As Habilidades Sociais em Relacionamentos Afetivos: Caso Transicional Adolescência-Adultidade

As Habilidades Sociais em Relacionamentos Afetivos: Caso Transicional Adolescência-Adultidade
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Resumo:  O presente artigo foi produzido a partir do objetivo geral em descrever e analisar o estudo de caso de um adolescente, considerando habilitações sociais afetivas relevantes para otimização de desempenho funcional, numa perspectiva da teoria cognitiva comportamental. Como objetivos específicos buscou-se: descrever alguns aspectos teóricos sobre habilidades sociais; explicitar a conceitualização cognitiva de um adolescente em processo de terapia em habilidades afetivas; fomentar possibilidades de otimizar o desempenho individual de maneira a dar maior funcionalidade ao sujeito. Como metodologia foi adotada uma pesquisa de cunho qualitativo, fazendo uso da técnica de estudo de caso. Esse tipo de pesquisa tem caráter exploratório, onde é levada em consideração a opinião do entrevistado, usando como instrumento de coleta de dados a entrevista semiestruturada e descoberta guiada. Dentre outras considerações, destacam-se alguns comportamentos disfuncionais de um adolescente caminhando para adultidade, onde se percebe déficit de habilidades sociais, de forma especial aquelas de cunha afetivas, tendo sido sugerido treinamentos para a melhor adequação e funcionalidade do sujeito em seu meio social.

Palavras-chave: Adolescentes, Habilidades Sociais, Relações Afetivas, Crenças, Convivência.

1. Introdução

O presente artigo teve como objetivo geral descrever e analisar o estudo de caso de um adolescente, considerando habilitações sociais afetivas relevantes para otimização de desempenho funcional, numa perspectiva da teoria cognitiva comportamental. Teve-se como objetivos específicos: i) descrever alguns aspectos teóricos sobre habilidades sociais; ii) explicitar a conceitualização cognitiva de um adolescente em processo de terapia em habilidades afetivas; iii) fomentar possibilidades de otimizar o desempenho individual de maneira a dar maior funcionalidade ao sujeito.

A terapia cognitivo-comportamental busca estabelecer um tratamento que se encontra baseado numa formulação cognitiva, representada pelas crenças e estratégias comportamentais que normalmente caracterizam um determinado transtorno. Está fundamentada numa compreensão e conceituação de cada sujeito através de suas crenças e padrões de comportamentos; onde o terapeuta objetiva produzir variadas formas de mudança cognitiva, modificando os pensamentos e seu sistema de crenças, com vistas a uma mudança comportamental e emocional que sejam de longo tempo (BECK, 2013).

É relevante por proporcionar novos estudos de casos para psicologia, uma vez que explicita conhecimentos acerca da abordagem comportamental sobre Habilidades Sociais (HS) e Treinamentos de Habilidades Sociais (THS), com o enfoque na adolescência. Desta forma, convergem esforços do terapeuta e do paciente no fortalecimento de uma relação terapêutica, promovendo uma aliança que busca minimizar a sintomatologia do paciente; de maneira que venha aliviar o seu sofrimento com a brevidade possível. É sabido que de forma ampliada, o objetivo da terapia, além de melhoria do humor do paciente, é destinado a proporcionar que ele se sinta melhor e possa agir de maneira mais funcional em seu dia a dia.

Este estudo de caso buscou explicitar uma relação terapêutica com um adolescente a caminho da adultidade, com alguns aspectos que trazem questões interpessoais afetivas no campo das habilidades sociais.

