Isso é Coisa de Polícia, Sim Senhor: Interface entre a Psicologia Policial e a Sociedade

Isso é Coisa de Polícia, Sim Senhor: Interface entre a Psicologia Policial e a Sociedade
5           Avaliação 5.00 (1 Avaliação)
(Tempo de leitura: 12 - 23 minutos)

Resumo: Este estudo tem como objetivo compreender a temática: Polícia, policial e sociedade. Pautado em um trabalho qualitativo, com intuito de reconhecer as bases do modelo institucional da Polícia, posicionando esta como uma máquina de produção de saber, verdades e subjetividades. Relações cercadas por situações estressantes, riscos e violência, com consequências físicas e emocionais para todos os envolvidos. Para uma contribuição da Psicologia a essa área é fundamental entender de onde fala (Quem é essa Polícia?), quem fala (Quem é o policial?) e a quem fala (Polícia e Sociedade) em prol da construção de uma polícia cidadã baseada nos Direitos Humanos.

Palavras-chave: Polícia, policial, sociedade.

1. Introdução

Este estudo objetiva compreender as relações psicossociais das esferas policiais e da sociedade, especificadamente os policiais da carreira militar e civil, tendo em vista a importância desse organismo institucional para a vida de todos os cidadãos de nossa sociedade contemporânea e para o advento de uma polícia democrática e em conformidade com os Direitos Humanos.

A psicologia policial é uma área de intervenção pouco explorada no Brasil, os psicólogos desempenham nas instituições policiais apenas algumas atividades, como por exemplo, a seleção das pessoas que são aprovadas em concursos públicos para ingresso na profissão policial e na formação presente no curso de preparação das academias policiais, desenvolvendo apenas aulas conteudistas, sem uma maior intervenção psicossocial em conjunto com esses sujeitos que irão para as ruas em contato direto com a sociedade.

Esta sociedade que é marcada negativamente pela figura policial desde os tempos de Império no Brasil. Suas ações, diferentemente de outras profissões, acarretam uma singularidade especial, onde as decisões e atuações policiais afetam subjetivamente muitos indivíduos da sociedade, assim como, uma carga de representatividade psicológica elevada atinge também este policial na relação social de sua atuação.

É fundamental que a psicologia contribua para a construção de novos conhecimentos e práticas de intervenção policial neste século que inicia-se. Pôr em xeque esta questão ativa diretamente à primeira fase de mudança das relações institucionais existentes, ou seja, permite dar voz e ser capaz de ouvir esses policiais e a sociedade.

Os estudos de Marcelino Yagüe Cabreñzo (1994) orienta a Psicologia Policial de base interventiva, aplicada no âmbito institucional com elementos que promovam o ultrapassar as fronteiras do trabalho seletivo / formativo realizado pelo psicólogo na esfera militar e lançar novas propostas, como:

    1. Melhorar a imagem social da polícia;
    2. Propor uma melhor qualidade de vida aos sujeitos policiais, através de adequada supervisão e assistência psicológica;
    3. Desenvolver capacidades de maior efetividade em seus trabalhos;
    4. Reduzir os impactos psicossociais nos policiais e naqueles cidadãos que recorrem a Corregedoria por motivos diversos;
    5. E principalmente, prestar um melhor exercício a sociedade em conformidade com os Direitos Humanos.

Assim, como marco inicial desse estudo, surge uma proposta de levantamento de dados sobre a temática do Policial, não com um caráter quantitativo, mas qualitativo. Reconhecer nesse policial um sujeito ativo que está inserido num modelo de instituição marcado por violência e hierarquização, acrescido de sofrimento emocional. Este trabalho versa os dois lados comuns em pesquisas sobre a Polícia, ou seja, são abordadas as arestas da violência e do impacto psicossocial, mas também as consequências psíquicas desses agentes institucionais. Baseado em uma metodologia que valoriza as noções de sujeito, discurso e poder de Foucault (2005).

Pensando a instituição como discurso, alvo de relações de poder, se posicionando como máquina de produção de saber, verdades e subjetividades (FOUCAULT, 2005). O policial que repete o discurso institucional torna viva essa instituição, neste caso, é imprescindível compreender de onde fala (Quem é essa Polícia?), quem fala (Quem é o policial?) e a quem fala (Polícia e Sociedade).

