Cuidados Paliativos com o Portador do Mal de Alzheimer: uma Proposta de Atuação

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Resumo: O presente artigo trata da importância do entendimento da Tanatologia para atuação com pessoas portadoras do Mal de Alzheimer, quando institucionalizados. Sabe-se que, em uma instituição, o convívio possui um caráter familiar, já que frequentam o mesmo ambiente, por muito tempo. E para que estas relações sejam saudáveis e não conflituosas (embora o Mal de Alzheimer traga a agressividade como um de seus sintomas) é de extrema importância que se desenvolva um trabalho de manutenção da convivência entre os idosos, partindo de uma proposta que se inclua os cuidados paliativos. Desenvolvendo o relacionamento interpessoal nas atividades da vida diária dos moradores da instituição, cria-se condições de disponibilidade para que a sensibilidade e a qualidade possam fazer parte do dia do idoso, valorizando suas potencialidades, proporcionando interação social de forma lúdica e despertando a empatia no idoso.

Palavras-chave: Tanatologia, Mal de Alzheimer, Idoso, Cuidados Paliativos.

1. Introdução

Vivemos hoje uma realidade única, com um novo elemento na sociedade: os idosos.  Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2002), o Brasil hoje ocupa a quinta posição dos países mais populosos do planeta, ficando atrás da China, Índia, Estados Unidos e Indonésia. De acordo com dados do Censo Demográfico de 2010, a população brasileira atingiu a marca de 190.755.799 habitantes.

E o que ocorre neste crescimento populacional se explica pela relação entre as taxas de natalidade e as de mortalidade, denominada crescimento vegetativo. O crescimento natural ou crescimento vegetativo é a diferença entre os nascimentos e as mortes, ou seja, entre a taxa de natalidade e a taxa de mortalidade.

O Brasil presencia o que chamamos de crescimento vegetativo positivo, quando o número de nascimentos é maior que o de mortes. Nesse sentido, há mais pessoas nascendo do que pessoas morrendo. E desta forma ocorrerá, sim, o envelhecimento da população, pois a expectativa de vida está aumentando.

E, necessariamente, as pessoas tendem a se relacionar mais, convivem por mais tempo, interagem socialmente mais vezes. Neste contexto, desenvolver as habilidades inter-relacionais do idoso, instrumentaliza-o para mais esta etapa da vida.

2. Desenvolvimento

Tania Mara Galli Fonseca, autora do artigo “Envelhecer: evolução ou involução”, coloca que ‘(...) uma criança persiste no adulto enquanto virtualidade e que um jovem persiste num velho da mesma forma (CASTRO, 2001, p. 16).

Desta forma, precisamos lembrar sempre que viver em sociedade implica em relacionar-se com o outro na maior parte do seu tempo. Quando criança, o relacionamento se dá com seus pares sociais. Quando jovem, o relacionamento com sua “turma”. Quando adulto, o relacionamento se dá através da família e do trabalho. E quando idoso, surge a figura, muitas vezes, do cuidador.  

E com o aumento da longevidade surge a necessidade de programas voltados a qualidade de vida. Os três setores da vida (físico, espiritual e mental) compreendem um esforço mútuo entre todos os que estão envolvidos no cuidado com o idoso.

A parte física os profissionais da saúde se responsabilizam.  Quanto a parte espiritual, cabe a cada um, dentro de sua individualidade e suas crenças, buscar o conforto em relação à parte mental. Os profissionais habilitados, num esforço conjunto com os idosos e seus familiares, tendem a buscar o bem-estar.

Com a longevidade pode surgir comprometimento perceptual, físico e cognitivo. Nesse processo, muitos idosos tornam-se incapazes de cuidar de si mesmo e precisam de amparo.  Muitas vezes, o apoio que necessitam é encontrado na institucionalização.

Residir ou frequentar uma instituição de idoso é estar submetido à uma rotina com normas, regulamentos, cuidados profissionais e o contato com pessoas que não fizeram parte da sua trajetória de vida. Ao estarem inseridos nessa comunidade, alguns idosos podem apresentar dificuldades de adaptação por questões emocionais ou relacionamento interpessoal. Machado (2013), afirma que em instituições de longa permanência, habilidades sociais refletem diretamente na adaptação, socialização e convivência de idosos.

