Relato de Estágio Básico em Psicologia Social: uma Proposta de Intervenção no Centro Comunitário Pedro Cantelli

Relato de Estágio Básico em Psicologia Social: uma Proposta de Intervenção no Centro Comunitário Pedro Cantelli
(Tempo de leitura: 8 - 15 minutos)

Resumo: O Estágio Supervisionado Básico é um estágio direcionado a observação de um determinado local e todo seu contexto, e as relações do pessoal nele contido. A observação é essencial para a formação do psicólogo, que através dela fará análise da situação, e será capaz de decidir quais técnicas e procedimentos serão mais adequados para obter os resultados que pretende atingir. Este artigo traz uma proposta de intervenção para a problemática observada em um centro comunitário, no período de estágio básico em contextos psicossociais.

Palavras-chave: Psicossocial, centro comunitário, estágio, proposta intervenção.

Introdução

Psicologia Social é o estudo científico da influência recíproca entre as pessoas e dos processos cognitivo e afetivo gerados por esta interação” (RODRIGUES; ASSMAR; JABLONSKI, 2013, p. 14). Logo, estuda então, a interação humana e suas consequências cognitivas, comportamentais e afetivas.

Simultaneamente a manifestações comportamentais, processos mentais superiores são desencadeados pelo processo de interação, como a expectativa, julgamento e o processamento de informações, etc., caracterizando assim, o que se chama de pensamento social, ou seja, os processos cognitivos decorrentes da interação social. Ainda, emoções e incentivos motivacionais também ocorrem no processo de interação social (RODRIGUES et al., 2013).

Esses autores, enfatizam que o caráter situacional (ou latitudinal) interatua com uma variável longitudinal (experiências passadas, fatores hereditários, características de personalidade) na explicação de um determinado comportamento. “Em outras palavras, o psicólogo social, recorre a ensinamentos emanados do estudo das características da personalidade individual a fim de verificar as interações das variáveis individuais com os fatores situacionais” (RODRIGUES et al., 2013, p.17).

Rodrigues (et al., 2013) ressalta que os psicólogos sociais dedicam-se a pesquisas destinadas a promover avanços teóricos, ou lançar luz sobre um problema específico, ou a promover um refinamento metodológico, ou a avaliar a eficácia de uma intervenção, ou, finalmente, apenas verificar a estabilidade e a generalidade de achados anteriores por meio da condução de réplicas. Assim, “todos estes tipos de pesquisa integram a Psicologia Social Científica e fornecem subsídios para sua aplicação a problemas psicossociais concretos” (RODRIGUES et al., 2013, p. 29).

No que diz respeito a planejamento para grupos comunitários:

Podemos concordar ou não com o que vemos. Se não concordamos, é porque acreditamos que essa realidade poderia ser diferente, deveria ser mudada para melhor e para atender a necessidades e demandas das pessoas. Se acharmos que nós temos alguma responsabilidade com as mudanças necessárias, se nos empenharmos para que elas aconteçam, então temos um compromisso com as mudanças, com a construção de uma realidade nova (CORRÊA; SENA, 2009, p. 10).

Diante disso, quando há uma iniciativa de mudanças no âmbito comunitário, o primeiro passo é escolher uma ideia, e a partir dessa ideia, traçar um plano, programa ou projeto (CORRÊA; SENA, 2009). Mas para se chegar a ideia, é necessário analisar que tipo de demanda o grupo comunitário apresenta, para propor um trabalho voltado a ela.

Corrêa e Sena (2009) trazem algumas questões a serem discutidas nesse primeiro momento. As pessoas têm necessidades que não estão sendo atendidas na situação atual? (se existem necessidades, se a realidade deve ser mudada, então há problema a ser resolvido); “O que (objetivo)? Onde? Como? Com que? Por quem? Quando? (Depois de certo tempo), em curto prazo (1 a 2 anos), em médio prazo (2 a 3 anos) ou em longo prazo (3 - 5 - 10 anos).

Através destes questionamentos, se chegarão aos moldes do que virá a ser um planejamento baseado nas reais necessidades da comunidade.

O planejamento de qualquer atividade é essencial para se alcançar um objetivo. É o que indica o que se deve fazer, com quem, quando, como, onde, com que – que recursos são necessários – e se os resultados são os que esperamos – avaliação. Sem o planejamento corremos o risco de dar “tiros às cegas”, sem chegar a atingir os nossos objetivos (CORRÊA; SENA, 2009, p.13).

 A escolha do fenômeno planejamento como objeto foco das minhas observações, foi devido ao fato do mesmo me chamar a atenção, pois nesta instituição nota-se que falta um planejamento, principalmente de projetos que tragam resultados à longo prazo, trazendo uma formação de responsabilidade e cidadania nessas crianças, através de oficinas, aulas instrutivas, e demais atividades educativas que possam ser desenvolvidas.

