linearidade, separa o tempo entre o antes e o depois do acontecimento. Essa ruptura produz a necessidade de buscar outros sentidos, pois o sujeito não se representa mais como antes.

LR: Sim, busquei ajuda médica e psicológica. Sabe, chegou um ponto que eu tinha pilhas e pilhas de requisições médicas e psiquiátricas na minha gaveta, até um dia que deixei tudo no meu trabalho e sai caminhando. Simplesmente, larguei tudo naquele momento e sai caminhando, sem saber pra onde ou porquê... A partir daí passei a fazer o que tinha que ser feito para cuidar de mim.

ARM: Sim, quando eu não aguentava mais eu comecei um tratamento com um psiquiatra. Antes, enquanto eu ainda trabalhava e buscava trabalhar conforme exigido, eu me tratava com um médico clínico geral que muito me ajudou, mas chegou um ponto que só um especialista entenderia meu desespero. A partir daí, comecei a procurar ajuda psiquiátrica e psicológica.

O auxílio médico e psicológico é uma necessidade após todo acometimento de sofrimento gerado pelo trabalho. É visivelmente marcado por duas fases de antes e depois. Momentos importantes, que de alguma maneira fizeram parte da história daquele sujeito, demarcam o início de uma nova trajetória de elaboração, uma nova visão, um novo apoio que, de certa maneira, estão ligadas ao profissional da saúde que está ao seu lado e atende a essa demanda.

No compartilhamento da experiência do assédio moral com a família, amigos ou médico particular, aparecem também aqueles que acreditam que não devem compartilhar esses sofrimentos com os outros, seja por desconfiança por parte destes ou por vergonha da situação, como aqueles que buscam forças de apoio nas pessoas próximas.

LR: Sim, busquei ajuda de amigos e família, mas em casa é bom esquecer, pois levei muito trabalho pra casa, os problemas meus e dos outros e acho que isso ajudou, e muito, para me separar, depois de estar casado há 7 anos.

ED: Sim, compartilhei meus sentimentos com família e também amigos. Muitas vezes eu chorava em casa, depois do trabalho, e eles me escutavam.

LC: Sim, minha esposa também e bancária e nos ajudamos diariamente.

ARM: Todos os meus colegas do jurídico sabiam e comentavam. Toda a minha família sabia e principalmente meu esposo que me ouvia e via chorar todos os dias.

Muitos bancários optam por dividir o peso dos seus locais de trabalho com a família e amigos, tentando transformar a realidade vivida, diariamente, em uma situação mais suportável para o mundo do trabalho e seu mundo interno, buscando um mecanismo de defesa do trabalho de uma forma coletiva. O banco te exige como um “casamento”, onde muitos deixam suas famílias e vidas particulares em busca de sucesso na carreira profissional, levando para dividir em casa só situações desagradáveis. Então, muitos possuem a preocupação para não exagerar nas reclamações e colocações em casa, visto que querem ter bons momentos em família. Um paradoxo é gerado, pode-se dividir e não enlouquecer ou não destruir laços que devem ser livres da carga do banco, ou dividir e elaborar contando com o risco de certa “contaminação” de uma paz familiar desejada, mas já ameaçada pela insalubridade da vida lá fora.

7.6 Compartilhamento no âmbito público: Grupos de Apoio Solidário - GAS

Nas falas seguintes, demonstram a importância do coletivo e fontes de apoio na vida de trabalhadores em sofrimento. O coletivo que se atualiza para estes trabalhadores em um grupo de apoio oriundo do sindicato dos bancários faz com que seja possível, suportar melhor as situações que causam desconforto e mal estar psicológico aos trabalhadores. Além disso, o grupo gera um núcleo identificatório que desfaz a solidão e o enclausuramento decorrentes do assédio moral.

Dejours (1997) define as estratégias de defesa coletiva como o mecanismo pelo qual o trabalhador busca modificar, transformar e minimizar sua percepção da realidade que traz sofrimento. É um processo mental, pois geralmente não modifica a realidade de pressão patogênica imposta pela organização do trabalho.

Conforme conseguimos observar nas falas abaixo, o grupo de apoio, com encontros semanais, troca de experiências, apoio de colegas com histórias muito parecidas, torna-se essencial para reabilitação da saúde mental e emocional dos sujeitos.

Conforme Netz (2006), um coletivo que trabalha em prol dos mesmos objetivos adquire força e consciência de sua capacidade e poder para enfrentar e resolver problemas que atingem a todos.

