O Idoso Diante da Finitude e a Morte: uma Compreensão Existencial-Fenomenológico sobre a Possibilidade Última de Vida

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Resumo: O presente trabalho visa discorrer sobre a vivência do idoso mediante a aproximação da morte e o contato com a finitude.  Os últimos indicadores sociais registram um aumento de idosos na população e constituem uma preocupação sobre esse público. Porém, a velhice e o envelhecimento são enxergados frequentemente de forma negativa, sendo conferida quase sempre a aproximação da morte. Verificou-se que o modo como o idoso lida com esse fenômeno tem caráter significativo na elaboração e organização do luto antecipatório. Logo, buscou-se abordar a vivência da morte para o idoso sob um olhar de compreensão existencial-fenomenológico, destacando os impactos sobre o seu modo-de-ser em lidar com a morte, o idoso enquanto ser-para-a-morte e a consciência da finitude. Constatou-se a necessidade em desenvolver outros trabalhos referentes à temática, considerando o amplo alcance dessa temática e a percepção de pouco acervo teórico disponível nas bases bibliográficas da Psicologia Existencial-Fenomenológico, dentre as que puderam ser alcançadas.

Palavras-chave: Idoso, Morte, Finitude, Existencial-fenomenológico.

1. Introdução

Defrontar-se com a experiência da morte é em muitos aspectos uma vivência complexa e intrínseca a cada indivíduo. Ao avesso dos nossos anseios de permanecer em uma juventude estendida, o homem inicia o processo de envelhecer no instante que é lançado no mundo. Logo, o caminho que percorre desde seu nascimento o direciona a este momento que é a única certeza de qualquer ser humano. Mas, da mesma forma, a consciência da finitude o orienta a edificar um modo de vida em que o sentido das suas experiências vai se construindo, auxiliando-o a passar pelos processos naturais da existência.

Discorrer sobre a morte é um desafio diferente, pois, frequentemente busca-se evitá-la como se a convocássemos para mais perto cada vez que se enuncia sobre ela. No entanto, diversas correntes teóricas apresentam-na como um processo que faz parte do ciclo da existência. Nessa perspectiva, questiona-se como esse fenômeno pode se tornar conflitante e gerador de angústia para o indivíduo que o vive.

O estranhamento frente a essa etapa se deve frequentemente a disseminação sobre os padrões de qualidade de vida que exigem do homem moderno, cada vez mais, um empenho em fazer parte dessa categoria. Na busca de prolongar a expectativa de vida, esse comportamento pode ter provocado uma perda importante sobre as elaborações que homem faz a respeito da morte. Assim,

Vendo a morte de perto, pouco a pouco, dia após dia, as pessoas que viveram nas sociedades tradicionais absorveram uma verdade importante: morrer faz parte do viver. À medida que a morte cada vez mais foi se tornando um fenômeno do final da idade adulta, passou a ser “invisível e abstrata” b(FULTO; OWEN, 1987-1988 apud PAPALIA; FIELDMAN, 2013, p. 637).

Desta forma, para o homem, ao encontrar-se no último ciclo da vida, a angústia da morte se torna mais real e concreta. A reflexão que aqui se faz consiste em empreender sobre o modo como essa possibilidade é vivenciada, passando por variações entre cada pessoa.

Para descrever sobre esse processo, a Tanatologia surge como a ciência que aborda estudos referentes à morte. Apesar de incômodo, existem pesquisadores interessados no assunto e que se propõem ao desdobramento dessa ciência para o entendimento dos aspectos que cerceiam esse evento. Inerente à situação e do modo em que a morte se personifica, o olhar e a compreensão que o homem lança sobre ela é diverso.

Não existe um modo arquitetado para lidar com esse traço que a existência carrega. Compreende-se assim que as circunstâncias, a fase do desenvolvimento e outros diversos fatores influenciam nessa construção como afirma Papalia e Fieldman (2013, p. 636) que “ainda que a morte e a perda sejam experiências universais, seu contexto é cultural e histórico”.

