Religião, Moral, Cultura, Política e Sexualidade

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Resumo: Escolheu-se a igreja como instituição a ser pesquisada, assim como o seu significado na vida das pessoas que a frequentam; quais as relações entre a religião, a moral, a cultura, a política, a sexualidade das pessoas e suas escolhas ao longo da vida. A igreja, tanto a católica como as outras linhas religiosas, possuem muitas normas, ou melhor, dogmas: os dogmas religiosos, os quais seus fiéis devem seguir obedientemente. Haveria, portanto, uma ligação bastante estreita entre a pertença religiosa e os comportamentos tanto sexuais, morais e culturais que se teria no curso da vida. Nossa pesquisa, através de observações participativas com o grupo de jovens já citado e através de questionário, contendo 27 questões e sendo respondidas de forma dissertativa, pôde chegar a algumas conclusões.

1. A Igreja, suas Leis e seus Atravessamentos na Vida dos Indivíduos

A definição e compreensão da bíblia e dos ensinamentos que ela contém seriam progressivas, necessitando sempre da orientação do Magistério da Igreja Católic. Esta fé levaria à conversão das pessoas e à prática das boas obras (que nos afastariam do pecado e nos ajudariam a crescer na caridade), sendo que o ato de amar a Deus acima de todas as coisas e também o de amar ao próximo como a si mesmo seriam os mandamentos mais enfatizados. Segundo os fiéis, estes dois atos virtuosos são justamente os mandamentos de amor que Jesus deu aos seus discípulos e à humanidade. A igreja católica, assim como muitas outras, como por exemplo, as igrejas protestantes, pregam também que quem quiser fazer parte do “Reino de Deus” teria de nascer de novo, se arrepender dos seus pecados, se converter e se purificar e que Jesus teria ensinado que o poder, a graça e a misericórdia de Deus eram maiores que o pecado e todas as “forças do mal”, insistindo por isso que o arrependimento sincero dos pecados e a fé em Deus poderiam salvar os homens. Este misterioso “Reino de Deus”, segundo algumas religiões, como o catolicismo, só irá se concretizar na sua plenitude no fim do mundo, mas já está presente na Terra através da igreja.

A igreja, tanto a católica como outras linhas religiosas, possuem muitas normas, ou melhor, dogmas: os dogmas religiosos, os quais seus fiéis devem seguir obedientemente. Alguns mandamentos da igreja: participar da missa inteira aos domingos e festas de guarda; confessar-se ao menos uma vez por ano (ou no máximo até um ano após ter consciência de pecado mortal); comungar (nome dado ao ato pelo qual o fiel pode receber a sagrada hóstia sozinha, ou acompanhada do vinho consagrado, especialmente nas celebrações de Primeira Eucaristia e Crisma) ao menos pela Páscoa da Ressurreição; jejuar e abster-se de carne quando manda a igreja (estão obrigados à lei da abstinência de carne ou derivados de carne aqueles que tiverem completado quatorze anos de idade; estão obrigados à lei do jejum - uma só refeição normal ao dia, e apenas mais dois pequenos lanches - os maiores de idade, desde os dezoito anos completos até os sessenta anos começados); contribuir com o Dízimo segundo está escrito na Bíblia Sagrada.

A prática da Igreja Católica consiste em sete sacramentos:

  • Batismo;
  • Confissão;
  • Eucaristia;
  • Confirmação ou Crisma;
  • Sagrado Matrimônio;
  • Ordenação;
  • Unção dos Enfermos.

A Igreja tem uma estrutura hierárquica de títulos que são, segundo suas regras, em ordem descendente de Jesus Cristo:

  • Papa, o bispo de Roma. Os que o assistem e o aconselham na liderança da igreja são os Cardeais;
  • Bispo, Arcebispo e Bispo Sufragário, os sucessores diretos dos doze apóstolos. Receberam o todo das ordens sacramentais;
  • Padre (Monsenhor é um título honorário para um padre, que não dá quaisquer poderes sacramentais adicionais);
  • Diácono.

