A Relação de Afeto de um Ex-Morador de Rua e Sua Familia Atual

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Resumo: Este trabalho objetivou identificar características afetivas de um ex morador de rua e sua família atual. Pode-se constatar um encontro transformador entre a convivência com a criminalidade, exclusão, abandono, vícios e uma nova configuração de sentido de vida. Encontramos o ex morador de rua instalado e acolhido junto a uma família, a qual lhe deu a possibilidade de um possível restabelecimento como indivíduo, o sentimento de confiança deteriorado quando na situação de morador de rua, hoje ele saiu dessa estrutura e possui e vivencia uma referência que inclui um circulo de relacionamentos que proporcionando ao mesmo, um lugar reconhecido e aceito na sociedade. O afeto como um sentimento associado a resiliência [1] e a conteúdos representativos na vida, são outras conquistas constatadas nesta pesquisa em função dele ter hoje uma família. Ele era parte de um mundo portador de prerrogativas sociais em sua grande maioria de cunho negativo e hoje possui uma nova perspectiva de vida.

Palavras-chave: afetividade, morador de rua, resiliência

1. Introdução

Segundo dados do IBGE (2009) [2] a população de moradores de rua têm aumentado constantemente, o fato de passarem por situações de vida adversas, têm se constituído um problema, alvo de preocupações e ações, no âmbito das políticas públicas.

Quando o indivíduo passar a ter a rua como sua residência torna-se membro de um determinado conjunto social, aprendendo seus códigos, suas normas e regras de relacionamento, entendendo e se estabelecendo no conjunto de conhecimento já estabelecido e acumulado por esse grupo. (BOCK, FURTADO, TEIXEIRA, 2002).

São seres humanos que tem que conviver com o estigma que a sociedade impõe. Por viverem em locais como albergues, embaixo de pontilhões, malocas [3], nas ruas muito próximas à criminalidade, a droga, a falta de uma situação existencial mínima de dignidade. (ALVAREZ, ALVARENGA e FERRARA, 2004).

Para Rabinovich (citado por Alvarez, Rosenburg, 2004) os moradores podemse classificar em cinco tipos: nômades, assentados, caverna, selvagens e neonômades, denominações que correspondiam a aspectos físicos e vivenciais destesmoradores. Os autores discutem que os moradores de rua muitas vezes seentregam às drogas, embriaguez, a qual estão expostos, a violência e acriminalidade, devido a situações existenciais extremas e por indicar o modo de vidaali desenvolvido, inseridos de forma escusa [4] nos processos sociais(ALVAREZ,ALVARENGA e FERRARA, 2004). Vivendo uma situação de instabilidade total, commaior incidência de pessoas do sexo masculino, são sós, sem local fixo de moradia,muitos permanecem isolados, sem contato com pessoas no meio onde vivem, e nemcom família, não tem trabalho formal, a rua sem condições mínimas de higiene, demoradia, sem um referido apoio afetivo e social, dessa forma não tem apossibilidade de projeção de um futuro, de autoestima e de um resgate positivo desua personalidade. (VIEIRA; RAMOS; MAFFEI , 1994).

O contexto social do qual cada indivíduo faz parte, têm grande influência namudança de historia de vida e nas relações sociais, das quais determinam umprocesso continuo do indivíduo na definição de si mesmo.(ALVAREZ, 2004).Comportamentos podem ou não estar de acordo com a prescrição e suasrespectivas normas de um grupo de pessoas pois, faz com que sejamdesempenhados “papéis”, diferentes perante a sociedade (BOCK, FURTADO,TEIXEIRA, 2002).

Encontramos moradores de ruas em todos os lugares de grandes e pequenoscentros, são pessoas comuns que vivem em situação muitas vezes sub humanas,sem as mínimas condições de higiene, moradia e ambiente social, estão láprincipalmente por exclusão social e econômica. Esses moradores de rua em muitoscasos já tiveram emprego formal, eram chefes de família, na maioria são brancos,alguns deles tem diploma universitário e até falam uma segunda língua (ALVAREZ,ALVARENGA e FERRARA, 2004).

