Compromisso Social do Psicólogo no Terceiro Setor

Compromisso Social do Psicólogo no Terceiro Setor
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Resumo: Este trabalho apresenta elementos voltados para discutir a transformação da gestão social da população, pautada na mudança de comportamentos da sociedade globalizada, e visa aprimorar as normas de condutas que facilitem a vida em comum do ser humano, questionando o profissional de Psicologia quanto à sua atuação e inserção dentro deste contexto e buscando entender o seu posicionamento claro e real sobre a transformação da sociedade, da influência do regime neoliberal e capitalista no comportamento do ser humano, da mudança da condição de vida, do comprometimento com as comunidades menos favorecidas, da deturpação dos valores morais diante do ser humano, da antecipação da competição de mercado ao indivíduo causando também exclusão social, das políticas sociais e do surgimento do Terceiro Setor como base para minimizar as desigualdades das comunidades.
Palavras-chave: Compromisso social. Sociedade globalizada. Políticas sociais. Terceiro Setor.

1. Introdução

Desde seus primórdios, o homem percebeu que viver em grupos era melhor para a sobrevivência de todos, formando, assim, a essência do termo sociedade. Com o tempo, adaptações foram feitas: surgiram tribos, feudos, reinos, impérios e o Estado.

É evidente que o Estado formado há trezentos anos não é o mesmo que se apresenta atualmente. Foram necessárias transformações que permitissem a adequação da gestão social da população. O papel do Estado para as políticas sociais foi alterado, assim a responsabilidade pela execução das políticas é repassada para a sociedade, para os neoliberais e para o Terceiro Setor, conforme as realidades apresentadas (PERONI, OLIVEIRA e FERNANDES, 2009).

O processo de globalização surge em conjunto com o neoliberalismo. A globalização é uma tendência de alcance ou impacto universal de fenômenos sociais. (GAZZO E LACERDA JR, 2007).

Embora a sociedade seja formada como identidade única, inclusive na formação da palavra, ela é composta por uma variedade de comportamentos determinados por normas de condutas que facilitam a vida em comum. Assim, homens, mulheres e crianças devem pautar suas ações dentro das normas legais e morais em que foram criados. São os valores sociais impostos ao psicológico do homem, para que este não se coloque à margem da sociedade e se torne pária da mesma.

Ocorre que a sociedade capitalista ou neoliberalista, como alguns preferem nomear, implanta valores deturpados que muitas vezes não condizem com a realidade social em que o ser humano está inserido ou condizem em excesso, fortalecendo-se a formação da percepção negativa do mundo, o que prejudica a essência do ser.

A sociedade em geral passou a ver o Estado, ou seus representantes, como aproveitadores que relegam seus habitantes ao fracasso. Suas políticas sociais não alcançam a maior parte da população, fazendo surgir o Terceiro Setor, sob a necessidade de minimizar as desigualdades e prestar assistência aos excluídos. As entidades do Terceiro Setor se infiltram nas comunidades menos favorecidas, procurando solucionar problemas ou, pelo menos, reduzi-los.

De forma sucinta, pode-se dizer que a Psicologia cresceu comprometida com o capital e o consumo, servindo principalmente de suporte científico das ideologias dominantes. Em função disso, considera-se que a Psicologia muito pouco exerceu e vem exercendo um papel questionador e transformador das instituições e das relações pessoais, e vem contribuindo mais para a reprodução das estruturas sociais e das relações de poder. (DIMENSTEIN, 2000).

O trabalho do psicólogo deve apontar para a transformação social, para a mudança das condições de vida da população; o profissional não pode ter mais uma visão estreita de sua intervenção, pensando-a como um trabalho voltado para um indivíduo, como se este vivesse isolado e não tivesse a ver com a realidade social e com a sua construção onde ambas se entrelaçam.  É preciso ver qualquer intervenção, mesmo que individualmente, como uma intervenção social e, neste sentido, posicionada. (BOCK, 1999).

