Psicologia do Trabalho: Globalização e suas Implicações no Trabalho

Psicologia do Trabalho: Globalização e suas Implicações no Trabalho
(Tempo de leitura: 6 - 12 minutos)

Resumo: A globalização surge como um combustível para o capitalismo ao passo que facilita a comunicação por meio da informática e que facilita a produção por meio da robótica e informática. O trabalho que anteriormente tinha a função apenas de realizar necessidades começa a ser mais um produto no mercado, onde o trabalhador vende sua força de trabalho e produtividade. A psicologia do trabalho tem muito a contribuir com a melhoria da situação de trabalho em que as pessoas se encontram. Por isso este trabalho tem por objetivo descrever o que é globalização, capitalismo e psicologia do trabalho e organizacional.

Palavras-chave: Globalização, capitalismo, trabalho, psicologia do trabalho.

1. Globalização e Capitalismo

Segundo Gorender (1997) por causa do processo de globalização, no final do século XX aconteceram várias transformações importantes para o sistema capitalista mundial, reforçando a forma de produção deste sistema. Isto é, se internalizou o sistema de mercado originado no capitalismo. Os traços fundamentais deste sistema, segundo o mesmo autor, são o capital e a dinâmica deste, ou seja, começam a surgir como consequência, competições entre mercados.

As transformações mais visíveis no capitalismo por causa da globalização são referentes às tecnologias, informática e telecomunicações. Isto afeta diretamente a forma de produção e as relações de trabalho (GORENDER, 1997). O trabalhador começa a ter mais tarefas a cumprir, tendo que ser mais flexível e com grau de escolaridade maior.

Conforme Santos (2001) a globalização se refere à rede de produção e troca de mercadorias em nível mundial. Diz respeito a um intercambio de mercado, política, culturas entre vários países. Com o aparecimento de novas formas de produção e inovações nas ciências e tecnologias de comunicação, a globalização é considerada por muitos um novo patamar, um grande avanço da civilização.

A globalização reorganiza a sociedade, surge como um combustível para o sistema capitalista, de forma que o que e como eram as relações de trabalho começa a mudar, fazendo com que trabalhador tenha que se sujeitar a vender sua força de trabalho, sua produtividade, produzindo em grandes quantidades, enquanto ele não pode se apropriar de praticamente nada do que produziu. É preciso que  trabalhador esteja sempre ligado, online.

Gorender (1997) afirma que foi Henry Ford que começou em suas fábricas, a mudar o panorama da produção no mundo. Ele retirou a produção artesanal e colocou para funcionar o modelo de produção em massa. Isto fez com que aumentasse a quantidade de produtos a serem feitos na mesma quantidade de tempo. Com isso Ford objetivou suprimir o tempo vago entre a fabricação de um produto e outro. Visou também baixar os custos com mão de obra. Ford lapidou o sistema criado por Frederick Taylor, dando origem assim ao Fordismo-Taylorismo.

Ford e Taylor criaram uma forma de trabalho para tentar suprimir os tempos vagos, bem como a criarem condutas, padrões de comportamentos, visando sempre o aumento de produção e diminuição de gastos (GORENDER, 1997).

Com toda essa transformação no formato de trabalho, segundo Navarro (2007), houve alta taxa de desemprego em todo o mundo. Todo esse avanço tecnológico e a reestruturação produtiva geraram certa precarização e exploração da força trabalho. Neste caso há grande contradição entre alta taxa de desemprego e sobrecarga de trabalho.

Por causa da “facilitação” gerada pela informatização vinda com a globalização não era mais necessários tantos trabalhadores para realização de várias tarefas ao mesmo tempo, onde apenas uma pessoa passou a realizar  trabalho que antes era realizado por várias. Com isso quem fica responsável por realizar tal tarefa fica sobrecarregado enquanto outros são afastados de suas atividades, por não serem mais necessários.

Por isso Navarro (2007, p. 15) pautada em Marx, aponta as contradições do capitalismo:

O capitalismo traz consigo uma série de contradições, muitas delas relacionadas ao mundo do trabalho. Ao mesmo tempo em que o trabalho é a fonte de humanização e é o fundador do ser social, sob a lógica do capital se torna degradado, alienado, estranhado. O trabalho perde a dimensão original e indispensável ao homem de produzir coisas úteis (que visariam satisfazer as necessidades humanas) para atender as necessidades do capital. Sob o capitalismo, explicou Marx, o trabalhador decai à condição de mercadoria e a sua miséria está na razão inversa da magnitude de sua produção. [...]

O capitalismo chega e posteriormente se junta com a força da globalização e inicia uma transformação do trabalho, que é em sua gênese  uma atividade humanizadora e socializadora em uma atividade degrada e ao mesmo tempo estranha a quem o realiza.

