Invisibilidade Social: Uma Realidade Vivida por Catadores de Material Reciclável

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Resumo: Frente à crise socioambiental é fundamental a preocupação com o processo de reciclagem e com o bem-estar dos trabalhadores que realizam esta atividade. O presente artigo teve como objetivo pesquisar a estrutura e o funcionamento de uma cooperativa de catadores de material reciclável, visando desmistificar o pensamento sobre esta classe de trabalhadores, também, compreender a importância da organização das pessoas que participam deste setor para a melhoria de sua qualidade de vida. A etnografia foi o método utilizado para a obtenção dos dados, analisando à luz de referências teóricas da Psicologia Social. Observou-se que os catadores reúnem-se em cooperativas e em balcões de resíduos, que lhes permite coordenar melhor suas atividades com órgãos sanitários municipais e negociar melhores preços com os intermediários (TRIGUEIRO, 2005). O fato, porém, de estarem se organizando e agirem como elementos úteis em termos socioambientais, não os livram da condição de vulnerabilidade e marginalização social a que estão submetidos. A reeducação ambiental da sociedade para que haja uma coleta seletiva de produto reciclável de forma efetiva e o reconhecimento dos direitos trabalhistas dos catadores de material reciclável e a escolarização da população pobre, seriam soluções que possibilitariam uma inclusão social digna dos profissionais desta área. O conhecimento e o contato direto com esta realidade são importantes para uma tomada de consciência.

Palavras-chaves: Catadores de Material Reciclável, Catadores de Lixo, Material Reciclável, Reciclagem.

1. Introdução

O presente artigo é fruto de uma pesquisa Etnográfica, sobre a estrutura e funcionamento de uma Associação de catadores de material reciclável, situada em Fortaleza. Buscou-se desmistificar o pensamento “marginalizador” que coloca os catadores como uma classe inferior de ocupação econômica. Objetivo principal que norteou este trabalho foi o de pesquisar a estrutura e o funcionamento de uma cooperativa de catadores de material reciclável, visando desmistificar o pensamento sobre está classe de trabalhadores.

A relevância deste estudo está em apresentar a importância dos catadores de material reciclável como um elemento lucrativo para a economia e como agentes ambientais que contribuem na luta contra a crise socioambiental, através da reciclagem.

A instituição estudada é uma associação de catadores de material reciclável, que possui dez anos de existência e é composta por vinte e um catadores de material reciclável. A associação conta com o apoio da Cáritas Arquidiocesana de Fortaleza e da Prefeitura Municipal de Fortaleza.

Na conjuntura econômica atual, se vive uma crise de desemprego e baixa qualificação profissional, por estes motivos os catadores encontram na associação uma forma de se manterem economicamente ativos e seguros fisicamente, pois, muitas vezes, por causa das doações recebidas pela cooperativa não precisam catar material reciclável na rua. Além da segurança física e econômica, por estarem reunidos em uma organização os catadores mudam sua perspectiva no que diz respeito ao profissional, em relatos, muitos associados disseram que sabem que são a base de um circulo muito lucrativo.

Por causa dessa crise do trabalho assalariado, segundo GUARESHI (1999 apud MEDEIROS e MACÊDO, 2006), no entendimento da sociedade contemporânea, o conceito de exclusão social é crucial, isso porque as transformações do mundo do trabalho, principalmente as advindas das transformações do modo de produção, modificaram o cenário das relações sociais até então vigentes. Relações essas de empregado/desempregado. Assim, estar desempregado significaria não estar integrado. Mas, o que dizer daqueles que trabalham sem, contudo, terem um emprego? Esse questionamento será respondido no decorrer deste estudo.

