A Demência Frontal:  ou o Risco da Perda do Eu e do Outro

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Resumo: Este artigo consiste numa síntese descritiva e abordagem reflexiva acerca de Demências Frontotemporais, especificamente a Demência Frontal, com elucidação e definição do problema, sinais e sintomas clínicos, exames de confirmação e pistas para uma terapêutica adequada e procura de soluções de melhoria da qualidade de vida para o próprio a curto e a médio prazo. O artigo não deve ser utilizado, jamais, para tecerem hipóteses diagnósticas, muito menos para não-clínicos, nem para levar a conclusões acerca do seu estado de saúde ou de um seu familiar, apenas descreve e dá pistas, numa tentativa de melhor identificar e perceber este tipo de Demência, menos comumente falada. Se por acaso, após ler este artigo ficar com questões sobre a sua saúde ou de um seu familiar, deverá ter calma e consultar um especialista, já que muitos sintomas e sinais são idênticos em várias situações clínicas, além de que há terapêuticas que ajudam a manter a qualidade de vida na grande maioria dos casos, havendo até casos demenciais que podem ser reversíveis (os não degenerativos por ex., provocados por carência extrema de vitamina B12, ou ainda os de origem vascular, sobretudo acidentes isquêmicos). De qualquer forma, apenas um especialista poderá chegar a conclusões diagnósticas, pelo que em caso de dúvida, deverá com tranquilidade consultar um.

Palavras-chave: Demência, Neuropsicologia, Diagnóstico.

Nota: este artigo não faz qualquer diagnóstico acerca da sua saúde ou de um seu familiar, nem se responsabiliza por conclusões deste tipo. Um diagnóstico só pode ser feito por um especialista em clínica de demências. Em caso de dúvida deverá encaminhar o seu caso ou de um seu familiar para consulta com médico generalista, neurologista, psiquiatra ou geriatra, psicólogo clínico ou neuropsicólogo.

1. Introdução

Dentre a panóplia de demências que, infelizmente, atingem uma grande parte da população, sobretudo a partir dos 70 anos, embora eventualmente o seu começo seja frequentemente na década anterior, uma das mais sub-diagnosticadas e desconhecidas da população em geral, e dos próprios (os que dela padecem) é sem dúvida a Demência Frontotemporal, especificamente a Demência Frontal.

É uma demência que poderá ter alguma componente de hereditariedade ou genética, e que pode surgir precocemente, entre os 40 e os 70 anos, de forma insidiosa e progressiva, desenvolvendo e agravando o quadro sensivelmente nos três a dezessete anos subsequentes ao seu começo. As alterações primárias são ao nível do comportamento, motivo pelo qual é tão complicado o seu diagnóstico enquanto demência.

O mais grave desta demência é que como qualquer demência ela é real, existe de facto deterioração do comportamento, há sempre uma lesão cerebral visualizável por ressonância magnética (as chamadas “atrofias”, por exemplo, são uma das lesões identificáveis dentre outras), e modifica a vida da pessoa e dos seus familiares, necessitando eventualmente de uma intervenção ou prevenção de males maiores, seja por medicação que retarde ou atenue os sintomas, seja por medidas externas que facilitem uma maior qualidade de vida do doente, que, infelizmente nestes casos, tende a negar a sua doença, e em casos mais avançados, é incapaz mesmo de reconhecer que padece de algum mal.

2. Por Que a Dificuldade de diagnóstico?

Porque enquanto que a grande maioria das Demências causa deterioração mental facilmente identificável, associada a déficits ou perdas, ao nível das cognições, ou seja, existe perda de memória a curto ou médio prazo, dificuldade de raciocínio lógico-matemático e/ou literário, estados momentâneos de perda da noção espacial ou de identidade, bem como ausência de reconhecimento do Outro, por ex., e em casos mais avançados podem existir outras perdas associadas à parte psicomotora, no caso especial das Demências Frontais ou Frontotemporais, estas perdas são muito pouco significativas, quase idênticas às perdas normais para a idade avançada, já que existe sempre alguma lentificação e diminuição de capacidades associadas ao envelhecimento normal, sem demência, numa grande parte da população, bem como alguns estados mais depressivos associados a demência ou ao simples envelhecimento e dificuldade em aceitar esta fase da vida.

