O Processo Grupal na Psicologia Social

O Processo Grupal na Psicologia Social
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Resumo: O presente trabalho tem como tema central o processo grupal um tema muito importante na Psicologia Social. Segundo o dicionário Aurélio grupo é um conjunto de pessoas ou de objetos reunidos num mesmo lugar, um conjunto de pessoas que apresentam o mesmo comportamento e a mesma atitude, e com um objetivo comum que condiciona a coesão de seus membros. Vários autores trabalharam com as perspectivas de grupo e nos deteremos as concepções de Kurt Lewin, Loureau, Lapassade, Calderón e Govia, Pichon- Riviere, Silvia Lane, Martin Baró e Freud.

Sabe-se que o ser humano é um ser social e sociável, um ser de relações, estamos constantemente nos relacionando com outras pessoas, assim a nossa vida é sempre marcada pela vida em grupo, até mesmo os nossos pensamentos fazem referência aos outros, a um determinado grupo. Logo ao nascermos nos deparamos com o nosso primeiro grupo: a família, logo mais vem o grupo escola, o grupo de amigos, de trabalho e muitos outros. Cada grupo tem suas regras, suas adesões e aquele indivíduo que pretende aderir a ele deve aceita-las e cumpri-las.

Os primeiros estudos sobre grupo foram realizados no final do século XIX por Gustav Le Bom autor de Psicologia das Massas. Para ele o indivíduo que se agrupa a uma multidão fica maleável, sendo extremamente influenciado por uma alma coletiva, perdendo suas próprias características e apresentando qualidades medíocres regidas pelo inconsciente. Chegou a assimilar todo fenômeno de grupo a um fenômeno hipnótico, considerando que as massas estão envolvidas, dominadas e manipuladas pelas elites.

Os pensadores desse período foram influenciados pela Revolução Francesa, e se perguntavam o que seria capaz de mobilizar o grande número de pessoas durante a revolução, o que levaria uma multidão a seguir à orientação de um mesmo líder nem que para isso fosse preciso colocar em risco a própria vida. Posteriormente veio a Segunda Guerra Mundial e o dilema da Alemanha nazista onde ocorreu outra manipulação das massas. Ainda hoje milhões de pessoas vão as ruas reivindicar o que pensam ser seus direitos.

Outro estudioso da psicologia das massas que dedicou uma de suas obras a esse tema foi Sigmund Freud que foi bastante influenciado pelos estudos de Le Bom e que contribuiu para o estudo dos processos grupais e para a criação da Psicologia Social.

1. As Contribuições de Sigmund Freud

Freud deu uma boa contribuição a cerca dos grupos. O pai da psicanálise sempre teve uma inquietação de lançar a sua ciência para outras ciências. Ele sempre tentou provar aos críticos que a Psicanálise não se resume apenas aos conflitos individuais, mas ela também está voltada para os outros; um eu não se constitui sozinho, pois ele é fruto de relações de outro, é plural (ÁVILA, 2003).

Freud sempre foi um admirador da sociologia e antropologia, escreveu várias obras no final de sua vida com um olhar mais social, dentre elas a Psicologia de Grupo e a Análise do Eu.  Destacamos de imediato que essa obra foi escrita sobre a influência tanto do pensamento do sociólogo francês Gustave Le Bon quanto do psicólogo norte-americano William McDougall.

Alano (2008) nos fala que Freud mantém um posicionamento ao mesmo tempo próximo e distante de Le Bon. Ambos utilizam os termos “formações de grupos”, “mente grupal”, “psicologia de grupo” e “psicologia individual”. Segundo Le Bon, o conceito de massa significa um agrupamento de indivíduos, independente da nacionalidade, profissão ou sexo e também não é levado em consideração “os acasos pelos quais se reúnem” (ALANO, 2008).

