O Processo de Institucionalização sob a Perspectiva do Idoso

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Resumo: O envelhecimento populacional é um fator em grande crescimento em nossa sociedade. O aumento de idosos no país implica também no aumento de serviços prestados para esta população, assim como de profissionais especializados e capacitados para atendê-los. Atualmente, existem diversos lugares que recebem idosos, principalmente Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI´s), Ancionatos, Centros de Convivência entre outros, sendo relevante conhecer a qualidade de vida propiciada nestas instituições e dar voz aos idosos que nelas passam a viver. Diante disto, esta pesquisa teve como objetivo identificar qual o ponto de vista do idoso em relação à institucionalização, contemplando quais são os principais fatores para institucionalização de idosos na cidade de Joinville (SC), traçando dados estatísticos referentes à quantidade e perfil de idosos que residem na cidade de Joinville e qual sua perspectiva de vida, bem como o perfil dos idosos institucionalizados. De acordo com os dados levantados mediante a execução desta pesquisa, pôde-se perceber que a maioria dos idosos entrevistados sentem-se felizes em relação à institucionalização, muitos destes conversaram com seus familiares para que a institucionalização ocorresse, em sua maioria os mesmos decidiram por conta própria serem institucionalizados. No entanto, foi observado que alguns destes se sentem infelizes ou insatisfeitos em relação ao fato de não estarem residindo junto com seus familiares.

Palavras-chave: ILPI´s, Idosos, Institucionalização de idosos, Sentimento.

1. Introdução

O aumento da população de idosos e instituições voltadas para os cuidados dos mesmos é um assunto de suma importância para a Psicologia, haja vista que esta é uma das áreas mais necessitadas de profissionais especializados para atuar no processo de institucionalização de idosos.

Estima-se que em 2020, 1 em cada 13 brasileiros terão 65 anos ou mais, e em 2025 o Brasil será o sexto país no ranking mundial com o maior número de idosos, atingindo 30 milhões de pessoas com mais de 60 anos. Portanto é fundamental que exista uma preocupação com os fatores que levam a inserção dos mesmos em ILPIs, e o ponto de vista do próprio idoso em relação à institucionalização, a fim de identificar e promover a sua qualidade de vida (OLIVEIRA, VAGETTI, WEINHEIMMER, 2007).

Com o grande crescimento da população de idosos na sociedade moderna, surgiu a necessidade da criação de mais instituições e asilos para que essas pessoas pudessem permanecer, recebendo o auxílio de profissionais especializados. Esta prática tem a finalidade de promover a qualidade de vida dos idosos. Em meio a este contexto, serão abordados adiante, os fatores e influências familiares que interferem na institucionalização destes, e o ponto de vista do idoso em relação à institucionalização.

2. Fundamentação Teórica

2.1 Envelhecimento

A população brasileira esta cada vez mais longeva, porem este fator não pode justificar que uma maior expectativa de vida consiste em viver melhor. Portanto, é importante garantir uma melhor qualidade de vida das pessoas, pois longevidade não implica em qualidade de vida.

Inúmeros fatores estão envolvidos neste processo como, por exemplo, a descoberta de antibióticos, a criação de unidades de terapia intensiva, as vacinas, o avanço da tecnologia e da medicina e o conceito da mudança de estilo de vida são determinantes para uma notável mudança no perfil demográfico populacional (FREITAS, 2004).

A composição de uma faixa etária de uma população é influenciada pela relação fecundidade – mortalidade. Isso significa que o aumento da expectativa de vida não é o único fator que determina o grande aumento no número de idosos no Brasil. Para uma população se tornar envelhecida, não somente o número de idosos tem de aumentar como o número de jovens deve reduzir (FREITAS, 2004).

Outro fator que também influencia neste índice é a redução da morbidez e da mortalidade, devido aos avanços tecnológicos da medicina em relação ao controle das patologias que antes eram considerados letais, através da prevenção e a grande gama de esclarecimentos, quanto à saúde são alguns fatores determinantes para que ocorra aumento significativo no índice de idosos na sociedade (ZIMERMAN, 2000).