O que caracteriza as Demências Frontotemporais e a Demência Frontal em concreto? Em termos gerais, as alterações do comportamento e/ou da linguagem são os aspectos dominantes deste tipo de demência e as características comuns aos vários subgrupos da DFT (Demência Frontotemporal). Um dos aspectos mais típicos é um comportamento que está alterado face à personalidade anterior do sujeito, podendo ser considerado até desadequado de certa forma pelo Outro uma vez que a alteração se dá nomeadamente ao nível do comportamento social.

Estas alterações de comportamento são algo árduas de reconhecer, quer pelo próprio (que não tem julgamento face à esta alteração, pelo menos não o suficiente para reconhecer isto como um problema de saúde) quer pelos outros, porque se traduz essencialmente em: desinibição, que oscila com momentos de aparente apatia, perda de autocrítica (a pessoa não consegue ter crítica própria face aos seus sentimentos ou comportamentos, eles são perfeitamente egossintônicos, ou seja, ela reconhece-os como sendo pertencentes à sua forma de estar e de ser, em vez de reconhecer que algo de si se perdeu, e foi esta perda que motivou a alteração comportamental); por vezes comportamentos repetitivos (complicados de serem reconhecidos), e condutas de utilização (uso e exploração inadequados dos objetos), condutas anti-sociais, etc.

Por outro lado podem existir, sobretudo com o tempo e evolução (e agravado consoante o subgrupo concreto destas Demências), as chamadas alterações da linguagem, que se manifestam habitualmente pelo discurso empobrecido e estereotipado, associado, ou não, a parafasias.

Inicialmente, e durante uns anos, surgem, sobretudo, as alterações de comportamento e da linguagem; mais tarde e inevitavelmente a deterioração manifesta-se também com problemas de memória, e é nestes casos mais tardios que o doente pode apresentar queixa, sendo já difícil o diagnóstico da perturbação subjacente já que ela se confunde nesta fase com todas as outras demências, embora também na perspectiva cognitiva existam diferenças como, por exemplo, a predominância da deterioração das capacidades executivas (planeamento, sistematização) e da atenção, que muitas vezes só é detectada após uma avaliação neuropsicológica. Nesta fase tardia é já impossível agir preventivamente, diagnosticar diferencialmente, e por consequência intervir da melhor forma.

3. Quais as Entidades Incluídas na Demência Frontotemporal?

Enquanto entidade clínica e patológica a Demência Frontotemporal ou Degenerescência Frontotemporal conhece alguns subgrupos, que variaram ao longo dos tempos, com os autores. As primeiras três síndromes, ainda hoje válidas, foram identificadas enquanto Demência do Lobo Frontal (DF), Afasia Não Fluente Progressiva e Demência Semântica. Posteriormente incluíram-se no grupo das Demências Frontotemporais mais quatro entidades: Afasia Primária Progressiva, Demência Frontotemporal com Parkinsonismo, Demência Frontotemporal e Doença do Neurônio Motor; Degenerescência Corticobasal. São estas sete entidades que integram as Demências Frontotemporais (DFT).

Neste artigo apenas irei abordar a Demência Frontal (DF), por nos ter parecido sempre a mais complicada de reconhecer e provavelmente a com maior subdiagnóstico e prevenção e/ou terapêutica, o que pode diminuir a qualidade de vida do sujeito e daqueles que estão à sua volta.

4. A Demência Frontal e o risco de perda do Eu

A Demência Frontal (DF) é então um dos subgrupos primeiramente identificados dentre os vários que se incluem nas Demências Frontotemporais. Esta demência caracteriza-se por um começo insidioso de alteração do comportamento social, muitas vezes apenas identificável para quem conhecia a pessoa anteriormente e estranha um pouco às diferenças de atitude, outras vezes identificável facilmente, sobretudo quando o padrão comportamental se apresenta mais alterado e portanto um pouco mais inadequado às situações sociais em que acontece. Esta alteração do comportamento tem um padrão de desinibição (mais facilmente identificável, por exemplo, numa pessoa que anteriormente tinha um padrão comportamental mais reservado e discreto, e menos identificável num sujeito que sempre teve padrão mais extrovertido e desinibido de comportamento), e perda de auto-crítica (ou seja a pessoa não consegue ter discernimento suficiente para criticar os seus próprios comportamentos ou  emoções e sentimentos, ou encontra frequentemente justificação para os mesmos sem qualquer capacidade de se auto-criticar de forma autêntica).