Freud e Le Bon ao discutirem sobre o homem e as massas acabam compactuam que, a personalidade consciente do homem desaparece, os sentimentos (tanto positivos como negativos) e emoções tomam um mesmo rumo, constituindo uma espécie de alma coletiva (ALANO, 2008). Temos aqui um organismo formado a partir de outros organismos, contudo esse agrupamento torna-se uma massa organizada que não é submissa às leis para as unidades.

Quanto às discordâncias, Alano (2008) nos mostra que Le Bon supõe de uma divisão entre psicologia individual e coletiva, ao contrário de Freud que vê a psicologia de grupo como uma continuidade do indivíduo, podendo até ser encarada como uma analogia.  Cremos que esse olhar sociológico, totalitário de Le Bon tenha-o feito pensar assim e como Freud teve um melhor aprofundamento da psique ele percebeu que essa relação é muito necessária e fundante para o sujeito.

Sobre McDougall, Freud (2006/1921) constata de que: “antes que os membros de uma multidão ocasional de pessoas possam constituir algo semelhante a um grupo no sentido psicológico, uma condição tem de ser satisfeita: esses indivíduos devem ter algo em comum uns com os outros, um interesse comum num objeto, uma inclinação emocional semelhante numa situação e (...) certo grau de influência recíproca” (p. 94-5). A partir daí Freud chega à “homogeneidade mental”, onde quanto mais alto o grau da mesma, “mais prontamente os indivíduos constituem um grupo psicológico e mais notáveis são as manifestações da mente grupal” (p. 95).

Portanto, para Freud uma massa só se constitui quando vários indivíduos são movidos por forças libidinais, descarregadas pelas pulsões de vida (eros) e/ou pulsões de morte (tânatos). Freud fala que se analisarmos um organismo de longe vemos uma diferença entre o individual e o social, quando aproximamos se aproximarmos esse olhar perdemos a nitidez dos fatos.

Nesse contexto em que se estudava as massas surge o interesse pelo estudo de grupos menores que tem seus objetivos definidos. Kurt Lewin foi o primeiro a desenvolver uma teoria voltada para esses grupos.

2. Kurt Lewin e a Dinâmica dos Grupos

Kurt Lewin fundou em 1945 o Centro de pesquisa para a Dinâmica dos Grupos no Instituto de Tecnologia de Massachusettes.  Ele explicita o conceito dinâmica como um conjunto de forças sociais, intelectuais e morais que produzem uma atividade e mudanças em esferas especificas. Segundo Lewin, a dinâmica de grupo é o estudo das forças que agem no seio dos grupos, suas origens, consequências e condições modificadoras do comportamento do grupo. Para ele a função do grupo é definir papeis e a historia considerada é a da aprendizagem.

Lewin analisou os pequenos grupos em termos de espaço topológico e de sistema de forças, procurando captar a dinâmica que ocorre quando as pessoas estabelecem uma interdependência seja em relação a uma tarefa proposta, seja em relação aos próprios membros em termos de atração, afeição etc (LANE, 2001). Assim cria-se a noçao de socio- grupo que é mais objetivo, um grupo de tarefa  e psico-grupo onde os afetos se desenvolvem.

Lewin deu ênfase a conceitos que estão presentes nos grupos como a coesão do grupo que são condições necessárias, as regras para sua manutenção, as pressões e padrão do grupo que são os argumentos que seus membros utilizam para garantir a fidelidade aos objetivos do grupo, a liderança  que é a força de convencimento, o carisma, exercido por um ou mais indivíduos sobre os outros, as propriedades estruturais do grupos que são os padrões de comunicação, desempenho de papeis e as relações de poder,  dentre outros.

Segundo Lane (2001) os estudos sobre pequenos grupos nesta abordagem tem implícitos valores que visam reproduzir os de individualismo, de harmonia e de manutenção. Esse individualismo nega o proprio processo historico de cada grupo e de uma sociedade, se referindo apenas  à história da aprendizagem de cada indivíduo com os outros que constituem o grupo.

