O Dia-a-Dia de Quem Limpa a Sujeira da Sociedade: Orgulho ou Vergonha?

O Dia-a-Dia de Quem Limpa a Sujeira da Sociedade: Orgulho ou Vergonha?
(Tempo de leitura: 3 - 5 minutos)

1. Introdução

Trabalho realizado em empresa de coleta de resíduos numa cidade de porte médio no norte do Rio Grande do Sul.  Realizado no período de março a junho de 2012. Acompanhamos o dia-a-dia dos garis, que vivem invisíveis perante a sociedade, e embora tenham um trabalho honesto e digno, passam despercebidos, como se fossem apenas sombras, pessoas excluídas e invisíveis, eles que nos prestam um inestimável serviço e que são imprescindíveis para a limpeza e conservação dos espaços públicos, como ruas, praças, etc.

Os objetivos de nosso trabalho foram: conhecer e compreender a dinâmica das relações de trabalho que se estabelecem com os garis; estrutura e funcionamento de uma empresa de limpeza urbana; funcionamento e rotina de atividades desses trabalhadores; relações de trabalho entre os garis e a empresa, e a sociedade e entre eles mesmos; percepção que tem em relação a atividade que exerce e como o trabalho é constitutivo de sua subjetividade; dificuldades e facilidades dessa profissão.

2. Metodologia

A primeira visita foi realizada à CODEPAS (Companhia de Desenvolvimento de Passo Fundo), órgão da administração indireta do Governo Municipal.

Depois foram feitas visitas a empresa Via Norte, em seu centro administrativo e no escritório no bairro S. C., onde os garis e motoristas se encontram para registrarem seu ponto e também de onde partem os caminhões que fazem a coleta de lixo na cidade de Passo Fundo/RS.

Foi elaborado questionário para equipe de garis e motorista do caminhão do lixo que acompanhamos, sendo este estruturado e aberto.

E outro questionário para os servidores da administração da empresa Via Norte que trabalham diretamente com os garis, sendo também estruturado e aberto.

Também acompanhamos turnos de trabalho desses profissionais da limpeza urbana, sendo algumas na cabine do caminhão do lixo e outras num carro seguindo o caminhão.

E para este trabalho os entrevistados não foram identificados por nome ou outra referência, tendo permanecido em total anonimato.

3. Resultados e Discussão

Os garis coletam o lixo em 20 setores urbanos e 11 rurais tendo entre 40 e 70 km/cada, recolhendo entre 120 e 200 toneladas de lixo/dia, e a equipe do caminhão é sempre a mesma, cinco funcionários, sendo um motorista e quatro garis.

Os garis não se sentem valorizados, sentem-se menosprezados, excluídos e marginalizados, não só pela população economicamente mais abastada, mas também pela população pobre. Dejours apud Viana (2011), na perspectiva da psicodinâmica do trabalho, considera que prazer-sofrimento inscreve-se numa relação subjetiva da pessoa com seu trabalho e sendo o trabalho uma forma de descarga psíquica então o impasse psíquico gerado na vivência do trabalho definirá se a experiência vivida será de sofrimento ou de prazer. Portanto, dependendo do seu contexto, trabalho pode ser fonte de patologias, de adoecimentos ou de saúde e estará sempre associado ao binômio prazer-sofrimento. E em qualquer situação de trabalho, serão atribuídas novas significações as relações entre organização do trabalho e processo de subjetivação (MENDES apud VIANA, 2011).

No vídeo “Os donos da vassoura” (2012), os garis falam que o uniforme é sinônimo de discriminação. E o produtor da reportagem que se vestiu de gari e passou um dia trabalhando junto a esses profissionais relata: “quando veste o uniforme de gari você some” e completa: “eu estava invisível”. Um trabalhador exercendo função não especializada geralmente usa uniforme, e a sociedade de consumo a reconhece nenhum valor neste uniforme, e ainda menos no seu usuário – seja ele gari, lixeiro, faxineira, segurança, cobrador de ônibus, operadora de caixa de supermercado.

Todos os garis, assim como o motorista disseram que o cheiro não incomoda, que eles já estão acostumados. De acordo com Morval (2007), as pessoas se acostumam com a poluição, e parecem habituar-se a ela, tornam-se mais resistentes, notando menos a poluição, isso os afeta menos e convivem sem ter a esperança de modificar esse ambiente.

4. Considerações Finais

Somos desatenciosos com esses laboriosos e silenciosos trabalhadores, as relações deles com a sociedade são conflituosas, assim como entre os próprios colegas, o que nos faz pensar sobre as condições psíquicas que esses homens vivem.

E concluímos que aquele que discrimina é o mesmo que não vive sem o gari, ou seja, toda população.

Sobre os Autores:

Flávia M. Pereira Albuquerque - acadêmica do curso de Psicologia pela Universidade de Passo Fundo/RS

Dábilah Vieira Zatti - acadêmica do curso de Psicologia pela Universidade de Passo Fundo/RS

Maiara Nobre - acadêmica do curso de Psicologia pela Universidade de Passo Fundo/RS

Patrícia Regina Celso - acadêmica do curso de Psicologia pela Universidade de Passo Fundo/RS

Referências:

MORVAL, Jean. Psicologia Ambiental. Lisboa: Instituto Piaget, 2007.

OS DONOS DA VASSOURA. Direção: Marcelo Parada. Redação: Cilene Frias. Conexão Repórter. Reportagem exibida dia 19.abr.2012. SBT. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=6nIUKELYqQE> Acessado em: 10.Mai.2012.

VIANA, E. A. S.; Machado, M. N. M. (2011). Sentido do trabalho no discurso dos trabalhadores de uma ONG em Belo Horizonte. Psicologia e Sociedade, 23(1), 46-55.

Informar um Erro Publique Seu Artigo