Sociedade Contemporânea Disciplinar: o pensamento Filosófico de Michel Foucault - uma abordagem a partir do livro, Vigiar e Punir

Sociedade Contemporânea Disciplinar: o pensamento Filosófico de Michel Foucault - uma abordagem a partir do livro, Vigiar e Punir
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Resumo: A sociedade, em que o ser humano está inserido, está em constante mudança, onde os valores as normas, as leis e costumes se alteram. Essas transformações, na ordem social, que ocorrem hoje, podem alterar radicalmente o amanhã, podendo trazer efeitos e consequências positivas e negativas. Nesse sentido, o papel do pensamento filosófico é de compreender a construção da sociedade contemporânea e assim traçar um prognóstico de sua evolução. Dentre os vários filósofos contemporâneos, Michel Foucault é destacado nesse trabalho na obra “Vigia e Punir” onde é abordada a questão histórica do poder exercida numa sociedade disciplinar numa sociedade de controle.

1. Introdução

Michel Foucault (1926-1984) foi um filósofo francês, contemporâneo, que escreveu livros estudados pela filosofia, história, direito, medicina e outros. Estudou a loucura, a sexualidade, o discurso, a ciência, o poder entre outros. Foucault voltou sua filosofia para a história, inovou incorporando filosofia e história (ARLEI de ESPÍNDOLA, et al. 2011).

Em seu livro "Vigiar e Punir", Foucault argumenta que a disciplina é o poder que se exerce sobre o corpo do indivíduo, transformando-o numa máquina de obedecer, explica como a ontologia do presente está marcada pela questão do poder. Segundo Foucault, a disciplina é interiorizada, fabricando corpos mais submissos e "dóceis", sendo exercida fundamentalmente por três meios globais absolutos: o medo, o julgamento e a destruição.

No livro, ele analisa diversas instituições sociais fazendo uma leitura sobre o poder, sobre a rede de poderes em que vivemos. Foucault entende o poder como uma prática social atrelada ao conjunto de relações sociais. Essas relações de poder não se restringem ao governo, mas a toda sociedade através de um conjunto de práticas essenciais à manutenção do Estado, moldando assim, nossos comportamentos, atitudes e discursos.

Ele fala ainda, a respeito das "instituições de sequestro" ou "instituições disciplinares", sendo necessário sequestrar o indivíduo da sociedade e confiná-lo em alguma instituição, como: escolas, presídios, hospitais, entre outros.

Em "Vigiar e Punir" Foucault tem como foco documentos históricos franceses, mas as questões abordadas no livro são pertinentes para as sociedades contemporâneas. Neste trabalho será abordada a questão do poder e da disciplina, trazendo o princípio abordado no livro para a atualidade. Para isso, trechos do livro foram transcritos visando transparecer o pensamento emitido por Foucault.

2. Desenvolvimento

2.1. O Poder e a Disciplina em Vigiar e Punir

A temática das relações do poder disciplinar é abordada na obra de Foucault, retratando a forma como esse poder era exercido na sociedade. Foucault analisa o poder e a produção do saber exercido pelas relações que se estabelecem em toda sociedade até o século XVIII. Segundo Pereira (2003) a prática da análise do poder e das reflexões em torno do tema é uma constante nas formulações do filósofo. Para Foucault o poder passou a ter uma importância disciplinar quando analisado a prática nas instituições como: prisões, hospitais, escolas, quartéis, em várias esferas da sociedade.

Foucault retrata o surgimento de uma sociedade disciplinar e de controle que se deu pela decadência da sociedade soberana, onde a figura do rei tinha total controle sobre os homens e agia de forma direta sobre o corpo do indivíduo. Em seu livro, Foucault descreveu como o suplício, a dura punição corporal, era utilizado pela sociedade soberana, para controlar a população, entre os séculos XVII e XVIII.

Michel Foucault analisa a passagem da Sociedade Soberana - em que o poder está na mão de um soberano e utiliza a ameaça de morte e a punição como formas de controle - para a sociedade disciplinar e de controle, e a lógica do confinamento - como o presídio, a fábrica, a escola, entre outros - através do modelo panóptico [01] e centralizador do poder e da vigilância de “um” sobre “todos”. Nesse modelo de sociedade não existe mais a figura de um rei, mas de grupos setoriais que vigiam e controlam toda sociedade. Dessa forma, de vigia exaustiva da sociedade, o Estado encontra a melhor forma de manipular o povo.