Estes comportamentos podem não ser permanentes, aliás, não o são frequentemente, nomeadamente oscilando com períodos ao longo do dia, semana ou mês, de apatia e embotamento emocional (ou seja o contrário da desinibição identificada nos outros períodos, estes momentos de apatia são momentos em que o sujeito está  mais parado e discreto, muitas vezes sem grande vontade de fazer coisas e mais “metido consigo mesmo”, e, por outro lado, apresenta o referido embotamento afectivo ou emocional, que se traduz em dificuldade de contacto com as suas próprias emoções e afectos, e com intensa dificuldade em expressar o que sente, sendo isto uma verdadeira incapacidade na habilidade de se expressar perante si próprio ou perante o outro no que aos seus sentimentos e emoções diz respeito).

Consoante os casos, as pessoas podem apresentar esta oscilação de comportamentos em períodos diferentes de um mesmo dia, ou com períodos mais longos de tempo entre um e outro comportamento, sendo que podem ainda coexistir – por ex. o sujeito pode estar desinibido, mas nem por isso deixar de ter embotamento emocional, ou seja, não consegue da mesma forma expressar sentimentos e emoções, embora fale de outras coisas que não digam respeito a isso mesmo. O mais frequente é, no entanto, associar-se a desinibição e a ausência de auto-crítica, em momentos em que o sujeito aparenta estar bem e falador para olhares menos atentos e para o próprio, mas havendo sempre alguma  inadequação comportamental, que com o avanço da doença começa a ser notado pelos outros. A pessoa poderá notar comentários ou reacções dos outros que o alertem para alterações de comportamento, mas isso não significa que perceba a gravidade dos mesmos - geralmente, sem auto-crítica, não os julga desadequados, e é incapaz de se colocar no lugar do Outro e perceber o quanto os comportamentos são inadequados podendo ferir susceptibilidades, por exemplo.

Os momentos em que a apatia toma conta do sujeito com esta Demência ainda na sua fase inicial, costumam ser acompanhados de embotamento emocional e da mesma forma de ausência de auto- crítica (parece ser tudo “natural” para o sujeito, nomeadamente se for confrontado com isso por um clínico, psicólogo ou médico por exemplo que o assistam, poderá facilmente negar que esteja a ter qualquer alteração comportamental, defendendo que tudo é perfeitamente natural, por ex., que acontece com toda a gente – e se isto faz parte de mais um padrão encontrado nas demências iniciais em geral – a negação das incapacidades -, neste caso da demência Frontal não estamos a falar do mecanismo de defesa negação propriamente, mas antes da tal ausência de auto-crítica, ou julgamento de si mesmo, que impossibilita o discernimento necessário até à própria negação (esta pressupõe que o sujeito sabe que algo se passa e nega; enquanto que no caso da demência frontal o sujeito não tem noção do mal que o afecta, e ainda que confrontado com o mesmo, tem muita dificuldade em perceber o que se passa na verdade com ele).

Aqui reside o maior problema: a não identificação do problema pelo próprio leva-o a não pedir ajuda, e mesmo que familiares, amigos e clínicos percebam o que se passa, a pessoa no poder das suas faculdades mentais não procurando ajuda, ninguém a pode forçar a uma terapêutica por exemplo...Repare-se que o sujeito não perde desde logo as suas capacidades cognitivas o que o torna responsável pela sua vida de forma total. No entanto, há uma alteração de padrão de comportamento que justifica a intervenção, até para que a doença não progrida de forma tão rápida e possa possibilitar uma melhor qualidade de vida ao próprio sujeito.