O Psicólogo pode e deve, hoje, pensar sua intervenção de maneira mais ampla, no sentido da promoção da saúde da comunidade. Isto significa compreender o sujeito como alguém que, ao ampliar seu conhecimento e sua compreensão sobre a realidade que o cerca, torna-se capaz de intervir, transformar, atuar, modificar a realidade. Assumir um compromisso social em nossa profissão é estar voltado para uma intervenção crítica e transformadora de nossa condição de vida. É estar comprometido com a crítica desta realidade, a partir da perspectiva de nossa ciência e de nossa profissão. (BOCK, 1999)

Diante do exposto, a proposta deste artigo é buscar o conceito de Terceiro Setor, e o papel do profissional de Psicologia. Muitos autores afirmam não ser uma tarefa muito fácil encontrar uma definição que sustente os propósitos idealizados e inclusive por este, estar em processo de expansão e de novas descobertas. Para Rothgiesser (2002, p.2), o Terceiro Setor seriam iniciativas “[...] privadas que não visam lucros, iniciativas na esfera pública que não são feitas pelo Estado”. Já Fernandes (1994, p.21) “acredita tratar-se de cidadãos participando de modo espontâneo e voluntário, em ações que visam ao interesse comum.” Para entender o papel do profissional, foi realizada pesquisa de campo a fim de buscar um melhor entendimento.

2. Em Busca de Novos Desafios: a Inserção da Psicologia no Terceiro Setor

A Psicologia, enquanto profissão, é algo relativamente novo se comparada a outras profissões, ainda que dados históricos e literários registrem um século e meio para as ciências psicológicas (GOMES, 1999). Em 1879, Wundt fundou seu laboratório de Psicologia experimental, definindo uma nova ciência com objetivo e método próprios. Neste momento a filosofia, que traz os pensamentos humanos, cede lugar às primeiras pesquisas de outra ciência, travando-se batalhas contra seus métodos e objetivos. (FREIRE, 1999).

No Brasil, a Psicologia se consolidou como profissão há aproximadamente 50 anos, e está à espera de amplas pesquisas que lhe ofereçam passos seguros e modelos característicos com a nossa cultura.

Há algumas décadas foram tecidas discussões sobre o papel social do Psicólogo, já que, durante muito tempo, a profissão foi tida como elitista, considerando a notável preferência dos psicólogos em seguir um modelo biomédico, ou seja, a atividade clinica. Martín-Baró (1996) diz que não se trata de se perguntar o que pretende cada um fazer com a Psicologia, mas antes e fundamentalmente, para onde vai levado por seu próprio peso, o que fazer psicológico, e que efeito objetivo a atividade psicológica produz em uma determinada sociedade.

Neste contexto, é importante ressaltar que o ser humano essencialmente passa por três fases na sua formação psicossocial: a primeira, ocorrida na primeira infância, é o conhecimento de si como indivíduo. Nesta fase, fortalece-se a ideia do autoconhecimento. A segunda refere-se ao conhecimento do mundo, da existência de outros seres, da música, das artes. E a terceira, mais fixada na segunda infância, é focada na formação da identidade social, a percepção da vida em sociedade, das regras de conduta, da necessidade de obediência às normas, enfim, sua posição no mundo. Estas fases fazem parte da essência humana, independente da sociedade em que estão inseridas. Os valores é que mudam. (LABRUNA, 1995).

A competição do mercado de trabalho é imposta desde muito cedo, antes mesmo da completa formação individual do ser humano. Até mesmo a exclusão social, problema de ordem mundial, tem sido deturpada de forma a trazer vantagens ilegais para traficantes e milícias das comunidades.

A crise do modelo econômico, experimentada no segundo quarto da década de setenta, traduzida por uma grande recessão, baixas taxas de crescimento econômico e explosão das taxas de inflação, dá início a um processo que culminaria com a hegemonia, em nível planetário, do ideário e agenda neoliberais. A partir desse momento, vão surgindo mudanças no setor social, principalmente no que se refere à transferência da responsabilidade do governo para a sociedade civil. Portanto, a responsabilidade pelas sequelas da "questão social" no projeto neoliberal deixa de ser do Estado – ou ao menos, exclusividade do Estado – sendo dividida com dois outros "setores": o mercado (privatização) e a sociedade civil (ação solidária, filantrópica, voluntária). (YAMAMOTO, 2007).

Com o enxugamento do Estado, surgiu o terceiro Setor, muito utilizado como estratégia política de enfrentamento às mazelas da questão social, e tem se configurado como amplo campo de atuação para o âmbito psicólogo.

