As Bases Biológicas do Medo: uma Revisão Sistemática da Literatura

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Resumo: O presente artigo intitulado: As bases biológicas do medo: uma revisão sistemática da literatura tem o intuito de analisar os processos biológicos sistematizados no âmbito do sistema límbico, discutido e analisado pela Fisiologia Humana, tendo em vista a constituição sensitiva da emoção, tal como o medo. Tem-se como objetivo realizar um levantamento bibliográfico sobre as bases biológicas do medo, levando em consideração seus aspectos anatômicos, fisiológicos e neurobiológicos. A presente pesquisa é do tipo qualitativa, descritiva e exploratória. Os procedimentos utilizados para a realização desta pesquisa, consistiu da análise de artigos publicados nas bases de dados Scientific Eletronic Library Online(SciELO), na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e na The Cochrane Library, bem como em livros, dissertações e teses. A análise dos dados se deu a partir de reflexões críticas sobre o material obtido e elaboração de sínteses correlatas ao tema. Em relação às bases biológicas, o medo é classificado, nesta revisão sistemática, como um estado emocional que pode apresentar vertentes como: ansiedade, apreensão, nervosismo, preocupação, consternação, cautela, escrúpulo, inquietação, pavor, susto e terror e como psicopatologia, se caracteriza ainda como fobia e o pânico. Neste sentido, pode-se concluir que a Psicologia tem ganhado cada vez mais espaço nos estudos sobre as bases biológicas do medo na medida em que busca contribuir com espaços investigativos para o desvendamento da mesma, porém, por motivos de estudos reduzidos na área da Psicologia, ainda nos limitamos ao desenvolvimento da Fisiologia, Neurologia e a crescente evolução dos estudos psicofisiológicos, para, assim, discutirmos significativamente na condução de uma etiologia mais específica, possibilidades de intervenções em casos específicos e prevenção de ocorrências.

Palavras-Chave: Medo, Psicofisiologia, Fisiologia do Medo.

1. Introdução

O presente artigo intitulado, As Bases Biológicas do Medo: Uma Revisão Sistemática da Literatura discute os processos biológicos sistematizados no âmbito do sistema límbico, discutido e analisado pela Fisiologia Humana, tendo em vista a constituição sensitiva da emoção, tal como o medo.

Um dos primeiros modelos para explicar o processo de geração emocional e seus mecanismos foi proposto por cientistas da Universidade de Stanford (GROSS, 1998, 2002). Para estes, as emoções teriam seu princípio com a avaliação de estímulos de origens distintas, externas ou internas. Esses estímulos desencadeariam de um conjunto de tendências com respostas fisiológicas, comportamentais e subjetivas. Quanto ao comportamento emocional, este, constituir-se-ia de um conjunto de reações frente à uma sensação, tendo em vista que as emoções, por vez, seriam classificadas em dois tipos, sejam elas: primárias e secundárias. Tomando-se com referência a classificação primária das emoções, o medo encaixa-se na primeira, pois caracteriza-se por ser uma necessidade imediata e por gerar comportamentos motivados (NISHIDA, 2011).

Neste sentido, o medo é classificado como um estado emocional podendo apresentar outras vertentes como, por exemplo, a ansiedade, apreensão, nervosismo, preocupação, consternação, cautela, escrúpulo, inquietação, pavor, susto e terror. Como psicopatologia, se caracteriza ainda como fobia e o pânico. (NISHIDA, 2011).

Ratificando o exposto, Batista e Magalhães (2010, p. 568) entendem que, o medo destaca-se como “ponto de partida para a maioria dos estudos da área da psicofisiologia, neuropsicofisiologia e neurobiologia da emoção, por ser, essencialmente, uma emoção primária, reativa, e associada a mecanismos de defesa e de sobrevivência”. Neste sentido, o ataque de pânico passa a ser representado por um período distinto no qual há o início súbito de intensa apreensão, temor ou terror, frequentemente associados com sentimentos de catástrofe iminente. Durante os ataques de pânicos, estão presentes sintomas tais como falta de ar, palpitações, dor ou desconforto torácico, sensação de sufocamento e medo de enlouquecer ou de perder o controle (DSM-IV-TR, 2002).

