Desenvolvimento Humano Biológico: uma Metáfora para Nosso Crescimento

Desenvolvimento Humano Biológico: uma Metáfora para Nosso Crescimento
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Resumo: Este trabalho é uma síntese de algumas teorias de psicologia do desenvolvimento, mostrando como o ser humano se desenvolve. Tantos teóricos escreveram e comprovaram o potencial de desenvolvimento humano em suas diversas nuances. Até onde poderia crescer e se desenvolver o ser humano? Qual o objetivo apontado por estes teóricos da psicologia do desenvolvimento que deveria ser alcançado pelo ser humano. Quais as distorções e descaminhos que fazem as pessoas do sec. XXI não desenvolverem seu potencial? Poderíamos ir um pouco mais além? A psicologia do desenvolvimento procura indicar caminhos para tal.

Palavras-chave: Desenvolvimento, Psicologia, Maturidade, Fases do Desenvolvimento Humano.

1. Introdução

Durante um ano estive lecionando para uma turma de magistério – mulheres e alguns poucos homens entre 18 à 50 anos de idade – uma disciplina intitulado aspectos biopsicológicos da educação. Foi assim que durante todo esse tempo tive um contato mais profundo com a psicologia do desenvolvimento.

Agora, como uma exigência do curso de mestrado\doutorado em Psicanálise Clínica pela FATEC, entrei em contato novamente com uma infinidade de teóricos que falam sobre o desenvolvimento humano: Freud, Piaget, Vygotsky, Erik Erikson, Konrad Lorenz, Henry Walon, Adler e tantos outros.

Quando se analisa o processo dinâmico do desenvolvimento biológico humano, pode-se observar que este talvez seja o fenômeno mais marcante da natureza, onde, de uma única célula, chega-se a três trilhões de células num corpo humano adulto. Tal perfeição e complexidade do crescimento pré natal – que pode ser considerado um tempo de preparação para que o ser humano seja capaz de se adaptar na vida pós-nascimento – serve como uma metáfora para os outros aspectos que precisamos desenvolver como pessoas.

Falar de desenvolvimento é entrar por um caminho extremamente complexo. Cada teórico aborda um aspecto do ser humano que precisa se desenvolver e crescer. O aspecto biológico é a base de todo desenvolvimento, a inteligência, as emoções, a atenção, a forma de se relacionar, enfim são diversas dimensões que precisam ser analisadas.

Aqui vamos ver alguns teóricos com suas teorias básicas, dando assim subsídios para se pensar em desenvolvimento humano. A pesquisa em ciência do desenvolvimento humano, segundo Dessen (2005), deve ter princípios e conceitos básicos que norteiam o próprio conceito de desenvolvimento humano. Este artigo assimila estes conceitos básicos e procura teóricos que preencham tal exigência.  Estrutura, temporalidade, mudanças e continuidades.

Desse modo, tem-se também a exigência de se adotar uma visão sistêmica do processo de desenvolvimento humano em todos os seus níveis: genético, neural, comportamental e ambiental (físico, social e cultural); todos estes aspectos interagindo ao longo do tempo e traçando trajetórias probabilísticas.

 2. Desenvolvimento Biológico Pré Natal: Metáfora do desenvolvimento Humano

Desde o ventre, onde somos formados, a capacidade de diversidade é infinita. Não existe um só ser humano que seja idêntico em todas as suas formas e detalhes. Pesquisadores do desenvolvimento humano sabem atualmente que o desenvolvimento que ocorre antes do nascimento é um tempo de preparação do corpo com todas as suas estruturas e habilidades que serão necessárias para a adaptação após o nascimento. Só aqui encontramos dois padrões para se pensar desenvolvimento humano. Um é individualidade e a singularidade, e o outro é o preparo e o treinamento para um desenvolvimento saudável.

Biologicamente falando, o desenvolvimento humano se inicia na fertilização, quando um homem e uma mulher combinam 23 de seus próprios cromossomos através da união de suas células reprodutivas. A célula reprodutiva da mulher é chamada de oscito e a do homem é chamada espermatozoide. O embrião monocelular é o resultante da união dessas duas células, sendo chamado zigoto.