RR: Sim, procurei ajuda médica e psicológica, assim como do GAS.

ED: Sim, busquei ajuda médica e após psiquiátrica para todos os meus problemas. Porém o que tem me ajudado muito é o nosso Grupo.

LC: Sim, busquei auxílio em ambos, médico e psicológico. E o Grupo tem me ajudado muito, pois são encontros semanalmente, onde tu é muito bem acolhido e troca experiências muito semelhantes com outros colegas.

A importância dos grupos de apoio traz consigo a possibilidade de enfrentar as dificuldades, de dividir experiências e, de poder aprender com o outro. A força coletiva para combater problemas comuns àquele grupo, torna os problemas mais suportáveis e ajudam na produção de estratégias para cada momento vivenciado.

RR: Sim, busquei ajuda e compreensão de amigos e família, que foram e estão sendo muito importante para a me ajudar a superar os períodos mais difíceis, assim como o Grupo de Apoio.

EM: Algumas vezes, busquei auxilio da família, mas não queria ficar sempre incomodando. O maior apoio que encontrei foi no GAS.

7.7 Desligamento da Empresa e o Retorno ao Trabalho

Não houve desligamento da empresa para nenhum dos sujeitos, porém todos estão afastados pelo INSS por diversos motivos individuais. Separamos os sujeitos entre os que não pretendem retornar ao trabalho e os que pretendem. De acordo com as falas abaixo se pode perceber que embora não tenha havido desligamento da empresa, a maioria dos sujeitos entrevistados, não há vontade de retornar a atividade anterior na mesma empresa.

Conforme Ramos et al. (2008), o rompimento pelo adoecimento traz a necessidade de aprender a conviver com a dor, a dor física e a dor psicológica: ora a dor física referente à patologia, ora a dor psicológica ligada ao rompimento, ao “não posso mais”, ao sentir-se inútil e, ao mesmo tempo, à acusação de “simulação” (os trabalhadores sentem que os outros não acreditam neles). Esses sujeitos, ao falarem do que não podem, conseguem dizer da possibilidade de não retorno ao trabalho, das dificuldades, receios, resistências, vantagens e desvantagens em relação ao retorno. Estes aparecem referenciados no corpo e no impacto do trabalho sobre ele, mostrando, ao mesmo tempo, a face da produtividade e da inutilidade.

NV: Não me desliguei, apenas estou afastada pelo INSS. Já retornei várias vezes, mas volto a ficar no benefício para cuidar da LER/DORT e depois retorno. No momento, não quero retornar.

RR: Houve uma tentativa de desligamento, quando a empresa percebeu o evidente adoecimento. E, não tenho intenção de retornar.

EM: Houve tentativa, mas acabei afastado pelo INSS, mas não tenho condições psicológicas de retornar.

ED: Não tive desligamento. Estou no INSS, e não pensei em retornar ainda

LC: Não me desliguei. Estou afastado temporariamente do trabalho, através do INSS. Não pretendo retornar no momento.

ARM: Em março de 2013 ele me deu a carta de demissão, porém quando fui fazer o exame demissional deu inapto, porque eu já estava doente e foi abortada a minha demissão. Fui para o INSS e estou afastada faz um ano e um mês, com o benefício por acidente de trabalho. Meu benefício encerra nesse mês (abril) e vou pedir prorrogação. Sinto muita falta do meu trabalho (trabalhei desde bem novinha), mas ainda não estou preparada para voltar.

A falta de interesse no retorno ao trabalho após o afastamento pelo INSS é pelo fato de retornarem ao local de origem de todo sofrimento. Todos gostariam de voltar a produzir como profissionais, mas não querem voltar ao ambiente que os afastou. Há receio em vivenciar o que já foi vivido por eles e retorno torna-se mais doloroso à medida que a instituição já perdeu o interesse por esse profissional “doente”.

Conforme fala abaixo, embora estar afastado do INSS, o sujeito diz querer retornar ao trabalho na empresa e ocupar novamente o seu cargo, apenas aguardando o cuidado necessário consigo.

Conforme Ramos et al. (2008), o retorno àquele trabalho, se transforma em importante objetivo das suas vidas e na forma de refazer a identidade de um bom trabalhador, reconhecido pela instituição por sua capacidade produtiva.

LR: Não me desliguei, só estou afastado até cuidar de mim, após pretendo retornar ao trabalho e poder mostrar novamente o meu potencial profissional.

