Relacionamentos Amorosos na Juventude: o Ficar x Relacionamento Estável

Relacionamentos Amorosos na Juventude: o Ficar x Relacionamento Estável
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Resumo: Em toda a história da humanidade podemos ver as inúmeras transformações do ser humano em aspectos, físicos, sociais e culturais. Buscamos compreender as características de uma era social onde vivemos a fluidez, à instabilidade, a individualização, a incoerência e a velocidade que norteiam as relações interpessoais. Este estudo teve por objetivo verificar se existe uma consonância cultural entre os jovens sobre os termos “ficar e relacionamento estável”, condizente com o referencial teórico pesquisado sobre este fenômeno. Utilizou-se o método de modelos culturais que pressupõe que existem representações cognitivas a respeito de um determinado fenômeno que são compartilhadas socialmente. Para tanto, foram entrevistados jovens universitários acima de 18 anos, homens e mulheres, excetos os estudantes matriculados na Universidade Paulista (UNIP), totalizando 130 sujeitos, distribuídos nas seguintes etapas: 40 sujeitos na etapa de listas livres, 30 sujeitos na etapa de agrupamentos e 60 sujeitos na etapa de consenso cultural. Para esta verificação foram utilizados instrumentos de coletas de dados denominados de listas livres, agrupamentos livres e entrevista de consenso cultural, mensuradas por escalas de consonância que são denominados métodos etnográficos sistemáticos. Os dados coletados nas três etapas foram analisados por um programa estatístico de MSDOS Anthropac 4.98. Este percurso possibilitou compreendermos e identificar a representação que os jovens fazem dos termos “ficar” e “relacionamento estável”. Portanto, observou-se que há consenso sobre o que os jovens pensam apontados no domínio relacionamentos amorosos. Dentro deste domínio identificamos duas dimensões: “o ficar” e o “relacionamento estável”, que entendemos estar ligados por uma fase de transição, percebendo que há maior concentração de ideias trazidas pelos jovens referindo-se ao “relacionamento estável” em consideração à outra dimensão do “ficar”. Acreditando que os vínculos atuais são fluidos, sugerimos que seja verificado em um novo estudo a motivação dos jovens para morar junto e/ou casar-se e posteriormente romper esses laços, podendo retomá-los a qualquer momento como num vai e vem, e o estigma que esta condição pode provocar ao sujeito frente à sociedade contemporânea.

Palavras-chave: Modelos culturais, Relacionamentos amorosos, Ficar, Relacionamento estável.              

1. Introdução

Em toda a história da humanidade podemos ver as inúmeras transformações do ser humano em aspectos, físicos, sociais e culturais. O que nos anos 80 podia estar na “Crista da Onda”, hoje pode ser o que existe de mais “brega” ou “fora de moda”. Porém nunca se viu tantas mudanças em tão grande velocidade como na atualidade. Vivemos em uma era social onde a fluidez, a instabilidade, a individualização, a incoerência e a velocidade norteiam as relações interpessoais. Bauman (2001) chamou esta era social de “Modernidade Líquida” e apresentou a liquidez das relações humanas. Ele ainda afirma que os seres humanos “não mais nascem em suas identidades”, supondo uma despersonalização obrigatória imposta por esta “modernidade”.

Justo (2005) fala sobre a mutação constante que a sociedade vem passando com o conceito de que não haja mais verdades absolutas, mas opiniões particulares e que cada individuo deve criar seu próprio padrão e verdade. Mas como o jovem construirá seu padrão e verdade sem qualquer modelo?

Com a ausência de qualquer tipo de padrão e de um modelo social pré-estabelecido, jovens e adolescentes se veem pressionados a reproduzir os modelos disponíveis, através da mídia e formadores de opinião. Nossa proposta é a verificação da existência de consenso cultural entre os jovens a respeito de termos ficar e relacionamento estável.

A investigação de como o jovem se comporta culturalmente, frente aos modelos apresentados e, como são estabelecidas suas “regras de conduta” no que se refere à relação amorosa, a liberdade moral e sexual permeada por essa modernidade, e suas implicações analisando-as de acordo com os modelos culturais vigentes.

1.1 Relacionamentos na Sociedade Contemporânea

A sociedade contemporânea é marcada pela massificação da era Industrial capitalista, do consumo exacerbado e acelerado, das “coisas” descartáveis e pela propagação da necessidade do ter e não do ser, fixado no supérfluo das ações da mídia propagandista (BAUMAN, 2001).

Esse caráter liquefeito da modernidade cria um círculo vicioso, a rápida satisfação dos desejos; onde os indivíduos já não reconhecem mais suas próprias vontades, devido à facilidade em realizá-las. O desejo torna-se tão fácil de ser conquistado que não se requer esforços para tal ação.

O mercado capitalista se encarrega de “ler” nossos pensamentos e atender “vontades” criando campanhas milionárias, desejos e necessidades que até então não eram necessárias.

Quanto maior a liberdade na tela e quanto mais sedutoras as tentações que emanam das vitrines, e mais profundo o sentido da realidade empobrecida, tanto mais irresistível se torna o desejo de experimentar, ainda que por um momento fugaz, o êxtase da escolha (BAUMAN, 2001, p.104).

A globalização, palavra onde estão contidos os prós e os contras da vida contemporânea e suas consequências políticas e sociais pode ser um conceito difuso, mas ninguém fica imune aos seus efeitos. O apelo por fazer escolhas que possam, num espaço muito curto de tempo, ser trocadas por outras mais atualizadas e mais promissoras, não apenas orientam as decisões de compra num mercado abundante de produtos novos, mas também parecem comandar o ritmo da busca por parceiros cada vez mais satisfatórios. O consumo passa a ser utilizado nas relações com o “ter”, não só de produtos e serviços, mas de pessoas que atendam as necessidades afetivas e sexuais (BAUMAN, 2001).

Os sites de relacionamentos e as redes de interatividade se multiplicam rapidamente revelando uma tendência mundial das novas relações humanas, sem intimidade, sem compromisso, sem coerência, individualizadas. A relação virtual, com todas as suas possibilidades, pode “salvar” qualquer individuo de riscos como um parceiro mal humorado, irritado, chato ou qualquer outra característica que desagrade. Não há riscos de se comprometer, pois, nada impede o “bloqueio do perfil” do indesejado ou uma “queda da conexão”. Para desconectar-se com o outro basta pressionar uma tecla; sem constrangimentos, sem lamúrias aparentes.