Há uma projeção de que em 2025, o Brasil será o sexto pais no ranking mundial com o maior número de idosos, atingindo 30 milhões de pessoas com mais de 60 anos (OLIVEIRA, VAGETTI, WEINHEIMMER, 2007) e estima-se que em 2020, 1 em cada 13 brasileiros terão 65 anos ou mais.

Existem inúmeras definições do processo de envelhecimento, entretanto Neri (2001) conceitua este processo como:

Uma sequência de mudanças naturais previsíveis com repercussões orgânicas e psicossociais que ocorrem através do tempo. Entretanto, essa experiência se da de forma heterogênea, já que pode ocorrer de modo diferente para indivíduos que vivem em contextos históricos, sociais e culturais distintos  (p.28).

Para Netto (2002) o processo de envelhecimento começa a acontecer desde o momento da concepção de vida, findando-se somente com a morte. Em meio a este processo, é possível observar as fases de desenvolvimento, que do ponto de vista biológico podem ser considerados como marcadores biofisiológicos do envelhecimento como puberdade e velhice.

O envelhecimento é considerado como um processo biológico, psicológico e social, segundo Hahne (2006, p. 107) é um processo contínuo e começa a ser percebido:

Funcionalmente quando começa a depender de outros para o cumprimento de necessidades básicas, considerando as limitações físicas ou mentais que podem ocorrer na velhice economicamente ao deixar o mercado de trabalho através da aposentadoria, cronologicamente depende do desenvolvimento socioeconômico de cada sociedade de medidas de prevenção à saúde e de boas condições para viver.

Este processo envolve dimensões psicológicas que são influenciadas por fatores que contribuem para a percepção de questões subjetivas que, posteriormente, irão determinar o enfrentamento da velhice  e  a  qualidade  de  vida.  O envelhecimento é  marcado  por particularidades de cada indivíduo tornando-se imprescindível levar em consideração a capacidade de manutenção funcional ou disfuncional de cada idoso para realizar suas atividades cotidianas, considerando que a maneira de enfrentar o processo desencadeado pelo envelhecimento contribui para a qualidade de vida na velhice (MORAES, 1999).

Durante esta fase da vida é comum o aparecimento de doenças mentais, isto devido às crises biopsicossociais que os mesmos podem enfrentar como, por exemplo, sensações de perda, sentimento de inferioridade e depressão (BRINK, 1983). Freire (2000) acrescenta que os sujeitos envelhecem de forma diferente, dependendo das circunstâncias históricas em que viveram, da forma como organizaram suas vidas e da interação entre fatores ambientais e genéticos.

Como se pode perceber, velhice e envelhecimento são processos vividos e percebidos diferentemente em cada sociedade, grupo e geração, conforme suas particularidades culturais, sociais e econômicas, particularidades estas que permitem aos indivíduos de um grupo interpretar a própria experiência e guiar suas ações (MAIA, 2010, p. 29).

Hamilton (2002) descreve alguns fatores que contribuem para o desenvolvimento de conflitos e crises comuns, durante esta fase de vida, como viuvez, morte de amigos e parentes e dificuldades financeiras (aposentadoria).

Zimerman (2000, p. 25) afirma:

As pessoas mais saudáveis e mais otimistas têm condições de se adaptarem as transformações trazidas pelo envelhecimento. Elas estão mais propensas a verem a velhice como um tempo de experiências acumulados, de maturidade, de liberdade para assumir novas ocupações e ate mesmo de liberação de certas responsabilidades.

Em meio a muitos fatores, como citados até aqui, muitos familiares optam pela institucionalização do idoso, ou seja, a internação em um ancionato ou centro de convivência da terceira idade. Muitas vezes os próprios idosos preferem ser internados em ancionatos pelo fato de estarem em companhia de pessoas que compartilhem da mesma faixa etária.