2. Quem é essa Polícia?

Constituição Federal (1988), capítulo III, da Segurança Pública:

Art.144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:

I – Polícia Federal;

II – Polícia Rodoviária Federal;

III – Polícia Ferroviária Federal;

IV – Polícias Civis;

V – Polícias Militares e corpo de bombeiros militares.

Essas são as regulamentações atuais das polícias que este estudo irá debruçar-se, porém é necessário realizarmos uma breve leitura histórica da formação dessas instituições para uma melhor compreensão contextual dos dias atuais.

Ao falarmos dos conflitos que o policial sofre e como ele organiza-se cognitivamente para sua ação constitui-se de um ponto fundamental para uma prática junto a esses sujeitos que são tão determinantes na história pessoal de inúmeros cidadãos que um dia vão entrar em contato com esses policiais.

A história da Polícia é datada desde o século XIX com a chegada da Família Real Portuguesa, com a fundação da Intendência Geral da Polícia e a Divisão Militar da Guarda Real da Polícia no Rio de Janeiro. Em sua origem, pretendia apenas prevenir a criminalidade e não sancioná-la. De forte influência portuguesa, possuía um caráter formador, no entanto, no Brasil, o fio condutor que originou-se e perdura até os dias atuais ao falar em polícia é a manutenção da ordem estabelecida (AZEVEDO, 2012; COTTA, 2009).

Qualquer manifestação social que possuísse sinais que iriam desestabilizar essa ordem estabelecida seria tratada como uma anormalidade, uma enfermidade que precisava ser sanada para o bem da saúde do corpo social. Assim, autores como Thomas H. Holloway (1997, apud COTTA, 2009) afirmava que a meta dessa polícia no período imperial era subjugar e reprimir.

Daí por diante, regras, costumes e julgamentos morais foram se constituindo e atribuindo valores aos considerados comportamentos subversivos, em sua maioria referiam-se aos negros e mestiços presentes nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, então capitão do Brasil Império (COTTA, 2009).

Em pesquisa histórica podemos observar que os elementos considerados subversivos ainda hoje estão sendo perseguidos e criminalizados; as principais execuções das diretrizes dessa polícia no período imperial já indicavam os sinais das segregações sociais atualmente estabelecidas, as decisões de perseguições e prisões eram pautadas na cor, no sexo, idade e nível socioeconômico (GUIMARÃES, 2008).

Fazendo um salto na história, o Brasil sofre um grande abalo na sua constituição democrática quando ocorre o Golpe Militar de 1964, só aumentando a distância entre a Polícia e a sociedade. Neste período os cidadãos não possuíam seus direitos básicos garantidos. A moral considerada perigosa para a sociedade é combatida e inserida na própria subjetividade do corpo institucional da Polícia e que perdura até os dias atuais (GUIMARÃES, 2008).

Como podemos constatar a partir da leitura de Edmundo Campos Coelho (1999) a “segurança do Estado” passou a ser primordial ao invés da segurança do indivíduo e na promoção a plenitude dos direitos humanos, subvertendo toda a ordem democrática.

A violência torna-se, no país, algo comum em todas as esferas sociais e a polícia passa a assumir um comportamento que compense sua ineficácia tentando eliminar o crime aumentando o grau de ferocidade da repressão. (COTTA, 2009).

Atualmente, a Constituição Federal do Brasil (1988) dispõe sobre esta instituição o seguinte parágrafo:

§ 5º Às policias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incubem a execução de atividades de defesa civil.<

E sobre a polícia Civil regulamenta as seguintes ações:

§ 4º Às polícias civis, dirigidas por delegados de polícia de carreira, incubem, ressalvada a competência da União, as funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais, exceto as Militares.

Essa Polícia Civil é a representante histórica da Intendência Geral de Polícia da Corte e do Estado do Brasil de 1808. Para Deluchey (2011), a polícia pouco mudou depois de todos esses anos de existência, mesmo com um Estado Democrático de Direito a mais de 27 anos, os cidadãos ainda têm dificuldades de encontrar uma delegacia onde a polícia trabalha de forma cidadã, com os valores revistos e internalizados, o cotidiano de trabalho ainda está além do ideal de uma Polícia Cidadã, Comunitária, de Proximidade, essas continuam no discurso pragmático, representando apenas um ideal a ser contemplado.