2. Metodologia

A Etnografia foi o método utilizado na pesquisa, método este, que exige um convívio prolongado com o grupo que se investiga. Através da observação participante, o pesquisador vive a experiência de uma imersão total na vida cotidiana das pessoas, interagindo com elas e observando suas atividades rotineiras, desde os eventos extraordinários até os pequenos gestos, como, por exemplo, os detalhes dos cuidados corporais, o modo de comer e de preparar as refeições, o tom das conversas, as amizades e as hostilidades. MALINOWSKI (1985) chamou estes elementos de “imponderáveis da vida”, conferindo a eles grande importância na compreensão dos grupos sociais e dos sistemas culturais.

Para o desenvolvimento do trabalho de campo realizou-se observações e entrevistas do tipo semiaberto com nove catadores associados ativos e um integrante do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). Todos os participantes assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O período da coleta de dados foi de março a junho de 2013. As visitas, em sua maioria, foram feitas aos sábados no horário de 8h ao meio dia, onde as pesquisadoras participaram ativamente da rotina dos associados. As atividades desenvolvidas foram a separação do material reciclável do lixo molhado, venda do material selecionado aos atravessadores e limpeza da cooperativa. As informações encontradas foram organizadas e analisadas a partir de referenciais teóricos da Psicologia Social.

3. Resultados e Discussão

A cooperativa estuda está localizada em Fortaleza-CE, possui dez anos de funcionamento, 20 associados e a cada dois anos é feito um pleito de forma democrática para eleger a Mesa Diretória (presidente, secretário e tesoureiro) e o Conselho Fiscal. O horário de funcionamento é de 8h às 11h e das 13h às 17h de segunda-feira a sexta-feira e aos sábados das 8h ao meio-dia, onde oito catadores estavam ativos no período da pesquisa e os outros por motivos desconhecidos não estavam desenvolvendo alguma atividade na cooperativa.

“Cooperativa é uma associação de pessoas com interesses comuns, economicamente organizadas de forma democrática, isto é, contando com a participação livre de todos e respeitando direitos e deveres de cada um de seus cooperados, aos quais presta serviços, sem fins lucrativos.” (ZANLUCA, 2011)

A organização estuda é uma Cooperativa de Trabalho, que de acordo com ZANLUCA (2011) esse tipo de cooperativa é uma sociedade constituída por trabalhadores para o exercício de suas atividades laborais ou profissionais com proveito comum, autonomia e autogestão para obterem melhor qualificação, renda, situação socioeconômica e condições gerais de trabalho.

Nas falas dos profissionais, foram relatadas experiências anteriores ao ingresso à cooperativa, por exemplo, que trabalhavam de forma autônoma e coletavam materiais recicláveis diretamente nas ruas, ganhando mais dinheiro, ao passo que estavam mais expostos aos perigos tais como agressões. Entre os diversos motivos para se vincular a cooperativa, vislumbra-se a segurança - visto que o prédio onde desenvolvem suas atividades laborais foi doado pela prefeitura de Fortaleza desde 2011 e conta com a segurança desta. Seguindo com a entrevista uma cooperada, M.S.A disse:

“Quando eu recolhia matéria na rua sofri vários tipos de agressões, mas o que me marcou foi quando motorista do ônibus acelerou para me atropelar, fora este fato, houveram motoristas de carros que já bateram no meu carrinho com material dentro e derramou tudo na pista ”.

Em relatos como o citado anteriormente, nota-se a invisibilidade social vivida pelos catadores em seu dia-a-dia. Segundo SOUZA (2010) a invisibilidade social é um tema novo que está relacionado às pessoas que exercem profissões desprovidas de status, glamour, reconhecimento social e adequada remuneração. Assim, os trabalhadores que executam tarefas imprescindíveis à sociedade moderna, mas assumidas como de categoria inferior pelos mais variados motivos, geralmente não são nem percebidos como seres humanos, e sim apenas como “elementos” que realizam trabalhos que um membro das classes “superiores” jamais se submeteria. Em consequência, o que não é reconhecido não é visto.

"A moral e os costumes que dão cor à vida, têm muito maior importância do que as leis, que são apenas uma das suas manifestações. A lei toca-nos por certos pontos, mas os costumes cercam-nos por todos os lados, e enchem a sociedade com o ar que respiramos" (COSTA, 2008).