2.2 Institucionalização

De acordo com Freitas e Mincato (2007) os asilos (ancionatos) são o meio mais antigo e universal de assistência ao idoso fora do convívio familiar.  A institucionalização de idosos surgiu ao longo do século XIX inicialmente para atender demandas de idosos pobres sem família, ou com doenças mentais, que eram caracterizados como entidades de caráter assistencialista e de caridade.

Segundo Espitia e Martins (2006) existem diversos fatores, culturais, sociais, psicológicos e biológicos, para uma família optar pela institucionalização de seu idoso dentre eles estão: pobreza, conflitos intergeracionais, ausência de familiares ao longo do dia devido a saída para o mercado de trabalho e o aparecimento de patologias, que podem gerar certo grau de dependência. Muitas vezes a falta de espaço para os idosos na casa dos filhos e os problemas financeiros são oriundos da necessidade de um cuidado relativo à saúde do idoso.

Os idosos, às vezes, são institucionalizados como uma alternativa para situações de saúde, como estágios terminais de doenças, ausência temporária do cuidador, necessidade de reabilitação e níveis de dependências muito elevados (CHAIMOVICK e GRECO, 1999) sendo que o idoso dependente é caracterizado como aquele que não consegue prover de forma autônoma de suas próprias necessidades (FREITAS, 2004).

O perfil do idoso institucionalizado é caracterizado por aspectos como nível de sedentarismo, carência afetiva, perda de autonomia devido às incapacidades físicas e mentais, falta de familiares para ajuda no cuidado e falta de suporte financeiro, fatores estes que podem refletir na incidência de limitações e conformidades assim como na independência e autonomia do idoso (MAGESKY, MODESTO, TORRES, 2009).

Segundo Freitas (2006) alterações familiares distanciam idosos de seus entes, estes fatores são primordiais para um grande aumento da incidência de idosos em instituições. A institucionalização do idoso deve ser feita em últimos casos, deve ser o último recurso a ser utilizado pela família (OLIVERA, VAGETTI, WEINHEIMMER, 2007) o conforto do seio familiar é sempre o mais indicado para o idoso devido às limitações derivadas de sua faixa etária.

No entanto, Pavarini (1996) pontua que nem sempre morar com a família é uma garantia de uma velhice bem sucedida, pois devido às ocupações que os demais familiares têm em seu dia-a-dia às vezes impossibilita que eles proporcionem a devida atenção e cuidados que o idoso necessita. De acordo com Assis e Pollo (2008) o seio familiar é às vezes um local com situações precárias o que acaba comprometendo o bem estar e a vida do idoso.

Guidetti e Pereira (2008) escrevem que a institucionalização para o idoso é como um espaço de privação dos seus projetos, pois este ocasiona um afastamento de sua família, casa, amigos, parentes, bem como das relações que construiu ao longo de sua vida.

Em geral, a institucionalização se caracteriza por perda de liberdade, abandono dos filhos, aproximação da morte e um aumento dos níveis de ansiedade devido aos tratamentos de saúde que ocorrem dentro da instituição (BORN, 1996).

Segundo dados do IBGE (2010) existem em Joinville (SC) aproximadamente 48 mil idosos, a expectativa de vida, segundo pesquisas é de 78,2 anos. De acordo com o Conselho Municipal dos Direitos do Idoso (COMDI) o total de ILPI´s nesta cidade é de 25 (vinte e cinco) e 3 (três) ONG – Organização Não Governamental , portanto sem fins lucrativos e 22 (vinte e duas) Empresas (comércio), com fins lucrativos. Aproximadamente 700 idosos se encontram em ILPI´s.

3. Metodologia

O desenvolvimento desta pesquisa teve por objetivo identificar qual o ponto de vista do idoso em relação à institucionalização, adotando os seguintes procedimentos metodológicos:

O tipo de investigação desta pesquisa caracteriza-se como uma pesquisa de campo “exigindo que o pesquisador se dirija a um contexto e, através de observação, entrevistas, e questionários, encontre uma resposta para ele” (JOHANN, 2002, p.61).

