O Estresse e Suas Consequências Dentro de Instituição Penitenciária

O Estresse e Suas Consequências Dentro de Instituição Penitenciária
(Tempo de leitura: 13 - 26 minutos)

Resumo: O tema abordado tem como objetivo ressaltar as consequências que o estresse pode causar no ambiente de trabalho, neste caso dentro de uma Instituição Penitenciária, além de mostrar os reflexos que o estresse causa na saúde, prejudicando o exercício da profissão do Agente de Segurança Penitenciária, e as suas dimensões psicológicas com base em seu cotidiano de trabalho, evidenciando os fatores de risco a que estão expostos. Também serão expostas as atribuições do cargo e toda a carga de riscos internos e externos, a expectativa, a ansiedade, a angústia e a exposição que interferem e influenciam seu ambiente familiar, social e profissional. Os dados foram obtidos a partir da pesquisa bibliográfica, realizada através de livros e artigos com base de dados científicos, e da pesquisa de campo, realizada através das observações feitas dentro de uma Instituição Penitenciária, podendo assim, ampliar a compreensão da vivência prática e profissional dos Agentes de Segurança Penitenciária. A Psicologia tem um papel muito importante dentro das organizações, principalmente quando se trata de um ambiente onde os fatores estressantes são constantes. O Psicólogo pode ser visto como um facilitador, pois busca compreender e resolver, da melhor maneira possível, os conflitos existentes ou que surgem dentro de uma organização, focando sempre no bem-estar dos indivíduos. O estresse é um fator que pode acarretar muitos prejuízos na vida de uma pessoa, suas consequências podem ser físicas e psicológicas, podendo até causar a manifestação de doenças, que dependendo da intensidade, podem se tornar fatais. Pessoas estressadas tendem a ter dificuldades em seus relacionamentos interpessoais, pois apresentam irritação, impaciência e agressividade. O estresse no ambiente de trabalho pode impactar de maneira negativa na saúde dos trabalhadores, gerando ansiedade, desmotivação, ou até mesmo uma depressão. As condições de trabalho também podem se tornar agentes causadores de estresse, como por exemplo, a iluminação, a ventilação, a mobília, entre outros. Um trabalhador estressado pode acarretar diversos prejuízos para uma organização, como, por exemplo, queda na produtividade e qualidade nos serviços prestados. O ambiente de trabalho dos Agentes de Segurança Penitenciária pode ser visto por eles como ameaçador, pois estes profissionais mantêm contato direto com os apenados, que, em alguns casos, podem ser considerados de alta periculosidade. Suas rotinas são repletas de incertezas e tensões, tanto por suas vidas estarem constantemente em risco quanto por sua saúde estar ameaçada em alguns casos. O ambiente penitenciário não é muito agradável, pois se trata de um espaço físico constituído por muralhas, pavilhões, celas, galerias extensas e muitas grades de ferro. As galerias contam com ambientes pouco iluminados e as celas são úmidas, frias e pequenas, levando em conta quantidade de presos que habitam as mesmas. Atualmente existem 158 penitenciárias no Estado de São Paulo e 22.166 funcionários que prestam serviços neste setor. Trabalhar dentro de uma penitenciária causa muita incerteza nos servidores desta área, pois é um ambiente onde ocorrem situações inesperados, fazendo com que o clima de tensão se torne constante. Vale ressaltar que esta classe profissional necessita de uma atenção especial à sua saúde.

Palavras-chave: Estresse, Instituição Penitenciária, Agente de Segurança Penitenciária.

1. Introdução

O presente trabalho é essencial para a obtenção do título de Psicólogo e busca identificar as consequências que o estresse pode causar dentro de instituição penitenciária. Para França (1997 apud Molina e Calvo, 2009) o estresse é uma relação que envolve um indivíduo, seu ambiente e as contingências as quais está sujeito. Esta relação normalmente é interpretada pelo indivíduo como uma situação de perigo ou algo que implica mais que suas habilidades, colocando em risco sua própria saúde.

O contato dos Agentes de Segurança Penitenciária com apenados, que às vezes podem ser de alta periculosidade, é inevitável por estar dentro de suas atribuições, o que torna suas rotinas de trabalho repletas de tensão tanto por suas vidas estarem constantemente em risco quanto por sua saúde estar ameaçada em alguns casos.