A invisibilidade social pode ser explicada a partir da teoria das representações sociais que segundo SÊGA (2000) as representações sociais se apresentam como uma maneira de interpretar e pensar a realidade cotidiana, uma forma de conhecimento da atividade mental desenvolvida pelos indivíduos e pelos grupos para fixar suas posições em relação à situação, eventos, objetos e comunicações que lhe concernem. Os preconceitos são dificilmente dissipados, os estereótipos não são enfraquecidos, pois, para MOSCOVICI (apud SÊGA, 2000), não existe nada na representação que não esteja na realidade, exceto a representação em si.

Urie Bronfenbrenner (1996) em sua teoria da Ecologia do Desenvolvimento Humano diz que o sujeito é influenciado diretamente e indiretamente pelos diferentes níveis do ambiente que o circunda, seu comportamento só tem sentido quando analisado congregado nesses contextos. Tendo em vista essa teoria observamos que os sistemas sociais como família, comunidade que moram e ambiente de trabalho que os estão inseridos compõem a cultura e idealização do mundo que eles possuem. Por muitas vezes por estarem em área de risco e terem baixa escolaridade a perspectiva de mudança distancia-se da realidade vivida. Foi perguntado ao catador R.A.S o porquê do seu filho não está mais participando das atividades da universidade que possivelmente lhe daria uma bolsa de estudos pelo desempenho no atletismo e ele respondeu: “Pobre não tem universidade e sim dificuldade”.

Os catadores reúnem-se em cooperativas e em bolsões de resíduos, que lhes permite coordenar melhor suas atividades com órgãos sanitários municipais e negociar melhores preços com os intermediários (TRIGUEIRO, 2005). O fato, porém, de estarem se organizando e agirem como elementos úteis em termos socioambientais, não os livram da condição de vulnerabilidade e marginalização social a que estão submetidos.

Visto que o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) está incentivando os catadores em geral a formarem organizações que visem à valorização desta classe e a conscientização dos próprios catadores para que se vejam como elemento importante na economia do país.

Mesmo com o incentivo do MNCR, os cooperados trouxeram em suas falas o desânimo em ralação à aceitação da sociedade e mostraram-se frustrados quando repensaram suas rotinas e viram-se como vítimas de preconceito. Nas palavras de ABREL (2001, p.7), são “miseráveis, semianalfabetos e, embora marginalizados, não são marginais”. São pessoas que trabalham em condições extremamente diferentes e difíceis, num ambiente de alto risco e pouco apoio.

Em diversos autores a rotina dos catadores de lixo é descrita como exaustiva e massacrante. Destaca-se a descrição que MAGERA (2003) faz:

“Muitas vezes, ultrapassa doze horas ininterruptas; um trabalho exaustivo visto as condições a que estes indivíduos se submetem, com seus carrinhos puxados pela tração humana, carregando por dia mais de 200 quilos de lixo (cerca de quatro toneladas por mês), e percorrendo mais de vinte quilômetros por dia, sendo, no final, muitas vezes explorados pelos donos dos depósitos de lixo (sucateiros) que, num gesto de paternalismo, trocam os resíduos coletados do dia por bebida alcoólica ou pagam-lhe um valor simbólico insuficiente para sua própria reprodução como catador de lixo.” (p.34).

Segundo VIANA (2000), a existência dos atravessadores pode ser explicada por dois fatores principais: primeiro, pela "dificuldade de locomoção" dos catadores de lixo para entregar o material nas indústrias de reciclagem e, segundo, pelas vantagens que esse sistema oferece às indústrias. Nas falas dos catadores notou-se a frustração de terem que vender o material coletado aos atravessadores. É relevante a fala do catador F.R.S:

“Se tivéssemos nossa própria balança, não estaríamos sujeitos às exigências dos atravessadores, eles nos pagam pouco e ganham muito da indústria. Nós, por pouco não revendemos para a indústria e ganhamos mais.”

