Profissionais de Corpo e Alma: Aspectos Psicológicos Envolvidos no Vital Processo de Reparação da Justiça

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Título: Profissionais de Corpo e Alma: Aspectos Psicológicos Envolvidos no Vital Processo de Reparação da Justiça, o Dia-a-Dia dos Auxiliares e Médicos Legistas

Resumo: Este artigo teve como objetivo identificar os aspectos psicológicos envolvidos nos procedimentos de trabalho dos auxiliares e médicos legistas, investigando qual a ligação entre os aspectos psicológicos e o equilíbrio emocional, vivenciado por esses profissionais. Busca também observar como os auxiliares e médicos legistas, se posicionam frente à importância do trabalho que desempenham e constatar os fatores que podem auxiliar a reger todo o processo vivido pelos profissionais e juntamente proporcionar o equilíbrio emocional. Foram entrevistados dois auxiliares médicos legais e dois médicos legistas que atuam na região oeste de Santa Catarina. O critério previamente estabelecido foi que estes profissionais tivessem envolvimento cotidianamente com o IML (Instituto Médico Legal) e juntamente, experiências vivenciadas nessa profissão de extrema responsabilidade. Metodologicamente, foi utilizada a pesquisa qualitativa com análise de conteúdo de Bardin, tendo como instrumento para a coleta de dados uma entrevista semi-estruturada, elaborada a partir dos interesses da investigação, bem como, a partir da leitura do referencial teórico. A partir da análise dos relatos dos participantes pode-se perceber que o profissionalismo está em primeiro plano em todas as situações que cotidianamente são presenciadas por eles, porém o aspecto emocional está diretamente ligado com o enfrentamento que esses profissionais desenvolvem ao longo dos dias. Eles destacam a importância de estratégias para que possam manter-se emocionalmente bem.

Palavras-chave: Auxiliares e Médicos Legistas. Equilíbrio Emocional. Morte.

1. Introdução

O tema do presente artigo contemplará os aspectos psicológicos envolvidos nos procedimentos de trabalho dos auxiliares e médicos legistas, tendo como principal objetivo, investigar qual a ligação entre os aspectos psicológicos e o equilíbrio emocional, vivenciado por esses profissionais.

Para tanto se fez necessária a análise dos conhecimentos e capacidades, cotidianamente desenvolvidos de forma a não colocar em risco o interesse público, os direitos individuais e a justiça; observar como os auxiliares e médicos legistas, se posicionam quanto à importância do trabalho que desempenham; e constatar os fatores que podem auxiliar a reger todo o processo enfrentado pelos profissionais e juntamente proporcionar o equilíbrio emocional.

O trabalho foi desenvolvido com o intuito de compreender de que forma os profissionais dessa área lidam com todo o processo que é desenvolvido por eles cotidianamente, pois se acredita que este trabalho terá grande relevância para a sociedade em geral, que ainda acredita que “o lidar com a morte” seja algo repulsor e de medo universal.

A morte representa uma das maiores dores sentidas pelo ser humano, a dor da perda, que apesar de todos os esforços, não pode ser negada, ignorada.

O trabalho dos auxiliares e médicos legistas ainda é pouco valorizado pela sociedade em geral e a falta de conhecimento sob todo esse procedimento suscita prejulgamentos dos indivíduos e perda de interesse acrescida de submissão de condições de trabalho por parte dos profissionais que atuam nessa área, de extrema responsabilidade e zelo para com o outro.

2. Fundamentação Teórica

2.1 Auxiliares e Médicos Legistas Frente à Responsabilidade de um Trabalho Ético

Segundo Croce, (2007) a Medicina Legal é a ciência e a arte extrajurídica auxiliar alicerçada em um conjunto de conhecimentos médicos, paramédicos e biológicos, destinados a defender os direitos e os interesses dos homens e da sociedade.