A Igreja Católica e a Ciência sempre discordaram e continuam a discordar em questões mais teológicas relacionadas com a infalibilidade e a autenticidade da Revelação divina contida nas Escrituras e na Tradição oral (pregações); com a negação da existência de Deus e da alma (e da sua imortalidade); com os momentos exatos do princípio e do fim da vida humana; e com as implicações éticas da clonagem, da contracepção e fertilização artificiais, da manipulação genética e do uso de células-tronco embrionárias na investigação científica.

Algumas considerações da Igreja Católica sobre temas específicos:

Sexo: considera o sexo uma dádiva divina e condena atos como masturbação e pornografia. A inseminação artificial é considerada imoral, tal como qualquer forma de planejamento familiar que não seja a continência periódica e o recurso aos períodos infecundos. A Igreja Católica condena o sexo antes do casamento. Segundo a igreja, o sexo é instrumento divino e abençoado por Deus que concede aos casais o poder da vida e por isso precisa da devida bênção divina, que é dada no ato do casamento. Ela é contra todos os métodos contraceptivos exceto a castidade. Por conseqüência, também se opõe ao uso do preservativo e à pílula. Essa posição é criticada mesmo por alguns membros da própria igreja que alegam que representa risco à saúde da sociedade perante as DST’s e um aumento das situações de gravidez indesejada. Porém, para a igreja, a fidelidade no casamento, a castidade e a abstinência são os melhores meios de impedir o avanço do HIV Aids. Ela considera que promover o uso de preservativos incentiva o que julga um estilo de vida imoral. Para os críticos dessa posição, esta representa um comportamento que contribui para o alastramento da doença;

Homossexualidade: considera atos homossexuais como moralmente errados. Entretanto, para ela, ter tendências homossexuais não é considerado algo pecaminoso. De acordo com a igreja, o pecado está em ceder a essas tendências e adotá-las na prática. Na mesma linha, a igreja repudia qualquer reconhecimento legal das uniões entre pessoas do mesmo sexo tendo-os identificado como (citações durante o ano de 2006): teoria obscura, loucura, ataque violento contra a família e o matrimônio tradicional, forma de ofuscar ou suplantar a família, ataque diabólico para eliminar as famílias, uma transgressão, uma falsa liberdade, entre outras. Em 2005 o acesso ao sacerdócio na igreja passou a ser explicitamente negado a quem tenha tendências homossexuais profundas ou apoie a cultura gay mesmo que não pratique a homossexualidade. No entanto, tal regra não se aplica aos padres já ordenados;

Aborto: o aborto é decididamente condenado pela Igreja Católica, que alega que o direito à vida, consagrado na Bíblia, é o mais importante e deve ser respeitado em qualquer circunstância;

Pesquisas com células-tronco > ela é contra as pesquisas usando células-tronco embrionárias. Nos métodos utilizados atualmente para a pesquisa necessita-se utilizar embriões recém-formados, o que para a igreja é pecaminoso, pois ela considera que o início da vida se dá no instante da fecundação, visto que, de acordo com seus preceitos, a vida não pode ser tirada de qualquer forma. A Igreja Católica não se opõe ao uso de células-tronco adultas pois, de acordo com ela, estas células podem ser obtidas sem a necessidade de se tirar a vida de um ser humano;

Ordenação de mulheres > a posição católica oficial e histórica é a de que as mulheres não podem ser padres ou bispos devido à doutrina de sucessão apostólica. Segundo a igreja, os padres e os bispos são sucessores dos apóstolos e, uma vez que Jesus Cristo escolheu apenas homens para o seu grupo de doze apóstolos, só homens podem se tornar padres ou bispos.