Tardiamente, numa fase muito avançada da doença estes comportamentos sociais inadequados deixam de ser discretamente alterados e passam a ser muito acentuados e marcadamente alterados, não causando dúvidas de que a pessoa está de facto doente. Em simultâneo, no agravamento do quadro da demência, potenciam-se outros comportamentos que já não são apenas sociais, mas que se referem a várias áreas da vida do sujeito. Primeiramente

pode-se assistir à rigidez de pensamentos, inflexibilidade (pensamento inflexível, dificuldade em alterar rotinas, não conseguir mudar comportamentos ou atitudes, ausência de capacidade de tolerância ou compreensão, ausência de empatia com o Outro), hiperoralidade e alterações do comportamento alimentar (mais tarde na evolução da doença. como a Bulimia), estereotipia, comportamentos de repetição, bem como desleixo na higiene pessoal (quadro já muito grave e avançado da Demência).

Nesta fase tardia da demência, ou seja, quando muitos destes comportamentos estão presentes, diagnostica-se demência, obviamente, mas existe já uma maior dificuldade em perceber diferencialmente de que tipo de demência estamos falando, o que poderia ser importante para decidir a terapêutica a instituir por exemplo.

Para além destas alterações frequentes na Demência Frontal, podem surgir quadros que incluam para além das alterações de comportamento típicas da DF, outras alterações, nomeadamente na linguagem. No que à linguagem diz respeito às alterações predominantes são: discurso estereotipado, economia da linguagem, ecolalia, perseverança e em quadros muito graves e menos frequentes mutismo.

Nesta fase muito tardia da demência, o trabalho a desenvolver com estes doentes já não difere muito das Demências em geral, não havendo muita distinção nas terapêuticas. O mais importante será sempre o de diagnosticar precocemente e instituir terapêutica que retarde a evolução da demência o mais possível, e isto só é possível se o doente, familiares e o próprio clínico puderem identificar os primeiros sinais da demência, embora já instalada em forma inicial, e eles consistem nas alterações de comportamento da pessoa, no começo destas alterações. São as primeiras alterações de comportamento – desinibição, falta de auto-crítica, apatia, embotamento emocional – que devem alertar o clínico para o diagnóstico, que muitas vezes é corroborado pela presença de imagens sugestivas desta demência em TAC (Tomografia Axial Computurizada) e/ou RM (Ressonância Magnética).

A característica inicial é, no entanto, e sempre, a alteração de comportamento, e esta é decisiva para um diagnóstico diferencial com outras demências, devendo-se também fazer diagnóstico diferencial com outras patologias do eixo da personalidade e/ou psicopatologia severa. Fazer o diagnóstico é o mais importante, depois cabe ao doente fazer a sua parte, enquanto o pode e deve fazer.

5. Para um Melhor Diagnóstico

- Imagiologia, Demências Frontotemporais e Demência Frontal –

O estudo imagiológico é obrigatório na avaliação inicial de um doente com história clínica e sintomas sugestivos de Demência Frontotemporal, até para que se possam excluir outras alterações estruturais que possam produzir os mesmos sintomas e padrões, como é o caso de alguns tumores cerebrais.

No estudo imagiológico, a saber estudos de imagem como por exemplo a Ressonância Magnética, que é o mais utilizado nestas situações, o aspecto dominante e obrigatoriamente presente nas demências frontotemporais e especificamente na demência frontal é a designada Atrofia cortical. Quando está presente atrofia cerebral, nomeadamente atrofia com predomínio nos lobos frontal e temporal, e não está presente nenhum tumor nem outra alteração estrutural, está confirmado à partida o diagnóstico da Demência frontotemporal, normalmente quando das primeiras Ressonâncias magnéticas em estado inicial.

Ao longo da evolução das DFT – Demências Frontotemporais, a atrofia cerebral é marcadamente frontal e temporal, como o nome indica, e os padrões numa análise volumétrica em RMC (Ressonância Magnética Cerebral) podem ser diferentes, consoante o tipo de Demência Frontotemporal. Por ex. no caso da demência frontal, existe atrofia dominante nos lobos frontais, embora ela esteja obviamente presente nos temporais (por isso mesmo se insere nas Demências Frontotemporais).

Quando a atrofia é evidente a doença está instalada, isto é ela é identificável do ponto de vista orgânico, ela está presente nos estudos de imagem do cérebro.