A tensão aliada a outros fatores relacionados ao ambiente de trabalho podem ser agentes causadores de estresse, que certamente faz parte da rotina destes servidores.

Trabalhar dentro de uma penitenciária, além de não ser muito agradável, causa muita incerteza nos servidores desta área, pois é um ambiente onde ocorrem situações inesperadas, fazendo com que o clima de tensão se torne constante.

1.1 Objetivos

Constitui o objetivo geral deste trabalho, identificar as consequências causadas pelo estresse no ambiente penitenciário.

Os objetivos específicos são:

  1. Realizar estudos através de pesquisas já realizadas através de artigos com base de dados científicos, teses de mestrado e doutorado.
  2. Realizar observação dentro de Instituição Penitenciária para ampliar a compreensão da vivência prática e profissional dos Agentes de Segurança Penitenciária (ASP).
  3. Realizar estudos sobre os riscos e a segurança do ASP e suas condições de trabalho no exercício da profissão.

1.2 Procedimentos Metodológicos

A pesquisa bibliográfica foi realizada através de livros e artigos com base de dados científicos e a pesquisa de campo através das observações feitas dentro de uma Instituição Penitenciária.

1.3 Estrutura do trabalho

Este trabalho está esquematizado da seguinte forma:

O capítulo 2, a seguir, apresenta uma síntese sobre o tema escolhido, no qual se fala sobre os fatores causadores do estresse dentro do ambiente penitenciário e as consequências sofridas pelos servidores desta área.

O capítulo 3 trará dados retirados de pesquisas científicas realizadas sobre o estresse no ambiente de trabalho e as consequências que esse fator acarreta às pessoas.

O capítulo 4 trará os resultados e as discussões realizadas a partir das pesquisas citadas no capítulo anterior.

Por fim, serão expostas as considerações finais.

2. Fundamentação Teórica

2.1 A Psicologia nas Organizações

A Psicologia nas organizações surgiu no início do século XIX, onde era denominada Psicologia Industrial e dedicava-se a conhecer o comportamento humano para solucionar problemas no contexto industrial. Mas ao longo do tempo, a prática da psicologia no mundo do trabalho foi sofrendo modificações (CAMPOS et al., 2011).

A Psicologia tem atuação interdisciplinar nas organizações e busca compreender e resolver questões que podem interferir no bem-estar dos indivíduos, já que as organizações podem ser consideradas sistemas sociais muito complexos (SCHEIM, 1982 apud CAMPOS et al., 2011).

Conforme Orlandini (2008 apud Campos et al., 2011), o psicólogo tem um papel extremamente importante nas organizações, pois atua como facilitador buscando conscientizar o papel dos grupos dentro de uma instituição, sempre considerando a saúde dos sujeitos e o modo de funcionamento da empresa. As atividades que o psicólogo exerce se fundamentam em técnicas e instrumentos utilizados pela Psicologia e visam à relação do homem com o trabalho, buscando o desenvolvimento da empresa, do trabalhador e da sociedade em geral.

Hoje, pode-se dizer que os profissionais da área organizacional atuam de maneira psicossociológica, pois possuem uma visão mais ampla em relação à organização dentro da sociedade (GHIRALDELLI, 2000 apud CAMPOS et al., 2011).

2.2 O estresse e suas consequências

 “Selye (1956)  foi  o primeiro autor  a utilizar (...) o termo estresse, caracterizando-o como uma “Síndrome Geral de Adaptação” (SGA) decorrente de um evento que exige esforço do indivíduo em termos de adaptação” (SANTOS e CARDOSO, 2010, p. 246).

Lipp e Malagris (1998 apud Santos e Cardoso, 2010, p. 246) destacam que,

“Para representar o processo de estresse, Selye (1956) apresentou um modelo trifásico, constituído por: a) fase de alerta: reação de alerta preparando o indivíduo para a luta ou a fuga através da ativação de mecanismos homeostáticos; b) fase de resistência: quando o organismo tenta restabelecer o equilíbrio interno através de uma ação reparadora, gastando energia para esta adaptação; e c) fase de exaustão: caracterizada pela exaustão física e psicológica, já que a adaptabilidade do organismo ou energia adaptativa é finita, momento em que as doenças se manifestam, podendo ser fatais.”