Assim, o jovem tem uma visão sobre o lugar da morte em sua vida, que uma criança e um idoso não têm. Embora, ele possua uma elaboração a seu respeito, a morte talvez não seja para ele um evento iminente como pode ser para um idoso. Da mesma forma, as variações se alternam de lugar para lugar e pessoa para pessoa, em consonância com o espaço demográfico, a história de vida e outras características subjetivas e coletivas. “Ela pode se tornar um evento solitário, sem espaço para a expressão do sofrimento e para rituais” (KOVÁCS, 2014, p. 95), interferindo e influenciando diretamente na passagem dessa vivência.

Considerando tamanha diversidade, busca-se desenvolver essa temática enfatizando o lugar do idoso diante da finitude e a morte, empregando como pressupostos teóricos básicos a vertente existencial-fenomenológico sobre a possibilidade última de vida. Assim como os últimos indicadores sociais acerca da população brasileira revelam um crescimento da expectativa de vida refletindo no envelhecimento da população (BRASIL, 2014), justifica-se compreender esse processo a fim de que a pesquisa possa colaborar em trabalhos realizados por profissionais de psicologia na área de gerontologia.

Assim, pautando-se nessa argumentação Existencial e através de pesquisas documentais e bibliográficas, serão abordadas premissas básicas dessa corrente teórica, relacionando os conceitos principais do existencialismo à proposta aqui abordada.

Lidar com o dilema de existir enquanto um ser-para-a-morte e de se estar morrendo a cada dia, ainda que vivos, poderia nos impulsionar a dois movimentos diferentes. Ou nos esquivamos colocando esse assunto em segundo plano, ou exploramos esse universo sombrio para muitos. O texto redigido nas próximas páginas reflete à segunda escolha.

2. O Envelhecimento da População

Uma preocupação acerca das áreas envolvidas nos estudos sobre o envelhecimento encontra-se pautada principalmente nos últimos levantamentos de dados estatísticos sobre a população idosa tanto a nível nacional, quanto a nível mundial. Segundo um documento disponibilizado pela Secretaria Nacional de Promoção Defesa dos Direitos Humanos, em que se analisam os dados sobre o envelhecimento da população brasileira, esse indicador revela um fator que é considerado como “uma das maiores conquistas culturais de um povo em seu processo de humanização [...], refletindo uma melhoria das condições de vida” (BRASIL, 2014, p. 1). Além disso, o último Censo demográfico do IBGE realizado em 2010 registra um aumento tanto em quantidade quanto em proporção de idosos na população, conforme apresenta a análise dos resultados sobre Estatísticas de Gênero:

Em 1991, havia 10,7 milhões de pessoas de 60 anos ou mais de idade, e, em 2010, este volume praticamente dobrou, chegando a 20,6 milhões de pessoas nesta faixa etária. A proporção de pessoas de 60 anos ou mais de idade aumentou de 7,3%, em 1991, para 10,8%, em 2010, enquanto o indicador para as pessoas com ate 14 anos de idade decresceu de 34,7% para 24,1% no mesmo período (BRASIL, 2014, p.55).

Esses números não se afastam da estimativa projetada pelo Fundo de Populações das Nações Unidas - UNFPA que também prevê um aumento significativo de pessoas com idade de 60 anos ou mais. Segundo a agência, a tendência é de um crescimento que salta de 1 entre cada 9 pessoas nessa faixa etária, para 1 entre cada 5 pessoas em 2050 e que “o envelhecimento da população é um fenômeno que não pode mais ser ignorado” (ONU, 2012, p. 3) . Cabe ainda ressaltar que tal fenômeno do envelhecimento da população se expressa “quando as pessoas idosas se tornam uma parcela proporcionalmente maior da população total” (ibidem). O documento ainda expõe que explicação se deve ao declínio das taxas de fecundidade e o aumento da longevidade, o que tem levado ao envelhecimento da população.

Nota-se que o envelhecimento nesses estudos é considerado como uma conquista da população, além de significar um crescimento no indicador de longevidade reflete também a melhoria dos cuidados na qualidade de vida. No entanto, ressalta-se que atrelado a essas conquistas, inúmeros desafios acompanham esse período de transformações.

O envelhecimento frequentemente é retratado através de estereótipos internalizados em nossa cultura que promovem veladamente uma discriminação para com pessoas dessa idade. Ainda assim, inúmeros esforços se fazem para combater esse tipo de preconceito e cada vez mais, o respeito ao idoso vem se intensificando afirmando o lugar desse sujeito na sociedade.