A gravidez humana tem um período aproximado de 38 semanas entre a fertilização ou concepção e o nascimento. Depois de completar oito semanas até o final da gravidez o desenvolvimento humano é chamado de feto. Durante este tempo, chamado período fetal, o corpo cresce mais rapidamente e os sistemas iniciam suas funções.

Os 46 cromossomos do zigoto representam a singular primeira edição do mapa genético completo de um novo indivíduo. Estes contêm as instruções para o desenvolvimento do corpo inteiro. Aproximadamente 24 a 30 horas após a fertilização, o zigoto completa sua primeira divisão celular. Através do processo de mitose, uma célula se divide em duas, duas em quatro, e assim por diante.

De 3 a 4 dias após a fertilização até à 20ª semana,  as células do embrião já terão formado: 3 tecidos especializados, ou camadas germinativas, chamadas ectoderma, endoderma e mesoderma. A ectoderma dá origem a numerosas estruturas, incluindo o cérebro, a coluna vertebral, os nervos, a pele, as unhas e o cabelo. A endoderma produz o revestimento do sistema respiratório e do tubo digestivo e gera partes de órgãos importantes, como o fígado e o pâncreas. A mesoderma forma o coração, os rins, os ossos, as cartilagens, os músculos, as células sanguíneas e outras estruturas.

O sistema circulatório é o primeiro sistema do corpo ou grupo de órgãos relacionados a atingir um estado funcional. O cérebro continua seu rápido crescimento e divide-se em 5 partes distintas. A cabeça compreende cerca de 1/3 do tamanho do embrião. Os hemisférios do cérebro aparecem, tornando-se gradativamente a maior parte do cérebro.

Pode-se distinguir os cotovelos, os dedos começam a se separar, e pode-se observar o movimento das mãos. A formação de ossos, chamada ossificação, começa na clavícula ou osso do colarinho, e nos ossos dos maxilares superior e inferior. A retina pigmentada dos olhos é facilmente visível e as pálpebras começam um período de rápido crescimento. Os dedos das mãos se separam e os dedos dos pés estão ligados na base. As mãos, agora, podem se juntar, assim como os pés. As juntas do joelho estão presentes.

O cérebro é altamente complexo e constitui quase metade do peso total do embrião. O crescimento continua a uma taxa extraordinária. Livros de pediatria descrevem a habilidade de "virar" aparecendo de 10 a 20 semanas após o nascimento. No entanto, essa coordenação impressionante é exibida muito mais cedo, os movimentos podem ser lentos ou rápidos, simples ou repetitivos, espontâneos ou reflexos. Rotação da cabeça, extensão do pescoço e contato da mão com o rosto ocorrem mais frequentemente.

A oitava semana marca o fim do período embrionário. Durante este período, o embrião humano cresce de uma única célula às quase 1 bilhão de células que formam mais de 4.000 estruturas anatômicas. O embrião agora possui mais de 90% das estruturas encontradas em adultos. Uma explosão de crescimento entre 9 e 10 semanas aumenta o peso do corpo em mais de 75%.

O nariz e os lábios estão completamente formados, os órgãos genitais externos agora podem ser distinguidos como masculino ou feminino. A cóclea, que é o órgão da audição, atinge o seu tamanho adulto dentro do ouvido interno, que está totalmente desenvolvido. De agora em diante o feto responderá a uma crescente variedade de sons. O cabelo começa a crescer no couro cabeludo. Todas as camadas e estruturas da pele estão presentes, incluindo folículos capilares e glândulas.

Dentro de 21 a 22 semanas até o 6º mês, os pulmões ganham certa habilidade de respirar ar. Esta é considerada a idade da viabilidade, porque a sobrevivência fora do útero torna-se possível para alguns fetos. As pálpebras se abrem e o feto exibe uma resposta de piscar e se assustar.

As pupilas respondem à luz. Todos os componentes necessários ao funcionamento do olfato estão em ação, o feto pode distinguir entre sons agudos e graves, os movimentos de respiração são mais comuns e ocorrem de 30 a 40% do tempo num feto típico. Durante os últimos 4 meses da gravidez, o feto exibe períodos de atividade coordenada intercalado por intervalos de descanso. Esses comportamentos refletem a complexidade cada vez maior do sistema nervoso central.