Num estudo realizado por Lipp (2000), foi identificada uma quarta fase, denominada quase exaustão, onde há um enfraquecimento do indivíduo, e este se torna vulnerável ao aparecimento de doenças (SANTOS e CARDOSO, 2010).

“O estresse tem consequências fisiológicas, psicológicas e comportamentais que são mediadas pela percepção, com foco na susceptibilidade do indivíduo, cujas intervenções são dirigidas para o desenvolvimento de estratégias individuais de enfrentamento” (REIS, FERNANDES e GOMES, 2010, p. 715).

Lipp (2004 apud Carvalho e Malagris, 2007, p. 571) ressalta que,

“O indivíduo estressado apresenta irritação, agressividade, impaciência, que acabam por dificultar seu relacionamento com outras pessoas, levando-o a uma dificuldade de pensar em outros assuntos, que não sejam os relacionados a seu estressor. Em fases avançadas do stress, a pessoa já apresenta prejuízo na sua linha de pensamento e sua meta principal é apenas sobreviver e se livrar de tudo aquilo que cause sofrimento. Diante desse quadro de stress e se as fontes de stress da pessoa forem relacionadas ao ambiente ocupacional, pode-se cogitar o desenvolvimento da síndrome do burnout, na medida em que a sintomatologia característica deste quadro começa a aparecer em decorrência do desgaste causado pelo stress crônico. Assim, o profissional estressado encontra-se debilitado, devido a investimentos de energia contra estressores, o que pode levá-lo a apresentar déficits em seu trabalho e, principalmente, em sua relação com o outro, sendo este último fator essencial para o diagnóstico de burnout.”

2.2.1 O estresse no ambiente de trabalho

“O estresse ocupacional é definido como a soma de respostas físicas e mentais, bem como reações fisiológicas que, quando intensificadas de modo a exceder a capacidade de enfrentamento do indivíduo, transformam-se em reações emocionais negativas” (YARKER, DONALDSON-FEILDER e FLAXMAN, 2007 apud SANTOS e CARDOSO, 2010, p. 246).

Paschoal e Tamayo (2004 apud Santos e Cardoso, 2010, p. 246) ressaltam que os fatores causadores do estresse dentro do ambiente organizacional podem ser de origem física, como por exemplo: ventilação, iluminação, entre outros; ou de origem psicossociais, como “fatores intrínsecos ao trabalho, aspectos do relacionamento interpessoal, autonomia ou controle no trabalho, estressores baseados nos papéis (...) e fatores relacionados ao desenvolvimento de carreira”.

Segundo Villalobos (2004 apud Reis, Fernandes e Gomes, 2010, p. 716),

“Os fatores psicossociais do trabalho representam um conjunto de percepções e experiências, ou seja, consistem em interações entre o trabalho, o ambiente laboral, as condições da organização e as características pessoais do trabalhador, suas necessidades, cultura, experiências, estilo de vida e sua percepção de mundo. Inclui, entre os principais fatores psicossociais do trabalho geradores de estresse, aspectos da organização, gestão e processo de trabalho e as relações humanas.”

“As respostas psicológicas mais frequentemente associadas ao estresse ocupacional são ansiedade, insatisfação e depressão” (PASCHOAL e TAMAYO, 2004 apud SANTOS e CARDOSO, 2010, p. 246).

O estresse no ambiente de trabalho acarreta aspectos negativos na saúde dos indivíduos e suas consequências podem interferir no desempenho das organizações, pois pode haver queda na produtividade e na qualidade dos serviços prestados (YARKER et al., 2007 apud SANTOS e CARDOSO, 2010).

Para Silva e Suñe (2009) estar sobre tensão, ser pressionado, ficar em estado de nervosismo, todas essas situações comuns em nosso dia-dia, no trabalho, na escola, no âmbito familiar pode nos levar algum nível de estresse.

2.3 A profissão e a rotina de trabalho do Agente de Segurança Penitenciária

Quando se fala em sistema prisional, logo se pensa: “jamais trabalharia em um lugar desses”, onde conviver diariamente com uma população prisional, dentro de um presídio, causa pavor só de pensar. Onde de um lado, estão os reeducandos e do outro, os Agentes Penitenciários atrás das grades e distantes da sociedade.

