Experiência de Quase Morte: um estudo dos aspectos psicológicos

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Resumo: O presente trabalho apresenta o fenômeno da experiência de quase morte (EQM) que é uma projeção da consciência, forçada, compulsória, patológica, causada por traumas orgânicos, agentes físicos, químicos ou psicológicos. É comum a pacientes terminais, sobreviventes da morte clínica, e em situações em que haja momentos de perigo extremo, acidentes, choque anafilático, intoxicação, traumatismo, anestesia, afogamento e outros casos médicos. Pois é um fenômeno que envolve sujeitos que estão em iminência de morte física (ou acreditam estar correndo perigo de morte) e, durante este período crítico, relatam ocorrências (algumas verificáveis, outras não) que sugerem expansão da consciência, não obstante estarem inconscientes ou em comatose. Os estudos e as observações que são feitas pela ciência, nos indivíduos que passaram por essa experiência podem trazer alguns esclarecimentos a respeito dele. Sendo assim, pretende-se observar os efeitos dessa vivência e a mudança das prioridades da vida das pessoas envolvidas, que muitas vezes passam a ser o amor e o conhecimento e verificar as novas visões da morte e da finitude. A metodologia utilizada nessa pesquisa caracteriza-se como exploratória e qualitativa, pois, tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explicito ou a constituir hipóteses. O estudo tem como objetivo explorar o que a literatura traz sobre os sentimentos relacionados a essa experiência, para melhor compreender os aspectos de mudança que ocorrem no comportamento dos pacientes que passaram por esse fenômeno e apontar quais os problemas vivenciados antes, durante e depois dessa vivência e como a psicologia pode contribuir nesse processo. 

Palavras-chave: experiência de quase morte, a finitude, a negação da morte, medo.

1. Introdução

O presente trabalho apresenta o fenômeno da experiência de quase morte (EQM) como um fato cercado de mistérios porque ninguém que realmente passou pela morte, voltou para relatá-la depois. Mas os estudos e as observações que são feitas pela ciência, nos indivíduos que passaram por essa experiência podem trazer alguns esclarecimentos a respeito do assunto.

Segundo o médico Pazin-Filho (2005) a morte faz parte complementar da vida e como tal, é objetivo de estudo da medicina. A definição de morte vem sofrendo modificações em decorrência do avanço tecnológico da medicina e da disponibilidade de informação, ficando claro que seu sentido deve levar em conta os valores culturais da sociedade e não somente o conhecimento médico.

A definição mais aceita, em termos médicos, é o término das funções vitais. Amplamente difundida essa definição não é exclusiva da medicina e é utilizada igualmente por leigos. A busca de uma melhor significação de morte trouxe uma série de conflitos de ordem ética, agravados em grande parte pela crise de credibilidade que a medicina moderna vivencia (PAZIN-FILHO, 2005).

A palavra morte traz consigo algumas características e associações: dor, ruptura, interrupção, desconhecimento, angústia. O confronto regular com o processo de morrer, com a morte e com o luto é realidade constante na vida dos profissionais de saúde, que nem sempre estão organizados para lidar com esse fenômeno (FRANÇA e BATOMÉ, 2005).

Ao vivenciar um estado eminente da morte, os indivíduos referem-se a uma experiência profunda, na qual acreditam deixar seus corpos e ingressar em alguma outra esfera ou dimensão, transcendendo os limites do ego [01] e as fronteiras convencionais do tempo e do espaço (TORRES, 1983).

Diante do que se pretende expor nessa pesquisa, levanta-se o seguinte questionamento: Quais as repercussões psicológicas na subjetividade humana, decorrentes da Experiência de Quase Morte? Supõe-se que as EQMs são frutos de fantasias, levantada pelas próprias esperanças pessoais e culturais do indivíduo, para que ele se resguarde da ameaça iminente da morte.

Este trabalho consistirá numa pesquisa qualitativa e bibliográfica, pois tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento. Preocupa-se com questões particulares, aprofundando-se nos significados das ações e relações humanas, que não podem ser quantificadas. A pesquisa qualitativa busca compreender o significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida, na tentativa de capturar a “perspectiva dos participantes”.

O benefício da Pesquisa Qualitativa é justamente não colocar como ponto principal da investigação, o sim ou não à hipótese formulada ou qualificada em termos de probabilidade, mas priorizar o estudo do significado e do processo das proposições formuladas. E caracteriza-se por ser uma pesquisa bibliográfica porque é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros, revistas e artigos científicos, tendo como finalidade reunir, estudar, classificar e analisar as bibliografias relacionadas ao tema proposto (MACONI; LAKATOS, 2001).

A metodologia utilizada nessa pesquisa caracteriza-se como exploratória, pois, segundo Minayo (1994) têm como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explicito ou a constituir hipóteses. A pesquisa exploratória admite uma maior familiaridade entre o pesquisador e o tema pesquisado, visto que este ainda é pouco conhecido, pouco explorado. Nessa definição, caso o problema proposto não ofereça aspectos que permitam a visualização dos processos a serem adotados, será necessário que o pesquisador inicie um procedimento de sondagem, com vistas a aprimorar idéias, descobrir intuições e, posteriormente, construir hipóteses. Seu projeto é, portanto, bastante maleável, de modo que permite a consideração dos mais variados aspectos relativos ao fato estudado. Na maioria dos casos, essa pesquisa envolve: levantamento bibliográfico entrevista com pessoas que tiveram experiência prática com o problema pesquisado e análise de exemplos que estimulem a compreensão.

 O estudo tem como objetivo explorar o que a literatura traz sobre os sentimentos relacionados à experiência de quase morte, doravante representado pela sigla (EQM) para melhor compreender os aspectos de mudança que ocorrem no comportamento dos pacientes que passaram por essa experiência e apontar quais os problemas vivenciados antes, durante e depois da experiência de quase morte e como a psicologia pode contribuir nesse processo.  A revisão de literatura foi realizada por meio de base de dados Scielo, Pepsic, Livro, Netsaber, e foram selecionados por artigos indexados nacionais e internacionais no período de 1975 a 2009, e as palavras chave usadas na pesquisa foram: experiência de quase morte, finitude, negação da morte, medo.

A relevância cientifica desse estudo consiste em contribuir para a compreensão do processo da experiência de quase morte, para os profissionais de saúde, para os pacientes que sofreram uma EQM e para todos aqueles que se interessam pelo tema, pois ele é carregado de dogmas, mitos e simbologias populares, o qual dificulta uma visão mais realista e científica do assunto.

A estrutura do presente trabalho é apresentada da seguinte forma: na primeira sessão, será abordado o conceito de morte, medo da morte, definição de EQM, características e aspectos da EQM. Na segunda sessão, serão abordados a negação da morte e os cinco estágios da morte. Na terceira sessão serão enfocadas mais detalhadamente as teorias científicas que tratam da EQM e na quarta sessão serão apresentados os efeitos das experiências de quase-morte e o tratamento de problemas relacionados à EQM.

2. Definição da Morte

A origem da palavra morte vem do latim e da palavra morrere, que significa perder a vida, falecer, morrer, perecer, cessação definitiva da vida; e ela faz parte do ciclo natural da vida (XIMENES, 2000).

A palavra morte tem um conceito que remete à noção de falecimento, término da vida; desaparecimento, extinção (ENRIQUEZ, 1990). Algumas representações da morte são expressas através de temas e signos marcantes na literatura: noite, trevas, regiões profundas, terra, céu, destino, velhice, discórdia, sono, e sepultura (hades no hebraico e seol no grego).

Segundo Souza (2009, p.56) “a Biociência e a Medicina estudam como ocorre e quando se processa a passagem da morte e a Psicologia também é uma das ciências que pode clarificar este acontecimento, pois ela estuda a natureza da mente humana”.  A morte além de ser considerado um mistério, ela também se transformou em tabu; o tabu é considerado por Gama Kury (2002, p.1050) “Diz-se de qualquer coisa em que não se pode tocar ou sobre a qual não se deve falar; proibido, interdito”.

Enriquez acerca da percepção dos vivos sobre os mortos, ele diz que:

O tabu está intimamente ligado a essa relação. O morto contém um paradoxo, pois de um lado compreende a sacralidade e do outro a impureza, carrega em si o signo do tabu e com ele, seu poder sobre os vivos, de forma que qualquer aproximação a este signo torna impura também quem o toca (ENRIQUEZ 1990, p.37-38).

A morte acompanha toda a trajetória do ser humano desde a mais tenra idade e em seu ciclo vital, deixando suas marcas. A morte é um evento biológico que encerra uma vida. Nenhum outro evento vital é capaz de suscitar nos seres humanos mais pensamentos dirigidos pela emoção e, portanto, reações emocionais que ela, seja no indivíduo que está morrendo, seja naqueles à sua volta. Segundo Pazin-Filho (2005) o conceito tradicional de morte biológica definida como o instante da interrupção dos batimentos cardíacos tornou-se arcaico. A morte é vista como um processo, como um fenômeno progressivo e não mais como um momento, ou evento.

Para Freud (1914-16 p. 332 – 333)

a morte tornou-se questão para o homem a partir de seus sentimentos ambivalentes para com o outro. A morte de um inimigo podia ser concebida sob forma de aniquilamento total, mas a perda de um ente querido bem como odiado sob alguns aspectos fê-lo criar a noção de alma, de uma continuação pós-morte, de forma que  este, que antes da morte era fonte de ódio e  amor, passa a também ser fonte de temor e respeito como espírito.

A promessa da morte e o conhecimento do morrer, mais do que qualquer outra força na vida, é o que leva o ser humano a enriquecer. A morte é parte da existência humana, do seu crescimento e desenvolvimento, tanto quanto o nascimento, ela faz parte do viver. A morte não é uma moléstia a ser aniquilado, um inimigo a ser atacado ou uma prisão de onde precisamos fugir, mas é inerente a nossa vida e que dá sentido à vivência humana (KÜBLER ROSS, 1996a, 1996b).

Kubler Ross (1998) assegura que a morte é apenas uma abertura da vida para outra existência e que, para se viver dignamente o procedimento de morrer, deve-se viver verdadeiramente até a hora da morte. Viver realmente, segundo essa médica psiquiatra, é exercitar o que se gosta de fazer e estudar o mais complexo das lições: o amor incondicional.

Ainda segundo França e Botomé (2005), a palavra morte traz consigo muitos adjetivos e associações: dor, ruptura, interrupção, desconhecimento, tristeza. Designa o fim absoluto de um ser humano, de um animal, de uma planta, de uma idéia que "chegada ao topo da montanha, admira-se ante a paisagem, mas compreende ser obrigatória a descida" (p. 547).

2.1 Morte Clínica e Morte Vital

A morte clínica é dada como a parada da respiração, da atividade cardíaca e do funcionamento cerebral, mas não, a impossibilidade de uma reanimação. Lembrando que não é só com a duração das batidas do coração e da respiração que se define o momento da morte. Ultimamente, há vários métodos para se diagnosticar a morte (SOUZA, 2009).

A cada dia os métodos de reanimação estão sendo aprimoradas. E a reanimação confirma que a morte não ocorre como um evento que acontece de uma vez. Por isto, é necessário distinguir entre o período da morte clínica e o da morte vital propriamente dita. Outro sinônimo para a morte vital é a morte concreta, pois neste estágio, não há possibilidade alguma de reanimação. Todas as células do corpo morreram, não restando um único sinal de animação. A morte vital é “uma parada irreversível das funções vitais” (SOUZA, 2009, p.58).

“[...] Em outras palavras, a ‘morte’ é definida como o estado do corpo do qual é impossível voltar à vida” (MOODY, 1979, p. 142). Já na morte clínica, o indivíduo ainda permanece no processo de morte porque os órgãos não cessam de funcionar de uma só vez, e os tecidos destes mesmos órgãos também têm períodos diferentes de ir deixando de estar animados, ou seja, sem vida. Mas a morte é averiguada porque são órgãos muito importantes para todo o organismo.