Em torno do 8º mês, alvéolos verdadeiros, ou células contendo ar, desenvolvem-se nos pulmões. Elas continuarão a se formar até 8 anos após o nascimento. O feto inicia o trabalho de parto com a liberação de grandes quantidades de estrogênio, tendo início a transição de feto a recém-nascido. O trabalho de parto envolve fortes contrações do útero, que resultam no nascimento. Durante o terceiro trimestre da gravidez, o crescimento do cérebro consome mais de 50% da energia usada pelo feto. O peso do cérebro aumenta de 400 a 500%.

Da fertilização ao nascimento e daí em diante, o desenvolvimento humano é dinâmico, contínuo e complexo. Novas descobertas sobre esse fascinante processo mostram o impacto vital do desenvolvimento do feto na saúde durante o resto da vida. Vê-se claramente que todo este preparo é essencial e dele depende todo o resto do desenvolvimento humano.

3. Psicologia do Desenvolvimento: Contribuições Teóricas

3.1 Sigmund Freud (1856-1939)

Freud revolucionou sua época com o novo modelo de desenvolvimento proposto. Enfatizando o inconsciente e as pulsões sexuais, ele apresenta o desenvolvimento como o resultado de interações dessas energias sexuais (libido).  Assim ele divide em cinco fases o desenvolvimento humano.

Fase Oral -  0 – 1 ano: Fase onde toda a libido existente predomina em volta da região oral, ou seja, os lábios, a língua e posteriormente, os dentes. Fase erótica       (engolindo ou cuspindo), Fase sádica (mordendo);

Fase Anal - 2 e 3 anos: Nessa fase, a criança aprende a controlar seus esfíncteres anais e a bexiga, obtendo prazer com esse controle, além de que, são elogiadas pelos pais quando exibem esse controle;

Fase Fálica -  4 e 5 anos: A libido se focaliza nas áreas genitais do corpo e se denomina por fálica em consequência do fato da criança dar conta de que tem um pênis (falo), ou a falta do mesmo (no caso das meninas);

Período De Latência - 6 aos 12 anos: (pausa sexual) Nesse período, a sexualidade praticamente não avança, e as crianças se esquecem da maioria das coisas que faziam e conheciam, além de surgirem atitudes como repulsa e vergonha, coerentes com as exigências do superego.

Fase Genital - 13 aos 18 anos: Não há mais fantasias edipianas com relação aos pais, e sim uma intimidade sexual madura, onde o adolescente procura a satisfação do seu prazer fora de si mesmo.

Muitos dos problemas psicopatológicos da idade adulta de que trata a Psicanálise, têm as suas raízes e causas nas primeiras fases ou estádios do desenvolvimento.

3.2 - Erik Erikson (1904-1994) 

Partindo do aprofundamento da teoria psicossexual de Freud e respectivos estádios, ele rejeita a base das pulsões sexuais como única explicação para o desenvolvimento. Embora concorde com Freud sobre o desenvolvimento da personalidade se dar até os cinco anos de idade, ele acredita que tal desenvolvimento vai além desta idade. Assim, propõe 8 estádios do desenvolvimento psicossocial através dos quais um ser humano em desenvolvimento saudável deveria passar da infância para a idade adulta. Em cada estádio o sujeito confronta-se e supera novos desafios ou conflitos, sendo cada fase do desenvolvimento da criança importante, devendo ser bem resolvida para que a próxima fase possa ser superada sem problemas.

Na primeira fase, a criança desde que nasce enfrenta o desafio da confiança ou da desconfiança, onde a qualidade da relação com a mãe e com o provimento ou não de suas necessidades, desenvolve esta confiança em si e no ambiente onde está inserido, afetando de forma inconsciente toda a sua relação com o mundo.

Na Segunda fase ele terá que formatar sua personalidade baseado na vergonha ou na autonomia. Coincidindo com a fase anal de Freud, a criança vai adquirindo bases para sua autonomia na proporção em que consegue controlar sua  musculatura e suas necessidade fisiológicas. O oposto também se desenvolve quando não consegue ou quando, em suas tentativas fracassadas, o bebê até os três anos de idade é envergonhado ou diminuído perante outros por causa de seus limites.