O autor destaca que todo procedimento médico promovido por autoridade policial ou judiciária, realizados por profissionais da medicina visando prestar esclarecimento à justiça, denomina-se perícia ou diligência médico-legal. A medicina legal é uma disciplina que utiliza vários ramos da medicina para ajudar a resolver situações jurídicas e que estão a serviço da justiça.

De acordo com Barros (2004), a atividade do auxiliar médico legal consiste em descrever o cadáver com precisão de detalhes: vestes, cabelos, olhos, dentes, cor, sinais particulares como cicatrizes ou tatuagens e lesões externas; também, realizar as incisões necessárias ao exame de necropsia. É importante ressaltar que, embora o trabalho prescrito seja o de auxiliar o médico nessas atividades, efetivamente, é o próprio auxiliar quem realiza as dissecações.

Gomes (1958) define a Medicina Legal em duas partes: uma parte positiva e outra constituenda. A primeira, que é constituída a partir das perícias, aplica o conhecimento médico para esclarecer o aparelho jurídico em casos onde o mesmo seja necessário. A segunda é aquela que está na teoria, doutrinária, que não foi ainda legislada

Segundo o autor, a Medicina Legal tem muita importância, pois auxilia tanto na elaboração de novas leis, quanto na execução de antigas e na interpretação de dispositivos legais. Todos quando relacionados com o seu campo de estudo tem como método, esmiuçar um ferimento, analisá-lo, descrevê-lo, afim de que a justiça aplique a pena determinada pela lei ao causador do ferimento.

Gomes (2004) enfatiza que a necropsia médico legal deve ser realizada por dois peritos médicos e sua realização deve sempre ser diurna, exceto em casos excepcionais, e a utilização de todos os equipamentos e material cirúrgico faz-se necessário para o bom desempenho do procedimento.

De acordo com o Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba-Paraná, as áreas técnicas do IML estão divididas em Clínica Médico-Legal que oferece serviços de realização de exames de conjunção carnal, ato libidinoso, lesão corporal, verificação de aborto, verificação de idade, sanidade física, sanidade mental, identificação de sexo somático, psiquiátrico; emitindo seus laudos. Laboratórios, que executam serviços de realização de exames anátomo-patológicos, toxicológicos e de química legal emitindo seus laudos.

Existem outros trabalhos realizados no IML necessários como complementação aos demais serviços mencionados, como: identificação do cadáver, radiologia para localização de projéteis/objetos, antropologia (exame em ossadas), coleta de material para dosagem alcoólica, controle dos materiais analisados, etc.

Ainda afirmam que o médico legista é responsável por fazer o exame de corpo de delito em vítimas vivas ou mortas, relacionando-se com os mais diversos campos do direito, e elaborando laudos que permitam a análise de fatos ocorridos durante o crime, de armas utilizadas, da causa da morte. Esse laudo auxilia na investigação de cada caso, e é imprescindível na resolução de casos judiciais, consubstanciando os inquéritos e ações penais.

Segundo Alfradique (2007), os documentos médico-legais são frequentemente usados na prática forense, pois têm um valor comprovador indiscutível no auxílio ao direito processual pela busca da sentença justa, que tenha como fundamento a verdade dos fatos e suas circunstâncias.

2.2 O Equilíbrio Emocional Diante da Conduta dos Auxiliares e Médicos Legistas

De acordo com Ross (2000), quando perdemos alguém, ficamos com raiva, zangados, desesperados, sendo que deveriam deixar que extravasássemos estas sensações. Em geral as pessoas preferem ficar sozinhas, logo que autorizam os profissionais para realizarem a necropsia e muitas vezes são incapazes de enfrentar a brutal realidade.

A saúde mental é o estado de espírito caracterizado por bem estar emocional, bom ajustamento comportamental, relativa liberdade de ansiedade e de sintomas incapacitantes, e uma capacidade de estabelecer relacionamentos e de lidar com as demandas e estresses comuns da vida. (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSICOLOGIA (APA), 2010).

