As Repercussões das Redes Sociais na Melhoria da Qualidade de Vida do Casal na Terceira Idade

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Resumo: A presente pesquisa trata das repercussões das redes sociais na vivencia do casal na terceira idade, bem como na interpretação e entendimento destas repercussões sob a luz da terapia familiar sistêmica. Foi realizada entrevista semi estruturada com dez casais heterossexuais da terceira idade. As redes sociais contribuem para o desenvolvimento do relacionamento do casal na terceira idade e melhora sua qualidade de vida como casal e individualmente. Algumas conclusões apresentadas indicam que as redes sociais têm um efeito na saúde, no sentido de que as pessoas, nas sociedades modernas, esperam a reciprocidade, e, quando isto não é possível, principalmente na fase do envelhecimento, as pessoas sentem-se dependentes, e isso pode afetar a saúde de diferentes maneiras. Os idosos que tem uma participação ativa nas redes sociais acabam construindo uma vida mais saudável e mais humana em relação ao cônjuge e individualmente, além de não terem problemas para lidarem com o processo de envelhecimento.

Palavras-chave: Redes Sociais, Qualidade de Vida, casal,  Terceira Idade.

1. Introdução

Devido ao desenvolvimento da medicina,dos medicamentos e das facilidades que a tecnologia tem proporcionado, podemos ver que o tempo de vida do ser humano tem aumentado, criando uma lacuna no tratamento específico do  ser humano na fase última da vida. A partir deste pressuposto, podemos perceber a necessidade de um olhar diferente que crie políticas que possam capacitar e potencializar a qualidade de vida do casal que vive nessa fase. A proposta para essa realidade é o estudo das redes sociais na terceira idade que propõe um olhar investigativo, perceptivo do que tem sido feito e o que poderá ser feito quanto a qualidade  de vida. O presente artigo se constitui da pesquisa acerca das redes sociais e a qualidade de vida do casal na terceira idade, bem como na interpretação e entendimento desta problemática sob a luz da Terapia Familiar Sistêmica

2. Método

Foram selecionados 20 pessoas, sendo 10 casais da terceira idade, casados e ou namorados que freqüentam o Centro de convivência Vida Nova da Prefeitura Municipal de Santos SP, no período de novembro de 2010 a Janeiro de 2011. Segundo acordo da Assembléia Mundial do Envelhecimento (World Health, 1982), assumem a condição de idoso todas aquelas pessoas com sessenta anos ou mais.

3. Instrumento

A fim de obtermos o material verbal que indicasse as redes sociais e a qualidade de vida na terceira idade foram utilizadas oito perguntas com a técnica de entrevista semi-estruturada em situação individual, porém na presença do companheiro. As sessões foram transcritas pelo próprio pesquisador com termo de consentimento livre esclarecido previamente assinado pelos sujeitos.

4. A Terapia Familiar Sistêmica como Base Teórica

A terapia familiar foi desenvolvida por pessoas diferenciadas que formaram um grupo de pensadores que desenvolveram suas bases teóricas em contextos diferentes e com propósitos diversos. Diante deste prisma, existem diversas escolas de terapia de família e casal, e cada uma possui características próprias de conceituar e tratar as famílias. Porém, vale a pena salientar que a maior influência conceitual para esse campo foi a Teoria Geral dos Sistemas (Nichols & Schwartz, 2007). Nessa visão pode-se detectar uma profusão de definições acerca do termo "sistema". Um sistema é entendido como um conjunto de entidades ou elementos vivendo em interação ou interdependência que forma um todo integral. Os pensadores sistêmicos defendem que os sistemas são cheios de subsistemas colocados em trocas uns com os outros, ou seja, um conjunto de elementos que se relacionam com o meio e entre si em busca de uma resposta final.