Em alguns casos muito insipientes da Demência Frontotemporal, a atrofia pode ainda não ser identificável. Nestes casos, em que ainda não se visualiza por RM a atrofia que tem de estar presente em demências Frontotemporais, mas existe clínica sugestiva de uma destas demências, podem utilizar-se outros estudos de imagem SPECT ou PET, na tentativa de visualizar neste tipo de imagens funcionais hipoperfusão (no SPECT) ou hipometabolismo (na PET), ao nível dos lobos frontais e temporais.

Estes estudos de imagem apenas são feitos se não de detectam as alterações tipicamente presentes nestas demências – atrofia da zona temporal e frontal, com dominância específica consoante a tipologia da demência. Se pelo contrário a RM mostra claramente a atrofia, então não são necessários mais estudos por imagem e o diagnóstico está feito se associado à clínica sugestiva e compatível com a demência.

Atenção que qualquer diagnóstico só pode ser feito pelo clínico, ainda que uma pessoa visualize um relatório de imagem com estas identificações, não sendo clínica nunca poderá daí concluir que tem a demência. Os diagnósticos são reservados aos clínicos, que os comunicarão da forma mais correta ao seu doente.

5.1 Diagnóstico Diferencial

Não querendo neste artigo alongar muito mais acerca do Diagnóstico diferencial, não posso deixar de referir alguns tópicos que podem ser pertinentes para uma melhor compreensão da Demência e do seu diagnóstico.

Alguns aspectos clínicos, ou seja, da história clínica da pessoa e do surgimento dos sintomas, deverão afastar a hipótese do diagnóstico de Demência Frontotemporal, ou concretamente de Demência Frontal, como é o caso de: começo súbito dos sintomas, traumatismo crâneo-encefálico anterior aos sintomas, desorientação espacial predominante e diminuição ou mesmo perda de memória acentuada no estado inicial. Em qualquer uma destas situações, e dependendo do caso, outras patologias deverão estar presentes e não a demência Frontotemporal.

É importante que se exclua a demência de Alzheimer (onde por ex. é a memória e as cognições em geral que são mais afectadas incialmente); Patologias infecciosas como neurosífilis, encefalopatia por HIV, dentre outras, devem também ser excluídas antes de se diagnosticar Demência Frontotemporal; Tumores do lobo frontal com produção de alteração comportamental também devem ser excluídos por exame imagiológico por exemplo; Esclerose múltipla é uma das doenças graves que deverá ser excluída antes do diagnóstico da demência frontotemporal; e existem uma panóplia de situações clínicas que produzem algumas características sintomáticas idênticas, que necessitam de ser excluídas antes de um diagnóstico final de Demência frontotemporal.

Para isto é mais uma vez a história clínica do doente, o começo dos sintomas e a forma como inicia o quadro, bem como os estudos de imagem, que determinam um diagnóstico de Demência frontotemporal, e especificamente a Demência Frontal. Nomeadamente nos estudos de imagem não deverão aparecer alterações significativas para além da atrofia cortical, tal como a descrevemos anteriormente neste texto. Por exemplo, a existência de infartos múltiplos, infartos lacunares e lesões isquêmicas da substância branca, podem estar associados a outro tipo de Demência designada por Demência Vascular.

Assim, também os vários tipos de Demência devem ser diferenciados para um diagnóstico, não se podendo excluir uma situação comum e infelizmente não pouco frequente de Demência mista, em que a uma Demência como a de Alzheimer, ou mais raramente a uma Demência Frontotemporal, se podem associar estados demenciais vasculares (Demência Vascular), que se devem, sobretudo, a “derrames”, de pequenos vasos cerebrais que fazem surgir “zonas lacunares” e de “perda de substância branca”, visualizáveis em estudos de imagem como a ressonância magnética, e que podem coexistir, menos frequentemente com a demência Frontal, ou, mais frequentemente e agravando o quadro, com a Demência de Alzheimer.

Neste caso note-se que existem diferenças significativas entre uma demência vascular, considerada não degenerativa por ser causa de pequenos “acidentes vasculares” com danos mais, ou menos, permanentes, consoante às zonas atingidas e o tipo de “acidente” em si mesmo, e uma Demência de Alzheimer ou uma Demência Frontotemporal, ambas degenerativas e de processo evolutivo sequencial ao longo do tempo.

