Afetividade: um Estudo Convergente entre a Psicomotricidade Relacional e a Anatomia das Emoções

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Resumo: Este estudo tem como objetivo investigar pontos de convergência entre conceitos da Psicomotricidade Relacional criada por Lapierre, conforme citam Vieira, Batista e Lapierre (2005) e da Anatomia das Emoções proposta por Keleman (1992) no que se refere a afetividade. Aborda a relação corpo e mente, partindo da compreensão da interação do fator orgânico com o fator social na evolução da afetividade. Intentou-se destacar que quando a influência mútua ocorre por meio da comunicação tônica vivida no jogo simbólico, sugerido pela Psicomotricidade Relacional, novos registros afetivos se expressam por reações orgânicas além do comportamento da criança. Trata-se de um estudo de caso embasado em revisão bibliográfica da temática. Foi ilustrado por um relato de atendimentos realizados durante vinte e oito sessões de Psicomotricidade Relacional, com um grupo de doze crianças de 7 a 9 anos, de uma escola da Rede Pública Municipal de Ensino de Fortaleza. Ao final do estudo, percebeu-se que conceitos da Psicomotricidade Relacional e da Anatomia das Emoções, convergem principalmente na forma como o corpo se comunica, age e reage aos eventos da vida.

Palavras-chave: Psicomotricidade Relacional, Anatomia, Emoção, Afetividade.

1. Introdução

O presente trabalho tem por objetivo investigar possibilidades de convergência entre a Psicomotricidade Relacional e a anatomia das emoções. Explicando melhor, interessa-se por demonstrar como a Psicomotricidade Relacional pode funcionar na promoção do ajuste da afetividade no aspecto anatômico. Ancorando-se no construto teórico dessas ciências, sabe-se que a psicomotricidade tem como objeto de estudo o corpo e o movimento do sujeito desejante (FONSECA, 1995).

Enfatizar o corpo como um lugar de sensibilidade, de afetividade, emoção da relação consigo e com o outro. Corpo que é lugar de desejo, de frustação, de lembranças positivas ou negativas vividas pela criança, na sua relação com os demais ou com suas figuras parentais. Pensando dessa forma, Lapierre, agregou à psicomotricidade o adjetivo “Relacional” desenvolvendo a técnica na prática (VIEIRA, BATISTA E LAPIERRE, 2005). Isso nos confirma que Lapierre compreendia o corpo como um corpo relacional.

Já Keleman (1992), apresenta o corpo como uma arquitetura tecidual, geneticamente programada, finita, pulsando segundo afetos, como tubos dentro de tubos, com câmaras e válvulas. Um espaço anatômico das emoções em busca de mais vida, adensando ou enrijecendo de acordo com seu grau de tolerância aos ritmos da excitação gerada pelas experiências de amor, decepção, medo, agressão, agonia ou prazer.

Enfatizando os pensamentos primários de Lapierre e Keleman, chega-se ao conceito denominado por Damásio (2012) que destaca um conjunto de emoções. Ressalta o todo, dizendo que os processos dos sentimentos fazem parte da maquinaria neural, para regulação biológica. E que, se o corpo e o cérebro interagem intensamente entre si, o organismo que eles formam interage de forma não menos intensa com o ambiente que o rodeia.

Importante, portanto, é saber que cérebro e mente são coisas separadas. Quem diz é Capelatto (2012), destacando que o cérebro funciona à parte do nosso psiquismo, o que significa dizer que tudo que o cérebro “vê” ele toma como verdade.

Isto posto, é necessário que se compreenda que a Psicomotricidade Relacional como método promove todas as oportunidades dentro do jogo simbólico, para que o corpo possa em sua plenitude realizar todos os seus circuitos vitais de forma a ressignificar sua própria existência afetiva. O corpo e seu pleno funcionamento, seja da sua relação consigo, seja com a relação com o outro, que move a anatomia das emoções e a Psicomotricidade Relacional.

Sallas (2007) cita que, “Las emociones, que son inseparables del pensamiento, están tambien inextrincablemente unidas a los estados corporales” [01]. O que significa dizer que cada um de nós pensa com o cérebro e com o corpo.