Como consequência dos ataques de pânico, observa-se o desenvolvimento do transtorno de pânico, que é caracterizado por ataques de pânico inesperados e recorrentes acerca dos quais o indivíduo se sente persistentemente preocupado. Este tipo de distúrbio com agorafobia caracteriza-se por ataques de pânico recorrentes e inesperados e agorafobia (DSM-IV-TR, 2002).

Em relação a agorafobia, esta pode ser definida como sendo a ansiedade ou esquiva a locais ou situações das quais poderia ser difícil (ou embaraçoso) escapar ou nas quais o auxílio poderia não estar disponível, num caso de ataque de pânico ou sintomas semelhantes. A característica essencial de um Ataque de Pânico é um período distinto de intenso medo ou desconforto acompanhado por pelo menos quatro de treze sintomas somáticos ou cognitivos (DSM-IV-TR, 2002).

Vale salientar que, existem três tipos característicos de Ataques de pânico, a saber, os ataques inesperados (não evocados), os ataques ligados a situações (evocados) e os predispostos por situações. No entanto, há distinção entre o ataque do pânico e o transtorno. Sabe-se que este último apresenta-se como sendo uma evolução mais abrangente dos quadros psicopatológicos de transtornos ansiosos. A característica essencial do Transtorno de Pânico é a presença de ataques de pânico recorrentes e inesperados, dependendo de serem ou não relacionados a quadros de agorafobia.

Neste sentido, a presente pesquisa objetivou revisar obras literárias científicas mais relevantes sobre as bases biológicas do medo, tendo em vista descrever as etapas psiconeurobiológicas do medo ressaltando as principais regulações emocionais investigadas nos circuitos cerebrais subjacentes.

2. Objetivo

2.1 Geral

Realizar um levantamento bibliográfico sobre as bases biológicas do medo, levando em conta seus aspectos anatômicos, fisiológicos e neurobiológicos.

2.2. Específicos

Discutir sobre Transtornos de Ansiedade tendo em vista a Fisiologia do Sistema Nervoso;

Analisar as bases Teóricas da Biológica das Emoções;

Sistematizar o medo a partir da Neurobiologia em conexões com Sistema Límbico.

3. Justivicativa

O presente estudo apresenta suma importância para o desenvolvimento da ciência, bem como das novas pesquisas no campo da fisiologia, psicofisiologia e neurociência. Nesta perspectiva, analisar e discutir os conhecimentos produzidos a cerca dos estudos fisiológicos sobre o medo nos fará avançar no âmbito das questões até então ainda não respondidas quanto a fisiologia das emoções. Ratifico aqui, que em face de um desenvolvimento biotecnológico acelerado, a temática desenvolvida, traz consigo novas perspectivas de pesquisa no campo na neurociência bem como da psicofisiologia.

Vale salientar que o levantamento bibliográfico aqui sistematizado não se esgota em si mesmo, nem tão pouco esgota as discussões sobre o tema, porém constitui bases teóricas - metodológicas para a ampliação de novas pesquisas. Neste contexto, as discussões aqui apresentadas por meio de uma revisão bibliográfica, fazem perceber a dinâmica da construção do conhecimento, bem como reforça o empoderamento sistêmico e transformador da sociedade na medida em que o tema medo vem sendo explorado no âmbito da literatura. Assim, a presente revisão contribui para o fortalecimento da Psicologia, ciência esta que configura a formação inicial das pesquisadoras do presente artigo, bem como reforça a identidades desta para com seus processos de formação.

4. Metodologia

A presente pesquisa aqui caracterizada é do tipo qualitativa, descritiva e exploratória. Oliveira (2010, p. 59), afirma que “a pesquisa qualitativa pode ser caracterizada como uma tentativa clara de explicar em profundidade o significado e as características do resultado das informações obtidas sem a mensuração quantitativa de características ou comportamento”. De acordo com Sílvio Oliveira (1999, p. 117), “as abordagens qualitativas facilitam descrever a complexidade de problemas e hipóteses, bem como analisar a interpretação entre variáveis, compreender e classificar determinados processos sociais”.

Sobre pesquisa descritiva, Gaio (2008, p. 156) infere que o pesquisador está interessado em conhecer a realidade, sem num primeiro momento interferir para modificá-la, o que denota uma contribuição indireta, pois esse tipo de pesquisa necessita não mais que os outros, porém de forma consciente e abrangente, de que os dados sejam publicados para conscientização da população pesquisada quanto à realidade em questão. A pesquisa descritiva está interessada em desenredar e observar fenômenos, com o intuito de descrevê-los, classificá-los e interpretá-los (RUDIO, 2003, p. 71).