Historicamente a relação de poder sofreu adaptações onde o controle social passa a ser feito através de um regime de ordens impostas dando origem a uma sociedade disciplinar e de controle. Fatos descritos desta nova forma de "poder disciplinar" nos mostram que as instituições, que passaram a ter uma função disciplinar, foram regidas por leis autoritárias. Pois, mais do que vigiar, era preciso construir um sistema de poder capaz de moldar o indivíduo, transformando em um indivíduo dócil, útil e disciplinado.

 “ (...)O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento das suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, (...)”  (FOUCAULT, MICHEL.1983. p.127)

 

Sendo este poder uma forma de organizar o espaço físico, para melhor controlar “A disciplina procede em primeiro lugar à distribuição dos indivíduos no espaço” (FOUCAUL, 1983. p.130).

Desse modo, o exercício de controle na sociedade disciplinar, surge nos espaços físicos como: escolas, presídios, hospitais, fábricas... Utilizando-se diversas técnicas para a prática do exercício de controle. Nas fábricas, onde se organizava um novo tipo de vigilância, o controle era feito principalmente através das máquinas. Segundo Foucault:

“(...) à medida que o aparelho de produção se torna mais importante e mais complexo, à medida que aumentam o número de operários e a divisão do trabalho, as tarefas de controle se fazem mais necessárias e mais difíceis. Vigiar torna-se então uma função definida, mas deve parte integrante do processo de produção; deve publicá-lo em todo comprimento. Um pessoal especializado torna-se indispensável, constantemente presente, e distinto dos operários(..).” (FOUCAULT, MICHEL.1983. p.157)

Como outra ferramenta de controle, a escrita é utilizada como técnicas documentárias para descrever grupos, caracterizar fatos coletivos e fazer a estimativa dos indivíduos entre si, além da distribuição dos indivíduos numa população.

“Esta transcrição por escrito das existências reais não é mais um processo de heroificação; funciona como processo de objetivação e de sujeição. A vida cuidadosamente estudada dos doentes mentais ou dos delinquentes se origina, como a crônica dos reis ou a epopéia dos grandes bandidos populares, de uma certa função política da escrita, mas numa técnica de poder totalmente diversa.” (FOUCAULT, MICHEL.1983. p.170)

Assim, os aparelhos políticos ou econômicos transmitem as "verdades" que são construídas e o Estado criam mecanismos para vigiar e controlar o povo. A partir da perspectiva apresentada por Foucault, podemos entender que as relações de poder descritas, sejam elas nas instituições, escolas, prisões, hospitais, quartéis, foram marcadas pela disciplina.

"Mas a disciplina traz consigo uma maneira específica de punir, e que é apenas um modelo reduzido do tribunal. O que pertence à penalidade disciplinar é a inobservância, tudo o que está inadequado à regra, tudo o que se afasta dela, os desvios. É passível de pena o campo indefinido do não conforme: o soldado comete uma “falta” cada vez que não atinge o nível requerido; a “falta” do aluno é, assim como um delito menor, uma inaptidão a cumprir suas tarefas. O regulamento da infantaria prussiana impunha tratar com “todo o rigor possível” o soldado que não tivesse aprendido a manejar corretamente o fuzil."(FOUCAULT, MICHEL.1983. p.160)

Com o colapso das antigas instituições imperialistas, houve o fim das instituições de confinamento (disciplinar), e inevitavelmente, o aparecimento de novos dispositivos de controle, onde as ferramentas de controle não foram extintas, junto com a sociedade disciplinar, e sim aperfeiçoadas. Nesse contexto vem surgindo a sociedade de controle.

Na sociedade de controle, a lógica do poder não é regida panopticamente (FOUCAULT, 1983). Essa transição para a sociedade de controle envolve uma subjetividade que não está fixada na individualidade, mas numa forma, na qual todos vigiam todos, O indivíduo não pertence a nenhuma identidade e pertence a todas.

Na sociedade contemporânea a visibilidade passa a ter importância, a vida cotidiana se tornou visível, há uma valorização do homem comum, onde os próprios indivíduos passam a exercer uma auto-vigilância permanente, realizada 24 horas por dia. As novas tecnologias dão uma visibilidade à vida social, propiciando a história do homem comum.

3. A Sociedade Atual / Contemporânea - o poder e a disciplina

As instituições sociais modernas produzem indivíduos sociais muito mais moveis e flexíveis que antes. Porém, há uma lógica disciplinar interiorizada, onde mesmo fora de um local de controle, o indivíduo continua governado por certa lógica disciplinar.

Nesse caminho, da sociedade contemporânea, os mecanismos de vigilância intensificaram-se, onde todos se vigiam e vigiam a si próprio. Os veículos de comunicação de massa contribuem para o funcionamento do mecanismo de vigilância e controle social, sendo esta a forma de tortura moderna.