Na terceira fase, que vai dos quatro aos cinco anos de idade, A criança terá que enfrentar o binômio iniciativa\culpa. Quando a criança percebe seus desejos (complexo de Édipo) se sente culpada e para enfrentá-lo concretamente, desenvolve outras relações que possam amenizar e substituir aquela que é seu primeiro impulso social.

Na quarta fase – Indústria e inferioridade – a criança terá como desafio a sua produtividade. Esta fase está relacionada à como a criança enfrentou as fases anteriores e se estas ficaram bem resolvidas e à que nível. Assim, para ter alta produtividade a criança terá que ter bem desenvolvido sua confiança, sua autonomia e sua iniciativa.

Na quinta fase o indivíduo enfrentará o desafio do desenvolvimento de sua identidade e confrontar as confusões que surgem. Esta fase vai dos doze aos dezoito anos. É uma fase de conflitos e mudanças, ele ainda não é um adulto e já deixou de ser criança, fica perdido sem saber como se comportar, o que sentir. Seu corpo é insuflado quimicamente com vários hormônios, o que provoca uma avalanche de sensações e emoções fortes de difícil controle. Essa fase também incentiva ao agrupamento para suprir a necessidade de pertencimento, traz fortes crises religiosas, atos de rebeldia, luta por liberdade e etc.

Na próxima fase a pessoa terá como desafio duas vertentes, por um lado terá que compreender e se adaptar com outras pessoas de forma íntima ou na proporção que se relaciona com as pessoas, passa a se isolar. Esta fase dura aproximadamente dez anos. Dentro de uma determinada normalidade vai dos vinte anos aos trinta. Geralmente é nesta fase que a pessoa se casa e aprende a se relacionar afetiva e sexualmente com intimidade. 

Na sétima fase, chamada de generatividade versus estagnação, a pessoa volta a sua capacidade de gerar e produzir. Aqui ela enfrenta o seu oposto, estagnação e improdutividade. Dos trinta anos até os sessenta, toda sua atenção geralmente é voltada para seu aspecto profissional e sua contribuição social.

E na última fase o ser humano terá o desfecho de todos os ciclos, onde ele terá que buscar sua integridade. A partir dos sessenta anos de idade faz um balanço de tudo o que viveu e produziu, de todo o seu desenvolvimento e se sentirá íntegro ou desesperado.

3.3 Jean Piaget (1896-1980)

Jean Piaget parte da premissa que todo o desenvolvimento pré natal é um preparo para a adaptação do ser humano ao modus viventi aqui na terra. Isto é o biológico que serve de base para o desenvolvimento intelectual. Para se adaptar às condições biossociais o ser humano utiliza dois processos: assimilação e acomodação. Estes  processos são utilizados ao longo da vida, à medida que a pessoa vai progressivamente se adaptando ao ambiente de uma forma mais complexa. Baseado então no desenvolvimento biológico do cérebro ele estabelece quatro estágios.

1. Estágio sensório-motor, De 0 a 2 anos (mais ou menos):

A atividade intelectual da criança é de natureza sensorial e motora. A estimulação ambiental deve ser principalmente de natureza sensorial (visão, audição, tato, paladar, olfato) e motora (movimentos com o corpo). Os estímulos do ambiente irão interferir na passagem de um estágio para o outro. A inteligência é prática. As noções de espaço e tempo são construídas pela ação.

 2. Estágio pré-operacional, De 2 a 6 anos (aproximadamente):

A criança desenvolve a capacidade simbólica, já não depende unicamente de suas sensações e de seus movimentos para compreender um fenômeno. Este período caracteriza-se pelo egocentrismo: isto é, a criança ainda não se mostra capaz de colocar-se na perspectiva do outro, não consegue captar um todo, apenas capta estados momentâneos e ainda não compreende fenômenos reversíveis. A criança não aceita a ideia do acaso e tudo deve ter uma explicação (é fase dos "por quês"); possui percepção global sem discriminar detalhes e deixa se levar pela aparência sem relacionar fatos.