2. Trabalho

O trabalho anteriormente era basicamente a realização de uma determinada atividade com interesse em modificar o meio e a natureza, para satisfazer as necessidades básicas de determinada coletividade. Em sua gênese ele é coletivo e por isso participa do processo de fundação da consciência e da linguagem. E por esta atividade ser coletiva, também, socializa e cria padrões de convivência.

Essas relações começam a mudar com a emergência do capitalismo, pelo movimento causado pela globalização e pelo surgimento da produção em massa. Por isso Gorender (1997) afirma que a globalização acentua a instabilidade no trabalho.

O trabalho é parte fundamental da vida humana, é fruto de todo o conhecimento historicamente acumulado pelo Homem, ou seja, de geração para geração os pais passam para os filhos seus ofícios ou da a eles bases para buscar uma profissão.

Santos (2001) aponta que existe exploração no trabalho por causa da diferença de classes. As relações de classes geram exclusões. E na sociedade global e que visa o capital, a classe que domina é a burguesia, a qual detém o capital e os materiais para a produção. Com isso ela compra forças de trabalho e mão de obra.

A globalização com a informática e as telecomunicações possibilita ao sistema capitalista baratear a mão de obra fazendo com que o trabalhador tenha que produzir mais. Ele consegue produzir mais em menos tempo e receber o mesmo valor.

Para melhor elucidar o que é trabalho Souza (1986) escreve:

Entre os que “trabalham” temos duas situações básicas: por um lado, os que realizam tarefas internas ao funcionamento do lar sem perceber remunerações por este trabalho (donas-de-casa e pessoas que ajudam nas tarefas de casa) e, por outro os que realizam tarefas remuneradas, ou se ocupa, sem remuneração, em algum estabelecimento familiar dedicado à produção de bens ou serviços para o mercado.

Percebe-se com isso que trabalhar é realizar determinadas atividades que modificam o meio, seguindo o exemplo da pessoa que cuida da casa, ela realiza um trabalho porque limpa, lava passa roupa, prepara o almoço, mas em muitos casos ela não recebe nenhuma valor em espécie, ou seja, em dinheiro por isso. Mesma coisa, que capina o quintal de sua própria casa, ele não é remunerado por isso, mas  realiza uma atividade para seu bem-estar e em prol do coletivo.

Com isso fica claro que toda atividade modificadora do meio onde se encontra é considerado trabalho. Não necessariamente remunerado, mas necessariamente satisfatório frente à determinada situação.

O que diferencia o trabalho como atividade modificadora e mediadora é a forma em que se realiza a atividade. Onde determinadas atividades são basicamente as mesmas realizadas pelo trabalhador não remunerado, mas com remuneração e parte de um sistema produtivo. Esta atividade é chamada de emprego.

Segundo Souza (1986) emprego é a realização da mesma atividade, ou seja, o trabalho, mas dentro de um sistema de produção e como parte de uma empresa. Nas empresas, ramo organizado tipicamente capitalista, onde o proprietário não participa diretamente da produção e quando participa é por meio de atividades administrativas.

O que é visado no emprego, dentro do capitalismo, é a quantidade de produção, o que foi facilitado pela globalização. O foco também, por parte do trabalhador está no salário, que em muitos casos é aumentado conforme o numero de produção.

Com todo esse avanço nas tecnologias o trabalho é facilitado, mas também é aumentado. Sendo assim o trabalho passa a ser mais intenso e mais compacto. Mais coisas para fazer ao mesmo tempo em que se fazia antes.

O trabalho sofreu grandes alterações com o advento da globalização, o que fez esta atividade que é vital, basicamente realizada para sobrevivência e satisfação, comece a ser uma atividade obrigatoriamente vendida e comprada. Ou seja, o produtor produz para, porém não para si ou apenas para seu povo, ele produz para o detentor do capital que paga por isso para posteriormente vender o produto.

Com a sociedade capitalista o que passa a ser visado é o lucro. Sendo assim, o capitalista, atual empresário, disponibiliza a matéria a ser modificada pelo trabalho, compra a força de trabalho, o trabalhador produz em grande quantidade, mas que vende e possui o lucro é quem disponibilizou o material e não quem produziu.

3. Psicologia do Trabalho

Conforme a resolução Nº 02/01 do Conselho Federal de Psicologia (2001), o psicólogo organizacional e do trabalho atua com suas atividades voltadas ao trabalho e ao trabalhador, exercendo funções como recrutamento, seleção, orientação, aconselhamento, treinamento profissional, identificação e analise das funções do trabalhador com o trabalho. O psicólogo também faz entrevista e avaliações de pessoal para empresas, bem como sondagens de capacidade e aptidão do profissional. Dá suporte para a empresa na hora de contratar pessoal com habilidades e satisfação na função em que ira exercer.

Quanto ao trabalhador o psicólogo visa melhorar as condições de vida e de saúde dos trabalhadores. O psicólogo do trabalho também pode criar avaliações para treinamento do pessoal e fazer orientações profissionais. Ele também poderá atuar na melhoria do bem-estar dos trabalhadores criando programas para melhorar a qualidade de vida para evitar doenças. Formula estratégias para melhorar o clima organizacional e participa de projetos, para garantir o bom desempenho dos trabalhadores e melhor rendimento para a empresa (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2001).