Para ingressar na carreira, é necessário ser aprovado em concurso público, frequentar e se formar no Curso de Formação Técnico profissional previsto pela Lei Complementar nº 959, 2001 administrado pela Escola de Administração Penitenciária (EAP) da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo.

A carreira de Agente de Segurança Penitenciária é composta por 8 (oito) classes, hierarquicamente escalonadas de acordo com o grau de complexidade das atribuições e nível de responsabilidade, para o desempenho de atividades de vigilância, manutenção da segurança, disciplina e movimentação dos presos internos em Unidades do Sistema Prisional.

Conforme Resolução 3027/04-SEAP (Secretaria de Estado de Administração Penitenciária) as atribuições do agente são de: “Efetuar a segurança da Unidade

Penal em que atua, mantendo a disciplina. Vigiar, fiscalizar, inspecionar, revistar e acompanhar os presos ou internados, zelando pela ordem e segurança deles, bem como da Unidade Penal”.

Segundo Calderoni (2013), para o Judiciário se os agentes fossem mais valorizados em questão de salário, ocorreriam menos atos de corrupção. Além de que, muitos deles para complementar a baixa renda optam por realizar trabalhos informais em seus dias de folga, os chamados “bicos”.

A maioria dos agentes trabalha em escala de plantão de doze por trinta e seis horas, ou seja, trabalha dia sim dia não. Em relação à sua saúde, isto é visto como negativo, pois no dia em que seria sua folga para descanso ou diversão, os mesmos vão trabalhar em bicos, que são realizados nas atividades relativas à segurança, tarefas essas que exigem que os agentes estejam em estado de alerta, assim como durante o plantão na unidade prisional.

Os agentes plantonistas passam as intermináveis doze horas abrindo e fechando portas, portões grandes e grades. Tudo que deseja é que termine o plantão e volte para o lar são e salvo, principalmente, quando se iniciam as notícias no jornal e na televisão de que agentes estão sendo executados de forma bruta. Ainda que momentaneamente, a sensação de liberdade para os agentes, só é possível ao sair do presídio, quando se pode ver o céu, respirar aliviado e o clima de medo e tensão se desfaz.

Segundo Varella (2012), viver em estado de alerta cria um clima de estresse generalizado que é  inerente à atividade profissional. A profissão  de  agente de segurança penitenciária é considerada uma das maiores categorias em que há exposição constante ao perigo, alerta, pressão/tensão, somados à periculosidade e insalubridade do ambiente de trabalho constituem variáveis relevantes para o surgimento de sintomas de estresse (MOLINA e CALVO, 2009).

O ambiente prisional possui características pouco benéficas causando fatores de risco à saúde física e mental dos agentes. Geralmente, os equipamentos e utensílios não são preservados.

Segundo Santos (2007 apud Lourenço, 2010) embora estejam os demais profissionais no espaço de trabalho, a convivência por parte dos Agentes Penitenciários com os presos e internados é muito intensa e próxima.

O ASP será representante do Estado no decorrer de seu trabalho, em seu contato diário com sentenciados que são indivíduos em conflito com a lei, que demonstram comportamentos e necessidades diferenciadas, em sua maioria são ansiosos, imediatistas, infantis, entre outras características.

O agente deve ser comprometido com as funções inerentes ao cargo, assumindo suas responsabilidades com autoridade, fazendo cumprir os deveres e garantindo os direitos aos sentenciados, tendo em vista que ele é um agente ressocializador.

No desempenho de suas funções, o agente se depara com diversas situações de conflitos, ou seja, diariamente enfrenta problemas disciplinares com os presos, como por exemplo: discussão entre presos, desobediência, brigas entre presos, posse de substâncias (drogas) ou objetos ilícitos (celulares) que acontecem com mais  frequência,  além  de  fugas,  movimentos  subversivos,  motins,  rebeliões, ocorrência com mortes entre os presos que acontecem mais esporadicamente. Pela própria condição em que se encontram, muitos dos presos têm o perfil de ser agressivo, reivindicador, grosseiro e mal educado.

Segundo o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, a expectativa de vida do agente é de quarenta e cinco anos em São Paulo.