Podemos observar, ao longo da aparição do Terceiro Setor, que as ONGs, são as instituições que mais crescem e que, por assim dizer, vem representando de forma mais abrangente esse segmento. Existem debates e confusões em torno da identidade das ONGs, se elas seriam públicas, privadas, com cunho público governamental, não governamental, ou seria uma forma de administrar o negócio público, com verbas governamentais. Sobre isso, Vieira (1999, p.24) vem chamando de terceiro “setor organizacional”, dizendo“[...] é apenas Terceiro Setor do ponto de vista organizativo, ela não é uma propriedade. Porque não é uma propriedade? Porque os recursos públicos são recursos vindos de taxas e impostos, são recursos que vem daquilo que chamamos de subsídios e, portanto, eles saem do tesouro e da nação. Então não é um Terceiro Setor não estatal, ele é um Terceiro Setor público organizacional, não uma propriedade nova que foi criada, já que os subsídios são públicos, é setor incentivado.” Esse olhar de Vieira traz á tona alguns questionamentos: dentre eles estaria o papel que realmente as ONGs, ou o Terceiro Setor, estariam desempenhando diante da sociedade e quais os resultados positivos que elas trazem. Podemos observar algumas dessas contribuições na geração de empregos (mesmo que temporários), para grupos de determinadas comunidades, etc. não podemos negar que o Terceiro Setor, cumprindo o seu papel ou não, talvez esteja mais próximo de fato da comunidade, observando as necessidades e se propondo a ajudar o governo a diminuir as injustiças sociais.

Considerando o papel do psicólogo dentro da sua história como profissional e o avanço na aproximação desses com comunidades menos favorecidas, abriu-se campo para desenvolver projetos de atuação.

Entre todas as entidades com tal natureza, as que mais chamam atenção são as voltadas para a proteção e formação da infância, que pesam em relação às demais. Estas têm valor inigualável, pois cuidam da formação e preservação de valores morais e composição do ser social da criança.

3. Delineamento Metodológico

Dois objetos encontram-se na base do presente estudo:

  1. Analisar a inserção do psicólogo no Terceiro Setor na cidade do Salvador;
  2. Identificar os limites e desafios do psicólogo frente ao compromisso social junto ao Terceiro Setor.

A pesquisa de campo envolveu a realização de entrevistas com três psicólogas, escolhidas intencionalmente por desenvolver trabalhos práticos referentes ao Terceiro Setor. No corpo do texto, as mesmas estão sendo identificadas como LS, NA e RG.

As entrevistas foram realizadas de forma estruturada e subdividas em quatros focos: a) o que levou o profissional a trabalhar no Terceiro Setor; b) Quais as vantagens de se trabalhar no Terceiro Setor; c) Quais as desvantagens; d) Quais os desafios do psicólogo no Terceiro Setor.

As informações prestadas pelos entrevistados, uma vez transcritas, foram submetidas à análise de conteúdos. Além das entrevistas com profissionais escolhidos, procedeu-se um levantamento bibliográfico, centrado exclusivamente no relato de práticas e experiências na área.

4. Análise e Discussão dos Dados

4.1 O que levou o profissional a trabalhar no Terceiro Setor

Questionado às entrevistadas quanto ao que as levou a trabalhar no Terceiro Setor, observou-se que, em linhas gerais, todas tiveram objetivos parecidos com motivações diversas que as levavam ao contato social mais estreito com comunidades menos favorecidas.

Sílvia Lane refere-se à construção de uma alternativa teórica que estivesse consonante com os problemas enfrentados no cotidiano da realidade brasileira. É importante frisar que essa construção teórica se dava em todos os espaços através de professores, pesquisadores e militantes, por uma Psicologia social crítica. Esta pontuação da autora enfatiza a necessidade de observar a prática com a teoria. Sendo assim, podemos observar isso na fala das entrevistadas quando as mesmas mencionam: LS, “Minha inserção veio através de pessoas conhecidas que já estavam trabalhando no projeto, e essas pessoas possibilitaram a minha atuação”.