Os meios de comunicação são os principais projetores dessa sociedade quepossui um comprometimento sério na forma com que trata os seus membros,exibindo um preconceito intolerável e desvalido sobre os que por muitas vezes sãovítimas de políticas públicas inacabadas, descombalidas. (ALVAREZ, ALVARENGAe FERRARA, 2004). A mídia que hoje nos cerca, apresenta um comportamento queinduz a um imerso consumo progressivo, no qual as pessoas tendem a apresentarum contato superficial com a realidade que os cerca. Falamos de um segmento queé apenas expectador, objeto vulnerável ao universo midiático. E ao ser objeto, nãoassume o papel do agente, que por sua vez é aquele que, sem meios e veículos deinformação, se reconhece na realidade que não somente o cerca, como tambémnaquela que envolve inclusive, o morador de rua.

O homem como um ser social, esta em permanente movimento, se ajustandoao meio, esta sempre se transformando. O nosso mundo interno é alimentado deconteúdos provenientes do mundo externo, este processo sempre irá ocorrer, poisvivemos em sociedade e portanto estamos em constante processo de transformação(BOCK, FURTADO, TEIXEIRA, 2002).

Qualquer grupo social e não apenas minorias pode ser alvo de preconceito.Além disso, estamos diante de uma via de mão dupla, com sentimentos fluindotambém das minorias para maiorias, um grupo é definido como um todo dinâmico, eque a mudança no estado de qualquer sub parte modifica o estado do grupo comoum todo.(BOCK, FURTADO, TEIXEIRA, 2002).

Historicamente, entretanto, a idéia de se encarar o preconceito com umconstructo cientifico emergiu apenas ao longo dos anos 1920, relacionandoprincipalmente a questão racial. As teorias da época preocupavam-se em explicar,por exemplo, a suposta inferioridade dos negros, atribuindo um atraso evolutivo, alimitações na capacidade intelectual e um excessivo ímpeto sexual, entre outrascausa de supostas diferenças. Foi dos anos 30 para cá que se fizeram sentirmudanças na visão do preconceito, passando estes a serem encarados comoirracionais ou injustificados, fruto de defesas inconscientes, expressão denecessidades patológicas, influenciado por normas sociais, manifestação deinteresses grupais ou como inevitáveis consequência do processo de categorizaçãosocial, que divide as pessoas em grupos, os seus próprios versus os dos outros,como consequente despertar de respostas discriminatórias (RODRIGUES,ASSAMAR, JABLONSKI, 2003). Os já referidos autores colocam ainda que opreconceito não é somente com os negros, mas com todos àqueles que de umaforma ou outra não se “enquadram” no perfil de cidadão imposto pela sociedade emque está inserido ou em um determinado grupo com regras predeterminadas decomportamentos e condutas. A possibilidade de o preconceito estar ligado amecanismos de sobrevivência, inerentes a historia da humanidade e com umafunção protetora do grupo a que pertencemos.

Mecanismos de defesas são acionados para amenizar as angustias sofrida narua, em meio a falta de perspectivas, drogas, violência. São mecanismos denegação, de distorção da realidade, os quais são individuais, mas que seapresentam no coletivo onde as pessoas tem reações semelhantes (ALVAREZ,ALVARENGA e FERRARA, 2004).

A exclusão social foi dimensionada à partir do início desse século, no Brasilfez-se característica importante à população de rua. População essa, diagnosticadacomo “falta de pertencimento social”. Ocorrem falta de perspectivas, perda daautoestima, perda do vínculo familiar, rupturas sucessivas na vida de um indivíduo.(COSTA, 2005).

Muitas teorias discutem a relevância do estabelecimento e dorestabelecimento de vínculos [5] afetivos entre indivíduos em desenvolvimento e àqueles que de uma maneira ou outra perderam esse vínculo. Podemos citar aTeoria do Apego como exemplo, segundo o autor John Bowlby, o ser humano éportador de uma historia filogenética que lhe garante um aparato biológico, que oauxilia no estabelecimento e manutenção de vínculos afetivos com ooutro.(DALBEM;DELL’AGLIO,2005).