A vivência dos profissionais, que trabalham constantemente com a morte, desperta inúmeros sentimentos, como dores e angústias, que precisam ser “olhados e cuidados”, conforme relata Muccillo (2006). Os profissionais que trabalham nas áreas em que a morte ocorre frequentemente devem compartilhar sentimentos e reações com os outros.

Quando se fala sobre a forma como as pessoas respondem ao estresse, utilizamos a palavra enfrentamento, que se refere às formas cognitivas, comportamentais e emocionais como as pessoas administram situações estressantes. Ele envolve qualquer tentativa de preservar a saúde mental e física mesmo que tenha valor limitado. (STRAUB 2005).

O enfrentamento é um processo dinâmico e não uma reação única, ou seja, é uma série de respostas que envolvem a interação do indivíduo com seu ambiente. As estratégias de enfrentamento, ou seja, a maneira como as pessoas lidam com situações estressantes visam moderar ou minimizar os efeitos de estressores sobre o bem-estar físico e emocional (STRAUB, 2005).

Segundo o autor, uma das mais importantes contribuições da psicologia da saúde na área do estresse e saúde foi à resolução da controvérsia sobre o fato de que o estresse é externo ou interno. Constatou-se que ambas as perspectivas estão corretas: o estresse é uma transação na qual cada pessoa deve ajustar-se de forma contínua a desafios cotidianos. A avaliação psicológica que cada pessoa faz de situações ou eventos potencialmente estressantes desempenha importante papel na determinação do peso que problemas cotidianos, demandas do trabalho e outros estressores têm sobre o próprio bem-estar.

Para que haja um bom desempenho em todo o procedimento de trabalho dos auxiliares e médicos legistas que se caracteriza como um trabalho de extrema comoção e que exige muita tranquilidade, é de fundamental importância, que eles estejam emocionalmente bem.

O equilíbrio mental de modo geral é a coordenação ou unificação das partes de uma totalidade dos processos mentais. É o processo de desenvolvimento em que pulsões, experiências, habilidades valores e características de personalidade separadas são gradualmente reunidas em um todo organizado. (APA,2010).

A rotina desses profissionais, por vezes, se dá de forma árdua, onde a carga horária de trabalho excede, o que o ser humano é capaz de suportar para desempenhar suas funções de forma bastante eficaz, por isso é necessário que estes carreguem consigo a auto eficácia, que segundo Bandura (1977), são as crenças individuais na capacidade de organizar e executar os cursos de ação necessários para lidar com situações potencialmente estressantes.

De acordo com Straub (2005), as pessoas que possuem forte sensação de controle pessoal têm mais probabilidade de utilizar formas adaptativas e focalizadas nos problemas para lidar com eles. O aumento na percepção de estresse está, em geral, acompanhado por aumento no enfrentamento focalizado na emoção, mas em um grau menor do que em pessoas que percebiam ter bastante controle pessoal sobre suas vidas.

2.3 O Lidar com a Morte

O conceito de morte nos dias de hoje, evidencia a parada das funções vitais e a separação do corpo e da alma. Nos tempos mais remotos, era considerado como diagnóstico de morte a cessação da respiração e das funções cardíacas. Atualmente o critério comumente utilizado é a avaliação da função cerebral, pois com os avanços da ciência e da tecnologia, tornou-se possível manter as funções cardíacas e respiratórias através de aparelhos, enquanto nada se pode fazer para manter funções cerebrais responsivas (BERNIERI; HIDER, 2006).

A sociedade marcada por um ritmo alucinante, parece ter deixado de lado o fato de todos nós sermos finitos. Assim, o homem, tende a não pensar sobre a finitude e a das pessoas que o rodeiam. Nota-se um despreparo no que diz respeito ao enfrentamento dessa situação. (FIDELIS, 2001).

De acordo com Costa (1999) apesar de a morte ser reconhecida como natural, universal e inevitável, o homem é incapaz de imaginar a sua própria morte e, por isso, na sociedade a maioria das pessoas tendem a evitá-la.