Nesta visão da família como um sistema aberto, isto é, em constante troca com seu ambiente, diversas formas de atendimento terapêutico foram aparecendo e se firmando. É muito importante que a prática exercida esteja andando junto da teoria escolhida, talvez essa seja uma das maiores preocupações dos formadores. A formação em terapia familiar visa a uma postura teórica relevante, ou seja, conhecer profundamente diversas escolas de modo a construir uma forma pessoal de atender as famílias, podemos chamar de liberdade terapêutica. Com essa postura poderá existir uma ampliação de modelos e uma integração entre os mesmos. Acredito que diante dessa abertura os terapeutas estão capacitados a agir de diferentes formas com os diversos sistemas que buscam atendimento psicoterapêutico.

5. Resultados e Discussão

Os sujeitos desta pesquisa apresentaram um grande senso de humor e uma variedade de habilidades sociais importantes para a aquisição de redes de apoio social (por exemplo, uma boa conversação, fazer pedidos quando não há conflito de interesses, fazer e receber elogios, cumprimentar as pessoas, expressar opiniões pessoais, expressar sentimentos positivos e fazer perguntas). Essas habilidades são necessárias para a iniciação e manutenção de interações sociais agradáveis.

5.1 Dados sócio-demográficos

No tocante aos dados sócio-demográficos pertinentes aos participantes do estudo, foram investigados o sexo, o estado civil, a religião, a moradia, ocupação, escolaridade.

Percebeu-se que todos os sujeitos participaram da pesquisa com espontaneidade, tendo previamente a leitura e aceitação do termo de livre consentimento. A pesquisa só começou a partir da assinatura dos participantes.

Tabela 1 – Distribuição das características apresentadas pelos casais da terceira idade do centro de convivência da Prefeitura Municipal de Santos SP, 2011

Características nº de pessoas %
Sexo:    
Feminino   10 50%
Masculino  10 50%
Estado Civil:    
Casado  12 60%
Solteiro 4 20%
Viúvo 4 20%
Religião:    
Católico 26 80%
Evangélico 4 20%
Moradia:    
Apartamento 15 75%
Casa 5 25%
Imóvel Próprio 20 100%
Ocupação:    
Aposentado 12 60%
Do Lar 7 35%
Trabalhando 1 5%
Escolaridade:    
Fundamental 7 35%
Médio 9 45%
Superior 4 20%

Segundo esta pesquisa, foram obtidos os seguinte resultados referentes ao número de respostas obtidos para cada pergunta(n).

Conforme a primeira questão que trata de verificar quais as redes sociais dos sujeitos, 50% (n=19) respondeu ser o Cecon (Centro de Convivência Vida Nova), 13,15% (n=5) respondeu ser a igreja e 10,52% (n=4) respondeu serem as atividades com os amigos.

As relações sociais podem ter um papel de extrema importância para manter ou desenvolver a saúde física e mental (House, 1981; Cockerham, 1991). Com essa pesquisa pude observar que as relações com as redes sociais são capazes de trazer grande melhora do estresse em pessoas que experienciam problemas de saúde, perdas ou mesmo crises. Os efeitos positivos do suporte social estão associados com a utilidade de diferentes tipos de suporte fornecidos pelas redes sociais (emocional ou funcional). Especificamente sob a presença de suportes sociais é esperado que pessoas idosas sintam-se amadas, sintam-se seguras para lidar com problemas de saúde e tenham alta auto-estima (Cicirelli, 1990).

As redes sociais formadas por familiares, amigos e agora centros de convivência patrocinados pelas prefeituras, trazem benefícios significativos aliviando os efeitos do estresse e ansiedade nos sujeitos da terceira idade, elas oferecem suporte social na forma de amor, afeição, aceitação, acolhimento e assistência (Cockerham, 1991). Pessoas que não têm este tipo de vínculo, das redes sociais, tendem a ter mais dificuldade para lidar com o estresse. Normalmente a ausência de parentes, especificamente parentes mais próximos tais como o cônjuge ou os filhos e netos, está associada com doença e mortalidade entre pessoas da terceira idade, o que tem mudado a partir das redes sociais especialmente nos centros de convivência na cidade de Santos. Percebeu-se que as pessoas que freqüentam os centros de convivência (rede social), nesse caso Cecon, demonstraram uma maior capacidade para lidar com as crises da terceira idade, bem como com o processo de envelhecimento.