Para Seligmann-Silva (1993 apud Lourenço, 2010, p. 41):

“A atividade profissional em instituições prisionais envolveria quase todas as situações descritas por Seligmann-Silva (1993): risco para a própria vida e/ou integridade física dos sujeitos; permanente e intenso auto-controle emocional e elevada responsabilidade com vidas humanas, (...) realização da tarefa em situações de confinamento e de tensas relações grupais, situações de controle e disciplina rigidamente hierarquizadas e situações de intensa ambiguidade ou de dilemas inconciliáveis: cuidar, tratar, regenerar e reeducar em oposição a punir, vigiar, castigar, controlar e disciplinar outros seres humanos.”

2.3.1 O ambiente penitenciário

O espaço físico de um presídio geralmente é constituído por muralhas, pavilhões, celas, galerias extensas e muitas grades de ferro. As galerias são imensas com ambientes parcialmente iluminados e as celas são úmidas, frias e pequenas em vista da quantidade de presos que residem na mesma.

Para se ter uma ideia da dimensão, atualmente há 158 presídios no Estado de São Paulo, sendo 16 de gênero feminino e 142 de gênero masculino. Segundo Lourenço (2010) a população que labora nos presídios é de 22.166 funcionários segundo dados do Departamento de Recursos Humanos da SAP em outubro de 2009.

Trabalhar em uma penitenciária causa nos agentes a constante incerteza de como será o seu dia de trabalho, de não saber onde está pisando, pois acontecem fenômenos de forma inesperada e abruptamente se é apanhado de surpresa. Se vive em permanente clima de tensão e o contato direto com os presos os deixam expostos a riscos nos momentos críticos, como exemplo: rebeliões, motins.

O ambiente contribui para que o agente se desgaste tanto fisicamente quanto emocionalmente, sendo necessário que haja modificações para melhorar o ambiente prisional, permitindo uma adequação na instituição, para que os trabalhadores consigam desempenhar suas funções de maneira mais saudável e manter sua saúde (MOLINA e CALVO, 2010).

3. Pesquisas Relacionadas ao Tema

A pesquisa realizada por Correia (2006) teve como objetivo identificar os fatores de risco da profissão do agente penitenciário, os dados foram obtidos através de observação direta e aplicação de questionário, as perguntas foram elaboradas de forma objetiva buscando contemplar as categorias: segurança e medicina do trabalho, relações sociais e econômico-financeira. Participaram da pesquisa 27 agentes penitenciários sendo 22 agentes do sexo masculino e 05 do sexo feminino. Quanto aos reflexos das condições atuais de segurança e dos episódios de violência envolvendo profissionais da área de segurança pública e as constantes ameaças das facções criminosas aos agentes penitenciários 26 dos sujeitos da pesquisa informam que vivem sob o signo do medo em relação aos riscos de sua profissão para os membros de suas famílias. Quanto às questões relativas à segurança e medicina do trabalho observou-se que 19 dos pesquisados já esteve afastado dos serviços para tratamento de saúde sendo que: 15 agentes fazem uso de medicamentos de uso continuado para tratamento de alguma doença. No que diz respeito à saúde física e mental atual constatou-se que 25 agentes são acometidos de dores sem causa física: cabeça, abdominais, pernas, costas, peito e outras características. Dezenove queixam-se de alterações do sono: insônia ou sonolência excessiva. Dezessete pessoas sofrem de perda de energia provocando desanimo, desinteresse, apatia, fadiga fácil. Vinte agentes se percebem com um quadro de ansiedade de maneira que está sofrendo de uma apreensão continua, inquietação, às vezes medo específico. Questões relativas ao baixo desempenho no que se refere às alterações sexuais, de memória, de concentração, de tomada de decisões afetam 14 dos 27 entrevistados. Doze dos entrevistados informam queixas vagas como tonturas, zumbidos, palpitações, falta de ar, bolo na garganta.