A respeito da violência, assunto de suma importância a ser tratado em planejamento para projeto social, Silva et al. (2011, p. 2) diz:

No Brasil a principal “ação errada”, que antecede a violência é o desrespeito, sendo ele consequente das injustiças e afrontamentos, o desrespeito, produz desejos de vingança que se transformam em violências. Nas grandes metrópoles, onde as injustiças e os afrontamentos são muito comuns, os desejos de vingança se materializam sob forma de roubos e assaltos ou sob a forma de agressões e homicídios, quando um cidadão agride ou mata o outro, o faz em função de alguma situação que considerou desrespeitosa, mesmo que a questão inicial tenha sido banal.

No dia a dia, pude perceber que há uma certa desorganização, onde nas atividades que são categorizadas como físicas, as crianças brincam, às vezes de brincadeiras violentas. O desrespeito também está muito presente neste ambiente, onde crianças de 12 anos já falam palavrões com uma certa raiva, e as vezes não obedecem ao que a educadora lhes pede para fazer, fingindo até que não escutaram o pedido.

Com base no exposto, pode-se propor um trabalho de planejamento para se implantar um projeto com instruções, a partir de parcerias com profissionais voluntários de outras instituições, privadas ou públicas, visando incutir nas crianças pensamentos e visões éticas, que quando enraizados desde a infância, e todos os dias, há maior probabilidade de se tornarem, quando adultos, cidadãos de bem, onde praticarão os princípios aprendidos desde a infância.

O Estágio em Contextos Psicossociais

O estágio foi realizado no Centro Comunitário Pedro Cantelli, localizado na Avenida Maceió, nº 476, bairro Nova Pimenta em Pimenta Bueno-RO. O centro oferece atendimento para crianças de 6 a 14 anos somente no período vespertino no horário das 13 às 17 horas, de segunda à quinta, propondo atividades lúdicas todas as tardes.

A imagem que o centro comunitário passa é de um ambiente acolhedor, onde, apesar das dificuldades em melhorar a estrutura física, os funcionários fazem o possível para tornar aquele lugar acolhedor para as crianças, que para aquelas que não tenham com quem ficar à tarde, o espaço lhes proporcione alegria, divertimento e recreação.

Nota-se que o sentimento de pertença ao lugar é grande, logo, é uma comunidade onde as crianças gostam de passar suas tardes, e das atividades que, por mais simples que sejam, trazem grande alegria ao seu dia. No começo do estágio havia 12 crianças matriculadas e frequentando o centro, e ao longo dos meses, foram sendo matriculadas mais crianças.

É no salão e no espaço gramado ao ar livre onde acontecem todas as atividades. Brincadeiras como amarelinha, lenço atrás, morto vivo, pular corda, futebol, queimada, circuito improvisado com pneus e atividades livres, são atividades que pude observar. Incluindo também, leitura individual, atividade de desenhar e brincadeira de casinha, ou o que a imaginação das crianças mandar.

Toda sexta-feira, é o dia de planejamento, a gerente junto com a educadora faz um cronograma com as atividades a serem realizadas na próxima semana. Sendo que, atualmente a segunda-feira é o dia em que estagiárias do curso de psicologia da FAP – Faculdade de Pimenta Bueno, realizam atividades. Às terças-feiras, nos dois primeiros horários, o rapaz voluntário também comparece para desenvolver atividades com as crianças. Assim, nesses dias, quando surge algum imprevisto, a gerente direciona alguma atividade improvisada para as crianças.

A partir do que foi observado no contexto psicossocial, nesse período do estágio pôde-se obter muitas informações sobre como é construída a relação social no dia a dia, no interior do centro comunitário observado, onde se dá a convivência dessas crianças que o frequentam.

O índice de agressividade neste ambiente apresenta-se alto, ressaltando que ainda são crianças de 6 a 14 anos, e estas deveriam mostrar respeito, e se tratarem com mais afabilidade. Por esses motivos, é de suma importância que esta instituição receba apoio, seja de outras instituições públicas ou privadas, para revitalização das atividades oferecidas.

Nos dias que o voluntário e nem as estagiárias realizam atividades no Centro Comunitário, as funcionárias passam alguma atividade lúdica, citadas anteriormente neste relatório. Logo, em geral, o que as crianças mais fazem é brincar, poderia ser feito algo mais com este tempo além do brincar. Não se trata de querer tirar o momento lúdico, mas inserir projetos e parcerias, para que se possa utilizar esse espaço, para desenvolver a cidadania, o senso de responsabilidade, educação e respeito, que se incutidos desde a infância, esses indivíduos crescerão com esses valores internalizados, e se tornarão melhores pessoas no futuro. 

