A Persistência Leva ao Caminho do Êxito: a Percepção de Dependentes de Substâncias Psicoativas em Recuperação Sobre o Tratamento Oferecido em uma Clínica de Reabilitação

A Persistência Leva ao Caminho do Êxito: a Percepção de Dependentes de Substâncias Psicoativas em Recuperação Sobre o Tratamento Oferecido em uma Clínica de Reabilitação
(Tempo de leitura: 13 - 25 minutos)

Resumo: O presente estudo teve como objetivo analisar a percepção de dependentes de substâncias psicoativas em recuperação sobre o tratamento oferecido em uma clínica de reabilitação. Foram entrevistadas quatro pessoas, sendo três do gênero masculino e uma do gênero feminino. Trata-se de um estudo qualitativo, na modalidade de uma pesquisa de campo, tendo como principal instrumento um roteiro de perguntas semi-estruturadas, utilizadas nas entrevistas realizadas com cada participante na clínica onde estão para tratamento. Foi possível observar que todos iniciaram o uso das substâncias psicoativas desde muito cedo, sendo ainda na infância e adolescência. Os motivos pelos quais eles fizeram o início do uso são vários, mas é perceptível a influência de alguns fatores como precipitantes potenciais: os diversos problemas familiares, a grande influência exercida pelos amigos, e problemas quanto a autoestima. Pode-se concluir que o tratamento oferecido na clínica de reabilitação tem tanto os seus pontos positivos quanto seus pontos negativos, podendo ser um tratamento positivo, na questão da escuta, apoio e compreensão dos mesmos, uma vez que muitos mencionam não ter isso em seu dia-a-dia e principalmente em casa, de suas famílias, porém como ponto negativo pode-se mencionar a desvinculação social, que eles são acometidos, principalmente de suas famílias, e a primazia pela medicalização no tratamento, as vezes em dosagens altas, deixando a pessoa que esta em busca de tratamento, desorientada, não podendo reagir de forma positiva para com o mesmo.  

Palavras-chave: Dependentes, Substâncias Psicoativas, Clínica de Reabilitação, Tratamento.

1. Introdução

Atualmente, o problema com o uso de drogas se agrava cada vez mais, em que vemos crianças e adolescentes desde muito cedo envolvidos neste universo. Diante disto, o tema do presente estudo é o tratamento de dependentes de substâncias psicoativas em recuperação em uma clínica de reabilitação.

O interesse para com o estudo surgiu através da grande preocupação sobre dependentes de substâncias psicoativas, bem como o tratamento que se é oferecido a estas pessoas.

O objetivo deste trabalho, portanto, é analisar o perfil de dependentes de substâncias psicoativas em recuperação em uma clínica de reabilitação bem como verificar a percepção dos mesmos sobre o tratamento, investigando como estes lidam com as características do tratamento e sua influência sobre suas vidas, verificar os seus sentimentos frente aos seus familiares, durante o tratamento numa clínica de reabilitação e também verificar a percepção de dependentes de substâncias psicoativas em recuperação em uma clínica de reabilitação quanto às vantagens e desvantagens desta modalidade de tratamento.

2. Fundamentação Teórica 

O consumo de substâncias psicoativas cresceu assustadoramente a partir da segunda metade do século XX, configurando-se desde as últimas décadas desse século como um fenômeno de massa e como uma questão de saúde pública. Sendo assim, em função da complexidade desse fenômeno na atualidade, a dependência química é um problema que vem recebendo crescente atenção, mobilizando tanto o sistema de saúde quanto a sociedade de uma forma geral. Além disso, tal questão está ganhando crescente visibilidade, uma vez que discussões sobre a temática estão presentes em diversos meios de comunicação e no âmbito de várias instituições (MARINHO, 2005).

Para que se reconheça os níveis de uso das substâncias químicas e suas implicações, é necessário o fim do preconceito e estigmatização para com os usuários. Estes devem ser vistos e auxiliados, ressaltando suas diferenças, ao ser formulado o plano de tratamento.