A teoria acima citada, procura explicar como ocorre e quais as implicaçõespara a vida adulta, do forte vínculo afetivo entre o bebê humano e aquele que dá aele segurança e conforto. Qualquer maneira de comportamento que leve o indivíduoa alcançar e manter-se próximo de outro, tornando-o mais seguro para lidar com omundo. É por meio do estabelecimento de vínculos afetivos que o ser humanoestabelece uma relação de comportamento o qual resulta em uma capacidade dapara pessoa alcançar e manter proximidade com outro indivíduo considerado maisapto para lidar com o mundo e que proporciona segurança e conforto.(www.pet.vet.br/puc/oapego.pdf - acessado em 29/09/2011).

Ao mencionarmos vínculos afetivos, DALGALARRONDO (2008), define aafetividade como um termo genérico, que compreende várias modalidades devivencias afetivas, como humor, as emoções e os sentimentos. Para ATKINSON ecolaboradores (2007) afeto refere-se a emoções e sentimentos.

Através de pesquisas psicopatológicas tem se identificado nas historias quãopenetrante é a influencia da afetividade sobre a vida mental(DALGALARRONDO, 2008). A vida afetiva ocorre sempre em um contexto derelações do Eu com o mundo e com as pessoas.

O que motivou as pesquisadoras a realizar um estudo sobre este tema foi ointeresse em encontrar dados que possam contribuir para a identificação da relaçãode afetividade entre pessoas que moram na rua em seu convívio social, dessa formanovos campos de pesquisa sobre indivíduos moradores de rua e suas expectativasem relação afetivas e sociais podem ser conhecidas e modificadas dando-lhesmelhor qualidade de vida.

Objetivo Geral

Conhecer as relações de afetividade de um ex morador de rua e a relação dosentimento com sua família atual.

Objetivo Específico

Conhecer os aspectos que permeiam as relações afetivas de um ex moradorde rua quando o mesmo encontra acolhimento em uma família e passa a viver coma mesma como membro pertencente desta, originando sua resiliência junto asociedade onde vive.

2. Metodologia

Esta pesquisa será realizada como forma de estudo de caso que representauma estratégia de investigação que examina um fenômeno em seu estado natural,empregando os métodos: entrevista semi dirigida e classificação dos dados,estabelecendo uma relação para coleta e tratamento de dados. Neste estudo aspesquisadoras optaram por utilizar a entrevista semi dirigida com questões abertas,sendo analisadas pelo método qualitativo já que se trata de um estudo de caso pois,ele representa uma estratégia de investigação que examina um fenômeno em seuestado natural, empregando os métodos: entrevista semi dirigida e classificação dosdados, estabelecendo uma relação para coleta e tratamento de dados.

O estudo de caso fica intimamente ligado ao contexto ou processo estudado.Esse tipo de abordagem não representa um método por si só, mas uma estratégiade pesquisa que permite o uso de métodos qualitativos e quantitativos. (GIL, 2002).

Pode ser definida como um estudo profundo de um ou poucos objetos, o qualpermite um amplo e detalhado conhecimento do se pretende verificar. Para asciências biomédicas, esse método atualmente traz um delineamento mais adequadopara a investigação de um fenômeno e um contexto que não são claros (GIL,2002).

Esses propósitos podem ser embasados em: explorar situações de vida real,onde os seus contextos não são claramente definidos; ter um caráter único o objetoestudado; descrever a situação onde se esta realizando a investigação; obterhipóteses ou então teorias; poder explicar variáveis causais que determinamsituações complexas e que não é possível a utilização de experimentos elevantamentos. (GIL, 2002).

A escolha do método se deu porque a pesquisa qualitativa émultimetodológica em relação ao foco, envolve uma abordagem interpretativa enaturalística para o assunto estudado. Dessa forma foram analisados os dados dosetting natural, tentando interpretar os fenômenos em face aos significados que lhesfoi trazido, através da observação durante a entrevista, a dinâmica encontradanaquele momento entre a família e o morador de rua. (Turato,2000).