Dessa forma, concluem LEAL et al. (2002) que o catador de material reciclável participa como elemento base de um processo produtivo bastante lucrativo, no entanto, paradoxalmente, trabalha em condições precárias, subumanas e não obtém ganho que lhe assegure uma sobrevivência digna.

4. Conclusão

O catador de material reciclável se apresenta como elemento extremamente lucrativo dentro da cadeia produtiva da reciclagem, uma vez que trabalha em situações de precariedade e não tem seguridade nenhuma no trabalho desempenhado; por isso a facilidade de mantê-los “escravos”, pois a falta de escolaridade e pobreza os obriga a permanecerem nessa situação. E embora estes trabalhadores tenham consciência de sua situação, a dificuldade maior que eles enfrentam é justamente sair dessa cadeia.

A reeducação ambiental da sociedade para que se haja uma coleta seletiva de produto reciclável de forma efetiva, o reconhecimento dos direitos trabalhista dos catadores de material reciclável e a escolarização da população pobre, seriam soluções que possibilitariam uma inclusão social digna dos profissionais desta área. O conhecimento e o contato direto com esta realidade são importantes para uma tomada de consciência.

Mas será que a sociedade está preparada para olhar para os marginalizados, que são colocados nos sótãos da nossa consciência, e entendê-los como frutos do sistema capitalista “tratorizado” que massacra as grandes massas, em favor de uma minoria que as usa como escabelo para apoiar a sua inércia em relação à problemática da exclusão social de profissionais como os catadores? Esta reflexão seria o primeiro passo para que em nossa tomada de consciência pudéssemos unir esforços no intuito de reparar falhas em nosso modo de viver que prejudicam outrem, e dessa forma construir uma sociedade mais igualitária.

Referências:

ABREU M. de F.. Do Lixo A Cidadania: Estratégia para Ação. Brasília: Caixa Econômica Federal, 2001.

BRONFENBRENNER, U. (1996). A Ecologia do Desenvolvimento Humano: Experimentos Naturais e Planejados. Porto Alegre, Artes Médicas.

COSTA, F. S. de M. Instrumentalidade do Serviço Social: Dimensões Teórico Metodológica, Ético-Política e Técnico-Operativa E Exercício Profissional. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Programa de Pós-Graduação em Serviço Social. Natal, 2008. (Dissertação de Mestrado)

LEAL, I.R., TABARELLI, M. & SILVA, J.M.C. Ecologia e Conservação da Caatinga. Ed. Universitária, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Brasil. 822p. 2003.

MAGERA, M.C.. Os Empresários do Lixo: Um Paradoxo da Modernidade: Análise Interdisciplinar das Cooperativas de Reciclagem de Lixo.Campinas SP: Ed. Átomo,2003.

MALINOWSKI, Bronislaw. Journal d’Ethnographe. Paris: Seuil, 1985.

MEDEIROS, L.F.R.de; MACÊDO, K.B.. Catador De Material Reciclável: Uma Profissão para Além da Sobrevivência?. Psicol. Soc. vol.18 nº 2 Porto Alegre May/Aug. 2006.

SÊGA, R. A. O Conceito de Representação Social nas Obras de Denise Jodelet e Serge Moscovici. In Revista do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2000.

SOUZA, J.. Invisíveis Sociais. 2010. Disponível em: <http://invisibilidadesocial2010.blogspot.com.br/> Acessado: 25/07/13

TRIGUEIRO, A. Mundo Sustentável. São Paulo: Globo, 2005

VIANA, J.J.. Administração de Materiais: Um Enfoque Prático. São Paulo: Atlas, 2000.

ZANLUCA, J.C. Manual de Sociedades Cooperativas. Disponível em:<http://www.portaltributario.com.br/obras/cooperativas.html>. Acesso em 25 de agosto de 2013.