“Entre o momento da morte clínica e o da morte vital há, via de regra, um espaço de tempo de aproximadamente cinco minutos, e em casos extremos este período pode ser de até trinta minutos” (SOUZA, 2009, p.58). “A distinção exata entre a morte clínica e a morte vital é extremamente importante estabelecer, uma vez que há dificuldade para se determinar a fronteira entre morte e a vida” (SOUZA, 2009, p.58). A morte não é algo fixo “mas um processo que se prolonga no tempo e cuja duração ninguém está em condições de apreciar” (SOTTO e OBERTO, 1978, p. 47). No ambiente médico há contestações sobre o assunto da definição do momento da morte. Pode-se dizer que mesmo aceitando o critério de morte encefálica não se pode ter uma certeza total de que o indivíduo realmente morreu (SOUZA, 2009).

Pois a morte é verificada após a parada cardíaca e pela perda do desempenho clínico da atividade cardíaca e baseia-se na ausência de circulação. De forma parecida à parada cardíaca, a morte encefálica é mais bem entendida como parada cerebral, baseada na ausência total das funções clínicas do cérebro (SOUZA, 2009, p.59).

 A morte pode ser determinada após a parada cardíaca, pela perda da função clínica da atividade cardíaca e é baseado na ausência de circulação. De forma parecida à parada cardíaca, a morte encefálica é mais bem entendida como parada cerebral, fundamentada na ausência total das funções clínicas do cérebro. Isso é documentado pela perda de consciência, coma aperceptivo e perda de todos os reflexos do tronco cerebral, inclusive da capacidade de respirar. É a expressão clínica máxima de insuficiência cerebral irreversível e a função cerebral não pode piorar que isso (SHEMIE, 2007).

2.2 Medo da Morte

O próprio termo desperta o medo no coração das pessoas. Elas avaliam a morte tão inexplicável quanto inevitável. Mal conseguem falar a respeito, explorar além da palavra em si e se aceitar apreciar suas verdadeiras implicações. Esta é uma reação compreensível, pelo fato de que tantas pessoas pensam sobre a vida como nada mais que um estado no qual o corpo humano está biologicamente ativo.

Segundo Fromm (1976) o medo da morte refere-se, ao medo de perder o que foi conquistado durante toda sua vida. “O medo que temos de perder nossos bens é uma conseqüência inevitável do sentido de segurança baseado naquilo que possuímos” (FROMM, 1976, p.129). Assim sendo quanto mais apegados ao ter do que o ser, mais medo da morte, o individuo apresentará.

Para Jacques Choron (1963) existem três tipos de medo da morte: medo do que vem depois da morte (ligado às religiões, castigos, solidão, sentimento de culpa, etc.), medo do evento ou do processo de morrer ou passagem (sofrimento prolongado, fraqueza, dependência, estar exposto e vulnerável, etc.) e medo do "deixar de ser" (é o mais terrível, é o conflito entre o nada versus a continuidade do ego após a morte, o não ser).

Segundo KOVÁCS (1992, p. 16): "O medo da morte é a resposta psicológica mais comum diante da morte", assim sendo, um sentimento universal que atinge todos os seres humanos, independente da idade, sexo, nível sócio-econômico e credo religioso.  E diante desse fato a raça humana é o único que tem consciência de sua própria morte.

Freud quando fala da atitude que o indivíduo toma em relação à morte, refere-se à tendência inegável do homem para colocá-la de lado, para eliminá-la da vida: "Tentamos silenciá-la na realidade e dispomos até mesmo de um provérbio que diz pensar em alguma coisa como se fosse à morte” (em alemão, no sentido de pensar em algo improvável ou incrível).

[...] é impossível imaginar nossa própria morte e, sempre que tentamos fazê-lo, podemos perceber que ainda estamos presentes como espectadores. Por isso, a psicanálise pôde aventurar-se a afirmar que no fundo ninguém crê em sua própria morte, [...] no inconsciente cada um de nós está convencido de sua própria imortalidade ( FREUD  1915, p. 327).  

Os medos que foram narrados relacionam-se ao medo da própria extinção e da suspensão de sonhos para o futuro, tendo a capacidade de gerar, na pessoa, sentimentos de impotência por não se poder evitar a morte. O medo da extinção de um ente querido também foi relatado, podendo contribuir para a vivência de sentimentos de repudio e inconformismo (KASTENBAUM, 1983, citado em KOVÁCS, 1992).

Para Elias esse procedimento tem uma explicação psicanalítica. Trata-se de um recalque individual. Que faz referência aos postulados freudianos de que o indivíduo cria “mecanismos psicológicos de defesa” para lidar com as experiências dolorosas ocorridas especialmente na fase infantil. Desta maneira, a morte é disfarçada, ocultada. E para além da dimensão individual, ele também constitui que há um recalque social, “porque o afastamento dos moribundos é a materialização da incapacidade humana em lidar com tal fenômeno, já que o caminhar do outro para a morte é a constante recordação de que o eu também passará pela mesma experiência” (ELIAS 2001, p.16).

Numa posição oposta, a morte coexiste com a vida, o que não a impede de ser angustiante, incutir medo e, ao mesmo tempo, ser musa inspiradora de filósofos, poetas e psicólogos. Por ser respeitável, é costume indicar a morte por meio de eufemismos: "fim", "passagem", encontro, "destruição". As palavras não conseguem expressar dada a complexidade dos afetos envolvidos.

O enigma da morte é parte do problema da alma e da vida em si: compreender a morte significa realmente compreender a existência. Durante a vida que se conhece, enquanto ela está no plano físico, o corpo é vitalizado pela alma; na morte, ocorre uma separação entre a pessoa e a alma. Porém a alma continua a viver como sempre fez agora livre das restrições físicas do corpo (SOUZA, 2009).

Como o verdadeiro caráter do indivíduo, sua bondade, virtude e altruísmo estão na alma, é lógico presumir que ele alcançará um estado mais elevado após cumprir suas responsabilidades na terra. Embora a morte represente a elevação da alma para um nível mais alto, mesmo assim continua sendo uma experiência dolorosa para os sobreviventes (SOUZA, 2009).

Segundo Rodrigues (1983), o valor da vida e da morte mudou ao longo dos tempos. Na virada do século XIX, com o advento da cultura industrial, onde o homem passa a ser visto como produtor e consumidor de bens tornam-se premente que ele dure mais; e o avanço na biologia médica e da indústria da saúde propiciou o aumento da longevidade do ser humano através de técnicas e cuidados. Até então, segundo ele, o homem apenas “dormia para acordar em outro mundo”. Com a valorização da vida e meios que lhe propiciaram qualidade, o homem apegou-se aos valores de vida, sofrendo da angústia ao se deparar com a finitude representada pela morte.

2.3 Conceito de EQM  

De acordo com Moody (1975) a EQM ou near-death experience (NDE), é uma projeção da consciência, forçada, compulsória, patológica, causada por traumas orgânicos, agentes físicos, químicos ou psicológicos. É comum a pacientes terminais, sobreviventes da morte clínica, e em situações em que haja momentos de perigo extremo, acidentes, choque anafilático, intoxicação, traumatismo, anestesia, afogamento e outros casos médicos.

Experiência de Quase-Morte (EQM) é um fenômeno que envolve sujeitos que estão em iminência de morte física (ou acreditam estar correndo perigo de morte) e, durante este período crítico, relatam ocorrências (algumas verificáveis, outras não) que sugerem expansão da consciência não obstante estarem inconscientes ou em comatose. Os indivíduos que vivenciaram um estado próximo da morte, referem-se a ela como uma experiência profunda, na qual acreditam que deixaram seus corpos e ingressaram em alguma outra esfera/dimensão, transcendendo os limites do ego e as fronteiras convencionais do tempo e do espaço Moody (1975).  

  Graças ao fantástico progresso da ciência médica e das técnicas de ressuscitação,  há um número maior de pessoas que sobrevivem a situações clínicas graves, muitas vezes diagnosticadas como morte clínica. Ainda segundo Moody (1975), os relatos de algumas  pessoas falam daquilo que viram, ouviram e sentiram durante aqueles instantes em que eram consideradas “quase mortas” e recebiam atendimento médico e apresenta uma nova visâo da morte e da própria vida. Elas falam da certeza de terem vívenciado uma realidade em outro plano da existência, sendo que a maioria descrevem experiências extraordinárias de paz e plenitude, recapitulações de suas vidas e encontros com seres de luz carregados de compaixão, amor e compreensão.

Segundo Greyson (2007) as pessoas que descreveram essa experiência profunda de transcender o mundo físico, foram levadas a uma transformação na maneira de viver. Esse entendimento é complementado pela de Moody (1977) que considera a EQM como sendo uma experiência perceptiva e consciente que é verificada durante uma situação de quase morte, onde o indivíduo poderia ter morrido (muitas vezes é considerado clinicamente morto), mas sobrevive, dando continuidade a sua existência e sofre alterações no seu comportamento em seu dia a dia.

De acordo com Fernandes (1998) os relatos de EQM ao longo dos tempos possuíam um caráter especulativo, confundindo-se muitas vezes com interesses religiosos ou escatológicos. Os estudos científicos sobre a EQM começaram de fato com uma aproximação pela sua base fenomenológica, ou seja, por um estudo acerca dos elementos da experiência. As experiências de quase morte, de acordo com Greyson (2007), começaram a ser estudadas no século XIX por Heim (1892), mas foi somente no século XX que Moody (1975) introduziu o termo EQM, para nomear esses acontecimentos e determinou características específicas, que vão defini-lo, tanto no meio acadêmico como na linguagem popular comumente referida.

2.4 Elementos que caracterizam e aspectos clínicos da EQM 

Segundo Souza (2009, p. 59), alguns elementos são comuns a estas experiências, como:

a) a projeção do corpo: a pessoa tem a sensação de deixar o corpo e pairar sobre ele e depois pode até descrever os fatos que ocorreram ao seu redor; b) movimento em um túnel: a pessoa tem a sensação de se locomover em um túnel escuro; c) visão de luz: a pessoa se dirige ao encontro de uma luz que exerce profunda atração; d) encontro com pessoas já mortas: são pessoas conhecidas ou não, seres sagrados, entidades não identificadas sou “seres de luz”; e) panorama da própria vida: o indivíduo experimenta um tipo de flashback, ou seja, uma revisão da própria vida, algumas vezes sob a perspectiva de outras pessoas. Isto faz com que a pessoa mude suas atitudes diante da vida quando é reanimada; f) fronteira: aparentemente representa o limite entre a vida terrena e outra vida; g) retorno à vida: percebe que deve voltar, pois ainda há coisas por terminar. Esta decisão é voluntária.

Considera-se que clinicamente a EQM ocorre quando a anóxia (designação mais freqüente para a redução abaixo dos níveis fisiológicos da quantidade de oxigênio presente nos tecidos orgânicos) ou hipóxia, (uma condição patológica em que o corpo como um todo (hipoxia generalizada) ou de uma região do corpo (hipóxia tecidual) é privado de fornecimento de oxigênio adequado), fatores comuns no processo de morte cerebral, precisam ser implicados nas EQMs (BLACKMORE, 1993; RODIN, 1980). Contudo, EQMs podem ocorrer sem anóxia ou hipóxia, como em doenças não-fatais e em acidentes que quase aconteceram, dos quais o sujeito sai ileso.

Além disso, as vivências anexas à hipóxia são de modo superficial similares às EQMs. Whinnery (1997) comparou as EQMs às fantasias que ocorrem durante os momentos breves de inconsciência induzidos por aceleração rápida em pilotos de caça, embora tenha referido que seu modelo não explica todos os fenômenos de EQM. As características fundamentais divididas entre a hipóxia induzida por aceleração e as EQMs são a aparição do túnel e de luzes brilhantes, a impressão de estar flutuando, as sensações agradáveis de prazer, breves fragmentos de figuras visuais e algumas raras vezes o efeito de deixar o corpo.

Comparando-se os citados devaneios com as EQMs, aqueles incluem visões de pessoas vivas, mas nunca de pessoas mortas, assim como neles não há referências às revisões da vida nem à memória panorâmica (WHINNERY, 1997). Também deve-ser observar que as EQMs não incluem sintomas típicos de hipóxia, tais como convulsões mioclônicas, (contrações repentinas, incontroláveis e involuntárias de um músculo ou grupo de músculos) amnésia retrógrada para os eventos advindos antes da perda de consciência, movimentos automáticos, efeitos da memória, formigamento nas extremidades e em torno da boca, confusão e desorientação após despertar, assim como efeito de não conseguir movimentar o corpo ao acordar.

