Desvelando o Ser Infantil: Algumas Características da Criança Contemporânea

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Resumo: Este trabalho teve como objetivo investigar a percepção que a criança tem sobre a própria infância. Os adultos são portas vozes quando se diz respeito à infância, ou seja, a concepção de infância é aprendida a partir das construções feitas pelos adultos, assim muitas vezes as crianças não podem expressar-se, defender-se ou falar sobre si mesmas. Frente a isso, no presente trabalho procurou-se descrever o contexto em que a infância se apresenta nos dias atuais, abordando temas relevantes sobre o universo infantil. Para tanto, utilizou-se como abordagem teórico-metodológica o referencial da Teoria das Representações Socias e como instrumento para coleta de dados, o Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema, o qual foi analisado a partir da proposta de Aiello-Vaisberg (1997). Valendo-se da metodologia qualitativa, foram pesquisadas 09 crianças de ambos os sexos, com 05 anos completos de uma escola pública da cidade de Diadema, São Paulo, e a partir dos resultados foram definidas categorias como, rotina, consumo e solidão. Pôde-se observar que a infância está passando por um processo de “reinstitucionalização” como resultado das transformações e das crises que acompanham a segunda modernidade, as quais radicalizaram as condições em que vive o homem moderno, e particularmente a infância. Tal reinstitucionalização, tem como núcleo central a inserção da criança na esfera econômica.

Palavras-chave: Infância, Consumo, Solidão, Representação social.

1. Introdução

O interesse pelo presente trabalho se deu a partir das observações que se tem feito por meio do cotidiano, da mídia, e da escola, em relação ao mundo infantil. No que se refere ao comportamento das crianças, esses espaços nos revelam que na sociedade atual, crianças estão se comportando como adultos (adultecer precoce), antecipando assim etapas importantes do seu desenvolvimento, comportamentos esses estimulado pela mídia, pelos pais, etc. Estes dados tem nos chamado a atenção em relação ao futuro dessas crianças.

E isso nos faz questionar: O que é infância? O que é ser criança? Como se constituiu o conceito de infância na modernidade atual? Estas são questões que estão sendo discutidas na atualidade por pesquisadores, antropólogos, psicólogas, educadores, entre outros.

No presente trabalho tomou-se como referencial teórico alguns autores como Sarmento e Pinto (2004), Ariès (1960), Mrech (2003), Calligaris (2000), Postman (1999) e Dolto (2005), no intuito de resgatar não só o conceito de infância, mas também seu significado e assim explicar o que não é explicável, a infância.

Os autores citados esclarecem que crianças sempre existiram desde os primeiros registros históricos, mas o sentimento de infância, de preocupação e investimento da sociedade e dos adultos sobre as crianças surgiram com a modernidade.

A infância, segundo Calligaris (2000), é uma invenção da modernidade, que surgiu na nossa cultura a partir do século XIII e se afirmou no final do século XVIII.

A idéia de infância passou por várias etapas, segundo Postman (1999), desde não ter uma palavra para definí-la até a descrição detalhada de suas características. Ele também aborda o  fato  que  está  ocorrendo  com  a  noção  de  infância,  não propriamente pelo seu desaparecimento, mas pela mudança das referências usadas para conceituá-la. Assim, o autor aponta para uma crise no conceito de infância.

O pesquisador francês Philippe Ariès, em sua obra História Social da Criança e da Família, publicada em 1960, fala que o conceito que se tem da infância foi sendo historicamente construído. A criança, por muito tempo, não foi vista como um ser em desenvolvimento, com características e necessidades próprias, mas sim, como um adulto em miniatura, na maneira de vestir-se, na participação ativa em reuniões, festas e danças. Os adultos se relacionavam com as crianças sem discriminações, falavam vulgaridades, realizavam brincadeiras grosseiras.

A primeira idade é a infância, que planta os dentes, e essa idade começa quando nasce, durando até os sete anos. “Nessa idade aquilo que nasce é chamado de enfant (criança), que quer dizer não falante, pois, nessa idade a pessoa não pode falar bem e nem formar perfeitamente suas palavras” (ARIÈS, 1981, p. 36).

Ariès (1978) ainda comenta sobre a duração da infância, para ele, a infância era reduzida ao seu aspecto mais frágil, “enquanto o filhote do homem ainda não conseguia bastar-se; a criança então, mal adquiria algum desembaraço físico, era logo misturada ao mundo dos adultos” (p.10).

Os adultos são porta vozes quando se diz respeito à infância, ou seja, a concepção de infância é aprendida a partir das construções feitas pelos adultos, assim muitas vezes as crianças não podem expressar-se, defender-se ou falar sobre si mesmas.