De acordo com Severino (2009, p. 123), “a pesquisa exploratória busca realizar um levantamento de informações sobre um determinado objeto, delimitando dessa forma, um campo de trabalho, mapeando as condições de manifestação desse objeto”. Esse tipo de pesquisa objetiva dar uma explicação geral sobre determinado fato, através de levantamento bibliográfico, leitura e análise de documentos.

Quanto ao procedimento bibliográfico delineado nesta pesquisa, este trata-se de uma modalidade de estudo e análise de documentos de domínio científico tais como livros, enciclopédias, periódicos, ensaios críticos, dicionários e artigos científicos. Pode-se afirmar que grande parte de estudos exploratórios fazem parte desse tipo de pesquisa e apresentam como principal vantagem um estudo direto em fontes científicas, sem precisar recorrer diretamente aos fatos/fenômenos de realidade empírica (OLIVEIRA, 2010, p. 69).

Em consonância com a metodologia descrita acima, os procedimentos utilizados para a realização desta pesquisa, consistiu da análise de artigos publicados nas bases de dados Scientific Eletronic Library Online (SciELO), na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e na The Cochrane Library, bem como em livros, dissertações e teses. A análise dos dados se deu a partir de reflexões críticas sobre o material obtido e elaboração de sínteses correlatas ao tema.

5. Referencial Teórico: as Bases Biológicas Do Medo – uma revisão sistemática da literatura

5.1 O Sistema Nervoso

O Sistema Nervoso é constituído por três divisões principais: o eixo sensorial, motor e o integrador. A unidade básica do Sistema Nervoso é a sinapse, onde os sinais são transmitidos das fibrilas terminais de um neurônio para a célula neural seguinte. O Sistema Nervoso é dividido anatomicamente em duas partes, sistema nervoso central e sistema nervoso periférico. O encéfalo é o principal constituinte do sistema nervoso, é o local onde são guardadas as memórias, onde são elaborados os pensamentos e emoções. Para a realização dessas funções, o próprio encéfalo se subdivide em subáreas no sistema nervoso central. Além do encéfalo, o sistema nervoso central também é constituído pela medula espinhal. Esta exerce muitas funções, dentre elas destaca-se a função de condutora para muitas vias nervosas que vão ou vêm do cérebro.

O sistema nervoso periférico é formado por uma rede de nervos ramificados de grande extensão. Os nervos periféricos apresentam grande número de feixes de fibras nervosas, as aferentes e as eferentes. “Alguns dos nervos periféricos têm origem diretamente na parte basal do próprio encéfalo e inervam, em sua maior parte, a cabeça; formam os nervos cranianos”. (GUYTON, 1998, p.99).

Os nervos periféricos que não apresentam características de cranianos, são classificados como periféricos onde saem da medula espinhal por meio do forame intervertebral. O tecido nervoso é constituído por dois tipos de células, os neurônios, células de maior calibre e massa relativamente alta. São as principais células do Sistema Nervoso. Segundo a literatura, existem cerca de 100 bilhões de neurônios em todo o sistema nervoso central.

O outro tipo de célula nervosa são as células da Glia, que têm função de conferir a manutenção necessária aos neurônios. Estas células mantém os neurônios em suas respectivas posições e evitam que ocorram falhas quanto à transmissão dos sinais nervosos. Dentro do Sistema Nervoso Central, encontra-se um conjunto de estruturas específicas que juntas formam o Sistema Límbico, que é responsável pela regulação das emoções e de suas fisiologias.

5.2 Uma Teoria Biológica das Emoções

Os primeiros estudos sobre ansiedade foram notificados em 1892, onde um estudioso chamado Goltz observa o comportamento de cachorros, após algumas alterações no sistema nervoso destes. Alguns outros estudiosos do comportamento relacionam algumas regiões do sistema nervoso central diretamente com o transtorno de ansiedade. Assumpção Junior, após observar modificações emocionais em animais que tiveram lesões de hipocampo afirma que:

O giro do cíngulo, como área cortical, é responsável pela experiência emocional, podendo ser ativada tanto pelo neocórtex quanto por estruturas inferiores, como o hipotálamo. Assim, a atividade mental gerada pelo neocórtex é transmitida ao hipocampo e, em seguida, ao hipotálamo. O corpo mamilar do hipotálamo ativa os núcleos talâmicos anteriores, que transmitem a informação ao giro do cíngulo. Estímulos sensitivos externos chegam ao hipotálamo através do tálamo ventral, sem a necessidade de ser processado pelo neocórtex. (ASSUNÇÃO JUNIOR, 2008).