2. Referencial Teórico

O desempenho social requer capacidade dos indivíduos em conviver socialmente uns com os outros, por meio da utilização de variadas estratégias. A habilidade social representa o conjunto dos desempenhos disponíveis em cada indivíduo frente às demandas de uma determinada situação interpessoal. De outra forma, se compreende como déficits de habilidades sociais a dificuldade e conflito surgidos a partir das relações interpessoais que podem se configurar numa variedade de alterações psicológicas, representadas por delinqüência, questões entre marido e mulher, deficiente desempenho escolar, suicídio; podendo inclusive vir acompanhado de síndromes como a esquizofrenia e a depressão. No que se refere à competência social, esta se relaciona ao desempenho do indivíduo em determinada situação e aos resultados que este consegue obter, sendo, neste caso, compreendido como de caráter avaliativo (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2001).

Del Prette e Del Prette (2001) desenvolveram um inventário para identificar o repertório de habilidades sociais de adolescentes e adultos. Esses autores acreditam que a aprendizagem de habilidade social se processa de forma inicial em um ambiente familiar e escolar, acontecendo em um contexto familiar, no qual os pais praticam a mediação para a aprendizagem desta habilidade. Aqueles pais que agem de forma negligente, ou mesmo de forma agressiva com seus filhos, acabam por fornecer modelos que     se tornam inapropriados, e por consequência, produzem déficit na aprendizagem de comportamentos socialmente adequados.

Segundo Del Prette e Del Prette (2003), citando Pinheiro e Salvo (2003), pais com boas habilidades sociais influenciam e aumentam a probabilidade de que seus filhos venham a desenvolver comportamentos sociais mais funcionais, sendo mais assertivos e empáticos. Algumas habilidades fundamentais na perspectiva parental, tais como o ensinamento de resolução de problemas, o uso apropriado do reforço positivo e o hábito de estudar para melhorar o desempenho escolar, corroboram para o desenvolvimento de comportamentos sociais funcionais. É sabido que estes comportamentos parentais têm efeito imediato nas relações interpessoais, resultado num aumento da auto-estima da criança e minimizando a possibilidade de surgimento de comportamentos não aceitos socialmente (COMIDE et al.. 2003).         

A definição de competência social segundo Del Prette e Del Prette (2005), compreende a capacidade que o indivíduo dispõe de articular pensamentos, sentimentos e ações em função de seus objetivos, da cultura e das demandas conforme as situações, produzindo consequências que lhe sejam favoráveis, considerando-se as pessoas em seu entorno. Portanto, deve atender ao seu contexto, considerando a cultura, valores, normas, e a expectativas da situação, além dos sentimentos do interlocutor.

Existem variados e múltiplos fatores que determinam a competência social: o cultural, o pessoal e o situacional. De acordo com Del Prette e De Prette (2001), em relação à dimensão cultural, estão ligados os valores, normas e regras sociais que são valorizados, reprovados e tolerados. Na dimensão situacional, há que se considerarem os padrões que são estabelecidos nos mais diferentes contextos, sendo possível que uma mesma situação desempenhada em um contexto pode ser considerada adequada ou não, dependendo da especificidade da situação e dos interlocutores. Enquanto que na dimensão pessoal devem ser levados em consideração os padrões comportamentais, fisiológicos e cognitivo-afetivos que o indivíduo apresenta em seu dia a dia relacional.

O Treinamento em Habilidades Sociais (THS) pode ser entendido como

Um enfoque geral da terapia  dirigido a incrementar a competência da atuação em situações críticas da vida; ou como, uma tentativa direta e  sistemática de ensinar  estratégias e habilidades interpessoais aos indivíduos com a intenção de melhorar sua competência interpessoal individual em tipos específicos de situações  sociais (CABALO, 1985, p. 193). 

Portanto, para que um indivíduo se manifeste com um comportamento socialmente inábil e inadequado, são necessários fatores que foram agrupados em quatro modelos fundamentais:

  • a) modelo dos déficits em habilidades;
  • b) modelo da ansiedade condicionada;
  • c) modelo cognitivo-avaliativo;
  • d) modelo da discriminação errônea (CABALLO, 2003). 

