Crianças com Transtornos Globais do Desenvolvimento Espectro Autista – TEA

Crianças com Transtornos Globais do Desenvolvimento Espectro Autista – TEA
(Tempo de leitura: 8 - 15 minutos)

Resumo: Nos últimos anos, com o aumento progressivo de diagnóstico em crianças com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), cresceu também a luta pelos direitos no processo de inclusão escolar. Mesmo com todos os movimentos e leis direcionados à inclusão, a mesma ainda não tem resultados efetivos, pelos desafios e dificuldades encontrados tanto pelos professores como para os alunos com o transtorno. O Autismo é um transtorno que afeta habilidades sociais, interação e comunicação da criança, sendo necessário boa estrutura pedagógica por parte da escola e capacitação do professor para se obter êxito no processo de aprendizagem, inclusão e manutenção deste aluno. É justamente na escola que ocorre a primeira socialização fora do ambiente familiar. As dificuldades que os professores encontram em sala de aula são imensas, recorrentes de falta de preparo ao lidar diretamente com a realidade, o que vai muito além de uma teoria. É primordial um diagnóstico precoce e um trabalho da instituição junto à família da criança com transtorno, pois terá que haver uma adequação na rotina de todos que o cercam. O ideal é identificar sintomas, trabalhar potencialidades e habilidades, além de compreender dificuldades, com o intuito de tornar a convivência mais tranquila e saudável para todos. Para o processo de aprendizagem e inclusão escolar ser efetivo é necessário que Estado, família, sociedade e instituição educacional se unam para um objetivo único, visando a integridade e bem-estar da criança com um olhar mais acolhedor. O psicólogo pode contribuir muito neste processo, orientando os pais em busca de uma participação mais efetiva destes, e toda a equipe escolar desde o momento que o aluno entra na escola. Elaborar projetos que chamem atenção de todos que estão envolvidos nesse círculo escolar, identificar os problemas e fazer um plano de intervenção. O processo de inclusão escolar é lento e gradativo, e o aluno só vai se sentir realmente incluído quando forem realizados todos os ajustes necessários.

Palavras-chave: Educação inclusiva, Autismo, Aprendizagem mediada, Socialização e interação.

1. Introdução

Este trabalho tem como objetivo identificar as dificuldades encontradas diariamente pelos autistas, visando pontuar quais seus desafios e como é trabalhada a inclusão escolar e social. Sabendo que o autismo é um transtorno que afeta a interação social da criança e suas habilidades de comunicação, como seria a melhor forma de se trabalhar? Quais as leis que lhes garantem a inclusão? Eles devem estar em salas de aula? Como identificar o autismo?

Ainda que os movimentos em busca dos direitos e inclusão dos autistas tenham aumentado, pouco se vê de efetivo, portanto, ainda há um amplo caminho a se percorrer pela frente. O professor faz ponte nesse processo de inclusão entre autistas e não autistas, e são muitos os desafios encontrados para que se faça valer à inclusão; quando há um despreparo, a criança autista é a mais afetada. Então, vale trabalhar os pontos mais importantes, integrando família, professor e sociedade para que se tenha um melhor entendimento. 

2. Direitos e leis na educação inclusiva do autista

As políticas de inclusão escolar de crianças com autismo na Educação Básica devem promover o acesso e permanência do indivíduo na escola regular, o que já vem sendo buscado pela Política Nacional de Educação Especial desde a década de 1990 (BATTISTI; HECK, 2015).

Para que a inclusão ocorra é necessário o comprometimento e envolvimento da família, dos professores e demais membros da escola, a fim de se obter melhores conhecimentos sobre as necessidades da criança autista e inseri-la ao contexto social, objetivando a convivência com crianças da mesma faixa etária e podendo, com isso, terem seus comportamentos influenciados em direção ao desenvolvimento da autonomia e capacidades cognitivas. Assim, é importante salientar que um bom preparo dos professores envolvidos se torna essencial na realização da inclusão na busca por compreender e lidar com as diferenças, tornando o processo possível e modificador (BATTISTI; HECK, 2015).

