Música e Cuidados Paliativos: um Trabalho Integrando Psicologia e Musicoterapia no Apoio a Pacientes Diagnosticados com Doenças Terminais

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Resumo: A morte sempre foi um mistério para todas as civilizações, e cada cultura traz consigo uma série de tentativas de explicar como seria a vida depois da morte. Sendo estas respostas nos dias atuais ainda incertas, os homens temem a chegada dessa hora, além de se deparar com o fato de ter que imaginar-se deixando para traz tudo o que construiu durante toda a vida, deixar a família, os amigos, a própria existência. O que esperar de uma pessoa que se descobre com uma doença que a aproxima desta despedida? Não se tem uma resposta pronta, apenas sabe-se que há ali um ser humano que necessita de acolhimento, de vida plena enquanto despedida.

Palavras-chave: Psicologia, Musicoterapia, Morte, Despedida, Cuidados paliativos.

1. Introdução

Não podemos dar mais horas de vida,
mas mais vida às horas que restam. 
(Cicely Saunders)

Historicamente, o processo de luto e o significado dado à morte sofreram alterações com o passar dos anos e são passivos a características peculiares de acordo com cada cultura, costumes, regiões, etc. Na contemporaneidade, podemos observar claramente a morte como algo da ordem do inaceitável, algo que imaginamos acontecer somente com os outros, mas que paramos pra pensar como ela está próxima apenas quando alguém do nosso meio de convivência morre.

“(...) a morte nunca é possível para o inconsciente quando se trata de nós mesmos. É inconcebível para o nosso inconsciente imaginar um fim real para nossa vida na terra e, se a vida tiver um fim, esse será atribuído a uma intervenção maligna fora de nosso alcance” (KÜBLER – ROSS, 1996).

Anos atrás, as pessoas optavam por morrer em suas casas, muitas vezes pedindo para despedir-se dos amigos e da família (quando dava tempo), e ainda para que o corpo fosse velado na casa que morou e que vivera por toda sua vida, com todas as lembranças e vivências simbólicas de grande significado. Esse processo acabava por ser bastante positivo. Primeiro, porque a pessoa em fase terminal estaria tendo a oportunidade de ter uma morte digna, onde não estivesse longe de seus familiares nem em cima de uma cama de hospital, longe de tudo aquilo que construiu durante toda a vida. Segundo, porque dava à família a oportunidade de se preparar melhor para aquela perda, pois vivenciariam mais de perto todo o processo, dividindo a dor e compartilhando o luto com todos ali presentes. Esses processos ainda existem em alguns lugares onde a cultura é bem preservada, como cidades pequenas ou do interior de alguns estados.

Hoje em dia o processo de morrer e a morte são expulsos das casas, o velório acontece em um local “apropriado”, as crianças muitas vezes são privadas de participar daquele momento e, muitas vezes ainda, é preferível que o paciente seja mantido sob cuidados do hospital, mesmo que contra o seu desejo.

Pensando no sentido e significado que a morte representa para nós e o distanciamento que pretendemos ter por muito tempo dessas idéias, principalmente quando se trata da nossa morte, o que poderíamos pensar e sentir quando diagnosticados com doenças terminais? Como lidar com a despedida desse mundo que vivemos e das pessoas que fizeram parte da nossa vida por todo esse tempo?

Partindo do pressuposto de que podemos contribuir para que o processo de morte seja vivenciado com maior sensibilidade, dignidade e paz pelo paciente, dando a oportunidade de fazê-lo elaborar o sentimento e a angústia, é que esse trabalho vem apresentar o envolvimento da psicologia e da musicoterapia enquanto cuidados paliativos na humanização do processo de morrer.

2. Definições e Atuação na Área

Possivelmente, sem a atuação de um psicólogo e com a correria do dia-a-dia em um hospital, os médicos e enfermeiros nem sempre estarão atentos às questões relacionadas ao bem estar emocional do paciente.

Segundo CAMON (2003), a psicologia hospitalar teria como objetivo principal evitar um sofrimento maior do paciente provocado pela hospitalização minimizando-o. O psicólogo, portanto, precisa estar atento e ter a clareza de que aquele ambiente não é propício para a prática psicoterápica como é realizada no setting terapêutico.