A hipóxia ou a anóxia produz geralmente alucinações idiossincrásicas e assustadoras e conduzem o indivíduo à agitação e à agressividade, estados totalmente diferentes da emoção de paz que são consistentes e universalmente descritos em EQM. Além disso, a conseqüência das pessoas que tiveram próximas da morte mostrou que aquelas que referem uma EQM não têm níveis mais baixos de oxigênio do que aquelas que não tiveram uma EQM (SABOM, 1982; VAN LOMMEL et.al., 2001).

Os indivíduos que passaram por uma EQM descrevem episódios que não podem ser vistos nem vivenciados por aqueles à sua volta, é admissível a hipótese de que as EQMs sejam alucinações provocadas pela medicação comumente prescrita a pacientes terminais, ou por distúrbios metabólicos, ou por mau funcionamento cerebral em indivíduos próximos à morte. Entretanto, muitas EQMs são descritas por sujeitos que não continuavam com disfunções orgânicas nem metabólicas que pudessem acarretar alucinações, assim como pacientes que não a recebem (GREYSON, 1990; OSIS e HARALDSSON, 1977; SABOM, 1982).

Além de tudo isso, o mau funcionamento cerebral, do ponto de vista orgânico, produz geralmente turvação da consciência, irritabilidade, medo, agressividade e visões idiossincráticas, bastante diferentes do pensamento claro e de sentimento de paz, calma, e conteúdos previsíveis típicos da EQM. Pacientes com delírio normalmente vêem pessoas vivas, ao passo que os pacientes próximos à morte e sem alterações do nível de consciência quase invariavelmente vêem pessoas falecidas (OSIS e HARALDSSON, 1977).

Os pacientes febris ou anóxicos, quando próximos da morte, fazem referência a menos EQMs e experiências menos organizadas do que os paciente que não fazendo uso de fármacos e que não estão febris nem anóxicos (OSIS e HARALDSSON, 1977; RING, 1980; SABOM, 1982). Tais compreensões podem indicar que o delírio induzido por drogas ou problemas metabólicos, em vez de tratar uma EQM, de fato a impede, ou, então, que os pacientes delirantes tendem a não relembrar as próprias experiências após se restaurarem (KELLY ET AL, 2006).

2.5 Aspectos Psicológicos da EQM

Segundo Ring (1996, p. 3) a EQM produz vários resultados psicológicos, entre os quais se destacam:

a) redução ou extinção do medo da morte e maior gosto pela vida; b) conscientização da importância do amor; c) sensação de união com todas as coisas; d) valorização do conhecimento; e) maior responsabilidade pela própria vida; f) ampliação do vigor e da atividade mental e física; g) aparente rejuvenescimento; h) reavaliação das coisas materiais da vida; i) profundo senso de missão; j) mudança carismática na personalidade; l) desenvolvimento súbito ou gradual de aptidões; m) prazer pelo conhecimento enciclopédico; n) sentido de urgência e reavaliação de prioridades.

Depois de uma EQM, os sobreviventes tendem a provarem amplas mudanças comportamentais e de identificação pessoal: amam mais a si mesmos, mostram uma análise maior da vida e maior ansiedade e amor pelos outros, enquanto diminui seu interesse em status pessoal e posses materiais. A maior parte dos sobreviventes também afirma que vive depois com um sentido de desígnio espiritual ampliado e, em alguns casos, que busca um entendimento maior do significado essencial da vida (RING, 1996).

Moody (1989) observou que depois da EQM, os pacientes mudam sua estrutura de valores, passam a priorizar os aspectos humanos e fraternos e perdem o medo da morte. Também ficam saudosos do estado de bem-aventurança que descobriram na sua experiência e precisam aprender a lidar com esta saudade. São mudanças tão significativas que os médicos, psiquiatras e cientistas atualmente dedicam-se, a ajudar de forma terapêutica, muitos destes pacientes, a integrar esta vivência espiritual e conhecimento adquirido, à rotina de suas vidas. Eles precisam de alguém que compreenda esta experiência para ouvi-los e ajudá-los.

De fato, muitos comentaram que perceberam desde o princípio que os outros os considerariam mentalmente instáveis se fossem relatar suas experiências (MOODY, 1975). Por isso os pacientes que vivenciaram esse fenômeno, decidiram permanecer em silêncio ou apenas revelar as experiências para algum parente muito próximo. Enquanto que outros tentaram contar para algum outro indivíduo, mas foram mal recebidos e dali em diante silenciou.

Segundo Souza, mestre em Psicologia (2009), na maior parte das vezes, o indivíduo que passa pela morte clínica e é reanimado não se lembra de nada. Isto não se pode estranhar, visto que ocorre diariamente com as pessoas nos sonhos. É um fato que sonhar diariamente é até necessário para manter a saúde, mas muitas pessoas dizem que sonham raramente e que se lembram dos sonhos de uma maneira muito superficial. Por isso que os indivíduos que sofrem uma EQM podem desta não se recordar. Ao fazer esta observação não se pretende, de antemão, colocar as EQMs no mesmo patamar dos sonhos. Enquanto algumas pessoas não se lembram, outras são capazes de relembrar tudo o que lhes aconteceu e isto proporciona suposições importantes para a compreensão do fenômeno da EQM.  

Uma das suposições plausíveis julga que as EQMs são frutos da imaginação, construída pelas próprias perspectivas pessoais e culturais do indivíduo, para que ele se proteja da ameaça iminente da morte (GREYSON, 1983b; RODIN, 1980). As conferições de relatos de EQMs de diferentes culturas indicam que as crenças antecedentes têm alguma influência no tipo de experiência que uma pessoa relatará se vivenciar uma circunstância próxima à morte (KELLEHEAR, 1993). Todavia, não está claro se as crenças culturais danificam a experiência propriamente, ou simplesmente afetam a sua memória e a sua representação verbal, ou mesmo a classificação dos pesquisadores diante do que os sujeitos expõem.

Entre os efeitos dessa vivência, está a mudança das prioridades de suas vidas, que passam a ser o amor e o conhecimento. (tornando- se leitores assíduos, cursando faculdades ou escolas para estudar um campo diferente daquele em que trabalha); novas visões da morte (antes da vivência, a maioria temia a morte), sendo que muitos a negavam, defendendo-se como podiam de entrar em contato com a finitude (MOODY, 1975).

Após a experiência, deram-se conta que os momentos terminais da existência não são tão penosos quanto imaginavam ser. Existe um desconforto na fase pré-agônica, porém na transiçãoda vida para a morte vai havendo uma mudança no estado de consciência, início do contato com outro plano existencial e suspensão dos sintomas corporais. Tornam-se conscientes de que a morte pode ser dolorosa, porém morrer propriamente não é tão doloroso quanto se pensava e assim eliminam a angústia existencial gerada pelo medo da morte e sentem que estão começando uma nova vida (MOODY, 1975).

Há também segundo o autor uma necessidade de trabalho terapêutico com os familiares, pois com freqüência, as acentuadas mudanças de personalidade que acompanham uma EQM causam tensão na família, principalmente para o cônjuge que se sente casado com uma pessoa diferente. Como por exemplo, um homem agressivo, mal humorado, impulsivo e de difícil convivência, após a experiência de EQM, tornou-se brando, amoroso e de fácil convivência. Não sabia como a esposa o suportara antes, mas o fato é que ela encontrou dificuldades em adaptar-se à personalidade reestruturada do marido. Estava acostumada com suas explosões (MOODY, 1989).

Quanto à noção de tempo observou que os indivíduos que passam por uma EQM, dizem não ter noção de tempo cronometrado pelos relógios, em geral, relatam que se sentiram na eternidade. No curso desta experiência, quando desejam ir para algum lugar, é suficiente apenas pensar neste lugar ou, em determinada pessoa e imediatamente vêem-se no local (MOODY, 1989).

Algumas pessoas relataram que, enquanto estavam “fora de seus corpos”, observando os médicos trabalharem na sala de operações, poderia ver seus parentes na sala de espera e que, para isso, tudo o que precisavam era sentir vontade de ir vê-los. Tais experiências, segundo Moody, (1989), constituem, talvez, a melhor resposta para aqueles que pensam que uma EQM é uma peça que o cérebro prega em si mesmo.

Apesar de tudo, afirma o autor, é perfeitamente possível, que o cérebro, sofrendo uma grande angústia, possa tentar acalmar-se, criando túneis e Seres de Luz, de modo a permitir que a pessoa repouse. Mas aqueles que podem contar o que está acontecendo em uma sala, enquanto seus corpos permanecem em outra, estão, realmente passando por tal experiência e por esta razão.

Moody (1989) apontou que os relatos sobre EQM não são alucinações pelas quais os pacientes passam, ou um processo natural de desligamento quando o cérebro está morrendo, mas experiências reais. Isso, porque, justamente, inúmeras vezes, os pacientes fizeram descrições muito corretas do que estava acontecendo ao seu lado ou em torno dela, de uma perspectiva que não poderiam ter se estivessem no corpo, na cama do hospital deitados.   .

2.6      Aspectos Espirituais da EQM   

Em relação à Espiritualidade Moody, (1989) observou que uma EQM quase sempre estimula a curiosidade espiritual. Alguns pesquisadores passaram a estudar e aceitar os ensinamentos espirituais de pensadores religiosos. Dentre esses pesquisadores está Kenneth Ring (1996, p.3), que teceu considerações sobre a influência das crenças religiosas e do conhecimento prévio das pessoas sobre EQM na manifestação desse fenômeno: 

Quando chegamos à área de crenças pessoais, no entanto, poderíamos esperar encontrar algumas correlações definidas com EQMs. Pessoas com forte orientação religiosa (o que é bem diferente de freqüência à igreja) ou profunda convicção em uma vida após a morte poderiam aparentemente ter mais probabilidades do que, digamos, agnósticos ou ateus, de passar por EQMs. A maioria dos sobreviventes também declara que vive depois com um sentido de finalidade espiritual ampliado e, em alguns casos, que procura um entendimento maior do significado essencial da vida.

Apesar da sensatez dessa suposição, as descobertas de vários estudos diferentes demonstram que isso não acontece. Na verdade, não existe diferença nem no tipo nem na incidência de EQMs devido à orientação religiosa da pessoa  ou falta de orientação.

Certamente, um agnóstico ou um ateu pode e realmente parece ter mais dificuldade de aceitar a experiência e pode ser menos inclinado a interpretá-la em termos convencionais do que um crédulo, mas a forma e o conteúdo da EQM não mudam. Uma EQM é uma experiência de morte para qualquer pessoa que passe por ela.

Segundo as observações de Dr. Ring “os sobreviventes da EQM tendem a passar para uma orientação espiritual geral em vez de religiosa quanto à vida” e que ele denominou de “orientação espiritual universalista”, a qual é constituída por sete elementos essenciais:

a) uma tendência a se caracterizar como pessoa espiritual em vez de religiosa; b) uma sensação de estar interiormente próximo de Deus; c) uma perda de ênfase nos aspectos formais da vida e da adoração religiosa; d) uma convicção de que existe vida após a morte, apesar de crenças religiosas; e) uma abertura à doutrina da reencarnação (e uma simpatia geral pelas religiões orientais); f) uma crença na unidade essencial por trás de todas as religiões; g) um desejo de uma religião universal abraçando toda a humanidade (RING, 1996, p. 3).

Foi observado ainda que os sobreviventes da EQM, embora continuem a sentir raiva, medo, ciúmes e impaciência, não permanecem assim por muito tempo. São mais maleáveis e ponderados, predispostos a aceitar a responsabilidade pessoal e buscar soluções justas. E discorrendo mais sobre esse assunto a pesquisadora Atwater (1998, p. 4) constatou que:

Alguns sobreviventes da Experiência de Quase-Morte sentem-se como se tivessem sido “expulsos do paraíso”, tendo revivido, quando na verdade prefeririam lá ficar. A maioria deles sabe que não é tão perfeita como parece que eles deveriam ser, considerando onde estiveram. Nenhum deles afirma que é santo. Os estados de depressão podem ser longos, a experiência pode tanto parecer uma bênção quanto uma maldição. No entanto, muitos também planam suavemente pelos efeitos posteriores, com pouco ou nenhum desgaste, ou choro, que evidencie algum tipo de conflito, como se estivessem sobre “um tapete mágico voador”. O apoio da família é um fator muito importante.