Alguns fenômenos sócio-comportamentais, como a queda na estimativa do número de fiéis católicos, são relevantes para nossa pesquisa. Tem-se observado, principalmente nas Américas e em parte da Europa, o desinteresse frequente da população com relação à Igreja Católica. Um reflexo disso é o aparecimento de grande número de pessoas que se intitulam católicos não-praticantes. Segundo o “G1” do site “globo.com”, um registro de 1872 revela que os católicos representavam 99,72% dos brasileiros. O percentual foi caindo com o tempo. A queda se acelerou na década passada: de 83% para 73%. No Censo 2000 feito pelo IBGE, 40% dos que responderam ser católicos no Brasil diziam ser "não-praticantes". Esses indivíduos geralmente discordam de políticas severas da igreja quanto ao uso do preservativo sexual, o divórcio,uniões estáveis entre heterossexuais, união entre homossexuais e o aborto. A prática de "ficar", comum entre os jovens brasileiros, por exemplo, foi declarada em 2007 como algo próprio de "garotas de programa" pelo secretário-geral e porta-voz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Dimas Lara Barbosa, segundo “O Globo”.

Segundo uma pesquisa realizada pela politóloga Janine Mossuz-Lavau com mulheres mulçumanas na França, estas são as que se casam em maior número, enquanto as sem religião encontram-se mais na situação de amigadas, como se o fato de não ter de se submeter a normas religiosas autorizasse escolhas mais diversificadas.

Em relação à idade da primeira relação, a religião desempenharia um papel importante na determinação do momento em que se inicia a vida sexual: as sem religião dão provas da maior precocidade sexual, pois 25,9% tiveram sua primeira relação sexual aos 15 anos ou menos, contra 6% das protestantes, 7,8% das muçulmanas e 19,5% das católicas. O fato de estar afastada da religião poderia levar a negligenciar os interditos que ainda podem pesar contra a sexualidade das mais jovens. Para aquelas que tiveram relações sexuais, ainda de acordo com o artigo, a idade média da primeira relação se eleva a 18 anos entre as católicas, 17,9 anos para as protestantes, 19,6 anos para as muçulmanas e 16,8 anos para as sem religião. Quanto a pouca idade das sem religião, isso remete à relação já citada que pode existir entre desafeição em relação à religião e liberalismo cultural. Uma jovem muçulmana que tem relações sexuais, na maior clandestinidade, com um jovem muçulmano diz que não só não tem prazer nenhum, como também sofre terrivelmente durante e depois das relações. Ela mesma relaciona seu sofrimento com a transgressão representada pelo seu comportamento. Tem-se a impressão, segundo Janine, de que ela se castiga de alguma forma por ter abandonado as regras em vigor na sua religião, não obtendo o que esperava e só experimentando, mesmo, o sofrimento.

Haveria, portanto, uma ligação bastante estreita entre a pertença religiosa e os comportamentos tanto sexuais, morais e culturais que se teria no curso da vida.

Nossa pesquisa, através de observações participativas com o grupo de jovens já citado e através de questionário, contendo 27 questões e sendo respondidas de forma dissertativa, pôde chegar a algumas conclusões.

Pudemos observar que a formação da personalidade de uma pessoa que possui uma religião está em total correspondência com seu substrato religioso vigente. As crenças religiosas influenciam sobremaneira no desenvolvimento psicológico e na formação da personalidade dos indivíduos.

2. Resultados e Discussão

Nosso estágio básico consistiu em pesquisar, com observação participativa, algumas práticas psi na comunidade local da cidade de Assis-SP.

Buscou-se, então, um grupo, cujas características marcantes, fossem interessantes para a nossa pesquisa. Após conhecermos algumas instituições, decidimos por uma: a igreja. Precisávamos selecionar um tema mais específico para que este fosse enfim pesquisado. O tema desse projeto foi escolhido por se tratar de uma instituição que, acreditamos, influencia muito na vida das pessoas que a seguem, principalmente no âmbito da moral, cultura, política e sexualidade. Visitamos a Comunidade Restauração e conhecemos um grupo de jovens, com idades entre 18 e 22 anos, que nos convidou a participar de reuniões quinzenais, realizadas na casa de um deles aleatoriamente e sempre no comando de seu líder, um homem adulto.