A patologia que originou a hospitalização deve ser levada em conta nesse contexto, porém não somente, visto que há sequelas e decorrências emocionais por consequência da hospitalização. Portanto, estaria sendo um intermediário entre o paciente, a família e a equipe, contando algumas vezes com ajuda de trabalhos voluntários.

A psicologia é o campo de estudo dos fenômenos psicológicos, tendo também uma das definições como sendo a ciência que estuda o comportamento e ainda o estudo da subjetividade humana nas suas relações com as pessoas e com o mundo exterior.

Na situação de atendimento a pacientes em estado terminal, a psicologia vem defender a humanização nas relações entre paciente, equipe médica e família, enfatizando a relação voltada ao olhar para o outro como pessoa, como ser de angústias e desejos, que sente inseguranças e também tem medos, para romper com o paradigma das relações médicas, que se preocupam mais focalmente com os resultados positivos em relação ao tratamento, como batimentos cardíacos, pressão sanguínea, aparelhos, etc.

Segundo KÜBLER-ROSS (1969), citada por KOVÁCS (1992), é uma tarefa desafiante focalizar o paciente como pessoa e tratá-lo como um ser humano, fazê-lo participar do tratamento.

É papel do psicólogo hospitalar, realizar o trabalho de escuta e intermediar a relação entre equipe e paciente, facilitando a compreensão dos desejos do mesmo e a sua participação nas decisões. É também, de uma forma geral, o papel de facilitar o processo de morrer dos pacientes, mesmo que essa ideia pareça ser complexa. A ênfase é na qualidade de vida, na facilitação da comunicação e na expressão dos sentimentos.

A musicoterapia também tem sido um grande ponto de apoio para pacientes em estado terminal e consequentemente para seus familiares, que notam uma mudança considerável no comportamento do paciente e maior participação e colaboração durante todo o processo. É ainda apresentado por parte dos familiares maior satisfação por notar que seu ente querido está sendo bem tratado e acolhido naquele ambiente, que por si só, já não é tão aconchegante assim. Há também a possibilidade de auxiliar no processo da elaboração do luto para aqueles que estão mais próximos do paciente e que acompanham a intervenção.

Ela vem favorecendo um espaço para que se expressem os anseios, medos e esperanças.  É utilizada, quando se trata do ambiente hospitalar, com pacientes em atendimento ambulatorial ou internação, estimulando a expressão de sentimentos, colaborando com a recuperação física, mental e emocional, inclusive através do acolhimento e da presença do terapeuta.

A musicoterapia é “um campo da ciência que estuda o ser humano, suas manifestações sonoras e os fenômenos que decorrerem da interação entre as pessoas e a música, o som e seus elementos: timbre, altura, intensidade e duração.” (Cunha e Volpi, 2008, P. 86. Apud LAHAM; AMOROSINO, 2012).

Vemos que o foco do tratamento não é a doença, mas a pessoa portadora da doença, e que deve haver abordagem multiprofissional e atenção individualizada, tanto ao doente quanto à sua família. Procedimentos invasivos e dolorosos não são indicados, obviamente, pois podem prolongar sem nenhuma utilidade o sofrimento. Mais importante seria a relação estabelecida entre os profissionais e o doente e seus respectivos familiares e/ou amigos próximos.

A música e seus efeitos terapêuticos são estudados e citados desde muito tempo atrás e, existencialmente falando, o fato somente de ouvir músicas que estão entrelaçadas com a nossa própria história de vida e que carregam um significado simbólico, nos faz estar em contato consigo mesmo, com sentimentos despertados, especialmente se estão em consonância com o momento ou fase pela qual estamos passando ao escutá-las, e isso é inquestionável.

Poderemos então, ao estar em contato com a musicoterapia, movimentar questões pessoais conscientes ou inconscientes, sabendo que esta é uma terapia na qual não se utiliza a verbalização, mas que faz expressar e criar possibilidades, utilizando artifícios para além dos sons e da própria música, como o corpo, suas expressões e movimentos e até a interação entre corpo e instrumentos musicais, no caso do tratamento não ser apenas receptivo, mas ativo.