O que temos assistido é a ‘sociedade do espetáculo’ na medida em que a mídia associa o uso de substância psicoativa às situações de violência de toda a ordem. Esta lógica exclui e segrega cada vez mais a pessoa que usa drogas, tornando-se também um empecilho àquelas que necessitam de cuidado, perpetuando a não garantia dos direitos fundamentais (SANTOS, 2010, p. 2).

Embasando-se nestas colocações, cabe aos serviços de saúde mental e demais grupos dirigidos aos dependentes químicos investir na educação da sociedade em geral, sobre o funcionamento deste transtorno. Assim, em relação ao tratamento destes pacientes, é fundamental não encarar o uso da substância como um fenômeno sem meios-termos, é necessário trabalhar sem pensamentos dicotômicos de dependência ou abstinência.

Deste modo, partindo da definição de termos, temos que substâncias não produzidas pelo organismo, e que causam modificações ao seu funcionamento são denominadas drogas. Quando agem diretamente no sistema nervoso central são denominadas psicoativas ou psicotrópicas. Seibel (2001) define que “substâncias ou drogas psicoativas são aquelas que modificam o estado de consciência do usuário”.

O que impulsiona uma pessoa a usar drogas, seja quais forem elas, de uma forma contínua, ou seja, sempre, ou de forma periódica, frequentemente, no intuito de obter prazer, é o que podemos chamar de dependência. Outro uso frequente das drogas alude-se ao fato delas aliviarem tensões, ansiedades, medos, sensações físicas desagradáveis.

O dependente é um sujeito que reflete as relações sociais e familiares. É uma expressão da questão social que envolve inúmeras variáveis. É um reflexo histórico-social das condições pessoais (singulares) e sociais do sujeito. Os determinantes sociais contribuem ao uso de drogas, porém os fatores são múltiplos e pode-se caracterizar a dependência química como uma doença multideterminada. No tocante aos determinantes sociais, “as pessoas recorrem às drogas porque a organização social atual não está sendo capaz de atender suas necessidades” (MALUF, 2002, p.17). Não só as suas questões sociais, mas também familiares, muitas vezes, questões relacionadas ao seu trabalho, escolares, afinal, verificamos que muitos iniciam o uso desde muito cedo, entre outros fatores.

Silveira (1995) acrescenta ainda, que para esses indivíduos a droga passou a exercer um papel central nas suas vidas, na medida em que, por meio do prazer, ela preenche lacunas importantes, tornando-se indispensável para o funcionamento psíquico dos mesmos.

Silveira (1995), complementa dizendo que o dependente é uma pessoa que se encontra diante de uma realidade objetiva ou subjetiva insuportável, e não a conseguindo modificar ou se esquivar, resta-lhe como única alternativa a alteração da percepção dessa realidade, que é feita pelo dependente através de substâncias psicoativas.

Uma das alternativas de tratamento para dependentes químicos são as clinicas de reabilitação que, de acordo com Pozas (1996), foram criadas em 1979 com o intuito de dar uma resposta aos problemas provenientes da dependência de drogas, possuindo assim um ambiente que necessariamente é livre das mesmas e uma forma de tratamento em que o paciente é tratado como o principal protagonista de sua cura. Trata-se de um sistema estruturado, com limites precisos e funções bem delimitadas, regras claras e afetos controlados, através de normas, horários e responsabilidades. Toda essa estrutura justifica-se para que o paciente se situe totalmente no tratamento, sendo assim, o trabalho intenso, tanto pela equipe profissional, quanto pelos pacientes.

3. Método

Trata-se de um estudo qualitativo, na modalidade de uma pesquisa de campo, realizada com quatro pessoas (3 homens e 1 mulher), em tratamento numa clinica de reabilitação no Extremo Oeste de Santa Catarina.