Hoje mais que nunca tem-se comprovado a relação direta do funcionamento do Sistema Nervoso Central com o comportamento humano, mais especificamente com cada emoção existente no perfil de estudo em análise do comportamento. As manifestações fisiológicas das emoções podem ser classificadas de duas maneiras, viscerais, quando são específicas para cada tipo de emoção e condicionamento pessoal. As somáticas são aquelas comportamentais, involuntárias, pode ser reflexos incondicionais ou condicionais. No comportamento emocional vários aspectos são observados: cognição, que é a percepção consciente das sensações, afeto, percepção de si e dos outros, motivação, ou seja, o desejo de agir e as expressões que ocorrem a nível de alterações somáticas e viscerais.

As alterações somáticas e viscerais desencadeiam alguns fenômenos fisiológicos, como, por exemplo, quando o medo (emoção) é desencadeado a partir do reconhecimento do perigo (cognição), a pressão sanguínea aumenta, há o debito sanguíneo, aumento da ventilação pulmonar, redução da motilidade e secreção intestinal e disponibilização de energia.

Esta disponibilização de energia acontece para que haja uma organização da reação obtida, a disponibilização de energia relaciona-se intrinsecamente com a possibilidade de fuga em situações de medo. O hipotálamo, juntamente com o tronco encefálico, recebe os estímulos advindos do ambiente, por meio dos nervos sensitivos. Após a interpretação destes dois componentes

do Sistema Nervoso Central, ocorre a manifestação do comportamento de sobrevivência. Uma pessoa, ao avistar uma serpente sente medo, esta emoção foi desencadeada porque a informação (serpente) foi levada ao Sistema Nervoso Central pelos nervos sensitivos, o hipotálamo juntamente com o tronco encefálico, interpreta a informação e a relaciona ao estado de perigo. Logo, os nervos motores devolvem a reação que se manifestará de maneira somática e visceral.

Os sistemas motivacionais conferem aos organismos uma eficácia quanto a situações de urgência. Esse sistema fisiológico do medo, no entanto, não acontecia do mesmo modo nos ancestrais do ser humano, uma vez que o nível de racionalização destes se apresentava de maneira bem inferior, quanto comparado ao homem moderno (NISHIDA, 2011).

O primeiro Circuito Neural das Emoções foi desenvolvido levando em conta as regiões corticais e subcorticais do Sistema Nervoso. O estímulo sensorial trazido pelos nervos sensitivos é interpretado pelo hipotálamo iniciando assim, o ciclo: hipotálamo, tálamo anterior, giro do cíngulo, neocórtex, giro do cíngulo, hipocampo, hipotálamo e então se expressa à emoção de maneira visceral.

Tal circuito foi desenvolvido pelo médico psiquiatra, Christofredo Jakob, um dos principais pesquisadores da Escola Neurobiológica Argentina-Alemã. O circuito, chamado “Circuito de Papez” destaca um conjunto de estruturas nervosas situadas na região encefálica que juntas formam o Sistema Límbico, responsável pelos mecanismos fisiológicos das emoções.

O medo nada mais é do que uma emoção causada por uma causa direta e objetiva. Esta causa é conhecida, como por exemplo, o medo da morte. De tal forma, o medo encaixasse nos parâmetros da ansiedade, mas de maneira subjetiva, uma vez que esta é uma emoção decorrente onde o sujeito não conhece o motivo real do seu medo. Por exemplo, o medo de morrer apesar de não saber quando.

O medo então é uma interferência no bem estar, na integridade física e mental. Quando há ameaças ao organismo, este desencadeia reações comportamentais, neurovegetativas, neuroendócrinas associadas a sentimento de medo.

Os estímulos ambientais causadores do medo podem ser classificados de duas formas: incondicionados, quando não há a pretensão de causar medo, são na maioria das vezes naturais, sons intensos, altura, escuridão, são alguns deles. Outros estímulos como ir ao dentista ou ao médico, medo de cachorro, gato barata, etc. são classificados como condicionais, pois são capazes de serem evitados.