Weiss (1998) seguindo nessa mesma direção conta que atendeu vários pacientes com experiência de morte clínica e entre eles, um bem sucedido homem de negócios sul americano, o qual havia se submetido a várias sessões de psicoterapia convencional com ele. Este paciente, Jacob, foi atropelado por uma motocicleta, na Holanda, em 1975, e ficou inconsciente. Tinha, na época, um pouco mais de trinta anos.  Relatou que se lembrava de ter pairado sobre seu corpo e visto a cena do acidente, a ambulância, o médico que cuidou de seus ferimentos e a multidão que observava.

Percebeu uma luz dourada a distância e, quando se aproximou dele, viu um monge vestindo um manto marrom. O monge disse a Jacob que ainda não era sua hora de morrer e que ele precisava voltar para seu corpo. Jacob sentiu segundo Weiss (1998), a sabedoria e o poder do monge, o qual também lhe revelou vários acontecimentos que iriam ocorrer em sua vida futura e que, posteriormente, realmente aconteceram. Jacob voltou para seu corpo que estava em um leito de hospital, recuperou a consciência e, pela primeira vez, sentiu dores terríveis. 

Segundo Weiss (1998) através de suas experiências clínicas, concluiu que a vida é eterna porque o ser humano está inserido em outras dimensões além da dimensão física, como por exemplo, a dimensão espiritual. Analisando-se a vida por este prisma, este autor observa que não há morte e nem nascimento, apenas passagens do eu ou “self” ou espírito por diferentes fases. O tempo, por sua vez, analisado por esta ótica, é medido pelas lições que devem ser aprendidas.

Weiss (1999) também afirma que, no outro extremo da Vida, quando o indivíduo vem a óbito, a consciência continua existindo, justamente porque não depende de uma forma física e a aprendizagem continua a acontecer em níveis mais elevados desta consciência. O autor, baseado em suas pesquisas clínicas, afirma que o espírito passa por vários níveis de consciência quando deixa o corpo físico, no momento da morte.  

2.7 Aspectos da Consciência

Segundo Elias os aspectos da consciência são hipóteses levantadas deste estudo

[...] que objetiva re-significar a Dor Simbólica da Morte de pacientes que vivenciaram a EQM ou pacientes em fase terminal, representada pela Dor Psíquica e Dor Espiritual, o que, em resumo, significa melhorar a qualidade da consciência dos pacientes, ajudando-os a deslocar o pensamento dos estados de tristezas, angústias, culpas, perdas e principalmente, dos medos, e focá-lo em estados de tranqüilidade, serenidade, conforto, proteção, paz (ELIAS, 2001, p. 68).

Segundo Borges (1999) na EQM a consciência extracorpórea não percebe apenas o mundo físico, mas parece relacionar-se com outro tipo de realidade não-física, experimentando, na quase totalidade dos casos, um sentimento profundo de amor e de paz, assim como de unidade com todo o universo. O que os pesquisadores observaram é que a consciência extracorpórea, numa EQM, produz uma mudança radical e definitiva na consciência corpórea ou originária.

De acordo com Greyson (2007) tais aspectos transcendentais ou místicos e a ocorrência de um funcionamento mental ampliado, quando o cérebro está gravemente danificado, desafiam a teoria comum da neurociência, a qual afirma que a consciência é unicamente o produto de processos cerebrais, ou que a mente é meramente um epifenômeno (fenômeno que vem juntar-se a outro, mas sem influenciá-lo. de eventos neurológicos).

Uma analogia pode ser estabelecida com a mecânica newtoniana (leis que descrevem o comportamento de corpos em movimento), que propõe explicar a física da vida diária. Foi apenas a investigação de circunstâncias extraordinárias, envolvendo distâncias, velocidades ou massas, extremamente pequenas ou grandes, que revelou os alcances do modelo newtoniano e a necessidade de se desenvolver modelos explanatórios adicionais. Isto também se aplica à questão da compreensão do relacionamento mente-cérebro: a exploração de ocorrências extraordinárias tais como uma EQM, pode revelar as limitações desse modelo atual de compreensão e da necessidade de se desenvolver um modelo explicativo mais abrangente (GREYSON, 2007).

Ainda segundo Greyson (2007), um exemplo certo das interações mente/cérebro pode esclarecer como a consciência funciona de forma tão complexa durante uma EQM, e as pesquisas constataram que o ato de pensar, a percepção sensorial e a memória permanecem durante uma parada cardíaca ou sob anestesia geral; os modelos fisiológicos atuais, que explicam o funcionamento da mente, consideram tais eventos impossíveis (KELLY et.al., 2007).  

Compreender o receio da morte nos permite ter consciência de nossos prejuízos habituais, facilitando assim conhecer e elaborar estes danos e dar suporte ao próprio processo e ao do cliente; possibilitando ainda um acolhimento mais humanizado e menos transferencial. Este medo acompanhado da negação da morte, não elaborada só pode ser minimizado a partir do momento da aceitação da própria terminalidade em todas as suas dimensões, preparando-se para suportar o tão dolorido processo de morrer e a ocasião da morte. Considerados os diferentes aspectos da EQM, passamos a discutir a negação da morte e os respectivos estágios.

3 Negação da Morte

No mundo moderno considera-se que, no geral a preocupação em manter a vida não contempla o entendimento da inevitabilidade da morte e que não se está organizada psicologicamente para lidar com ela. Ao contrário, a morte não é somente encarada como angustiante para o individuo que é portador de uma doença fatal, como também para aquele que aparentemente é saudável, mas, também assustador para aqueles que o rodeiam, como amigos e familiares e, até mesmo, para os profissionais de saúde que atuam nas instituições hospitalares.   

No entanto, negar a morte, não vai mudar o ciclo normal do individuo; assim como o nascimento, a morte faz parte do processo de vida do ser humano.  O indivíduo, com relação ao tema da morte e, sobretudo pelos aspectos figurados, que ela representa, ou seja, pelo significado ou pelos valores de medo, luto e perdas que produz nas pessoas que se vive evitando e fugindo dela. Por isso, o sentido da morte varia no transcorrer da história e entre as diferentes culturas humanas. Para o homem ocidental atual, a morte passou a ser percebida como fracasso, impotência e vergonha. Tenta-se vencê-la a qualquer custo e, quando tal êxito não é alcançado, ela é camuflada e negada (KUBLER ROSS, 1987).

De acordo com Kovács (2005), negar a morte é uma das formas de não entrar em contato com os elementos dolorosos. A grande dádiva da negação e da repressão é aceitar que se viva num mundo de fantasia onde há ilusão da imortalidade. Se o medo da morte permanecesse constantemente presente, os sujeitos não conseguiriam alcançar os seus sonhos e projetos. Por isso permanece, no indivíduo, o desejo de imortalidade, realizando obras que não admitam o seu esquecimento, produzindo a ilusão de que a morte e a decadência da vida física não ocorrerão. Esse revestimento de força esconde uma fragilidade interna, a finitude e a vulnerabilidade.

Ainda segundo Kovács (2003), a negação e a idéia de morte são mecanismos de proteção porque consentem que se viva em um mundo imaginário no qual a eternidade se faz presente. A negação surge como uma defesa para não se confrontar com essa fragilidade humana que é universal. Parece ser mais fácil não falar sobre a morte do que ter que enfrentar a própria finitude.

Para Cassorla (1998) a negação da morte é entendida quando se permanece sem saber como atuar diante de um conhecido que perdeu um ente querido, não lhe dando as condolências, evitando ir ao velório ou narrando piadas no velório. Atitudes como essas parecem cooperar para a percepção errônea de que tudo está bem, de que nada ocorreu, por não desejar vivenciar o sentimento de dor e de sofrimento pela perda. O que se entende e observa é que não espera entrar em contato com a  própria finitude e procura-se logo retomar as  atividades normais.

A existência humana, de acordo com Cassorla (1998) é o maior bem que tem, mas, para viver bem, é preciso aceitar que a morte faz parte da vida e que todos expirarão algum dia.

Segundo Kovács (2002) negar a morte é não desejar entrar em contato com as experiências que acarretam sofrimento, consentindo, assim, fantasiar a ilusão da imortalidade, dando a idéia de força e de controle sobre o medo da morte. Por isso que o individuo criou mecanismos para que pudesse agir sem realmente acreditar em sua própria morte. É como se confiasse em sua própria imortalidade física, cogitando reprimir a morte, chegou ao estado da negação da mesma.

A morte, é sem dúvida o tema mais universal e antigo e que sempre despertou grande número de emoções e atitudes, é, geralmente, enfrentada como uma desgraça, um mal, sendo o medo e a ansiedade seus mais fortes correlatos (KASTENBAUM; AISENBERG, 1983).

O absurdo entre a inevitabilidade da morte física e a necessidade de imortalidade pode esclarecer por que a negação da morte é intrínseca ao homem. Esta negação, embora necessária, pode ou não ser reforçada pelo sistema cultural ou religioso; o que esclarece em parte o evento da morte, apesar de ser sempre temida é a probabilidade de o homem pensar/acreditar que poderá viver sua vida em outras vidas.

Existem algumas estratégias de negação que podem ser notadas tanto no contexto organizacional do hospital, como no procedimento da equipe e pacientes. Diante dessas estratégias Ziegler (1977) aponta duas formas de negação: a negação prévia e a camuflagem retrospectiva.

A negação prévia consiste na negativa do acontecimento, antecipada pela certificação e afirmação de que indivíduo algum morre no hospital, ilustrada por Kübler-Ross (1987), que, após horas andando nos corredores de um hospital em busca de paciente em fase terminal para entrevistar, escutava sempre a mesma resposta dos médicos: “Não há moribundos neste setor”.

A outra forma de negação, a camuflagem retrospectiva, que configura como a extinção do episódio, apesar do evento ter ocorrido e é uma tática de ocultamento da morte. Essa negação se mostra presente nas normas subentendidas da instituição. Não se espera, por exemplo, que o paciente morra em qualquer lugar a qualquer hora. Analisa-se importante que as instituições não exponham os sobreviventes ao fenômeno da morte. Caso as normas sejam contestadas, a equipe de profissionais do hospital agirá imediatamente para disfarçar o ocorrido, “maquiar” a morte, fazendo com que o morto pareça adormecido, recorrendo a eufemismos etc.

O endeusamento tecnológico é outra manifestação da negação da morte no contexto hospitalar, o que remete a assuntos de Bioética, como, por exemplo, a questão da obstinação terapêutica, também conhecida como distanásia. O conceito de distanásia caracteriza-se por uma morte lenta e sofrida, com abuso de medidas terapêuticas, infligindo intenso sofrimento e dor ao moribundo, com ações médicas incapazes de modificar o quadro mórbido (PESSINI, 2004).

Outra evidência da negação da morte na instituição hospitalar pode ser averiguada no método de despersonalização imposto ao paciente. Manejando o despojamento da identidade pessoal, a instituição hospitalar desempenha seu poder sobre o paciente, designando-lhe outra identidade (que pode ser um número (o paciente do leito quatro, da enfermaria dois etc.), ou uma afecção (o enfartado, o politraumatizado etc.) que se diferencia por ser vulnerável submissa e dependente. Anula-se, pois, a possibilidade de questionamento por parte do paciente, que entende que, para ser acolhido e bem-visto, deve calar-se. Silenciando o paciente, a instituição silencia também o problema da morte (TORRES; GUEDES, 1984).

De acordo com Pitta (1999) o conhecimento da equipe de saúde, voltado unicamente para soluções técnicas, exige um modo de negação da morte, na medida em que fornece poder ao profissional da saúde e modera o sentimento de impotência. Nessa definição, o investimento nos recursos tecnológicos torna-se uma alternativa de prorrogação da vida do paciente para evitar não só o contato com a morte, mas a comunicação com a família e os sentimentos mais profundos do paciente. Nesse assunto, nas palavras de Maranhão (1996, p.19), desempenha-se a "coisificação do homem", na medida em que se nega "a experiência da morte e do morrer".