O método clinico-qualitativo é definido como sendo “o estudo e a construçãodos limites epistemológicos de certo método qualitativo particularizado em settingsda saúde, bem como abarca a discussão sobre um conjunto de técnicas eprocedimentos adequados para descrever e compreender as relações de sentidos esignificados dos fenômenos humanos referidos nesse campo. Portanto, temos,especificamente, que o método clínico-qualitativo é concebido como um meiocientifico de conhecer e interpretar as significações – de natureza psicológicas epsicossociais – que os indivíduos dão aos fenômenos do campo da saúde-doença(TURATO,2003).

A entrevista semi dirigida e questões abertas consiste em uma conversaçãoentre o entrevistador e o entrevistado, cujo objetivo é analisar uma experiência que oentrevistado viveu e/ou assitiu. Foram realizadas perguntas abertas, feitasverbalmente em uma ordem prevista, mas na qual, o entrevistador pode acrescentarperguntas de esclarecimento.(LAVILLE;DIONNE, 1999)

Para ciências sociais fazem inúmeras objeções a utilização do métodoqualitativo de análise, estas críticas são embasadas na argumentação de que a faltade rigor metodológico, pois difere dos outros métodos onde ocorrem experimentos elevantamentos, pois nesse método não são definidos procedimentos metodológicosrígidos.(GIL,2002)

O pesquisador em estudo de caso deve observar atentamente os cuidadosnecessários, tanto no planejamento quanto na coleta e analise dos dados, para quenão ocorram os indesejados desvios de direção do objeto em que esta sendoestudado. (GIL, 2002). Segundo o autor, em pesquisa, a análise de um único casonão permite a generalização, no entanto o propósito de estudo de caso é deproporcionar uma visão global do problema e/ou identificar possíveis fatores queinfluenciam ou são influenciados por ele.(GIL, 2002). É um método bastante flexível,mas vale ressaltar que sua análise é bastante minuciosa, detalhada, trabalhosa erequer bastante atenção.

A sua realização não esta em promover a descrição precisa dascaracterísticas desse único estudo de caso e nem o nível de correlação entre outrasvariáveis, mas investigar e descrever possíveis causas e razões que levam umapessoa a viver na rua.(GIL, 2002).

O método refere-se a um indivíduo dentro do contexto que será analisado.Existem critérios para a seleção de casos que de acordo com os propósitos dapesquisa devem ser distinguidos o qual atingirá o objetivo das três modalidadesexistentes de estudo de caso que são: intrínseco, instrumental e coletivo. Em nossapesquisa utilizamos o intrínseco que é aquele em que o caso constitui o próprioobjeto de pesquisa, pois pudemos conhecê-lo profundamente, sem odesenvolvimento de teorias e sim da história de vida dele (GIL, 2002).

Para melhor análise e entendimento dos fatos colocados pelo entrevistado, aentrevista foi gravada com a permissão do mesmo.

2.1- Sujeito da Pesquisa:

O sujeito selecionado para a pesquisa é um ex morador de rua, do sexomasculino, solteiro, analfabeto, com idade entre 40 e 50 anos, reside há 05 anoscom a cuidadora e respectiva família, vamos nos referir a ele pelo nome fictício deAntonio a entrevista foi realizada em 05/06/2011.

3. Coleta de dados

Foi realizada uma entrevista com a presença das pesquisadoras e do sujeitoda mesma, primeiramente, foi lido o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido(anexo IV) e em seguida, realizada a entrevista semi dirigida, que foi gravada com apermissão do entrevistado (anexo II).

4. Procedimentos

A entrevista foi realizada na residência do sujeito. As pesquisadoras dividiramos procedimentos da seguinte maneira: uma pesquisadora ficou responsável pelacoleta de dados e a outra responsável pela observação dos comportamentosapresentados durante o relato da sua história de vida.

Foi lido o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (anexo IV) apesquisadora responsável pela coleta esclareceu sobre a pesquisa que será feitoum estudo de caso, sobre sua vivência na rua, suas dificuldades, privações.

A pesquisa embasa um Trabalho de Conclusão de Curso como exigência dafaculdade para conclusão do Curso de Psicologia. Foi-lhe garantido sigilo absolutodas informações por ele prestadas, sendo somente utilizadas para fins de ensino epesquisa dentro do âmbito acadêmico, foi colocado que ele poderia ficar a vontadepara questionar qualquer dúvida que surgisse e que ele teria o direito de interrompero relato a qualquer momento sem qualquer ônus que seja para a sua pessoa.