Mais uma vez se ressalva que apenas um clínico poderá perceber e fazer este diagnóstico diferencial, pois muitos sinais e sintomas, e muitos estudos de imagem com os mesmos aspectos podem estar associados a mais do que uma patologia, e é necessário um cuidadoso estudo do doente e da sua história clínica, bem como dos exames efectuados e avaliações neuropsicológicas por ex., para se poder chegar a um diagnóstico fidedigno, tão importante para a instituição de terapêuticas adequadas em muitos dos casos.

5.2 Identificar a Doença

– Ter 5 ou mais comportamentos para Diagnóstico de Demência Frontal -

De acordo com Gregory e Hodges (1996), os critérios clínicos para a Demência frontal seriam manifestar de forma insidiosa e progressiva pelo menos cinco (5) destes comportamentos, por período de duração superior a seis meses:

Falta de auto-crítica; Desinibição; Inquietude motora; Distractabilidade; Diminuição de empatia e desinteresse; Falta de perspectivas e de adequada planificação; Impulsividade; Asilo social; Apatia ou falta de iniciativa; Descuido do aspecto social; Redução da produção espontânea da linguagem; Bulimia; Hiperactividade sexual.

Para além de existirem pelo menos cinco destes comportamentos durante mais de seis meses, teriam de coexistir os seguintes aspectos:

Preservação de memória recente e praxias; evidência neuropsicológica de marcada disfunção frontal; Ausência de traumatismos crâneoencefálicos, AVC, Alcoolismo, Parkinson, ou outros movimentos anormais. Escala vascular de Hachisky menor do que 4. Podem existir transtornos psiquiátricos associados, tais como condutas violentas.

5.3 Critérios propostos pelos grupos de Lund e Manchester (1994):

I. Características diagnósticas centrais:

1. Distúrbios do comportamento: Início insidioso e progressão lenta;

Perda precoce da consciência pessoal (negligência com higiene pessoal); Perda precoce da consciência social (ausência de tato social, desvios da conduta social);  Sinais precoces de desinibição (como hipersexualidade, comportamento violento, jocosidade); Rigidez mental e inflexibilidade; Hiperoralidade (mudanças na dieta, excessos alimentares, consumo excessivo de álcool e tabaco, exploração oral dos objetos); Comportamento esterotipado e perseverativo (comportamento errante, maneirismos como bater palmas, cantar, dançar, preocupação ritualística como colecionismo, hábitos de higiene íntima e vestuário); Comportamento de utilização (exploração irrestrita de objetos no ambiente); Distractibilidade, impulsividade e falta de persistência; Perda precoce do insight e da crítica de que as alterações são secundárias a uma alteração no próprio estado mental.

2. Sintomas afectivos:

 Depressão, ansiedade, sentimentalismo excessivo, ideação suicida, delírios (presentes precocemente e efémeros); Hipocondria, preocupação somática bizarra (precoces e efémeros); Indiferença emocional (ausência de empatia e simpatia, apatia); Perda da mímica (inércia e falta de espontaneidade).

3. Distúrbio da fala:

Redução progressiva da fala (redução das manifestações verbais espontâneas); Fala estereotipada (repetição de repertório limitado de palavras, frases e temas); Ecolalia e perseveração; Mutismo tardio.

4. Orientação espacial e praxia preservadas (habilidades intactas para interagir com o ambiente).

5. Sintomas físicos: Reflexos primitivos precoces; Incontinência precoce; Acinesia (tardia), rigidez, tremor; Pressão sanguínea baixa e lábil.

6. Investigações complementares:

EEG normal apesar de demência clinicamente evidente; Exame de imagem (estrutural ou funcional, ou ambos) evidenciando anormalidade predominantemente frontal ou temporal anterior, ou frontotemporal; Exame neuropsicológico alterado (graves prejuízos nos testes dos lobos frontais, na ausência de amnésia significativa, afasia, ou distúrbio espacial).

II. Características que dão suporte ao diagnóstico:

Início antes dos 65 anos; História familiar positiva de distúrbio similar em parente de primeiro grau; Paralisia bulbar, fraqueza muscular, fasciculações (doença do neurónio motor).

