Ética, Organizações e a Morte da Autonomia

Ética, Organizações e a Morte da Autonomia
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Resumo: A ética hoje é vista muitas vezes de modo errôneo pelas pessoas e organizações, a importância da ética na nossa sociedade é inquestionável, e o presente artigo propõe uma reflexão sobre o conceito de ética, a semelhança das organizações com as prisões, segundo o pensamento de Foucault, a relação entre as organizações chamadas ômegas e a falta de autonomia, e o não incentivo da mesma, sendo feita revisão bibliográfica do assunto abordado.

Palavras-chave: Ética, Autonomia, Organização, Psicologia Organizacional;

1. Introdução

Segundo Cortes (2005) o termo ethos pode ser visto utilizando duas palavras gregas. A primeira é ethos com letra inicial eta, a segunda é ethos com letra inicial épsilon. O ethos-eta designa a casa, o lugar permanente de abrigo e proteção a morada do sujeito. É a partir do ethos-eta que o mundo torna-se habitável para os humanos: a physis é rompida pela abertura do ethos-eta, como um espaço construído e incessantemente reconstruído. Quando o comportamento ocorre repetidas vezes é designado o ethos-épsilon; refere-se à gênese do hábito. Expressa um paradoxo entre o que é ‘habitual’ e o que é ‘natural’; nesse sentido diz respeito à disposição permanente do agente para agir em direção ou de acordo com a realização do bem. Nas palavras de Henrique Cláudio de Lima Vaz, o ethos “rompecom a sucessão do ‘mesmo’ que caracteriza a physis como domínio da necessidade, com o advento do ‘diferente’ no espaço da liberdade aberta pela  praxis” (Vaz, 1998, p.11).

Segundo Chaui (1996) se formos acompanhar as historias sobre ideia de ética desde antiguidade até nossos dias, ela estará intimamente ligada ao problema da violência e dos meios para evita-la, diminuí-la ou controlá-la. E diferentes formações sociais e culturais instituíram conjunto de valores éticos. E são até hoje, algumas vezes, instituídos de um modo equivocado nas organizações.

Segundo Marin (2004) a ética, ou melhor, o conceito de, divergiu ao longo do tempo, do desenvolvimento do pensamento filosófico, inicialmente ligado a uma essência interior do ser humano, sobre o qual despertam ações autônomas e, num momento posterior, a um sentido modulador dessas ações, acoplando-se sólida e definitivamente à dimensão da moral. Essa última conceituação parece vigorar no senso comum contemporâneo.

De acordo com Chaui (1996, pg. 337) para existir conduta ética é preciso que exista agente consciente, ou seja, aquele que conhece a diferença do bem e do mal, permitido e proibido, certo e errado, virtude e vicio. E pensando em Freud a instauração do ego (eu) e superego (supereu) são necessários para ética, sendo o superego a agencia critica de nossa personalidade.

De acordo com Chaui (1996) A ética existe quando somos autônomos, quando há consideração pelo os outros sem subordinar-se e nem submeter-se cegamente a eles. Em Heráclito, o sentido de ethos está intimamente ligado com a consciência que reside no ser do homem, algo inato que é fundamento da práxis. Na filosofia aristotélica, ganha os contornos da moral e passa a ser derivado dos hábitos, da experiência externa, do ensinamento. Aristóteles abre espaço para a transição de uma ética de base para um sistema rígido de princípios.

A liberdade ética, associada naturalmente à ética heraclitiana, é substituída pela sujeição, pela rigidez da obediência às verdades, leis e normas pré-determinadas. Percebemos, portanto, que o primeiro conceito embasa o que deveria ser o real entendimento de ethos, uma vez que pressupõe a liberdade e a autonomia de pensamento e ação, enquanto que aquela, diríamos reduzida à moral, gera a repetição de padrões sociais, as restrições de convicções próprias, servindo-nos apenas para a manutenção do status quo, objetivo que sabemos não se coadunar com ideais de liberdade, justiça e democracia em que dizem se embasar as sociedades contemporâneas (MARIN, 2004).

O que muitas organizações fazem hoje, e sempre tentaram fazer, é controlar o sujeito, coloca-lo dentro da “caixinha”, e as chamadas empresas ômegas fazem isso ironicamente de modo exemplar.  Foucault mostra que certas técnicas, aparentemente criadas para a proteção do trabalhador, na verdade tem a eficácia de controlar todo o tempo da sua vida (M. Foucault, A verdade e as formas jurídicas, pg.94-95).

Segundo Boff (2003) a ética seguiu o destino da razão. Tendo a razão seguido o caminho da fragmentação cartesiana, a ética teve que se adequar a uma realidade também fragmentada, diluindo-se em "infindas morais para cada profissão (deontologia), para cada classe e para cada cultura". Contemporaneamente, a ética tem que se adequar também aos dualismos razão e emoção, justo e legal, privado e público, contexto em que, por vezes, acaba por se transformar em instrumento de domínio.

Para Boff (2003), ao se fazer instrumento de normatização, a ética força o indivíduo a introjetar as leis para inserir-se na dinâmica do processo social, leis pelas quais é fiscalizado e punido.