Contudo, destaca-se além de exigências sociais, econômicas e culturais, a atenção para com o idoso em um caráter mais singular, pois, é em face de sua inserção em uma sociedade que cultua a juventude, que torna expressamente relevante conduzir estudos e trabalhos que caminhem nessa direção. Concomitante a isso, é necessário compreender essas transformações não só em escalas estatísticas, mas também em modos de subjetivação que ressaltem o processo de vivência que cada indivíduo perpassa de forma diferente

3. O Envelhecimento e o Idoso na Perspectiva do Desenvolvimento Humano

O processo do envelhecimento é uma característica inerente ao ser humano distribuído ao longo de toda a vida. Desde os primeiros segundos de vida começa-se a envelhecer e segue-se um processo natural do desenvolvimento humano que se inicia na infância e termina no último ciclo do crescimento, a velhice. Nessa fase que principia na vida adulta tardia, o indivíduo tem diante de si os desafios em lidar com as perdas tanto físicas quanto pessoais e ainda precisa ainda se preparar para a morte (PAPALIA; FIELDMAN, 2013).

Na perspectiva do Estatuto do Idoso, a Lei 10.741, de 1º de Outubro de 2003, o termo idoso, consta destinado a pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. O Estatuto ainda dispõe no Artigo 8º, que “o envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito social, nos termos desta Lei e da legislação vigente” (BRASIL, 2003, p.10).

Do ponto de vista do desenvolvimento humano, a vida adulta tardia caracteriza-se como a velhice, referindo a pessoas idosas com faixa etária de 65 anos de idade ou mais e embora os significados sobre a velhice possa variar em culturas diferentes, o envelhecimento decorre ao longo dos anos como um fator inevitável. Assim como os outros momentos do desenvolvimento a velhice compreende necessidades específicas, que variam de pessoa para pessoa, mas frequentemente são próprias dessa etapa relacionadas a fatores biológicos, culturais, psicológicos, ambientais, sociais entre outros como afirma Mazo, 2004 citado por Albuquerque; Barbosa, 2010. Dessa forma, ao passo que a idade vai gradualmente avançando, o idoso vivencia exigências frente às atividades que precisa realizar, como também lida com mudanças que refletem no próprio vigor.

Além da perspectiva do desenvolvimento humano, há também uma diversidade em definições e conceitos empenhando-se sobre o estudo do envelhecimento e temáticas afins, situando o ser idoso em um enfoque tanto psicológico quanto social; o que demonstra uma atenção sobre essa fase da vida. Da mesma forma, outras especialidades também empreendem estudos sobre o envelhecimento tais como a gerontologia e a geriatria.

Segundo Zimerman (2000), a gerontologia é a ciência que estuda o envelhecimento e seus processos, envolvendo o acompanhamento das mudanças que decorrem nessa etapa. Enquanto a geriatria é a área específica da medicina que se designa a tratar adoecimentos e patologias do organismo do idoso. O lugar do idoso para a sociedade e para ele próprio exige compreender como ele olha para si nesse momento da existência.

Zimerman (2000), afirma que o envelhecimento está também cerceado de aspectos sociais, tais como modificações referentes ao “status velho” e nos relacionamentos desses indivíduos com outras pessoas. O autor pressupõe que essas alterações ocorrem em função de alguns elementos, como crise de identidade, mudanças e adaptação de novos papéis, aposentadoria, perdas diversas e diminuição dos contatos sociais.

As significações também ganham maior intensidade e nesse percurso, a morte, é a certeza mais evidente para o idoso. Este indivíduo ocupa um lugar que culturalmente prediz ao fim da vida assim como nos afirma Kovács (1992), “quanto ao desenvolvimento chegamos a uma fase conhecida como velhice que (...) não tem início, mas cujo fim é claramente a morte” (p. 8). Entende-se que nesse sentido a presença sempre iminente da morte que para o ser humano por si só já é conotada de significações, recebe maior atenção quando o sujeito idoso se encontra em face dela.