Em Amor líquido, Bauman (1998) fala das intensidades do amor e sobre como ele pode deixar a vida “um inferno”, uma confusão de sentimentos e emoções que afligem a humanidade. Em contrapartida, ele afirma que nunca houve tanta procura por um relacionamento; e que homens e mulheres estão como que presos numa trincheira sem saber como sair dela, e, o que é ainda mais dramático, sem reconhecer com clareza se querem sair ou permanecer nela. Por isso movimentam-se em várias direções, entram e saem de casos amorosos com a esperança mantida à custa de um esforço considerável, tentando acreditar que o próximo passo será o melhor. A conclusão não pode ser outra: “a solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão pode parecer uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar um terreno doméstico comum” (BAUMAN, 1998, p.84).

1.2 A Herança Cultural Brasileira e a História do Relacionamento

Justo destaca que a cultura brasileira, diferentemente de outras culturas, como a européia, “não se baseia em tradições milenares, no cultivo da memória social” (2005, p.63-64) como os acontecimentos fundadores de uma nação e a hereditariedade de uma identidade nacional.

Índios, negros, portugueses, italianos, alemães e muitas outras culturas às quais o país foi exposto, fizeram da formação cultural brasileira uma base fundamentada na ruptura do imigrante de suas referências anteriores (a pátria abandonada), e na valorização da nova pátria, do presente e do novo.

Freyre (1995) fala sobre a cultura brasileira como nascendo de “um encontro ou de um confronto” de três raças: o branco europeu, o negro africano e o vermelho indígena. Justo (2005), ainda, afirma que o Brasil, devido exatamente a esta miscigenação cultural, é capaz de globalizar e se fundir com novas culturas, e sem grandes dificuldades. Citando Justo (2005, p. 65): “Venera o estrangeiro, o desconhecido, o diferente”.

Como sugere o autor, a mistura de tradições de diferentes países, faz do Brasil um país susceptível as diferentes tendências mundiais, as novidades da era moderna, ao consumo exagerado e a supervalorização do jovem (JUSTO, 2005).

Bauman (1998) afirma que vivemos o chamado “tempo real”, a era da instantaneidade, não é preciso aguardar, esperar, pois tudo funciona 24 horas por dia e com pronta entrega. Diversos autores afirmam, também, que as pessoas são existencialmente vulneráveis, uma vez que faltam grupos e laços primários de afeto, responsáveis por prover o senso de solidariedade e identidade. O autor parte do princípio que é essa insegurança ontológica que promove a busca por um amor intensivo e abrasador, capaz de dar algum sentido, mesmo que provisório e temporário às suas existências.

Ao longo da história da humanidade é possível observar os diferentes movimentos da juventude quanto às relações afetivas e sexuais. De Jesus (2005) relata essa movimentação; décadas de história marcadas por essa tentativa frenética pela busca da satisfação, felicidade e prazer. A década de 60, no século XX: movimento Hippie, onde jovens lutavam pela liberação das drogas, pela extinção da família e pelo amor livre. Os relacionamentos eram encontros com carícias íntimas, atos pré-conjugais e sem o consentimento de suas famílias. Anos 80: a chamada “amizade colorida”, relacionamento diferente do namoro, marcou uma década de relacionamentos sem compromissos e cheios de encontros libidinosos.

Década de 90: surge o “ficar”, aonde encontros de um dia ou de uma noite, que vão de beijos e caricias até a uma relação sexual, são marcados pela satisfação de um desejo, por prazer e sedução ou puramente como um objeto de consumo.

Bastante popular entre os jovens, “o ficar” caracteriza-se por ser breve, passageiro, imediatista, volátil e descompromissado (JUSTO, 2005). Jovens e adolescentes afirmam que o ficar nada mais é que “um primeiro contato que poderia levar a um namoro”, um passatempo.

No mesmo artigo, o autor afirma que a força de dispersão, de instabilidade, de desterritorialização e de desenraizamento são as razões para as modificações do núcleo familiar, onde os relacionamentos são mais instantâneos e abreviados, muito diferentes da “estrutura familiar tradicional calcada na exigência de amor e aliança conjugal eternos” (IBID, 2005, p.66).

 Justo (2005) em “O ficar na adolescência e paradigmas de relacionamento amoroso” cita que todos, e não apenas os jovens, sentem uma elevada aceleração do tempo, levando-os a viver na insegurança, levando a relacionamentos transitórios e instáveis.

1.3 O Amor como sentimento

Estudar relacionamentos humanos já não significa mais falar de amor. O amor não é hoje a forma de expressão dos relacionamentos; é, entretanto, uma nova maneira de vivenciá-los. Essa definição, segundo Giddens (1993), é a de um amor apaixonado que é especificamente perturbador das relações pessoais, em um sentido semelhante ao carisma; arranca o indivíduo das atividades mundanas e gera uma propensão às opções radicais e aos sacrifícios.

O autor ainda difere o amor romântico do amor apaixonado, colocando o primeiro como muito mais culturalmente específico. O amor romântico torna-se distinto do amor apaixonado embora, ao mesmo tempo, possua alguns resíduos dele. O amor romântico presume algum grau de auto-questionamento. Como eu me sinto em relação ao outro? Como o outro se sente ao meu respeito? Será que nossos sentimentos são profundos o bastante para suportar um envolvimento prolongado? 

Diferentemente do amor passion, o amor romântico desliga o indivíduo de situações sociais mais amplas de uma maneira diferente. Proporciona uma trajetória de vida prolongada, orientada para um futuro previsto, mas maleável; e cria uma “história compartilhada” que ajuda a separar o relacionamento conjugal de outros aspectos da organização familiar, conferindo-lhe uma prioridade especial (GIDDENS, 1993, p. 56).

Segundo Costa (2005) no campo das emoções, o amor romântico se expressa como “um vínculo com o outro que não conhece desejo mais ardente que a vontade de conduzir a própria vida no corpo da pessoa amada” (COSTA, 2005, p.4). A emoção trata-se de um fenômeno situado na interface entre corpo e cultura, refletindo, portanto, os legados culturais, as características de personalidade individuais e os determinantes de um contexto social específico.

No campo da idealização, o amor romântico promete ao indivíduo o reconhecimento pleno de sua singularidade. O ideal romântico mantém uma enorme importância constituindo ainda matriz de referência relevante para escolhas e comportamentos individuais.