Além da dinâmica de grupos Lewin criou a Teoria de Campo onde acreditava que o comportamento é influenciado pelas cognições que tem do meio, da realidade em que nos situamos. Assim o homem é um produto do meio, e alguns objetos, pessoas ou situações podem adquirir valência do ambiente. Essa valência pode ser positiva quando satisfaz as necessidades do individuo e negativa quando podem ocasionar algum prejuízo.

Além de Kurt Lewin, Pichon-Rivière trouxe sua contribuição para o estudo de grupos ao trabalhar o conceito de grupo operativo.

3. Grupos Operativos de Pichon-Rivière

Pichon-Rivière define o grupo como um conjunto de pessoas, ligadas no tempo e espaço, articuladas por sua mútua representação interna, que se propõem explícita ou implicitamente a uma tarefa, interatuando para isto em uma rede de papéis, com o estabelecimento de vínculos entre si. (AFONSO; VIEIRA-SILVA; ABADE, 2003). Um dos conceitos fundamentais desse autor é o de ECRO que significa esquema conceitual referencial e operativo podendo existir o ECRO individual que são os nossos valores, crenças, medos e fantasias e o grupal que é um esquema comum para as pessoas que participam de um mesmo grupo.

Para ele o sujeito social se constitui na relação com o outro e a relação do grupo envolve tanto racionalidade quanto afetividade, não sendo uma relação puramente objetiva. A técnica de grupos operativos começou a ser sistematizada por Pichon-Rivière, medico psiquiatra, partir de uma experiência em um hospital de Buenos Aires por ocasião de uma greve de enfermeiras (BASTOS, 2010). Devido a esta greve ficou comprometido o tratamento dos pacientes portadores de doenças mentais, pois inviabilizou o atendimento quanto à medicação e cuidados em geral, assim ele propôs que os pacientes menos comprometidos dessem uma assistência aos mais comprometidos, sendo que essa experiência foi muito produtiva para ambas as partes havendo uma maior identificação entre eles e pôde-se estabelecer uma parceria trazendo como resultado uma melhor integração.

Assim grupo operativo é um grupo centrado numa tarefa, na cura, na aquisição de conhecimentos e tem como objetivo mobilizar um processo de mudança. Através dessa técnica operativa Pichon-Rivière:

Instrumenta a ação grupal visando a resolução das dificuldades internas dos sujeitos, que provém de ansiedades geradas pelo medo da perda do equilíbrio alcançado anteriormente e do ataque de uma situação nova (desconhecida), medos estes que criam uma resistência à mudança, dificultando os  processos de comunicação e aprendi­zagem (LANE, 1984)

Assim o principal objetivo do grupo operativo é a mudança que vai acontecer de forma gradativa, aonde os integrantes de um grupo vão assumindo determinados papeis e posições frente a tarefa do grupo. No inicio pode haver resistência ao contato com os outros, mas depois o indivíduo vai abrir-se para o novo e inserir o grupo na tarefa. A técnica do grupo operativo pressupõe a tarefa explícita, a tarefa implícita e o enquadre (LASSALVIA,2011).

A tarefa explicita é a aprendizagem, diagnóstico ou tratamento, a tarefa implícita é o modo como cada integrante vivencia o grupo e o enquadre são os elementos fixos como o tempo a duração, a frequência, a função do coordenador e do observador. Segundo Lassalvia (2011) para Pichon-Rivière o processo grupal se caracteriza por uma dialética na medida em que é permeado por contradições, sendo que sua tarefa principal é justamente analisar essas contradições.

Para demonstrar o movimento de estruturação, desestruturação e reestruturação de um grupo Pichon-Rivière utilizou a demonstração de um cone invertido. O cone invertido é um esquema idealizado por Pichon para avaliar o movimento no interior de um grupo durante a realização de uma tarefa e seu resultado final, quando se tornam manifestos os conteúdos que no início do processo encontravam-se latentes (LASSALVIA, 2011).  Nesse cone ele inclui seis vetores que são articulados entre si e que possibilitam verificar as mudanças.