Em 27 de dezembro de 2012 foi instaurada no Brasil a Lei 12.764, conhecida como Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Espectro Autista, a “Lei Berenice Piana”. Nesta lei a pessoa com Autismo passa a ser vista com um olhar mais atento, pois este transtorno também é visto como uma deficiência. No artigo 3 da lei ficam acordados os direitos à toda pessoa com Autismo, assegurando a igualdade, a integridade física e moral, a educação e a saúde. Em 2015, também foi implantada mais uma lei, a Lei 13.146, para dar suporte e favorecer a inclusão, sendo esta a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI). No artigo 28 desta, firma-se que é dever do Poder Público dar segurança e incentivo, gerando desenvolvimento e implantações às ações inclusivas. Nas duas leis ficam claras as preocupações com a participação da família, escola e comunidade para que todo indivíduo com Autismo seja incluído à sociedade (SANTOS; VIEIRA, 2017).

2.1 Causas e sintomas

O autismo é uma desordem complexa do desenvolvimento do cérebro que faz parte de um grupo de síndromes chamada Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD), afetando a capacidade de:

  • Interações sociais
  • Comunicação verbal e não verbal
  • Brincar de faz de conta

Não há uma resposta definitiva para o surgimento do autismo. Sabe-se que a genética e agentes externos influenciam para o surgimento do transtorno. Dos fatores externos que podem contribuir, estão a poluição do ar, complicações durante a gravidez, infecções causadas por vírus, alterações no trato digestório, contaminação por mercúrio e sensibilidade a vacinas.

Cada autista tem uma peculiaridade única, tendo diferentes níveis de comprometimento, por isso que é chamado de “espectro autista”, existindo casos mais graves e outros mais leves.

Tipos de Autismo:

  • Leve: há um leve prejuízo social, a inteligência é considerada normal. Aqui inclui-se a síndrome de Asperger, que é considerada uma forma mais branda de autismo e foi incorporado a um novo termo médico e englobador, chamado de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).
  • Moderado: atrasos linguísticos significativos, dificuldade de manifestar emoções e desafios sociais. No entanto, consegue se comunicar de forma verbal e responder estímulos. Podem apresentar deficiência intelectual.
  • Grave: intolerância por toque físico e contato social. É indiferente, sem interesse em relacionar-se afetivamente e não responde quando é chamado. Tendência a deficiência intelectual e automutilação.

Os fatores considerados de risco para o desenvolvimento do autismo são:

  • Sexo: Meninos 5x mais que meninas;
  • Histórico familiar: Famílias que tiveram alguém com autismo ou pais que geraram filhos com autismo, também podem apresentar alguma dificuldade;
  • Outros transtornos: Crianças com algum tipo de doença, epilepsia e esclerose tuberosa;
  • Idade dos pais: Quanto mais avançada a idade dos pais, mais chances da criança desenvolver autismo até os 3 anos.

Existem diversos sintomas que podem indicar autismo, e nem sempre a criança apresentará todos eles. Os sintomas do autismo podem ser agrupados em:

  • Interação social: não faz amigos; não participa de jogos interativos; é retraído; pode não responder a contato visual e sorrisos ou evitar o contato visual; pode tratar as pessoas como se fossem objetos; prefere ficar sozinho em vez de acompanhado; mostra falta de empatia.
  • Resposta a informações sensoriais: não se assusta com sons altos; tem a visão, audição, tato, olfato ou paladar ampliados ou diminuídos; pode achar ruídos normais dolorosos e cobrir os ouvidos com as mãos; pode evitar contato físico por ser muito estimulante ou opressivo; esfrega as superfícies, põe a boca nos objetos ou os lambe; parece ter um aumento ou diminuição na resposta à dor.
  • Sintomas do autismo nas brincadeiras: não imita as ações dos outros; prefere brincadeiras solitárias ou ritualistas; não faz brincadeiras de faz de conta ou imaginação.
  • Sintomas do autismo nos comportamentos: acessos de raiva intensos; fica preso em um único assunto ou tarefa (perseverança); baixa capacidade de atenção; poucos interesses; é hiperativo ou muito passivo; comportamento agressivo com outras pessoas ou consigo; necessidade intensa de repetição; faz movimentos corporais repetitivos.

Não existe cura para autismo, mas um programa de tratamento precoce, intensivo e apropriado melhora muito a perspectiva das crianças com o transtorno. O principal objetivo do tratamento é maximizar as habilidades sociais e comunicativas da criança por meio da redução dos sintomas do autismo e do suporte ao desenvolvimento e aprendizado. Mas a forma de tratamento que tem mais êxito é o que é direcionado às necessidades específicas da criança. Também não existem medicamentos capazes de tratar os principais sintomas do autismo e não há uma fórmula correta para prevenir o autismo, mas, muitas vezes, são usados medicamentos para tratar problemas comportamentais ou emocionais que os pacientes com autismo apresentam. Com o tratamento correto, muitos dos sintomas do autismo podem melhorar.