Após a assinatura do termo, o qual se deu na presença de testemunha, foientregue à ele uma cópia do documento, na sequência iniciou-se a entrevistagravada.

5. Caracterização da Pesquisa Qualitativa:

Os estudos de pesquisas qualitativas diferem entre si quanto ao método , áforma e aos objetivos. (GODOY 1995) ressalta a diversidade existente entre ostrabalhos qualitativos são inúmeros há um conjunto de características essenciaiscapazes de identificar uma pesquisa desse tipo que estão listadas abaixo:

  • o ambiente natural como fonte direta de dados e o pesquisador comoinstrumento fundamental;
  • o caráter descritivo;
  • o significado que as pessoas dão as coisas e á sua vida como preocupaçãodo investigador;
  • o enfoque indutivo.

A expressão “pesquisa qualitativa” assume diferentes significados no campodas ciências sociais. Compreende um conjunto de diferentes técnicas interpretativasque visam descrever e decodificar os componentes de um sistema complexo designificados. Tem por objetivo traduzir e expressar o sentido dos fenômenos domundo social; trata-se de reduzir a distância entre indicador e indicado, entre teoriae dados, entre contexto e ação (MAANEM, 1979). Em sua maioria, os estudosqualitativos são feitos no local de origem dos dados; não impedem o pesquisador deempregar a lógica do empirismo cientifico (adequada para fenômenos claramentedefinidos), mas partem da suposição de que seja mais apropriado empregar aperspectiva da análise fenomenológica, quando se trata de fenômenos singulares edotados de certo grau de ambiguidade.

O desenvolvimento do estudo de pesquisa qualitativa supõe um cortetemporal-espacial de determinado fenômeno por parte do pesquisador

.Esse corte define o campo e a dimensão em que o trabalho desenvolver-se-á,isto é, o território a ser mapeado. O trabalho de descrição tem caractere fundamentalem um estudo qualitativo, pois é por meio dele que os dados são coletados.(MAMMING, 1979).

6. Análise dos Dados

Os dados foram analisados a partir da transcrição da entrevista, ondeelencamos categorias a partir das falas do sujeito.

Diante dessa realidade e pela pesquisa proveniente desse trabalho, aspesquisadoras puderam verificar a mudança de realidade de vida para o ex moradorde rua ora citado na pesquisa, como a relação de afeto existente contribuiu parauma transformação, no que diz respeito ao sair de um ambiente privado de moradia,comida, convivência social; para um lar, interação com ambiente onde vive aresiliência.

A referida análise mostra a percepção do ex morador de rua sobre sua própriavida. Foram feitas categorias nas quais são apontados e discutidos vários pontosrelevantes sobre sua experiência de viver na rua e as respectivas expectativasquanto ao retorno para um lar e a relação de afetividade que está sendo construídaao recomeço de uma nova história de vida.As categorias relacionadas foram as seguintes:

  • abandono;
  • violência;
  • dificuldade em morar na rua;
  • droga;
  • resiliência;
  • afetividade.

Neste estudo de caso, Antonio foi analisado em sua totalidade, com seussentimentos, histórias de vida, experiências, estratégias de sobrevivência nodecorrer de sua vivência. Suas crenças a respeito do abandono, da figura maternaressaltam no seu discurso no decorrer da sua história de vida. De acordo com orelato do entrevistado, podem ser enumerados diversos fatores de risco quepermearam a vida do ex-morador de rua. (Paludo e Koller, 2005).

O primeiro aspecto considerando um fator de risco e que desencadeia apresença constante de riscos na trajetória de vida de Antonio refere-se ao abandonoda figura materna...

“ Ah eu morava li no matador, depois minha mãe começou abeber pinga né e ela foi pro asilo perto do grêmio e não tinha ninguém pra cuidar demim”

“Faz tempo, uns 14 anos. A mãe abandonou. A mãe não tinha condições de cuidarde mim, ela foi pro asilo”

Pesquisas identificam a situação econômica precária como principaljustificativa de abandono, são encontradas variações apenas referentes aos motivos,as causas e as atitudes das mães frente a essa escolha (Santos, 2004; Weber,2000). Considerando esses fatores, o abandono pode ser interpretado como umepisódio dramático e sofrido na vida de qualquer ser humano.