4. O Idoso Perante a Morte

Observa-se comumente que os imaginários sobre a velhice se desdobram personificando um universo de sentidos sobre esse momento da vida, mas, que recorrem a um conteúdo negativo, desvalorizando o homem velho em nossa sociedade ocasionando conflitos que podem circundá-lo. A visão sobre ele frequentemente é carregada de apreensão; por creditar esse momento à predição da morte, “recusamos a nos reconhecer nos velhos que seremos” (GUIMARÃES, 2014, p.14) pretendendo-se o afastamento da morte enquanto houver jeito.

Quando atribui-se marcadamente a presença da morte na velhice, destacam-se as transformações e modificações que o ser idoso experiência e por isso, se aproxima dela. As perdas, inevitáveis ao longo da vida configuram-se como várias mortes concretas e simbólicas e o indivíduo idoso precisa lidar com elas elaborando um trabalho de luto.

O luto, diante dessas mortes que ocorrem gradualmente, deve ser organizado de modo que possa intervir nas ressignificações e na busca de um novo equilíbrio. São diversas essas situações de pequenas mortes que o idoso precisa passar, e que podem provocar-lhe sofrimento. Não é apenas a morte física que se aproxima, mas também surgem perdas relacionadas à funções profissionais, corporais intelectuais, de pessoas próximas, dentre outras (KOVÁCS, 1992). A elaboração do luto nesse meio tem um caráter significativo, pois, o mesmo pode desencadear novas angústias quando há dificuldade em estabelecê-lo.

No campo da Psicologia, FREUD (1886-1899), em uma de suas obras, já havia feito referência ao Luto como “o afeto correspondente à melancolia”, e que pode ser ainda entendido “como o desejo de recuperar algo que foi perdido” (p. 246). Esse afeto é compreendido como uma energia ligada a um objeto e que “o luto é uma reação à perda desse objeto” (Idem, 1925-1926, p. 105) que diante de sua ausência precisa fazer um novo investimento. Esse processo de desligar e reinvestir possibilita uma boa elaboração das perdas, e não realizá-lo adequadamente desencadearia sintomas de quadros melancólicos.

Sintomas físicos também podem acompanhar o processo do luto, como inapetência, insônia, distúrbios gástricos, ansiedade, medo, incerteza, dentre outros que aliados à fatores de riscos, podem potencializar o sofrimento (KOVÁCS, 2009). Abordar sobre essas consequências do luto permite relacionar às dificuldades do idoso com a proximidade da morte. Dessa forma, diante das perdas reais e simbólicas que sucedem ao longo da vida e se intensificam na velhice, o idoso precisa lidar com mudanças que ocorrem ao longo do processo de envelhecimento e que “podem despertar intensas angustias ligadas às múltiplas perdas significativas e à perspectiva de finitude” (SILVA, 2007, p.23).

Kovács (1992) também salienta que a morte de forma geral, desperta sentimentos variados, desde os mais depreciativos, como desintegração e sofrimento, até um fascínio e a ideia de descanso. Uma pesquisa realizada com idosos, em uma cidade no Sertão Pernambucano revelou dados interessantes que corroboram essa assertiva. Segundo Oliveira (2008), foi constatado que a morte era um acontecimento que colocava os idosos entrevistados “em contato com sentimentos muito dolorosos”, descritos como “saudade, dor, emoção, desgosto, falta, ruim, tristeza” (p. 56).

A pesquisa aponta ainda que essas reações desencadeadas dificultavam o processo de lidar com a morte, e para aqueles idosos ela não era vista de forma natural, da mesma forma que preferiam não pensar nela, pois, isso faria que ela chegasse mais cedo. Tais indicadores refletem na problemática suscitada colocando a vivência da iminência da morte como dificuldade para o idoso. Porém, embora a pesquisa supracitada aponte para esse fator, é imprescindível destacar que ela não representa uma descrição generalizada sobre essa experiência para indivíduos idosos. 

No entanto, ao refletir sobre esses resultados, ponderando que na fase da velhice além da morte do corpo, de forma biológica, outras funções também são perdidas, como as cognitivas. Nesse aspecto, é impossível não pensar nos papéis sociais que o idoso exerce, e que também são afetados por essas perdas. O idoso frequentemente é colocado à margem da sociedade quando deixa de se tornar mão-de-obra e não participa da produtividade, um dos núcleos basilares da nossa sociedade, o que reflete nele o estigma da deterioração (OLIVEIRA, 2008).