A clínica de reabilitação em que esta pesquisa realizou-se, está situada dentro de uma unidade de saúde, da região do Extremo Oeste de Santa Catarina, contendo também uma Ala Psiquiátrica. Conta com capacidade para 28 pessoas, vindas através de unidades de saúde de municípios da região, e pelo SUS, com nenhum custo, com duração do tratamento de no máximo trinta dias. Após a alta, se necessário ou é encaminhado para outra clínica vinculada, ou após quinze dias de alta, pode retornar a mesma. Conta com uma equipe de saúde multidisciplinar, apenas não possuindo terapeuta ocupacional. Na primeira semana não recebe visita, nem ligações, no entanto após esse período, já recebe duas vezes por semana, ligações, e visitas. Nesta clínica se  encontra pessoas por três tipos de internações que seria a voluntária, involuntária e compulsória. A voluntária é aquela que a pessoa vai voluntariamente para a internação, a involuntária é quando algum familiar que mora com a pessoa está passando por riscos, e decide pela internação, e a compulsória é quanto a decisão parte de um juiz.

Foi usado entrevistas semi-estruturadas, com questões abertas. A coleta de dados deu-se mediante a leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Para a discussão dos dados referentes ao perfil dos usuários de substâncias psicoativas procedeu-se a confecção de um quadro organizando as informações, usadas como referências para as inferências realizadas.

Para a discussão dos dados procedeu-se a análise de conteúdo que segundo Bardin (2000) é um conjunto de técnicas de análise das comunicações que visa obter indicadores quantitativos ou não que permitam a inferência de conhecimentos, isto tudo é obtido através de procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens. Para tal, conta-se com duas categorias de análise aprioristicamente definidas:

  1. Sentimento frente à família
  2. Vantagens e Desvantagens do Tratamento

4. Discussão dos Dados

O perfil dos usuários de substâncias psicoativas, encontra-se no quadro 1.

Quadro 1. Perfil dos usuários de substâncias psicoativas.

Participante

1

2

3

4

Gênero

Masculino

Masculino

Masculino

Feminino

Idade

16 anos

32 anos

24 anos

30 anos

Est. Civil

Solteiro

Casado

Solteiro

Separada

Filhos

Não tem

Não tem

Não tem

Quatro

1ª vez de uso

Seis anos

Onze anos

Doze anos

Quatorze anos

Qual droga

Maconha

Maconha

Maconha

Cocaína

Qual mais usava

Maconha

Maconha

Maconha

Cocaína

Outras drogas de uso

Crack, cocaína, cola de sapateiro, tíner, gasolina

Cola de sapateiro, crack

Cocaína, crack

Ecstazy, lança perfume, cocaína

Tratamentos anterior

Internações (4)

Várias internações

Internações (2)

Nenhuma (1ª vez)

Tempo sem uso

Um mês

Um mês

Vinte dois dias

Sete dias

Motivo do uso

Perda da mãe, e episódios de brigas em casa.

Emoção, por ver os demais usando.

Por que deixava ele feliz, fazia rir, era algo bom.

Saída de casa, sem receber apoio familiar para cuidar dos filhos.

Histórico familiar

Pai alcoólatra.

Pai já foi internado por álcool.

Pai e irmão usam drogas e álcool.

Pais bebiam. Cônjuge alcoólatra.

Como se percebe várias são as razões que levam uma pessoa a procurar alivio nas drogas. Dentre elas, destacam-se o desajustamento familiar, amizades ou ainda o desejo de manter-se integrado a um grupo. Porém, independentemente das razões que levam alguém a iniciar-se neste meio, todos possuem como pano de fundo uma enorme vontade de fugir de determinada situação. Além disto, convém lembrar que, a grande maioria dos que se iniciam nas drogas, acabam no mesmo ponto de chegada: a perda do controle e a incapacidade da decidir sobre seus próprios rumos, ou seja, à dependência química.