3. Estágio das operações concretas:

A partir dos sete anos de idade até os doze anos aproximadamente, a criança consegue concluir e consolidar as conservações do número, da substância e do peso. Apesar de ainda trabalhar com objetos, (material concreto) agora representados, o pensamento se apresenta mais flexível. A criança desenvolve noções de tempo, espaço, velocidade, ordem, casualidade, mas ainda depende do mundo concreto para chegar à abstração. Já admite e consegue compreender o fenômeno da reversibilidade.

4. Estágio das operações formais:

Aqui tem-se início os processos mentais hipotéticos e dedutivos. Busca-se soluções a partir de hipóteses e não apenas pela observação da realidade. Dos treze anos em diante a criança atinge as estruturas cognitivas mais elevadas em seu desenvolvimento.

Dos 13 anos em diante:

Tem início os processos de pensamento hipotético-dedutivos. Passando por estes estágios a pessoa inteligente é aquela que melhor se adapta ao meio ambiente utilizando seus esquemas cognitivos. 

3.4 Lev Semenovich Vygotsky (1896-1934)

Vygotsky parte do princípio que toda transformação histórico-social afeta e transforma a natureza humana. Na verdade ele estabelece a relação dialética entre o sujeito e o ambiente social onde está. Para ele as estruturas sociais e as relações sociais levam ao desenvolvimento das funções mentais.

Este utiliza a imagem de Piaget em que a pessoa constrói a compreensão do mundo sozinho na proporção em que esta interage com outras pessoas e com o ambiente. Este ambiente é composto de canetas, papel, computadores, símbolos, linguagens, signos e sistemas matemáticos.

Vygostsky sublinhou as influências socioculturais no desenvolvimento cognitivo da criança, demonstrando que este depende do contexto social onde é criada e também que a cultura inevitavelmente irá afetar como a pessoa pensa ou até mesmo sente em relação a tudo.

Assim, a cultura e a linguagem são responsáveis pelas representações mentais construídas pela pessoa durante toda a sua vida; por isso os adultos têm um papel de extrema importância no desenvolvimento das crianças.

3.5 Konrad Lorenz (1903-1989)

Konrad Lorenz nasceu em Viena - Áustria, no ano de 1903, e morreu em 1989. Doutor em medicina e fisiologia, também se dedicou à zoologia e à psicologia comparada, sendo considerado um dos fundadores da ciência Etologia. Criou duas expressões quando se trata de desenvolvimento humano: Imprinting e Períodos Críticos.

Para este teórico existem períodos críticos na vida onde um determinado tipo definido de estímulo é necessário para o desenvolvimento normal. Como é necessária a exposição repetitiva a um estímulo ambiental (provocando uma associação com ele), podemos dizer que o imprinting é um tipo especial de aprendizagem, ainda que contendo um elemento inato muito forte. Na verdade ele queria perceber quais eram os processos fisiológicos envolvidos na preparação e realização de um determinado comportamento.

3.6 Henri Wallon (1879 – 1962)

Segue praticamente a linha psicossociológica. Para ele o homem é determinado fisiológica e socialmente, sujeito às disposições internas e às situações externas. Wallon propõe o estudo integrado do desenvolvimento considerando o sujeito como “geneticamente social” e estudando a criança contextualizada, nas relações com o meio.

A característica básica de sua teoria é que ele não aceita dissociar o biológico do social e vê o desenvolvimento como algo integrado aos vários campos funcionais nos quais se distribui a atividade infantil. O campo afetivo, motor e cognitivo. Esta é uma das características básicas da sua Teoria do Desenvolvimento.

3.7 Alfred Adler (1870-1937)

Nasceu em Viena e tornou-se um dos quatro membros originais do círculo de Freud em 1902. Adler jamais aceitou a primazia ou a importância dos desejos infantis. Desenvolveu sua própria teoria do desenvolvimento socialmente consciente. Ele afirma que o ser humano se empenha por auto-estima e tentativa de superar um sentimento de inferioridade.

Ele igualava saúde psicológica à consciência social construtiva. Seu sistema pode ser descrito como o conhecimento prático concreto da humanidade. Na sua formulação foi muito influenciado pelo conceito da teleologia, que identifica a motivação e metas como motor básico humano, sendo a finalidade o que guia a natureza e a humanidade (Houaiss).