A invocação de “amar o próximo como a si mesmo”, Freud (1930), é um dos preceitos fundamentais da vida civilizada. É também o que mais contraria o tipo de razão que a civilização promove: a razão do interesse próprio e da busca pela felicidade. Se eu amo alguém, ela ou ele deve ter merecido de alguma forma.

Somos tentados a concluir, contra o bom senso, que o “amor ao próximo” é um mandamento que na verdade se justifica pelo fato de que nada mais contraria tão fortemente a natureza original do homem. Quanto menor a probabilidade de uma norma ser obedecida, maior a obstinação com que tenderá a ser reafirmada. E a obrigação de amar o próximo, pode parecer uma dessas normas difíceis de serem obedecidas, tornando-se obstinadamente reafirmada.

Amar o próximo pode exigir um salto de fé. O resultado, porém, é o ato fundador da humanidade. Também é a passagem decisiva do instinto de sobrevivência para a moralidade (FREUD, 1930).

O amor próprio pode se rebelar contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas vindas à ameaça. Pode nos levar a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser vivida, pois o que amamos em nosso amor-próprio são os “eus” apropriados para serem amados. O que amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento (BAUMAN, 1998). Em suma: para termos amor próprio, precisamos ser amados. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos.

Amar o próximo como amamos a nós mesmos, significaria então respeitar a singularidade de cada um, o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos, e assim o tornam um lugar mais fascinante e agradável.

1.4 Relacionamento conjugal

Falar de relacionamentos logo suscita falarmos em vida sexual. Pensando na evolução do homem em que este saía para a caça, observamos, ainda hoje, que o “padrão duplo de relacionamentos”, mesmo dentro de seu casamento, ainda continua, ou seja, o homem mantendo relacionamentos com duas mulheres, causando a chamada infidelidade conjugal. Enquanto esse padrão duplo é aceitável por parte dos homens, se a mulher cometer um único ato de adultério é considerada “uma violação imperdoável da lei da propriedade e da ideia da descendência hereditária”, segundo estudos realizados por Lawrence Stone na Inglaterra e citados no livro: A transformação da identidade, de Giddens (1993, p.16).

Porém, as mulheres não admitem mais a dominação sexual masculina e ambos os sexos devem lidar com as implicações deste fenômeno. A vida pessoal torna-se um projeto aberto, criando novas demandas e novas ansiedades. Segundo Giddens (1993) nossa existência interpessoal está sendo completamente transfigurada, envolvendo todos nós em experiências sociais do cotidiano com as quais as mudanças sociais mais amplas nos obrigam a engajar. E são exatamente essas mudanças sociais que atingem os relacionamentos atuais e lidar com essas transformações significa lidar com conflitos.

Pensando desta forma, o autor ainda reitera que apesar de muitas mudanças estarem acontecendo nos relacionamentos, os homens mantêm seus esforços voltados para sua vida profissional, contribuindo para continuidade do modelo patriarcal da família em que a mulher cuida dos filhos e o homem é a maior fonte de sustento da família.

As mulheres, no entanto, continuam a identificar sua inserção no mundo com o estabelecimento de ligações. Muitos estudiosos têm observado que quando um indivíduo ainda está sozinho e prevendo relacionamentos futuros, os homens em geral falam em termos de “eu”, enquanto as mulheres têm narrativas sobre si mesmas pautadas em termos de “nós”.

Os jovens que estão nascendo, crescendo e amadurecendo nesta virada do século XX para o XXI também achariam familiar, talvez até auto-evidente, a descrição de Giddens (1993) do “relacionamento puro”:

O “relacionamento puro” tende a ser, nos dias de hoje, a forma predominante de convívio humano, no qual se entra “pelo que cada um pode ganhar” e se “continuar”, apenas enquanto ambas as partes imaginem que estão proporcionando todas as satisfações suficientes para permanecerem na relação (1993, p. 68-69).

O atual “relacionamento puro”, na descrição de Giddens (1993), não é, como o casamento um dia foi, uma “condição natural” cuja durabilidade possa ser tomada como algo garantido, a não ser em circunstâncias extremas. É uma característica do relacionamento puro que ele possa ser rompido, mais ou menos ao bel-prazer, por qualquer um dos parceiros e a qualquer momento. Para que uma relação seja mantida é necessária a possibilidade de compromisso duradouro, mas qualquer um que se comprometa sem reservas arrisca-se a um grande sofrimento no futuro, caso ela venha a ser dissolvida.

A experiência individual aponta obstinadamente para o eu como eixo mais provável da duração e da continuidade procuradas com tanta avidez. Em termos práticos, ela significa que não importa o quanto um ser humano possa ressentir-se por ter sido abandonado à sua própria deliberação e responsabilidade, é precisamente esse abandono que contém a esperança de um convívio moralmente fecundo.

1.5 Modelos culturais

A investigação de acordo a teoria de modelos culturais pressupõe que existem representações cognitivas a respeito de um determinado fenômeno que são compartilhadas socialmente. Esses conceitos constroem significados para indivíduos e servem como função diretiva para seus comportamentos individuais (GOODENOUGH,1996).

Entender de que maneira essas visões são compartilhadas socialmente permitiria inferir sobre o lugar ocupado pela cultura na mente das pessoas e de que forma essas representações têm consenso entre os grupos sociais.

O termo cultura aqui estaria sendo pensado como um “conhecimento distribuído”. Para D’Andrade (1995) o que é necessário para o funcionamento de uma sociedade é que o conhecimento sobre os modelos culturais seja compartilhado, não completamente, mas no mínimo em alguns níveis. Goodenough (1996) afirma que o conhecimento compartilhado é aquele que uma pessoa precisa possuir para funcionar como um membro da sociedade. 

Este conhecimento compartilhado pode ser pensado como modelos culturais cognitivos para crenças, valores e comportamentos (Dressler; Balieiro; dos Santos, 2002). A análise de modelos culturais pode ser obtida por intermédio do modelo de análise de consenso cultural desenvolvido por Romney; Weller; Batchelder (1986) que se apresenta como uma maneira para avaliar o grau em que diferentes indivíduos compartilham um conhecimento sobre um domínio cultural.