As exposições até aqui descritas abordam questões ligadas às esferas biológicas e sociais do ser idoso frente à morte. Todavia, é imprescindível destacar que atrelada a essas decorrências, o adoecimento psíquico também pode ser observado. Uma observação frequente nos idosos é a presença da depressão reativa que surge como resposta às perdas do envelhecimento, sobre ela observa-se que:

A depressão mais profunda está vinculada à desesperança, podendo levar ao suicídio e a comportamentos autodestrutivos. A velhice é a fase do desenvolvimento em que ocorre o maior número de suicídios ainda, estando por vezes associada ao sentimento de menos valia, solidão, não ver sentido na vida” (KOVÁCS, 2009, p. 68).

Um dado interessante e novo nessa declaração é que para a autora a naturalização da depressão no fim da vida pode explicar o aumento dos suicídios na velhice, o que denota uma preocupação tendo em vista que culturalmente alia-se a velhice à frequência de aspectos relacionados à solidão, ao adoecimento, à desesperança e sintomas depressivos (KOVÁCS, 2009). Diante disso, percebe-se a importância em direcionar atenção sobre a influência desses fatores e seus desdobramentos na vivência do ser idoso.

5. Sobre A Finitude

O homem é carregado de sentidos. Ele significa suas experiências conforme a intensidade que ele lhe confere; faz escolhas e costura o sentido de sua vida em cima dessas vivências e vai desenhando o percurso de sua história através desses recortes, costurados e emoldurados ao seu modo-de-ser. Ao passo que vive, ao mesmo tempo lida com a consciência da finitude, ela proporciona ao ser que em seus vislumbres do fim eminente, tenha possibilidades de reformular-se para alcançar uma existência autêntica e que faça sentido para ele. 

O modernismo aliado à efemeridade e a valorização da competitividade direcionou o homem a um viver mecanizado, o qual se conforma com o imediatismo estimando a satisfação imediata das necessidades sem questionar o sentido delas (GIOVANETTI, 1999). Mas, ao refletirmos sobre o ser humano quando se depara com a velhice e o próprio envelhecimento ao longo da vida, observa-se que os limites de seu corpo, a consciência da finitude humana o conduz ao encontro de questionamentos acerca de sua existência.

Tem diante de si outras possibilidades então, de redescobrir o rumo de sua existência, o sentido mais profundo da vida. Estar em contato com essa sabedoria lhe proporciona ainda a tentativa de entender sua coerência interna ao invés da existência fragmentada.  Além disso, surge diante desse homem a oportunidade em reconstruir o sentido (ARRUDA; SCHNEIDER, 2014).

Nessas instâncias, percebe-se ainda que  a consciência da finitude está imbricada na certeza da morte, condição humana indissociável da existência. E na velhice, compreendida como um tempo de balanço, de significação e ressignificação da vida, o ser idoso seria não apenas afetado pela morte em si, mas pelo que a antecede: pelo saber que além de existir enquanto um “ser aí” (um homem em movimento) e ao mesmo tempo ser-para-a-morte, vive-se com a possibilidade clara e próxima de não mais existir. 

Dessa forma, é necessário entender também o que a consciência da finitude desperta no processo do envelhecer. Pode ser uma oportunidade de retomar a vida e não de entregar-se ao imanente fim. Teixeira (1997) observa que a consciência da finitude pode provocar alguns impactos na forma de ser do homem. Segundo ele, essas mudanças são causadas pela necessidade que o homem tem da autotranscendência. Em linhas gerais, implica dizer que a ideia de finitude traz ao ser, a consciência do seu fim; o idoso pode nesse sentido, estender sua existência presente trazendo-a para o “aqui e agora” e vivenciar a sua morte.

O idoso ao olhar a morte, pode encontrar neste fenômeno um momento de questionar o sentido, rememorar o caminho percorrido, as experiências e a sabedoria de vida adquirida, bem como repensar a própria postura frente à morte. Pode ainda com essa consciência da realidade e da própria finitude ser capaz de se orientar, tomando como base a compreensão de seu fim.