3. Método

Para compreender de que forma os aspectos psicológicos estão envolvidos no trabalho do auxiliares e médicos legistas, optou-se por um método qualitativo que compreende um conjunto de diferentes técnicas interpretativas que visam a descrever e a decodificar os componentes de um sistema complexo de significados. (NEVES, 1996).

Os pesquisadores qualitativistas ocupam-se com os processos, ou seja, querem saber como os fenômenos ocorrem naturalmente e como são as relações estabelecidas entre esses fenômenos. “A curiosidade e o empenho do pesquisador estão voltados para o processo, definido como ato de proceder do objeto, quais são seus estados e mudanças e, sobretudo, qual é a maneira pela qual o objeto opera” (BÓGUS; MARTINS, 2004).

Através da investigação bibliográfica e da pesquisa de campo, composta por entrevistas semi-estruturadas, foi investigado de que maneira os auxiliares e médicos legistas conseguem lidar cotidianamente com a morte, mantendo-se emocionalmente bem.

Para isso, foram entrevistados, individualmente dois auxiliares médicos legais e dois médicos legistas, sendo que a duração média das entrevistas foi de uma hora. Foram entrevistados três participantes do gênero masculino e uma do gênero feminino, com tempo de experiência oscilando de um ano até vinte e dois anos de profissão. 

As entrevistas foram gravadas mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que garante a fidedignidade dos dados e o sigilo, e posteriormente analisadas na íntegra para que todos os dados trazidos servissem de subsídios à obtenção de qualidade nas informações colhidas.

Os dados adquiridos nas entrevistas foram reunidos e analisados, produzindo conhecimentos fundamentais relacionados ao trabalho realizado por esses profissionais e confrontados com a teoria. Posteriormente, fez-se uma síntese para a apresentação e discussão dos resultados.

4. Apresentação e Discussão dos Resultados

4.1 O Profissionalismo e um Trabalho de Grande Zelo

Cotidianamente os auxiliares e médicos legistas são cobrados para manter uma posição de coerência, ética e muita tranquilidade, em função do importante papel que desempenham frente ao seu trabalho. A desenvoltura é uma das características essências para lidar com as situações que envolvem os mais variados tipos de sentimentos, conforme relatam os participantes 1,2,3 e 4, nomeados como: P1, P2, P3, e P4.

“(...) eu vejo três características fundamentais coerência, é a primeira, o legista tem que ter uma coerência, tem que ter um padrão de trabalho, tem que seguir as suas normas de uma forma rígida, não sair do padrão de trabalho dele, se ele faz um laudo ele tem que manter o laudo que fez, ele não pode se afastar dos seus preceitos de médico legista, segunda responsabilidade que se tem que é uma responsabilidade igual a qualquer área médica da medicina e terceiro, gostar do que faz...”(P1).

Os auxiliares e médicos legistas são profissionais extremamente realizados no trabalho que realizam e tem consciência do quão importante é a função que desempenham em prol do ser humano. Além do aspecto prático, do trabalho, do manuseio do corpo, existe todo um procedimento técnico. Esse processo se desenvolve com extrema responsabilidade, e esses profissionais só saem de cena quando o caso está encerrado literalmente. 

“O trabalho é um trabalho técnico, mas que de certa maneira, um pouco bruto. Você manuseia todas as partes do corpo, as vísceras, você carrega o corpo, coloca em cima da mesa. A gente tenta tomar todos os cuidados, mas, por exemplo, vem um cara de uns noventa quilos, muitas vezes a gente precisa do auxilio um do outro, ou utilizamos algum instrumento, porque esse tipo de trabalho, exige todo um esforço físico, também (...). Outra coisa são os cuidados com a aparência tanto da vestimenta quanto do local, a gente tentar deixar ele o mais limpo possível para que ele não se torne um ambiente desagradável”. (P3).