5.3 A Neurobiologia do Medo

Um dos primeiros mecanismos do Sistema Nervoso a atuar no sistema biológico do medo é a amígdala. Esta pequena porção do cérebro está envolvida na percepção do medo, como um alerta ao organismo. Relaciona-se também a estados críticos de ansiedades.

A lesão bilateral da amígdala é responsável por mudanças emocionais, tais como o simples fato de ignorar expressões de medo e de ira nas outras pessoas. Esta resposta advinda do Sistema Nervoso Central parte diretamente da bilateralidade da amígdala. A amígdala recebe aferências de todo o neocórtex, do giro do cíngulo e do hipocampo.

Seguindo um roteiro, o estimulo ambiental captado pelos nervos sensitivos, chega ao tálamo, desta parte da percepção se direciona a amigdala, esta é denominada de estímulo subconsciente. A outra parte, percepção consciente se direciona ao córtex sensorial e segue para o hipocampo.

O hipocampo é uma estrutura localizada nos lobos temporais do cérebro humano, ressaltado por muitos autores como a principal sede da memória. O nome hipocampo quer dizer “cavalo-marinho” por conta de sua aparência anatômica. (GUYTON, 1998).

Do hipocampo, o estimulo aversivo consciente segue finalmente para a amígdala, mais especificamente para região do núcleo lateral. Do núcleo lateral, este estímulo aversivo subdivide-se em três, onde serão captados por outras três regiões distintas da amígdala: núcleo baso lateral, núcleo acessório basal e núcleo central.

O núcleo central recebe a interpretação advinda do b. lateral e do n. acessório basal.

O núcleo central responde o estímulo aversivo de três maneiras: comportamento emocional (expressão de medo), resposta automática (geralmente comportamento de defesa) e resposta endócrina (um exemplo claro é a descarga de adrenalina).

Quando o estímulo aversivo chega ao hipotálamo, este libera CRH (hormônio libertador da corticotrofina). Este hormônio atua diretamente no córtex adrenal, (glândulas suprarrenais). Anatomicamente as glândulas suprarrenais apresentam uma camada mais superficial, mais periférica, chamada de cortisol. O cortisol contribui para na disponibilização de energia.

Esse processo hormonal acontece a nível de Sistema Nervoso Autônomo Simpático. Após passar pelo cortisol, o CRH atua na medula adrenal, região mais interiorana das glândulas adrenais onde haverá a liberação de catecolaminas. As catecolaminas são compostos químicos que circulam no sangue ligadas a proteínas plasmáticas. Estes catecolaminas sustentam a atividade simpática no sistema nervoso. Dessa forma, há a expressão de medo.

Nesse sentido, a neurobiologia associa o medo a objetos ou situações específicas. Sendo assim, o medo pode ser, numa perspectiva fisiológica, a preparação do organismo a agir rapidamente a uma situação de perigo, ativado como um mecanismo de sobrevivência, podendo estar associado a outras emoções como a angústia, a ansiedade, evoluindo para situações de terror, pavor e fobias (Dias, 2007; Ekman, 2004; Freitas-Magalhães, 2007).

Assim, a reação ao medo é geralmente acompanhada pelos indicadores fisiológicos citados acima, sendo que estes se manifestaram de acordo com o seu grau de intensidade e na tomada de consciência real ou imaginária de uma ameaça (BATISTA EMAGALHÃES, 2010).

No contexto da Neurobiologia, afirmam Batista e Magalhães (2010, p. 570) que:

O medo é uma emoção associada ao perigo, em que a consciência está centrada na ameaça. A intensidade do medo depende se a ameaça é imediata ou está pendente. Tem como função a defesa, pois obriga a uma reação do indivíduo aos perigos. Observam-se reações fisiológicas despoletadas pela segregação da adrenalina, como aceleração cardíaca, dilatação das pupilas e aumento de produção de açúcar no sangue. Uma das respostas ao medo é a cólera associada ao objeto que ameaça daí poder alternar-se o sentimento medo com o sentimento cólera. A emoção medo pode identificar-se através de alguns movimentos faciais: a elevação da pálpebra superior; o queixo descaído; a abertura da boca de um modo horizontal; a elevação e junção das sobrancelhas. A agressividade e o medo estão em relação direta com o sistema límbico e correspondem a respostas primitivas de sobrevivência, mesmo que sejam modificadas pelo contexto cultural.

