A Neuropsicologia no Ensino Superior: um Encontro Possível

A Neuropsicologia no Ensino Superior: um Encontro Possível
(Tempo de leitura: 5 - 10 minutos)

Resumo: Um dos grandes questionamentos que ainda são feitos na atualidade é a postura pedagógica do professor universitário, especialmente quando falamos de dificuldade de aprendizagem. Esse perfil profissional passa fundamentalmente por concepções político-pedagógicas que são incorporadas ao seu fazer docente. Diante disto, este artigo se propõe a discutir, o papel e a importância que o professor universitário tem no cenário educacional atual, considerando a sua qualificação que perpassa a sua formação inicial, continuada, e as expectativas que a sociedade deposita neste profissional. O professor universitário precisa ter uma prática pedagógica que transcorra o conceito de educação integral, interligando e interagindo com os diferentes aspectos da vida, da sociedade, da constituição do indivíduo, seu aluno, que está num processo acadêmico-profissional e que por motivos diversos, por vezes, não consegue sistematizar de forma qualificável o conteúdo a ser apreendido. É uma proposta desafiadora, já que este professor universitário trabalha com o público adulto, em processo de formação profissional e todo trabalho docente precisa considerar as peculiaridades que são próprias ao segmento que atua. Precisa ser distinto do profissional que se volta para a Educação Básica. E o encontro com a Neuropsicologia pode trazer contributos para a sua atuação docente.

Palavras-Chave: Professor Universitário, Formação Docente, Prática Pedagógica, Neuropsicologia.

Introdução

O processo ensino-aprendizagem é a via educacional que proporciona a alunos e professores uma troca de conhecimentos, um procedimento interativo onde ambos necessitam estar integrados para que a formação realmente se efetive.

O professor universitário da atualidade precisa proporcionar aos seus alunos uma formação que os leve a mudanças e inovações, não permitindo mais a reprodução e um ensino de transmissão passiva. É necessário que a construção do conhecimento seja o norte desse trabalho pedagógico, que precisa se encorpar de mecanismos e estratégias motivacionais que permitam uma melhor apreensão do conhecimento.

De acordo com Malnic (2006):

É reconhecido em todo mundo que a função das universidades não é somente a formação de profissionais de nível superior, mas também a criação de conhecimentos, principalmente porque essa criação mantém os professores atualizados e capazes tanto de efetuar a transmissão de conhecimento quanto de dar uma verdadeira formação aos seus alunos.

O professor universitário precisa ser mais do que especialista na área que atua, mas fundamentalmente ser inovador, mobilizando recursos cognitivos para transformar o processo ensino-aprendizagem. Um professor reflexivo, capaz de trabalhar em equipe, de enfrentar as dificuldades e os dilemas da profissão e usuário das novas tecnologias.

A dinâmica dos sistemas de ensino precisam se encorpar de professores reflexivos, autônomos, que despertem nas pessoas o desejo de aprender, sejam flexíveis e adaptáveis ao mundo e às necessidades dos alunos. Portanto, o trabalho pedagógico do professor precisa ser intencional, consciente, permitindo que o aluno seja parceiro nessa construção educacional.

Freire (2002, p.33) enfatiza que “ensinar exige respeito aos saberes dos educandos”. O professor universitário precisa ter a consciência do conhecimento prévio do saber que o aluno possui, organizando assim a elaboração do material para ser trabalhado de forma significativa e que atenda a realidade social.

Além dos fundamentos da sua área de atuação, o professor universitário pode e deve fazer uso da Neuropsicologia como um aporte necessário nesse esclarecimento de como a aprendizagem, a apreensão do conhecimento ocorre e as possíveis causas das dificuldades de aprendizagem.

Desenvolvimento

O professor universitário, enquanto profissional da educação, precisa ter conhecimentos neuropsicológicos. Se transformar num neuroeducador. As contribuições advindas da Neuropsicologia trazem elementos importantes para que o professor compreenda a organização cerebral e os dados do desempenho acadêmico de seus alunos.