Existem diversos programas para tratar problemas sociais, de comunicação e de comportamento que estejam relacionados ao autismo. Alguns desses programas focam na redução de problemas comportamentais e na aprendizagem de novas habilidades. Um desses programas é a ABA, sigla em inglês para Análise Aplicada do Comportamento.   

2.2 Interação Aluno-Professor

Ao mesmo tempo em que falamos sobre o processo de inclusão escolar de crianças com autismo, nos direcionamos diretamente ao professor, que é o principal responsável e mediador da aprendizagem dos alunos. O processo é um grande desafio tanto para o aluno quanto para o professor, e o importante não é apenas que o aluno frequente a sala de aula, mas que também participe de forma efetiva e nesta permaneça. Sem uma relação afetiva entre o professor e aluno, é impossível que a inclusão e o aprendizado ocorram de forma bem sucedida, já que o processo deste aluno é lento e gradativo. O aluno autista tem grande dificuldade de interagir e se comunicar e cabe ao professor contribuir, estimular e se adequar ao processo de aprendizagem do aluno, conhecendo suas potencialidades e dificuldades para trabalhar com suas especificidades. Sempre buscando desenvolver na criança a autoconfiança, independência e qualidade de interação.      

Além de uma boa estrutura pedagógica por parte da escola, o professor deverá estar capacitado para melhor compreender e ajudar no desenvolvimento da criança. O professor deverá se utilizar de técnicas, métodos diversificados e flexíveis, recursos educativos específicos, elaborar atividades de acordo com o conhecimento da criança e promover ações inclusivas entre os envolvidos.

Mesmo com todos os movimentos, leis e práticas no processo de inclusão, não há capacitação necessária para a grande maioria dos professores. Mesmo com o preparo, muitas vezes o professor não quer trabalhar com alunos autistas pelo fato de não acreditar no potencial destes, e acaba trabalhando somente para cumprir com as práticas da instituição em que está inserido. Em outros casos, o professor demonstra vontade e interesse na prática, enquanto uma boa parte tem receio pela dificuldade de lidar com as suas expectativas e frustrações, caso não obtenham sucesso em suas intervenções.

O desenvolvimento cognitivo é caracterizado pela aquisição de funções cognitivas por meio de aprendizagem, que ocorrem tanto pela exposição direta, quanto, por situações de Experiência de Aprendizagem Mediada (EAM) (Feuerstein, 1991).

Considerando a teoria de Feurstein (1991), o professor não somente vai transmitir os conhecimentos, mas vai ser o mediador, trazendo significado aos conteúdos recebidos pelo aluno. 

2.3 Família e Escola na Inclusão: Aceitação da família diante do diagnóstico

Sabemos que a espera de um bebê é algo extraordinário na vida de uma família, mas e quando essa criança é diagnosticada com um transtorno? Aparecem vários questionamentos: E agora o que fazer? Como lidar com isso? Como vamos cuidar dessa criança? Os comprometimentos dessa criança afetam a reciprocidade na relação com os demais e a sua capacidade de comunicação, o que pode gerar uma frustração nos pais. A família se vê perante da necessidade de dar conta de uma grande demanda de cuidados diários, diante disso, é necessária a aceitação da família diante da demanda que vão enfrentar.

O impacto nas famílias é grande, especificamente em casais, pois o autismo, em razão de suas características, configura-se como um estressor potencial. Algumas famílias, no entanto, parecem sofrer um impacto mais devastador. Um dos fatores que causa grande problema é a questão social, muitas dessas famílias vêm de classe baixa com renda financeira muito precária, o que impede muitas vezes desses pais darem um tratamento e uma vida de qualidade para essas crianças com transtorno autista.

É importante lidar com esses desafios, portanto, nesse momento a ajuda profissional é de extrema importância. Não há atalhos, são caminhos que precisam ser trilhados para superar e conviver com as dificuldades do dia a dia. É importante que essa família saiba que pode contar com profissionais qualificados e que essa criança pode sim ter uma inclusão no meio escolar, onde vai aprender a conviver socialmente e se desenvolver. É dever dos Pais colocar e incentivar essa criança a estudar.

É de suma importância a participação dos pais nesse momento da inclusão, para que esta realmente se efetive. Quando os pais tomam para si a responsabilidade da educação de seus filhos, são capazes de promover muitos aspectos positivos na promoção da aprendizagem e do desenvolvimento das crianças.