Para LAHAM e AMOROSINO (2012), a música pode significar distração da dor e da doença, e ser ainda uma ferramenta poderosa, já que carrega significados. A música espiritual, por exemplo, pode ajudar a morrer em paz.

3. O Paciente e os Cuidados Paliativos

Entre 1930 e 1950 aconteceu uma aceleração do processo de ocorrência da morte no hospital, ao invés de no domicílio (ARIÈS, 1977), havendo mais recursos para manter-se uma pessoa viva, sendo a vida prolongada, mas com qualidade questionável. Assim, muitas vezes, ocorre o alívio da dor física, porém, acompanhado do aumento da dor psíquica (LAHAM; CHIBA, 2007. Apud LAHAM; AMOROSINO, 2012).

Sendo assim, o sujeito que está vivenciando um momento de despedida, nostalgia e/ou extrema angústia, não estaria de forma confortável dentro dos hospitais, sendo tratado quase como objeto de estudo, nem tampouco se sentindo acolhido em meio a todo aquele ambiente diferente do que vivia tempos antes.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS - 2002):

“Cuidados Paliativos fazem alusão a uma abordagem de promoção da qualidade de vida de pacientes e familiares que enfrentam problemas associados a doenças que ameaçam a continuidade da mesma, através da prevenção e alívio do sofrimento. Para isso, deve haver identificação precoce, avaliação correta e tratamento da dor e de outros problemas de ordem física, psicossocial e espiritual”. (PESSINI, 2005; MACIEL, 2008 Apud LAHAM; AMOROSINO 2012).

Diante dessa possibilidade, a psicologia e a musicoterapia vêm trazer, de forma integrada, um apoio a esses pacientes, aliás, a essas pessoas, de forma não invasiva, tentando aproximar-se da sua história, dos seus significados diante das lembranças e proporcionar um espaço para elaboração e explanação dos medos, desejos, vontades, etc. Além de ressignificar as relações entre os familiares, amigos e tudo que está a sua volta.

Sendo assim, quando se pensa na prática, defendemos aqui a integração dos trabalhos entre a psicologia e a musicoterapia, visto que, mesmo sendo áreas diferentes, apresentam harmonia na atuação com o sujeito, possibilitando um momento para expressão dos sentimentos, ou pelo menos a reflexão sobre determinados pontos da sua existência atual, as angústias que precisam “colocar para fora”, a necessidade de estar melhor, não no sentido apenas físico, mas emocional.

A música não viria como algo imposto pelo terapeuta, e sim como uma vontade do paciente, uma musica que representasse significados para ele, para que ele viva mais intensamente esse momento e interaja cada vez mais nessa relação terapêutica. Ele deve conduzir o repertório, participando mais ativamente do que sendo apenas um “depósito de experimentos”.

A atuação psicológica, então, daria um suporte integrado ao processo musicoterápico, ouvindo daquele paciente tudo o que fosse surgindo enquanto demanda, e acolhendo-o como pessoa, estando ali COM O OUTRO, presente.

4. A Intervenção com a Equipe Médica

Se sabemos do fato de que estar ali lidando com vidas é uma responsabilidade que envolve tensão, e que lidar também com pessoas que precisam de atenção constante faz do desgaste emocional algo inevitável para a equipe, especialmente ao lidar com situações em que o prognóstico está fechado e, segundo CAMON, et.al. (2003), o sentimento de culpa, impotência, a superproteção ou até mesmo a agressividade e autoritarismo como forma de defesa, o afastamento e a negação (“conspiração do silêncio”) tornam-se presentes, é necessário administrar tal situação de forma acolhedora, e a psicologia tem fundamental importância, possibilitando o apoio emocional, a oportunidade de falar desses medos, anseios e sentimentos ambíguos.

Segundo Bleger (1984), citado por Campos (2006), o psicólogo, na sua tarefa de psicólogo institucional, deve atender às situações que envolvem muitas tensões na equipe, decorrentes do contato diário com os problemas da doença e da morte que elevam o nível de ansiedade.