Portanto, constitui-se dessa forma a instituição policial no Brasil, com seus discursos, manobras e postura ensinada aos novos integrantes desse grande corpo institucional.

A Polícia, num sentido amplo, possui sérias deficiências advindas de sua gênese, onde a repressão, força, interesses político-administrativos e discriminação socioeconômica são os recortes subjetivos e objetivos dessa instituição, mantidos e apoiados por muitos devido ao status que dar a esses sujeitos como essenciais para a manutenção da ordem pública e afastamento de meios violentos, alimentando o sentimento de pânico social para que a sociedade perceba apenas um lado dessa configuração (DELUCHEY, 2011).

Atualmente, vivemos o momento de críticas a esse modelo de polícia e passamos por reformas policiais em todos os estados da Federação brasileira com o surgimento das modalidades de Polícias Cidadãs com o intuito principal da aproximação entre Polícia e comunidade, no entanto, esse processo é lento, mas essencial para uma mudança futura.

3. Quem é o Policial?

Inicialmente, é relevante levantar uma reflexão feita pelo Ex-secretário Nacional de Segurança Pública, o Professor Luiz Eduardo Soares (2005), quando comentou no Seminário Polícia, Democracia e Sociedade, a conversa que teve com Luiz Inácio Lula da Silva, este que perguntou, em uma reunião numa comunidade carente, por que o povo só falava de polícia; Ele então responde:

Ô Lula, sabe por que esse pessoal só fala de polícia? Porque em 20 anos você nunca falou de polícia, porque não falamos de polícia, porque nos recusamos a levar a sério a problemática policial, porque sempre reclamamos quando alguém se fixa nessa questão, que nos parece secundária. E tal postura é uma tradição da esquerda. Parece que pensar polícia é típico de uma concepção conservadora. É por isso que a população tem que falar. Chegou a hora de falarmos também, de levarmos a sério essa questão. (SOARES, 2005, p. 5).

A conduta e o mundo policial contextualizam cenários com intensas implicações pessoais nos sujeitos abordados e altíssimas repercussões em seus participantes (CABREÑZO, 1994). Um policial com equilíbrio em suas atividades laborais é capaz de medir constantemente a congruência de suas ações entre o ideal e o real; analisar as oportunidades que sejam possíveis formular e resolver; além de serem suficientemente atentos às proporcionalidades de suas reações atuais.  Para tal, a psicologia deve investir de forma interventiva na preparação e orientação desses sujeitos que fazem e sentem os impactos de serem os primeiros a agirem baseados na manutenção de uma Lei instituída, zelando pelo cumprimento desta e respeitando a cidadania.

Em levantamentos bibliográficos observamos diversas esferas que acometem a instituição militar, o policial e, consequentemente, a sociedade. Relatos de assédio moral, distúrbios psicológicos e psiquiátricos, manifestações de doenças psicossomáticas, absenteísmo, dependência de drogas e álcool, truculência policial, envolvimento com sociedades do crime, formação de quadrilhas, corrupção institucional, tortura, intimidações, vinganças, mortes extrajudiciais sob custódia, desaparecimento, detenções violentas, entre outras situações (CARUSO, 2008; RATTON & BARROS, 2007).

Nota-se a importância do olhar e da ação do papel do psicólogo nesse ambiente em prol de princípios que sirvam como mediadores para o enfrentamento psicossocial decorrente das citadas problemáticas presente na polícia, no policial e na sociedade.

Atualmente não há meios de avaliação para diagnóstico real dessas situações-problemas, assim, ocasiona a falta de consistência de ação para uma resolutiva eficaz, além de prejudicar a construção de novos planos, avaliações e monitoramento dessas ações desmedidas; o que só faz aumentar o fosso abissal entre a imagem policial e a sociedade civil (SAPORI, 2007).

A percepção dos policiais sobre os Direitos Humanos e a Lei em geral brasileira é compreendida como motivo de impedimento de cumprimento do dever policial e segurança nacional, sentem-se desamparados e não identificam-se mais com a sociedade civil, assumem uma identidade organizacional (SAPORI, 2007). Trabalhar como policial é colocar em evidência constante dimensões afetivas, cognitivas e sociais, devido à má preparação, essas funções tornam-se equivocadas em sua maioria, sem o reconhecimento e fator crítico de suas implicações no dia-a-dia com os cidadãos (CABREÑZO, 1994).