O Modelo Cultural pode ser pensado como sabedoria popular, onde serve para apreender uma série de diferentes tipos de conhecimentos culturais. Geralmente se referem ao jogo inconsciente de suposições ou entendimentos compartilhados por um grupo em uma sociedade. São apreendidos das experiências transmitidas pelas outras pessoas, como também de experiência pessoal acumulada. Eles afetam o entendimento das pessoas sobre o mundo e sobre seu comportamento.

Quanto maior for a consonância com os modelos culturais estabelecidos maior será o conhecimento que estes indivíduos possuem do conceito cultural compartilhado e maior o grau de competência e sabedoria deles sobre um determinado domínio cultural, porém não são estruturas fixas, mas sim maleáveis por natureza, portanto podem ser alterados conscientemente.

Para tal verificação são utilizados instrumentos de coletas de dados denominados de entrevista de consenso cultural e escalas de consonância cultural que são descritos detalhadamente por Weller e Romney (1988) denominados métodos etnográficos sistemáticos.

1.6 Objetivos

1.6.1 Objetivo Geral

 O objetivo geral deste projeto foi verificar se existe uma consonância cultural entre os jovens sobre os termos ficar e relacionamento estável, condizente com o referencial teórico pesquisado sobre este fenômeno.

1.6.2 Objetivos Específicos

Os objetivos específicos deste projeto de pesquisa foram:

  • Identificar a representação que os jovens fazem dos termos “ficar” e “relacionamento estável”;
  •  Verificar se existe consonância sobre os significados dos termos “ficar” e “relacionamento estável” entre os sujeitos pesquisados;
  • Analisar se o conteúdo apresentado pelos participantes tem relação com a teoria existente sobre o fenômeno abordado, que permeia os significados culturais;   

1.7 Justificativa

O seguinte estudo visa observar as formas de relacionamento humano, objetivando auxiliar profissionais de diversas áreas dentro desse tema. Na contramão da modernidade líquida, a pesquisa leva tempo e demanda dedicação, e por meio desta pretendemos levantar a questão dos relacionamentos na atualidade, parando para olharmos um fenômeno tão constante em nossas vidas. Desta forma, estaremos somando à outras contribuições no campo dos relacionamentos humanos em que a ciência psicológica se preocupa em compreender.

Muitas vezes sofremos nos relacionamentos e, em se tratando de relacionamentos entre homem e mulher as diferenças se evidenciam nos conflitos. Portanto, muito além de auxiliarmos somente profissionais no assunto queremos atingir o público leigo com uma pesquisa acessível a todos os níveis sociais. Implicando uma discussão ao redor das relações humanas buscamos acessar a todos os níveis para que as pessoas possam, com este estudo, refletir sobre o tema proposto e encontrar algumas respostas a seus questionamentos.

Consideramos que este trabalho pode auxiliar como fonte de informação, principalmente aos jovens, de maneira a conhecer melhor os fenômenos, que permeiam os relacionamentos amorosos e como estes se dão na atualidade. Este trabalho também poderá fornecer dados relevantes para outras pesquisas, para que o conhecimento possa ser aprofundado e melhor explorado.

2. Métodos

2.1 Participantes

 Jovens universitários acima de 18 anos, homens e mulheres, excetos os estudantes matriculados na Universidade Paulista (UNIP).  No total entrevistamos 130 sujeitos, distribuídos nas seguintes etapas: 40 sujeitos na etapa de listas livres, 30 sujeitos na etapa de agrupamentos e 60 sujeitos na etapa de consenso cultural.

2.2 Instrumentos

A coleta de dados foi realizada de acordo com os procedimentos descritos pormenorizadamente por Weller e Romney (1988), e englobaram três etapas que foram seguidas. São elas: listas livres, agrupamentos livres e análise de consenso cultural.

Listas livres:

Este primeiro procedimento visou identificar os itens relevantes de um domínio. A vantagem do uso de listas livres é que o pesquisador pode conhecer os itens ou as palavras que compõem um domínio cultural na linguagem utilizada pelos próprios informantes, o que minimiza as inferências feitas pelo pesquisador (WELLER; ROMNEY, 1988).

O levantamento do rol de palavras significativas para os sujeitos estudados foram analisados no programa Anthropac 4.98 que permitiu elencar os dados por ordem de frequência.

Agrupamentos livres:

Numa segunda etapa, os itens mais relevantes extraídos por intermédio da análise das listas livres foram apresentados em forma de cartões para os sujeitos, que agruparam essas palavras de duas maneiras: conforme sua similaridade ou realizando quantos agrupamentos desejassem, seguindo as instruções do entrevistador. Posteriormente, discutimos com os entrevistados sobre os critérios daqueles agrupamentos a fim de entender o significado que eles atribuíram seguindo orientações de Weller e Romney (1988).

Análise de consenso cultural:

O modelo de consenso cultural se configura como um meio sistemático para avaliar o grau de compartilhamento, ou consenso, dentro de um determinado domínio. Esta avaliação foi feita com um jogo de perguntas que é uma amostra do conhecimento do domínio cultural estudado. O procedimento estatístico que foi utilizado para a análise dos dados permite descobrir um agregado de respostas que são consideradas como “culturalmente melhores”, ou mais próximas do conhecimento do domínio, desta forma foi possível avaliar então como cada respondente se correlaciona com o modelo agregado. Caso exista um grau relativamente alto de correspondência entre as respostas dos informantes e as respostas do modelo cultural, pode-se dizer que há consenso sobre aquele conhecimento, e pode-se inferir que os sujeitos estão usando o mesmo modelo cultural para responder as perguntas, ou um modelo muito semelhante (ROMNEY; WELLER; BATCHELDER, 1986; DRESSLER, BALIEIRO; DOS SANTOS, 2002; DRESSLER, 2007).

Uma vantagem adicional é o fato do modelo de análise de consenso cultural permitir a avaliação das respostas de cada informante em relação às respostas agregadas do modelo cultural, esta análise gera um coeficiente que é denominado “competência cultural” e significa a correlação entre o perfil de resposta do indivíduo com as respostas previstas no modelo agregado. Isto denota que quanto maior o coeficiente de competência cultural de um indivíduo mais próximo das respostas do modelo cultural ele se encontra, ou seja, as respostas de um indivíduo que tem uma competência cultural alta replicam em grande parte as respostas do grupo como um todo.

2.3 Aparatos de Pesquisa

Foram utilizados lápis, papel, computador e programas para analise e sistematização dos dados.