2. Metodologia

Trata-se de um estudo de caso estruturado sob uma revisão bibliográfica, ancorada primeiramente na teoria da Psicomotricidade Relacional promotora do ajuste positivo da afetividade, técnica desenvolvida por Lapierre entre as décadas de 60 e 70. Fez-se uma releitura dos textos de Keleman (1992), Fuentes et al (2008), Melh (1999) e Capelatto (2012), que tratam da anatomia das emoções. Para tanto, considerou-se uma análise do estudo teórico destacando pontos de convergência sobre a afetividade nos dois pensamentos.

Foram identificados pontos de convergência entre a anatomia das emoções e a Psicomotricidade Relacional. Ao serem analisados os relatórios das intervenções foi possível compreender como se dá essa relação, onde convergem e o quanto isso pode repercutir na reelaboração [02] que leva à ressignificação [03] da afetividade.

Em um segundo momento analisou-se as guias dos casos ricos em informações dos atendimentos de um grupo (Yin, 2001). Foram cuidadosamente analisados os relatórios das intervenções através das guias de acompanhamento das práticas de atendimentos.

As sessões práticas que serviram de referencial teórico ocorreram no período de maio de 2012 a fevereiro de 2013. Um total de 28 sessões de Psicomotricidade Relacional, com um grupo de doze crianças de 7 a 9 anos entre meninos e meninas, em uma escola da Rede Pública Municipal de Ensino de Fortaleza.

Foram usados materiais convencionais da Psicomotricidade Relacional, tais como: bola, corda, bambolê, tecidos, caixas, jornal e bastão. Ressaltamos que cada material tem uma representação imaginária e uma representação real.

As sessões aconteceram numa sala ampla, tinha cerca de 25m2, piso industrial e boa iluminação. Proporcionava segurança e contenção. Cada sessão era organizada, planejada de forma a contemplar as orientações do curso e também a simbologia que representava.

3. Concepções Ideológicas: Anatomia das Emoções e Psicomotricidade Relacional

Para Stanley Keleman (1992), estudioso da anatomia dos sentimentos e das emoções, afirma que emoções e sentimentos se diferem. Sentimentos se caracterizam como estados organísmicos, não generalizados, não condicionados. As emoções são programas pré-fabricados de comportamentos que possuem meios próprios para agir. Para esse autor, as emoções são feitas dos sentimentos e estes precisam ser intensos para tornarem-se padrão comportamental. Um aborrecimento se transforma em irritação, que se transforma em raiva e finalmente em fúria. E a fúria é uma resposta automática do cérebro inferior que faz atacar ou golpear.

Para Damásio (2011), os sentimentos são uma variedade de imagens cuja relação única com o corpo os torna especiais. Entende que sentimentos são imagens sentidas espontaneamente e que todas as imagens são sentidas porque são acompanhadas por imagens específicas e por isso, chamadas de sentimentos.

As emoções, como estado do corpo, têm um padrão muscular programado e um padrão tubário para a aceleração ou redução da atividade, por exemplo: a tristeza e o pesar tem a mesma “velocidade”. Embora seja o mesmo sentimento, a resposta de cada um se intensifica na medida em que avança ou aumenta (KELEMAM,1992). Já Damásio (2011) acrescenta que as emoções são apenas uma joia da coroa integrante da regulação da vida, são também obedientes executoras e servidoras do princípio de valor, sendo assim a cria mais inteligente do valor biológico.

As emoções manifestam a intensidade e se relacionam com a motilidade e a pulsação numa relação recíproca, visto que um vai influenciar o outro. A pulsação gera emoção e sentimento e é também bombeamento. Quando este último é muito estimulado, os sentimentos são exaltados e inflados, entretanto, quando o bombeamento é limitado, a emoção e o sentimento são diminuídos. Os sentimentos também fazem parte do sistema límbico, são um subproduto do metabolismo celular, da pulsação e da peristalse [04] dos tubos.