Existe o fato de querer retornar ao trabalho de origem e poder mostrar que ainda é útil para aquela instituição. O poder sentir-se produtivo faz do seu afastamento um momento que foi necessário, porém passageiro na sua trajetória profissional.

7.8 Repercussões do Assédio Moral na Vida dos Trabalhadores Bancários

Nas repercussões do assédio moral na vida dos trabalhadores bancários podemos observar diversas consequências, tais como: o ostracismo, as doenças psicossomáticas e o stress pós-traumático. Conforme as falas abaixo os sujeitos se mostram em um estado de ostracismo perante aos acontecimentos, relacionados ao assédio moral sofrido, e o fato de estarem sem o ato de trabalhar e manter o seu emprego.

De acordo com Antunes (2010), o trabalho desempenha papel fundamental na vida das pessoas e, na sociedade capita­lista, se observa sua grande valorização e o consequente desprestígio da pessoa excluída do processo produtivo. Assim como, para Castel (2002), o emprego representa para o sujeito a posse e o acesso a vários benefícios, enquanto o desemprego significa a rupturas nos seus modos de viver e de trabalhar, com repercussões nos padrões e estilos de vida.

NV: Acabou com minha ilusão, com minha ascensão no trabalho, tive que aprendera viver com uma nova realidade de que não sirvo mais e me submeter a uma situação; de que o banco não me quer mais. Faz 12 anos que cumpro horário e não tenho nenhuma atividade.LR: Quando ficamos sem trabalhar é como se perder a dignidade. Ficar nesse estado é um sentimento como de perder alguém querido.é como perder um familiar.

Com uma sociedade capitalista e o trabalho ocupando um papel fundamental na vida de qualquer cidadão, o assédio moral e suas consequências se traduziram como um fracasso para a vida de trabalhadores bancários. Sentem-se usados, um lixo que foi largado após não ter mais serventia. Sentem que ao perderem o trabalho (afastamento) perderam a dignidade perante aos outros, perante nossa sociedade.

De acordo as falas abaixo são apresentadas doenças psicossomáticas como resultado do trabalho que era executado e o assédio moral sofrido neste emprego. Conforme o boletim científico da Escola Superior do Ministério Público da União, o psicoterror causa danos emocionais e doenças psicossomáticas, como alterações no sono, distúrbios alimentares, distúrbios da libido, aumento da pressão arterial, desânimo, insegurança entre outros, podendo acarretar quadros de pânico e depressão.

RR: Ao longo da minha carreira, fui desenvolvendo diversas patologias, entre elas: Síndrome do colón irritável, stress pós-traumático, diabetes e hipertensão.

ED: Sinto que além de psicologicamente, tive diversos problemas de saúde devido ao assédio, hipertensão, arritmia, são alguns exemplos do que tive por conta do banco. O assédio moral, também conhecido como psicoterror, causa doenças psicossomáticas. São excessos de alterações biológicas devido ao alto nível de stress, que acarretam as mais diversas doenças, onde muitas podem acompanhar o sujeito trabalhador pelo resto de suas vidas.

Conforme as falas abaixo podemos verificar a ocorrência de stress pós-traumático relativo ao ambiente de trabalho, assim como ao assediador. Ambos resultado do assédio moral sofrido por esses sujeitos.

Conforme Stein et al (2004), o transtorno de estresse pós-traumático caracteriza-se pelo desenvolvimento de sintomas como algo que lembre o evento traumático (pesadelos, ideias intrusivas, sintomas somáticos relacionados ao momento do trauma), evitação (evitar situações, pessoas ou comportamentos que relembrem o trauma e ter dificuldade para lidar com novas situações ou sentimentos) e excitabilidade aumentada (insônia, irritação, dificuldade de concentração e um estado permanente de alerta e sobressalto).

EM: Muito negativas, pois me abalou psicologicamente. Ficava sempre com medo de ser demitido e hoje o meu coração dispara e minhas mãos ficam frias e suando só de passar perto do banco.

ARM: Muitas repercussões... Até hoje fico fechada em casa, não consigo sair. Se eu tenho contato com colegas do banco, tenho pesadelos a noite inteira com o assediador.

O stress pós-traumático é vivenciado após um acontecimento forte e marcante, como o assédio moral. Ele incapacita pessoas e muda estilos de vida. Assim, o meio causador do assédio moral ao ser lembrado novamente por qualquer motivo, causa sintomas físicos e sensações desagradáveis aos sujeitos. 