Segundo Ratton (2007), o policial é o sujeito que lida permanentemente com a situação de perigo de vida, que exigem manutenção de uma autoridade como elemento capaz de afastar os riscos e pressões para demonstrar eficácia em suas ações.

A auto-imagem do policial é: “O herói que a sociedade não reconhece”. As suas ações são legitimadas pelas Academias de Polícia e os policiais permanecem acreditando que fazem Justiça não realizada por outras instituições sociais.

O trabalho policial requer, em suas atividades cotidianas, o uso da cognição social, ou seja, constantemente o policial utiliza de seus recursos pautados nos esquemas de classe de pessoas, estereótipos diversos e atribuições situacionais e/ou disposicionais (ATKINSON et. al. 2002; GOFFMAN, 1988).

A forma como as pessoas se vestem, se marcam, andam, expressam-se, de onde são, de que raça, de que classe social, de que tipo religioso, de que tipos de orientação sexual, são esses os elementos observados pelos policiais, detectados correlativamente e inferindo níveis de criminalidade (CARUSO, 2008; COTTA, 2009; DELUCHEY, 2011). Muitas vezes apoiados por questões sociais como alerta Edmundo Campos Coelho (1986), e devido a erros sistemáticos ao fazer juízos sociais decorrentes das Teorias Intuitivas do Comportamento humano e dos Erros Fundamentais de Atribuições (NISBETT & ROSS, 1980; ROSS, 1977).

A identidade do policial é pautada na Identidade Coletiva do que pensam ser Policial, desenvolvem, assim, regras, costumes e julgamentos morais. Baseiam sua relação de forma dual, atuam em prol da sociedade civil e em detrimento da população criminosa (SKOLNICK, 1993).

Para tal, o policial assume também elementos comportamentais para ser reconhecido através de uma economia cognitiva pelos pares e pela sociedade. A forma de abordar as pessoas transmite os meios necessários de coerção e tornam claramente visíveis sobre aqueles que se aplicam a autoridade (DELUCHEY, 2011).

A violência policial, em geral, ocorre em momentos que há uma desindividuação de todos os valores subjetivos dos policiais. O alto nível excitatório dos momentos de crise e o foco em acontecimentos externos, além da estreita unidade grupal entre policiais, acarreta uma diminuição nos níveis da autoconsciência, assim ocorre a desindividuação e, consequentemente, ocorre o enfraquecimento das restrições ao comportamento impulsivo, monitoramento e regularização dessa ação e, finalmente, menor capacidade de planejamento racional (ATKINSON et. al. 2002; GOFFMAN, 2003).

O mal na sociedade é visto de forma diversa pelos policiais, conduzindo discursos e práticas diferenciadas para cada cidadão, sempre com a intenção primordial de tornassem capazes de regulá-los e extirpá-los (BIRMAN, 2009).  Como querem ser vistos: Como oficiais competentes, qualificados, obedientes e éticos.

Mas quem é essa população criminosa?

4. Polícia e Sociedade

Há no Brasil diversos modos e processos de subjetivação segundo Luiz Cláudio Figueiredo (1995), que orienta o comportamento dos brasileiros em seu contato social, o que justifica formas coletivas e hierárquicas. Os indivíduos, enquanto seres de fala e ações figura como sujeitos determinados socialmente, assumindo o que o autor denomina de identidades posicionais.

É nesse quadro social estratificado e hierarquizado que os policiais orientam suas formas de agir diante dessa sociedade. A compreendida “população criminosa”, sem direito a defesa, em sua maior parte, é constituída pelos estigmatizados socialmente. Mesmo sendo também a origem social de alguns desses policiais, afastam-se de um entendimento cidadão para uma suposta postura institucional que preza uma racionalização advinda de dados estatísticos e midiáticos (COELHO, 2005; MISSE, 2006; ZALUAR, 1998).

Assim, a abordagem policial para aqueles denominados de meros indivíduos, é diferente para aqueles que assumem uma posição de Pessoa (FIGUEIREDO, 1995). Os meros indivíduos configuram todos aqueles anônimos da massa social, que sofrem com a truculência e o desrespeito aos Direitos Humanos básicos para a sobrevivência, cabem, ainda, a observação de que essas atitudes frente ao lugar ocupado pelo indivíduo são comuns, principalmente, nas instituições públicas brasileiras, e não é diferente com o setor da segurança pública.