O processo de Treinamento em Habilidades Sociais compõe-se de quatro elementos estruturados(CABALLO, 2003), a saber:

  1. reinamento em habilidades, onde se ensina comportamentos específicos que são integrados no indivíduo em seu repertório comportamental;
  2. redução da ansiedade em situações sociais adversas, quando se apresenta novo comportamento mais adaptativo. Em casos mais graves recomenda-se a utilização de técnicas de relaxamento ou mesmo desensibilização sistemática;
  3. reestruturação cognitiva, oportunidade em que se busca modificar no indivíduo suas crenças, valores, atitudes e cognições;
  4. treinamento em solução de problemas, onde se ensina o indivíduo a  perceber corretamente  a situação, processar os valores envolvidos, gerar respostas potenciais, selecionando  a alternativa  que maximize a probabilidade de atingir o objetivo que impulsionou a comunicação interpessoal.

Tendo por foco a criança, Balsoni-Silva e Carrara (2010), citando Caldarella e Merrel (1997), consideram que estas necessitariam possuir: a) habilidades de cunho acadêmico, ou seja, saber executar tarefas e trabalhos de maneira independente, seguir orientações de professor e pedir para tirar dúvidas; b) habilidade de autocontrole expressada ao negociar, lidar com críticas e controlar o humor; c) habilidade de relacionamentos com seus pares, quando elogia, oferecem ajuda, cumprimento e convite aos colegas para brincar; d) habilidades de ajustamento, quando segue regra e instruções, atende aos pedidos e usa seu tempo livre de forma adequada; e) habilidades assertivas, ao iniciar conversas aceita e recusa convites e responde a cumprimentos.

Ao considerar a adolescência referenciando intervenções com universitários, há que se atentar, em um processo investigativo relacionado às habilidades sociais, para os seguintes aspectos: a) capacidade de falar em público, notadamente com realização de exposição em seminários, resposta a questionamentos docentes, expressar-se com autoridades, expor dificuldades e reclamar avaliações com o professor, realização de trabalhos em grupo oportunidade em que se exige ouvir, discordar, concordar, negociar, perguntar, lidar com críticas, etc.; b) estabelecimentos de relações amorosas ao se aproximar de alguém através do início, manutenção ou término de um relacionamento amoroso; c) estabelecer interações com pessoas da família ao lidar com críticas, comunicação e na expressão de afetos (DEL PRETTE; DE PRETTE, 2003; BANDEIRA; QUAGLIA, 2005).

Para Del Prette e Del Prette (2009) é relevante a existência das habilidades: 1) desenvoltura social (conversar com pessoas de autoridade, fazer apresentações quando solicitado e explicar tarefas aos colegas); 2) empatia (perceber os sentimentos das outras pessoas, oferecer apoio e ajuda ao colega de sala, elogiar); 3) assertividade (resistir à pressão do grupo, recusar ficar com pessoas que lhe desagradam, demonstrar aborrecimento com os irmãos); 4) autocontrole (manter autocontrole frente a críticas, controlar a raiva diante do professor); 5) abordagem afetiva (demonstrar interesse em ficar com alguma pessoa, convidar pessoas para um programa); 6) civilidade (agradecer os elogias, despedir-se das pessoas, elogiar quando for o caso).

Neste caso usou-se como paradigma a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), cujo modelo cognitivo parte da hipótese básica de que as emoções, comportamentos e fisiologia de um indivíduo são diretamente influenciados pelas suas percepções. A hierarquia da cognição é explicitada a partir das crenças nucleares ou centrais, que leva a crenças ou pensamentos intermediários que se compõem de regras, atitudes e pressupostos. Dado situações quaisquer vivenciadas pelo indivíduo, surgem os pensamentos automáticos que levam a reações que podem ser de cunho emocional, comportamental ou fisiológica. Implica que em frente situações específicas, as crenças influenciam a percepção do indivíduo que é expressa em seus pensamentos automáticos, que por sua vez influenciam suas reações (BECK, 2013).