Quanto à realidade do trabalho que é exercido por esses profissionais, eles afirmam não ter problema em estar diariamente trabalhando com a morte, porém pontuam a necessidade de manter uma postura ética, de não se envolver, de não tomar as dores da família, por que este é o trabalho deles e precisa ser feito de forma profissional.

“Quanto ao trabalho aqui, eu não tenho problema de estar fazendo, do procedimento. Claro que tu não pode tomar as dores da família, se não... A gente está com 101 necropsias nesse ano, então se cada vez eu for me compadecer ou chorar com a família, eu vou me destruir (...) a gente chega aqui e veste a camisa, aqui eu sou auxiliar. Claro, fora, eu sou uma pessoa normal, tenho sentimentos, se eu perder alguém da minha família eu vou sentir, eu vou chorar; agora aqui eu não posso me envolver de maneira alguma até porque não cabe a mim, eu não posso julgar, não cabe a mim nada. O meu trabalho aqui é a apuração dos fatos, o auxílio médico”. (P3).

A preocupação em desenvolver um trabalho ético é levado como princípio por esses profissionais que trabalham para que possam entregar o corpo de forma que a família perceba que este foi manuseado com cuidado, que não foi maltratado, e que foi preservado e zelado a fim de não expor a família a situações de constrangimento.

“A minha regra é assim, trato as pessoas, como eu gostaria de ser tratado. Então eu preciso de todo o meu lado profissional. Eu trato o corpo em si, os familiares. Nesses momentos tu não te compadeces, não chora junto, tu tenta ser mais tranquilo, mais gentil, mas às vezes tu tem que entender a gentileza, como ser suave não tocar na pessoa, não vai pegar no braço porque a pessoa não quer isso. Eu não sou amigo da pessoa, eu não sou parente. Mas o que eu posso fazer é demonstrar meus sentimentos, que é uma maneira mais profissional, porque tu não vai chegar e ver o cara ali em cima da mesa e dizer boa noite (...) tu tem que concentrar no teu trabalho, tu tem que honrar teu trabalho e fazer um trabalho bem feito, para que aquela morte tenha esclarecimento”.(P3).

A opção por trabalhar na área, precisa ser tomada de forma consciente. Deve-se conhecer a realidade do trabalho a ser desempenhado, por isso a importância da formação, da preparação em experimentar as pessoas, fazer com que elas sintam a realidade de um IML e que levem consigo sempre a seriedade do trabalho que realizarão em favor do ser humano.

“Quando tu dá um laudo, tu tem que manter o que tu fez, por isso que eu digo, o médico legista tem que ter coerência, tem que ser responsável e tem que saber o que faz. E ser responsável, é olhar o que tu ta fazendo. Com palavras mais simples,  o legista que faz o laudo, não muda o teu laudo nunca que se tu mudar, tu vai perder a credibilidade, tu vai perder a decência, certo? Tu vai perder principalmente o crédito que tu tem do ponto de vista de inteligência perante os teus colegas, eles não vão mais confiar em ti”.(P1).

4.2 Casos de Comoção na Profissão

Conforme relatos dos entrevistados existem alguns momentos que se tornam marcantes em suas trajetórias. As mencionadas são as que envolvem crianças, pessoas conhecidas e as mortes violentas.

“ O que mais me abate dentro do IML, é fazer necropsia de criança, não gosto, e fazer necropsia de pessoas que tu conhece” (P1). “A mãe que perde um filho pequeno, ou assim uma morte extremamente violenta, um homicídio ou alguma coisa assim, mas na necropsia em si para mim não me envolver tanto, eu mantenho o corpo lá na necropsia como se ele fosse um objeto de estudo” (P2). “Não é bom fazer em bebê, em criança, eu sou pai, então não é bom fazer, você acaba lembrando, relacionando” (P3). “As necropsias de crianças e mortes violentas são os principais desafios que eu encontro ainda mais se for uma morte da qual a gente sabe que foi planejada” (P4).