Segundo Visca (1987 apud BASTOS, 2010) os seis vetores são: pertença, cooperação, comunicação, pertinência, aprendizagem e a tele. A pertença consiste na sensação de sentir-se integrante do grupo, sentir-se importante na realização da tarefa; a cooperação são as ações que um realiza pelo outro; a pertinência são os objetivos, a realização das ações; a comunicação diz respeito ao intercambio de informações entre os membros de um grupo; a aprendizagem é uma apreensão instrumental da realidade e por fim a tele diz respeito a empatia entre os participantes do grupo.

O trabalho de grupos operativos é baseado no processo de inter-relações, onde todos fazem parte, cada um como seu papel e sua contribuição para a aprendizagem do outro. Nesse trabalho em grupo também acontece a circulação dos papeis possibilitando uma maior aprendizagem e interação entre os indivíduos. Esse grupo sempre se propõe a uma mudança embora resista a ela e a medida que enfrenta os seus medos ele evolui na tarefa. Calderón e Govia também trabalharam com o termo grupo operativo.

4. Grupo Operativo na Concepção de Calderón e Govia

Para Calderón e Govia grupo é uma relação significativa entre duas ou mais pessoas que se processa através de ações encadeadas. Esta interação ocorre em função de necessidades materiais ou psicossociais e visa à produção de suas satisfações (LANE,1984).  Nessa concepção, grupo é um conjunto de pessoas que tem um objetivo comum e desempenham uma atividade juntas passando por processos de interação.

Os autores dão enfase a dialetica e tambem a cooperaçao dos membros, ou seja, esse grupo está em constante transformaçao para a satisfaçao de suas necessidades. Eles classificam os grupos operativos em estagios dividindo-os em: grupo aglutinado, grupo possessivo, grupo coesivo e grupo independente, cada classificaçao representa um estagio alcançado na caminhada em grupo.

No grupo aglutinado há um lider que propõe ações conjuntas e do qual os membros esperam soluções (LANE, 1984) esse grupo espera não se movimenta por si só, esperando sempre a açao do lider e por isso não tem uma boa produtividade. O segundo estágio é o grupo possessivo em que o lider é o coordenador das funções mas as tarefas exigem a participaçao de todos e por isso acontece uma maior interação e conhecimento.

A terceira fase do grupo segundo Calderón e Govia é o grupo coesivo, onde há uma aceitaçao mutua dos membros o líder se mantém como coorde­nador e a ênfase do grupo está na manutenção da segurança conse­guida, vista como um privilégio (LANE,1984).  Por zelar pela segurança o grupo corre o risco de evitar a entrada de novos membros. O último estágio é o grupo indendente que tem a liderança distribuida entre os membros, diminuem as relações de dominação. Isso se deve ao fato de que o grupo já acumulou experiências, as metas primárias já começam a ser alcançadas e passam a surgr novas em prol do desenvolvimento das pessoas do grupo. Apesar dessa divisão, Lane (1984) ressalta que os autores observam que não há tipos puros de grupos, pois uma etapa engloba aspectos da etapa anterior.

Outros estudos sobre grupos foram feitos na área de analise institucional por Loureau e Lapassade.

5. Processo Grupal na Análise Institucional

René Loureau e Georges Lapassade deram suas contribuições à Psicologia Social a partir de estudos sobre Análise Institucional ou Socioanálise, no qual, somente no século XX foram desenvolvidas literaturas acerca do tema, sendo considerado como prolongamento da terapia institucional, da pedagogia institucional, da filosofia, da sociologia política e da dinâmica de grupos de Kurt Lewin. Devemos nos lembrar que falar de instituição nos remete a pensar em um local onde se prestam serviços, como serviços de saúde ou serviços sociais. Porém, instituição também pode ser referida a família, escola, trabalho, etc.