2.4 Procedimentos para Coleta de Dados

Após a aprovação do CEPPE, abordamos homens e mulheres da mesma faixa etária previamente estipuladas em Universidades de Ribeirão Preto, exceto a Universidade Paulista – UNIP, convidando para participarem da pesquisa em questão, explicando que os dados coletados ficarão sob a guarda de extremo sigilo, e que poderão desistir a qualquer momento, no início ou durante a mesma.

Após assinar um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (anexos A, B e C), que contém informações relevantes sobre o tipo de pesquisa que realizamos, o nível de risco para o participante, as normas do projeto, o local das entrevistas, a duração da mesma, bem como sobre a proteção da identidade do entrevistado, garantindo que sua contribuição será mantida em sigilo, sendo que seu nome não será divulgado, observando que, como voluntário, pode recusar-se a participar, retirar seu nome ou descontinuar sua participação se preferir.

Somente após ter concordado; a coleta de dados foi realizada, no próprio local onde o sujeito foi abordado, onde aplicamos questões cuja intenção principal foi responder aos objetivos específicos elucidados no início do projeto.

Nesse sentido, o participante ficou ciente de que se tratava de uma pesquisa com risco mínimo. Isto significa dizer que o entrevistado foi submetido aos mesmos riscos que encontra em seu cotidiano, sem ficar exposto a situações de maior periculosidade.

Na primeira etapa, no procedimento de listas livres, solicitamos aos sujeitos que citassem verbalmente e de maneira livre, palavras ou frases que se relacionavam com o tema “ficar” e num segundo momento procedessem da mesma forma com o tema “relacionamento estável” (anexo D).

 Embora na primeira etapa utilizamos duas dimensões, “ficar” e “relacionamento estável”, para o mesmo domínio relacionamentos amorosos, na próxima etapa, agrupamentos livres juntamos essas duas dimensões formando um só domínio.             Entregamos aos sujeitos cartões que continham frases e palavras geradas no procedimento de listas livres, e os orientamos para que agrupassem as palavras que se assemelhassem, de acordo com sua percepção sobre relacionamentos amorosos, dando-lhes liberdade para fazer quantos agrupamentos considerassem necessários. Em seguida, pedimos para que explicassem os critérios utilizados para organização dos grupos a fim de compreender os significados dos agrupamentos realizados (anexo E). A última etapa para coleta de dados foi o Consenso Cultural (anexo F).

Neste procedimento, elaboramos perguntas relacionadas aos dados dos agrupamentos livres, que possibilitou mensurar o nível de proximidade com relação as idéias levantadas pela etapa anterior, onde os sujeitos deveriam, discordar completamente, discordar,  concordar ou concordar completamente.

2.5 Procedimentos para Análise de Dados.

Para análise dos dados coletados, utilizamos a teoria de modelos culturais onde segundo Borges(2004), a antropologia cognitiva define cultura como uma série de representações altamente esquematizadas e esqueléticas de alguns domínios culturais, é, antes de mais nada, construtivo no sentido de que define os elementos que constituem o domínio. Assim, modelos são representações esquemáticas cognitivas de fenômenos sociais significativos compartilhados por indivíduos em um grupo social e que esses modelos servem como uma função diretiva para o comportamento individual.

Após as coletas de dados, os mesmos foram analisados pelo programa estatístico Anthropac 4.98. Na primeira etapa, denominada listas livres, o programa nos permitiu elencar as palavras que tiveram maior freqüência colocando-as em um ranking de respostas (anexos G e H).

Deste ranking fornecido pelo programa, selecionamos 46 palavras de acordo com a freqüência e semelhança entre elas onde confeccionamos cartões e foi possível partir para a segunda etapa de análise. Nesta segunda etapa, chamada de agrupamentos livres, foram apresentados os cartões e solicitado para que os sujeitos agrupassem as palavras de acordo com o que eles entendiam ser similares entre elas.

Esses dados, foram analisamos no programa Anthropac 4.98 que gerou um gráfico (anexo I) de escalonamento multidimensional que permitiu examinar as relações de proximidade geométrica entre as variáveis estudadas numa representação gráfica e observar as semelhanças e diferenças com que as palavras são agrupadas pelo seu significado, segundo BORGATTI(1993).

Na última etapa, consenso cultural, buscamos compreender a competência cultural compartilhada a partir das respostas dos questionários. Essa entrevista de consenso cultural constou de vinte e quatro perguntas onde questionamos os sujeitos com relação ao nível de proximidade que eles possuem em direção as idéias levantadas pelo agrupamento livre. Para estabelecer esse nível de proximidade, pedimos aos sujeitos que eles assinalassem uma das quatro alternativas: discorda completamente, discorda, concorda ou concorda completamente.

2.6 Considerações Éticas

Considerando que a pesquisa envolvendo seres humanos, em Psicologia, é uma prática social que visa a produção de conhecimentos que propiciam o desenvolvimento teórico do campo e contribuem para uma prática profissional capaz de atender as demandas da sociedade; este projeto de pesquisa seguiu a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, a qual regulamenta diretrizes e normas de pesquisas envolvendo seres humanos.

Observa-se que toda pesquisa envolvendo seres humanos envolve risco. O dano eventual poderá ser imediato ou tardio, comprometendo o indivíduo ou a coletividade.

A resolução visa a integridade da pessoa, sem deixar que seja agredida fisicamente ou psicologicamente. Sobre os Riscos e Benefícios, segundo a Resolução 16/2000 do Conselho Federal de Psicologia (CFP), podemos considerar para este projeto, uma pesquisa de risco mínino, cujos procedimentos não sujeitarão os participantes a riscos maiores dos que os encontrados nas suas atividades cotidianas. Oferece o benefício, segundo o Princípio da Beneficência de José  Roberto Goldim do CFP (é o que estabelece que devemos fazer o bem aos outros, independentemente de desejá-lo ou não), de gerar conhecimento para entender, prevenir ou aliviar um problema que afete o bem-estar dos sujeitos da pesquisa e de outros indivíduos.

Todos os membros da pesquisa conservaram em sigilo as informações confidenciais obtidas na pesquisa, assim como proteger de riscos os participantes.

3. Resultados

3.1 Listas Livres

Para execução desse procedimento contamos com a colaboração de quarenta sujeitos sendo dezoito mulheres e vinte e dois homens com faixa etária entre dezoito e quarenta anos cuja média de idade é de 23,75 anos, de acordo com a tabela 1.

Tabela 1. Distribuição dos sujeitos das listas livres em relação a gênero.