4.3 A Morte como Tabu

A morte é um dos fenômenos que a sociedade ainda vê como sendo um tabu. Num primeiro momento é aquele choque, porém com o passar do tempo as coisas se acalmam, vê-se que a vida muda, que as coisas podem ser feitas de outra forma, que as pessoas envolvidas passam por um processo de adaptação para aprender a viver sem aquela pessoa. No entanto, ainda não se descobriu uma preparação efetiva para a morte, dificilmente encontram-se pessoas que afirmam ter se conformado com a morte de alguém.

“As pessoas não compreendem a morte. Se compreendesse não iam gritar, espernear, chorar. E muitas vezes colocar a culpa em quem não é. Ninguém aceita a morte”. (P1).

Ao defrontar a morte com o ambiente de trabalho, é preciso manter uma postura rígida, compreendendo que por mais envolvente que ela seja, os profissionais estão ali para encontrar as causas e esclarecer para a família.

“(...) o meu sentimento perante a morte eu tento tratar como se fosse uma rotina mesmo (...). A minha visão é que eu vou sair de casa pra ir atender uma família que perdeu alguém, que vai ser difícil, que eu vou me encontrar com parentes, desesperados, chorando ou de repente até, passando mal, mas eu vou ter que saber lidar com isso. Então a gente tem que compreender a morte, mas não se envolver com ela. Tanto que eu falo que, da porta para lá é um objeto de estudo, e da porta pra cá é que eu vou lidar com a pessoa, porque se não a gente acaba se envolvendo”. (P2).

4.4 A Escuta Clínica

Ao conhecer a realidade desses profissionais que trabalham frente a situações que envolvem sentimentos dos quais o ser humano muitas vezes tem dificuldade em saber lidar, observou-se a importância de uma escuta clínica, para que esses momentos possam ser divididos de forma a auxiliar nesse processo que se não trabalhado, pode tornar-se dificultoso.

“(...) me deparo às vezes com o medo, a ansiedade, de não saber o que fazer. De repente, alguém que tu possas conversar depois porque quando a família sai tu pensa, ta eles foram embora e agora? E eu, quem cuida de mim? Porque eu tenho. Eu saio daqui e vou fazer alguma coisa que eu tenho pra mim, se eu conto isso para alguém, vão me chamar de louca, pelas coisas que eu faço (...). Às vezes eu quero  desabafar o que eu estou sentindo. Porque te dá aquele impacto, um acidente grande, tu tem que esquecer, claro quando tu sai daqui tu esquece, quando tu volta tu vai lembrar o que tu fez. Porque a gente não faz só a necropsia, depois da necropsia tem o laudo, tem levantamento fotográfico, tem um monte de coisas para fazer, então, você tem aquilo por alguns dias de alguma forma tu vai ter que tirar isso de ti”. (P2).

Os profissionais entrevistados assumem que sentem a falta de um atendimento psicológico e relatam que muitas vezes, dividem seus momentos de angústias com seus colegas de trabalho, buscando apenas uma escuta que venha a minimizar o que está sendo sentido no momento.

“(...) olha, às vezes é frustrante. Eu quero que alguém me escute, mas eu não tenho ninguém pra me ouvir. Então eu to aqui, eu vou ouvir a família, eu vou dar um conforto pra ela, conversar e explicar, mesmo sabendo que lá fora depois eu não vou ter. Porque como a gente não tem atendimento psicológico, não tem outros meios, nunca ofereceram para nós atendimento psicológico. Então é um negócio ruim, porque às vezes tu sai daqui e tu precisa desabafar com alguém, e tu não tem. Eu já me deparei falando com os meus bichinhos, já me deparei. E aí eu não sei se isso é normal ou se não é normal. Mas pra mim está sendo, porque eu não encontro ninguém para desabafar”.(P2).

4.5 Estratégias Encontradas para que os Profissionais Possam Manter-se Emocionalmente Bem

As cargas excessivas de trabalho, as situações que causam envolvimento, o estresse diário e as demandas que por vezes sobrecarregam esses profissionais que trabalham em uma equipe com poucos profissionais em atuação, mostram-nos a importância destes estarem emocionalmente bem para realização de um trabalho eficaz. Para isso é de fundamental importância que sejam traçadas estratégias para que a saúde mental seja preservada acima de tudo.