3.1 Os Cinco Estágios da morte

Elizabeth Kübler-Ross (1998) foi à precursora em descrever as atitudes e reações emocionais geradas pela aproximação da morte em pacientes terminais, reação humana que não dependem de um aprendizado só cultural, mas também social e espiritual. Seus trabalhos descrevem a identificação dos cinco estágios que um paciente pode vivenciar durante sua terminalidade.

O paciente gravemente enfermo, em geral, é tratado como uma pessoa que não tem o direito de opinar. Quase sempre é outra pessoa quem resolve se, quando e onde o paciente deve ser hospitalizado.

Kübler-Ross (1998) adverte, no entanto, que é importante lembrar que o doente também tem sentimentos, desejos, opiniões e, acima de tudo, o direito de ser ouvido. Para articular sobre paciente terminal e equipe interdisciplinar, tem de levar em apreço a importância do cuidado dos graves efeitos psicológicos, sociais e físicos da hospitalização e da patologia, incidentes tanto nos pacientes como em suas famílias. Esse tipo de paciente é aquele que atravessa a fase terminal de uma doença e a conseqüência é divulgada e esperada para óbito, independentemente da terapêutica utilizada, sendo esta, neste momento, mais paliativa e sem a expectativa de cura (ALAMY, 1999).

Segundo Angerami Camon (2002, p. 105):

O trabalho de colaboração em equipe distingue-se pela identidade dos objetivos, que enfatizam as relações de troca entre os seus diferentes membros.  O autor ressalta que a equipe interdisciplinar é definida como um grupo de profissionais com formações diversificadas que atuam de maneira interdependente, inter-relacionando-se num mesmo ambiente de trabalho, por meio de comunicações formais e informais.

Para prestar uma boa assistência ao paciente terminal é essencial que toda a equipe esteja bastante familiarizada com os estágios pelos quais ele passa, lembrando que estes podem se intercalar e reproduzir durante todo o processo da doença. Os estágios da terminalidade descritos por ela são:

a negação e o isolamento, a raiva, a barganha ou negociação, a depressão e a aceitação, complementando-se com a esperança, que persiste em todos esses estágios, dando a oportunidade ao paciente de suportar sua dor. Segundo a autora, quando um paciente não dá mais sinal de esperança geralmente é o prenúncio de morte iminente (KÜBLER-ROSS, 1998, p.296).

Tais estágios são aqueles descritos por Kübler-Ross (1998), e sua observação por parte da equipe de saúde que permite uma visão autêntica da complexidade vivida pelo paciente diante da sua situação de terminalidade e do processo de morte.

3.2 Negação e isolamento

A negação, ou pelo menos a negação parcial, é usada por quase todos os pacientes, ou nos primeiros estágios da doença ou logo após a constatação, ou às vezes numa fase posterior. Esses pacientes podem considerar a morte durante certo tempo, mas precisam deixar de lado tal perspectiva para lutar pela vida. A negação e a repressão da morte, para Kovács (2003), são mecanismos de proteção, porque permitem que se viva em um mundo de fantasia no qual a imortalidade se faz presente.

A negação surge como uma defesa para não se entrar em contato com essa fragilidade universal. Parece ser mais fácil não falar sobre a morte do que ter que encarar a própria finitude.  Enquanto que para Kübler-Ross, negação “funciona como um pára-choque depois de notícias inesperadas e chocantes, deixando que o paciente se recupere com o tempo (...)” (KÜBLER-ROSS, 2002, p. 44).

Em geral, essa fase é temporária, pois ele logo percebe que é necessário lutar pela vida, sendo raro o caso em que ele nega seu estado até o fim: “Entre nossos duzentos pacientes em fase terminal, encontrei apenas três que rejeitaram até o último instante a aproximação da morte” (KÜBLER-ROSS, 2002, p. 45).

É o paciente que traz seu limite, sinalizando até onde se pode falar sobre a doença. Muitas vezes, o médico esclareceu tudo a respeito do diagnóstico, falou abertamente sobre seu estado de saúde, mas de alguma forma o paciente filtra suas palavras e escuta apenas o que lhe “convém” naquele momento (KUBLLER-ROSS, 1998).

Neste estágio, o sentimento de negação funciona como um pára choque, para que o paciente se acostume com tal situação, porém não significa que a paciente não queira conversar em um momento oportuno sobre a sua morte, é preciso aguardar tal ocasião de acordo com os sinais demonstrados pelo próprio paciente. É melhor falar sobre a morte e o morrer bem antes que isso ocorra desde que o paciente queira, pois um indivíduo saudável pode tratar melhor o assunto, e até mesmo a família pode se preparar de uma forma melhor para enfrentar essa situação.

Após esta fase vem à aceitação parcial, a maioria dos pacientes não se utiliza da negação por muito tempo, é um estado temporário do paciente do qual ele se recupera gradualmente á medida que vai se acostumando com a sua realidade, ele reage. Alguns pacientes utilizam da negação perante alguns membros da equipe hospitalar e até mesmo são exigentes na escolha dos familiares que podem ficar a par do seu real estado, para tanto se utilizam da negação principalmente diante daqueles familiares que ele considera mais vulneráveis a sua perda e diante de membros da equipe hospitalar que não passam confiança para o paciente (KUBLLER-ROSS, 1998).

É importante que os médicos e a equipe hospitalar não evitem esses pacientes, pois os mesmos quando sentem que devem falar abrem a alma e participam sua solidão para aqueles os quais consideram interessados em seu estado, que o respeitam. Isso reflete a necessidade de examinar as reações no trabalho, pois elas  refletem  nos pacientes contribuindo até para o seu bem estar ou piora (KUBLLER-ROSS, 1998).

3.3 Raiva

O sentimento de raiva aparece quando não é mais possível manter firme o primeiro estágio, de negação, ele é substituído por sentimentos de raiva, revolta, de inveja e ressentimento. Surge, lógico, uma pergunta: “Por que eu?” (KÜBLER-ROSS, 1998). Este pode ser considerado um dos estágios mais delicados no que diz respeito aos cuidados com o paciente. Tanto familiares quanto a equipe hospitalar temem este momento. A raiva se propaga em todas as direções e projeta-se no ambiente. E costuma ser um sentimento de difícil elaboração nessas condições específicas. Este também tende a ser um sentimento reprimido, abafado e talvez tenha contribuído anteriormente para o desenvolvimento da doença.

Esse estágio, embora difícil, deve ser encarado como mais uma etapa, a fim de que se possa reestruturar uma forma cristalizada de lidar com o mundo, com a vida e, nesse momento, com a doença. É hora de propiciar a expressão de um sentimento até então “esquecido”. Isso fortalece o paciente e o libera para melhor lidar com as frustrações e contrariedades da vida. Significa que a raiva, assim como outros sentimentos tidos como “positivos”, deve ser expressa e vivenciada. Assumir a existência da raiva pode ser um bom começo para a elaboração de um novo olhar e um melhor entendimento de si próprio como ser humano (KUBLLER-ROSS, 1998).

3.4 Barganha

É o momento em que o paciente começa a ter algumas reações com esperança ou uma possibilidade de cura. Isso acontece muito com pacientes terminais, quando almeja um prolongamento de sua vida. A barganha, na realidade, é uma tentativa de adiantamento, uma promessa; tem de incluir um prêmio oferecido “por um bom comportamento”. Para Kübler-Ross (1998), psicologicamente, as promessas podem estar associadas a uma culpa recôndita, devendo ser consideradas pela equipe hospitalar.

Pois é hora do paciente negociar secretamente o seu futuro, em geral com Deus, e colocar-se à disposição para um favor, caso o pedido seja atendido. A oferta pode também ser negociada com o médico, como uma forma de planejamento. Ter um bom argumento para manter-se motivado exerce influência muito positiva sobre o curso da doença, o estágio da barganha é o menos conhecido, porém tão útil quanto os demais.

3.5 Depressão 

“Tanto os fatores externos (objetivos), como os internos (subjetivos) contribuem para que a tristeza do paciente se intensifique e, muitas vezes, se instale, podendo chegar à depressão” (KÜBLER-ROSS, 1998, p. 92), este identifica dois tipos diferentes de depressão e considera que deverão ser tratados também de formas distintas. A primeira é uma depressão reativa e a segunda, uma depressão preparatória.

A forma reativa dessa manifestação da depressão significa o surgimento de tristeza e pesar acentuados por algo que foi perdido, como o emprego, por causa do excesso de faltas ou da impossibilidade de exercer sua função; a posição de chefe de família ou até mesmo o imóvel de sua propriedade, em razão do alto custo do tratamento. São perdas significativas para o paciente que merecem atenção especial para que ele possa elaborá-las de alguma forma. Esta forma de depressão reativa requer muita conversa e intervenções ativas por parte dos outros em muitos assuntos, e o paciente tem muito a comunicar (KÜBLER-ROSS, 1987).

O segundo tipo de depressão, a preparatória não se dá em decorrência de perdas passadas, mas leva em conta perdas iminente. “Quando a depressão é um instrumento na preparação da perda iminente de todos os objetos amados, para facilitar o estado de aceitação, o encorajamento e a confiança não têm razão de ser” (KÜBLER-ROSS, 1998). Ou seja, não é compatível com o momento de buscar agradar ou animar o paciente quando este sofre por se encontrar prestes a perder tudo que ama; seria contraproducente e estaria na oposição da real necessidade do paciente naquele momento. O que está prestes a emergir são sentimentos de muita tristeza, pesar, medo, solidão, enfim, sentimentos difíceis tanto para o paciente quanto para todos à sua volta.

Quando Kluber Ross cita os dois tipos de depressão: a reativa e a preparatória. A primeira como uma reação aos eventos que já passaram por, exemplo a depressão de uma mulher que se submeteu a uma mastectomia. Podem-se ajudar os pacientes que apresentam esse tipo de quadro depressivo, encorajando-lhes a, como na velha canção inglesa, isto é, a olhar o lado bom da vida. Com os pacientes em depressão preparatória, contudo, a abordagem deve ser diferente. Ele se encontra em estado de profunda introspecção, preparando-se para entrar no quinto e último estágio, o de aceitação do fato de que vai morrer.

Quando a depressão é um instrumento de preparação da perda iminente de todos os objetos, para facilitar o estado de aceitação, o encorajamento e a confiança não têm razão de ser. O paciente não deveria ser encorajado a olhar o lado risonho das coisas, pois isto significaria que ele não deveria contemplar sua morte iminente. Dizer-lhe para não ficar triste seria contraproducente, pois todos nós ficamos profundamente tristes quando perdemos um ser amado. O paciente está prestes a perder tudo e todos a quem ama. Se deixarmos que exteriorize seu pesar, aceitará mais facilmente a situação e ficará agradecido aos que puderem estar com ele nesse estado de depressão sem repetir constantemente que não fique triste. Este segundo tipo de depressão geralmente é silencioso, em contraposição ao primeiro, que requer muita conversa e até intervenções ativas por parte dos outros em muitos assuntos, e o paciente tem muito para comunicar (KÜBLER-ROSS, 2002, p. 93-4).

Muitos pacientes entram em depressão ao fazerem um retrospecto de suas vidas e ao não se sentirem satisfeitos com esse balanço, eles ficam desgostos, por não terem tempo de realizarem tudo que desejaram. Indivíduos que não puderam concretizar seus planos; que guardaram rancores contra familiares e/ou amigos, que se acomodaram numa relação conjugal infeliz ou que investiram toda sua energia no acúmulo de bens materiais tendem a encarar a morte iminente com especial desolação.

3.6 Aceitação

O quinto estágio decorre sobre a aceitação da doença sem depressões decorrentes ao seu estado de saúde. Este paciente já passou pela fase de não aceitação da enfermidade e não mais sentirá raiva quanto ao seu destino. Ele terá externado seus sentimentos, sua inveja pelos vivos e sadios e sua raiva por aqueles que não são obrigados a enfrentar a morte tão cedo. Terá lamentado a perda iminente de pessoas e lugares queridos e contemplara seu fim próximo com certo grau de tranqüilidade e expectativa. Ele estará cansado e bastante fraco, na maioria dos casos, sentindo a necessidade de cochilar e dormir com freqüência em intervalos curtos diferindo da fase de dormir da depressão. Não e um sono de fuga, nem um instante de descanso para aliviar a dor e sim uma necessidade gradual e crescente de aumentar as horas de sono. Isso indica o fim da luta, mas com um significado de aceitação (KÜBLER-ROSS, 1998).