Assim, as diferenças poderão ser observadas nas respostas fisiológicas associadas à situação real de medo, ou à ausência das mesmas, numa vivência cognitiva de medo. O medo poderá, por vezes, estar relacionado com uma distorção do processo cognitivo da informação (KINDT et al., 1997).

Para Freitas-Magalhães e Batista (2010, p. 570), “o medo é uma das emoções mais estudadas, por ser uma emoção cognitivo-reativa, associada a mecanismos de sobrevivência”.

5.4 A funcionalidade do Sistema Límbico

Dentre as principais funções do Sistema Límbico, destaca-se a regulação dos processos emocionais. Essa função relaciona-se fisiologicamente com a regulaçãodo sistema nervoso autônomo e com os processos motivacionais essenciais à sobrevivência da espécie e do indivíduo como a sensação de fome, sede, sexo e etc.

Alguns componentes límbicos também atuam no mecanismo da memória, bem como na regulação do Sistema Endócrino.

Segundo Trevisol - Bittencourt e Troiano (2000), alterações significativas nos componentes do Sistema Límbico podem afetar diretamente nas emoções de indivíduos como no caso da identificação da Síndrome de Kluver e Bucy. Um experimento que consistiu na realização de uma ablação bilateral na parte anterior dos lobos temporais em macacos Rhesus, lesionando estruturas do Sistema Límbico como hipocampo, gira para-hipocampal e corpo amgdalóide resultou na apresentação de comportamentos atípicos desses animais, como domesticação completa, que usualmente eram selvagens, agnosia visual, ou seja, apresentaram incapacidade de reconhecer objetos ou animais que antes lhe causavam medo, e tendência hipersexual.

5.5 As Conexões do Sistema Límbico e suas interfaces com as emoções

Os componentes do Sistema Límbico realizam entre si inúmeros tipos de comunicações, de mais alta complexidade, sendo a mais destacada o circuito de papez. Este circuito consiste num importante mecanismo das emoções, sendo suas ligações denominadas de conexões intrínsecas. Já conexões que permeiam todo o Sistema Nervoso e depois penetram o Sistema Límbico são denominadas de conexões extrínsecas aferentes. O componente periférico e expressivo dos processos emocionais é regulado por conexões extrínsecas eferentes, ou seja, são conexões que se fazem através de fibras como o feixe prosencefálico medial, fascículo, mamilo-tegumentar e estria medular.

5.6 Contextualizando o medo na perspectiva do Sistema Límbico

As reações emocionais de medo podem ser condicionadas por conta da alta capacidade da amígdala de respondê-las através de um processo de aprendizagem efetiva. A amígdala regula a expressão do medo diante de estímulos ambientais.

Um estímulo qualquer captado pelo córtex aditivo, chega uma região chamada córtex cerebral (amígdala) onde há o “registro” da experiência emocional. Todos os estímulos de medo relaciona-se intrinsecamente com o sistema límbico, uma parte do sistema nervoso Central responsável diretamente pelas coordenações das emoções no ser humano.

O Sistema Límbico tem a função psíquica de avaliar afetivamente os momentos da vida, realizando a integração dos sistemas nervoso, endócrino e imunológico. É importante destacar que a qualidade da avaliação efetiva depende da experiência vivida e das normas culturais. Apresentando a forma de um anel cortical, o sistema límbico contorna as formações inter hemisféricas. Localiza-se na face medial do Hemisfério cerebral, contornando o corpo caloso. É composto, de uma maneira mais abrangente por dois componentes: corticais e subcorticais.

Os componentes corticais são: giro do cíngulo, contornando o corpo caloso e realizando íntima ligação ao giro para-hipocampal, por uma região denominada íntimo do giro do cíngulo. Outro componente é o giro para-hipocampal, que se situa na face inferior do lobo temporal. O hipocampo também é um componente cortical do Sistema Límbico. Os componentes subcorticais são: corpo amigdabóide, que é um dos núcleos da base da amígdala. Está localizado próximo ao úncus. A área septal situa-se abaixo do corpo caloso, anteriormente a lamina terminal e à comissura anterior. A área septal tem conexões extremamente amplas e complexas, apresentando ainda projeções para a região do hipotálamo e da formação reticular.