7.9 Atividade Atual

Como atividade atual os sujeitos trouxeram a sua identidade profissional, embora afastados no momento, assim como uma dúvida perante a situação atual, onde apresentam o seu cargo antes do afastamento.

Foi possível observar nas falas abaixo uma clara manutenção da identidade profissional, onde o sujeito informa sem dúvidas, sua profissão.

Conforme Malvezzi (1999), o trabalhador atual administra a sua empregabilidade através do desenvolvimento de sua identidade profissional, que é o seu capital, com o qual ele negocia novos cargos, missões e projetos.RR: Ainda sou bancário, atualmente estou em processo de reabilitação profissional pelo INSS.

LC: Sou bancário, ainda.

Os sujeitos mantém suas profissões apesar do afastamento e dos problemas ocorridos dentro da instituição. Existe uma manutenção de identidade, onde declaram ser aquele profissional independente da situação atual.

Conseguiu-se verificar nas falas abaixo a falta de certeza no seu cargo, no seu emprego. Há uma lacuna que não é preenchida durante o afastamento e faz com que não se tenha certeza do que acontecerá no futuro.

Conforme Ramos et al (2008), o processo de reabilitação produz um sentimento de estar e ao mesmo tempo não estar no lugar, pois existe a ideia de um presente incapaz e de um futuro incerto, que normalmente indica outra atividade ou a mesma com restrições. Esse sentimento caracteriza-se pela lógica do regramento das organizações de trabalho capitalista, no qual há pouco espaço para manifestações diferentes daquelas já prescritas (com exceção da lei que prevê vagas para portadores de necessidades especiais).

LR: Gerente Regional de Câmbio.. O cargo continua o mesmo. Quando eu saí, colocaram duas pessoas, mas com certeza, quando eu retornar não será mais a mesma atividade.

ED: Quando eu fui afastada, meu cargo era assistente de gerência.

ARM: Eu era assistente da gerência, hoje eu já não sei... O que faço de atividade nos dias é hoje é pra mim.. Me cuidar, fazer fisioterapia e terapia, e principalmente ser mãe. Nunca curti tanto a minha filha como agora (ela está com 7 anos).

Existe um futuro incerto aos trabalhadores que estão afastados pelo INSS. Ao serem afastados, perdem os seus lugares e ao retornarem nem sempre seguirão de onde pararam, muito pelo contrário, muitas vezes, no banco privado, são rebaixados e colocados em posições inferiores àquelas que deixaram ao se afastar.

7.10 Ensinamento frente ao Assédio

O ensinamento obtido frente ao assédio moral foi o ressentimento e a preservação do passado, a saúde como maior bem e a importância da ajuda de um grupo de apoio em situações de fragilidade.

Conforme a fala abaixo, podemos verificar que o sujeito preserva e mantém o passado que o maltratou, assim como há grande ressentimento a tudo que lhe aconteceu. De acordo com Antloga e Mendes (2009), sentir sensações desagradáveis em boa parte do tempo, conviver com o medo, ressentimento, cansaço, desconfiança e pressão, muitas vezes em silêncio, leva o trabalhador a experimentar sofrimento, desgaste e desgosto pelo que faz.

NV: Que fui muito injustiçada pela vida/banco, porque entrei no Banco com 17 anos, foi meu único emprego, faz 34 anos que estou nesta empresa, dei minha vida, minha juventude, me dediquei de uma maneira que me casei e não tive filhos, porque deixei passar os anos, não queria parar de trabalhar, de viajar... hoje me arrependo muito, porque o que ganhei?? Hoje me sinto fracassada como mulher, trabalhei, trabalhei e o que ganhei? Um grande vazio e um desprezo enorme por parte da empresa, por isso que falei no inicio que o banco foi muito cruel. Ensinamento disto tudo, nada e ninguém merece que se deixa realizar teus sonhos por alguém ou por trabalho, tudo isso passa e tua vida é feita por fases que não tem retorno, oportunidades são únicas e principalmente nós mulheres (perdi a oportunidade de ter filhos), paguei um preço muito grande. Não costumo falar a respeito disso, porque é como admitir o quanto fui burra e ingênua em acreditar numa empresa e entregar desta maneira a minha vida, isso é uma culpa que carrego e me cobro muito. Quando precisei de ajuda do médico/banco ele foi capaz de me dizer que o que eu tinha não era por causa do trabalho e sim pelo fato de eu carregar meu filho no colo – “Putz!!! Ele tocou na minha ferida”, mas eu reagi e falei: “eu não tenho filho”..foi com muita dor. Só de falar isso me faz um mal enorme (nesse momento ela chora).