O segundo aspecto a ser considerado é a violência que tem sido definidacomo ações ou omissões que podem cessar, impedir ou retardar o desenvolvimentopleno dos seres humanos (Koller& De Antoni, 2004).Segue abaixo uma fala do entrevistado que justifica a violência vivenciada na rua.

“Eu aprendi a beber pinga na fera, apanhei de guarda municipal, de policia. Apanheimuito na rua.”

Ser vítima, testemunha ou agente de violência são condições que podem sertecidas na história de uma pessoa. Segundo Kashani e Allan (1998), cada tipo deviolência gera prejuízos nas áreas de desenvolvimento: físico, emocional, social,cognitivo e moral.

O terceiro aspecto aponta as dificuldades de viver na rua, as privações, ossofrimentos que ele ficou exposto durante o período em que permaneceu na rua. Arua oferece a liberdade e a dimensão lúdica que e aos poucos vai dando lugar asexperiências dolorosas da violência, física, sexual e moral. Dessa forma, paramanter-se na rua, ou desenvolvem estratégias para lidar com essas situações, outornam-se vulneráveis. As situação de risco físico, social e emocional podem fazerparte do contexto evolutivo de qualquer pessoa e, dessa forma, diferentesmecanismos podem ser utilizados para o enfrentamento dessa situação. A vidacotidiana na rua, também, está permeada de eventos violentos e fatores de risco,como pode-se confirmar através do relato de Antonio. (Paludo e Koller, 2005).

“Não dá, já fui preso, já”. “ Eh ruim né, frio né, dormia dentro do esgoto, buero, é sujo.”

Uma quarta categoria que devemos tornar relevante é o vicio do álcool , que écaracterizado como uma droga, que passa a cumprir o papel social que permite ainserção e uma identidade grupal. Assume uma função de poção mágica capaz deamenizar o sofrimento, a sensação de angustia e abandono, além de proteger datristeza, fome, frio e dor. (Paludo e Koller, 2005).

“Bebi bastante”. “Ah, eu tava com vontade de bebe né, lá não tinha pinga”.

Podemos também descrever uma quinta categoria que aborda sobre aquestão da resiliência que esse ex-morador teve de experenciar. Resiliência éfreqüentemente referida por processos que explicam a “superação” de crises eadversidades em indivíduos, grupos e organizações (Yunes &Szymanski, 2001,Yunes, 2001, Tavares,2001). Por tratar-se de um conceito relativamentenovo no campo da Psicologia, a resiliência vem sendo bastante discutida do pontode vista teórico e metodológico pela comunidade científica. Algunsestudiosos reconhecem a resiliência como um fenômeno comum e presente nodesenvolvimento de qualquer ser humano .Podemos demonstrar ao leitor as falas doentrevistado que retrata o início de sua restauração enquanto ser humano.

“Ah, dá pra comprar né. Ai eu fui lá fazer a pericia lá, o medico falo que eu fuiaprovado. Bao agora vo recebe né”. “O papel do juiz veio pra mim, assina aaposentadoria. Tá beleza”.

A sexta e ultima caracterização aponta a relação de afetividade e apossibilidade do entrevistado ainda planejar um futuro e realizar projetos para umavida nova. A afetividade é uma organização viva de significados e de conteúdospsicológicos como tristeza, amor, paixão, inveja desesperança e outros mais.(PINTO, 2005d). Afetividade entende-se o conjunto de emoção e sentimentos. Issosignifica dizer que a afetividade engloba tanto uma reação do corpo (emoção), comotambém uma experiência subjetiva (sentimento).Um dos exemplos de afeto é oamor; sentidos por si ou mesmo por alguém. Em suma se é afetado pela afetividadea todo tempo. Segundo (BOCK, 1999) os afetos ajudam-nos a avaliar as situações,servem de critério de valoração positiva ou negativa para as situações de nossavida; eles preparam nossas ações, ou seja, participam ativamente da percepção quetemos das situações vividas e do planejamento de nossas ações ao meio. Podemosdemonstrar a fala do entrevistado sobre esse aspecto.