Um bom relacionamento interpessoal, é um dos pré-requisitos para se ter uma qualidade de vida na terceira idade. Relacionamento interpessoal é essencialmente um processo que envolve focar não apenas o ponto de vista individual, esquecendo-se do outro, mas também se deve levar em consideração que o outro também pensa e sente. Ou seja, está havendo uma relação entre duas pessoas ou mais e que tanto um quanto o outro são seres únicos, com suas individualidades, dúvidas, conflitos, angústias.

Segundo Buono (1992), tudo o que acontece num relacionamento interpessoal decorre de duas fontes: o EU e o OUTRO. Isto implica que nesta relação possam existir dois ou mais “tipos” de personalidades envolvidas. E são estas características diferentes que permitem uma relação e que tornam a convivência humana tão difícil e desafiante. Forma-se uma interface que cria um novo contexto do qual os grupos precisam ser compreendidos.

A convivência dentro dos ambientes que se frequenta faz com que as pessoas que estão em contato diário reajam constantemente umas às outras. Ocorrem simpatias e antipatias, aproximações e afastamentos. Nesta interação há um detalhe que passa muitas vezes despercebido, que é a emoção que está envolvida nesta relação e que conduz este relacionamento. É a emoção que vai nos mostrar se uma relação pode ser positiva ou negativa. É ela que constitui o processo de interação humana, em que cada pessoa na presença de outra não fique indiferente a esta situação.

Os idosos em instituições apresentam níveis reduzidos de habilidades sociais e na qualidade de vida (CARNEIRO, 2006). Dessa forma, ações com a finalidade de promover e aprimorar as relações interpessoais são importantes para a melhoria da qualidade de vida no ambiente institucionalizado (MACHADO, 2013).

Coquerel et al (2005), apontam que por intermédio da participação de asilados em atividades lúdicas, tenta-se resgatar características espontâneas, trazendo à tona comportamentos positivos e, a partir desse pressuposto, uma melhoria nos relacionamentos. Ao se propor um trabalho com a população idosa, deve-se levar em consideração as patologias peculiares provenientes da idade. Conforme Fridman et al, (2004), com o aumento da expectativa de vida, um maior número de indivíduos alcança uma idade avançada em que a manifestação de doenças neurodegenerativas é mais frequente. Entre essas, o Mal de Alzheimer.

Considerada como uma das maiores causas de demência, o Mal de Alzheimer é uma doença do cérebro, progressiva e irreversível. Além da memória, acomete progressivamente outras funções mentais, acabando por determinar a completa ausência de autonomia dos doentes.

Em sua fase inicial, o idoso é acometido por lapsos na sua memória recente. Há mudanças no comportamento e surge a agressividade e a teimosia. O senso de direção fica comprometido e muitas vezes, ao sair sozinho o idoso se perde.

Em sua fase intermediária, a perda da memória se intensifica e a repetição das informações acontece. Surge um estranhamento de seus pertences e até mesmo de sua casa. Há uma alternância de lucidez com um estado mental confuso. Surge aqui um estresse psicológico e muitas vezes a depressão. Inicia-se aqui uma dependência física e há o esquecimento de palavras que são obvias para aquele que não está acometido da doença. Em sua fase mais grave da doença, há uma dependência física total. O idoso não anda e quase não fala. Não reconhece ninguém, nem a si mesmo. A deglutição fica prejudicada.

Neste sentido, podemos entender que os portadores de Mal de Alzheimer estão comprometidos em suas funções cognitivas, físicas e motora, afetando todas as suas relações.

E neste momento, a leitura que a Tanatologia faz dos Cuidados Paliativos é importante. E a relação entre o Mal de Alzheimer e a Tanatologia se torna possível.

A Tanatologia é entendida no seu conceito, como sendo um estudo do fenômeno da morte, buscando compreender como todo o processo emocional, psicológico, as relações com a perda e o luto influenciam o comportamento e o desenvolvimento psíquico do indivíduo.

No contexto do Mal de Alzheimer, a melhor definição para o entendimento de todo o processo de perda e luto pelo qual todos estão envolvidos, seria “ a Tanatologia se preocupa não só com a morte física, mas, principalmente com as perdas” (ESCUDEIRO, 2008, p. 17).