Aplicando ainda o papel da transcendência, o contato com a finitude permite ao ser não ficar preso apenas aos planos do “agora” e ser assim direcionado às outras possibilidades do existir e de escolher qual seja a maneira de existir. Esse processo conduz ainda o idoso a uma vida autêntica, capaz de lidar com a aproximação do fim, pois, o ser se torna autônomo para decidir pelas suas possibilidades e assumir a responsabilidade delas.

O tomar contato com esse universo da finitude refletirá no idoso um impulso a se tornar um ser em constante mudança e que vive ainda essas mudanças. Tornar-se-á um ser inacabado que se propõe a tornar-se livre e escolher ainda aquilo que lhe traz sentido. O lado “negativo” da morte se coloca quando esta é pensada no sentido vulgar de ser considerado o fim físico da vida. Mas Werle (2003), nos alerta que há um lado positivo nesse fenômeno se o homem assumir essa condição de ser-para-a-morte e considerar que a morte faz parte da existência e não é o fim dela. Assim, ela tomará sentido o qual indica não apenas para o idoso, mas para o homem de forma geral, que ele ainda existe.

6. A Compreensão Existencial-Fenomenológico

Diante do que foi exposto acima, discorreremos nesse ponto sobre a compreensão existencial-fenomenológico voltado para o idoso diante da vivência do fenômeno da morte. É necessário, apresentar mesmo que brevemente a definição fundamental da abordagem, a fim de que se possa entender como essa compreensão é construída. A Psicologia Existencial teve como fonte de inspiração e sustentação uma doutrina filosófica denominada Existencialismo. Sua preocupação é em conhecer o homem no âmbito mais profundo de sua realidade ontológica (TEIXEIRA, 2006), a qual se refere ao ser.

Enquanto que o método fenomenológico, que diz respeito à Fenomenologia (um conceito pertencente ao campo da Filosofia), é um método de investigação e que busca compreender aquilo que é lançado na consciência, o que é revelado por uma determinada situação. Esse “algo” que é revelado nomeia-se fenômeno, propriamente dito como a manifestação de algo que é sempre novo, e que reflete na consciência a partir do modo como a pessoa olha pra ele (PAULINI, 2007). Nos termos aqui apresentados, a morte pode ser relacionada como esse fenômeno o qual mobiliza o indivíduo para alguma direção. Ou seja, ela é na fenomenologia, o algo, que quando lançado na consciência, desperta no idoso formas de lidar com ela, partindo do pressuposto de como esse fenômeno chega até ele.

É importante fazer essa exposição descrevendo de forma breve a abordagem aqui mencionada para que possamos nos desdobrar sobre a compreensão do que foi apresentado anteriormente e neste momento passar a ser discutido sob o olhar da psicologia existencial-fenomenológico.

A atitude fenomenológica diante do idoso envolve uma aceitação incondicional mediante o conteúdo que o idoso traz em função da vivencia da morte. Essa aceitação implica acolher “a verdade” que ele apresentar acerca dessas questões. Ou seja, o que elas significam para ele e qual o sentido ele lhes confere. É um papel facilitador, pois auxilia o idoso a tomar contato de uma atitude mais autêntica frente a essa experiência e em relação a si próprio (TEIXIERA, 2006).

Destaca-se a princípio também, o lugar do idoso no mundo fazendo-se uma leitura existencial sobre o modo ele se percebe como ser “humano-idoso” diante da sociedade, enxergando a velhice como uma fase de experiências acumuladas, de maturidade, de liberdade e responsabilidades para assumirem (ZIMERMAN, 2000). Os princípios, as situações vivenciadas e demais experiências da vida, contribuem na construção do seu “eu” e ao olhar para essa “bagagem” adquirida no decorrer da vida caminha-se rumo à consciência auto-reflexiva que possibilita um movimento ao ser idoso para o autoconhecimento (RUDIO, 1998).

Nesse viés, pode-se pensar ainda que o vir-a-ser do idoso, se caracteriza ao entendermos que o envelhecimento está cerceado pelas experiências e atitudes que cada indivíduo alicerça. O idoso pode continuamente construir sua identidade ao fazer essa retomada das histórias vividas direcionando-se para um futuro dentro de suas possibilidades, revelando ao mesmo tempo aquilo que denominamos Dasein. Isto é, o modo de ser-no-mundo; a própria existência que revela sempre um movimento. No sentido aqui proposto subentende-se ainda como um estado em que a existência total do idoso que “é e virá-a-ser pode aparecer, tornar-se presente” (HALL; LINDZEY, 1984, p. 87).