Análise Institucional pode ser conceituada como uma análise sustentada pelo coletivo, atribuindo a tarefa de pesquisar, questionar e analisar a história, os objetivos, a estrutura e o funcionamento das organizações, além das práticas grupais (PEREIRA, 2007). Objetiva ir além da psicossociologia grupal e a sociologia das organizações, investigar as determinações ocultas do grupo, focando no coletivo.

Para Lapassade essa analise deve ser feita quanto a dinâmica do grupo e o seu nível institucional, para ele somente quando os membros se organizam é que se pode falar de grupo. Descreve o grupo-terror onde a figura de poder determina as obrigações a manutenção do status quo e contrario a esse grupo está o grupo-vivo que se caracteriza por relações de igualdade entre seus membros e pela autogestão (LANE,1984)

Loureau propõe essa análise através das relações grupais que acontecem nas instituições. Ele também classificou os grupos em grupo-objeto e grupo-sujeito. Na categoria grupo-sujeito Loureau trata do nível de resistência a mudança apresentada pelo grupo (LANE,1984). Teremos um grupo-sujeito se esse tiver um crescimento decorrente dessa mudança. No grupo-objeto os indivíduos se mantem sobre coerência, unidade, harmonia e se submetem a realização de um trabalho onde a divisão determina hierarquias de poder.

Essa questão de hierarquias de poder e as interferências desse poder nos grupos  observamos nos trabalhos de Martin Baró que enfatiza a questão de grupo e poder sendo influenciado e influenciando Silvia Lane

6. Grupo e poder em Martin Baró

Os trabalhos sobre grupo de Martin Baró reafirmam alguns aspectos trabalhados na concepção de grupo de Silvia Lane. Ambos os autores falam em processo grupal e não em grupo ou dinâmica de grupo (MARTINS, 2003), remetem ao grupo a característica de ser sempre uma construção histórica e social, fruto das relações e que estão em constante transformação. Os autores geram assim, uma critica as teorias que enquadram os grupos em movimentos estáticos, embora considerem positivos os aspectos da dinâmica de grupo de Lewin. Segundo Martins (2003), Baró aponta três problemas dessas teorias: a parcialidade dos paradigmas predominantes, a perspectiva individualista e o a historicismo.

Não se pode negar que todo ser humano e consequentemente todo grupo está inserido em uma sociedade que tem um processo histórico e está em constante transformação, a medida em que se transforma o indivíduo também se modifica e consequentemente o grupo tendo em vista que o ser humano é um ser que está em constante interação não podendo ser observado de um âmbito individual. Martin Baró propõe assim uma teoria dialética sobre os grupos que para superar os problemas acima relatados devem dar conta da realidade social do grupo, ser compreensiva para incluir tanto pequenos grupos como os grandes e incluir o caráter histórico dos grupos humanos (MARTINS, 2003).

Martin Baró define grupo como uma estrutura de vínculos e relações entre pessoas que canaliza em cada circunstância suas necessidades individuais ou coletivas. Martins (2003) cita três parâmetros principais para analise do processo grupal segundo Martin- Baró: identidade que é a definição do que é e o que o caracteriza, o poder de que o grupo dispõe em suas relações e a atividade grupal e a significação social que produz essa atividade.

Ao trabalhar com a questão do poder, Martin Baró afirma que ele está presente em todas as dimensões da vida humana. É importante salientar que ele destacou que é preciso romper com a rotulação de poder como algo negativo e violento. Baró (1989 apud MARTINS, 2003) ao apresentar três características do poder afirma que ele se dá nas relações sociais, ou seja, estas tem um caráter de oposição e conflito; que ele se baseia na posse de recursos e que o poder produz um efeito nessa relação social.