“Primeiro, fazer o meu trabalho com consciência; segundo fazer as coisas com responsabilidade e terceiro a espiritualidade, eu não viveria sem a minha espiritualidade. Eu não seria um legista. Eu sou porque eu sei que A MORTE É UMA VELA. APAGOU. Muitas vezes, apaga de uma forma dramática, de uma forma drástica, mas o que, que a gente vai fazer? Isso faz parte da sociedade”.(P1).

Observou-se que as estratégias traçadas por esses profissionais os mantêm, nos seus ambientes de trabalho, com respeito ao ser humano e que por mais difícil que seja, levam o profissionalismo como bem maior.

“(...) eu procuro alternativas, eu vou para a academia, eu tenho o João bobo, eu desconto tudo nele (...) converso com os bichinhos, eu tenho um sapo que eu digo que ele é meu ombro amigo. Porque eu preciso conversar com alguém, eu sei que ele não vai me responder, mas eu to falando (...). E aqui dentro eu desenho, fico riscando papel, ou picando, ou então a gente vai lá pra fora, toma um café, faz alguma outra coisa para não ficar só aqui dentro, porque quanto mais tempo tu fica aqui dentro, pior tu fica. Aqui a gente tem que encontrar formas, plantar florzinhas, agora estamos organizando o nosso jardim”.(P2).

“Eu gosto de chegar em casa e tomar um banho. Sou um cara que gosta de assistir TV. Eu gosto de sair de carro, fumar meu cigarrinho. Eu acredito que não tenha nenhuma fórmula específica, para ti se manter bem, você precisa fazer as coisas que você gosta, que te deixam bem. E às vezes, o cara está mais pra baixo, está mais cansado, então é por isso que eu falo que eu gosto de ficar sossegado. Eu sou um cara que gosta de casa, então lá que é o meu refúgio”. (P3).

 “Eu gosto muito de ler. Eu tenho uma vida social muito forte também. Eu participo de dois clubes de serviço então essas horas que semanalmente eu passo nesses grupos fazem com que eu esqueça um pouco do meu trabalho”.(P4).

5. Considerações Finais

Os participantes dessa pesquisa, dois auxiliares médicos legais e dois médicos legistas amargam suas vivências sem nenhum tipo de escuta. Por ser um assunto que ainda é levado como tabu, a morte causa estranheza para as pessoas e consequentemente as afasta desses profissionais que constantemente trabalham com ela.

 Destaca-se a importância do trabalho desses profissionais que atuam de forma ética respeitando o outro a fim de honrar essa profissão de grande valia para a sociedade de forma geral. As cargas excessivas de trabalho, o cuidado ao lidar com o corpo, o equilíbrio entre as situações diariamente vivenciadas e o equilíbrio emocional, fazem com que a atuação desses profissionais se tornem admiráveis. O lidar com a morte sempre foi algo repulsor e é a partir da compreensão desta, que esses profissionais enobrecem o trabalho que realizam em prol do ser humano, tornando visível o respeito que eles têm diante da vida humana.

Pontua-se a necessidade de uma escuta profissional que venha a minimizar alguns dos sentimentos que por vezes, por mais compreendidos que possam ser, nem sempre conseguem ser cingidos de forma a não prejudicar o aspecto emocional do profissional permitindo que este desenvolva suas funções de forma consciente.

Estar diante desses profissionais que diariamente trabalham com a morte e acima de tudo zelam pelo seu trabalho e pelo ser humano que está sobre seus cuidados, nos faz pensar que o profissionalismo exercido por eles evidencia ainda mais a imagem destes como profissionais de corpo e alma. Afinal para que a morte possa ser compreendida é fundamental que se viva uma vida de grande intensidade.

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