Proposta de Intervenção

Criação de um projeto, visando parcerias para se obter instrutores, como da Polícia Militar, Bombeiro Militar, acadêmicos da FAP – Faculdade de Pimenta Bueno, e demais instituições que puderem colaborar com voluntários. Montar instruções voltadas a abordar assuntos como, ética, disciplina, respeito, higiene, cidadania, liberdade econômica, introdução ao mercado de trabalho, artes, entre outras. E ainda, treinar as crianças, para que quando atinjam a idade de 14 anos, que é a idade máxima para frequentar o centro, possam realizar um trabalho voluntário como monitores das atividades desenvolvidas.

Justificativa

A entrada de jovens no mundo do crime e das drogas é cada vez maior, segundo Uribe (2013), “o envolvimento de menores com o tráfico de drogas é apontado por especialistas em segurança pública como um dos maiores responsáveis pelo aumento nos últimos anos da entrada de crianças e adolescentes no mundo do crime”. Sendo a grande maioria desses jovens, moradores da periferia, que diante das circunstâncias, têm um contato mais facilitado com esses fatores. Onde crianças presenciam com mais facilidade jovens fazendo o uso de substâncias entorpecentes, e isso desperta curiosidades. A violência e agressividade também se encontram muito presentes nesses ambientes.

Ainda sobre a participação de crianças e adolescentes na criminalidade, Lima (2009, p. 2), cita que:

A criminalidade é um dos problemas sociais mais graves que a população brasileira enfrenta atualmente. A mídia diariamente relata fatos ocorridos com cidadãos que foram vítimas de roubos, furtos, violência física. Diante desta realidade, é notário o aumento da participação de adolescentes, e até de crianças, como protagonistas nesse cenário cada vez mais emergente do crime.            

Assim, é de extrema importância trazer para as crianças um projeto com aulas/instruções, que possam oferecer a elas uma melhora em seu comportamento, principalmente em relação ao desrespeito e a agressividade, que como foi visto, o desrespeito é o principal precursor que leva à violência. Pois como citado por Salomão (1500 a.C.) “Ensine a criança a andar no caminho do bem, e quando ela for adulta jamais se desviará desse caminho”.

Objetivos

Geral:

Este plano de trabalho tem como objetivo favorecer o surgimento de mobilização para se conseguir parcerias e se desenvolver um projeto a longo prazo.

Específico:

Criação de um quadro de aulas/instruções com temáticas a serem definidas pela equipe de funcionários e voluntários.

Método

Diante desta temática, propõe-se a implantação de um projeto que proporcione aulas ou instruções, que abordem os temas citados mais acima, pois todas as crianças de todas as faixas etárias precisam de bons modelos de comportamentos e atitudes, incluindo disciplina e respeito, e ainda, de exemplos, de que quando se age da maneira correta, terá bons resultados em sua vida.

O método a ser utilizado nesta proposta será o de planejamento, primeiramente do projeto, e a partir do quadro de voluntários participantes, planejar as aulas/instruções que serão oferecidas às crianças. Dentro de um quadro de aulas semanais, a serem definidos os horários.          

Recursos Utilizados

O recurso de que mais se necessita, é o de mais pessoas, profissionais, voluntários que doem um pouco de seu tempo para realizar o projeto.

Materiais como, um notebook, um telão branco, um aparelho data show, uma extensão, uma impressora, folhas sulfites, lápis e canetas.

Cronograma De Execução

Ações

Jul

Ago

Set

Out

Nov

Planejamento e elaboração do projeto

X

 

 

 

 

Formação de parcerias

 

X

 

 

 

Analisar e propor os recursos necessários

 

X

 

 

 

Início das atividades

 

 

X

 

 

Avaliação da melhora no comportamento social

 

 

 

X

 

Exposição dos resultados obtidos nesse meio tempo

 

 

 

 

X

Discutir a importância de esse trabalho persistir sempre

 

 

 

 

X


Estratégias e Intervenções

Adulis (2002) define que, o processo de criação e avaliação de um projeto social, envolvem as seguintes atividades: planejamento, desenho do processo de avaliação, levantamento de dados, sistematização e processamento de dados, análise das informações, elaboração de relatórios com os resultados encontrados e recomendações e disseminação e uso das conclusões junto a diferentes públicos. 

Dentre todas as etapas, a de planejamento é a mais complexa de todo o processo, não apenas porque envolve questões metodológicas e decisões estratégicas, que demandam tempo e energia dos gestores, mas também porque, se realizada de forma inadequada, pode comprometer as demais etapas do processo (ADULIS, 2002 p. 2).