Prossegue ressaltando que o poder está baseado na posse diferencial de recursos, permitindo que alguns realizem seus interesses, pessoais ou de classe e os imponha aos outros. Assim os grupos mais poderosos são aqueles de que dispõe de mais recursos e por isso é necessário o cuidado para não ocorrer o abuso desse poder.

Como citamos acima a autora Silvia Lane também nos fala em processo grupal e não em grupo ou dinâmica de grupo e seu trabalho está muito relacionado aos trabalhos de Martin Baró. Esta autora analisou vários estudos sobre grupos e enfatiza em suas obras o grupo com o seu processo histórico e dialético.

7. Processo Grupal e o Materialismo Histórico e Dialético

 Silvia Lane trata de uma concepção de grupo em termos histórico e dialético considerando sempre os aspectos pessoais, as características predominantes do grupo, o objetivo e o subjetivo e o caráter histórico. Lane (1984) nas analises de diversos estudos sobre grupo, como os estudos já citados acima,  encontrou duas posições. Uma posição era a tradicional que defendia que a função do grupo era definir papeis, assim como trata Kurt Lewin. A outra posição trata do caráter de mediação do grupo, envolvendo a relação entre os indivíduos.

A partir desses estudos sobre as outras teorias Lane (1984) propõe algumas premissas para conhecer o grupo:

1) o significado da existência e da ação grupal só pode ser encontrado dentro de uma perspectiva histórica que considere sua inserção na sociedades com suas determinações econômicas, institucionais e ideológicas; 2) o próprio grupo só poderá ser conhecido enquanto um processo histórico, e neste sentido talvez fosse mas correto falarmos em processo grupal em vez de grupo (LANE,1984, p. 81)

Assim vemos a importância desse processo histórico e social para a formação do grupo que também está em uma dialética constante, os indivíduos se transformam, o grupo muda e a sociedade muda por isso tanto Lane quanto Baró enfatizam que não se deve falar apenas em grupo como os demais autores e sim em processo grupal onde deve ser analisado o tipo de homem que está envolvido, o tipo de inserção do grupo na instituição e sem esquecer da historia de vida de cada individuo que vai compor esse grupo.

Lane (1984) também classifica algumas categorias fundamentais para a análise do processo grupal: produção, dominação, categoria de grupo-sujeito e categoria de não grupo. A categoria de produçao trata da produçao da satisfação da necessidade que como já citamos em Calderón e Govia o processo grupal se caracteriza como sendo uma atividade produtiva (LANE,1984). Na categoria de dominação os grupos tendem a reproduzir as formas sociais de dominação, e no caso do capitalismo tem uma enfase na submissão, trata da submissao de alguns membros a outra pessoa.

A categoria grupo-sujeito que foi trabalhada por Lourau trata-se do nivel de resistencia a mudança. Grupos com menor resistência à autocrítica e, portanto, com capacidade de crescimento através da mudança, são considerados grupos sujeitos (LANE,1984). Na categoria não-grupo a autora demonstra que alguns grupos tem resistência a mudança, e só se pode falar de grupo quando ao se produzir algo se desenvolvem e se transformam as relações entre os membros. Cita inclusive o exemplo de grupo de pessoas que se reúnem para fazer trabalhos manuais onde cada um faz o seu. Não se pode falar de grupo nesse caso pois não há uma interação, relação entre seus membros, não há um processo de aprendizagem entre eles e consequentemente não haverá mudança.

8. Considerações Finais

Abordamos no decorrer desse trabalho as inúmeras concepções de grupo. É importante salientar que hoje em dia ainda existe essa manipulação das massas como falou Le Bom e Freud. Esse ano foi marcado por intensa manifestação das massas no Brasil que gritavam “O gigante acordou” houve grupos pacíficos que queriam realmente reivindicar, mas teve outros grupos que degradavam patrimônios, históricos e culturais de nossa sociedade, gerava conflito e morte.  É importante observar que esses mesmos manifestantes vêm passando por um processo histórico e social de dominação e alienação. Não podendo ser vistos apenas de um ângulo individual como pregava Lewin, e desconsiderando seu processo histórico.