O ser-no-mundo de forma geral é uma combinação de realidades e possibilidades que constroem cada pessoa a partir das escolhas que se faz (TEIXEIRA, 2006). Logo podemos pensar que encarar o fim da vida pode ser uma possibilidade existencial presente na vida humana e como uma oportunidade para olhar a própria existência. Pode-se ainda visualizar aquilo que chamamos de Projeto Existencial, que para TEIXEIRA (2006), define-se como a continuidade compreensível das vivências e a coerência interna do mundo individual que reflete em realizações significativas. O idoso quando consegue olhar para esse projeto, pode estabelecer uma união entre o passado, presente e futuro, projetando um fio condutor que significa suas histórias vividas, e ainda o desperta dando sentido à construção de outras.

É imprescindível ressaltarmos também a contribuição de Heidegger, que nos apresenta o homem como um ser-para-a-morte. Pretendendo alcançar um conceito existencial de morte, afirma que esta é a última possibilidade que o homem realiza, pois, enquanto ela não chega existe sempre uma pendência, tendo sempre algo que ainda será e que ainda não se tornou real. Afirma o filósofo que “na essência da constituição fundamental do Dasein reside, portanto, uma constante inconclusão. A não totalidade significa o pendente do não poder-ser” (HEIDEGGER, 1989, p. 16). Nesse sentido, é importante reforçar o trabalho com idosos sobre a compreensão da morte. Como o próprio autor nos afirma, essa possibilidade é uma pendência que apenas finaliza o ser-no-mundo quando ela se concretiza, então resta ao seu redor até que ela chegue, inúmeras outras possibilidades de serem ainda escolhidas

Nesse sentido, mesmo a desesperança considerada por Erik Erikson um dos estágios do ciclo da vida e que aparece na velhice (PAPALIA; FIELDMAN, 2013), pode ser entendida ainda como uma forma de existir. Pois, como nos afirma Heidegger (1989) “a falta de esperança não retira o Dasein de suas possibilidades, sendo apenas um modo próprio de ser para essas possibilidades” (p. 15). Ou seja, a desesperança revela ainda a possibilidade de um crescimento pessoal ou do crescimento do ser a partir da forma como esse ser idoso lida com a situação relacionada à morte.

As posturas que se adotam diante da morte podem variar em infinitas formas. Erikson ainda diz que nesse ciclo, o idoso pode alcançar a aceitação da própria vida, o que favorece a aceitação da morte, ou então se desespera com a incapacidade de reviver a vida. Mas, outra forma de pensar sobre essas posturas é dizer do ser idoso que sob a ação do tempo amadurece ao rememorar as experiências vividas. Isso possibilita que alguns idosos não raras vezes, visualizem a morte como uma passagem para a continuidade espiritual (FRUMI; CELICH, 2006). Essa observação nos remete ao ser-além-do-mundo o qual expressa as múltiplas possibilidades que o homem tem de transcender o mundo que vive, e se projetar em um mundo novo, o da existência.

Esse sentido de transcender revela a possibilidade que o idoso tem de projetar para além do que se é. E nesse processo pode-se refletir também sobre o sentido da vida, pois, este segundo Frankl (1997), reside no mundo e não no que está dentro da pessoa humana ou de sua psique, como se fosse um sistema fechado. Ou seja, para o ser idoso diante o fenômeno da morte ampliam-se as possibilidades de encontrar um sentido para as vivências e para a própria vida, mesmo diante da aproximação da morte.

A compreensão existencial-fenomenológico sobre o idoso diante da aproximação da morte, permite pensar no fortalecimento e o trabalho para lidar com essas questões através da construção do modo-de-ser que o idoso organiza. Nesse sentido, uma existência autêntica que permeia o modo como o idoso se relaciona com a compreensão da morte e com esse fenômeno, é que caracteriza as formas de se haver com o prenuncio da morte. Essa autenticidade condiz em escolhas que fazem sentido e são importantes para o indivíduo, portanto, é subjetiva e pessoal. Assim sendo, cabe aqui ressaltar que como nos lembra Sören Kierkegaard aquilo que de fato é essencialmente importante é viver, viver tanto quanto possa ser possível no curto período de tempo que passamos aqui (HALL; LINDZEY, 1984).