Em contraste com Freud e sua ênfase sobre conflito intrapsíquico inconsciente, Adler via as pessoas como entidades biológicas unificadas e singulares, todas cujos processos psicológicos encaixam-se e justificam um estilo de vida individual. Também criou o princípio de dinamismo - que cada pessoa está direcionada ao futuro e que se move em direção a uma meta. Uma vez que a meta é estabelecida, o aparelho psíquico molda-se em direção à obtenção desta meta. As metas de vida são escolhidas e são, portanto, sujeitas à mudanças; tais mudanças requerem a modificação das memórias, sonhos e percepções para encaixar-se à realização desta meta.

Adler também enfatizou a relação entre a pessoa e seu ambiente social e enfatizou ação no mundo real sobre fantasia. A tendência de se viver em comunidades, aceitação da necessidade de adaptar-se a demandas legítimas da sociedade, etc. A sua dialética demonstra que entre as pessoas e seu ambiente interpessoal ocorrem influências mútuas e cada indivíduo, em suas relações sociais estará constantemente reagindo e moldando o outro.

A principal ideia de Adler mostra que o desenvolvimento consiste em passar de um sentimento de inferioridade para um sentimento de domínio. Cedo na vida, todos têm um sentimento de inferioridade resultante da comparação realista com o tamanho e as habilidades dos adultos. Passar deste sentimento de inferioridade para um sentimento de adequação é o tema principal motivacional importante na vida.

Deste modo, a pessoa ideal empenha-se por superar-se e o faz através de alto interesse social e da atividade; a pessoa emocionalmente incapacitada continua a sentir-se inferior e reforça esta posição através de falta de empenho e interesse social.

Muitos obstáculos biológicos e sociais podem bloquear o desenvolvimento da auto-estima e do interesse social. Órgãos ou sistemas mal desenvolvidos (como visão defeituosa e problemas de coordenação motora), doenças infantis, excesso de cuidados e negligência.

Este teórico enfatiza a harmonia do aparelho psíquico e a desarmonia de estilos de vida errôneos com as demandas do mundo real, ele foca no como viver produtivamente no mundo real e não no explorar conflitos inconscientes. Sua meta foi apontar visões errôneas de si e visões errôneas do mundo e então, mobilizando a vontade, fazer as mudanças necessárias, incluindo uma mudança na meta de vida.

Para Adler desenvolvimento é a busca, feita pelo indivíduo, de interesses construtivos sobre si mesmos e sobre os outros. Qualquer esforço no qual os pacientes podem desenvolver competência real é encorajado, seja social, de trabalho, artístico ou musical.

Enfim, na visão de Adler o desenvolvimento ocorre quando a pessoa constrói um conceito útil de si e do mundo. Acima de tudo, Adler tratava seus pacientes como racionais e como capazes de aprender modos de vida produtivos.

É claro que existem muito mais teóricos sobre a psicologia do desenvolvimento como, Melanie Klein, Winnicott, Lawrence Kohlberg, Burrhus Skinner, Albert Bandura, Arnold Gesell entre outros tantos que contribuíram com novas abordagens, mas aqueles que aqui foram mencionados servem ao propósito de mostrar a grandeza, a complexidade e o potencial de desenvolvimento do ser humano.

4. O Desenvolvimento Humano

Além destes teóricos é também importante mencionar o desenvolvimento perceptivo e da atenção. Estudiosos da área do desenvolvimento humano perceberam que existe um desenvolvimento nas habilidades perceptivas básicas: Visão e audição. Este desenvolvimento se refere à acuidade e à clareza com que se pode perceber o que nos cerca como, por exemplo, o teste de acuidade visual que é feito quando se tira carteira de motorista.

A visão padrão de acuidade é a 20/20, o que significa poder ver e identificar o que está a 6 metros de distância. Esse nível de visão não é alcançado pela criança antes dos 11 ou 12 anos. Assim como a visão, a audição melhora constantemente até a adolescência. A capacidade de determinar a localização de um som é outra habilidade auditiva que, embora não considerada um aspecto da acuidade auditiva, se aprimora com a idade.