O comportamento policial numa comunidade marcada pela miséria, falta de condições mínimas de existência digna e povoada por indivíduos sem formação escolar, não possuem seus direitos garantidos na forma de tratamento entre cidadão e policial. Algo totalmente diferente ocorre quando a situação contextual se inverte; numa comunidade de classe média alta e de pessoas instruídas escolarmente, a abordagem policial é pautada no diálogo e na orientação dos direitos e deveres do cidadão, esses ocupam a posição social de Pessoa (FIGUEIREDO, 1995).

O cidadão que seja pobre, negro e/ou homossexual é apenas concebido com o famoso jargão policial: “elemento”. Suas relações culturais, seus nomes e suas histórias são negados, desprotegidos e marcados pelo anonimato. Assim, muitos gozam de certas imunidades e impunidades.

[...] Os que mais padecem enquanto vítimas da violência difusa e privatizada são também os mais apontados como seus agentes. A pobreza é o determinante, ora da vitimização, ora da ação violenta. Para isso tem contribuído a própria ideia de causalidade, repetidamente usada tanto pelos jornalistas quanto por acadêmicos. (ZALUAR, 1998. p. 252).

Edmundo Campos Coelho já alertava para essa imagem de “população criminosa” compreendida pelos agentes de segurança pública, os que estão em situação de desemprego, subemprego ou pobreza. E lança questões como: “Por que um mesmo comportamento pode ser uma infração quando cometido por certa classe social de pessoas, mas não quando é cometido por indivíduos de outras classes?” (COELHO, 1986. p.280).

Os dados estatísticos referentes a essa possível causalidade pobreza-criminalidade ainda é criticada e reavaliada por um estudo histórico de Edmundo Campos Coelho intitulado “A administração da Justiça Criminal no Rio de Janeiro: 1942-1967” (COELHO, 1986).

Devemos compreender, ainda, o impacto que esses preconceitos, pesquisas de cunho casuístico e do papel da mídia na formação subjetiva dos policiais e da sociedade em geral. Os policiais passam a adotar essa falácia ecológica e inferem, em suas práticas cotidianas, as propriedades do fenômeno aos indivíduos que o compõem. (COELHO, 1978). Já os jovens que cometem atos violentos, a fama de matador, mediada pela mídia, é comemorada como a conquista da glória, como Alba Zaluar (1998) diz: “a saída da obscuridade pessoal” ou então como Figueiredo (1995) menciona em relação à mudança de posição de identidade, nesse momento, esse jovem saí do poço invisível do mero indivíduo e assume a posição de destaque de Pessoa, ou mais ainda, de Sujeito, mesmo que para isso, precise do olhar de medo do outro.

O papel da mídia é ambivalente, permite o acesso à informação de forma rápida e democrática, porém distorcem a informação e confunde muito mais do que pretendem esclarecer. Torna a sociedade um palco de terror, marca em suas telas a imagem do perigo, tornam-se mercadorias o sangue e o desespero das mães dos jovens mortos de nossa sociedade brasileira (MISSE, 2006; ZALUAR, 1998).

Devido a esses elementos, podemos perceber alguns indícios para um entendimento do medo que a população pobre tem da viatura militar, do policial que olha, não existe mais o guarda de esquina que protege e reconhece os moradores da comunidade, não há mais os distritos, hoje, quando mais distante o policial estiver, melhor. Os sujeitos reconhecem estigmas que carregam e tentam se proteger de forma somática, já que não possuem voz diante de um sistema que ultrapassa a Segurança Pública.

Teorias apontam esta relação entre Polícia e Sociedade unipolar, a polícia é vista como o cão de guarda das classes dominantes, essas que querem ver afastada de seu convívio social, a imagem da pobreza, contrariando toda a realidade brasileira, um país de contrastes proeminentes, onde a desigualdade social é um fenômeno comum em todo território nacional (RATTON & BARROS, 2007).

A orientação que a polícia deve ter e passar a todos são: não possuir uma postura de favorecimento a alguma classe dominante contra uma minoria social e, principalmente, respeito aos Direitos Humanos, desenvolvendo um trabalho psicossocial pautado na escuta, intervenção e empatia.