7. Considerações Finais

Verificou-se durante a construção desse trabalho, que embora haja uma gama de acervos teóricos disponíveis que envolvem temáticas relacionadas à Terceira Idade, à velhice e envelhecimento de forma geral, poucas dessas obras se relacionam à abordagem existencial-fenomenológico. Destaca-se da mesma forma que grande parte das referências bibliográficas utilizadas abarca outros saberes científicos da área da saúde e humanas, e não restritamente da psicologia. O que pode significar um amplo alcance dessa temática ao mesmo tempo em que pode dizer de um déficit nas bases bibliográficas de Psicologia.

É difícil pensar na morte como parte da vida enquanto oportunidade para o fazer. É também contraditório dizer que é uma possibilidade porque é o momento que tudo se encerra, mas ainda assim é possibilidade: de fechar o ciclo da existência. Enquanto este momento não chega, circulamos pela vida “faltosos”; em busca de sentido. A falta persiste até que ela chega.

O texto acima, além de mostrar os impactos que as pessoas idosas sofrem ao se depararem com questões ligadas à morte, possibilitou também refletir sobre o lugar do idoso em nossos espaços sociais. Considerado sinônimo de degradação na cultura ocidental, no oriente o idoso é valorizado por toda a sabedoria que carrega em si, pela sua idoneidade e pelas experiências que pode repassar aos jovens. Ele contém um legado no qual muitas pessoas se interessam em tomar conhecimento dele (PAPALIA; FIELDMAN, 2013).

Infelizmente, os valores mais próximos a nós, povo ocidental, não são suficientes para olhar pra esse idoso como um ser repleto de possibilidades a serem escolhidas. Embora muito se tenha falado sobre Terceira Idade, saúde do idoso e outras temáticas, ainda assim, elas parecem mais voltadas a incluir o idoso na geração saúde, do que valorizá-lo por aquilo que ainda dá conta e tem mostrar ao mundo.

Diante disso, a construção do texto favoreceu ainda uma reflexão em termos de práticas sociais, pensando no ser idoso inserido no âmbito das políticas públicas. Em tempos que a preocupação com o jovem se mostra através de tentativas para promover cidadãos que se envolvam com o futuro da sua comunidade e da sociedade que o rodeia, é importante também considerar os dados sobre o envelhecimento da população e os desdobramentos desse desafio contemporâneo. Nesse sentido, exige-se pensar no que pode ser feito para favorecer a qualidade de vida dessa população envelhecida, inserindo-os em contextos de trabalho e valorizando-os como parte das construções históricas e sociais.

Quanto à psicologia, cabe dizer que ter uma atitude fenomenológica na compreensão sobre idosos que se deparam com situações sobre o processo do morrer implica olhar para ele através da forma como traz essa vivência. Aceitar incondicionalmente o que esse ser nos traz, significa aceitar o que é a verdade para ele. E nesse sentido, significa acolher os medos e as apreensões que o idoso manifesta diante da morte e da consciência de finitude, mas, além disso, clarear para ele a sua condição do Dasein, o “ser aí”: um ser de possibilidades.

Ao levantar a prerrogativa do homem como um “ser aí”, o ser-no-mundo em constante movimento, destaca-se a precedência do existir. Pois, embora a certeza final do Dasein seja a morte, enquanto ela não chega sempre restará ao homem uma pendência a ser realizada. E é sob essa afirmativa que pauta-se a defesa de uma atitude existencial-fenomenológico diante do idoso em sua vivência sobre a morte. Entende-se que essa compreensão pode proporcionar-lhe tomar contato com esse universo de possibilidades que se encontra para além da possibilidade última aqui evidenciada.

Sobre o Autor:

Letícia Moreira Machado - Acadêmica do Curso de Psicologia, pela Faculdade Pitágoras - Campus Ipatinga

Referências:

ALBUQUERQUE, Monique Cunha.; BARBOSA, Rita Maria dos Santos Puga. Caracterização do idoso e relação às perdas nos aspectos biopsicossociais e comportamento moto. BIUS: Amazonas, v. 1, n. 2, p. 51-67. 2010.

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