Ainda classificam-se como componentes subcorticais os núcleos mamilares (hipotálamo), núcleos anteriores do tálamo (tálamo), e os núcleos habenulares. Estes últimos mantém contato direto com o mesencéfalo.

5.7 Transtornos de ansiedade: o medo como elemento desafiador às emoções

A perspectiva afetiva na vida psíquica é o principal fator influente em todos os processos vitais, contribuindo de forma considerada nos mecanismos referentes à formação da conduta, assim como nas reações individuais. O ser humano é de natureza um ser social altamente sujeito ao inter-relacionamento, onde é possível encontrar correlações da vida psíquica em todos os processos ligados à afetividade.

O sentimento de felicidade, por exemplo, não consiste em um simples aspecto da ansiedade, mas “numa constante insistência de que falta algo paralelamente a se constituir em algo inerente ao próprio existir humano” (FREUD, 1973).

Os transtornos ansiosos encontram-se ligados a mecanismos de sobrevivência, defesa territorial, seleção de companheiro e até mesmo mecanismos de ataque-defesa. A ansiedade se caracteriza na maior parte das vezes como aspectos cotidianos e comuns. Para a Medicina, no entanto, a vivência comum apresenta-se fator determinante em processos diagnósticos desse tipo de psicopatologia (ASSUMPÇÃO JÚNIOR, 2008).

O estado de ansiedade é definido como as manifestações físicas e mentais da ansiedade que não podem ser atribuídas a um perigo real. De acordo com a Classificação de Transtornos Mentais e de comportamento (CID-10, 1993), os transtornos de ansiedade apresentam variação nos tipos de sintomas, mas que queixas de sentimentos contínuos de nervosismos, tensão muscular, tremores, sensação de cabeça leve, palpitações, sudorese, palpitações desconforto epigástrico e tonturas são comuns.

O Medo também é bastante característico de estados de ansiedade. Medo por exemplo de que o paciente ou algum parente morrerá brevemente, sofrer ou adoecer ou medo que acontece algo inesperado consigo são frequentemente expressados, acompanhados de uma diversidade de outras preocupações e pressentimentos.

O quadro clínico ansioso é descrito com mais pontualidade por Bernick (1997), que inclui manifestações cognitivas, somáticas, comportamentais e emocionais. As manifestações cognitivas relacionam-se a fenômenos psíquicos no estado ansioso onde conferem apreensão e inquietação, o indivíduo afetado pode ser tomado pelo medo de morte, loucura, vergonha ou de até mesmo de se descontrolar.

As manifestações somáticas (biológicas) de ansiedade são diversas, variando desde dificuldade de engolir, calafrios, boca seca, ou ainda em quadros mais específicos taquicardia, taquipnéia, dispnéia, sudorese e hiperventilação. As funções psíquicas a afetividade é a mais ligada ao corpo, mas devem-se levar em conta os parâmetros fisiológicos de cada indivíduo.

5. Conclusão

A psicologia tem ganhado cada vez mais espaço nos estudos sobre as bases biológicas do medo na medida em que busca contribuir com espaços investigativos para o desvendamento da mesma, porém, por motivos de estudos reduzidos na área da Psicologia, ainda nos limitamos ao desenvolvimento da Fisiologia, Neurologia e a crescente evolução dos estudos psicofisiológicos, para assim discutirmos significativamente na condução de uma etiologia mais específica, possibilidades de intervenções em casos específicos e prevenção de ocorrências.

No entanto buscamos com a ajuda das ciências citadas anteriormente, delinear uma prática psicológica mais globalizada e contextualizada que possa dar conta do entendimento, identificação, reconhecimento das emoções e dos circuitos neurológicos adjacentes, para as intervenções no âmbito das práticas psicológicas.

Sobre os Autores:

Andreza Rodrigues da Silva Tavres - Aluna do Curso de Graduação em Psicologia – FALS. e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ;

Cícera Ionara Rodrigues de Lima - Aluna do Curso de Graduação em Psicologia - FALS. e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.;

Larissa Tavares de Souza Mamede - Aluna do Curso de Graduação em Psicologia – FALS e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.;

Roberta Lice de Queiroz Araújo - Professora da Faculdade Leão Sampaio. Especialista em Docência do Ensino Superior pela Faculdade Leão Sampaio. e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.;

Referências:

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