Para a entrevistada NA, a mesma relata: “Entre 1993 e 1994 eu trabalhei aqui quando a associação estava começando, pois naquele momento era uma escola comunitária. Foi uma vivência antes da minha formação em Psicologia, eu já tinha experiência na área pedagógica, pois sempre estive envolvida com militâncias de igrejas, com grupos de jovens e com pessoas envolvidas em vulnerabilidade social, o que me levou a fazer escolhas diferenciadas, e esta associação me conduziu para o Terceiro Setor. A faculdade me ajudou com a fundamentação teórica, com o saber acadêmico, a ter um olhar apurado e afinado e a fazer uma atuação qualificada. Eu já tinha em mim a sensibilidade e a experiência com crianças e adolescentes. O meu desejo sempre foi o de trabalhar em uma empresa como essa que tem em sua missão a vivência com crianças/adolescentes em situação de risco”.

Já a entrevistada RG relatou: “Eu comecei fazendo trabalhos voluntários em vários setores, não apenas no setor de oncologia; eu era bancaria há 21 anos, já era formada em Psicologia e fazia atividades paralelas às minhas tarefas do banco, realizei atividades na Casa-Lar, em asilos (mas não me senti bem em trabalhar com idoso, achei o idoso nostálgico, acredito que pelo fato de ter cuidado de minha mãe até o último dia de sua vida, e aquela coisa me mobilizava muito); fiz várias atividades no Terceiro Setor. Nos primeiros três anos fiquei aqui como voluntária, e quando foi construída essa nova sede, uma médica pediatra percebeu que eu era bem assídua e me convidou para montar o setor de Psicologia, e estou aqui há 12 anos”.

4.2 Quais as vantagens de se trabalhar no Terceiro Setor?

Os relatos evidenciam o que BOCK, 1999 resumiu: assumir compromisso social em nossa prática é acreditar que só se fala de ser humano quando se fala das condições de vida que o determina. Termos práticas terapêuticas deve significar termos práticas capazes de alterar a realidade social, de denunciar as desigualdades, de contribuir para que se possa cada vez mais compreender a realidade que nos cerca e atuarmos nela para sua transformação no sentido das necessidades da comunidade social.

De acordo este pensamento, buscou-se evidenciar nas entrevistadas quais seriam as vantagens de se trabalhar no Terceiro Setor, tanto do ponto de vista social quanto à possível forma de recompensa financeira. Porém, evidenciou-se forma diferente de pensar, de maneira que a entrevistada LS relatou: “Nós, do Terceiro Setor, temos mais autonomia em desenvolver nossos trabalhos, temos liberdade para pensar e executar. O foco não está nos interesses financeiros e sim nas questões sociais, ideologias, militâncias que estão implicadas nessas questões. A formação de Psicologia foca no indivíduo, no compromisso de ser cidadão, de estar a serviço da sociedade, temos essa consciência”.

A visão da entrevistada NA, faz uma ressalva em relação à área de atuação, onde afirma: “Trabalho na Pastoral do Menor, que também é Terceiro Setor”...O Terceiro Setor não é uma área muito bem vista pelos profissionais. O resultado é mais humano, me sinto livre e respeitada nos espaços onde trabalho. Prefiro ganhar pouco, mas estar satisfeita assim como eu estou. Nunca me senti empregada e sim colaboradora”.

Analisando o contexto em que se tem processado o ingresso do psicólogo nas instituições de saúde em Salvador, uma das psicólogas, RG, comenta a importância do sua função: “Eu gosto muito de trabalhar com oncologia, e ver a evolução e o fortalecimento das crianças com o nosso apoio; me sinto gratificada e é por isso que essa instituição leva esse nome, “CASA DE APOIO”; eu não vejo o lado negativo da doença, foco na cura, apesar de saber que existem, na trajetória, as perdas”.

4.3 Quais as desvantagens?

No tocante aos efeitos produzidos pela presença do suporte social, Freitas (1998) afirma que acreditar na possibilidade de desenvolvimento de trabalho em comunidade implica em não ver a população nem como desamparada por natureza, nem desvalida ou um espécime exótico digno de estudos. Significa, ao contrário, descobrir que a população é sim, diferente dos padrões e previsões tradicionalmente cientificas, sendo mais lutadora e sobrevivente do que tem sido considerado pelos centros de investigação.

O Ônus refere-se a um custo intrínseco à profissão, de existirem continuamente desafios, questionamentos e incertezas sobre o papel do psicólogo, naquele contexto. Este custo intrínseco, por sua vez, estampa a necessidade de uma profunda reformulação no processo de formação dos psicólogos e nos paradigmas adotados para o desenvolvimento dos trabalhos (FREITAS 1998, apud MONTERO, 1994).