Segundo o Conselho Federal de Psicologia (2001) o psicólogo pode atuar nas empresas desempenhando as seguintes funções: Analista de Recursos humanos, consultores internos de recursos humanos, gestão de pessoas, recrutamento e seleção e desenvolvimento.

A psicologia organizacional visa aumentar as qualidades de funcionários para a organização e da organização para o funcionário visando melhorar as condições para ambos (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2001).

Leão (2012) aponta que a psicologia do trabalho pode trabalho em conjunto com diversas áreas de conhecimento. É também um campo da psicologia que dialoga com diversas abordagens teóricas. Contudo o objeto de estudo desta linha são os processos organizacionais e do trabalho realizados pelo homem, ou seja, o universo relativo ao trabalho e as organizações.

Vieira et. al. (2007) afirma que a psicologia do trabalho contribui para a melhoria das relações da sociedade e das pessoas com o trabalho. A construção humana acontece a partir das experiências e da relação que este tem com o mundo externo, ou seja, por meio das relações concretas do cotidiano.

Não se trata de um sujeito abstrato, mas concreto, e o trabalho é entendido em seu sentido genérico, como expressão da relação do ser com a natureza, em sua dupla dimensão: transformar a natureza e, ao mesmo tempo, autotransformar-se, como ser que trabalha, por meio da relação com a cultura, da identificação com o grupo, da auto-realização e do sentimento de auto estima. Em outras palavras, o trabalho se apresenta como elemento constituinte da essência humana, da experiência, do saber/aprender fazer de cada um. (VIEIRA et. al. p. 156, 2007)

A questão supracitada faz menção à capacidade que o ser humano tem de realizar atividades com a intenção de modificar seu meio. Onde ele retira da natureza o material, o qual ele modifica visando satisfazer suas necessidades. E é a partir de suas produções que ele vai se construindo. O homem é parte da natureza, mas ele mesmo a modifica.

Contudo, é necessário que o trabalhador se identifique com a atividade que realiza. É importante que a tarefa que se propõe a fazer não seja apenas por causa da sua sobrevivência material, ou seja, apenas em troca de dinheiro, que é indispensável para se viver minimamente bem na sociedade atual.

Por meio do trabalho o sujeito busca encontrar reconhecimento pelo que é e ao mesmo tempo reconhece alguém. É muito comum se conhecer alguém por meio de uma empresa ou cargo exercido. Por exemplo, quando se fala de alguém para outra pessoa é comum se dizer: ‘o João da padaria’, ou seja, há o reconhecimento do individuo pelo seu trabalho exercido.

Quando se fala em João da padaria, pensa-se apenas nele e no local de trabalho, não em suas condições de trabalho e se realmente ele se identifica com o que faz. Para isso é preciso ter contato com o trabalhador, buscar entender a situação real de trabalho a qual ele se encontra e se nesta se vê como parte importante e realizando uma atividade que faz sentido, que o identifique e o realize como pessoa.

4. Conclusão

Neste caso a psicologia por meio do psicólogo na empresa, pode atuar com vistas à orientação clinica e de carreira. Também pode atuar visando melhoria de clima e diagnosticando a cultura da empresa para tentar melhorar o ambiente de trabalho. Pode-se afirmar que é importante mostrar ao trabalhador a importância de sua atividade, dando-lhe reconhecimento pelo que faz.

Como foi mencionado o trabalho foi muito modificado pela globalização, sendo assim é necessário entender a nova relação de trabalho existente com esse fenômeno para que a psicologia do trabalho atue nas organizações por meio de trabalhos multidisciplinares para poder dar ao trabalhador suporte em seus conflitos.

E importante destacar que o psicólogo pode ser importante voltando-se para a saúde do trabalhador. Isso traz como consequência o melhor empenho deste no desempenho de suas funções. Sendo assim - num olhar que visa o lucro – tanto a empresa como o empregado ganham.

Sobre o Autor:

Vinicius dos Santos Oliveira - graduação em psicologia em andamento pela UNOESTE.

Referências:

GORENDER, J. Globalização, Tecnologia e Relações de Trabalho. Estud. av., São Paulo, v 11, n. 29, abril de 1997.

SANTOS, T. S. Globalização e exclusão: a dialética da mundialização do capital. Sociologias,  Porto Alegre,  n. 6, dez.  2001.

NAVARRO, V. L.; PADILHA, V. Dilemas do trabalho no capitalismo contemporâneo. Psicol. Soc.,  Porto Alegre,  v. 19,  n. spe,   2007.

SOUZA, P. R. O que são empregos e salários. Coleção primeiros passos; nova cultura, Brasiliense, São Paulo, 1 ed. 1986.

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