Outra pesquisa realizada por Molina e Calvo (2010) teve como objetivo constatar fatores de risco de estresse no exercício da profissão de Agente de Segurança Penitenciária. Participaram do estudo 59 ASPs, 32 do primeiro turno, 10 do segundo, 05 do terceiro e 12 do quarto turno. O instrumento utilizado para a coleta de dados foi a Escala de Vulnerabilidade ao Estresse no Trabalho (EVENT) que busca analisar a vulnerabilidade dos ASPs em relação à presença de fatores estressores no local de trabalho. A escala analisa o quanto as vivências do dia a dia no  trabalho  podem  influenciar  o  comportamento  dos  indivíduos,  tornando-os vulneráveis e identifica a partir de três variáveis: 1) o clima e o funcionamento organizacional; 2) pressão no trabalho; 3) e infraestrutura e rotina, quais podem gerar o estresse. A primeira variável mostra o quanto o ambiente de trabalho, as relações interpessoais e com as chefias, a liderança, as regras e normas do sistema deixam os servidores vulneráveis ao estresse. Os resultados indicaram que 20,7% dos participantes apontaram vulnerabilidade superior, que somados a 8,6% identificados como vulnerabilidade médio superior, totalizam cerca de 30% dos participantes, constatando que esta variável apresenta um grau de risco considerável, merecendo uma atenção exclusiva. A segunda variável indicou 12% vulnerabilidade superior e 26% vulnerabilidade médio superior, atingindo 38%. Analisando as peculiaridades do trabalho, os riscos abrangidos, o local e a responsabilidade, pode-se dizer que a porcentagem foi baixa, pois os servidores enxergam a pressão como parte da função. Na terceira variável, 40% foram identificados como vulnerabilidade médio superior e 10% como superior, atingindo 50% dos participantes, o que indica um nível acima da média. Em relação ao estresse, 15% dos servidores estão em nível superior e 33% em nível médio superior. Pode-se concluir que os servidores que participaram do estudo apontam maior vulnerabilidade no que diz respeito à “infraestrutura e rotina”. No que diz respeito ao estresse, o estudo mostrou que 48% dos participantes indicam vulnerabilidade alta para a manifestação do estresse.

Por fim, uma terceira pesquisa realizada por Tschiedel e Monteiro (2013) com abordagem qualitativa com delineamento descritivo, objetivou identificar os aspectos da organização do trabalho que produzem prazer e sofrimento no trabalho das agentes de segurança penitenciária e descrever as estratégias defensivas utilizadas por estas colaboradoras no seu cotidiano laboral. Participaram do estudo 8 agentes de segurança penitenciária do sexo feminino que desempenham suas atividades num albergue feminino. Os dados foram coletados através de entrevista semi-estruturada, que combinou perguntas fechadas com outras abertas. A análise dos dados foi exposta a partir de 3 categorias: 1) Prazer no trabalho, 2) Sofrimento no trabalho e 3) Estratégias defensivas; lembrando que essas categorias foram divididas em subcategorias. As agentes penitenciárias destacaram como aspectos que contribuem para o prazer no seu trabalho: gostar do que faz, mesmo que o trabalho esteja associado a condições precárias; o salário, que comparado a outros cargos públicos possui gratificações que agregam ao valor final; e por último, a escala de trabalho; que foi considerada “flexível”, e por isso, positiva por algumas das entrevistadas. Como  fator que contribui para o sofrimento no trabalho, as agentes penitenciárias mencionaram: a tarefa de ter que realizar a revista íntima, tanto nas presas como na visita dessas; e as condições precárias de trabalho, tanto materiais (falta de recursos materiais e infraestrutura física) quanto humanas, pelo que são cobrados e responsabilizados caso não executem bem alguma atividade prescrita (sem terem apoio ou respaldo para tanto). Chama muito atenção o fato de não ter sido mencionado em nenhum momento nas entrevistas as dificuldades relativas à convivência com a população carcerária. Com base nos resultados obtidos, pode-se concluir que a exigência que a função de agente penitenciária impõe aos trabalhadores, sem apoio ou condições de trabalho favoráveis, pode gerar situações que levam ao sofrimento psíquico. Fatores como a desmotivação e o sentimento de impotência pelas condições inadequadas de trabalho, a falta de reconhecimento e a qualidade de vida precária, são considerados altamente prejudiciais, influenciando o comportamento do indivíduo, tornando-o mais fadigado, com poucas perspectivas sobre o futuro, frustrado, ansioso. Vivências de prazer pelo que lhes é oferecido em termos salariais e de estabilidade no emprego, não são elementos suficientes para garantir saúde mental. As estratégias defensivas que mais se evidenciaram foram a negação e a racionalização, os trabalhadores tentam encontrar caminhos para a manutenção da saúde ao utilizarem mecanismos que favorecem o enfrentamento do sofrimento e a busca do prazer.