Na presente pesquisa utilizou-se como técnica para coleta de dados uma entrevista semiestruturada com 10 (dez) perguntas abertas, aplicadas à 30 (trinta) idosos de 2 (duas) Instituições de Longa Permanência para Idosos na cidade de Joinville.

Inicialmente foi feito contato telefônico, para garantir a viabilidade de execução do projeto com os administradores das ILPI´s, para agendamento de uma visita para apresentação da proposta de pesquisa e assinatura do termo de co-participação das Instituições. Após esta etapa, foi marcada a data para coleta de dados, sendo que os  acadêmicos pesquisadores fizeram o convite aos idosos das ILPI´s para participarem da entrevista. Para tanto foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e depois de esclarecidos todos os itens deste documento e assinado, foi feita a entrevista com cada um deles.

Cabe ressaltar que as entrevistas foram realizadas individualmente com os idosos, e foi esclarecido com os mesmos a não obrigatoriedade de responder perguntas que lhe causassem constrangimento. As entrevistas seriam gravadas e transcritas, porém por opção das Instituições, decidiu-se por não gravá-las, mantendo assim a privacidade dos idosos. A análise e interpretação dos dados foram tratados de forma descritiva e qualitativa.

Este projeto foi encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade da Região de Joinville - Univille, sob o número 715.659, e recebeu parecer favorável ao seu desenvolvimento.

4. Apresentação e Discussão de Dados

Abaixo segue a tabela com os principais resultados em relação à população pesquisada levando em consideração aspectos como: sexo, idade, e escolha por institucionalização.

 

Tabela 1. Perfil de Idosos Institucionalizados em 2 ILPs de Joinville - 2014

 

Instituição 1

Instituição 2

Total

Total

 

%

%

%

Sexo

 

 

 

 

 

 

Masculino

3

27

3

27

6

27

Feminino

8

73

8

73

16

73

Idade (Média =  80  anos)

 

 

 

 

 

 

61 a 69

1

9

2

18

3

13,5

70 a 90

8

73

9

82

17

77,5

Acima de 90

2

18

0

0

2

9

Escolha por Institucionalização

 

 

 

 

 

 

Escolha própria

7

63,5

6

54,5

13

59

Escolha familiar

1

9

4

36,5

5

23

Escolha própria e familiar

3

27,5

1

9

4

18

Dentre os idosos das ILPI´s que constituíram o campo de pesquisa, 150 (cento e cinquenta) idosos atendiam ao critério de inclusão deste estudo, 90 (noventa) da Instituição 1, e 60 (sessenta) da Instituição 2. Porém de acordo com o critério de exclusão, 54 (cinquenta   e quatro) idosos foram eliminados, 30 (trinta) da Instituição 1 e 24 (vinte e quatro) da Instituição 2. Dos 96 (noventa e seis) idosos restantes foram convidados 30 (trinta), destes, 8 (oito) não quiseram participar da pesquisa. A população então foi composta por 22 (vinte e dois) idosos, 6 (seis) homens (27%) e 16 (dezesseis) mulheres (73%), com idade entre 61 (sessenta e um) e 95 (noventa e cinco) anos, o tempo de permanência nas instituições variam de 3 semanas a 14 anos. Em cada instituição foram entrevistados 11 (onze) idosos, em ambas as Instituições, participaram da pesquisa (três) homens e 8 (oito) mulheres.

Os dados encontrados no perfil da população pesquisada corroboram com estudos de Neri (2007) e Ferrari (2001) que em suas pesquisas identificaram que há um predomínio do sexo feminino nas Instituições. As mulheres em média vivem 5 anos a mais que o homens e consequentemente apresentam uma expectativa de vida mais elevada (GROSSI & SOUZA, 2003).