III. Características incompatíveis com o diagnóstico (critérios de exclusão):

Início abrupto com eventos ictais; Trauma de crânio relacionado ao início dos sintomas; Amnésia precoce e importante;

Desorientação espacial precoce, desorientação em ambientes familiares, dificuldades para localizar objectos; Apraxia precoce e importante; Fala logoclónica, com perda rápida da associação das ideias; Mioclonias; Déficit cortical bulbar ou medular; Ataxia cerebelar; Coreoatetose;

EEG significativamente anormal em estágios iniciais da doença;

Exame de imagem com alterações estruturais ou funcionais predominantemente em estruturas pós- centrais; lesões multifocais na TC ou RNM de crânio;

Testes laboratoriais indicando envolvimento cerebral ou doença inflamatória (como esclerose múltipla, sífilis, AIDS e encefalite herpética).

IV. Características pouco compatíveis com diagnóstico:

História típica de alcoolismo crónico;

Hipertensão sustentada;

História de doença vascular (como angina, claudicação).

6. Algumas Propostas Terapêuticas Actuais:

Actualmente não existe uma terapêutica específica aprovada para a DFT – Demência Frontotemporal. Têm sido utilizados inibidores das colinesterases de forma empírica, mas sem eficácia comprovada. Em relação à terapêutica destinada a atenuar as alterações comportamentais, várias hipóteses têm sido tentadas em termos de medicação, nomeadamente: neurolépticos atípicos (anti-psicóticos), anti-depressivos triciclicos e anti-epilépticos.

Recentemente concluiu-se que os fármacos inibidores da recaptação da serotonina são os mais apropriados no controle das alterações comportamentais desta demência, e são talvez a opção mais promissora na gestão de comportamentos, que é de facto o problema maior no começo desta patologia.

Aliada à terapêutica farmacológica existe algumas medidas que poderão auxiliar a melhoria da qualidade de vida destes doentes, tal como programas de terapia da fala nos doentes com

perturbações incapacitantes da linguagem, treino de competências sócio-cognitivas e algumas abordagens psicológicas, nomeadamente terapias comportamentais; a terapia ocupacional também é aconselhada, sobretudo nos casos mais avançados.

É sempre importante que sendo diagnosticada a doença, exista um tratamento adequando, sobretudo, para evitar alterações de conduta. Não havendo tratamento concreto, existem muitas possibilidades de atenuar os sintomas e diminuí-los significativamente o que pode resultar numa melhoria da qualidade de vida.

Também existem demências que podem ser reversíveis e retardada a sua evolução, mas cada caso é um caso. Noutro artigo faremos uma revisão acerca de outras Demências. Importa sempre manter a qualidade de vida do sujeito o mais possível, e a sua dignidade, bem como a sua autonomia - embora por vezes seja adequado um ambiente de vida protegido (Unidades residenciais, Apoio domiciliário, Centro de dia de idosos diurno, Lar ou Casa de repouso geriátrica, em casos mais avançados), em que possa ser controlada a evolução da demência sem causar maiores danos ao doente, sobretudo, a médio prazo, e onde possa haver um acompanhamento constante da pessoa, ao longo do avançar da idade e da Demência.

Quando se fala da Demência frontal, que devido ao lobo cerebral afectado produz alteração do comportamento e da personalidade, falamos mesmo da perda de um Eu, e de um Outro, que na ausência de empatia por parte do doente, e no seu embotamento afectivo e desinteresse, também “desaparece”, juntamente com o próprio.

Por este motivo, e ainda que as alterações mais graves e as perdas cognitivas venham numa fase tardia da doença, os doentes devem ser tratados, sempre que se detecte o estado inicial. A demência, mesmo sem uma cura no verdadeiro sentido do termo, poderá tornar-se menos grave e mantida sob controle com medicação e terapias adequadas caso a caso.