Essa Comunidade está ligada à Renovação Carismática Católica (RCC), que é um movimento católico surgido nos Estados Unidos em meados da década de 1960. Segundo seus seguidores, esse movimento é voltado para a experiência pessoal com Deus, particularmente através do Espírito Santo e dos seus dons, além de buscar dar uma nova abordagem às formas de evangelização e renovar práticas tradicionais dos ritos e da mística católicos. No Brasil, o movimento tomou força através da Canção Nova, Comunidade de Vida e Aliança criada pelo então Padre Jonas Abib (hoje Monsenhor) na cidade de Cachoeira Paulista para dar uma nova abordagem a temas polêmicos e morais e renovar conceitos já antigos da religião católica.

Dentre os colaboradores, 6 são mulheres, entre 17 e 27 anos e somente 1 é homem, de 27 anos; a maioria (71, 43% aproximadamente) freqüenta a igreja desde criança, levadas pelos pais e todos têm uma família religiosa, mas 42, 86% aproximadamente não admitem nenhum tipo de influência em sua decisão de seguir a religião. Todos, sem exceção, confessaram que, caso passassem a não freqüentar mais a igreja, suas famílias se sentiriam em choque, perplexas, decepcionadas, contrariadas, tristes, o que mostra a grande influência familiar, mesmo que não sentida nitidamente por esses jovens, em suas condutas e atitudes em relação a seguir a sua religião.

Em relação ao sexo antes do casamento, somente uma pessoa mostrou seu consentimento a esse ato, chamando-o de “normal” e que se deve se prevenir sexualmente. Todas as outras pessoas o julgaram como “errado” ou “contra a religião” e que as pessoas que o praticariam antes do casamento deveriam “parar”, “tentar mudar”, “se segurar”, “pedir perdão a Deus e se arrependerem”. E isso porque, para eles, o sexo tem que ser feito com amor e com fins reprodutivos, não tendo mais ligação entre sexo e prazer do que entre sexo e amor. O que fica claro na questão que pergunta se existe relação entre amor e sexo, onde a maioria (71, 43% aproximadamente) respondeu que sim, que o sexo só deve ser feito por amor. O uso dos métodos contraceptivos foi unanimemente apoiado, mas como forma de se prevenir doenças (pois, segundo eles, não se pode saber tudo o que o parceiro/a fez antes de se conhecerem) e para planejamento familiar, mas tudo dentro do casamento, pois, como já foi mostrado, a grande maioria não admite sexo fora do matrimônio. Para 28, 58% dessas pessoas, o indivíduo age bem em confiar em seu parceiro e não usar o preservativo, pois a promessa no altar deve falar mais alto, o que contraria a resposta de apoio unânime ao uso dos métodos contraceptivos. Todos, ao serem questionados sobre como se sentiriam, se considerássemos que fizeram sexo antes do casamento, responderam: “hipócrita”, “suja”, “com a consciência pesada”, “ninguém quereria se casar comigo”, “que fiz algo errado”, “pecando”, “arrependimento”, “mal”, com exceção de uma pessoa, a qual respondeu que não se sentiu mal, pois a pessoa com quem teve relações sexuais foi a mesma com quem se casou, ou seja, seu alívio por ter traído os princípios bíblicos seria o fato de ter se casado com o parceiro com quem fez sexo. Segundo NUNES, 2008, a igreja “propõe o controle da sexualidade e da reprodução como função básica da religião”.