Diante do quadro acima, percebeu-se que o inicio de uso das substâncias psicoativas foi todos na infância ou adolescência, entre seis até dezesseis anos, tendo como primeiras drogas de uso a maconha e a cocaína, permanecendo as mesmas como sendo as mais usadas. A entrada no mundo das drogas tem como principais motivos: problemas familiares e influências sociais (amizades e familiares). Quanto ao motivo de começo do uso das drogas o primeiro conta que deveu-se pela perda da mãe e brigas em casa, deixando claro que desde que ela faleceu não deixou de usar nunca; o segundo diz que o motivo foi por curiosidade; o terceiro participante conta que ao usar, ficava feliz, ficava rindo o tempo todo, e era algo bom, o que pode-se pensar de que ao estar sem o uso, se sentia uma pessoa infeliz, e não se sentia bem; e a quarta participante conta que os pais bebiam e não a apoiavam diante de algumas necessidades como auxiliá-la a cuidar dos filhos enquanto ela trabalhava. Assim em relação ao motivo de começo do uso das drogas, cada qual teve seu motivo, no entanto, todos giram em torno de questões relativas ao contexto social, seja atrelada à família ou as amizades. Quando se relaciona a questão de familiares, percebemos nuances atreladas a vivências negativas como a perda da mãe, e famílias desestruturadas, em que os próprios pais bebiam e não exibiam outros modelos de responsabilidades no cuidado dos filhos. Entretanto, quando os motivos ligam-se ao contexto de amizades, estas relacionam-se com emoções positivas, em que o uso de drogas facilitava o relacionamento através de boas sensações.

Marchi e Cetolim (2011) ao pesquisarem características biopsicossociais de usuários de crack e outras drogas, identificam justamente estes dois tipos de acesso às drogas pela primeira vez: familiares e amigos. Estando também em concordância com Marques (2000),  que cita a curiosidade como um dos motivos da primeira experimentação das drogas. Para o autor, fatores psicológicos, como a baixa auto-estima, também podem influenciar a busca pela drogadição. 

Percebe-se ainda que, além da forte relação dos pares com começo do uso de drogas, todos os participantes manifestam algum histórico familiar de envolvimento com drogas. Sobre esse aspecto, Pillon  (2004)  se  manifesta  orientando  que  o  modelo  psicossocial  do usuário de drogas se constitui pelo aprendizado social, a interação da família e os traços da personalidade de cada indivíduo. É um modelo que se orienta pelo comportamento aprendido socialmente e se manifesta através da observação  e  da  imitação.  Demonstrando que o exemplo da família, em especial dos pais, é um importante fator no padrão inicial do consumo de substâncias psicoativas e no desenvolvimento da dependência.

A porta de entrada abre-se com substâncias “mais leves” como a maconha com força de tóxico dependência menor, mas no caminho transcorrido surgem as drogas mais pesadas com frequência ampliada. Percebe-se ainda de que apenas um dos sujeitos não passou por nenhum tratamento anterior, os outros três já lidaram com pelo menos duas internações. Verificamos que há uma falha na rede de saúde mental da região, pois o tratamento não consegue ser efetivo uma vez que após este período de internação o sujeito que ganha alta cai novamente num contexto em que não há apoio para a sequência de seu tratamento, o que o faz entrar no que a psiquiatria chama de “porta giratória” que configura-se como sendo um fenômeno caracterizado pelas reospitalizações/reinternalizações frequentes, obedecendo a um ciclo recidivo de internação/alta/internação (BANDEIRA; BARROSO, 2005).