3. Metodologia

Este estudo de caso que explicita uma intervenção psicoterapêutica com adolescente, se constitui numa pesquisa de cunho qualitativo, que segundo Minayo (2006), esse tipo de pesquisa tem caráter exploratório, onde é levada em consideração a opinião do entrevistado. A mesma propõe analisar dados que não podem ser medidos, tais como, crenças, valores, situações etc. Para o desenvolvimento desta pesquisa, foi utilizada como instrumento de coleta de dados a entrevista semiestruturada. Para Gil (1999), neste tipo de entrevista, o entrevistador tem um conjunto de questões predefinidas, mas mantêm liberdade para colocar outras cujo interesse surja no decorrer da mesma. O mesmo autor explica que “o entrevistador permite ao entrevistado falar livremente sobre o assunto, mas, quando este se desvia do tema original, esforça-se para a sua retomada” (GIL,1999, p.120). Percebe-se que nesta técnica o pesquisador não deve perder de vista o seu foco.

Para Benjamin (1998), a entrevista é um diálogo sério e com um propósito definido entre duas pessoas, a partir do qual será desenvolvido um relacionamento de confiança. O autor considera fundamental ajudar o entrevistado através de um comportamento que demonstre que acreditamos na sua responsabilidade por si própria, por suas ações, pensamentos e sentimentos, e em sua capacidade de usar cada vez mais seus próprios recursos. Para Habigzang, Diniz e Koller (2014), numa entrevista com adolescente deve-se buscar o estabelecimento de vínculo, para que o mesmo perceba o entrevistador como alguém de confiança. É importante que o adolescente se sinta acolhido e confortável para falar sem constrangimento de si mesmo, das suas dificuldades, da família e os problemas enfrentados no seu cotidiano. É importante que se façam perguntas amplas que permitem a abertura de aprofundamento e empatia, com isso a familiaridade com a linguagem, vocabulário e gírias dos adolescentes tornarão possível a compreensão clara do que é dito tanto pelo entrevistador, como pelo entrevistado.

O estudo de caso, segundo Martins & Theófilo (2007), solicita uma avaliação qualitativa, uma vez que seu objetivo é o estudo de uma unidade individual ou social que requer uma análise intensa e profunda. É uma investigação que pesquisa fenômenos dentro de um contexto real, onde o pesquisador busca apreender a situação, compreendendo, interpretando e descrevendo a complexidade de um caso concreto. Utilizou-se ainda, segundo Beck (2013), a descoberta guiada, que busca evocar os pensamentos automáticos, imagens ou crenças existentes; e os experimentos comportamentais, onde se estimula colaborativamente experimentos onde o paciente pratica e realiza experiências durante a sessão ou mesmo entre sessões. 

4. Resultados e Discussão

4.1. Apresentação do Caso

Buscou uma avaliação inteira do paciente, de forma a ter uma formulação do caso de maneira adequada e que levasse a um plano de tratamento. O paciente trata-se de adolescente com idade de 23 anos, com ensino médio completo e cursando curso técnico na área de saúde. Com relação à história geral familiar e educacional, desde o ensino primário tem sido um aluno irrequieto. No ensino médio isto se agravou, tendo sido expulso da classe por várias vezes. Repetiu o 2º ano do ensino médio, quando tinha 16 anos. Terminou o ensino médio com 17 anos. Sua mãe teve depressão pós parto, sendo que o mesmo não sabe se foi logo depois dele ou de sua irmã mais velha terem nascidos. Sua irmã é já casada, tem 27 anos. O Pai passou a preocupar com ele quando pensou em suicídio. Aos 14/15 anos fez curso de serviços administrativos na área de auxiliar de serviços contábeis e, se lembra de que em uma aula, onde a sua professora fazia contas de matemática, cometeu um erro de cálculo, e disse: “como pode uma professora errar isso?” Os colegas o criticaram por ter feito isto e ficou muito mal. Fatos como estes se repetem sempre em sua vida. Frequentemente critica as pessoas de forma muito direta.