O casamento seria, para eles, essencial, pois ao serem indagados sobre o significado dele ninguém respondeu que poderia ser uma escolha de cada um, um estilo de vida, uma opção, etc., mas sim uma “união”, “o sonho de construir uma família”, “se completar”, “amor”, “faz o homem e a mulher felizes” e “cumprir uma ordenança de Deus”. Acreditamos que exista uma construção social das religiões, atravessadas pelas relações de gênero, classe e raça. As religiões têm, explícita ou implicitamente, em sua prática institucional e histórica, uma visão que estabelece e delimita os papéis masculinos e femininos. O fundamento dessa visão encontra-se em uma ordem não humana, não histórica, e, portanto, imutável e indiscutível, por tomar a forma de dogmas. O que pode ser visto no objetivo de todos os colaboradores desse grupo de jovens católicos de se casarem e construírem uma família, pois na questão que abordou o tema da possibilidade de não encontrarem um parceiro/a com as características esperadas para a concretização de um casamento responderam que “esperaria em Deus”, “o casamento não é determinado pelas características dos parceiros e sim pelo amor”, “continuaria procurando”, “teria esperança”, “entregaria a causa a Deus”, “sentiria triste”, ou seja, nenhum deles se mostrou aberto à possibilidade de serem felizes fora de um casamento, pois esse seria uma das metas de vida de todo cristão. Em relação à submissão da mulher ao homem, como um dos princípios básicos do casamento, segundo a bíblia, todos, sem exceção responderam concordar com a necessidade de a mulher ser submissa ao homem, porém, de forma diferente do que acontecia em famílias de épocas passadas, ou seja, “submissão com moderação”. “A civilização do controle e do medo instaurada pelo cristianismo, associada à repressão do prazer e à suspeita sobre o sexo, é inseparável da desvalorização simbólica e social das mulheres. As diferenças biológicas, constantemente invocadas, validam a atribuição das mulheres à esfera doméstica, reafirmando a legitimidade de sua exclusão da esfera pública e reiterando sua inferioridade social e política. ‘Nos primeiros séculos da Igreja’, segundo Michelle Perrot, ‘[...] predomina a representação da mulher como fonte de pecado, da sexualidade como eterna tentação, assim como do casamento como um estado inferior. Em que medida estes dados fundamentais mudaram? É o que se pergunta muitas vezes, diante do rigor das posições atuais da Igreja. [...] Por que esta obsessão, e mesmo este ódio da carne, da sexualidade, e esta profunda desconfiança da mulher no cristianismo? Desconfiança que informou toda a cultura ocidental judaico-cristã. Por que a sexualidade é, hoje, uma linha de defesa e de afirmação da Igreja, notadamente por parte de João Paulo II? [...] Tudo se passa como se a Igreja tivesse investido o sagrado na moral sexual, colocado o sexo no coração do religioso, para responder a esta religião do sexo que invade a sociedade contemporânea’”; “quando essas mulheres reconhecem seu direito a uma realização pessoal que não passa pela ‘doação aos outros’, mas pela busca de uma felicidade referida a si mesmas, elas se contrapõem ao modelo cristão que define o bem e o mal. Recusam o gozo postergado, resultado do sacrifício assumido como passagem obrigatória” e “Danièle Hervieu-Léger (2003) chama a atenção para essas representações de si, para a afirmação da necessidade de realização pessoal, distantes da cultura católica e que se impõem sempre mais fortemente nas sociedades contemporâneas, como parte dos direitos de cada pessoa” (NUNES, 2008).