As sucessivas re-internações  apresentadas  pelos  sujeitos  possibilitam  algumas observações.  Para Bezerra  (2011)  o  fenômeno  da  re-internação  evidencia um grande desafio, tendo em vista que a ausência de uma rede  fora da clínica que  acolha  a  demanda  e  garanta  uma  atenção  de  qualidade  e  eficaz resulta na reincidência de internações constantemente, expondo a dificuldade em se garantir uma  continuidade  no  tratamento  do  sujeito  inserido  no  meio  social  e  familiar,  havendo  a necessidade da internação. O que fica visível que se houvesse uma rede qualificada, estruturada e bem preparada para lidar com estes usuários e seus familiares, fora do circulo de tratamento, esta “porta giratória” como é chamada, seria em grau menor, ou não precisaria ocorrer, mas como esta rede não existe efetivamente instalada e coordenada, e como as famílias destes usuários não são tratadas durante o tempo de tratamento do dependente, a realidade encontrada, ao chegar em casa, ou ser inserido novamente a sociedade, é a mesma de sempre, predispondo-o a recaída, tendo a tendência de voltar novamente para a internação.

O quadro ainda nos mostra de que todos os participantes estão abstêmicos, desde que estão na clínica, sendo aproximadamente sete dias, até um mês, conforme o tempo que estão em tratamento.

4.1 Sentimentos Frente à Família

Frente aos sentimentos despertados nos dependentes de substâncias psicoativas durante o tratamento, todos falaram de saudades, manifestando a falta que elementos da família lhes fazem.     

“Muitas saudades da família.” (P1)

“Sinto muitas saudades da minha esposa.” (P2)

“Saudades da família, mais da mãe e o meu padrasto que me apóiam.” (P3)

“[...] saudades dos filhos.” (P4)

Sabemos que a desvinculação da sociedade, e principalmente do convívio com a família não é um ponto positivo, pois ao mesmo tempo que tira o usuário de perto do alvo de seu problema, tira ele também de uma vida social, principalmente do convívio com a sua própria família, podendo deixar o mesmo revoltado, por não poder ver seus familiares nem receber ligações por no mínimo sete dias, o que deixa ele ainda mais distante de seus familiares e amigos.

Mesmo que ele construa laços de afinidade com as demais pessoas que estão internadas, existe uma ruptura que pode predispô-lo a reagir de forma negativa, seja com o tratamento, com os colegas de internamento ou com os profissionais.

O que podemos perceber ainda, quando o assunto é família, é que a mesma é um dos pontos principais para uma boa recuperação do usuário, pois a família é o principal agente de socialização do indivíduo (CARVALHO, 1995). Por ser a família um espaço privilegiado de convivência isto não significa que não haja conflitos e a forma de lidar com as dificuldades poderá favorecer o tratamento, mas em algumas situações o resultado pode ser contrário, e por isto não basta apenas o paciente querer deixar de ser dependente químico, é preciso ter o apoio da família para que se efetive a superação da dependência (CARVALHO, 1995). A família através das articulações constantes no dia-a-dia pode favorecer ou atrapalhar o andamento do tratamento, por isso o trabalho a ser desenvolvido com as famílias seria fundamental para obtenção de resultados satisfatórios.

Assim, podemos perceber de que além da grande falta que a família faz para estes usuários, a tanta saudades sentida, a mesma é de extrema importância para o tratamento, pois vemos acima citado, de que mesmo com todas as dificuldades que uma família tem, ela deve ser um dos pilares principais para um tratamento positivo, pois muitas vezes não basta o usuário querer se tratar, se não há apoio suficiente da família, a qual irá lidar com ele depois da sua saída da clínica de reabilitação.

No entanto, a entrevistada P4 fala de um sentimento de raiva direcionado aos pais:

“Raiva dos pais, principalmente do meu pai que me tocou de casa aos 12 anos.” (P4)

Percebe-se um sentimento de raiva muito grande direcionado ao pai, que a expulsou de casa, quando tinha ainda 12 anos, dois anos antes do começo do uso de drogas, aos 14 anos. O inicio do uso da droga tem relação também com sua saída de casa, que pode ter advindo da má relação estabelecida com seu pai.