Segundo Camarano (1999) existem algumas hipóteses que podem ser levantadas para elucidar o fato de os homens morrerem mais cedo são elas: fatores de risco (fumo, consumo de gorduras saturadas, comportamento e ocupações de risco, maior competição  entre homens), diferenças sociais e estilos de vida, associados a explicações biológicas,  que incluem os efeitos protetores dos hormônios femininos e o ciclo menstrual, as diferenças de metabolismo, associadas às lipoproteínas, e também explicações de efeitos genéticos, e os processos reparadores de DNA.

Da população pesquisada 13 (treze) escolheram por conta própria serem institucionalizados, 5 (cinco) foram através de escolha determinada pela família e 4 (quatro) foram através de acordo entre ambos. Em relação à institucionalização 17  (dezessete) disseram que gostaram e se sentem bem em relação a isso e 5 (cinco) não gostaram e/ou não se sentem bem e tiveram que se adaptar. De acordo com Bastiani e Santos (2000) alguns idosos se sentem menos isolados quando estão institucionalizados, ficam mais alegres, pois são bem cuidados, possuem seus objetos próprios, alimentam-se adequadamente e possuem mais vínculos de amizade.

Dessa forma, algumas famílias escolhem as instituições de assistência a idosos, por considerarem que o idoso será melhor cuidado nesse local. Outras fazem da institucionalização uma transferência de cuidados, procurando isentar-se das responsabilidades. Por vezes, a opção por residir em uma instituição de longa permanência parte do próprio idoso, ou seja, do desejo da pessoa em procurar um local no qual encontre atenção, conforto e, especialmente, atendimento às suas necessidades básicas (SANTOS, 2013, p.14).

Quando indagados sobre o ponto de vista em relação à institucionalização:  18 (dezoito) avaliaram positivamente a institucionalização e 4 (quatro) avaliaram negativamente ou não souberam responder. Alguns dos pontos citados para justificar suas respostas foram: acomodação adequada, divertimentos (danças, rodas de conversa, cultos e  missas), medicação, cuidados médicos, amizades, etc. Um dos entrevistados enfatizou: “Tudo que oferecem aqui é bom, se eu estivesse lá fora já teria morrido” quando indagado sobre aspectos positivos e negativos em relação à institucionalização.

Esta discussão remete a questões mais profundas no que diz respeito aos cuidados com os idosos, embora as Políticas Públicas de atenção à pessoa idosa preconizem que o melhor lugar para idosos é o seio de sua família, estas não disponibilizam suporte para os familiares, no sentido de viabilizar a manutenção da pessoa idosa na família (PERLINI; LEITE; FURINI, 2007).

Em relação aos fatores que influenciaram na institucionalização da população pesquisada se destacam: saúde, segurança, viuvez, não ter onde morar, familiares que trabalham e não tem tempo de dar atenção ao seu idoso.

Conforme aponta Santos (2013):

Quando a família não possui condições para prestar cuidados ao idoso, opta pela institucionalização. Essa decisão, muitas vezes, objetiva proporcionar condições mais qualificadas do que a família pode oferecer no momento. A busca pelo asilamento ocorre também, pela manifestação de que nas situações de dependência relativa, o asilamento proporcionaria a garantia de que o cuidado se dará de forma efetiva e que possíveis alterações sejam precocemente identificadas e solucionadas (SANTOS, 2013).

Diante disto, a institucionalização do idoso se torna polêmica e complexa,  por envolver questões sociais, econômicas, políticas, psicoemocionais, de saúde, de cunho preconceituoso e moral. Atualmente pode – se perceber um aumento considerável de idosos institucionalizados, porém, a institucionalização dos idosos pode ocasionar diminuição na autonomia, perda de identidade, bem como fragilização de vínculos com familiares e amigos (TOMASINI; ALVES, 2007).

Em relação ao fator “tempo” as famílias em geral não dispõem de tempo suficiente para dar atenção ao seu idoso em função da dedicação ao trabalho. Os familiares necessitam do trabalho para o sustento da casa, em virtude disso o idoso muitas vezes fica em casa durante horas sozinho, em decorrência disto os familiares decidem institucionalizá-los, acreditando que desta forma os mesmos receberão cuidados adequados.