Existe um ressentimento por parte do sujeito com a instituição ao qual dispensou o seu tempo e seu conhecimento. Vivenciar situações desagradáveis, ser assediada, sofrer no ambiente de trabalho não é superado com facilidade e muitos trabalhadores levam anos para poderem aceitar a ideia do que aconteceu na sua trajetória profissional.

De acordo com as falas abaixo, pode-se observar que o ensinamento perante a experiência vivenciada é a idealização da saúde como maior bem que alguém pode possuir. O cuidado consigo deve estar acima das exigências do trabalho.

Para Silva et. al (2008) as técnicas de si permitem aos indivíduos efetuarem, seja só ou com ajuda de outros, certo número de operações sobre seus corpos e suas almas, seus pensamentos, suas condutas, seus modos de ser; de transformarem-se a fim de atender um certo estado de felicidade, de pureza, de sabedoria, de perfeição ou de imortalidade.

RR: Acabei revendo o meu conceito de trabalho, hoje acredito que devemos trabalhar para viver, e não o inverso.

EM: Que devemos acima de tudo respeitar os colegas de trabalho e os limites que cada um tem consigo. E, que a nossa saúde está em primeiro lugar.

ARM: Ainda me sinto muito confusa com tudo isto. Quando sai de licença fiquei sem chão porque parecia que não sobreviveria sem o banco, sem aquela rotina. Até dos vizinhos eu tinha e tenho vergonha por estar afastada, parece que estou fazendo algo errado. Claro que isso é da minha cabeça doente. Se depois de 25 anos de trabalho eu adoeci, a culpa, com certeza, não foi minha. Mas o maior ensinamento foi que não tem preço a nossa saúde, a qualidade de vida, o respeito, e o conviver com minha filha.

Cuidar de si virou um fator importante na vida de trabalhadores bancários que sofreram assédio e tinham perdido “saúde”. Buscar tratar-se, viver bem, ter qualidade de vida, saúde e paz tornou conceito.

Conforme as falas abaixo, pode-se evidenciar a importância do apoio coletivo, de ser ouvido e compartilhar de informações relacionadas a todos naquele ambiente, onde uma história, de alguma maneira, é ligada a outra.

Conforme Hoefel et. al (2004), as atividades com grupos tendem a aumentar a solidariedade e auxilia na construção de uma consciência crítica e da cidadania, capazes de ocasionar ações de transformação social. Ao compartilhar suas experiências, comuns ao grupo, é possível criar ações coletivas que preservem os direitos humanos fundamentais.

LR: Sabe, a gota d’água que faltava para pedir meu afastamento foi quando eu sabia que iria ter uma reunião “daquelas” e que seria humilhado novamente..não aguentava mais. No primeiro dia de afastamento, vim procurar ajuda aqui. Ensinamento a gente tem quando vem pro GAS, orientações, conselhos, trocas de experiência... isso sim, nos ajuda, nos faz crescer e nos da força para superar o que há por vir. Uma vez um superior me disse: “Tu tem que ter sangue de malvado”... afinal, tu tem que vender aquilo que as pessoas não querem e que não possui nenhum benefício.

Buscar ajuda de grupos onde pessoas constroem juntos, um novo espaço de convivência, de ensinamentos, de trocas e buscam coletivamente solução para os problemas a serem enfrentados, é essencial para sujeitos que sofreram no ambiente de trabalho.

7.11 Atitude ao ser testemunha de assédio

Após a experiência de sofrer assédio moral na empresa, a atitude adotada pelos sujeitos frente a um novo assédio com um colega é a orientação de buscar coletivamente ajuda, seja por grupo de apoio ou sindicato, sendo que muitas vezes são interligados, ou simplesmente o silêncio.

As falas abaixo evidenciam que ao testemunhar um assédio moral os sujeitos orientariam a procurar ajuda coletiva para enfrentar o problema, sendo essa ajuda através do grupo de apoio para dividir experiências ou o sindicato, onde terá apoio para buscar medidas legais para a situação.

Segundo Mendes (2003), o relacionamento com os colegas favorece para uma mobilização coletiva, considerando uma forma de suporte social que ajuda a enfrentar o sofrimento, porém não possui força para produzir mudanças na organização do trabalho.