 

Frequência

Porcentagem

 

Feminino

18

45,0

 

Masculino

22

55,0

 

Total

40

100,0

Estes sujeitos foram orientados a citar verbalmente e de maneira livre, palavras ou frases que se relacionavam com o tema ficar e, num segundo momento, procedessem da mesma forma com o tema relacionamento estável. Utilizamos como critério para selecionar as palavras a frequência e ou semelhança.

Na lista livre do tema ficar foram elencados 187 itens, o qual separamos 22 palavras, conforme  a tabela 2.

Tabela 2. Itens selecionados a partir do procedimento das listas livres para o domínio “ficar”.

Sem compromisso

Atração

Não envolve sentimento

Interesse

Coisa de momento

Sem cobrança

Não quer nada com nada

Não tem que dar satisfação

Curtir o momento

Conhecer a pessoa

Passageiro

Sexo

Só beijar

Adquirir experiência

Balada

Gravidez

Pensar em si

Não é uma coisa boa

Se expõem

Oportunidade para um relacionamento sério

Sacanagem

Se relacionar com varias pessoas ao mesmo tempo

As palavras sem compromisso, atração, não envolve sentimento, interesse, coisa de momento, sem cobrança, não quer nada com nada, não tem que dar satisfação, curtir o momento, conhecer a pessoa, passageiro, foram elencadas pelo critério de frequência, ou seja, foram citadas por no mínimo dois diferentes sujeitos. Entretanto, as palavras, sexo, só beijar, adquirir experiência, balada, gravidez, pensar em si, não é uma coisa boa, se expõem, oportunidade para um relacionamento serio, sacanagem e se relacionar com varias pessoas ao mesmo tempo, foram selecionadas pelo critério de semelhança, ou seja, apesar das palavras serem citadas apenas uma vez, haviam outras palavras que possuíam o mesmo significado, por exemplo, “se expõem” e “se expõem muito”.

Já na lista livre dos relacionamentos estáveis foram citados 209 itens, sendo que foram selecionadas 24 palavras, conforme demonstra a tabela 3.

Tabela 3. Itens selecionados a partir do procedimento das listas livres para o domínio “relacionamentos estáveis”.

Respeito

Confiança

Amor

Companheirismo

Namoro

Sentimento

Fidelidade

Amizade

Compromisso

Responsabilidade

Cumplicidade

Satisfação

Carinho

Diálogo

Família

Segurança

Comprometimento

Interesses em comum

Casamento

Conhecimento

Sinceridade

Paciência

Paixão

Na tabela acima as palavras e frases, respeito, confiança, amor companheirismo, namoro, sentimento, fidelidade, amizade, compromisso, responsabilidade, cumplicidade, satisfação, carinho, diálogo, família, segurança, comprometimento, interesses em comum, casamento, conhecimento, sinceridade, paciência e paixão, foram selecionadas pelo critério de frequência, ou seja, foram citadas por pelo menos dois sujeitos da amostra. Os resultados das duas listas livres geraram 46 palavras que foram utilizadas na etapa posterior.

3.2 Agrupamentos Livres

Para o procedimento de agrupamentos livres, optou-se por agrupar as duas dimensões em um único domínio que passou a ser denominado relacionamentos amorosos. Foram convidados a participar nesta etapa trinta sujeitos sendo quinze homens e quinze mulheres com faixa etária entre dezoito e trinta e seis anos cuja média de idade foi de 22,67 anos.

A esses sujeitos oferecemos 46 cartões contendo as palavras e frases mencionadas no procedimento de listas livres de ficar e relacionamentos estáveis, e os orientamos para que agrupassem as palavras que se assemelham, de acordo com sua percepção sobre relacionamentos amorosos, dando-lhes liberdade para fazer quantos agrupamentos considerassem necessários.

Em seguida, pedimos para que explicassem os critérios utilizados para organização dos grupos a fim de compreender os significados dos agrupamentos realizados.

 Os dados obtidos nesses procedimentos foram analisados por intermédio do programa Anthropac 4.98 (Borgatti, 1993). O programa distribui no espaço do gráfico os itens em ordem de proximidade, ou seja, o dependendo da proximidade ou distanciamento de um item para outro é possível hipotetizar o grau de compartilhamento desses entre os sujeitos, bem com seu posicionamento no domínio.

Na figura 1 abaixo pode-se observar os resultados dos agrupamentos livres, conforme as respostas dos sujeitos entrevistados.

Figura 1. Resultados dos Agrupamentos Livres.

Resultados dos Agrupamentos Livres 

Podemos observar no gráfico acima, que dentro do domínio relacionamentos amorosos, foram geradas duas dimensões representadas nas cores verde para relacionamento estável e vermelho para o ficar. E as palavras conhecimento, adquirir experiência, oportunidade para relacionamento, circuladas em azul, pensamos se tratar de uma zona de transição entre uma esfera e outra.

Esses dados também puderam ser observados através da análise de cluster fornecido pelo Anthropac 4.98 em que é possível se fazer uma análise quantitativa da proximidade geométrica entre os objetos estudados. Esta análise é utilizada quando se desejam identificar grupos de características semelhantes conforme ilustra o anexo J.

3.4 Entrevista de consenso cultural

 Nesta fase da pesquisa, formulamos um questionário levando em consideração as palavras listadas na fase de listas livres e os agrupamentos feitos pelos sujeitos na segunda etapa de coleta de dados. Este questionário visou entender se houve ou não um consenso cultural por parte dos sujeitos, ou seja, se eles pensavam da mesma maneira sobre o assunto que estava sendo abordado e verificar se há um modelo cultural que é compartilhado pelos entrevistados.

Para tanto, entrevistamos sessenta sujeitos sendo trinta homens e trinta mulheres com faixa etária entre dezoito a trinta e cinco anos cuja média de idade foi de 21,85.  Estes sujeitos responderam a vinte e quatro afirmações assinalando se discordavam completamente, discordavam, concordavam ou concordavam completamente com os enunciados sendo que foram informados que não havia respostas corretas ou respostas erradas.

De acordo com as respostas dos sujeitos foi atribuído a cada fator de concordância um valor de 1 a 4 iniciando pelo discordo completamente e terminando com o concorda completamente. Esta pontuação só foi alterada na pergunta de número 5, que apresenta uma afirmação reversa, levando o entrevistado a remeter-se ao outra dimensão.