Quanto à emotividade, Mehl (1979) apresenta uma classificação, descrita por Scheler, que propõe uma divisão por nível de interesse, desdobrada em quatro pontos:

    1. Sentimentos sensoriais – superficiais, com uma referência restrita, localizada, próximos da corporalidade. Aí se incluem o prazer e a dor, comumente chamados físicos, (...).
    2. Sentimentos vitais – atingem a pessoa como um todo, ligados à cenestesia (sensibilidade interna). Por exemplo: cansaço, tensão, plenitude – modos amplos de ser-no- mundo.
    3. Sentimentos anímicos – quando o mundo é valorizado significativamente, com envolvimento da pessoa já numa esfera propriamente psicológica (os demais são psíquicos. Esses, no entanto, afastam-se mais dos aspectos somáticos). Exemplos: amor (o mundo desejável), ódio (algo a ser destruído), alegria (concordância), tristeza (desacordo).
    4. Sentimentos metafísicos – se referem ao âmago da personalidade, ou significado último do mundo. Então, coloca-se a esperança, a serenidade, o êxtase.

Portanto, se emoções e sentimentos são conforme Damásio (2011), constituintes de ações que são acompanhadas de ideias e certos modos de pensar, os sentimentos são a principal a forma de como o corpo reage durante a emoção.

Nessa perspectiva, surge a Psicomotricidade Relacional, uma ciência jovem, criada por André Lapierre, que iniciou seus estudos e trabalho com adultos e aos poucos percebeu que suas descobertas o levavam às crianças, incluindo as mais novas. Depois de confirmar algumas teorias de psiquiatras acerca da construção da personalidade, retornou ao trabalho com adultos estendendo suas pesquisas para as dimensões psíquicas do corpo. Esse estudo o levou ao inconsciente e à psicanálise. Nesse percurso, veio a comprovar que a análise corporal da relação, realizada por sua filha Anne e alguns seguidores, minimizava em grande escala o sofrimento psíquico da pessoa, bem como maximizava a qualidade afetiva destas.

Tendo como base o corpo em sua plenitude emocional para se chegar ao objetivo deste trabalho, falaremos um pouco sobre este organismo tão perfeito, tão complexo, que nos leva a viver prazer, desconfortos, alegrias e tristezas, que despertou em Lapierre o desejo de compreender cada vez mais como ouvir aquilo que não é dito, através da comunicação tônica.

3.1. Concepções Sobre o Corpo

Desde os tempos antigos, o corpo era pensado de forma dual, isto é, primeiro era o corpo e a alma. A alma era considerada divina, imortal. E o corpo, este nada mais representava, visto que só era matéria, servindo apenas às suas necessidades e instintos. Nisso consistia o dualismo teológico.

Seguindo-se ao pensamento dualista teológico, veio o dualismo cartesiano onde havia um corpo que pensava porque era espírito e não porque esse corpo sentia. Desse pensamento, surgiria mais tarde o iluminismo (Rousseau), o positivismo (Auguste Comte), o racionalismo e o cognitivismo que permitiram o surgimento de novas ciências e técnicas.

Outras filosofias imprimem também seus olhares, as orientais, com técnicas corporais, relacionavam o corpo ao psiquismo, até que, Sigmund Freud com a teoria psicanalítica, devolve ao corpo a libido e permite que o psiquismo evolua através do inconsciente. Uma vez que compreendia a irracionalidade do homem, seus sentimentos, pulsões e fantasias.

Surge então uma nova concepção de atuação: o corpo psíquico, que se relaciona tônica, involuntária e espontaneamente, integrando sua experiência afetiva/ emocional, gerando assim um corpo relacional. Vieira, Batista e Lapierre (2005, p. 36) corroboram:

Lapierre, com sua sensibilidade e iluminado por sua perspicácia, forneceu o caminho para a compreensão, e não somente a interpretação do corpo vivido, descobrindo novas formas de atuação que condizem com a demanda de um corpo – afetivo em falta, pelo encontro com um corpo afetivo vivido. Esse corpo tônico em relação com outros corpos, como instrumento fundamental de comunicação e facilitador de relações.

Nesse percurso histórico, as sociedades foram superando-se e libertando-se das cadeias opressivas do pensamento religioso e dogmático. Passaram a pensar racionalmente e, nesses pensamentos, estavam inclusos seus desejos e pulsões7. E para que possamos entender de uma forma mais específica os desejos e pulsões, nos voltaremos à afetividade, consideramos ser importante o estudo da anatomia das emoções, o que as desencadeia e de que forma poderemos compreendê-la melhor. No próximo assunto trataremos de algumas concepções sobre afetividade.