 A aceitação, em alguns casos, não quer dizer desistir de lutar em busca da melhora, porém assumir os fatos como eles realmente são. E contribui para concentrar-se em viver as alegrias e as tristezas do momento presente. Este é o estágio final do processo e, como os anteriores, pode oscilar entre estar presente (assumido pelo paciente) e, de repente, mostrar-se ausente por instantes, e novamente ser experimentado com maior intensidade. Pode ser também o estágio de aceitação da morte. “É como se a dor tivesse esvaecido, a luta tivesse cessado e fosse chegado o momento do ‘repouso derradeiro antes da longa viagem’, no dizer de um paciente” (KÜBLER-ROSS, 1998, p. 92).

Caso o paciente esteja em estado terminal, o estágio de aceitação adquirirá outro significado para ele, bem como para os seus familiares e amigos próximos, que muito provavelmente necessitarão de compreensão e apoio. O momento, em geral, é mais crítico para os familiares, na medida em que o paciente, às vésperas da morte, encontra certa paz e alívio. É uma fase delicada, porém, muitas vezes, inevitável. Um dos membros da equipe que desconheça esses estágios poderá incorrer em erros que repercutirão em todo o processo do paciente, interferindo no trabalho dos outros profissionais.

Por exemplo, se a enfermeira não sabe que a raiva projetada nela, pelo paciente, é apenas a manifestação de um sentimento esperado e compreendido, e reage a ela com aspereza, poderá contribuir para que o paciente se sinta culpado por seu estado, levando-o a um quadro depressivo prejudicial para os seus esforços de melhora. Assim, mais esforço será exigido, por exemplo, da fonoaudióloga, que deverá mostrar-lhe a importância da sua contribuição no tratamento; a psicóloga terá mais um elemento de terapia, que poderia ser evitado, deixando o espaço psicoterapêutico para outras questões mais emergenciais.

3.7 Esperança

De todos os estágios pelos quais as pessoas passam quando diante de problemas trágicos, a única coisa que persiste é a esperança. Até os pacientes mais conformados com sua situação terminal, sempre deixam transparecem que sentem um sinal de esperança. Normalmente eles sentem que há uma possibilidade de cura, que de repente foi descoberto um novo produto, uma nova droga e eles foram escolhidos pelos médicos para um projeto de pesquisa exitoso que vai aparecer de um dia para o outro. Esse sentimento sustenta os dias, meses e anos desses pacientes, isso é esperança (um misto de racionalização dos sentimentos com uma forma de negação temporária).

Pacientes sentem maior confiança nos médicos que conservaram essa esperança nele. Quando um paciente perde a esperança, geralmente é o prenúncio para o fim, é quando eles chegam a dizer “é o fim” ou, “Doutor, eu não agüento mais” e foi observado que muitos desses pacientes morreram num intervalo de 24 horas ou pouco mais após. Esse estágio era de aceitação. Também há uma sensação de angústia vinda da esperança: 1º, a substituição da esperança pela desesperança, tanto da equipe hospitalar quanto da família, quando essa ainda era importante para o paciente e 2º, a incapacidade da família em aceitar o estágio final de um paciente, a família se agarra a uma esperança milagrosa quando o paciente já estava preparado para morrer (KÜBLER-ROSS, 1998).

 Ainda segundo Ross a Síndrome pseudo-terminal significa que o paciente havia sido desenganado pelos médicos, mas apresentou melhora considerável após o tratamento, esses pacientes são capazes de achar que sua recuperação foi um milagre, uma nova chance. Por isso, deve-se proporcionar a cada um a oportunidade do melhor tratamento possível, sem considerar a gravidade do enfermo, ou seja, não desistir de salva-lo. Desistir desse paciente pode fazer com que ele se entregue. Continuar tentando fazer com que ele veja seu médico como um amigo próximo que ficará com ele até o fim (KÜBLER-ROSS, 1998).

Evitando tocar no assunto sobre morte e morrer pode ser prejudicial aos pacientes do que encontrar tempo para ouvi-lo e compartilhar esse momento com ele (a maioria deseja compartilhar seus problemas e angústias com alguém  trazendo-o alívio). Nem sempre o paciente quer falar, mas quando ele está mais sociável e deixa transparecer que continua esperando, geralmente é a hora de mostrar a ele que estamos prontos para ouvi-lo e então ajudá-lo a manter viva a sua esperança (KÜBLER-ROSS, 1998). Diante de tudo que já foi explanado sobre as EQMs, faz-se necessário apresentar as teorias que justificam esse fenômeno.

4 Teorias que Explicam a EQM

De acordo com Souza (2009) existem várias posições de especialistas na tentativa de explicar o fenômeno da EQM de forma racional. Assim serão expostas  algumas das teorias que podem explicar o que ocorre quando um indivíduo passa por uma experiência de quase morte.

4.1 Teoria da Morte Cerebral

Esta teoria é uma das mais popularizadas, especialmente pela Dra. Susan Blackmore, psicóloga inglesa e uma das mais famosas pesquisadoras sobre causas da EQM. O fato de todos aqueles que passaram por essa experiência seguirem o mesmo trajeto para a luz, atravessando estágios similares, ou seja, vivenciando a mesma prática, faz com que se pense, como sendo uma viagem espiritual profunda (SOUZA, 2009).

Mas o que se argumenta é que tudo isso não passa de mais uma função do cérebro que está morrendo. Todos os cérebros morrem da mesma maneira, dizem os céticos. É por isso que toda EQM tem os mesmos elementos. Não é porque a pessoa que está morrendo viaja para um além bonito, mas porque os neurotransmissores no cérebro estão criando as mesmas ilusões, já que fisiologicamente todos são iguais (SOUZA, 2009).

 Ainda segundo Souza (2009), a EQM seria criada em virtude da fisiologia cerebral, e não teria nada de transcendental. Susan Blackmore ( 2009) teoriza que as pessoas passam por essa experiência, pois é o último impulso do cérebro para ajudar a enfrentar o trauma da morte.

4.2 Teoria da Alucinação

Alguns pesquisadores acreditam que as EQMs são explicadas pelas funções do cérebro, pois ao morrer são secretados endorfinas e hormônios que agem no sistema nervoso central para suprimir a dor e essas substâncias podem provocar alucinações e eles propõemmodelos neurobiológicos para explicar o fenômeno da EQM lembrando o papel das endorfinas, serotoninas e hormônios; entre esses pesquisadores estão Carr (1982), Morse, Venecia & Milstein (1989). Além disso, há muitos relatos de EQM de pessoas que não possuem problemas metabólicos ou cerebrais que possam levar a alucinações.

 Entretanto Souza (2009) considera que as endorfinas não são alucinógenas e não podem recriar um estado similar a EQMs, embora possam estar envolvidas no processo, não é responsável pela experiência inteira. Em relação às alucinações pode-se afirmar que quando a pessoa possui problemas orgânicos do cérebro, os pensamentos são obscuros, a pessoa fica com irritabilidade, agressividade, medo e com visões idiossincráticas diferentes do pensamento claro, apaziguador como ocorre com a EQM. Seriam sinais de que a EQM não está relacionada com alucinações como afirmam os céticos? (SOUZA, 2009).

Neste sentido, os relatos de pessoas que sofrem de alucinação e também vivenciaram uma EQM indicam que existe uma grande diferença entre o que vêem na alucinação e acham menos reais e o que vêm na EQM experienciado como mais real.

Verifica-se que indivíduos febris ou sob o efeito de drogas, quando próximos da morte, relatam que tem poucas características de EQM e menos delírios (SOUZA, 2009).

Deve-se salientar que os modelos apresentados são especulativos e não testados, pois os níveis de tais substâncias deveriam ser medidos durante o fenômeno, coisa até agora de certa forma um pouco difícil de ser realizada (SOUZA, 2009).

4.3 Teoria do Lóbulo Temporal

Algumas características da EQM podem ocorrer em um tipo de epilepsia, associadas com os danos ao lóbulo temporal do cérebro. Os investigadores constatam que, estimulando eletricamente este lóbulo, nos pacientes, eles podem imitar alguns elementos de EQMs, tal como o sentido das memórias da vida. Acreditam que o estresse de pensar ou estar próximo à morte, pode de alguma forma estimular este lóbulo (SOUZA, 2009).

Melvin Morse (1998) ressaltou que a excitação elétrica do lado direito do lobo temporal do cérebro, especificamente no sulco de Silvius, pode causar visões místicas, audição de música sublime, figuras de anjos e de parentes falecidos e o retrospecto panorâmico da vida. No entanto ele não apontou se isso ocorreu em todos os casos por ele observados.

4.4 Teoria da Falta de Oxigênio

Outra hipótese seria que a EQM ocorre como resultado da hipóxia ou anóxia no cérebro. Whinnery (1997) desenvolveu um modelo baseado no que ocorre com pilotos de avião a jato. Souza (2009) diz que a aceleração provoca a perda de consciência por um breve período, o que faz com que os pilotos relatem alteração da memória, ocorrência de efeitos visuais e até a visão de um túnel como na EQM. Mas há somente um relatório que foi capaz de medir os níveis de oxigênio e gás carbônico no sangue durante a EQM e a relação entre este fenômeno e a anóxia (SABOM, 1982).

É claro que esses modelos não explicam todo o fenômeno de EQM, mas podem ser utilizados para ajudar a distinguir os aspectos componentes do fenômeno que são resultados de perda de consciência daqueles que estão além deste aspecto e que são únicos da EQM (SOUZA, 2009).

Ainda é preciso considerar que estes modelos não explicariam porque alguns pacientes podem dar relatórios completos das coisas que aconteceram em torno deles durante sua EQM. O Dr. Michael Sabom (1982) relatou que um paciente, quando teve uma EQM, prestou atenção em seu médico executando um teste de sangue, mostrando riquezas de detalhes (SOUZA, 2009).

4.5 Teoria da Despersonalização/Dissociação

As EQMs foram descritas como um tipo de despersonalização, ou um sentimento de estranhamento ou de irrealidade, que imita o estado de morte e que sacrifica uma parte da personalidade para evitar a morte real, muito embora a despersonalização não esclareça a ampliação da agilidade mental nem a consciência mística, observadas nas EQMs. O aspecto central da despersonalização é a sensação de estar desligado do mundo como se, na verdade, estivesse sonhando.

O indivíduo que experimenta a despersonalização tem a impressão de estar num mundo fictício, irreal, mas a convicção da realidade não se altera. A desrealização é uma sensação e não uma alteração do pensamento como acontece nas psicoses onde o indivíduo não diferencia realidade da "fantasia". Na despersonalização o indivíduo tem preservado o senso de realidade apesar de ter uma sensação de que o que está vendo não é real. É comum a sensação de ser o observador de si próprio e até sentir o "movimento" de saída de dentro do próprio corpo de onde se observa a si mesmo de um lugar de fora do próprio corpo (NOYES e KLETTI, 1977).

A primeira tentativa moderna de explicar EQMs em termos psicológicos da despersonalização foi feita em 1930, por um psicólogo Pfister (1930) que afirmava que as pessoas diante de uma realidade desagradável, como a morte ou uma doença, tentam substituir essa realidade não aceita através de fantasias plausíveis para se proteger (SOUZA, 2009).

Enquanto que a despersonalização é tida como uma fantasia, uma fuga da realidade, o fenômeno de dissociação vem sendo comparada com a separação de pensamentos, sentimentos ou experiências do curso normal da consciência e da memória, o que é uma resposta de adaptação ao trauma, comum em pessoas sem outras alterações patológicas. Muitas EQMs compartilham com a dissociação, a desconexão da percepção, cognição, emoção e identidade do fluxo predominante de consciência do indivíduo (GREYSON, 1997b).

Os pesquisadores têm especulado o fato de que as pessoas que passaram por uma EQM talvez tenham tendência a dissociar em resposta a eventos desastrosos, mas não os estressores da vida diária (IRWIN, 1993; RING, 1992).