Esses dados coletados foram analisados pelo programa Anthropac 4.98 que, através de uma análise fatorial, permitiu que verificássemos a existência ou não de um consenso cultural. Para tal, o programa nos apresenta um primeiro fator de razão, Eigenvalues, que deverá ser maior ou igual ao triplo do segundo fator para que haja consenso cultural.

A tabela abaixo ilustra esses resultados e apresenta-nos a existência de consenso cultural uma vez que apresenta o primeiro fator 4.039 como sendo maior ou igual ao triplo do segundo fator que foi de 1.489.

Tabela 4. Resultados de consenso cultural

EIGENVALUES

FACTOR

VALUE

PERCENT

CUM %

RATIO

1:

21.097

70.7

70.7

4.039

2:

5.223

17.5

88.2

1.489

3:

3.509

11.8

100.0

 

 

29.829

100.0

 

 

4. Discussão

Este trabalho teve como objetivo investigar os relacionamentos amorosos na juventude pela ótica de modelos culturais.  A partir das três etapas de coletas de dados deste projeto, foi possível observar como os jovens pensam a respeito do domínio cultural de relacionamentos amorosos.

Na primeira etapa de coleta de dados, denominada listas livres, verificamos que na dimensão do ficar os jovens associaram 187 palavras ou frases. Por outro lado, na dimensão dos relacionamentos estáveis, tivemos um total de 209 respostas associando palavras ou frases a esta dimensão.

Na análise fornecida pelo Anthropac 4.98 com relação às listas livres geradas pelo programa, vimos que na dimensão do ficar quinze palavras foram apresentadas com frequência maior ou igual a dois. Já na dimensão dos relacionamentos estáveis tivemos vinte e sete palavras, quase o dobro da primeira. Isso leva a pensar que os jovens estão associando livremente mais ideias a uma dimensão do que a outra.

Pode-se observar na figura 1, uma clara definição das duas dimensões do domínio cultural investigado. A primeira delas refere-se aos itens representados no interior do círculo vermelho, e dizem respeito à dimensão denominada “ficar”, enquanto que os itens representados no interior do círculo verde se relacionam à dimensão denominada “relacionamento estável”.

Na dimensão do ficar, através da análise dos agrupamentos realizados pelos sujeitos, observou-se os seguintes itens: pensar em si, balada, não envolve sentimento, só beijar, satisfação, não quer nada com nada, sem compromisso, sem cobrança, sacanagem, se expõem, coisa de momento, curtir o momento, passageiro, não é uma coisa boa, sexo, interesse, não tem que dar satisfação, se relacionar com várias pessoas ao mesmo tempo.

Por outro lado, na dimensão dos relacionamentos estáveis, destacada por um círculo verde, foram agrupadas as seguintes palavras: gravidez, responsabilidade, família, casamento, segurança, comprometimento, companheirismo, compromisso, cumplicidade, paciência, diálogo, fidelidade, interesses em comum, sentimento, comunicação, carinho, confiança, amizade, conhecer a pessoa, amor, sinceridade, namoro, atração e paixão.

Levando em conta a análise de cluster (anexo J) foi possível observar duas dimensões para relacionamentos amorosos, onde nos relacionamentos estáveis tivemos uma maior concentração de palavras.

Inicialmente não foi possível distinguir pela análise estatística dos dados, o porquê desta discriminação associativa maior para a dimensão de relacionamentos estáveis. Porém, através da análise fornecida pelas entrevistas dos sujeitos, observamos que mais da metade deles ao arranjarem os cartões, distinguem duas esferas dentro da dimensão relacionamentos estáveis, sendo estas, denominadas por eles, de “namoro” e de “casamento”. Este dado justifica a hipótese de que o jovem ao associar ideias sobre relacionamentos amorosos, subdividem sua condição de relacionamentos estáveis nessas duas fases.

Ao considerarmos essas três fases, descritas pelas entrevistas dos jovens como “ficar”, “namoro” e “casamento” nós percebemos que o domínio das relações amorosas perpassam esse caminho, porém não de uma forma permanente e ordenada. Mas transitam entre eles, ou seja, o jovem pode “namorar” depois voltar a ficar com várias pessoas ao mesmo tempo, podendo inclusive casar-se e divorciar-se voltando a uma fase anterior, por exemplo, voltando ao “ficar”.

Este comportamento evidencia aquilo que Bauman (2001) chamou de “Modernidade Líquida” onde na sociedade do descartável, as relações humanas estão reproduzindo o que ele propôs. Absorvidas em relações de posse com objetos e desconsiderando as esferas das relações humanas, as pessoas acabam por transferir um modelo desintegrado e individual para as relações amorosas em que existe um “outro” a ser olhado.

Deste modo as pessoas são “coisificadas” e, assim como é possível adquirir objetos, usá-los e descartá-los, também é possível “coisificar” as relações humanas reproduzindo este mesmo modelo, o que justificaria as respostas dos indivíduos, ou seja, eu possuo uma determinada pessoa por certo tempo buscando a própria satisfação individual sem que haja sentimento envolvido e, depois eu posso descartá-la como a um objeto.

Assim sendo, há um distanciamento entre o humano já que um não vê os desejos, as aspirações de seu parceiro, indo em conformidade unicamente com suas próprias necessidades.

Através da observação dos dados fornecidos pela figura 1 e com relação aos comportamentos descritos pelos sujeitos nas entrevistas, podemos entender que essas características estão relacionadas ao que Bauman (2001) propõe ser a dinâmica atual dos relacionamentos contemporâneos, o que ele denomina de ideal romântico atual, no qual o modelo da sociedade de consumo passa a ser utilizado também nas relações humanas.

Embora as palavras associadas à dimensão do ficar apresentarem uma superficialidade exposta diante dos significados atrelados a esta fase, acredita-se que a construção do jovem quanto ao relacionamento estável, também esteja ligada a um modelo vincular fluido onde os vínculos se constroem e se desconstroem com muita rapidez.

Embora possamos entender que os vínculos sejam formados superficialmente, acreditamos, diante do que foi apresentado pelos dados coletados, que os jovens possuam expectativas com relação a dimensão dos relacionamentos estáveis. Isso nos faz pensar que os jovens possam criar essas expectativas por ainda não ter experienciado a vivência de um casamento, o que podemos verificar a partir das entrevistas de consenso cultural onde cinquenta nove dos sessenta sujeitos são solteiros.

