Breve Revisão de Artigos Sobre a Origem e Manutenção do Comportamento Agressivo na Infância e Adolescência

(Tempo de leitura: 4 - 8 minutos)

O artigo intitulado “Origem e manutenção do comportamento agressivo na infância e adolescência”, de autoria de Barros & Silva (2006), apresenta uma revisão teórica sobre as principais causas e mantenedores do comportamento agressivo na infância e na adolescência. Alguns dos temas abordados nesta revisão da literatura foram a influência de fatores aliados ao desenvolvimento sócio-emocional, aspectos do temperamento aliados às diversas influências ambientais, alguns transtornos neuropsiquiátricos, como o Transtorno Bipolar do Humor (TBH), o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), o Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) e o Transtorno de Conduta (TC). Segundo os autores do artigo, a escolha de tais transtornos se deu pelas frequentes discussões a respeito do diagnóstico diferencial e a presença de comorbidades entre eles. O objetivo da revisão da literatura feita nesse artigo foi promover informações relevantes a respeito dos principais fatores de origem e/ou manutenção dos comportamentos agressivos na infância e adolescência a fim de facilitar o diagnóstico e as intervenções psicológicas e psiquiátricas.

O comportamento agressivo se manifesta de forma motora, emocional, somática e verbal (Fariz, Mias, & Moura, citado por Barros & Silva, 2009). O desenvolvimento da criança e do adolescente é mediado por diferentes fatores, sejam eles externos, tais como condições socioeconômicas, característica das relações familiares (estilos parentais, separação, divórcio, etc) ou internos, como personalidade, temperamento, hereditariedade, entre outros (Bolsoni-Silva, Marturano, & Freiria, 2010; Eddy, 2009). O desenvolvimento do comportamento inicia na infância, primeiramente nas relações familiares e, em um segundo momento, na interação com os pares, na escola e em outros grupos sociais (Belsky, 2010).

Ao longo do processo de maturação, crianças e adolescentes exibem comportamentos agressivos. Entretanto, se essas condutas se mostram severas e frequentes, elas podem indicar sinais de psicopatologia (Kendall, citado por Barros e Silva, 2004). Conforme citado pelos autores desse artigo de revisão da literatura, os comportamentos agressivos podem ter diversas causas, entre elas a presença de transtornos neuropsiquiátricos, como o Transtorno Bipolar do Humor (TBH), o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), o Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) e o Transtorno de Conduta (TC). Em pesquisa recente realizada por Borsa, Bandeira, & Souza (2011), contribuem para a manifestação de comportamentos problemáticos variáveis como a renda familiar, o tipo de escola (pública ou privada) e a separação dos pais.

Eventos estressores, tais como mudanças de vida, perdas ou microeventos diários, também vêm sendo considerados como fatores de risco para a ocorrência de outro distúrbio que afeta principalmente indivíduos do sexo feminino e apresenta grande incidência na adolescência: a depressão (Dell’Aglio, Borges, & Santos, 2004). A depressão pode se manifestar de forma diferente em crianças, em adolescentes e em adultos. Na infância geralmente são indicativos dessa doença o humor irritado, a hipersonia, crises de explosão e de raiva (Bahls & Bahls, 2002). É importante atentar para o fato de que o adolescente que está tendo um desenvolvimento normal pode apresentar fases da adolescência em que dorme mais do que o habitual e, nesse caso, a hipersonia não é indicativo de depressão.

Segundo Barros e Silva (2009), déficits em habilidades empáticas também se relacionam intimamente às manifestações de agressividade. A literatura aponta também para a existência de uma ligação entre práticas educativas (escolar e familiar) e problema de comportamento em crianças e em adolescentes, à medida que as famílias estimulariam esses comportamentos por meio de disciplina inconsistente, pouca interação positiva, pouco monitoramento (entende-se por monitoramento positivo as condutas de pais que atentam para as atividades, a localização e as formas de adaptação de seus filhos) e supervisão insuficiente das atividades da criança (Bolsoni-Silva & DelPrette, 2003).

A valorização pessoal da criança, bem como demonstrações de aceitação e apoio às suas iniciativas é fundamental para o desenvolvimento saudável da criança. Segundo Bugental e Johnston (2000), os pais que se sentem inseguros fornecem menos apoio e mais reações negativas aos seus filhos, os quais, por sua vez, reagem também com agressividade. A resiliência, que é a capacidade que todo indivíduo tem de lidar com problemas e resistir à pressão de situações adversas deriva (pelo menos em parte) das oportunidades que crianças e adolescentes têm de acessar apoios psicológicos, emocionais, relacionais e instrumentais que precisam para crescer bem, enquanto vivendo sob circunstâncias adversas (Libório & Ungar, 2010).

