A Psicologia e o Processo de Linguagem nas Redes Sociais

1 1 1 1 1 Avaliações 0.00 (0 Avaliações)
(Tempo de leitura: 4 - 7 minutos)

Resumo: As redes sociais estão cada vez mais presentes nas relações de amizade, com fortes implicações no comportamento das pessoas, seja na forma de comunicar, de relacionar, hábitos e consumo. Esse artigo discute as construções das novas formas de linguagem estabelecidas nos grupos e o aspecto mais elementar do sujeito com a sua relação eu-mundo.

Palavras-chave: Psicologia, Linguagem, Redes sociais, Felicidade, Comportamento.

1. Introdução

O homem por ser um ser social, interage com diferentes grupos estabelecendo os vínculos (PEREIRA, 2010). Esta é uma necessidade intrínseca da condição humana, a busca de se ligar a alguns grupos por identificação para alcançar objetivos pessoais.

Numa perspectiva contemporânea, as formações grupais são estabelecidas por comunidades virtuais, seduzidas pelas redes sociais, cada vez mais crescente, tornando público os hábitos alimentares, intimidades pessoais, humores e todo que é possível externar o estilo de vida.

Estas relações em rede à distância trazem outra conotação de grupos, membros compartilham interesses comuns, fazem amigos em comunidades virtuais, promovendo mudança no comportamento às formações grupais.

Esse artigo tem objetivo fazer uma releitura desse comportamento de grupos em redes sociais que buscam a auto-afirmação, serem aceitos e curtidos  em outros grupos de amigos com o intuito de expandir a sua rede.

Propõe, também, outra reflexão sobre a linguagem virtual utilizada pelas comunidades internautas, a ostentação da imagem, no sentido de revelar  a alguém o que tem de melhor e deixar transparecer a sua felicidade.

2.  Referencial Teórico

Segundo Dalgalarrondo (2000) o afeto está atrelado à vida psíquica, propiciando o colorido, o brilho e o sentido da vida. Para a psicologia a afetividade é um sentimento, uma emoção que se manifesta das mais variadas formas, como a amizade, preenchendo lacunas na vida das pessoas. Esses estímulos provocam uma reação de bem estar com a conotação de satisfação com a vida, pressupondo a felicidade.

Numa recente reportagem publicada, Sabino (2014), ressalta que modelo contemporâneo de bem-estar, confunde-se com sensações positivas e uma tendência a experimentar sensações negativas. Ainda nesse contexto, encontrar a felicidade remete ao indivíduo outro sentimento na esfera da agressividade, que é a inveja. Conforme Sabino (2005 apud Shopenhauer 2014, p.94-95) “você nunca será feliz enquanto se torturar por alguém ser mais feliz.” “ E no entanto, nós estamos constantemente preocupados em despertar a inveja”.

Essa forma de linguagem se funde na imagem narcísica, onde o sujeito admira exageradamente a sua própria imagem, sustentando uma paixão por si mesmo.  Nesse cenário, há uma necessidade de mostrar-se feliz  para o outro,  mostrar-se belo, envolvente e contagiante.

Os estímulos e fatores externos afetam o indivíduo, até a parte mais  íntima do ser, de acordo Dalgalarrondo (1964 apud Mira e Lopez, 2000, p.101), tanto na modalidade real quanto no virtual, as relações se confundem entre o que se percebe e que é percebido, o sujeito se apresenta como  objeto de si mesmo, projetando  a sua imagem para além do seu ser.

Do ponto de vista do autor Dalgalarrondo (1975 apud Hjelmslev, 2000, p. 271) a linguagem é a fonte principal de comunicação entre os indivíduos, instrumento essencial na elaboração e expressão do pensamento. No entanto, fazendo um recorte das várias funções da linguagem, ela permite ao sujeito se afirmar diante do eu-mundo, manifestando suas inferências.