Nesse caso, a perda de um paciente pode acarretar a ansiedade pela sensação de fracasso não somente do seu trabalho, mas da ciência, e o medo da própria morte pode aparecer nesse instante, sendo esse um dos fatores que fazem com que os cuidados com pacientes terminais sejam encaminhados dos médicos para as enfermeiras, pois o fracasso acaba afetando o narcisismo do desejo de salvar heroicamente.

Pesquisas examinaram respostas da equipe médica ao testemunhar programas de musicoterapia focados especificamente nos pacientes.

Esses profissionais observaram efeitos positivos em pacientes e seus familiares, sendo que tal suporte musicoterápico aos pacientes foi uma modalidade incidental de suporte também para a equipe, podendo reduzir o estresse entre os profissionais e melhorar o envolvimento no trabalho e o cuidado percebido ao paciente. (O'CALLAGHAN E MAGILL (2009). ApudLAHAM e AMOROSINO, 2012).

Pudemos observar então que as duas áreas aqui abordadas estão em perfeita consonância no que se diz respeito ao olhar para o paciente, para a pessoa que está ali, mas também para a equipe, que apresenta demandas internas advindas do tipo de trabalho, abrindo espaço para falar dos medos, da sensação de impotência e sentimento de culpa, além de trazer uma atuação humanizada, que possibilite aos profissionais o sentimento de maior bem-estar no ambiente de trabalho e conversem entre si com maior compreensão sobre a singularidade de cada um, especialmente quando se trata da questão da morte.

5. Considerações Finais

De forma objetiva e resumida, tentamos mostrar com esse trabalho a importância das relações interpessoais e o cuidado COM o paciente, e não tão somente PARA o paciente, ou seja, algo no sentido relacional, para além da cientificidade, a importância do olhar humanizado que a equipe médica e cuidadores devem ter e da atuação da psicologia e musicoterapia nesses ambientes, estimulando e proporcionando bem-estar para o paciente e conseqüentemente para seus familiares e equipe, possibilitando ainda que sejam redefinidos os significados de morte e uma possível diminuição da dor, não somente física, mas também emocional e ainda espiritual.

Vale ressaltar que essa é uma área onde se tem uma quantidade de pesquisas e publicações bastante escassas no nosso país, pois a maior parte dos trabalhos a que se tem acesso é internacional, mas que vem se expandindo cada vez mais e ganhando maior credibilidade, pois os efeitos terápicos e de diminuição do sofrimento são visíveis. Procuramos então, estimular o desenvolvimento de pesquisas para que se tenha um acesso mais fácil aos conteúdos aqui relacionados e ampliar o olhar para o trabalho integrado entre psicologia e musicoterapia e os seus resultados enquanto cuidados paliativos a pacientes que estejam em estado terminal ou não.

“Eu sei que determinada rua que eu já passei
não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo a muitos anos,
e que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa,
pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez.
A morte, surda, caminha ao meu lado,
e eu não sei em que esquina ela vai me beijar”.
(RAUL SEIXAS, Canto Para Minha morte, 1976).

Sobre os Autores:

José Carlos S. L. Filho - Bacharel em Psicologia e Pós graduando em Metodologia do ensino superior e EAD.

Janaína Maria de Menezes - Bacharel em Psicologia.

Referências:

KOVÁCS, Maria Júlia. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992. Ed. 4, 2002.

KÜBLER-ROSS, Elizabeth. Sobre a morte e o morrer, 7ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

CAMPOS, Terezinha Calil Padis. Psicologia hospitalar, EPU – São Paulo, 1995, 3ª reimp. 2006.

CAMON, Valdemar Augusto Angerami; [et.al]. E a psicologia entrou no hospital. São Paulo: Pioneira Thomsom Learning, 2003.

LAHAM, Cláudia Fernandes; AMOROSINO, Cristiane. Musicoterapia e cuidados paliativos: uma revisão teórica. Revista Brasileira de Musicoterapia Ano XIV n° 13 / 2012, p. 39 - 52. Disponível em: <http://www.deliamatos.com.br/uploads/1/3/1/5/13157813/musicoterapia_e_cuidados_paliativos.pdf>. Acesso em: 27 maio 2013

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