3.2 Concepções Sobre Afetividade

Vejamos inicialmente o que descrevem em seus estudos os autores abaixo, sobre o sistema límbico, onde se situa a afetividade:

Sistema Límbico: é o conjunto de estruturas do sistema nervoso central envolvido com a regulação das emoções; envolve pelo menos três aspectos: um sentimento, um comportamento e ajustes fisiológicos correspondentes. As substâncias que o constituem envolvidas com a emoção, incluem as regiões corticais mais primitivas e subcorticais, diencefálicas e do tronco encefálico (FUENTES et al, 2012).

Conforme os autores acima citados, a ideia de que essas estruturas formam um sistema único e fazem conexões entre si, está sendo questionada, visto que mesmo conectadas entre si, cada uma tem funções próprias e específicas. Exemplo:

AMIGDALA CEREBRAL

Habilidade de reconhecer emoções e condicionamento de respostas de medo e ansiedade.

HIPOCAMPO

Localizado na região medial do lobo temporal. Responsável pela consolidação da memória processa impulsos nervosos.

GIRO DO CÍNGULO

Localizado acima do corpo caloso, compõe o que se chama de corpo límbico, que são o hipocampo e o giro para-hipocampal. Conecta-se com os componentes acima e influencia o comportamento motor.

TÁLAMO

Leva as informações às amígdalas, produzindo respostas rápidas e primitivas, como o condicionamento para aprendizagens inconscientes.

HIPOTÁLAMO

Conecta-se com o sistema nervoso central e a hipófise. É responsável pelas manifestações fisiológicas das emoções. É considerado o centro das emoções.

Wallon apud Almeida (2002) mostra a afetividade como sendo um domínio funcional, que depende da ação dos fatores orgânicos e sociais. Os seus efeitos podem ser amplamente transformados pelas circunstâncias sociais da sua existência. Para o autor, a afetividade é um dos principais propulsores do desenvolvimento humano.

Para Lapierre (2010) a afetividade é a alma sensível que corresponde ao que se denomina Psykhé. Sendo o psiquismo para Freud, um conjunto de fenômenos relativos à alma. Psiquismo = mente = inconsciente→pré-consciente→consciente.

Cipollone (2003, p.26), utilizando-se de uma citação de Wallon, diz que “à emoção cabe a tarefa de unir os indivíduos entre si por meio das suas reações mais orgânicas e íntimas, (...)”. Diz também que as emoções são a exteriorização da afetividade (...).

Vieira, Batista e Lapierre (2005) expõem que, a Psicomotricidade Relacional em seu percurso evolutivo foi percebendo a figura humana como uma globalidade. Já sabemos que a afetividade é um domínio funcional do corpo assim é importante conhecer o corpo, corpo que abriga todos esses fatores orgânicos, mas que é influenciado pelo meio social.

Partindo da percepção de Lapierre, (2002), acerca da consciência corporal, da inter- relação tônica e da comunicação estabelecida entre corpos, é possível levantar o seguinte questionamento: como a Psicomotricidade Relacional pode fazer convergir o corpo relacional com o corpo anatômico?

Conforme Vieira, Batista e Lapierre (2010, p. 39), a Psicomotricidade Relacional:

é uma prática que permite à criança, ao jovem e ao adulto a superação de conflitos relacionais que interferem de forma clara, preventiva e terapeuticamente sobre o processo de  desenvolvimento  cognitivo, psicomotor e sócio emocional, na medida em que estão diretamente vinculados a fatores psicoafetivos relacionais.

“Diz ainda Vieira, Batista e Lapierre, (2005) que os comportamentos e a comunicação são desencadeados por imagens de relações inscritas no corpo, com todos os seus componentes como visão, audição, olfato, paladar, fato, sensações viscerais e outras...”. E essas imagens são a síntese viva de nossas experiências emocionais, Dolto apud Torres (199).