NV: Hoje quando sei ou estou presente, procuro ajudar e orientar a pessoa de como fazer para sair desta situação e procurar seus direitos. Como eu gostaria que, quando eu estive passando por essa situação, estivesse alguém que me alertasse e me ajudasse

RR: Denunciar ao sindicato da categoria.

LC: Denunciaria ao sindicato.

Como orientação para o assédio moral, o apoio coletivo, seja de sindicatos, colegas ou grupos se mostra importante para buscar mudanças individuais para com a organização de trabalho. É possível verificar de acordo com as falas abaixo que o silêncio ainda faz parte da vida dos sujeitos e que muitas vezes utilizam dele para defender-se ou fugir, mascarando a situação. De acordo com Foucault (1984), uma espécie de loucura viva, volúvel e ansiosa que a movimento do poder tinha conseguido reprimir e reduzir ao silêncio.

EM: Não sei, porque entendo que as vezes temos que aceitar por causa do emprego.

LR: Internamente assinamos vários termos... Tudo é proibido... Existem os canais livres, onde se faz denúncias “anônimas”, que na verdade não são “anônimas”... Uma vez fizeram uma denuncia e eles vieram me questionar porque sabiam que era do meu setor... O banco quer muito status, não quer que vaze nada... A segurança de informações é muito presa.

ED: Pânico... Eu ficaria em pânico... no silêncio novamente.

ARM: Não sei o que faria. Não sei como vou agir quando eu voltar. Até hoje não consegui fazer nada porque tinha medo do meu chefe, pois ele é uma pessoa vingativa e má. A medo de perder o emprego, de ser repreendido pela instituição, do pânico com o sentimento já vivido, reprimem o trabalhador ao silêncio novamente diante de novo “ataque” de assédio moral.

8. Conclusão

Retornando a questão de pesquisa: Quais os sentidos pessoais e profissionais do assédio moral segundo a percepção dos sujeitos trabalhadores do segmento bancário? O trabalho enobrece o homem, mas o trabalho quando se torna um sofrimento, denota uma impossibilidade de negociação, seja com a instituição e/ou com a chefia imediata. Assim, o adoecimento surge a partir do desequilíbrio entre o prazer que o trabalho gera e o sofrimento que a sobrecarga, o assédio, o desrespeito, a cobrança demasiada cria na percepção do trabalhador uma percepção de si envolta por ilusões, depressão e medo. Tal percepção envolve também o sentimento de desvalia (“eu não sou bom, eu vou perder o emprego, eu não vou ter sucesso”).

O trabalho gera dinheiro, honra, espaço relacional, pertencimento, mas até que ponto todos estes fatores se tornam menores perante a dor, a tristeza a humilhação e frustração? Se sentir um perdedor, acabado, traído é de fato a vivência desta experiência que leva a sentidos avassaladores.

A propaganda de seleção diz o que banco é bom, as pessoas dizem que trabalhar no banco é bom e se ganha bem. Mas, há uma cobrança acima do limite tolerável. Nossos sujeitos de pesquisa têm claro que a demanda é maior que suas forças. A partir disto, eles vão articulando uma reação em nome da sobrevivência psíquica e, por vezes, física.  

Existe dor na descoberta de outros sentidos para a vida além do trabalho,  além dos sofrimentos que podem um dia ser esquecidos. Existe uma afirmação da vida para esses trabalhadores que estão reagindo, sim. Cada um buscando sobreviver, lutar, resgatar sua autoestima e a convivência dos familiares. Voltar ao banco? Sim. O problema é voltar para o sistema que o banco indica “precisar” para sobreviver, enquanto, instituição financeira. A volta seria para um banco idealizado, um banco que sonhou no início e, talvez, antes de entrar. Esse é o conflito, querer voltar para um banco diferente, que não existe, um lugar que é perfeito, que não haja as exigências vistas hoje, sem as metas agressivas e abusivas.

Ao ser verificado, nos trabalhadores bancários, os assédios organizacional e vertical descendente, identifica-se um retrossistema, onde a instituição cria normas e meios onde o assediador também é assediado, e onde muitos sofrem ao produzir sofrimento.