Outro item verificado foi relacionado as redes sociais e a melhoria da qualidade de vida como casal, 19,23% (n=5) respondeu mais companheirismo e amizade, 11,53% (n=3) respondeu Valorização do outro, 11,53% (=3) respondeu União e pensar como casal.

Desde que os meios de comunicação aumentaram a aparição dos demógrafos em relação ao processo de envelhecimento populacional no Brasil, os sujeitos têm manifestado preocupação com questões ligadas à qualidade de vida na terceira idade (Freire, 2000). O conceito de qualidade de vida teve origem na medicina para designar as condições que melhoram as chances de sobrevivência de recém-nascidos e logo encontrou aplicação mais ampla, por exemplo, no atendimento de pacientes adultos e idosos altamente fragilizados ou terminais. Seu uso é hoje corrente em várias outras áreas, tais como a social, a psicológica e as de manejo organizacional e ambiental. (Neri, 1997).

Neri (1997) assinala que uma boa qualidade de vida na velhice não é um atributo do indivíduo biológico, psicológico ou social, nem uma responsabilidade individual, mas sim, um produto da interação entre pessoas em mudança, vivendo numa sociedade em mudança. Para avaliar a qualidade de vida na velhice, a autora referencia indicadores pertencentes a quatro áreas (Neri, 1997): (1) a competência comportamental, que se refere ao funcionamento pessoal quanto à saúde, à funcionalidade física, à cognição, ao comportamento social e à utilização do tempo pelo idoso; (2) a qualidade de vida percebida, que está relacionada ao autojulgamento do idoso sobre a sua funcionalidade física, social e psicológica, bem como sobre sua competência comportamental nessas áreas; (3) condições contextuais, que compreendem as situações relativas à experiência de velhice; (4) o bem-estar psicológico, que está relacionado ao domínio das percepções, das expectativas, dos sentimentos e dos valores. Percebe-se aqui que a autora  desenvolveu sua pesquisa aprofundando no indivíduo, mas gostaria de ampliar para a realidade do casal na terceira idade que consegue melhorar seu casamento através de uma nova visão (paciência, valorização do outro) para com o seu próprio cônjuge a partir da vivencia nas redes sociais, em especial o Cecon. Walsh (2002) apresentou a perspectiva de que as pessoas precisam vivenciar três casamentos ao longo da vida: um amor romântico na adolescência, um relacionamento com responsabilidades compartilhadas no período de criação de filhos e, no final da vida, um casamento no qual os companheiros sejam afetivos e atenciosos, reciprocamente. Para atingir essas três formas de casamento, mais que de novos parceiros, as pessoas precisam alterar seus contratos relacionais. Percebe-se que esses contratos dos quais a autora se refere, precisa ser também com suas redes sociais, a experiência vivida do outro dentro das redes sociais

Outra realidade percebida é que os viúvos (as) encontram-se mais capazes e empoderados para que a partir das programações como “bailes, atividades físicas ou manuais e viagens” aconteça uma aproximação para a aquisição de um novo cônjuge.

No desenvolver da pesquisa verificou-se também que as redes sociais ajudaram os sujeitos pesquisados a melhorarem como indivíduos, 22.22% (n=8) responderam Saúde, 11,11% (n=4) responderam Amizades, 8,33% (n=3) responderam auto-estima, atenção e alegria. As relações de amizade na velhice repercutem de forma especialmente benéfica. Portanto, as amizades funcionam como importante fator de proteção ao idoso, particularmente quando são espontâneas e permitem a troca de experiências e vivências comuns entre pessoas da mesma coorte (Neri, 2005). Muitos dos entrevistados apresentaram uma fala positiva quanto a mudança individual a partir das redes sociais, principalmente na questão da saúde, um dos entrevistados disse “Aqui no Cecon não existe idosos cabisbaixo e caídos, mas pessoas animadas e cheios de vida.

Ainda falando das redes sociais na visão do casal na terceira idade, percebeu-se que a possibilidade de ter outras redes sociais pode trazer melhoria na qualidade de vida, 15,90% (=7) respondeu viagem com o cônjuge, 11,36% (n=5) respondeu vivência com os netos, 9.09% (n=4) respondeu familiares.