Em uma pesquisa realizada no estado do Pará, 56,4% do total de policiais entrevistados afirmaram que existe um sentimento de desconfiança entre eles e a população. Algo preocupante, pois representa uma parcela grande dos policiais entrevistados que não confiam na sociedade e percebe o ambiente como hostil, favorecendo manifestações estressantes para esses sujeitos, suscetíveis a problemas de abuso de autoridade por parte dos agentes de segurança pública (DELUCHEY, 2011).

Nesta mesma pesquisa, Deluchey (2011), alerta para um dado que chama a atenção, 66,4% da população paraense nunca conversaram com um policial em serviço, sendo esse dado elevado para 69,2% na Região Metropolitana de Belém.

É papel fundamental do psicólogo no âmbito policial desenvolver intervenções para diminuir as sinistras associações e economias cognitivas realizadas mediante preconceitos e violações da dignidade humana. A polícia não pode ser instituída para uma suposta proteção de uma classe específica da nação.

O combate à criminalidade é fundamental para a manutenção saudável de uma sociedade, no entanto não pode ultrapassar os limites da sua própria Lei, além de constituir uma atribuição do Estado o oferecimento de uma preparação de qualidade de vida aos agentes de segurança pública.

É elementar o policial ter instituído em sua prática e na sua própria constituição psicossocial a importância dos Direitos Humanos e não vê-los como impedimentos para o efetivo desempenho de suas atividades. Representam, na primeira linha de ação, a segurança pública e manutenção da ordem, representantes do Estado, logo não podem tornassem os próprios violadores dessas Leis asseguradas por esse Estado Constitucional.

Em resumo, o mundo do policial, civil ou militar, é cercado de situações estressantes, riscos eminentes e bombardeado por um cenário de violência, absorvendo, invariavelmente, consequências físicas e emocionais. O policial não pode tornar-se um androide, um ser sem carne e sem alma, imune ao contato sociocultural em que convive.

5. Considerações Finais

Nota-se a importância de uma reforma policial nos seus conceitos e valores, porém os saberes que contribuem para essa mudança também precisam passar por reorganizações. A Psicologia, neste século que inicia-se, contribuíra bastante para o progresso dessa relação entre Polícia e Sociedade, sem esquecer nenhum sujeito, seja ele o policial que trabalha eticamente, o policial que atua corruptamente e o cidadão que recebe os espectros da forma de organização dessa instituição policial.

A polícia precisa compreender a sociedade com os olhares de um cidadão comum, não revestido de uma figura de autoridade e de um poder emanada das patentes militares, pois desconfia-se do que se desconhece. Não é apenas a mudança do olhar do cidadão para a polícia que deve ser modificada, mas a do policial para o cidadão também.

A Psicologia precisa ainda de grandes avanços em material científico nesta área, para a construção deste ensaio foi preciso recorrer, principalmente, as obras sociológicas, devido à escassez de estudos psicológicos referentes a esta temática. Se há sujeitos, há Psicologia, logo não pode-se desprezar um tema de tamanha importância para o nosso país diante do cenário atual.

Com os conhecimentos produzidos, a partir de estudos psicológicos, a prática do psicólogo na carreira militar tornar-se-á substancialmente mais sofisticada e capaz de atender eticamente os sujeitos que passarão por seus serviços.

Que a psicologia torne-se capaz de orientar esses policiais para aumentarem seus níveis de autocontrole de impulsos e emoções nos momentos de suas atividades laborais, com efeito direto sobre a sociedade e sobre o bem-estar físico e emocional desses sujeitos.

Desenvolver o sentido crítico por parte desses policiais, ou seja, que a instituição permita uma maior autonomia de expressividade desses sujeitos atuantes.  Evoluindo, assim, as relações grupais e cooperativas para uma verdadeira integração grupal e aumento da capacidade de empatia e manejo de relações interpessoais.

Segurança subjetiva pessoal, sentido de autoridade, resistência à frustração, objetividade, iniciativa, cooperação com a sociedade, são esses os elementos que a instituição policial deve oferecer aos seus membros nas suas práticas cotidianas de contato com o social, essas são as variáveis para uma Polícia Comunitária efetiva. Finalizo o estudo com a percepção que a psicologia irá contribuir muito mais em um futuro não muito distante na evolução desse sistema de segurança pública de nossa nação brasileira.