Keleman (1992, p.16), ressalta que:

Toda vida é um processo... Que a vida de cada pessoa, como organismo no organismo planetário, é uma série de fatos vivos, (...). Que o corpo é um processo vivo, que sente e reflete sua própria continuidade e forma.

Segundo ele, o corpo tem um projeto composto de vários tubos e camadas, bolsas e diafragmas que agem conjuntamente para dar um sentimento de unidade ao Self [05].E Vieira, Batista e Lapierre (2005) dizem que através do jogo espontâneo pode-se, conforme os autores, compreender e não apenas interpretar, os conflitos intrapsíquicos e suas repercussões psicossomáticas. Pois o corpo entra com todas as suas dimensões representativas.

Como já fora dito, o corpo possui tubos, e a motilidade desses tubos que Keleman (1992) se refere, estabelece a forma contínua da pessoa e lhe fornece o senso de identidade. Do tubo neural partem ondas rápidas do SNC [06] e lentas que saem do SA [07], depois uma onda dá suporte e locomoção aos ossos e músculos.

Os músculos produzem ritmo, contenção, continência, liberação, encurtamento e alongamento. E VIEIRA citando LAPIERRE (2005) diz que é necessário não só imobilizar a musculatura voluntária para executar um ato reflexo, que aciona somente o sistema cortical, mas sim, mobilizar o sistema hipotalâmico para atingir a modulação do tônus emocional.

Isso acontece durante o movimento das “ondas pulsáteis”, onde são produzidos padrões de tônus muscular, que alternam o ritmo e são transmitidos ao mundo pela agressão e pela suavidade. Existem também os hormônios, que são ondas mais profundas ligadas às sanguíneas.

As ondas pulsáteis são horizontais e verticais e vão desde a cabeça até os pés. Nessa pulsação são produzidos sentimentos básicos como alegria, bem-estar, vitalidade e excitação. Daí ser importante a posição de Vieira, Batista e Lapierre, (2005) sobre a comunicação corporal que é de que é uma comunicação cheia de valores e componentes emocionais, onde se destaca o gesto, o olhar, o tônus muscular.

É necessário, portanto, aprender a falar com o nosso corpo e com o corpo do outro, isso permite situar a relação num nível menos intelectual, onde, nesse caso, o adulto não vai usar o poder dominador da fala verbal. Esse aprendizado envolve aprender a controlar nossas pulsões.

Keleman (1992), sobre isso, descreve uma estrutura anatômica que ocorre no corpo quando este é agredido, que é o que ele chamou de: overbounder [08] e underbounder [09] underbounder essas estruturas tentam controlar toda a excitação causada pela agressão, pela espasticidade ou retesamento. Isto é, ele diz que, quando sentimos raiva, fúria, o controle, desafio e dúvida de si mesmo, ocorre o overbounder.

Porém quando as agressões aumentam, o corpo vai perdendo sua forma, ou encolhe ou colapsa em resposta à agressão. A esse fator dá-se o nome de underbound. Para o autor, expressar um sentimento requer que se estabeleça um diálogo entre os níveis de pulsação e suas expressões emocionais. Isto é, quando se tem um bom tônus, ou seja, a motilidade não interrompida, vai permitir, conforme ele, que se tenha vitalidade física e emocional.

Trabalhar na perspectiva tônica é o que propõem Vieira, Batista e Lapierre (2005), eles destacam que o contato corporal faz aflorar todas as tensões afetivas, positivas ou negativas, que decodificadas pelo outro, promovem a relação corporal que vai se sedimentando numa troca de mensagens corporais que são gestuais, posturais, de mímica, tônicas, etc.

Percebe-se que diálogo que acontece durante as sessões no setting é um diálogo tônico, e o tônus é fonte da emoção. Para os Psicomotricistas Relacionais, a relação tônica é o ponto central da comunicação, Lapierre (apud VIEIRA, 2005) esforçou-se para eliminar a vivência intelectual durante as sessões práticas da Psicomotricidade Relacional, a fim de permitir a vivência afetiva de forma autêntica.

Entende-se, de acordo com os pensamentos dos autores estudados, que a convergência da Psicomotricidade Relacional e da Anatomia das Emoções, aponta para o conhecimento e uso das linguagens do corpo, suas formas de reagir e comunicar suas necessidades.