Sintomas de dissociação são mais comuns entre sujeitos que vivenciaram uma EQM do que entre indivíduos que estiveram próximos da morte sem EQM, embora os escores dos pacientes que vivenciaram uma EQM ainda estejam dentro da média esperada para a população normal e bem abaixo dos encontrados em transtornos dissociativos clínicos (GREYSON, 2000).

O perfil do sintoma dissociativo dos indivíduos que passaram por uma EQM sugere resposta psicofisiológica normal ao estresse, um desvio de atenção do ambiente físico para um estado alterado de consciência, mais que um tipo patológico de dissociação ou uma manifestação de transtorno dissociativo.

4.6 Teoria da Memória do Nascimento

Outra teoria popular é que a EQM não tem nada a ver com a morte, mas com memórias do nascimento. A pessoa estaria lembrando-se do momento do nascimento, ou seja, saindo do útero e chegando ao ambiente da sala de parto. Isto explicaria a passagem pelo túnel e a luz logo depois, a lembrança também da acolhida pela equipe médica e pela mãe ainda na sala de parto, seria a sensação de amor e calor (SOUZA, 2009). Portanto, segundo essa teoria, o que o acorre no momento da morte é somente uma memória armazenada do que aconteceu quando o indivíduo nasceu. Mas em um artigo de Susan Blackmore (1983) é explicado que tanto as pessoas que nasceram de parto normal quanto às de cesárea relatam a mesma experiência do túnel, contradizendo esta teoria, pois os nascidos de cesárea deveriam ter outro tipo de memória armazenada.

 Outros pesquisadores entre eles, Sagan (1979), interpretou as EQMs, com suas vivências de visualização de um túnel escuro, de uma luz brilhante e de entrada em outra dimensão, como uma memória do próprio nascimento. Entretanto, muitas EQMs não são vivenciadas pela visão de um túnel nem de uma luz, assim como muitas outras características comuns de EQM não são explicadas por esse modelo de “memórias do nascimento”. Além disso, aos recém-nascidos faltam a acuidade visual, a estabilidade espacial de suas imagens visuais, a agilidade mental e a capacidade cortical de codificação para registrar as memórias da experiência do nascimento (BECKER, 1982).

Por fim, os relatos de experiência fora do corpo e sobre a passagem através de um túnel para outra dimensão são igualmente comuns tanto entre as pessoas que nasceram de parto vaginal como entre as que nasceram de parto por cesárea. Blackmore (1983) contradiz as predições do modelo “memórias do nascimento”, pois acredita que tais experiências deveriam ser raras nos indivíduos que nasceram de parto por cesárea.

4.7 Teoria da Vida após a Morte

Existem muitas evidências circunstanciais de que a consciência sobrevive à morte corporal, embora se tenha conhecimento que a ciência necessita de melhores ferramentas para compreender o que é a consciência. Talvez quando descobrir o que é a consciência poderá ter evidência científica absoluta que há uma vida após a morte.  Com raras exceções, pesquisadores têm ignorado a questão da sobrevivência da consciência após a morte do corpo (SOUZA, 2009).

Ainda segundo Souza (2009), os pesquisadores Ring e Cooper (1997-1999)  encontraram 31 casos em suas pesquisas de pessoas cegas (algumas de nascimento) que tiveram percepção visual e descreveram objetos e acontecimentos após experienciarem uma EQM. O que se tem hoje são somente indícios, pois já que diante dos paradigmas científicos existentes atualmente, ainda não se tem capacidade de fazer uma afirmação segura de que existe uma sobrevivência após a morte; o que não se pode é deixar de estudar e pesquisar esses casos.

Todas essas teorias que explicam a EQM podem ser reduzidas a três paradigmas:

a) uma explicação neurofisiológica que reúne as teorias da morte cerebral, da alucinação, do lóbulo temporal, da falta de oxigênio; b) uma explicação psicológica onde se encontra a teoria da despersonalização, da memória do nascimento; c) a explicação transcendental que seria a teoria da vida após a morte, ou seja, a EQM seria uma forma real do homem experienciar o que é a morte e o que existe após esta. Embora possamos levar em consideração esses três paradigmas, até o momento não há nenhuma evidência que aponte para um deles (SOUZA, 2009, p. 63).

4.8 Conseqüências Transformadoras da EQM

Diante de tudo que já foi exposto sobre a EQM, busca-se ainda por meio de pesquisas e de literatura especializada, explicações a respeito das modificações que ocorrem após a pessoa ter vivenciado uma EQM. Dentre essas mudanças há os efeitos orgânicos da EQM, quando Melvin Morse menciona que Atwater foi a primeira pesquisadora a afirmar que a EQM altera a fisiologia cerebral. E também quem primeiro observou que a EQM transforma significativamente os campos eletromagnéticos que circundam a pessoa humana (MORSE, 1998).

 A pesquisadora Atwater observou modificações fisiológicas em mais de três mil pessoas com que teve contato e que passaram por uma EQM. Do seu relato, destacam-se as seguintes alterações mais importantes no comportamento fisiológico daquelas pessoas:

a) mudanças substanciais nos níveis de energia; b) maior sensibilidade à luz, especialmente à luz do sol como também ao som e ao volume dos sons; c) mudanças no funcionamento de seus cérebros; d) mudanças no seu metabolismo, com melhora nos processos digestivos; e) melhoria da saúde em geral, porém com aumento de alergias para os remédios alopáticos; f) queda da pressão sangüínea e diminuição do ritmo do pulso; g) hiperestesia táctil, gustativa e olfativa; h) sensibilidade para a eletricidade e campos geomagnéticos; i) maior sensibilidade a fatores meteorológicos, tais como temperatura, pressão, movimentos do ar e umidade; desabrochamento ou aumento de aptidões parapsicológicas e atividades curativas por imposição de mão (ATWATER, 1998, p.4).

    Atwater descobriu ainda que seriam necessários sete anos para que o sobrevivente da EQM comecem a integrar a sua experiência. Os três primeiros anos são os mais desafiadores, porque durante essa fase o sobrevivente está mais desorientado e as pessoas que lhe estão próximas não entendem o que está ocorrendo. Decorridos os sete anos, de acordo com o bom êxito dos reajustes feitos pelo sobrevivente, a vida se torna mais fácil, pois ele entra em sintonia com o ritmo da vida (ATWATER, 1998).

5 Efeitos das Experiências de Quase-Morte (EQM)

5.1 Efeitos positivos

Em relação aos efeitos EQM, as pesquisas tem se concentrado nas modificações pessoais benéficas que freqüentemente advêm dessa experiência. Os resultados que são tipicamente relatados, incluem a ampliação da espiritualidade, da preocupação com outras pessoas, da valorização da vida e a diminuição do medo da morte, do materialismo e da competitividade (SABOM, 1982).

Nos estudos que comparam as atitudes dos indivíduos, antes e após uma EQM, os resultados indicaram que após essa experiência os pacientes referiram diminuição do medo da morte, sensação de relativa invulnerabilidade, sentimento de importância ou de potencial para uma missão a cumprir e fortalecimento da crença na vida após a morte (NOYES, 1980).

Melvin Morse (1990) realizou pesquisa com pessoas que tiveram EQM e relataram sentirem-se diferentes, transformadas; este grupo foi comparado com pessoas que não passaram pela experiência e também com um grupo que havia tido a experiência, mas era cético e não acreditava no que tinha visto.  Após a análise de dados provenientes dessas pesquisas descobriu que as EQMs provocam mudanças realmente duradouras nas pessoas relacionadas ao grupo que creram e não nos indivíduos dos outros grupos.

Estas mudanças incluem: aumento de espiritualidade; diminuição da ansiedade em relação à morte; maior gosto pela vida; preocupação com os outros; valorização da vida e menos medo da morte; inteligência mais elevada, aumento das capacidades sensitivas; vêem a si mesmo como parte integrante do universo; crença fortalecida na vida após a morte; senso renovado de propósito; maior confiança e flexibilidade em lidar com as dificuldades; menor preocupação com status e posses materiais e amor ao próximo (SOUZA, 2009, p. 61).

Os sobreviventes das EQMs que demonstram crença no que vivenciaram, também referiram ter maior apreço pela vida, renovação do sentido de viver melhor, aumento da confiança e da flexibilidade para lidar com as adversidades do dia a dia, e observaram que essas mudanças conduzem a efeitos positivos e significativos em relação à finalidade e ao sentido da vida, assim como favorece a aceitação da morte (BAUER, 1985).

Ainda discorrendo sobre os efeitos das EQMs, a pesquisadora Atwater constatou outras reações positivas como:

a) êxtase, devido ao milagre, beleza e glória da experiência; b) excitação, porque se sentem muito privilegiados por terem passado por essa experiência transformadora; c) gratidão, porque algo tão incrível tenha acontecido com eles; d) admiração, porque se sentem impossibilitados de falar ou de achar as palavras para se expressar; e) evangelização, um desejo imediato de contar aos outros as boas novas sobre a morte, Deus e o poder do amor; f) humildade, pela grandeza do episódio e do que ele pode acarretar (ATWATER 1998, p. 4).

Essas mudanças nas atitudes e no comportamento dos pacientes que passaram por essa experiência e sofreram transformações vêm sendo confirmados em estudos de longo prazo e também nas entrevistas com amigos e parentes (RING, 1984). Comparando as pessoas que vivenciaram uma EQM com as que chegaram próximo da morte, mas não passaram por essa experiência, os indivíduos que tiveram uma EQM passaram a dar valor significativamente mais baixo ao status, ao sucesso profissional, aos aspectos materiais e à fama (GREYSON, 1983a), e a morte passou a ser vista de forma menos ameaçadora (GREYSON, 1992).

5.2 Efeitos negativos

Embora indivíduos que tenham passado por uma EQM possam sofrer se essa experiência conflitar com as crenças e atitudes prévias, a ênfase da mídia leiga nos seus benefícios, inibe a busca por ajuda dos pacientes que estão com problemas. Algumas vezes as pessoas que passaram por uma EQM duvidam de sua própria sanidade mental, mas com freqüência receiam discutir esse assunto com seus amigos ou profissionais de saúde, pelo medo de serem ridicularizadas ou rejeitadas. Ocasionalmente os profissionais de saúde reagem negativamente quando os pacientes que vivenciaram e relatam suas experiências; o que os desencoraja de procurar ajuda para mais bem compreender essa experiência (GREYSON, 1997a; GREYSON e HARRIS, 1987).

Após uma EQM, os pacientes podem ter problemas emocionais e apresentar reações negativas. Dentre elas Atwater aponta:

a) raiva, por terem sido revividos e forçados a sair de onde quer que estejam; b) culpa, por não sentir falta nem se preocuparem com as pessoas que lhes são caras; c) desapontamento, pela descoberta de que estão novamente revestidos pelos seus corpos físicos e que terão novamente de respirar, comer e ir ao banheiro; d) horror, se suas experiências foram assustadoras ou infernais ou desagradáveis; e) embaraço, quando querem falar,mas não conseguem ou têm medo; f) depressão, quando percebem que agora devem retomar suas vidas anteriores e têm de encontrar um meio de levar adiante suas vidas comuns, independentemente do que aconteceu com eles (ATWATER 1998, p. 4).

A maioria dos pacientes que passaram por uma EQM gradualmente vai se ajustando, por si mesma, à experiência que teve e aos seus efeitos. Entretanto, essa adaptação freqüentemente requer que eles adotem novos valores, atitudes e interesses para conciliar a EQM com os ensinamentos de suas crenças religiosas tradicionais, ou seus valores e estilos de vida prévios.

Os familiares e amigos podem ter dificuldades em compreender as novas formas de crer no sobrenatural e os novos comportamentos dos que passaram pela EQM.  E pensando de outra forma a família sente-se influenciada pela mídia leiga sobre os efeitos positivos de uma EQM podem colocar esses pacientes em um pedestal e esperar por mudanças irreais. Algumas vezes, os amigos esperam paciência e capacidade grandiosa de perdoar desses indivíduos que passaram por uma EQM, ou curas milagrosas e poderes proféticos, e acabam por rejeitar os indivíduos, que passaram por uma EQM, e que não atendem a essas expectativas não realistas (GREYSON, 1997ª; GRAYSON e HARRIS, 1987).