Sua história profissional tem sido muito instável. Já trabalhou na área de comércio varejista de supermercado (administrativo, tendo ido para o almoxarifado. Falavam que ele era meio “sonso e burrinho”); na área de telefonia com Call Center; em hospitais, na manutenção predial foi mandado embora, pois não passava confiança no que fazia, segundo lhe disseram. Ficou muito abalado com isso e chorou muito neste dia; e, na área de exames laboratoriais, como estagiário, pois está fazendo o 2º período do curso técnico nesta área. Disse que não gostou de nada do que já fez, inclusive não gosta desta área que está estagiando. Optou por isto porque paga bem e tem uma carga horária menor. Tem um parente que trabalha com esta área.

Sua história social tem relacionamentos com amigos, mas às vezes tem conflito porque fala a verdade de forma muito incisiva. É fácil de fazer amizades. Mas logo depois perde o interesse pelas pessoas. Sua história afetiva com mulheres são curtas e não duram mais de 3 meses com uma namorada. O relacionamento passa muito rápido porque ele fica enjoado da pessoa, por isto acaba. Ele acha que isto acontece porque vive o relacionamento com muita intensidade, entra de cabeça e logo depois de um pequeno tempo vem o desinteresse: “ aquela pessoa já foi útil hoje não chama mais a minha atenção”. Diz que o relacionamento com sua mãe é difícil porque ela é uma pessoa muito difícil de se mexer, egoísta, só pensa nela. Com o pai relaciona bem. Como pontos fortes: é bom para iniciar relacionamentos, tem facilidade no início e é fácil de fazer amizades.

4.2. Queixas

Questionado sobre queixas, disse que já esteve com psiquiatra e psicólogos desde os 10 anos de idade e, que os diagnósticos têm sido de: 1) TOC, quando tinha 9 anos; 2) Transtorno de ansiedade (psiquiatra), quando tinha entre 15 e 17 anos; 3) TDAH (psiquiatra e uma fonoaudiologia); 4) TDAH + ansiedade (psiquiatra); disse que é preciso tratar um para depois tratar o outro transtorno. Este diagnóstico foi o último, há mais ou menos 1 ano atrás. Já fez tratamento de ansiedade por muitos anos, tomando medicamentos: clomipramina (antidepressivo tricíclico), escitaloplan (antidepressivo), e rivotril (ansiedade). Em setembro de 2018 não está tomando nenhum medicamento, conforme combinação com o psiquiatra, devendo retornar para avaliar o TDAH em novembro. Estava tomando o excitalopran.

Tem percebido dificuldades em relacionar por mais de três meses com namoradas e com amigos; tem dificuldade na relação com sua mãe, pois ela é muito egocêntrica; não consegue chegar no horário na escola e no trabalho; tem dificuldade com a organização pessoal; tem dificuldade de aprendizagem por sua inquietude e ansiedade; e não percebe as indiretas das pessoas. Resumindo suas queixas: ansiedade, inquietude e impulsividade.

4.3. Conceituação Cognitiva

Em uma breve e resumida conceituação cognitiva, dado uma das situações apresentadas pelo cliente, destaca-se a descrição a seguir.

Situação = Relacionamento afetuoso com namoradas.

Crença central = eu sou incapaz de ser amado? Eu sou diferente? Eu não sou atraente? (desamor, desamparo).

Crenças intermediárias = Atitude: é muito ruim se sentir assim; Regra: eu não vou conseguir ficar com esta namorada; Pressupostos: se eu tentar ficar um tempo longo namorando, vou falhar.

Pensamento Automático =  “eu não consigo ficar com uma namorada mais de 3 meses”.

Reações = comportamental: evita procurar namorada; emocional: ansiedade, inquietude, impulsividade, medo e insegurança; fisiológica: corpo fica preso, trancado.