O repertório comportamental dos pais e as práticas parentais também se relacionam com o uso de drogas na adolescência. Segundo revisão sistemática da literatura, feita por Paiva e Ronzani (2009), estudos apontam que adolescentes que recebem maior monitoramento parental (por exemplo, procurar localizar seus filhos, estar atento às suas atividades, saber quem são seus amigos, o que eles fazem no tempo livre e como eles gastam seu dinheiro) são os que apresentam menores taxas de envolvimento com drogas. De acordo com Margolin (2005), o ambiente familiar violento serve como modelo para o aprendizado de padrões comportamentais e sociais que se utilizam da violência, prejudicando o convívio social e muitas vezes levando a um quadro de delinquência. Estudo realizado por Sá, Curto, Bordin e Paula (2009), mostrou que a exposição indireta à violência, como ter amigo que foi estuprado e/ou ferido com faca, constitui-se como principal componente para o surgimento do comportamento antissocial em adolescentes.

De acordo com Barros e Silva (2004), a conduta agressiva parece se manifestar por uma série de razões que podem coexistir ou, até mesmo, serem complementares. Algumas vezes, esse processo se torna complexo e exige a compreensão da participação de múltiplos fatores na formação da agressividade. Esse entendimento pode auxiliar tanto na investigação quanto no consequente tratamento de crianças e adolescentes.

Uma vez que os comportamentos agressivos são marcados por um padrão de violação de regras, que se encontra num contínuode gravidade, é importante salientar que as consequências dos problemas de comportamento na infância podem se estender até a idade adulta. Esses comportamentos, se não tratados, podem, ainda, causar ainda enormes custos para o indivíduo e para a sociedade, como o mau desempenho escolar, dificuldades de ter um emprego estável, desenvolvimento de problemas psiquiátricos, aumento da criminalidade, entre outros.

A revisão da literatura descrita no artigo de Barros e Silva (2004), apresenta as principais causas e mantenedores do comportamento agressivo na infância e na adolescência. A partir do conhecimento das informações relevantes a respeito desses fatores, é possível facilitar o diagnóstico e as intervenções psicológicas e psiquiátricas. É importante ressaltar a importância de relacionar essas causas e mantenedores do comportamento agressivo com as comorbidades dos transtornos nos quais esses comportamentos, muitas vezes, tornam-se evidentes, a fim de evitar o hiperdiagnóstico e, até mesmo, um diagnóstico errado.

Sobre o Autor:

Daiane Silva de Souza – Acadêmica de Psicologia UFRGS

Referências:

Bahls, S. & Bahls, F. R. C. (2002). Depressão na adolescência: Características clínicas. Interação em Psicologia, 6, 49-57.

Barros, P. & Silva, F. B. N. (2006). Origem e manutenção do comportamento agressivo na infância e adolescência. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 2(1), 55-66.

Belsky, J. (2010). Desenvolvimento Humano: experienciando o ciclo da vida. Porto Alegre: Artes Médicas

Bolsoni-Silva, A. T. & Del Prette, A. (2003). Problemas de comportamento: um panorama da área. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 5(2), 91-103.

Bolsoni-Silva, A. T., Marturano, E. M., & Freiria, L. R. B. (2010). Indicativos de Problemas de Comportamento e de Habilidades Sociais em Crianças: Um Estudo Longitudinal. Psicologia: Reflexão e Crítica, 23(3), 506-515.

Borsa, J. C., Bandeira, D. R., & Souza, D. S. (2011). Prevalência dos problemas de comportamento em uma amostra de crianças do Rio Grande do Sul. Psicologia: Teoria e Prática, 13(2).

Bugental, D. B., & Johnston, C. (2000). Parental and child cognitions in the context of the family. Annual Review Psychology, 51, 315-344.

Dell’Aglio, D. D, Borges, J. L. & Santos, S. S. (2004). Eventos estressores e depressão em adolescentes do sexo feminino. Psico, 35 (1), 43-50.

Eddy, J. M. (2009). Transtornos da Conduta. Porto Alegre: Artmed.

Libório, R. M. C. & Ungar, M. (2010). Resiliência oculta: a construção social do conceito e suas implicações para práticas profissionais junto a adolescentes em situação de risco. Psicologia: Reflexão e Crítica, 23(3), 476-484.

Margolin, G. (2005). Children’s exposure to violence: exploring developmental pathways to diverse outcomes. Journal of Interpersonal Violence, 20(1), 72-81.

Paiva, F. R. & Ronzani, T. M. (2009). Estilos parentais e consumo de drogas entre adolescentes: revisão sistemática. Psicol. estud., 14(1),177-183.

Sá, D. G. F., Curto, B. M., Bordin, I. A. S., & Paula, C. S. (2009). Exposição à violência como risco para o surgimento ou a continuidade de comportamento antissocial em adolescentes da região metropolitana de São Paulo. Psicologia: Teoria e Prática, 11(1), 179-188.

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