Outro fator também citado pelos entrevistados foi “saúde”. Segundo Ferreira (2006) o termo “saúde” para os idosos, não é caracterizado por não ter nenhuma doença, mas poder realizar suas atividades cotidianas sem o auxilio de terceiros.

Entretanto, mesmo com a evolução acelerada da medicina e o aumento da qualidade e expectativa de vida para idosos, se torna normal e natural o fato de que o processo do envelhecimento traga consigo alguma dependência.

O próprio envelhecimento fisiológico do corpo, aos poucos fará com que  se necessite de alguma ajuda para uma atividade ou outra. Se alguns idosos conseguem, mesmo com um grau mínimo de dependência, manter sua autonomia, outros no entanto não terão o mesmo privilégio. Para aqueles que acabam desenvolvendo doenças crônicas e degenerativas haverá o comprometimento das suas capacidades funcionais, o que acarretará um grau maior de dependência e, possivelmente, a perda parcial, ou até mesmo total, de sua autonomia. A partir daí, o idoso necessitará dos cuidados da família, cônjuge ou um cuidador, para auxiliá-lo em suas atividades de vida diária. Mas, dependendo do grau de dependência que esse idoso estiver, a demanda em casa não poderá suprir as suas necessidades reais, com relação a seu comprometimento funcional (FERREIRA, 2006).

Diante disto muitos familiares se veem no impasse de institucionalizar ou não seu idoso, muitas são as questões intrincadas a este aspecto, porém ressalta-se a importância da família junto de seu idoso.

O estudo nos mostra que 12 (doze) dos entrevistados avaliaram positivamente o fato de não estarem residindo com seus familiares, um dos entrevistados comentou: “Aqui me sinto em casa, é um lugar excelente, aqui os profissionais são muito gentis”. Outros 10 (dez) avaliaram negativamente tendo como principais argumentos: estar longe da família e saudade da própria casa, mesmo que os familiares lhe visitem periodicamente, considerando que 18 (dezoito) responderam que frequentemente são visitados ou os familiares telefonam, e 4 (quatro)  não recebem visitas de familiares.

Segundo as falas de uma entrevistada ao se referir aos aspectos negativos: “Muito ruim, sinto muita saudade deles”. Segundo Cortelleti; Casara; Herédia (2004) o processo de institucionalização pode fazer com que o idoso substitua suas representações  sociais por outras novas que podem ser caracterizadas pelo rompimento de vínculos afetivos e perda do convívio familiar. Fato este preocupante considerando que o vinculo familiar é fundamental para a institucionalização do idoso.

As diferenças entre a Instituição e seu lar, destacados pelos entrevistados foram: melhores cuidados, autonomia, regras, convivência com muitas pessoas. Em relação aos sentimentos  em   relação  aos  familiares  diante  da  institucionalização  foram: saudades, felicidade, tranquilidade. Em relação aos aspectos positivos e negativos em relação à institucionalização, foram destacados como positivos: cuidados médicos, cultos e missas, danças e atividades físicas, rodas de conversa entre amigos.

Em relação aos aspectos negativos foram destacados: convivência, gostos diferentes, barulhos aos fins de semana devido à visita de familiares de outros idosos.

Nesse sentido Faleiros e Morano (2009 p. 337) destacam:

O modelo de vida em instituições é de homogeneização do cotidiano, apesar da interação de uns com os outros, das amizades que se constroem. A heterogeneidade do cotidiano que diversifica, amplia horizontes e inova não existe. O tédio se insinua fortemente e se transforma, não raramente, em depressão. A convivência com funcionários é diferente da convivência com companheiros, embora haja dedicação por parte dos primeiros, são outros, não escolhidos.

Nesse sentido, apesar de o ambiente institucional ser positivamente percebido pela maioria dos entrevistados o mesmo está distante de ser um ambiente familiar. Para Mazza e Lefêvre (2004), as ILPI´s são importantes porque se tornam um lugar seguro para o idoso, provendo-o de proteção e cuidado.