Diante desses dados percebe-se que a família faz grande diferença na qualidade de vida do casal na terceira idade, que também demonstra em sua fala características da sua família de origem, com seus mitos e legados, que esse casal tenta passar para a família de seus filhos e netos, durante a pesquisa percebeu-se algumas crises quanto aos valores morais e de educação. O mito aparece em qualquer relacionamento, pois sempre existe uma margem de ambigüidade, de algo não expresso diretamente no encontro. Os não ditos ou implícitos são territórios vagos, para serem preenchidos por mitos e regras inconscientes. Estas últimas se referem às atitudes que são tomadas nas relações pessoais mais próximas sem nunca terem sido conversadas. Apenas se age de forma complementar sem nunca combinar claramente como cada um deve agir. Portanto, mitos e regras são dois termos que se misturam e se sobrepõem. Mitos, entretanto, são de mais difícil questionamento e regras podem (ou não) ser negociadas e flexibilizadas. O desenvolvimento do mito familiar parece ter sua base em problemas não resolvidos de perda, separação, abandono, entre outros. Neste caso, a impossibilidade de ser bem-sucedido nos estudos está relacionada a uma vida de fracassos e sofrimentos, na qual o trabalho braçal é a única oportunidade de sobrevivência. A transferência intergeracional e transgeracional dos mitos determina o surgimento e evolução dos papéis comuns e esperados em cada sistema. Para a criação de um mito familiar são necessárias três gerações (Andolfi & Ângelo, 1989; Prado, 1996). Famílias de origem "delegam" funções específicas para cada membro durante a composição de novas famílias. Quando essa "missão" é transferida para a geração seguinte, há um distanciamento entre os motivos que geraram a delegação inicial e o membro desta geração. Assim, há uma repetição de legados que, por estarem envolvidos em mitos e desconectados do contexto inicial, não são questionados.

O mito familiar é uma crença compartilhada no dia a dia da família, referindo-se a cada membo dessa família, definindo as posições recíprocas do sistema familiar nuclear e extenso. Ele apresenta um modelo prescritivo e valorativo de leitura da realidade. Os mitos familiares, provenientes do entrelaçamento dos vários mitos individuais, tende a não se alterar pela cumplicidade, mais ou menos inconsciente, de cada indivíduo. O mito é a chave para a leitura das interações da família. Através dele a realidade e as diversas experiências cotidianas são interpretadas. O mito familiar entrelaça-se com os acontecimentos do ciclo evolutivo interferindo no desenvolvimento e, portanto, alterando-se constantemente. As "crises vitais" do desenvolvimento são momentos importantes para a revisão, manutenção e ou rompimento dos mitos familiares.

Existem poucos estudos sobre a influência da família de origem na vida do novo casal. Loriedo e Strom (2002) descrevem três estudos que encontram resultados semelhantes: a família de origem da mulher exerce maior influência no grau de satisfação da relação conjugal do que a do homem. A presença de conflitos na família de origem da mulher dificulta negociações no novo casal e aumenta o grau de insatisfação do parceiro. O mesmo não foi identificado frente à presença de conflitos na família do homem. Explicam esse dado a partir das questões de gênero: é esperado que as mulheres se responsabilizem pela arquitetura das relações afetivas na família. Sendo assim, acionam-se primeiramente os recursos desenvolvidos na família de origem da esposa.

Outro fator que apareceu durante esse momento da pesquisa foi a independência do casal quanto a viver com os filhos e netos, todos preferem continuar vivendo em suas próprias casas e quando fala em morar com os filhos, esse assunto é negado em todo tempo. A maioria apresentou uma fala assim: “Tenho o meu lugar e minhas coisas, sou feliz assim, quando sentir saudades vou até a casa dos meus filhos”. Alguns casais pesquisados apresentaram a ajuda financeira que os filhos dão, outros deixaram um patrimônio para os filhos e agora só querem aproveitar a vida em suas atividades seja só o casal ou com a família. Porém nenhum deles abriu mão das relações familiares.