De acordo Rondon (2001) a emancipação é pressuposto básico para a formação de sujeitos éticos:

"... somente uma sociedade democrática, que se proponha a emancipar seus cidadãos, pode construir um mundo amparado em valores éticos, ou seja, o respeito pela integridade, pela liberdade e pela autonomia de seus membros" (Rondon, 2001; p. 219).

2. Organizações Alpha e Omega

Segundo Chiavenato (2010) As organizações Alpha incentivam e motiva as pessoas a criar e inovar sempre, em busca da melhoria continua, as pessoas tem liberdade de usar sua inteligência e pensar a serviço da empresa.Apesar de exigir mais das pessoas em termos de contribuição e resultados, porem as pessoas tem mais satisfação e prazer em trabalhar nas organizações Alpha. O organograma tradicional é substituído por uma rede integrada de equipes.

As pessoas nessas organizações são parceiros que fornecem as competências necessárias para o sucesso do empreendimento e não mais administrada como fatores de produção ou como recursos passivos (Chiavenato, 2010).

As organizações Omega, diferente ou em oposição as Alpha, segundo Chiavenato (2010) são aquelas que a área de RH é centralizada e monopoliza todas as decisões e ações relacionadas com as pessoas. As pessoas trabalham como funcionários, submetidos a um regulamento interno e um rígido horário de trabalho. O que importa para esse tipo de organização que as pessoas sejam assíduas e pontuais, para além do “o que” fazem em seu horário de trabalho.

Os cargos são definidos rigidamente, numa rotina de trabalho que não muda e que pouco utiliza da criatividade e do desenvolvimento do profissional, alem do isolamento, as inovações ou proposta de mudança nem sempre são bem recebidas, nela se espera do funcionário pouca atividade cognitiva e quase nada emocional. Perdendo assim o que diferencia o trabalho humano. O RH é um centro de despesa, enquanto poderia ser um centro de lucro (Chiavenato, 2010).

Segundo Ribeiro (1985) a sociedade disciplinar tem como característica o controle do tempo, espaço e dos corpos, via instituições disciplinares. Transformam todo tempo do individuo em tempo de trabalho e controlados são os tempos de ociosidade, festa, de prazer, de descanso.

“Que há de espantoso no fato de que a prisão se assemelha às usinas, as escolas, as casernas, aos hospitais e de que todos se assemelhem às prisões?” (M. Foucault, vigiar e punir. P. 229).

Foucault (1984) então faz esta crítica, mostrando a semelhança entre prisão e as organizações, chamadas por ele de instituições disciplinares, e que exerce controle sobre os corpos, espaço e tempo das pessoas, lhe tirando a autonomia, a autodeterminação, e o discurso dessas instituições para dizer que não é prisão é simplesmente a existência da própria prisão, mas por outro lado a prisão se “inocenta” de ser prisão, pois, afinal, é apenas a forma mais transparente de todas a outras.

Para Bleger (1984), o objetivo do psicólogo no campo institucional é a psico-higiene, isto é, conseguir uma melhor organização e condições que permitam uma promoção de saúde e bem estar dos integrantes de uma dada instituição.

3. Metodologia

A pesquisa foi realizada através de levantamento teórico da literatura científica relacionada ao tema. Foram pesquisados um total de 6 artigos científicos, sendo a maioria publicados na cidade de São Paulo, obtendo também publicações da cidade do Rio de Janeiro, Porto Alegre e Goiânia. Há também um levantamento científico através de Livros.

O intuito desse levantamento é propor uma reflexão sobre a ética e seu conceito, através do tempo, da autonomia e da perda da ética dentro das organizações.

4. Considerações Finais

A ética esta intimamente ligada com a autonomia do sujeito, mas como se pode perceber em nossa sociedade contemporânea, as organizações de trabalho tentam nos fazer pensar sempre igual, sem poder criticar, nem ter ideias para melhoras.

O sujeito ético: uma ação humana que estabelece como critério básico, como critério de vida o uso da razão, é levado pelos princípios racionais e pela virtude, e o sujeito ético existe se for consciente de si e dos outros, for dotado de vontade, for responsável e for livre para se auto determinar, for autônomo.

O inicio da tentativa de tirar a autonomia do individuo já é vista dentro das escolas, uma vez um professor de uma dada faculdade numa sala de psicologia contou uma historia “uma professora pediu para os alunos, de 7 anos, desenhar um sapo, um certo aluno desenhou um sapo amarelo, essa mesma professora o ‘reprimiu’, falou que sapo é verde e não amarelo”, como podemos ver essa professora alem de não deixar esse aluno  aflorar sua criatividade e sua autonomia, vemos o despreparo total da mesma, pois nas nossas florestas existem sapos de quase todas as cores.

A estrutura das próprias organizações se parece com as de uma prisão, controle de ponto rígido, de “conduta”, hierarquização forte e vertical. Passar mais tempo no trabalho é característica de nossa sociedade, somos quase detentos, e que pode na maioria das vezes gerar patologias.

O psicólogo nessas organizações deve então promover o bem estar, a saúde verdadeiramente (biopsicossocial), explicitar o implícito e trabalhar não a favor do desejo do dono da instituição e sim da psico-higiene.

Sobre o Autor:

Deivid Souza de Jesus - Graduando em Psicologia da FMU- Faculdades Metropolitanas Unidas- SP

Referências:

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