Sabe-se que muitas famílias estão vivendo um cotidiano com muitas dificuldades e também muito estresse, e já não conseguem lidar de forma equilibrada com seus conflitos, entre os seus membros (dinâmica familiar), bem como no seu meio social. Sobre isso, Blefari (2002) comenta que o indivíduo que cresce em um ambiente familiar sem amor, sem limites, sem atenção pode tornar-se um sujeito sem estrutura emocional para lidar com os problemas que vão surgindo em sua vida e, muitas vezes, acaba tornando-se usuário de drogas. O problema da dependência química não deixa de ser do próprio dependente e do meio em que ele vive. A falta de amor e a negligência também são fatores que devem ser levados em consideração para o surgimento da dependência química (ORTH, 2005).

Assim, percebemos que muitos são os fatores observados pelo inicio de uso de drogas, mas segundo o Ministério da Saúde (2003), consideram-se alguns fatores como importantes condicionantes para o uso indevido de drogas, tais como: fatores individuais, familiares e das relações interpessoais. Em relação aos fatores individuais destacam-se a baixa auto-estima, o autocontrole, pouca assertividade, comportamento antissocial precoce, co-morbidades e a vulnerabilidade social. Dentre os principais fatores familiares são apontados os seguintes: uso de drogas pelos pais e/ou membros da família, isolamento social entre os membros da família e padrão familiar disfuncional. E podemos ver visivelmente que para um dos membros, a questão relacionada a família, foi o que deu impulso para o uso.  (MARCHI; CETOLIN, 2011)

Ainda, o P2 afirma o sentimento de reconquista e luta:

“Quero sair daqui logo, chegar em casa e reconquistar a confiança dos meus pais.” (P2)

Todos nós por muitas vezes quebramos com a confiança de alguém, por inúmeros motivos, e temos a motivação de reconquistar esta confiança quebrada. Quando se trata da relação entre pais e filhos, a questão vai além, então aqui fica muito visível a vontade de que o dependente em tratamento tem de se curar para reconquistar a confiança de seus pais rompida com a inserção no mundo das drogas.

Pois esta vontade toda de reconquista é o que pode dar cada vez mais a motivação de reagir positivamente para com o tratamento, podendo ser considerado o primeiro passo para o fim do uso.

4.2 Vantagens e Desvantagens do Tratamento

Quanto às vantagens e desvantagens do tratamento na clinica de reabilitação, todos os dependentes de substâncias psicoativas falaram apenas das vantagens, sem mesmo em momento algum mencionar alguma desvantagem.

“Não tem desvantagem, aqui é que a gente consegue parar de usar” (P1)

“Vantagem que aqui eles entendem nós, e ajudam” (P2)

“Tem tudo de bom, novos amigos, nos faz pensar, e ganhamos uma grande recepção”(P3)

“Aqui tem pessoas para nos ouvir, em casa não tem, aqui tem apoio” (P4)

Podemos observar que ninguém menciona em momento algum qualquer desvantagem quanto ao tratamento oferecido na clinica de reabilitação, todos mencionam apenas vantagens, sendo elas: parar de usar a droga, ajuda que eles oferecem lá, o apoio, novos amigos, um momento de reflexão sobre suas vidas, a importância da escuta, pois lá tem pessoas para ouvi-los, e são bem recepcionados.

Tratando-se de parar de usar a droga, o objetivo maior do tratamento oferecido na clinica, é justamente este, e desta forma, representa sim uma grande vantagem, porém, pensando-se por outros aspectos, a primazia pelo tratamento farmacológico pode ser encarada como uma desvantagem não relatada pois altera o estado de consciência ótima para que o tratamento alcance a capacidade de discernimento necessário para cada um poder refletir sobre a sua vida, desta forma alude-se que continuam usando algum tipo de droga.