O Mal de Alzheimer é acometido constantemente por perdas. Estamos diante de uma doença que é cercada por perdas. Perdas para aquele que está vivendo a doença. Perdas para os cuidadores e familiares. E até mesmo perda para os profissionais que passam a fazer atendimentos esporádicos.

Neste sentido, é importante salientar o quanto se faz necessário o que a medicina chama de Cuidados Paliativos, que visa a humanização do sofrimento e a morte com dignidade.  A Organização Mundial de Saúde (OMS), redefiniu o conceito de cuidados paliativos (2002), colocando que "Cuidados Paliativos consistem na assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, que objetiva a melhoria da qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida, por meio da prevenção e alívio do sofrimento, da identificação precoce, avaliação impecável e tratamento de dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais".

Para Twycross (2006. P 50) Cuidados Paliativos “(...) afirma a vida e respeita o morrer como um processo normal, não acelera e nem retarda a morte; vê o paciente e sua família como uma unidade que necessita de cuidados e respostas às necessidades psicossociais, sociais, físicas e espirituais, e se estende ao período de luto da família. Inclui reabilitação, isto é, ajudar o paciente a manter o máximo do seu potencial físico com limite na progressão da doença. ”

Figueiredo (2006, p. 28), coloca que “Cuidado Paliativo é um conjunto de atos multiprofissionais que têm por objetivo efetuar o controle dos sintomas do corpo, da mente, do espírito e do social, que afligem o homem na sua finitude, isto é, quando a morte dele se aproxima. ”

Atualmente, pacientes cancerosos em estágio avançado da doença, pacientes portadores de HIV, pacientes renais crônicos, pacientes portadores do Mal de Parkinson e portadores do Mal de Alzheimer, entre outras doenças, são indivíduos que podem se beneficiar dos Cuidados Paliativos que a medicina oferece.

Nesse sentido, aqueles indivíduos que não conseguem usufruir da medicina curativa, são pacientes da medicina paliativa. E esta passa a ter uma característica única: atendimento de qualidade para pacientes terminais. Pois nem sempre o médico consegue assumir o papel de salvá-lo da morte. E então ele necessita assumir outra função, a de aliviar o sofrimento deste indivíduo, proporcionando conforto, bem-estar e dignidade no momento de dor.

3. Considerações Finais

Tendo a Tanatologia como teoria sustentadora para entendimento do Mal de Alzheimer. Correlacionando com a possibilidade e a necessidade de propiciar aos idosos condições que despertem o bem-estar, propostas de oficinas, inseridas no contexto de cuidados paliativos, onde se estimule a integração, a desinibição, a percepção, a comunicação verbal e não verbal, a memória imediata, a memória passada, o desenvolvimento motor,  a escuta, o respeito ao outro, a empatia e que tenham a possibilidade de compartilhar o que se sabe da sua história, é uma forma de manter a convivência saudável e despertar uma sensação de bem estar que perdure por mais tempo. Atividades onde a música se faça presente, também é uma possibilidade de despertar o bom humor e a tranquilidade.  

Estas são estratégias que os profissionais envolvidos com os cuidados paliativos de indivíduos acometidos pelo Mal de Alzheimer institucionalizados, podem se utilizar para proporcionar a dignidade neste momento específico da vida. Desta forma, a tríade Tanatologia, Mal de Alzheimer e Cuidados Paliativos encontra mais uma forma de atuação diante da perda.

Sobre o Autor:

Simone Bonacordi Korkievicz - Graduada em Ciências Sociais e Psicologia, Especialista em Planejamento Estratégico e Gestão de Negócios, Especialista em Psicopedagogia, com formação em Psicologia Clínica Infantil.

Referências:

BUONO, Anthony F. Elementos de comportamento organizacional. São Paulo: Pioneira, 1992.

CARNEIRO, Rachel S. A relação entre habilidades sociais e qualidade de vida na terceira idade. Revista Brasileira de Terapia Cognitiva, Rio de Janeiro, volume 2, n.1, junho de 2006. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-56872006000100005&lng=pt&nrm=iso>. Acessos em 05 mar.  2015.

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MACHADO, J.G.O.; CAMPOS, C.G.O; RABELO, D.F. Treino de habilidades sociais em idosos institucionalizados. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, v.4, n.2, p.258-265, dez.2013

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