O próprio doente pode proteger o seu futuro, tomando decisões enquanto pode, no aqui e agora que o possam proteger quer na evolução da doença, quer nos estados mais avançados da mesma. É complicado lidar com os doentes, porque eles próprios, enquanto não têm défice cognitivo nem limitações significativas, pelas alterações de comportamento e de afectos, se afastam do ponto de vista emocional e comportamental, de forma inflexível, e provocam o afastamento dos mais próximos - normalmente familiares mais próximos e cuidadores, até pelas suas condutas que nem sempre são as mais sensatas, tendo algumas delas traços de agressividade ou violência, outras pela hipersexualidade, e em quase todos os casos marcada ausência de empatia pelo outro.

Na perspectiva do doente o sofrimento manifesta-se mais pelas consequências de comportamentos menos próprios, se as houver, e mais tarde pelas limitações que vão surgindo. Ao ser alterada a personalidade, e na ausência de auto-crítica, o sofrimento, que é sempre subjectivo, pode até parecer atenuado, mas a verdade é que existe risco de maiores sofrimentos e se é fruto da Demência a alteração comportamental, isto significa que há um Eu que vai desaparecendo, e que o Eu prévio, se soubesse o que iria suceder, não quereria passar por isso, na maioria das vezes - ou seja reconheceria os seus comportamentos como estranhos perante o seu próprio Eu.

Por este motivo, e mesmo que fosse só por este, deve intervir-se precocemente sempre que possível, e garantir que os comportamentos sejam mantidos e geridos sem alterações significativas - isto só é possível com uso regular de medicação adequada, e que tenha os menores efeitos colaterais (nalguns casos os efeitos eram demasiado prejudiciais e não justificavam a terapêutica, anteriormente; actualmente existem muitas opções que justificam a terapêutica, melhoram o estado demencial e mantêm o comportamento, sem danos colaterais graves numa grande maioria dos casos).

Se desconfiar após ler este artigo que pode padecer desta ou de outra demência, ou algum seu familiar ou amigo próximo, consulte ou aconselhe a consultar um médico especializado na área da Geriatria ou da Neurologia, de preferência por indicação do seu médico de família, ou generalista que o acompanha. Em certos casos o médico generalista também poderá medicar e encaminhar. Nunca se autodiagnostique, nem automedique, e não pense que o avançar de uma doença deste tipo é inevitável. Há muito a fazer para melhorar a qualidade de vida e atenuar sintomas e sofrimento, embora deva, de facto, haver uma intervenção e uma prevenção no sentido de minorar a problemática da doença a médio prazo, e para isto seja preciso reconhecer a doença antes de mais.

Existe também a possibilidade real de demências que se podem confundir com a que aqui tratamos, e algumas são efectivamente reversíveis, as não degenerativas, como é o caso da demência vascular, onde é a origem da demência que tem de ser controlada por medicação (circulação, hipertensão, etc.) e não a demência em si mesma.

Noutros casos, mesmo sendo uma demência degenerativa, a evolução pode ser retardada e os efeitos da doença combatidos, sintoma a sintoma. Há sempre uma “Luz” que brilha no caminho, e mesmo nas demências, felizmente, há todos os dias novas descobertas, novos tratamentos, novas terapias. Ainda não existe cura, verdade, mas muito pode ser feito por estas pessoas, as que padecem da doença, e quanto mais cedo o diagnóstico e o tratamento, melhor. Maiores possibilidades de sucesso na terapêutica e no não agravar da doença são resultado de uma avaliação e identificação precoce da Demência Frontal; principalmente passa a existir maior hipótese do sofrimento a ser suprimido, e do Eu e do Outro serem de alguma forma, preservados. E é essencial que isto seja feito para que não se percam o Eu e o Outro.

Sobre o Autor:

Lúcia Maria Reixa Silva - psicóloga clínica em Portugal, Lisboa, licenciada pelo ISPA, e tem especialização em Neuropsicologia clínica e Psicoterapia Dinâmica. Escreveu crónicas de opinião, semanais, em jornal on-line "Mais Opinião" em 2013 e 2014. Trabalhou vários anos em Hospital psiquiátrico, e foi Coordenadora de Lar de idosos e Centro de Dia geriátricos, bem como Directora técnica em Apoio domiciliário em geriatria. Foi formadora de agentes em geriatria e cuidadores, em Cuidados Paliativos e ao Utente terminal. Actualmente exerce clínica privada em Lisboa, Portugal, e gere página de Psicologia on-line.

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