“Familia nova, bom né”.“Melhor né, tem comida na hora certa, tenho minha televisão, eu tenho minhacaxinha, eh tá bom. Tem minha cama. “Ta mio, aqui é sossegado, aqui não temgente que fca cantando em cima do teiado, na janela. Lá quando tava no Falcao amolecada ficava lá tacando pedra na janela, em cima do teiadoaonde morava. Aquinão tem nada disso, aqui é sossegado”. “Queria trabalhar de mecânico né bom.”“ Eh , mecanico é bom e uma boa profissão, ganha bem. Isso é que eu queria.

7. Resultados

Diante da análise descrita acima, temos como resultado que uma pessoa quemorou na rua tantos anos e viveu inúmeras dificuldades e privações no decorrer desua vida, apresentou as seguintes conseqüências.. abandono, violência, dificuldadede morar na rua, uso de substâncias químicas e vícios adquiridos no decorrer da suavida, em contrapartida, estas conseqüências puderam ser resignificadas por meio depoder ter vivenciado uma experiência positiva de ser acolhido e integrado a umafamília, voltando a ter um referencia de mundo, de vida e como membro pertencenteao mesmo.

Nesse convívio familiar ele encontrou acolhimento, segurança, umaconvivência com pessoas significativas, a superação do vício do álcool, oestabelecimento de fortes relações de amizade, a capacidade de afeto ereciprocidade nos relacionamentos e por fim construção de subjetividade esignificação de experiências podendo ressignificar a vida.

8. Conclusão:

Podemos concluir que nossa pesquisa, respondeu nossos questionamentossobre a relação de afetividade. Durante o estudo de caso, observamos que semprehá tempo para novas construções de laços afetivos, novos recomeço durante a vida,devemos lembrar que apesar desta real possibilidade de resignificação do sentidoda vida e de sua relações, estes fatos sempre farão parte da historia de vida dosujeito e, auxiliam o nosso entendimento de inúmeros comportamentos de pessoasque se encontram em situações semelhantes no passado e/ou no presente. Noestudo caso do ex-morador de rua como foi citado da presente constatamos queapesar de tanto sofrimento, físico, emocional, abandono moral, intelectual,privações, violências e uso de substancias químicas nosso entrevistado teve umanova oportunidade de trilhar um novo caminho para sua a vida. Apesar de não tertido exemplos de afeto, carinho, respeito, amor, durante sua história de vida,conseguiu formar um lindo laço de afetividade com as pessoas que o acolheram. Eletambém se permitiu dar uma oportunidade. Observamos que nos dias de hoje ele sesente um membro da família, onde é chamado a participar do núcleo familiar,sentindo-se pertencente a este lar. Analisamos também um fator muito importante,da possibilidade do nosso entrevistado ter um desejo, querer realizar um sonho. Issoé muito importante, apesar de ter tido uma vida de perdas, conflitos, abandono eleainda é capaz de sonhar e de querer algo melhor para sua vida, esse processo échamado de resiliência.

A construção da afetividade é uma sustentação importantíssima para ocrescimento pessoal, afetivo e social, pois o carinho, o amor, a atenção são alicercesnecessário para o crescimento pessoal. A Relação de Afetividade, torna o indivíduomais fortalecido para a busca de suas conquistas, pois sabe que existe um suporteemocional que lhe sustentará para suas tomadas de decisões.

Gostaríamos também deixar como sugestão aos novos pesquisadores, queescrevessem mais artigos sobre a população de moradores de rua, que focassemmais nos aspectos psicológicos e sociais, pois é através de artigos científicos, quede alguma forma conseguimos chamarmos a atenção da sociedade em geral, paraterem um olhar mais humanizado e respeitoso com essa população, que é umaparte da sociedade ainda esquecida,necessitando de trabalhos de resgate dessesseres humanos e podendo ajudar a cada um deles construir uma nova história parasuas vidas.

Sobre os Autores:

Adriana Apaparecida Broleze Rossi - psicóloga clínica e psicopedagoga - email : Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Noemia de Credo Emaculado - psicóloga - email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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