Planejar um projeto, uma aula, seja que situação for, é a chave para se alcançar os objetivos almejados, e quando não se tem tantas pessoas disponíveis, pode-se solicitar parcerias de outras instituições, públicas ou privadas, para se realizar tal projeto com êxito. Quando há pessoas envolvidas, com satisfação em realizar uma ação, os resultados serão gratificantes.

No primeiro momento, deve-se buscar as parcerias com voluntários, como, um policial militar para trazer instruções de ordem, disciplina e respeito, um bombeiro militar trazendo instrução de primeiros socorros e segurança, psicólogo ou acadêmicos de psicologia, para abordar temas sobre saúde mental, malefícios das drogas e etc., um voluntário que possa ensinar música ou teatro, enfim temas que sejam de fundamental importância, e também temas voltados ao âmbito cultural, que poderão desenvolver senso de responsabilidade nas crianças. Depois de conseguidas as parcerias, montaria um plano de ação, e o projeto.

A longo prazo espera-se a diminuição de agressividade, um aumento de respeito entre as crianças, e também para com os adultos, e que além de se sentirem pertencentes a este local, tenham um sentimento de orgulho de poderem, quando ultrapassado a idade de frequentarem como usuários, possam vir a ser ajudantes e monitores nas atividades realizadas.

Acredita-se que esta é a alternativa mais viável para se trabalhar a questão das relações, principalmente o alto índice de agressividade que há ente as crianças, e para aumentar o respeito que deve haver entre todos, principalmente da criança direcionado ao adulto. Uma vez que se tratam de crianças, estas tendem a repetir, ou imitar os comportamentos e atitudes que presenciam em seu dia a dia, e com essas instruções citadas a cima, tem se o objetivo de trazer um ambiente regrado, com respeito, disciplina, e também cultural.

Considerações Finais

O estágio no Centro Comunitário Pedro Cantelli proporcionou uma grande experiência e oportunidade de ver e conhecer a rotina que se apresenta neste local em seu contexto psicossocial, e também ainda, de correlacionar com o que foi aprendido na teoria em sala de aula, a respeito da psicologia social. Durante o período de estágio foi possível fazer o gancho entre teoria e pratica de tal forma que grande parte do mistério da atuação nesse campo se desfez.

Apesar dos empecilhos que enfrenta e dificuldades de obter recursos, esta instituição faz o possível para acolher as crianças que frequentam o local, e as fazem se sentirem pertencentes a este meio social. O centro tem uma grande importância no contexto em que se encontra, sendo localizado em um bairro periférico, o local apresenta grandes desafios para se realizar um trabalho efetivo com estas crianças, pois apesar de passarem o período da tarde neste local, não se tem controle com o que elas se envolvem nos outros períodos, espera-se que no período matutino, todos frequentem a escola, porém más influências podem estar por perto, a partir de relatos entre as próprias crianças, ouvidos durante o estágio de observação.

O estágio oportunizou também, a visão de como é se trabalhar em um centro comunitário, nesta área da psicologia que trabalha diretamente com a interação entre os indivíduos em um meio social.

Sendo assim, espera-se com os trabalhos da sugestão de intervenção propostos, atingir a satisfação das necessidades acima e contribuir com a promoção da saúde, principalmente mental, e da interação social dessas crianças, que se serão o adulto de amanhã.

Sobre os Autores:

Karoline dos Santos Nava - Acadêmica do 8º período de Psicologia, na Faculdade de Pimenta Bueno.

Silas Rosa Júnior - Psicólogo Especialista Docente Supervisor do Estágio Supervisionado IV

Referências:

ADULIS, Dalberto. Apoio à Gestão. Rio de Janeiro; Site da RITS, 2002 - clam.org.br

CORRÊA, Edson José; SENA, Roseni Rosângela de. Planejamento e elaboração de projetos para grupos comunitários. 2. ed. Belo Horizonte: NESCON – Núcleo de Educação em Saúde Coletiva, Série Nescon de Informes Técnicos, nº. 4, 2009.

LIMA, Magna Simone Albuquerque. O mundo da criminalidade e os jovens. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XII, n. 68, set 2009. Disponível em: <http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=6727&revista_caderno=12> Acesso em 16 jun. 2018.

RODRIGUES, Aroldo; ASSMAR, Eveline Maria Leal; JABLONSKI, Bernardo. Psicologia social. 30. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

SILVA, Danielly Priscila Serpa da et al. Empreendedorismo Social: proposta de um modelo de elaboração de projeto social. VIII Simpósio de Excelência em Gestão e Tecnologia, 2011.

URIBE, Gustavo. Cresce participação de crianças e adolescentes em crimes. São Paulo, 2013. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/cresce-participacao-de-criancas-adolescentes-em-crimes-8234349>. Acesso em 16 jun. 2018.

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