 Quando se fala em ajuda, apoio, ouvir, e serem bem recepcionados, são pontos muito importantes, pois pode indicar que toda a ajuda, e apoio que faltou no seu contexto social real, pode ter sido encontrado na clinica, fazendo-lhes sentir bem quistos, importantes, e ao serem ouvidos pode dar-lhes um incremento na confiança para o tratamento.

Por esta razão é que sugere-se que a família deveria, de alguma forma, inserir-se no processo de tratamento do dependente. Pois como afirma Orth (2005), as famílias dos dependentes químicos representam a principal rede de apoio do indivíduo, e, se bem acompanhadas terapeuticamente, tornam-se mais bem preparadas para enfrentar a situação.

Sobre isso, Schenker e Minayo (2004) afirmam que a família influencia tanto no aparecimento da dependência, como no tratamento do sujeito, pois ela é a rede de apoio mais próxima. Então, seria uma vantagem poder incluir a família no tratamento, pois segundo Copello, Templeton e Velleman (2006), intervenções familiares levam a resultados positivos, tanto para os usuários de substâncias psicoativas quanto para os membros da família. Os mesmos autores afirmam que estudos recentes têm mostrado que intervenções na família e/ou rede social melhoram os resultados se comparados a intervenções individuais; o maior desafio envolve a implementação de intervenções familiares nos serviços de rotina.

5. Considerações Finais

Ao concluir este trabalho julgo necessário e pertinente algumas considerações que se fizeram relevantes no decorrer da construção do mesmo.

Foi possível ter a percepção de que, cada vez mais as crianças e adolescentes, buscam as substâncias psicoativas e que os motivos são inúmeros, porém o maior é geralmente advinda de uma desestruturação familiar, ou influência de amigos, esta associada a grande curiosidade em saber como é a droga, quais as sensações, o que ela proporciona, muitas vezes relacionada a indivíduos com baixa autoestima.

Ao mesmo tempo em que o processo de internação na clínica disponibiliza de espaços para reflexão, fazendo com que o usuário pense, reflita e comece a ter uma visão diferente, tendo ainda uma recepção afetuosa, que oferece uma escuta, sendo este um ponto muito positivo, pois trata-se de uma escuta real, com atenção não recebida igual fora deste espaço, ele também afasta o indivíduo de seu meio familiar e social, dificultando a sua plena recuperação após o período de tratamento sobre a égide da internação, pois estes espaços permanecem inalterados e sem recursos de enfrentamento auxiliares ao dependente em remissão.

Percebeu-se ainda uma baixa eficiência do tratamento oferecido a estes usuários, afinal, algumas pessoas que estão lá para o tratamento, às vezes não vão por vontade própria de se tratar, o que dificulta o andamento do mesmo. Ademais, os internos não possuem características de dependência comuns, cada qual tem as suas particularidades, mas o tratamento é unívoco; cada um tem reações diferentes e o tratamento deveria ser totalmente particularizado.

A nossa sociedade ainda tem uma visão muito preconceituosa para com estas pessoas, não aceitando e não acreditando nelas, antes e mesmo depois do tratamento, bem como a despreparação da família para aceitar e voltar a conviver com este usuário; isso tudo são fatores que podem induzir a pessoa a voltar ao uso, e consequentemente, a reinternação.

Portanto, é mister pensar na efetivação da rede no tratamento de dependentes de substâncias psicoativas, fica visível a importância de uma rede qualificada de serviços de saúde mental, em especial ao tratamento de dependentes, para a diminuição deste número elevado de pessoas que estão em tratamento perante este quadro. Pois podemos perceber que o número de pessoas que buscam o tratamento é grande, mas o número de profissionais é baixo, para tamanha demanda.

Sobre os Autores:

Jhenyfer D´Agostini - Acadêmica do oitavo período de Psicologia na Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC) – Campus de Pinhalzinho. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Álvaro Cielo Mahl - Psicólogo, Mestre em Psicologia do Desporto e do Exercício pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro de Portugal. Coordenador e professor do curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). áEste endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

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