Precisamos também ter um olhar para o outro lado, tratando daquilo que prejudica mais a qualidade de vida do casal da terceira idade, 24% (n=6) respondeu falta de saúde, 12% (n=3) respondeu Clima, 12% (n=3) respondeu que nada é empecilho.

O dado que mais apareceu, quanto à saúde, percebeu-se que as redes sociais também exercem uma função na melhoria da saúde, principalmente da depressão. O processo de envelhecimento é permeado por inúmeras mudanças em nível biológico, psicológico e social. Por ser a última etapa do ciclo vital, a velhice traduz-se como um período no qual há perdas. No caso, perda do contato com amigos, restrições em função da saúde, como a redução da jornada de trabalho. No entanto, com freqüência, tais perdas são maximizadas, resultando em práticas sociais discriminatórias contra o idoso e em um senso pessoal de que a vida não tem sentido. Sentimentos de rejeição, solidão, incapacidade, dentre outros, podem eventualmente levar o idoso a apresentar um quadro sintomático de depressão. Muitos são os riscos associados a essa doença que afeta prejudicialmente a qualidade de vida na velhice. Se, por um lado, há danos em aspectos do funcionamento físico, por outro, em nível pessoal, a depressão afeta a qualidade dos relacionamentos sociais e familiares e o bem-estar psicológico do idoso. Estudos revelam que, na velhice, a depressão é o principal fator psicológico associado ao suicídio. Ou seja, ela pode ainda constituir-se em um fator de risco para a própria vida dos idosos (Forbes, 2005).

Pesquisadores que investigaram eventos de vida estressantes indicaram que os que ocorrem com maior freqüência na velhice são: a aposentadoria, a perda de familiares e amigos queridos e o aparecimento ou agravamento de doenças crônicas (Folkman, Lazarus, Pimley & Novacek, 1987). Uma pesquisa realizada por Krause (citada por Fortes, 2005), indica que os eventos estressores atuam nos idosos de forma mais negativa quando afetam os papéis sociais de cônjuge e de progenitor, por despertarem sentimentos de falta de controle no exercício desses papéis. Além disso, especificamente no caso das mulheres, os fatores que representam importantes condições de risco para a depressão são: a maior possibilidade de viuvez, o assumir papéis sociais relacionados ao cuidado, a maior exposição a doenças crônicas, incapacidade funcional, ônus familiar, pobreza e baixo nível educacional (Fortes, 2005; Neri, 2001).

Durante a pesquisa percebeu-se que tanto a resposta “Clima”, como, “não existe empecilhos para a qualidade de vida”, foram respondidas por pessoas otimistas e que já freqüentam o Cecon por vários anos.

Percebeu-se também características no pensamento de como é envelhecer, 37,5% (n=9) respondeu normal, natural, 20,83% (n=5) respondeu não penso, 12,50% (n=3) respondeu tranqüilo eu aceito. Sabe-se hoje que a velhice não resulta necessariamente em doença e afastamento, que o casal na terceira idade tem potencial para mudança e muitas reservas inexploradas. Assim, os idosos podem sentir-se felizes e realizados e, quanto mais atuantes e integrados em seu meio social, menos ônus trarão para a família e para os serviços de saúde. (Freire, 2000, p. 22)