4.4. Objetivo Geral e Específico de Tratamento

Após entendimentos entre terapeuta e cliente foi estabelecido o seguinte plano geral de Tratamento:

  1. resolver o problema de como melhorar sua ansiedade, procurar ter relacionamentos duradouros com namoradas e amigos;
  2. procurar uma definição profissional compatível com sua preferência pessoal;
  3. ajudar a identificar, avaliar e responder aos pensamentos automáticos sobre si mesmo, sobre os amigos e namorada;
  4. investigar as crenças disfuncionais que estão levando a ansiedade, inquietude e impulsividade;
  5. aprofundar suas autocrítica e ajudar a ver seus pontos meritórios (positivos).

Como objetivos específicos do tratamento, foram estabelecidas as seguintes prioridades:

Quadro 1: Objetivos Específicos do Tratamento

Prioridade

Descrição

01

Relacionamento afetivo (impulsividade)

1) Namorada

2) Interpessoal, amigos

3) Mãe

02

As pessoas me acham diferente, fora da normalidade, inquieto (amigos, colegas, familiares, trabalho).

03

Comportamentos no meio profissional. Como deve se comportar. Sua inquietude atrapalha o aprender (os colegas do trabalho o acham “estranho”). Exemplo: em aula com o chefe teve dificuldade de aprender; quando este estava ensinando-o tinha dificuldade de absorver a informação e o chefe ficava irritado porque ele demora em aprender e isto o deixa mais desconcentrado ainda, dificultando assim a aprendizagem.

04

Organização pessoal, roupas, medicamentos, objetos em geral. “Sou muito desorganizado”

05

Não consegue cumprir horários e chega atrasado em vários compromissos:

1) Trabalho – todo dia chega atrasado

2) Estudo – chega de 20 a 30 minutos atrasado. Quando estudava ficava de fora no primeiro horário por chegar atrasado

06

Não consigo interpretar o subentendido no que as pessoas querem falar comigo. Não tenho maldade e nem perspicácia para perceber as indiretas das pessoas.

4.5 Resultados

Algumas recomendações ou prescrição gradual de tarefas foram feitas ao paciente ao longo do processo terapêutico, que ainda se encontram em andamento, por forma, segundo Del Prette e Del Prette, 2003, a desenvolver e treinar habilidades sociais. Com vistas a compreender por assimilação, e possível semelhança, foi recomendado assistir ao filme com o título 28 Dias, com direção de Betty Thomas, lançado nos Estados Unidos em 2000, com a atriz Cwen Cummins, que por ter cometido um acidente de carro ao ter feito uso de bebida alcoólica, é condenada pelo juiz a ir para uma clínica de reabilitação. Esta indicação foi feita pelas experiências anteriores, buscando reestruturar crença nuclear de idade infantil, para evidenciar contradições; tendo em vista que o cliente apresenta como uma de suas queixas ter tido desde os 12 anos de idade problemas com a mãe, por ela fazer uso de bebidas alcoólicas e ele sente raiva e atribui ela culpa por parte de seus problemas atuais.

Ver as lições retiradas do filme e que podem ser aplicadas em relação ao comportamento com sua mãe. Observar e anotar seus comportamentos com a mãe, com os amigos e amigas e anotar as disfuncionalidades. Procurar reaver e reaproximar relações com amigos e amigas marcando encontros e agindo de forma mais atenta, utilizando da técnica de exposição, visando com isto sua exposição a situações temidas, de forma que esta atividade seja repetida por várias vezes e se consiga diminuir sua ansiedade. Para ampliar visão do perdão fez-se a indicação do capítulo 3: “as pessoas mais difíceis de perdoar: as que deveriam nos amar e não o fizeram”, do livro “As 5 face do perdão”, de Klinjey (2016, p. 87).             