Dentro do contexto apresentado pelos estudiosos, verifica-se na pesquisa de campo que as desvantagens do trabalho no Terceiro Setor, relatadas pelas entrevistadas, estão relacionadas desde questões financeiras até a falta de recursos e reconhecimento do setor, retratando angústias e frustrações no desempenho da função.

Para a entrevistada LS, existe a precarização do serviço, devido à falta de recursos (patrocínios). “Apesar de não trabalhar por interesse financeiro, preciso de uma renda para meu sustento. A maior desvantagem é a instabilidade financeira. Desenvolvo um trabalho de núcleo social, identificando os interessados (interno e externo) do projeto de pré-vestibular, voltado pra o público negro. Faço uma escuta e trabalho com a promoção da saúde de pessoas com questão de vulnerabilidade e preconceito.”

Para a profissional NA, a mesma relata: “Minha realidade hoje é voltada para os órgãos que a gente atua, as redes de suporte impedem que o nosso trabalho seja sólido e qualificado; uma vez acionado, os órgãos não trabalham de forma rápida. Existe a lentidão da justiça em fornecer respostas, o que causa angústia e frustrações. A Psicologia ainda é artigo de luxo para algumas instituições e para muitas é preferível ter mais de uma assistente social e não priorizam o psicólogo, como se o mesmo fosse desnecessário; afirmam que o psicólogo é muito caro”.

Já para a entrevistada RG, a mesma relata: “Acho que a nossa profissão não é reconhecida, e os grandes hospitais não têm psicólogos atuando para que haja uma interação, e quando encontramos um profissional e apenas um para muitos pacientes, que ganha pouco e trabalha em vários lugares, pra mim a falta desse profissional não permite que a gente possa prestar um bom acompanhamento para as nossas crianças/adolescentes; sei que essa situação atualmente está se modificando. Já o meu trabalho eu faço com carinho e amor, e não vejo desvantagens”.

4.4 Quais os desafios do psicólogo no Terceiro Setor

Para Yamamoto (2007), Os desafios do psicólogo é ampliar os limites da dimensão política de sua ação profissional, tanto pelo alinhamento com os setores progressistas da sociedade civil, fundamentada na correlação de forças da qual resultam eventuais avanços no campo das políticas sociais, quanto pelo desenvolvimento, no campo acadêmico, de outras possibilidades teórico-técnicas, inspiradas em outras vertentes teórico-metodológicas que as hegemonias da Psicologia. 

Sendo assim, cada entrevistada relata de forma livre seus desafios no campo onde atuam. Segundo NA, “Vivemos de doação ou de projetos, e o Terceiro Setor é financiado muitas vezes por empresas internacionais. Vejo que existe a falta de interlocução entre nós profissionais, falta um objetivo comum. Vivenciamos a prática da profissão e existe uma carência de pesquisas, artigos publicados (produção teórica) no nosso Estado”.

Na entrevista de RG, verifica-se um relato mais emocional. “Quando a família chega eu preciso estar disponível, e fazer com que elas entendam que não estão sozinhas em suas trajetórias; mostro que neste momento elas precisam estar unidas, independente da relação conjugal. Infelizmente o desafio maior é quando a medicina já não pode fazer muito pelo paciente e resta apenas os cuidados paliativos, ao encaminhar o responsável para casa e preciso conscientizá-los de suas vitórias (quando parece uma derrota), fazer o fechamento para que o outro saiba lidar com a morte. Pra mim essa minha atuação é meu maior desafio”.

Para LS, o seu desafio consiste em “ser criativa, reinventar a cada dia, aproveitar todas as experiências, se entregar ao que faz”.

5. Considerações Finais

Os elementos analisados na pesquisa revelam que o compromisso do profissional de Psicologia está implicado na sua satisfação pessoal, e em fazer escolhas que geram sentimento de gratificação. Na prática, o mesmo encontra limitações para a sua intervenção psicológica, dado ao fato de que o Terceiro Setor normalmente sobrevive de doações, repasses do governo ou de empresas privadas. Considerando essa particularidade, é um setor que não gera lucros, e assim fica muitas vezes com os seus objetivos comprometidos por faltas de verba. Acoplado a isso, percebemos ainda que a formação do profissional de Psicologia para esse setor ainda é muito aquém do que seria possível. Contudo, consideramos que dentro de um espaço de tempo não muito longo, as faculdades, empurradas pelas necessidades da sociedade, estarão dispensando um novo olhar para uma formação acadêmica que contemple as novas perspectivas do mercado profissional, que é o Terceiro Setor.