Observa-se ainda que nos estudos de Keleman que ele descreve os fenômenos que ocorrem em nosso corpo quando estamos alegres, tristes, estressados ou desanimados. Demonstra as reações e como elas se relacionam com os vários órgãos do corpo e o que promovem. E, a Psicomotricidade Relacional em sua prática propicia com que esse relacionamento corporal interligue tubos, bolsas, diafragmas, fazendo com isso que teçam acordos tônicos, promovendo uma mudança no comportamento afetivo da pessoa que participa das sessões, no nosso caso, as crianças.

4. Resultados e Discussão

À luz desse percurso teórico, até aqui sistematizado na busca de fundamentação para responder à questão básica deste trabalho – qual seja: elencar pontos convergentes entre a Anatomia das Emoções e a Psicomotricidade Relacional. Os achados analisados convergindo às teorias foram:

CONVERGÊNCIAS DA AFETIVIDADE NAS TÉORIAS ESTUDADAS

AÇÕES DA CRIANÇA

O CORPO (EMOÇÕES E SENTIMENTOS)

PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL

Em dado momento demonstra raiva (raiva pode  ser manifestação do medo).

Responsável pela raiva: amigdala cerebral faz com que lutemos e fujamos. Toda vez que nos sentirmos ameaçados, essa área do cérebro será acionada Capelatto, (2012).

A raiva e a fúria nos deixam retesados, nos enrijecem e a pulsação aumenta      Keleman, (1992).

Ensinar através do jogo simbólico a criança a suportar a ação amigdalar, ofertando afeto, limite e o cuidado Capelatto ( 2012).

Fazendo com isso que a criança se sinta aceita e não má.

     

Desejo  de  encobrir-se.  Parece sentir-se agredido

Quando isso ocorre, a pressão e a motilidade internas já não funciona de modo suave. Camadas e diafragmas, líquidos e tubos são afetados. Isso pode provocar sentimentos de irritação, medo, depressão, rejeição e fúria. Keleman, (1992).

É necessário, autorizar esses sentimentos para que a ação da amígdala não seja violada, isso também é feito durante o jogo simbólico. Fazer com que a criança se frustre afim de que possa sentir que a frustração não lesa o prazer. Capelatto (2012).

Demonstra  querer  proteger  sua vontade (autonomia)

Utiliza uma posição: “fique aí”. Essa posição se reflete na  palma estendida, a posição do perigo é evidenciada. Nesse instante os músculos da cavidade abdominal pélvica tem sua pressão aumentada, injetando força no peito e na cabeça, braços e pernas se contraem prontos para empurrar, bater, ficar parado ou agarrar. Essa postura é a do estabelecimento de limites. Keleman (1992). A região pré-frontal  entra em ação, ela é responsável pelo juízo crítico, planejamento e tomada de decisões.

No jogo simbólico aparece, o cuidado, a validação do desejo e o trabalho com as pulsões.

Analisou-se que através da prática das sessões de psicomotricidade relacional, uma criança “castrada” em sua autonomia, parece não ser validada nos ambientes em que tem convívio. O desejo dessa criança pôde ser demonstrado todas as vezes que ela se encobriu ou “protegeu” por determinado objeto, causando no outro a sensação de que deviam se afastar dela.  Quando se assume essa postura, conforme Keleman (1992), o corpo passa por situações de distresse - sofrimento, aflição, angústia-. Os músculos da cavidade abdominal-pélvica tem a pressão aumentada impulsionando força no peito e na cabeça. Nesse instante as pulsações se compartimentalizam, aumentando e aprofundando, no peito, diminuindo nos intestinos, cita o autor. Os braços, pernas e músculos se contraem prontos para a reação, que pode como já foi exposto,  ser  de  empurrar,  bater  ou  ficar  parado,  de  forma  a  demonstrar  seu  desagrado. Todos necessitam de reconhecimento, de acordo com Castro (1998), se um indivíduo não consegue ser tocado da forma como gostaria, mesmo que peça começa a agir de maneira a adquirir o que ela denominou de “picadas de cobra”, porque segundo seu entendimento, nada pode ser pior ao ser humano que a falta total e absoluta de reconhecimento.