No episódio Vigilância e dominação, apresentado no programa Fantástico no quadro Ser ou não ser? - programavinculado à emissora de TV local - a psicanalista e psicóloga Viviane Mosé explica que as câmeras espalhadas pelas cidades podem fazer flagrantes durante todo o dia e cita, como exemplo, alguns lugares onde essas câmaras possivelmente estejam instaladas: ruas, aeroportos, bancos, escolas e até nas casas.

A psicanalista afirma:

“Do satélite à ultrassonografia, temos nossas vidas vigiadas desde o útero por olhos sem rosto. O dia-a-dia registrado como num imenso Big Brother. E o que tudo isso tem a ver com o poder? Vigilância e disciplina... E, então, com essa consciência cada vez mais autocrítica, o homem torna-se seu próprio carrasco... Esta é a forma de tortura moderna. Mas a constante vigilância que vivemos não é tudo. Mais do que vigiar, era preciso construir um sistema de poder capaz de moldar um homem passivo, útil, disciplinado... O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) chamou este processo de ‘poder disciplinar’. O poder disciplinar é, antes de tudo, uma forma de organizar o espaço físico, e utiliza uma técnica que busca separar, dividir, para melhor controlar... Quando você ganha uma identidade, um CPF, um endereço onde recebe conta de água, luz e telefone, passa a ser um ponto no mapa capaz de ser rastreado, vigiado. Quanto mais um homem ganha cidadania, mais exposto fica à vigilância... Se antes o poder fazia valer sua força pelo sofrimento físico, pela tortura, hoje ele não tem rosto. Não é mais o rei nem o carrasco que detém o poder. Agora, ele está em todos os lugares: na arquitetura, no sistema de educação, no olhar do outro sobre nós. Quanto mais escondido, disfarçado, mais eficiente é o poder. Olhá-lo de frente, saber como atua, é uma maneira de diminuir sua força.”

Sendo assim, a sociedade de controle é um desdobramento da sociedade disciplinar. Podemos citar os meios de comunicação e transmissão de dados e informações em geral, como sendo um dos instrumentos de controle social nesse novo regime de dominação.

4. Conclusão

O controle da sociedade, historicamente, é feito através de um conjunto de atividades repressivas, muitas vezes caracterizadas pela violência. Fatos ocorridos recentemente em nosso país retratam efetivamente essa atividade repressiva.

E nesse caso, a manipulação da informação como ferramenta de controle social, é utilizada pelo poder do capital. E como veículo de comunicação em massa, a imprensa pode construir discursos a fim de marginalizar aqueles que são indesejáveis pelo poder do Estado ou da Ordem. Onde, essa postura, nega os princípios éticos e visa servir ao interesse de uma classe social ou política, deixando de exercer o papel social de informar a população em geral.

Outra forma de controle social é a imposta pela "modernidade" onde nós mesmos somos produtos e produtores desta sociedade que criamos, sendo coautores muitas vezes permissivos na forma de encarar com certa naturalidade as situações. Atualmente, nos submetemos ao excesso de visibilidade que pode servir como uma armadilha da sociedade contemporânea.

Na verdade, o modelo panóptico, estudado por Foucault, está inserido em nossas vidas mais do que podemos imaginar. Estamos sendo vigiados constantemente, na rua, em lojas, escolas, bancos e dependendo de onde se mora, até mesmo nos corredores do prédio, nos elevadores, garagens, entre outros. Essa vigilância, por câmeras, podem ocorrer 24horas, e muitas vezes as imagens são utilizadas para apurações de fatos de violência, acidentes, ocorrências policiais e jornalísticas.

Devemos ter a consciência que a relação de poder é exercida a todo instante pelo tripé da sociedade (Estado - mercado - sociedade civil), por cada organização, provocando ações que irão a todo instante atuando na formação dos indivíduos. Desse modo, é preciso que esse poder não seja aplicado como forma de desagregação, de subjugar as vontades, os anseios e o pensamento, e sim, encontrar o ponto de encontro entre o poder e o saber para a formação e constituição da sociedade como todo.

Sobre o Autor:

Raquel Passeri Aguiar - Discente do curso de Psicologia da Universidade Salgado de Oliveira - Universo - Niterói.

Referências:

ARLEI DE ESPÍNDOLA (org)...[et al.]. Filosofia : iniciação ao estudo do pensamento clássico  - Londrina : UEL,  2011. 290p

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: Nascimento da prisão (em português). 36ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1983. 280 p.

PEREIRA, Antonio. A analítica do poder em Michel Foucault. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

SITE CONSULTADO: http://www.dihitt.com/barra/foucalt-por--viviane-mose

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