A educação aliada à Neuropsicologia forma um binômio intrínseco levando a uma melhor articulação do professor no seu campo de atuação, percebendo as possíveis interferências, potencialidades e dificuldades que se encontram na aprendizagem. As dificuldades de aprendizagem são neurológicas, comportando em seu interior as interações entre sistema nervoso, organismo e ambiente. Nesse sentido, a Neuropsicologia busca entender a relação entre as funções psicológicas superiores e os processos neurais (PERES; ZANINI, 2016, p. 48).

Cabe destacar, que mesmo trabalhando com o público adulto, o professor universitário necessita incorporar ao seu fazer as teorias que a Neuropsicologia traz. Um conhecimento útil e necessário para a ampliação das atividades pedagógicas, especialmente se tiver algum aluno que possua deficiência.

De acordo com Quirós e Scharger (1980), alguns aspectos relevantes observáveis em sala de aula necessitam ser considerados, como a discrepância entre a capacidade e o rendimento do aluno. Fato este que acaba trazendo dificuldades para que a aprendizagem se efetive.

Além deste dado, o professor precisa ter a sensibilidade para perceber que a informação emocional do aluno é importante para a elaboração de qualquer função mental e o bom funcionamento das relações sociais. A emoção também é um elemento básico do processo cognitivo, da racionalidade (MORA, 2013).

O professor precisa iniciar a aula com algo provocador, com algum problema do cotidiano que desperte interesse nos alunos. Estabelecer um espaço de diálogo, incentivando a participação ativa do aluno na solução de problemas, elogiando, favorecendo a relações estabelecidas e a curiosidade para o bom êxito da aprendizagem (PERES; ZANINI, 2016).

Para Jardim (2001), as Dificuldades de Aprendizagem (DA) representam um dos problemas centrais da educação contemporânea, tanto por sua complexa definição teórica, como pelas dificuldades de sua interpretação pelos agentes do ensino. As pessoas que apresentam DA devem ser orientadas, estimuladas, e muitas vezes dependendo do caso, desafiadas e ajudadas, para conseguirem o máximo de seu potencial. Toda mudança ocasionada no comportamento advinda de uma experiência anterior é definida, em seu sentido amplo, como sendo aprendizagem.

Analisando o papel do professor universitário nos dias de hoje e ampliando o olhar para a legislação e os “modus operandi” de como a educação afeta a vida do alunado em questão, podemos dizer que a educação inclusiva no ensino superior é direito fundamental de todo e qualquer ser humano.

A participação do universitário dentro do processo educativo e científico, afastando-se, assim, toda espécie de barreira para o desenvolvimento do conhecimento, é um desafio e um trabalho a ser ampliado e mantido pelo professor, pois a bandeira da inclusão necessita ser uma métrica a colocar-se em prática constante.

A mediação e a construção de um espaço inclusivo na educação não acontecem por meio de uma padronização, acontece ao contrário, porque é necessário que a inclusão se faça, atendendo e reconhecendo as diferenças de cada indivíduo particularmente. Esse caminho é também um processo adaptativo, especialmente para o aluno que se modifica.

Essa postura inclusiva do professor universitário é a realidade como de fato precisamos trabalhar na atualidade.

Conclusão

Visto que as dificuldades de aprendizagem nos assolam a todo o momento, com inúmeros casos nos nossos espaços educativos, os conhecimentos trazidos pela Neuropsicologia são aportes que auxiliam o trabalho do docente universitário.

Alguns fatores como déficit de atenção, hiperatividade, falta de concentração, impulsividade, dentre outros, são elementos dificultadores da aprendizagem, que prejudicam de forma considerável a apreensão do conhecimento.

Segundo Vygotsky (1988), o aprendizado é importante e necessário para as funções psicológicas do ser humano. Se fazendo elemento disparador para que o conhecimento se efetue, tendo sentido, significado e proporcione uma qualitativa apreensão da realidade que nos cerca.

Entender como esse processo acontece, as interações e relações que se estabelecem, são fundamentais para o bom êxito da ação pedagógica. Contribuições essas, que a Neuropsicologia traz, mostrando ao professor caminhos possíveis de serem incorporados à sua prática docente.

Conhecer o sistema cerebral e como a aprendizagem acontece é o desafio que ainda intriga a muitos profissionais da educação, especialmente quando se trabalha com o público adulto e que está em formação profissional.