Com relação a ansiedade e impulsividade, recomendou-se a utilização de técnicas de relaxamento muscular progressivo, o uso da imaginação acompanhado do controle de respiração e a prática da atenção plena ou mindfulness, objetivando que o paciente tenha oportunidade de observar, perceber e aceitar suas experiências internas sem julgamentos e avaliação prévias. É comum que um paciente de ansiedade normalmente venha a utilizar a esquiva, como uma possibilidade estratégica de enfrentar situações diversas (BECK, 2013).

Por ter se interessado pelos assuntos: TDAH, TOC, apego e alexitimia, foram propostos fazer um estudo de compreensão e entendimento para esclarecer sobre estes temas como “curiosidade científica”; isto lhe proporcionou um grande alívio ao saber que são apenas rótulos. Construir sua autobiografia afetiva, fazendo a linha da vida com descrição de experiências afetivas desde a infância, adolescência e adultidade, buscando compreender e assimilar acontecimentos ao longo de sua trajetória, identificando comportamentos disfuncionais, procurando pela compreensão, explicitá-los e ressignificá-los em um novo contexto.

Dado uma possível dificuldade por parte do cliente em identificar e diferenciar o grau de suas emoções, tratou-se acerca do baralho das emoções, de forma especial o que se refere ao medo, tristeza, a raiva, ira e perdão; procurando classificar a intensidade emocional. Alguns questionamentos a responder: Lembra de algo que o traumatizou na infância? O que foi? Por que traumatizou? O que você fez com as namoradas e/ou amigos que não gostaria de fazer?

Explicitado ao cliente, após seu entendimento e compreensão do comportamento de sua mãe, da necessidade de um posicionamento seu no aqui e agora. O acontecido é de fato sofrido, mas e daí? O que vai fazer com isto? Ela fez e continua fazendo... E você o que deve fazer enquanto adulto?

É possível identificar que as principais questões abordadas neste caso encontram-se previstas por Del Prette e Del Prette (2003); Bandeira e Quaglia (2005), pois se referem ao estabelecimento de relações amorosas e na interação com pessoas da família, comunicação e na expressão de afetos (mãe e namoradas). De igual forma, Caldarella e Merrel (1997), estabelecem ser necessário possuir habilidade de autocontrole, expressadas ao negociar, e habilidade de relacionamento com seus pares, que neste caso ficam expressas na dificuldade do cliente em suas relações no trabalho e na área profissional. 

5. Considerações Finais

Como consideração final este trabalho, apresentou-se um caso que configura alguns comportamentos disfuncionais de um adolescente caminhando para adultidade, onde se percebe déficit de habilidades sociais, de forma especial aquelas de cunha afetivas, tendo sido sugerido treinamentos para a melhor adequação e funcionalidade do sujeito no meio social, utilizando-se do paradigma da teoria cognitivo-comportamental. Foram descritas algumas das principais teorias acerca das habilidades sociais, procurando explicitar a metodologia da conceitualização cognitiva. Como o caso objeto deste estudo encontra-se em processo, alguns objetivos específicos do tratamento haverão de ser tratados oportunamente com o decorrer do processo terapêutico.

Sobre os Autores:

Geraldo Matos Guedes - Acadêmico, Curso de Psicologia, 10º período - Faculdades Integradas Pitágoras, Montes Claros/MG, Brasil.

Ângela Fernanda S. Pinheiro - Docente e Supervisora de Estágio TCC do Curso de Psicologia - Faculdades Integradas Pitágoras, Montes Claros/MG, Brasil.

Referências:

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BANDEIRA, M. & QUAGLIA, M. A. C. Habilidades sociais de estudantes Universitários: identificação de situações sociais significativas. Interação em Psicologia,  Curitiba: 9 (1), p. 45-55,  2005.

BECK, Judith S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 2ª. Edição, Porto Alegre: Artmed, 2013.

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CABALLO, Vicente E.  Manual de Avaliação e Treinamento das Habilidades Sociais .  São Paulo: Editora Santos, 1985.

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