Essas ações podem evidenciar as reações emocionais e como elas se relacionam com os vários órgãos do corpo Favre ( 1995).

Demonstrar as reações do corpo e o que promovem Keleman (1992) é o que chamamos de pontos convergentes entre a Psicomotricidade Relacional e a Anatomia das Emoções.

5. Considerações Finais

Este estudo deu ênfase aos pontos convergentes entre a Psicomotricidade Relacional e a Anatomia das Emoções, no que se refere ao ajuste positivo da afetividade através do jogo simbólico. Comparece como uma tentativa de compreender o corpo na sua totalidade. O conhecimento e a comunicação tônica pelo corpo tornam-se então a interseção entre ambas.

Conclui-se, portanto, que a teoria da Psicomotricidade Relacional sobre a ressignificação da afetividade pela comunicação tônica e os pontos que convergem nos aspectos anatômicos, tem substancial importância na boa condução prática, do profissional que atua na área, para possibilitar à criança viver cada situação corporal.

Aponta à conclusão de que não há ação tão eficaz para a reorganização das emoções em seus sentidos anatômicos quanto à prática da Psicomotricidade Relacional.  Onde a afetividade é estimulada através da vivência, na qual se estabelece um vínculo de afeto com o outro.

O principal objetivo quando se pensou este trabalho, era identificar esses processos do acordo tônico entre o corpo e a mente. Espera-se que a interface entre as duas ciências, possa construir uma noção cada vez mais clara dos benefícios da Psicomotricidade Relacional no corpo que abriga a afetividade.

Sobre os Autores:

Regina Daucia de Oliveira Braga - Aluna do Curso de Formação Especializada em Psicomotricidade Relacional - CIAR.

Andréa Stopiglia Guedes Braide - Fisioterapeuta Msc. e Psicomotricista Relacional, Docente e Orientadora do Curso de Formação Especializada em Psicomotricidade Relacional – CIAR.

Referências:

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CAPELATTO, Ivan. A Equação da Afetividade: Como lidar com a raiva de crianças e adolescentes. Ivan Capelatto, Iuri Capelatto – Campinas – SP: Papirus 7 Mares, 2012 – Coleção Papirus Debates.

DAMÁSIO, Antonio R. O Erro de Descarte: emoção, razão e o cérebro humano/António R. Damásio; tradução Dora Vicente, Georgina Segurado. - 3ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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KELEMAN, Stanley. Anatomia emocional/ Stanley Keleman [tradução: Myrthes Suplicy Vieira; Supervisão técnica: Regina Favre; ilustrações: Vincent Perez].- São Paulo: summus, 1992.

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LAPIERRE, André. A simbologia do movimento: psicomotricidade e educação/ André Lapierre e Bernard Auncouturier. 3 ed. – Curitiba: PR : Filosofart Editora, 2004, 116 p.

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MEHL, Herley, 1929. Curso de introdução à psicologia/Herley Mehl.-São Paulo : EPU; Curitiba : Ed. Universidade Federal do Paraná. 1979.

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VIEIRA, José Leopoldo. PsicomotricidadeRelacional: A teoria de uma prática/José Leopoldo vieira, Maria Isabel Bellaguarda Batista, Anne Lapierre, 2.ed – Curitiba, PR : Filosofart. Editora, 2005, 170p.

WALLON, Henry. A evolução psicológica da criança/Henry Wallon; com introdução de Émile Jalley; tradução Cláudia Berliner; revisão técnica Izab WALLON, Henry. A evolução psicológica da criança/Henry Wallon; com introdução de Émile Jalley; tradução Cláudia Berliner; revisão técnica Izabel Galvão-São Paulo: Martins fontes, 2007.- (Coleção Psicologia E Pedagogia).el Galvão-São Paulo: Martins fontes, 2007.- (Coleção Psicologia E Pedagogia.

YIN, Robert K. Estudo de caso: planejamento e métodos / Robert K. Yin; trad. Daniel Grassi - 2.ed. -Porto Alegre : Bookman, 2001. 1. Estudo de caso - Ciências sociais - Método – Planejamento.

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