Um grupo é formado por diferentes pessoas que passam por diferentes processos de aprendizagem, diferentes historias de vidas, contextos familiares e por isso deve ser observado como um todo, envolvendo todos os processos de transformação. Baró critica esse individualismo e a historicismo trabalhado por Lewin não se pode considerar um grupo dessa forma, tem muito mais envolvido nisso.  Todo ser humano é um ser de relação, ele se desenvolve, se descobre a partir da relação com o outro e o grupo deve ser visto em um contexto geral de relações estabelecidas pelos seus membros, relações de poder dominação, submissão, cooperação, harmonia.

Sobre os Autores:

Maria Luana Cavalcante Coutinho - Estudante do curso de Psicologia da Faculdade Luciano Feijão.

Rejarley Vieira de Lima - Estudante do curso de Psicologia da Faculdade Luciano Feijão.

Jordana Silva Duarte - Estudante do curso de Psicologia da Faculdade Luciano Feijão.

Bruna Lopes - Estudante do curso de Psicologia da Faculdade Luciano Feijão.

Felipe Pessoa - Estudante do curso de Psicologia da Faculdade Luciano Feijão.

Referências:

AFONSO, M. L. M., VIEIRA-SILVA,M; ABADE, F. L. O processo grupal e a educação de jovens e adultos. Psicol. estud., Maringá  vol.14 n.4 Oct./Dec. 2009. Disponível em < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-73722009000400011&script=sci_arttext >. Acesso em: 23 nov. 2013.

ALANO, R. Psicologia das Massas: Freud leitor de LeBon. Disponível em < http://www.fibrapara.edu.br/seer/ojs/index.php/anais/article/view/20/19 > Acesso em: 04 dec. 2013.

ÁVILA, L. A. O Eu é Plural: Grupos: A Perspectiva Psicanalítica. Disponível em < http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1806-24902009000100005&script=sci_arttext > Acesso em: 03 dec. 2013.

BASTOS, A.B.B.I. A técnica de grupos-operativos à luz de Pichon-Rivière e Henri Wallon. Psicólogo informação ano 14, n, 14 jan./dez. 2010. Dsiponivel em:< https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/PINFOR/article/viewFile/2348/2334 > Acesso em: 24 nov. 2013.

FREUD, S. (2006). Além do Princípio de Prazer, Psicologia de Grupo e Outros Trabalhos (v. 18). In: Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1921).

LANE, S. T. M. O Processo GRUPAL. In LANE, S.T.M.; CODO, (Org.) Psicologia Social: o homem em movimento. São Paulo: Editora Brasiliense,1984.1ª Edição. P. 78-98.

LASSALVIA, D. F. C. Grupo operativo: uma proposta de Pichon-Rivière. Disponível em <http://supervisaopsicopedagogica.com.br/?p=76 > Acesso em: 24 nov. 2013.

MARTINS, S.T.F. “Psicologia Social e Processo Grupal: a coerência entre fazer, pensar e sentir em Sílvia Lane”. Psicologia & Sociedade; 19, Edição Especial 2: 76-80. 2007  Disponível em:< http://www.scielo.br/pdf/psoc/v19nspe2/a2219ns2.pdf > Acesso em: 23/11/2013.

MARTINS, S.T.F. Processo grupal e a questão do poder em Martín- Baró. Psicologia & Sociedade; 15 (1): 201-217; jan./jun.2003. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010271822003000100011&script=sci_arttext > Acesso em 25 nov. 2013.

SCHOSSLER, A.B., CARLOS,S.A. Por uma visualização do processo grupal. Psico, Vol. 37, No 2. 2006. Disponível em: < http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistapsico/article/view/1430 > Acesso em: 25 nov. 2013.

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