4. Resultados e Discussão

Diante das pesquisas citadas anteriormente pode-se perceber que o estresse afeta a carreira do Agente de Segurança Penitenciária. Os ASPs sofrem com os episódios de violências e as constantes ameaças das facções criminosas e vivem amedrontados por conta dos riscos de sua profissão e para com os membros de suas famílias.

Nota-se que as dificuldades de relações interpessoais entre funcionários e as chefias causam insatisfação no trabalho, tornando-os mais vulneráveis ao estresse. A alta carga de responsabilidade que exige esta função e a falta de apoio e condições favoráveis de trabalho são fatores que contribuem para a desmotivação e influenciam o comportamento do indivíduo, fazendo com que se torne mais fadigado, frustrado, ansioso.

Uma das pesquisas apontou que uma grande parte dos funcionários se apresentou vulnerável em relação ao estresse, estando propensa a presença da doença. Muitos agentes já estiveram afastados do serviço para tratamento de saúde aonde a maior parte chegou a fazer uso de medicamentos para tratamento de alguma doença. Outros são acometidos por dores de cabeça, abdominais, pernas, costas, peito, entre outras. Alguns se queixam de alterações no sono, como insônia ou sonolência excessiva e também perda de energia que provoca desânimo, desinteresse, apatia, fadiga, quadro de ansiedade, inquietação, às vezes medo específico.

Pode-se dizer que grande parte dos Agentes de Segurança Penitenciária no exercício de sua profissão está exposta a situações que causam algum sofrimento psíquico. Por isso, vale ressaltar que esta classe de profissionais necessita de uma atenção imediata, visando à importância de ter qualidade de vida em relação a sua saúde e bem-estar, tanto no âmbito pessoal quanto profissional.

5. Considerações Finais

Com base em todo o trabalho realizado, pode-se concluir que o estresse é um fator que realmente acomete a classe dos Agentes de Segurança Penitenciária, podendo causar diversas  consequências, tanto físicas,  como dores  de cabeça, abdominais, pernas, costas, peito, tonturas, perturbações no sono, perda de energia, quanto psicológicas, onde as mais frequentes são ansiedade, depressão e insatisfação.

O ambiente penitenciário não é um dos melhores lugares para exercer uma profissão, pois é um ambiente com estrutura física precária e sem condições apropriadas de trabalho, além de possuir características pouco benéficas, causando riscos à saúde física e mental dos trabalhadores.

Segundo Molina e Calvo (2010), o ambiente contribui para que o agente se desgaste tanto fisicamente quanto emocionalmente, sendo necessário que haja modificações para melhorar o ambiente prisional, permitindo uma adequação na instituição, para que os trabalhadores consigam desempenhar suas funções de maneira mais saudável e manter sua saúde.

Os Agentes de Segurança Penitenciária cruzam em sua jornada de trabalho com a população carcerária, cujos apresentam comportamentos infantilizados, são imediatistas, agressivos e mal educados. Em relação às chefias, os ASPs se sentem desmotivados em razão da falta de apoio, contudo, ainda devem assumir uma posição de autonomia, pois precisam cuidar de toda a segurança do presídio, além de exercerem um papel ressocializador, confrontando com seus valores pessoais.

É necessário que se dê certa atenção aos profissionais dessa área para que os mesmos possam obter satisfação em seu ambiente de trabalho, e consequentemente, uma melhor qualidade de vida.

Por ser uma profissão de risco, mas muito útil para a sociedade, é de extrema importância que sejam realizadas novas pesquisas sobre o tema, buscando proporcionar um aprofundamento científico aos profissionais que atuam e visam atuar e/ou intervir nesta área.

Sobre os Autores:

Ariane Tosato Luiz - graduação em Psicologia 2014, pela Faculdade Anhanguera de Jundiaí.

Cintia Verônica Medeiros de Morais - graduação em Psicologia 2014, pela Faculdade Anhanguera de Jundiaí.

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