Sobre o Autor:

Edilson Feliciano da Silva - Graduando em Psicologia, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Referências:

ATKINSON, R. L.; ATKINSON, R.C.; SMITH, E. E.; BEM, D. J.; NOLEN-HOEKSEMA, S. (Org.) Introdução à Psicologia de Hilgard. 13ª ed. Artmed, 2002.

AZEVEDO, Erika Ferreira. O soldado policial militar e suas polícias: sua clientela e sua hierarquia. Universidade de São Paulo: Instituto de Psicologia. São Paulo, 2012.

BIRMAN, Joel. Cadernos sobre o mal: Agressividade, Violência e Crueldade. Editora Civilização Brasileira – Rio de janeiro: Record, 2009.

CABREÑZO, Marcelino Yagüe. Psicología Policial. Papeles del Psicólogo. Novembro, nº 60, 1994.

CARUSO, Haydée; MUNIZ, Jacqueline; BLANCO, Antônio Carlos Carballo. (Org.). Polícia, Estado e Sociedade: Práticas e Saberes Latino-americanos. Editora Publit. 2008.

COELHO, Edmundo Campos. A Oficina do Diabo e Outros Estudos sobre criminalidade. Editora Record. 2005.

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL – Capítulo III, Art. 144, § 4º e § 5º. 1988. In: ANGHER, Anne Joyce (org.). Vade Mecum: acadêmico de Direito. 12ª ed. – São Paulo: Rideel, 2011. 

COTTA, Francis Albert. Olhares sobre a Polícia no Brasil: A construção da Ordem Imperial numa sociedade mestiça. Revista de História e Estudos Culturais. Vol. 6. Ano VI, nº 2. Abril/maio/junho de 2009.

DELUCHEY, Jean-François Yves. A polícia e seus usuários: as raízes da desconfiança. XXVIII CONGRESSO INTERNACIONAL DA ALAS. setembro de 2011.

FARIA, D. G. R. O profissional de Segurança Pública – papel social e identidade profissional. Tese (Doutorado) – Instituto de Psicologia: Universidade de São Paulo, 2006.

FIGUEIREDO, Luis Cláudio. Modos de Subjetivação no Brasil e outros escritos. Editora Escuta / EDUC. São Paulo, 1995.

FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. Leituras Filosóficas. Editora Loyola. 14ª ed. 2005.

_____. Vigiar e Punir. História da violência nas prisões. Editora Vozes. 39ª ed. 2011.

GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Editora LTC. 4ª ed. 1988.

_____. Manicômios, Prisões e Conventos. Coleção Debates. Editora Perspectiva, 2003.

GUIMARÃES, Alberto Passos. As Classes Perigosas. Banditismo urbano e rural. 1ª e. – UFRJ Editora, 2008.

MISSE, Michel. Crime e Violência no Brasil Contemporâneo: Estudos de Sociologia do Crime e da Violência Urbana. Editora Lumen Juris – Rio de Janeiro, 2006.

RATTON, José Luiz. Aspectos Organizacionais e culturais da Violência Policial. In: RATTON, José Luiz; BARROS, Marcelo. (Org.). Polícia, Democracia e Sociedade. Editora Lumen Juris. Rio de Janeiro, 2007.

SAPORI, Luís Flávio. Os Desafios da Polícia Brasileira na Implementação da “Ordem sob a Lei”. In: RATTON, José Luiz; BARROS, Marcelo. (Org.). Polícia, Democracia e Sociedade. Editora Lumen Juris. Rio de Janeiro, 2007.

SKOLNICK, J. Fyfe, J Above the Law: Police and the excessive Use of Force. New York: The Free Press. 1993.

SOARES, Luiz Eduardo. Pressupostos, razões e condições para uma reforma das polícias brasileiras.2005. In: RATTON, José Luiz; BARROS, Marcelo. (Org.). Polícia, Democracia e Sociedade. Editora Lumen Juris. Rio de Janeiro, 2007.

ZALUAR, Alba. Para não dizer que não falei de Samba: Os enigmas da violência no Brasil. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz. História da vida privada no Brasil – vol.4. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1998.

Informar um Erro Publique Seu Artigo