Os reflexos do assédio são totalmente negativos. Entretanto, a luta contra ele não. Isto pode ser visto como seu fator resiliência e reinvenção de si. O humano é a parte fraca do sistema e, aqueles, que não se adaptam ao sistema, “morrem” são descartados, não servem mais, e o sistema busca mais e mais pessoas que procuram por esse tipo de trabalho, na indústria dos concursos públicos. A ideia de estabilidade nos bancos públicos, sempre terá mão de obra para esse tipo de atividade.

O verdadeiro medo, o silêncio, a tolerância e a resiliência acompanharam e acompanharão os trabalhadores desse setor, enquanto a cobrança passar a linha do respeito e daquilo que é, humanamente, possível de se realizar. Muitos aprenderão a conviver com esses sentimentos e a usá-los em momento oportunos, outros serão massacrados e sugados por eles.

Segundo Mendes et. al (2003), a definição de defesa como modos de agir individuais ou coletivos manifestos pela negação e/ou controle do contexto de trabalho causador de conflitos e contradições que geram custo humano e sofrimento psíquico. Estes mecanismos caracterizam-se pela negação, que representa a negação do sofrimento quando se sentem constrangidos pelo sofrimento ou quando produz dificuldade subjetiva.

O silêncio é visto como uma defesa e/ou escudo de proteção contra os olhares de fora. A vergonha, a falta de compreensão de terceiros, os valores criados no meio familiar referente ao trabalho, faz com que funcionários não queiram dividir a carga pesada que carregam, e tentam suportar sozinhos. De maneira unânime, verifica-se que o silêncio é a forma mais comum de suportar o assédio no ambiente de trabalho.

A necessidade de trabalhar, o status que o banco te proporciona, o salário acima do mercado, o medo de recomeçar profissionalmente faz com que neguem, não aceitem, o sofrimento que habita neles. Onde fazer sofrer também traz sofrimento, tudo é calado e aceito para que não prejudique o que já foi conquistado. Pensa-se em “administrar” o sofrimento, pois aceitá-lo seria constrangedor ou até mesmo prejudicial para sua imagem e vida pessoal. Observa-se que muitas vezes a constituição factual do assédio necessita testemunhas e por medo e também um pacto de silencio e reprodução da violência, ninguém quer falar. Assim mais um dano é agregado a multiplicação de experiências de exclusão.

No intuito de finalizar nossa reflexão e testemunho desta dor, poderemos, sem medo, comparar as fases da elaboração do assédio, às fases do luto, criada por  Kubler-Ross (2002); chamamos, pois, este processo de “luto de condição do trabalhador assediado”, onde este sujeito, primeiramente, nega a experiência do assédio, e busca através do isolamento evitar a sua exposição. Ao ver que dia após dia, as perseguições, a humilhação e metas abusivas são de fato reais e não cessam, surge, por muitas vezes, a raiva, que acaba sendo projetada no meio externo, principalmente nos colegas, entes queridos e familiares, pois o trabalhador sabe que se expressar sua raiva no ambiente do banco, acaba sendo “retirado”.

Assim, então, surge a barganha com o sistema, a busca de outras formas de trocar a dor do assédio. Nesse período, o trabalhador se torna consciente de que é vitima do assédio, mas tenta resistir usando da resiliência ou outras formas de seguir em frente, sabe do reconhecimento financeiro, que a família depende de seu ganho, e assim, busca forças e segue.

O ponto crucial é  quando suas defesas contra o sofrimento acabam e, a dor física e psicologia se tornam mais fortes. A depressão, então, muda as relações do sujeito com o meio onde ele vive, a família nota mudanças, o trabalho se torna impraticável, e a somatização se torna aguda a ponto de impedir o individuo de trabalhar. A aceitação, então, se faz consciente, e é a partir daí, quando se começa a busca pelo apoio. Este conceito talvez seja a maior contribuição do ponto de vista psicológico perante este cenário de complexidade e superação.

Sobre os Autores:

Tarlise Santos Jardim - Estudante do curso de psicologia da Universidade Luterana do Brasil - ULBRA – Campus Guaíba.

Vanessa Yara Campos Cezar - Estudante do curso de psicologia da Universidade Luterana do Brasil - ULBRA – Campus Guaíba.

Patrícia Beatriz Argollo Gomes Kirst - Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (1995) e Mestrado em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2001). Doutora pelo Programa de Informática na Educação – UFRGS (2010). Tem experiência na área de Psicologia Social, com ênfase em Análise Institucional, atuando principalmente nos seguintes temas: trabalho, subjetividade, cognição e biopolítica.

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