2.4 A Importância do Convívio

Quanto menos a criança autista ficar limitada ao convivo com outras pessoas, melhor será seu desenvolvimento e menos os sintomas serão agravados. O convívio é importante não só para o aluno com deficiência, mas também para alunos não portadores, pois possibilita desenvolver alguns valores, sentimentos de solidariedade e empatia, através das experiências compartilhadas e que serão agregadas em suas vidas.

A criança autista possui necessidades educacionais especiais, mas mesmo assim sua educação deve acontecer dentro das mínimas restrições possíveis, pois é através da interação que se dá seu desenvolvimento.

O convívio se faz extremamente importante, pois permite a interação com as diferenças humanas, amplia a percepção de pluralidade e favorece competências intelectuais.

2.5 Quando Acontece a Inclusão?

O fato de matricular o aluno autista na escola de ensino regular e permitir que ele frequente a mesma sala que os demais alunos não significa inclusão. Incluir é mais que isso, é aceitar de maneira integral e incondicional as diferenças de cada pessoa, valorizando como nossos semelhantes e respeitando sua igualdade de direito e possibilidades. Promover mudanças e ajustes necessários, adaptações a estrutura e capacitação dos profissionais para receber esse aluno de forma acolhedora, e haver conscientização de toda equipe escolar, tendo um olhar mais humano, mais generoso para o aluno, procurando sempre dar ênfase para as capacidades que ele possa apresentar, as habilidades que ele venha desenvolver, ao invés de ter o foco nas dificuldades que o mesmo apresenta. Procurando criar um ambiente livre de preconceito e desrespeito, colocando em prática o que há na teoria, um ensino de qualidade para todos, sem distinção.

O processo de inclusão não acontece do dia para a noite, é um processo gradativo, vai acontecendo aos poucos, e no momento em que todos os ajustes necessários forem feitos, e o aluno se sentir incluído, fazendo realmente parte desse grupo, tendo liberdade para acompanhar esse ao seu tempo, dentro de suas possibilidades, então podemos dizer que é educação inclusiva.

3. Conclusão

Quando se tem o preparo e o conhecimento, as diferenças se tornam mínimas, e a inclusão torna-se possível. No entanto, se vê ainda muito despreparo no sistema educacional, na família e no sistema de integração que olha para a criança autista com um olhar de incapacidade, deixando de buscar suas reais habilidades, fazendo com que muitas crianças percam oportunidades de uma vida mais humanizada.

Sabendo que são muitos os desafios encontrados por aqueles que convivem com o autista, pode ajudar a melhorar muito na convivência, ao passo em que pais e professores podem identificar seus sintomas e como trabalhar.

Ainda notamos que há muitas peças a serem encaixadas para se conseguir alcançar o objetivo da inclusão satisfatória, e sabemos que essa satisfação só se dará com muito trabalho, onde cada um sabe qual é o papel a se desenvolver, mas que poucos trabalham em busca desse alcançar.

Sobre os Autores: 

Escrito por: Claudete Franco, Daniela da Silva, Oziane Priscila dos Reis, Priscila Formariz, Ysabeli Cechinel, Zélia Bernardi

Orientador(a): Silvete Maria Prolo Schafranski

Referências:

BAPTISTA, C. R.; BOSA, C. Autismo e Educação. Porto Alegre: Artmed, 2007.

BATTISTI, A. V.; HECK, G. M. P. A Inclusão Escolar de Crianças com Autismo na Educação Básica: Teoria e Prática. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia). Universidade Federal da Fronteira Sul. Chapecó, 2015.

CAMPOS, A. L. D. A experiência da aprendizagem mediatizada (EAM) como um facilitador da aprendizagem de alunos autistas nas escolas comuns. Paidéia r. do cur. de ped. da Fac. de Ci. Hum., Soc. e da Saú., Univ. Fumec, Porto Alegre, Ano 11,  n. 17,  p. 109-139,  jul./dez. 2014

NASCIMENTO, L.M. Educação Especial. Centro Universitário Leonardo da Vinci. Indaial: Asselvi, 2007. 

SANTOS, R. K.; VIEIRA, A. M. E. C. S. Transtorno de Espectro do Autismo (TEA): do reconhecimento à inclusão no âmbito educacional. Universidade Federal Rural do Semi-Árido. In: Revista Includere, v.3, n.1. 2017.

SASSAKI, R.K. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. 3. Ed. Rio de Janeiro: WVA, 1999

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