Pode-se observar, com a pesquisa, que os profissionais de Psicologia atuantes no Terceiro Setor, apesar das dificuldades, encontram-se realizados dentro do que se propõem a contribuir com as camadas menos favorecidas. Porém, vamos deixar um questionamento para que possamos pensar a respeito, e quem sabe nos mobilizarmos para contribuir com possíveis mudanças: será que o psicólogo que escolher trabalhar no Terceiro Setor terá que fazer isso apenas por amor à profissão e aos menos favorecidos socialmente, abdicando de um bom salário e condições favoráveis de trabalho? É algo, no mínimo, para se pensar.

Esta pesquisa aponta para a potencialidade e relevância das associações e instituições que caracterizam o Terceiro Setor, que abrem espaço para o exercício do trabalho de profissionais de Psicologia dentro de um compromisso social. Contudo, urge um posicionamento tanto das instituições acadêmicas quanto dos profissionais que já laboram nesses espaços, no sentido de criar formas que mostrem a relevância do trabalho e a valorização da profissão nesse novo espaço de trabalho.

Sobre o Artigo:

Trabalho de conclusão de curso, apresentado como parte de atividades para obtenção do título de Psicólogo, do curso de Psicologia da Faculdade da Cidade do Salvador

Sobre os Autores:

Andrea de Jesus Souza Brandão - Estudante de graduação do curso de Psicologia, Faculdade da Cidade do Salvador, BA, Brasil.

Lindolfo Barbosa - Estudante de graduação do curso de Psicologia, Faculdade da Cidade do Salvador, BA, Brasil.

Referências:

BARDIN Laurence. Análise de Conteúdos. Presses Universitaires de France. Lisboa: Edições 70, 1977.

BOCK, Ana Mercês Bahia. A Psicologia a Caminho do Novo Século: identidade profissional e compromisso social. Estudos de Psicologia. Universidade Católica de São Paulo: São Paulo, 1999.

BOCK, Ana Mercês Bahia. Psicologia e o compromisso social. 2ª Ed. Ver- São Paulo: Cortez, 2009.

BOCK, Ana Mercês Bahia; FERREIRA, Marcos Ribeiro; GONÇALVES, Maria da Graça M; FURTADO, Odair. Sílvia Lane e o projeto do “compromisso social da Psicologia”.Universidade Católica de São Paulo: São Paulo, 2007.

DIMENSTEIN, Magda. A cultura profissional do psicólogo e o ideário individualista: implicações para a prática no campo da assistência pública a saúde. Estudos de Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Rio Grande do Norte, 2000.

FERNANDES, Rubem César. Privado, porém público: o Terceiro Setor na América Latina: Relume Damará, 1994.

FREIRE, Isabel Ribeiro. Raízes da Psicologia. 3ª Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

FREITAS, Maria de Fátima Quintal. Inserção na comunidade e análise de necessidades: reflexões sobre a prática do psicólogo: Porto Alegre, 1998.

GAZZO, Raquel S. L.; LACERDA, Fernando Jr. Fortalecimento em tempo de sofrimento: reflexões sobre o trabalho do psicólogo e a realidade brasileira. Universidade Católica: Porto Alegre, 2007.

LABRUNA, Flávia. Psicologia do desenvolvimento. Centro Educacional de Niterói: Rio de Janeiro, 1995.

PERONI, Vera M.V; OLIVEIRA, Regina T. C; FERNANDES, Maria D. E. Estado e Terceiro Setor: As novas regulações entre o público e o privado na gestão da educação básica brasileira: Campinas, 2009.

ROTHGIESSER, Tanya L. Sociedade Civil Brasileira e o terceiro Setor. Disponível em: http://www.terceirosetor.org.br/  Acesso em: 20 de abril de 2012.

YAMAMOTO, Osvaldo Hajime. Políticas Sociais, “Terceiro Setor” e “compromisso social”: Perspectivas e limites do trabalho do psicólogo. Psicologia & Sociedade. Universidade federal do Rio Grande do Norte: Natal, 2007.

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