Podemos considerar importantes no desenvolvimento do ser humano outros sentidos como o paladar, olfato e tato, embora não tenham sido alvos de estudos porque praticamente todas as pesquisas ao longo da história, e até o momento, voltaram-se para as habilidades visuais e auditivas. Entende-se, portanto, como desenvolvimento da percepção, o  “saber definir para o que olhar, o que focalizar, a que prestar atenção e ao que ignorar”.

Para seguirmos adiante em nosso raciocínio precisamos colocar como questão central aqui o que está implícito nos teóricos mencionados anteriormente isto é, procura-se delinear um tipo de desenvolvimento humano harmônico do indivíduo, que integra não apenas um aspecto, mas todas as dimensões do desenvolvimento humano sejam elas: biológicas, cognitivas, afetivas, perceptivas ou sociais.

Inicialmente vamos fazer uma conceituação de desenvolvimento que possa nos nortear. Vamos diferenciar desenvolvimento da palavra crescimento. Por crescimento entendemos principalmente a questão quantitativa e biológica. Quando o homem atinge a sua maturidade biológica ele pára de crescer em todos os seus aspectos. Inclusive o mito de que as orelhas e o nariz continuam a crescer, ao longo da vida do ser humano, é um engodo. O que realmente ocorre é que a pele perde sua rigidez e a frouxidão da gordura dá a impressão que estes órgãos estão crescendo (ITO & IMADA 2001)

Conceituar Desenvolvimento humano é uma tarefa árdua, visto o tamanho de sua complexidade e com aspectos quase infinitos de abordagens (BIAGGIO, 1978). O tema é tão vasto e tão interdisciplinar que alguns autores sugerem que o estudo do desenvolvimento humano constitua um campo de atuação independente da psicologia (ASPESI, DESSEN & CHAGAS.2005; BRONFRENBRENNER & EVANS, 2000).

Devemos entender basicamente para nosso estudo que desenvolvimento seria o processo de mudanças qualitativas, tais como aquisição e aperfeiçoamento de capacidades e funções, que permitem ao indivíduo o realizar coisas novas, progressivamente mais complexas, com uma habilidade cada vez maior.

Ainda conceituando desenvolvimento humano dentro da perspectiva da psicologia do desenvolvimento temos como “mudanças que ocorrem na vida dos indivíduos” (Papalia e Olds ,2000).

As mudanças ocorrem segundo uma ordem invariante, por exemplo: antes de falar a primeira palavra a criança balbucia, antes de formar uma sentença completa com sujeito, predicado e complemento, usa frases monossilábicas. Antes de andar, a criança senta-se e gatinha. Antes de ir para uma universidade o adulto passa pela educação básica.

Estas sequências seguem um padrão de evolução e, da mesma forma, acontece em outras áreas do desenvolvimento. Embora todo ser humano progrida com certos padrões, a idade em que cada um se torna capaz de executar atividades novas e a maneira como as executa, varia de uma pessoa para outra.

 5. Fatores que Influenciam o Desenvolvimento

Há tantos fatores que interferem no desenvolvimento humano quanto seus aspectos que precisam se desenvolver. Muitas destas interferências começam a atuar antes do nascimento e continuam durante toda a vida dos indivíduos. 

5.1. Aspectos biológicos e psicológicos da própria criança:

- Tendências hereditárias (ex.: propensão à determinada doença),

- Constituição física, sexo (menino ou menina),

- Tipo de personalidade (ex.: introvertida/extrovertida) 

5.2. Aspectos emocionais

- O nível de afetividade, liberdade de carinho e afeto que a criança é submetida, a firmeza ou morosidade como é corrigida. Os incentivos ou críticas estabelecidas durante a primeira infância. Padrões afetivos aprendidos e sustentados durante seu crescimento, etc.

5.2.  Aspectos sociais

- O nível socioeconômico da família, bairro, cidade e país onde nasce

- Religião e cultura

- Casamento/Divórcio

- As formas de se relacionar em família, etc.

- Nas escolas e faculdades, a maneira de se relacionar com os professores e colegas, as propostas pedagógicas e metodologias de ensino que ele experiencia, o tipo de avaliação da aprendizagem e do comportamento à que ele é submetido, etc. 