Todos, ao serem questionados sobre o preconceito, se mostraram contra ele e alguns afirmaram não possuírem nenhum tipo de preconceito. Uma pessoa chegou a dizer que o preconceito seria “falta de conhecimento no assunto” e outra “julgar as atitudes das pessoas mesmo sem tentar entender”. Porém, quando indagados sobre a homossexualidade, todos os jovens desse grupo responderam serem contra ele: “cada homem e cada mulher tem a sua função”, “uma pouca vergonha”, “não sou a favor”, “é um distúrbio de personalidade, desvio de caráter”, “errado”, com exceção da moça que está na igreja há 7 anos, que disse que acha “normal”, pois tem vários amigos, do que se pode inferir que tenha essa posição diante da homossexualidade por não ter sido educada desde criança dentro dos princípios religiosos e passando a seguir os preceitos bíblicos desde que tinha 12 anos, ou seja, até essa idade pode ter convivido com pessoas que não seguiam o cristianismo e pode ter passado por experiências de vida fora de uma igreja, sem precisar seguir os dogmas cristãos, podendo ter tido a possibilidade de fazer amizades com pessoas com qualquer orientação sexual, adquirindo a idéia de que qualquer orientação sexual é “normal”. O que também é mostrado pela crença de todos esses jovens na transformação do homossexual em heterossexual e no caráter assertivo em relação à igreja não aceitar que duas pessoas do mesmo sexo se amem e fiquem juntas, com exceção dessa moça, a qual não acredita nessa transformação de orientação sexual e nem concorda com essa postura da igreja, acreditando sim que os homossexuais possam se amar verdadeiramente. A sua amizade com pessoas homossexuais, seu carinho e afeto por eles, podem, sobremaneira, ter influenciado seu posicionamento não-preconceituoso em relação às pessoas que têm essa orientação sexual. Isso nos revela uma enorme e significativa contradição de idéias, que passa despercebida, ao se intitular uma pessoa não preconceituosa, ao afirmar que o preconceito é falta de entendimento, julgamento equivocado, etc., e em seguida ir contra a orientação sexual diferente da deles. A falta de conhecimento no assunto é realmente notável na questão sobre como seria determinado o sexo de uma pessoa, onde a grande maioria (85, 72%) respondeu “pelos órgãos genitais”, com exceção de uma jovem que afirmou ser pela criação da família e sociedade. Fica-nos bastante óbvio o cruzamento entre gênero e religião.

Em relação à postura desses jovens católicos diante do consumo de álcool, cigarro e drogas, todos são contra esse costume, com exceção de algumas poucas pessoas que não se importam em beber com moderação. Acreditam que “tudo o que prejudica o corpo é errado” e que seriam formas de “fuga dos problemas e da vida real”, afirmando participarem de festas, mas com algumas condições: “festas que não me impeçam de colocar meus princípios em prática” ou “não vejo problemas, mas o problema é o que você faz de errado em um lugar como esse” ou ainda “evito beber”. 28,58% admitiu não freqüentar baladas ou bares e nem agir de modo diferente do pregado pela igreja, em nenhuma circunstância. “As instituições religiosas continuam produzindo grupos e espaços para jovens onde são construídos lugares de agregação social, identidades e formam grupos que podem ser contabilizados na composição do cenário da sociedade civil. Fazendo parte destes grupos, motivados por valores e pertencimentos religiosos. (...) Neste contexto, a religião torna-se um fator de escolha em uma sociedade que enfatiza inúmeras possibilidades de escolhas, mas reduz acessos e oportunidades” (NOVAES, 2004).

“Vários mecanismos têm sido propostos e investigados em relação a como a religiosidade agiria positivamente sobre a saúde mental. É possível que um conjunto de fenômenos distintos aja em sinergismo (com cooperação, coletivamente, em esforço simultâneo): o apoio social dos grupos religiosos, a disponibilidade de um sistema de crenças que propicia sentido à vida e ao sofrimento, o incentivo a comportamentos saudáveis e regras referentes a estilos de vida propiciadores da saúde (relacionados à alimentação, ao uso de substâncias, ao comportamento sexual, à criação dos filhos, etc.)” (DALGALARRONDO, 2006). Esse pensamento é confirmado por esses jovens que acreditam que a religião possa ajudar na qualidade de vida de uma pessoa, como seu bem-estar físico e mental, pois segundo eles mesmos, “se nasce de novo”, “sem Deus não conseguimos nada”, “direciona atitudes, decisões e pensamentos”, “proporciona saber o certo e o errado e as conseqüências antes mesmo de agir” e “ela é formadora de opinião, caráter e conduta de vida”.