Solucionar a questão não é o nosso objetivo, mas sim, trazer elementos para uma discussão profícua nos ambientes formadores, especialmente o universitário, e provocar o professor a refletir, repensar sua prática, tendo como norte uma ação pedagógica inclusiva, que perceba as particularidades de cada indivíduo, dificuldades e potencialidades, limitações e expansões em seus territórios de ação.

Para que a aprendizagem aconteça de forma que traga contribuições e se efetive é preciso uma mediação pedagógica que estimule o cognitivo, a inteligência, levando a passagem da informação para conhecimento.

Criatividade, inovação e pesquisa são pontos a serem considerados no perfil do profissional da educação que trabalha com a formação, com a profissionalização de outros. É uma marca que precisa caracterizar esse docente. Ampliar cada vez mais o campo de atuação do sujeito professor e levá-lo a sair da sua zona de conforto, do seu espaço quadrado disciplinar, curricular é o mote da atualidade profissional.

É fundamental incorporar ao seu saber, novos conhecimentos e ações que irão contribuir para um olhar mais afetivo/efetivo no que tange a formação do outro. Um outro repleto de significados, de histórias, sonhos, de conceitos para com aquilo que deseja no espaço universitário, especialmente com relação à profissão.

Ter a Neuropsicologia como mais uma leitura de vida profissional é saber que os conhecimentos e as áreas de estudo precisam dialogar, discutir, trazendo cada qual suas contribuições.

Essa investigação cerebral nos ajuda a entender e criar estratégias necessárias para levar o aluno a ampliar o seu conhecimento, sua aprendizagem, já que as diferenças e as particularidades sobre cada um existem e precisam ser respeitadas/consideradas.

O dinamismo profissional exigido do professor para que a aprendizagem se concretize é um ponto que precisa ser considerado e entendido, levando às práticas mais inclusivas e menos discriminatórias.

A Neuropsicologia é um assunto, é uma área de estudo que precisa ser entendida e vista como apoio ao trabalho docente e cada vez mais na atualidade integrada aos saberes docente e discente.

Sobre a Autora:

Sabrina Guedes de Oliveira - Mestre pela UNICARIOCA em Novas Tecnologias Digitais na Educação. Possui Especialização em Mídias Educativas, Psicopedagogia, Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica. Graduada em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2014), graduação em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2009) e graduação em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2002). Coordenadora Pedagógica da Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro há mais de 10 anos, com projetos premiados pela própria Rede de Ensino. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Tecnologia Educacional Digital, Alfabetização, Sala de Leitura, Políticas Públicas Educacionais e Formação de Professores. Participantes dos seguintes Grupos de Pesquisa: GEFEL e Pedagogia Histórico Crítica da UERJ. Foi membro participante do EPELLE/LEDUC/UFRJ de 2017 até maio/2019. Colunista do Jornal MAIS MINAS e do Grupo Dogus de Comunicação. Poetisa com publicação de 2 livros autorais e diversos trabalhos na área literária. Trabalhou por 3 anos como Orientadora de Estudos do PNAIC/MEC, sendo também professora e formadora na área da Informática Básica e Educativa.Idealizadora e mediadora do Curso Laboratório de Aprendizagem Tecnológica. Pesquisadora em Novas Tecnologias Digitais na Educação, Formação Docente, Alfabetização e Políticas Públicas Educacionais.

Referências: 

FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. 26ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

JARDIM, W. R. S. Dificuldades de Aprendizagem no Ensino Fundamental. São Paulo: Loyola, 2001. 

MALNIC, G. O futuro da universidade pública. In: STEINER, J. E.; MALNIC, G. (orgs.)  Ensino Superior: conceito e dinâmica. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.

MORA, F. Neuroeducação: somente se aprende aquilo que se ama. Madrid: Alianza, 2013.

PERES, C; ZANINI, R. Neuropsicologia em ação: entendendo a prática. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2016. 

QUIRÓS, J; SCHRAGER, O. Fundamentos neuropsicológicos em las discapacidades de aprendizaje. Buenos Aires: Panamericana. 1980.

VYGOSTSKY, L. S. Formação Social da Mente. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1988.

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