A linguagem é inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos. A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana. Mas é também o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta com a sua existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na mediação do pensador. [...]   

O discurso do autor denuncia um indivíduo  sozinho e seus conflitos internos, capaz  de desenvolver outras habilidades para expressar o pensamento e desejos através da linguagem, mas refém da  imagem de si mesmo.  Reflete o retrato de como se vê e gostaria de ser visto por outras pessoas, pois a tentativa é evidenciar e exibir suas melhores convicções, e compartilhar com maior número de pessoas, se auto-afirmar, tradução da carência psíquica do sujeito.

Esta linguagem, embora acondicionada à memória virtual foi construída por novos modelos de comportamento e encontrou ambiente bastante favorável, na promoção da auto-imagem, que a qualquer custo entra em cena.  

Já as redes virtuais desempenham o seu papel, propiciar a abertura da comunicação sem limites, para todos os grupos. É um instrumento que permite à rede social  agrupar-se a vários comunidades online. Ela é fácil de acessada, auto-explicativa se tornando indispensável para aproximação de pessoas em função de interesse comum,  o agravante  é tornar as relações mais frágeis e superficiais, dando lugar ao imaginário.

A imagem que o sujeito cria dele mesmo no ambiente virtual, é muitas vezes muito distante da realidade, é fria, desprovida de afeto, mas ainda há uma necessidade de postar uma cena ou foto, para se auto-afirmar diante do outro, garantir que pode ser muito mais feliz que o amigo virtual.

A exposição da imagem permite  mostrar ao outro uma pessoa que não é o verdadeiro eu e sim  a imagem que quero externar. Uma competição, onde o ganhador é aquele que mais se expõe, levando o prêmio da notoriedade, linha limítrofe entre o real e o imaginário.

As relações oriundas das redes virtuais, demonstram um comportamento contemporâneo, analisado pelo psicanalista Quinet, Antônio (2002), o olhar tem um significante fatal, torna-se voraz, transforma o sujeito visto pelo outro.

Esse sujeito ocupa o lugar do objeto de desejo, pois ele é alimentado pelo olhar do outro que o fascina e a cada ideia, a cada foto postada, gera uma nova expectativa de uma curtida ou um novo comentário dos seus seguidores.

3. Considerações Finais

As comunidades virtuais reinventam um novo modelo de comportamento a partir da interação com grupos cada vez maiores e diversificados. Criam formas de exposição da imagem, o auto-retrato para compartilhar nas redes, manter as aparências, vender a felicidade para os seus seguidores internautas com o interesse em conquistar mais amigos virtuais.

Estas relações de amizades virtuais são caracterizadas pela contemporaneidade, as pessoas estão disponíveis para um conversa digitalizada, desfavorecendo a relação de proximidade, do afeto, amor e carinho.

Esse distanciamento da relação com o outro, faz do sujeito um ser de vaidades, mentiras, dissociado do convívio social, permitindo uma diminuição da relação de confiança, da conquista e do conhecimento verdadeiro entre as pessoas.

Sobre o Autor:

Simone Batista Coelho Martins - Gradruação em Psicologia, 2006, pela Faculdade Unicentro Newton Paiva, Belo Horizonte. Mestranda em Estudos de Linguagem, pelo CEFET - Centro Federal de Educação Tecnológica de MG em Belo Horizonte- MG

Referências:

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000, 271 p.

SABINO, Mario. A arte de ser feliz. Revista Veja, São Paulo, v.2383. n.30. p.94-95, julho 2014.

PEREIRA, F. S. Vínculos Organizacionais: um estudo comparativo entre professores de escolas pública e privada do ensino fundamental e médio no interior de Minas Gerais. Dissertação (Mestrado em Administração). Faculdade Novos Horizontes, Belo Horizonte, 2010.

QUINET, Antônio. Um Olhar a Mais: ver e ser visto na psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002, 311p.

Informar um Erro Assinar o Psicologado