6. Considerações Finais

Um dos aspectos fundamentais que consideramos como básico para o desenvolvimento humano é a sua espiritualidade. Espiritualidade aqui deve ser definida como estar mais em contato e harmonia com a nossa essência, com o ambiente que frequentamos e com o nosso corpo. Espiritualidade significa estar em contato com o próprio fluxo da vida e essência da Vida e estarmos num trabalho contínuo de formar com ela uma unidade. Essa fonte pode ser vista em nossa metáfora quando vemos uma energia de Vida em explosões e fazendo movimentar milhões de células ao mesmo tempo e cada uma delas para uma produção específica.

A partir desta busca e deste trabalho, todos os desafios e impedimentos precisam ser vistos (atenção e clareza) e posicionamentos racionais, afetivos e ativos precisam ser tomados. Por isso, com toda a certeza, uma das características que mais falta aos homens deste século para prosseguir com seu desenvolvimento é a maleabilidade e confiança na Vida (psíquica e afetiva).

Com o passar dos tempos e das experiências, muitos são aqueles que reagem negativamente, endurecendo e tentando fixar aquilo que ainda não está perfeito. Seja na área cognitiva, afetiva, social, o homem tem um longo caminho a percorrer e como uma fase de crescimento sempre depende da anterior, podemos hoje ficar estacionados na condição em que estamos. Vimos que essa dependência de fases anteriores está clara no crescimento pré-natal (nossa metáfora).

O que fazer diante de tão imenso desafio? Se quebrar para conceituações e reações antigas e estáticas e deixar que tudo se movimente dentro e fora de nós. Aceitar que a vida é uma sucessão infinita de complexas condições. A palavra-chave para atingirmos nosso maior potencial está em deixar o que para trás ficar e prosseguir para o alvo. Ser duro como o diamante e maleável como a água. Isto demanda uma atitude de muita humildade, uma postura de total abertura para o outro e finalmente uma confiança inabalável na energia da vida que é o próprio criador (espiritualidade).

Sobre o Autor:

Jones de Mattos Silva - Pedagogo, Escritor, Professor de filosofia e Sociologia, Mestrando e doutorando em Psicanálise clínica pela FATEC – Faculdade de Teologia e ciências.

Referências:

Artigo científico: Isamu Ito, MD; Masato Imada, MD, PhD; Minoru Ikeda, MD, PhD; Kouhei Sueno, MD, PhD; Tomio Arikuni, MD, PhD; Akinori Kida, MD, PhD. A Morphological Study of Age Changes in Adult Human Auricular Cartilage With Special Emphasis on Elastic Fibers. The Laryngoscope Lippincott Williams & Wilkins, Inc., Philadelphia © 2001 The American Laryngological, Rhinological and Otological Society, Inc.

Artigo: Psicologia individual. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-08].Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$psicologia-individual.

ASPESI, C., DESSEN, M., & CHAGAS, J. A ciência do Desenvolvimento Humano: uma perspectiva interdisciplinar. Em M. Dessen & A. Costa Jr. (Orgs). In: A ciência do desenvolvimento humano – tendências atuais e perspectivas futuras(pp. 19-36). Porto Alegre: Artmed. 2005.

BIAGGIO, A. Psicologia do Desenvolvimento. Petrópolis:Vozes.1978.

BRONFRENBRENNER, U., & Evans, G. Developmental Science in the 21st century: Emerging Questions, Theorectical Models, Research Designs and Empirical Finding. Social Development, 9(1), 115-125. 2000.

DESSEN, Maria Auxiliadora., & A. Costa Jr. (Orgs). In: A ciência do desenvolvimento humano – tendências atuais e perspectivas futuras (pp. 19-36). Porto Alegre: Artmed.  (2005).

HOUAISS. Dicionário eletrônico da língua portuguesa 1.0.7. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva Ltda., setembro de 2004.

MOTA, Marcia Elia da. Psicologia do Desenvolvimento: uma perspectiva histórica. Temas em Psicologia — Vol. 13, no 2, 105 – 111. 2005.

PAPALIA, D. & Olds, S. Desenvolvimento Humano. (D. Bueno, trad.) Porto Alegre: Artmed. (2000).  (trabalho original publicado em 1998)

SIGMUND, Freud. Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos. Volume 18. 1925-1926.

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