Os pesquisadores observaram que a incongruência entre os valores adotados pelos que passaram por uma EQM e os valores de seus cônjuges tem resultado taxas relativamente elevadas de divórcio nesta população de indivíduos que sofreram uma EQM (BUSH, 1991).

A “morte social” que ocorre quando a personalidade conhecida do sobrevivente de EQM morre pode ser tão desorganizadora para a família, quanto seria a morte física desse indivíduo (INSINGER, 1991). Os efeitos de uma EQM “podem incluir depressão duradoura, término de relacionamentos, interrupção da carreira, sentimentos de intenso isolamento, incapacidade para agir no mundo e longos anos de esforço para adaptar-se às alterações na percepção da realidade” (BUSH, 1991, p. 7).

As vivências da EQM tornam-se centrais para a identidade desses pacientes e parecem diferenciá-los das outras pessoas que convivem com eles; tais sujeitos acabam por se definirem basicamente como “sobreviventes de uma EQM” e suas novas atitudes e crenças são tão diversas daqueles que os circundam, que a preocupação deles agora é de serem vistos como anormais. Os indivíduos que vivenciaram uma EQM podem se sentir distantes ou separados das pessoas que não passaram por experiências similares e temerem ser ridicularizados ou rejeitados por tais pessoas, às vezes, naturalmente, com muita razão.  A dificuldade em reconciliar as novas atitudes e crenças com as expectativas da família e dos amigos pode interferir na manutenção dos antigos papéis e estilo de vida, pois estes não têm mais o mesmo significado.

5.3 Tratamentos de problema relacionados à EQM

Embora não haja nenhum estudo controlado sobre os resultados de intervenções terapêuticas aos problemas relacionados com uma EQM, os clínicos desenvolveram um consenso de estratégias psicoterapêuticas (GREYSON, 1997a; GREYSON e HARRIS, 1987).

As modalidades de intervenção psicoterápica com pacientes que vivenciaram uma EQM sugerem incentivá-los, a verbalizar sua confusão e seu sofrimento, e também a refletir e clarificar mais que interpretar as percepções e emoções dos pacientes. Também se recomenda o oferecimento de informações objetivas sobre a vivência da EQM, favorecendo o entendimento tanto dos pacientes como dos familiares; evitando o sentimento de vítima do paciente e ajudando-o a elaborar as aflições perante as perdas do ego [02]. Os pacientes que consideram sua experiência inefável podem expressar seus conflitos usando meios não-verbais de expressão ou por meio da hipnose e da imaginação dirigida (GREYSON, 1997a; GREYSON e HARRIS, 1987).

A maneira pela qual um psicoterapeuta responde a um indivíduo que passou por uma EQM pode ter enorme influência na evolução do caso. Ou seja, se haverá aceitação da experiência e se vai transformar em um estímulo para o crescimento psicoespiritual, ou se será considerada uma experiência bizarra, que não deva ser compartilhada com os outros, por medo de ser rotulado como mentalmente doente.        

Mudanças nos valores, crenças e atitudes podem requerer modificações nas relações familiares e o foco da terapia no “aqui e agora”, pode ajudar os pacientes a integrar as vivências experimentadas durante a EQM em suas vidas diárias. A terapia de família ou de casal pode ser indicada quando mudanças no paciente demandam mudanças em relacionamentos íntimos, assim como mudanças na carreira (GREYSON, 1997a).

Diante da EQM, uma experiência tão estranha à vida cotidiana, explorar problemas e soluções com outras pessoas que também vivenciaram essa experiência pode reduzir o sentido bizarro associado ao fenômeno. Assim pacientes podem sentir-se melhor explorando o assunto em uma psicoterapia de grupo, composta por pacientes que também passaram por uma EQM, ou em um grupo de auto-ajuda específico, o que pode favorecer a normalização da experiência (GREYSON E HÁRRIS, 1987).  

Alguns autores têm advertido contra a prescrição de medicações para determinados pacientes simultaneamente, ao despertar espiritual espontâneo, o que pode congelar o processo em andamento e impedir quaisquer desenvolvimentos reparadores futuros (WILBER, 1984). Como alternativa, podem ser indicadas as práticas contemplativas, tais como a meditação ou a oração, que ajudam o indivíduo em crises espirituais (WILBER, 1984).

Após uma EQM, os pacientes podem ter problemas emocionais, como raiva e depressão, por terem sido ressuscitados e “mandados de volta”, talvez contra a própria vontade. Esses pacientes freqüentemente apresentam dificuldades para conciliar a experiência de EQM com os ensinamentos de suas crenças religiosas tradicionais, ou seus valores e estilos de vida prévios. Esses indivíduos que vivenciaram uma EQM podem se sentir distantes ou separados das pessoas que não passaram por experiências similares e temer ser ridicularizados ou rejeitados por tais pessoas às vezes, naturalmente, com muita razão.

A dificuldade em reconciliar as novas atitudes e crenças com as expectativas da família e dos amigos pode interferir na manutenção dos antigos papéis e estilo de vida, pois estes não têm mais o mesmo significado. Esses pacientes podem sentir que é impossível comunicar aos outros o significado e o impacto de uma EQM em suas vidas. Freqüentemente, experimentam um sentido do amor incondicional durante a EQM e não conseguem mais aceitar as condições e as limitações dos relacionamentos humanos (GREYSON, 1997a; GREYSON e HARRIS, 1987).

A maneira pela qual um psicoterapeuta responde a um indivíduo que passou por uma EQM pode ter enorme influência na evolução do caso, ou seja, se haverá aceitação da experiência e esta se transformará em um estímulo para o crescimento psicoespiritual. Ou se será considerada uma experiência bizarra, que não deva ser compartilhada com os outros, por medo de ser rotulado como mentalmente doente.

A literatura sobre problemas relacionados à EQM inclui vinhetas clínicas que ilustram pedidos para que se realize intervenção psiquiátrica em relação aos problemas secundários a uma EQM e que suscitam perguntas não somente sobre o diagnóstico diferencial das condições comórbidas, mas também do relacionamento causal entre elas, isto é, se as EQMs podem predispor o sujeito a determinados transtornos mentais ou se determinadas doenças mentais predispõem pacientes que vivenciarem uma EQM (CLARK, 1984; GREYSON, 1997a).

6. Considerações Finais

Considerando a complexidade do tema, o que se pode refletir sobre a EQM que é constituída por um conjunto de vivencias narradas por alguns indivíduos que passaram no limite da vida e da morte e que, contudo, conseguiram sobreviver. Essa experiência ocorre em pacientes terminais, sobreviventes de morte clínica, em circunstâncias de ameaça extrema em que a morte é iminente, tais como infarto do miocárdio, choque anafilático, intoxicação, traumatismo, anestesia, tentativa de suicídio, hemorragia cerebral, afogamento e outros casos médicos.

Esta experiência torna-se complexa porque envolve diversos aspectos da vida do paciente. De acordo com os estudos, percebe-se que abrange aspectos químicos cerebrais, fisiológicos, psicológicos, espirituais e aspectos da consciência. Mesmo que a ciência tenha dificuldade em explicar a complexidade que envolve todos os aspectos vivenciados e relatados pelos pacientes, e de não ter uma explicação plausível e convincente para si mesma e para o paciente; a comunidade médica vem pesquisando e discutindo por décadas o que é científico o que é fisiológico e o que é subjetivo nos relatos vivenciados por alguns desses pacientes.

Nesses relatos há uma seqüência de aspectos vivenciados por esses pacientes: impressão de se estar flutuando acima do próprio corpo percebendo as pessoas ao seu redor e indo ao encontro de Deus, efeito de paz, visão panorâmica retrospectiva da própria vida, amplitude das emoções e percepções. Pode aparecer a sensação de ingressar por um túnel em cujo final surge um “ser de luz”: essas referências variáveis vão depender dos arquétipos religiosos, culturais ou filosóficos da pessoa. A linha do tempo entre as duas dimensões, a física e extrafísica, se apresenta como uma fronteira que é marcada como se fosse o limiar entre a vida e a morte e é nesse limite que ocorre a EQM.

Segundo os estudos consultados faz-se necessário lembrar que nem todas as pessoas que atravessaram uma EQM trazem todas as características que compõem a mesma. Algumas poderão apresentar uma ou duas; outras, cinco ou seis. É a presença de um ou mais desses elementos que definirão uma experiência de quase-morte. Lembrando que alguns dos indivíduos que vivenciaram todas as características da EQM relataram que passaram por uma profunda mudança pessoal após esse evento, enquanto que outros descreveram mudanças parciais. Essas modificações apontadas pelos pesquisadores incluem: acréscimo do misticismo; redução da ansiedade em relação à morte (tanofobia); maior anseio pela vida; preocupação com o desejo dos outros; sentimento de ambigüidade; convicção da vida após a morte; maior bom senso e flexibilidade em lidar com as dificuldades; menor inquietação com statuse com as posses materiais.

Outros indivíduos relatam mudanças negativas a exemplo de: terem aborrecimento por trazê-los de volta e por terem sido compelidos a sair do lugar onde estavam; culpa por não sentirem que amam seus entes queridos e se preocupam com eles como antes; conflitos de perda da identidade, pois há momentos em que desejam estar na terra e em outro momento desejam estar no céu, depressão e angústia por terem que encarar a vida novamente, sentindo-se vazias e desanimadas.

Um aspecto propício para futuras pesquisas sobre esta experiência que traz um fascínio sobre o público em geral, são as repercussões ocorridas nos relacionamentos interpessoais. Segundo os pesquisadores da EQM, alguns pacientes que vivenciaram esse fenômeno e que passaram por essas mudanças psicológicas e comportamentais significativas, declaram que as mesmas repercutiram no relacionamento com a família, por terem modificado seus pontos de vista com relação ao mundo e às outras pessoas.

Como já foram referidos anteriormente, os problemas emocionais advindos das EQMs como as alterações comportamentais, a crise existencial, a depressão, e outras dificuldades, devem ser tratadas com intervenções terapêuticas para que ocorra uma elaboração desses sofrimentos. A forma como um terapeuta trata o indivíduo que passou pela EQM pode ser essencial para o processo de aceitação e coerência da experiência, tornando-a um estímulo para um maior crescimento.

O psicólogo tem o papel fundamental de ouvir o discurso desses pacientes e ajudá-los a esclarecer as interpretações das angústias que eles trazem através da sua própria fala. A escuta e a posição de congruência e de aceitação integral por parte do terapeuta vai permitir que o sujeito compartilhe e se liberte dos sentimentos que lhe angustiam. A terapia em grupo também vai ajudá-los, pois ao ouvir e sentir o contato com outros que passaram pela mesma situação, experimentam alívio e a impressão de não serem os únicos que vivenciaram uma EQM.

É evidente que o assunto EQM continua sendo muito controverso, pois, como foi apresentada pelas teorias que tentam explicar o fenômeno, essa experiência pode ser tanto um mecanismo de defesa psicológica para negar a morte, quanto um problema neurofisiológico da espécie humana ou verdadeiramente uma experiência real e transcendental. O que fica claro é que todas essas teorias e as suposições neurofisiológicas proporcionam esperanças para uma melhor definição da experiência de quase morte, os eventos fisiológicos e psicológicos que a envolvem.

Por fim, diante dos argumentos apresentadas, entende-se que mesmo diante das pesquisas e estudos já realizados, ainda assim os pesquisadores devem continuar buscando explicações científicas, físicas, espirituais e psicológicas para o tema, acrescentando-lhe novos dados. Os efeitos comumente relatados pelos pacientes de EQM possivelmente continuarão intrigando a todos, especialmente as profundas modificações existenciais que ocorrem à grande parte desses indivíduos produzindo uma nova percepção da vida e uma melhor aceitação de sua transitoriedade humana.

Sobre o Artigo:

Trabalho apresentado como pré-requisito para obtenção do Título de Psicólogo para a Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana-Ba.

Orientadora: Profª. Esp. Paula Rúbia O. do Vale Alves

Referências:

ALMEIDA, C. F. de; NASCIMENTO, Mª. F. C. Origens do medo da morte. São Paulo: Atlas, 1989.

ALAMY, S. A morte no contexto hospitalar. Apostila do Curso de psicologia Hospitalar. Belo Horizonte: ACPH, 1999.

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