Psicologia Social: um Compromisso Social

Psicologia Social: um Compromisso Social
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Para Rodrigues (apud Bock, 2001), a psicologia social (P. S.) é “o estudo das manifestações comportamentais, suscitadas pela interação de uma pessoa com outras pessoas, ou pela mera expectativa da interação”. O que se pode inferir a respeito, é que a psicologia social se refere, em linhas gerias, ao estudo das interações sociais, mas devemos nos atentar para o fato, de que a psicologia em si, é construída a partir das interações do individuo.

Partimos então do preceito de que toda a psicologia é social a partir do momento que percebe o ser humano como um todo, sem reduzi-lo as suas patologias, seu desenvolvimento, suas especificidades. Com isso não se busca negar que a psicologia social, tem suas especificidades, ela continua preocupada com as interações e relações sociais e grupais, mas ela percebe que o ser humano é ser reflexivo na história, pois ao mesmo tempo em que é modificado por ela, também a modifica.

Lane (apud Bock, 2001) traz que, toda a psicologia é social, desde que assuma a natureza histórica social do ser humano. O que corrobora para o que já foi mencionado acima, a psicologia se torna social, a partir do momento que percebe o ser humano, como parte da historia e participante ativo da mesma.

Na psicologia social, não se tem uma unicidade, há existência de vários saberes psicológicos, que buscam explica-la há sua maneira, sobre isso Ferreira traz que (2010):

“No decorrer de sua breve história, a Psicologia Social tem se caracterizado pela pluralidade e multiplicidade de abordagens teóricas adotadas como referenciais legítimos à produção de conhecimentos sociopsicológicos. Tal contexto tem dificultado sobremaneira a delimitação do objeto de estudo ou mesmo dos vários objetos de estudo dessa disciplina. Contudo, o binômio indivíduo-sociedade, isto é, o estudo das relações que os indivíduos mantêm entre si e com a sua sociedade ou cultura, sempre esteve no centro das preocupações dos psicólogos sociais, com o pêndulo oscilando ora para um lado, ora para o outro.” (p.51).

O que pode ser suscitado do que foi apresentado por Ferreira, é que a Psicologia Social nasce como multiplicidade, e se modificou durante o decorrer do tempo, e isso se deu, por que ela própria também está sujeita as mudanças que ocorreram ao longo da história. E diferente de outras ciências, ela está intrinsecamente interligada a sociedade e/ou a cultura a que ela pertence. Motivo este que faz com que em cada lugar se desenvolva uma psicologia social, preocupada com um determinado aspecto, que na maioria das vezes, não é o mesmo aspecto de preocupação de outro lugar. Exemplo disso, é que a Psicologia Social desenvolvida no Brasil, é bem diferente da desenvolvida em outros lugares do mundo, como Estados Unidos e Europa.

Mas para além das diferenças geográficas, e perpassando a dicotomia individuo e sociedade, Ferreira traz que, percebeu-se que no contexto geral a P. S., na atualidade vem “se desdobrando sobre uma nova perspectiva, qual seja a Psicologia Social Crítica ou Psicologia Social Histórico-Crítica (...), expressões que abarcam, na realidade, diferentes posturas teóricas, que são influenciadas pelo o socioconstrutivismo, psicologia marxista, psicologia discursiva, feminismo e modernismo”.

Tais perspectivas guardam em comum o fato de adotarem uma postura crítica em relação às instituições, organizações e práticas da sociedade atual, bem como do conhecimento até então produzido pela Psicologia Social a esse respeito. Nesse sentido, colocam-se contra a opressão e a exploração presentes na maioria das sociedades e têm como um de seus principais objetivos a promoção da mudança social como forma de garantir o bem-estar do ser humano (Hepburn, Apud Ferreira, 2003).

O que se percebe é que a P. S. muda de postura, antes preocupada, em modelar comportamentos, em de certa forma, promover a alienação social, para manter certa ordem social, promover o capitalismo. E agora ela já se volta para o que deveria ser seu objetivo desde o principio a promoção de saúde e bem-estar social. Para que de fato seja auxiliadora na construção de uma sociedade mais igualitária, em que o bem-estar é promovido á todos, e não apenas a uma poção da população.

Como já podemos perceber a psicologia social é um campo de multiplicidade, e se caracteriza por ser bastante empírico, até pelos seus objetivos de estudos já citados. Que tornam, praticamente impossível a dissociação entre pesquisador e pesquisado, já que ambos são o mesmo sujeito. Sendo assim, a P. S. não busca teorias globalizantes para o comportamento humano, como são encontradas em outras teorias psicológicas, os psicólogos sociais estão mais voltados para utilização de várias teorias específicas para os diversos tipos de fenômenos cognitivos e sociais.

Considerando a multiplicidade de teóricos e teorias na área, preferiu-se dar ênfase ao trabalho da professora Silvia Lane, que se destaca no Brasil e na América Latina pelo seu compromisso tanto com a teoria, como prática transformadora da sociedade, grande responsável pelo desenvolvimento de uma psicologia sócio- histórica do país. Lane foi grande responsável pela desconstrução da psicologia elitista que vigorava no Brasil, e influenciou os caminhos atuais da psicologia no país, especialmente no campo social e comunitário, sendo este ultimo campo, viabilizado por esforço de seu trabalho e de também de outros pesquisadores da área.

Bock traz que (2007):

“Silvia Lane foi guiada pelo princípio de que o conhecimento produzido deveria sempre ser útil para a transformação da realidade na direção da criação de condições dignas de vida para todos. O conhecimento e a profissão deveriam estar a serviço da transformação e, com estas ideias, Silvia Lane contribuiu para uma revolução na Psicologia. Com o rompimento com a tradição elitista da Psicologia, com a preocupação com a construção de um novo projeto para a ciência e para a profissão, com a adesão a uma nova concepção de homem para a Psicologia e com o esforço para aproximar a América Latina, Silvia Lane apontou as exigências e condições para um novo projeto para a Psicologia. E desta forma, pode-se apontar Silvia Lane como uma das influências do que hoje se denomina de Projeto do Compromisso Social da Psicologia” (p.47).

Conclui-se então, que Lane, assim como outros pesquisadores, busca agora uma psicologia que tenha um compromisso social, e num  país como o Brasil, onde há tantas desigualdades sociais, é papel do psicólogo, buscar melhorias para que a psicologia assuma seu papel de transformadora social que busca, não apenas seu objetivos individuais como ciência, mas a promoção de bem estar social. Assim como Bock (2007) cita que Silvia Lane “nunca se importou com rótulos e com passeios por diferentes teorias, porque buscava outra coisa: um conhecimento capaz de falar da vida vivida e de apresentar possibilidades de contribuição para a transformação das condições de vida na busca da dignidade” (p. 55).

Sobre o Autor:

Vilkiane Natercia Malherme Barbosa - Estudante de graduação em quinto semestre da Universidade Federal do Piauí - UFPI.

Referências:

BOCK, Ana Mercês Bahia. et.al. Silvia Lane e o projeto do “compromisso social da psicologia”. Revista “Psicologia e Sociedade”. 2007.

FURTADO, Odair. TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias – uma introdução ao estudo de psicologia. 13 ed. São Paulo: Saraiva, 2001.

FERREIRA, Maria Cristina. Psicologia: teoria e pesquisa. A Psicologia Social Contemporânea: Principais Tendências e Perspectivas Nacionais e Internacionais. Vol.26. p 51-64. 2010.

LANE, Silvia T. M. CODO, Wanderley. Psicologia social: o homem em movimento. 8 ed.São Paulo: Brasiliense.1989.

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