Miranda (2008) afirma que: o ideal é que o idoso permaneça o mais próximo possível de sua família, porém, é importante ressaltar que é melhor colocar um idoso numa instituição do que mantê-lo em casa, sem a atenção e os cuidados necessários para que ele envelheça com dignidade. Sabe-se que muitas vezes é financeiramente impossível abrir mão de um emprego para cuidar de um familiar querido em tempo integral, mas uma escolha consciente sobre o curso da vida de um familiar envolve muito diálogo com os envolvidos, respeitando valores, pesando pós e contras e principalmente, pensando numa decisão que garanta o melhor para o idoso e sua família.

5. Considerações Finais

Diante da presente pesquisa pôde – se perceber quão é importante o papel da família no processo de institucionalização, e quanto é importante para o idoso ter este amparo por parte da família durante este processo. É visível a falta de preparação das famílias para lidar com as dificuldades recorrentes do envelhecimento, são várias as justificativas, dentre elas falta de tempo, falta de capacidade para lidar com as dificuldades do idoso, desgaste emocional, falta de preparação no que se diz respeito à saúde, conflitos do idoso em relação à família que não o entende, falta de paciência e fragilidade familiar.

No entanto deve – se salientar que esta demanda é nova e esta crescendo a cada dia de forma alarmante, a sociedade e as famílias ainda não tem um preparo e noção adequada do envelhecimento. Com os resultados obtidos, pode-se perceber que esta falta de adequação da sociedade muitas vezes permeia a institucionalização do idoso. Há uma grande tendência dos familiares acreditarem que o asilo é o melhor local para que se tenham os cuidados indispensáveis para sua saúde e dificuldades, porém o melhor lugar para o idoso é o seu lar, sua família. Por outro lado nem tudo é aspecto negativo quando se fala dos motivos para institucionalização, muitas vezes, o idoso prefere ficar asilado a ficar em convívio com sua família. Muitos alegam que nos asilos podem conversar e trocar experiências com pessoas de sua mesma faixa etária.

De acordo com este estudo, pôde-se perceber que os idosos em sua grande maioria se sentem felizes em relação à institucionalização, muitos destes conversaram com seus familiares para que a institucionalização ocorresse, em sua grande maioria os mesmos decidiram por conta própria serem institucionalizados. Notou-se que a maior da população pesquisada é visitada frequentemente por seus familiares ou são contatadas via telefone.

Cabe salientar que ambas as Instituições deste campo de estudo, permitem a saída dos idosos tanto para lazer, quanto para visita aos familiares. Fato este que permite maior aproximação dos idosos com seus familiares. No entanto, foi observado que alguns idosos não se sentem felizes ou satisfeitos em relação ao fato de não estarem residindo junto com seus familiares.

É interessante que as famílias se conscientizem cada vez mais e que por mais difícil que seja ficar com seu idoso, que tente em última instância a institucionalização, não que ILPI´s sejam lugares mal adequados, mas pelo fato de que o seio familiar para o idoso é sempre mais aconchegante, sendo assim, o lugar onde se encontra sua base tanto afetiva quanto social.

De forma geral, os objetivos deste estudo foram satisfatoriamente atendidos, porém, são necessárias pesquisas mais aprofundadas para levantar dados referentes às demandas do envelhecimento, e quais dificuldades que as famílias enfrentam para lidar com seus idosos. Como falado anteriormente, esta demanda tem aumentado rapidamente nos últimos anos, faz- se necessário estudos mais consistentes para se trabalhar com estas demandas sociais.

Sobre os Autores:

Ademar Alves da Maia Junior - Acadêmico da 4ª série do Curso de Psicologia da Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE).

Ana Paula Ribeiro Toldo - Acadêmico da 4ª série do Curso de Psicologia da Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE).

Hélio Costa - Acadêmico da 4ª série do Curso de Psicologia da Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE).

Orientadora: Marciane Cleuri Pereira dos Santos - Professora do Departamento de Psicologia da Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE).

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