A visão de que é possível envelhecer com saúde e cercado de contato social tem motivado a realização de estudos em diversas áreas para a identificação dos meios pelos quais se pode chegar a uma velhice bem-sucedida. Freire (2000), por exemplo, sugere o aperfeiçoamento das habilidades sociais como uma das estratégias para atingir a velhice bem-sucedida. A capacidade de interagir socialmente é fundamental para o casal na terceira idade, isso manterá as redes de apoio social e com certeza melhorará a qualidade de vida. A alegria de viver das pessoas é influenciada pela maneira como cada um se sente diante das suas relações interpessoais e que o suporte social tem um papel decisivo no processo. Neri (2001b) aponta que as redes de apoio social são muito importantes na velhice, principalmente se e quando os idosos têm que se adaptar às perdas físicas e sociais. A autora define redes de apoio social como "(...) grupos hierarquizados de pessoas que mantêm entre si laços típicos das relações de dar e receber. Elas existem ao longo de todo o ciclo vital, atendendo à motivação básica do ser humano à vida gregária". (Neri, 2001b, p. 110). A literatura sobre apoio social e rede de relações sociais na velhice propõe que (Neri, 2001b): a manutenção de relações sociais com o cônjuge, com os familiares e principalmente, com amigos da mesma geração, favorece o bem-estar psicológico e social dos idosos; os relacionamentos entre amigos idosos são particularmente benéficos, porque são de livre escolha e assim mais funcionais ao atendimento das necessidades afetivas dos envolvidos; a qualidade percebida é mais importante do que a quantidade de relacionamentos, para as relações sociais e a saúde física e mental. A realidade hoje do casal na terceira idade aponta a importância de competências sociais para a qualidade de vida na terceira idade, mesmo porque o casal na terceira idade que participa das redes sociais ativamente não tem muito tempo para pensar na velhice, e essas redes sociais facilitam o processo de envelhecimento, 10% (n=3) respondeu centro de convivência, 10% (n=3) respondeu Relacionamentos, 10% (n=3) respondeu buscar qualidade de vida nas redes sociais.

O último ponto pesquisado foi dividido em duas partes: a primeira, “se já acompanhou o processo de envelhecimento de algum parente ou pessoa”, 80% (n=16) respondeu Parentes e amigos, 20% (n=4) respondeu não ter acompanhado ninguém normalmente por causa de morte rápida das pessoas próximas. Segunda parte da pergunta é “o que você aprendeu”, 17,39% (n=4) respondeu ser mais tolerante com o outro, 13,04% (n=3) respondeu poder ajudar o outro, 13,04% (n=3) respondeu tomar cuidado com a saúde. Percebeu-se que todos que passaram pelo processo de envelhecimento do outro nunca ficaram com os mesmos valores, mas aprenderam a construir novos valores que servirão para seu próprio envelhecimento e relacionamento com os outros.

Considerações Finais

Este artigo salientou a relevância da melhoria da qualidade de vida do casal heterossexual na terceira idade, a partir das redes sociais.

Concluímos que as repercussões na melhoria da qualidade de vida do casal na terceira idade e a vivencia nas redes sociais começa a partir da melhora no relacionamento como casal e individualmente, os sujeitos pesquisados demonstraram uma capacidade de cuidar de si e ter uma nova visão e acolhimento, e demonstração de afeto para com o outro. As redes sociais ainda ajudam no enfrentamento das crises geradas pelas perdas da idade, pela valoração das gerações posteriores, saúde e novas relações.  Então a relação entre saúde, envelhecimento, doença e relações sociais é uma relação de mão dupla. A deterioração da saúde pode ser causada não somente por um "processo natural", mas também por uma falta ou qualidade de relações sociais e vice-versa.

Concluímos também que não existe somente uma rede social, e que também não existe uma certa ou errada, na realidade percebe-se que a rede social vai ser determinada pelo sujeito quando essa rede lhe faz muito bem e muda totalmente sua maneira de se relacionar com a vida, consigo mesma e com o outro e por que não falar sobre o relacionamento com Deus em uma igreja.

Um aspecto de grande valia para se levar em consideração também, é que o mero aumento nas relações sociais não é a solução, não é só uma questão de quantidade. É necessário levar em conta o caráter destas interações. Este fato foi ilustrado neste artigo através do exemplo de que as pessoas idosas demonstram mais satisfação e bem-estar quando podem viver com cônjuges, familiares ou amigos, sem estabelecer uma relação tirânica.  

Outro aspecto desse artigo é a capacidade que os casais estão tendo para enfrentar o processo de envelhecimento a partir das redes sociais, percebeu-se que os idosos de hoje tem lutado para uma qualidade de vida cada vez melhor, com isso os índices caem quanto à posição dos idosos em hospitais e clínica de repouso.

Concluímos também que todo sujeito que passa pela vivência do processo de envelhecimento do outro nunca fica da mesma forma, todos têm a tendência de se tornarem pessoas mais humanas e com capacidade de construir bases mais sólidas para uma qualidade de vida cada vez melhor.

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