Uma das expectativas dentro do que eles esperam nesta dimensão, foi o amor, que pela teoria proposta por Giddens (1993), norteia as escolhas no ser humano. Ele utiliza as distinções entre amor romântico e amor passion para definir sua teoria. O amor passion seria um amor apaixonado que é especificamente perturbador das relações pessoais; arranca o individuo das atividades mundanas e gera uma propensão às opções radicais e aos sacrifícios. O amor romântico presume algum grau de autoquestionamento. Como eu me sinto em relação ao outro? Como o outro se sente ao meu respeito? Será que nossos sentimentos são profundos o bastante para suportar um envolvimento prolongado?

Diferentemente ao amor passion, o amor romântico desliga o individuo de situações sociais mais amplas de uma maneira diferente.

Giddens (1993) em sua teoria sobre as relações amorosas, apresenta-nos dois conceitos: o de amor passion e o de amor romântico. Nesse sentido, entendemos que o modelo que Bauman propôs como fluidez também pode ser pensado através da ótica do amor passion elaborado por Giddens onde o jovem o experiencia em relações sem compromisso ou sem vínculos mais profundos.

 Ainda podemos considerar, através de uma observação das escolhas feitas nos agrupamentos, uma terceira dimensão que chamamos de uma possível fase de transição ou o intervalo entre a experiência do ficar e a escolha por um relacionamento estável. As palavras circuladas em azul: adquirir experiência, conhecimento e oportunidade para um relacionamento estável, podem ser entendidas como experiências relacionadas à fase de transição ou ao intervalo entre a experiência do ficar e do relacionamento estável que não se dá de forma fixa, mas suporta um movimento de ir e vir entre as dimensões apresentadas.

 Por outro lado, os jovens associaram as palavras paciência e fidelidade a respeito de relacionamentos estáveis que nos remetem à ideia do conceito de amor romântico de Giddens onde segundo essa teoria, o jovem realiza uma transição entre o amor passion e o amor romântico.

 Entretanto ao realizar uma escolha, num movimento de estabelecer uma relação duradoura, este jovem sob a influência do amor romântico, passa a agir deixando de lado sua individualidade para considerar o outro acrescentado de uma visão de futuro, almejando construir uma nova vida onde suas próprias idéias são compartilhadas com um parceiro, ou seja, passa a considerar o outro como fazendo parte de sua vida.

Neste contexto pensamos que o jovem atual, ao vivenciar as relações de forma fluida experimenta, ao longo da juventude, maneiras diferentes de se relacionar e vai organizando suas experiências como conhecimento, conforme notamos as palavras de transição em destaque em azul na figura 1, o que pode contribuir para o estabelecimento de relações mais duradouras.

Sob a influência do amor romântico e no encontro com o outro, quando o jovem busca essa relação estável, ele não mais “coisifica” o outro, ao contrário, ele não pretende viver outra vida que não seja aquela junto com a pessoa amada conforme Guiddens (1993).

Durante todo o procedimento de coleta de dados foram entrevistados 130 sujeitos em três diferentes etapas que tinham como objetivo comprovar ou refutar a possibilidade de consenso sobre relacionamentos amorosos na juventude.

Na tabela nº 4, Eigenvalues, apresenta os resultados da análise de consenso cultural e indica se podemos ou não assumir a existência de consenso. O valor da razão entre os primeiros fatores é três vezes maior do que a razão dos segundos fatores, o que caracteriza, conforme as definições do Anthropac 4.98, a existência de consenso.

Verificamos que os sujeitos entrevistados se aproximam com relação à forma de pensar sobre um mesmo domínio cultural, relacionamentos amorosos, assim podemos considerar que os jovens universitários possuem uma proximidade, entre eles, com relação à visão que compartilham a respeito dessas ideias.

Acreditando que esses jovens tenham uma visão compartilhada sobre relações amorosas sugerimos, para uma nova pesquisa, investigar os motivos pelos quais os jovens decidem se casar ou constituir um relacionamento estável e, depois se separam. Quais são as motivações do jovem solteiro ao implicar-se e ratificar sua escolha e decisão morando junto e/ou casando-se e o estigma que essa condição poderá provocar na história de vida do sujeito frente à sociedade atual.

Sob a nossa visão o estado civil faz parte da identidade deste sujeito e poderá influenciá-lo diante da sociedade articulando novas formas pelas quais ele é visto perante seu grupo de iguais.

5. Considerações Finais

Este trabalho visou entender quais são os modelos culturais de relacionamentos amorosos na juventude e descobrimos que há consenso sobre o que os jovens pensam a respeito dessa temática onde foram apontadas duas dimensões: o ficar e o relacionamento estável que entendemos estar ligados por uma fase de transição que não é permanente, ao contrário, se apresenta de forma fluida fazendo com que o sujeito movimente-se entre uma dimensão e outra por inúmeras vezes ao longo da vida.

 Ao compreender esse movimento vemos a necessidade de um novo estudo para verificar as motivações do jovem solteiro quanto à decisão de morar junto e/ou casar-se e o estigma que essa condição pode provocar ao sujeito no meio social em que está inserido.

Sobre os Autores:

Fernanda A. Janeri - Graduada em Psicologia no Instituto de Ciências Humana, UNIP – Universidade Paulista, Ribeirão Preto – São Paulo. Atua na área de Psicologia do Trânsito.

Fernanda Pereira - Graduada em Psicologia no Instituto de Ciências Humana, UNIP – Universidade Paulista, Ribeirão Preto – São Paulo. Atua na área de psicoterapia de casal e família.

Letícia Franco de Souza - Graduada em Psicologia no Instituto de Ciências Humana, UNIP – Universidade Paulista, Ribeirão Preto – São Paulo. Atua na área de saúde mental.

Priscila Biazoli Ramos - Graduada em Psicologia no Instituto de Ciências Humana, UNIP – Universidade Paulista, Ribeirão Preto – São Paulo. Atua na área de saúde mental.

Rubiani Ranzani - Graduada em Psicologia no Instituto de Ciências Humana, UNIP – Universidade Paulista, Ribeirão Preto – São Paulo. Atua com psicoterapia de casal e família.

Thais Lenza de Souza Prado - Graduada em Psicologia no Instituto de Ciências Humana, UNIP – Universidade Paulista, Ribeirão Preto – São Paulo. Atua na área de Gestão de Pessoas.

Referências:

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