De acordo com Karl Marx, "a religião é o ópio do povo" e uma nova pesquisa com esse tema específico poderia nos mostrar que o afastamento da religião pode vir acompanhado de um processo de crescimento, pois, a religião, acreditamos, traz consigo restrições obsessivas. E isso pela sua natureza irracional dessas crenças. Porém, esta perspectiva negativa relativa à religião não se baseia em pesquisas sistemáticas, mas sim nas opiniões pessoais desses jovens católicos e em nosso pouco tempo de observação participativa, o que deixa-nos claro a necessidade de aprimorar essa pesquisa futuramente.

Por agora, podemos concluir que a igreja considera que as pessoas não são autônomas, exatamente porque os direitos humanos são relacionados com Deus. A teologia moral católica parece insistir nos deveres e não nos direitos do ser humano (NUNES, 2008). E isso fica muito bem claro na falta de argumentação desses jovens que baseiam todas as suas atitudes, pensamentos, condutas, comportamentos, decisões, desejos, objetivos e até mesmo seus sentimentos mais íntimos em uma única fonte: a bíblia. Podemos observar a grande falta de conhecimentos mais ampliados para outras fontes de argumentação que não seja a bíblia, ficando totalmente restritos a ela e com uma enorme lacuna de seus pensamentos e idéias em relação ao conhecimento do ser humano e do mundo atual, em nosso contexto histórico, político e social em que vivemos. “Se a base das idéias cristãs se encontra na afirmação de Deus como causa primeira e fundamento último, o pensamento científico e a lei moderna apóiam-se no contrato social e num certo conceito de razão - o que descarta apelos à divindade. ‘Neste esforço de construção científica e legal emerge um novo ser humano: o indivíduo e sua consciência, senhor de si, de seus juízos e de suas decisões’ (Idem, p. 29). O ‘ser humano’ nascido da Reforma protestante deve obedecer unicamente à sua consciência.

Para o cristianismo, toda liberdade é um dom de Deus, não é inerente ao indivíduo e não é fonte de direitos. ‘Ao contrário, todos os esforços do espírito moderno tenderão a abolir esta arbitrariedade e libertá-la, oferecendo à natureza humana algo que até então dependia de uma ordem superior’ (Idem, p. 32)” (NUNES, 2008).

Enfim, acreditamos que toda e qualquer religiosidade surge em contextos históricos, socioeconômicos, políticos e culturais específicos e tem, portanto, sentidos específicos para cada um desses contextos. Ela é, desta forma, intrinsecamente uma dimensão social e cultural da experiência humana. Assim, é de se esperar que diferentes formas de religiosidade, em distintos contextos sociais e culturais, tenham significações e implicações diferenciadas para a vida das pessoas e sua subjetividade. O que lamentamos é a precariedade das ideias sobre as formas de se viver que a maioria das pessoas religiosas apresentam, pois parece que tudo se passa como se essa religião em que crêem e que praticam fosse o seu único quadro de referência, não estivesse em concorrência com outros sistemas de valores e determinasse, portanto, seus comportamentos, pensamentos e desejos.

Sobre o Autor:

Fernanda Querino Pernica - Psicóloga. Aluna do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Jurídica da Universidade do Oeste Paulista (UNOESTE), Presidente Prudente. Endereço para correspondência: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

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NUNES, M. J. R. Gênero e religião. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 13, n. 2, maio/agosto, 2005.

RAMADAM, Z. B. A. Religião, psicopatologia & saúde mental - Paulo Dalgalarrondo, Editora Artmed, Porto Alegre, 2008. Revista de psiquiatria clínica, São Paulo, v. 35, n. 3, 2008.

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