Mrech (2003) argumenta que em toda a tradição desde a literatura, passando pela arte, até os dias atuais, apenas o comportamento social da criança é levado em conta, estudado e descrito. A mesma autora comenta que um dos problemas mais sérios da chamada psicanálise com crianças, é resgatar com toda autenticidade a palavra e o brincar da criança, através da sua fala e da sua palavra.

Para que seja resgatado o infantil e a criança é necessário que os adultos fiquem atentos a alguns esclarecimentos básicos (MRECH, 2003):

  • Especificidade da noção de infantil: antes do século XVII, a criança era vista como um adulto em miniatura. São adultos que falam da sua infância e não a criança falando. “A criança tem sido confundida com uma concepção de infância ou de infantil apresentada pelos pesquisadores” (p.107).
  • Reduzido a uma mera etapa do desenvolvimento humano: cada indivíduo se constitui conforme sua experiência vivida. “Como se bastasse saber as etapas do desenvolvimento infantil, para saber como se dá o processo de construção do infantil” (p.107).
  • Processo de desenvolvimento linear e único: este tido como comum a todas as crianças e culturas. “O corpo humano em toda a sua complexidade ainda não foi simbolizado em relação aos referenciais individuais e sociais. A psicossomática revela estes impasses” (p.107).
  • Sexualidade humana: está reduzida a questões físicas, naturais e pré- determinada. A psicanálise trouxe à tona as dificuldades do sujeito em assumir seu sexo.  Comenta  a  mesma  autora  que  Freud  (1915),  assinalava  que  “haveria  uma bissexualidade  inicial,  que  se  manteria  ao  longo  do  desenvolvimento  do  sujeito, levando-o a nunca se constituir plenamente em homem ou mulher” (p.107).
  • Palavra à criança: os adultos acham que as crianças não sabem se explicar muito bem, porque não tem vocabulário suficiente para argumentar, colocando- a em posição de não saber, reduzindo-a na tentativa de deduzir como ela age e pensa. “A psicanálise enfatiza a importância de se passar a palavra à criança, para que ela nos diga quem ela é e como pensa” (p.108).

A criança internaliza a palavra dos adultos que convivem com ela, acreditando na imagem que eles fazem dela. Só que cada criança tem a sua singularidade o seu modo de se estruturar como sujeito do inconsciente.

Assim como os adultos costumam acreditar que a sua imagem a respeito da criança é a própria criança. [...] eles acabam por confundir a imagem da criança universal trazida pelas teorias com a criança particular [...] tomam as ações da criança como tendo um só direcionamento, um só sentido, uma só intencionalidade: aqueles que eles atribuem (MRECH, 2005, p.109).

As crianças também se referenciam com outros contatos - televisão, internet, amigos tanto no contato pessoal como em meios de comunicação, como por pessoas que atribuem significantes para o seu desenvolvimento como sujeito, e sua estrutura. Isto demonstra o quanto ainda a criança não foi percebida em sua singularidade. “A palavra da criança precisa ser resgatada. Para que ela deixe de ser objeto dos desejos e necessidades dos adultos, para se investigar como ela pensa, sente, percebe o mundo a sua volta” (MRECH, 2003, p.109).

Se déssemos voz à criança seria possível que ela relatasse situações que envolvem sentimentos e sensações diferentes da perspectiva do adulto, como momentos de alegria, dando direito a serem respeitadas, como também ouvir histórias tristes, atos de injustiça, violência, desamparo, enfim, a tudo que a criança está exposta.

Mrech (2003) comenta que não basta saber como as imagens, os sentidos, as significações são construídas, é preciso saber como a criança constrói e tece estes objetos interiormente, ao mesmo tempo que é tecida pela linguagem e pela fala, a sua matriz simbólica, porque estas constituirão o sujeito.

Partindo do pensamento de Mrech (2003, p. 17), “como fazer então para acessar aos outros reais, aos outros concretos?” É procurar ouvir as crianças, sem nos colocar em uma posição de defesa como a escuta prévia, para que possamos perceber e resgatar os ideais que colocamos no Outro, pois, caso nós não estivermos interagindo com o Outro concreto, mas com nós mesmos, não poderemos saber o que realmente o Outro necessita.

Deixar o mundo imaginário com sacrifício em proveito ao mundo racional é algo doloroso e real, fazendo parte da castração humana. “a criança reproduz o ciclo da humanidade desde as origens: ela crê na razão mágica ao passo que nós submetemos às leis da ciência que explica tudo de modo racional” (DOLTO, 2005, p. 34).

Neste contexto, como a criança se vê? O que é para ela ser uma criança em um mundo onde a partir do momento que se sai do colo – bebê - e começa a andar, não pode ser e ter comportamentos de criança? “Como repensar a infância e seus problemas na complexidade do mundo atual?” (LEVIN, 2007, p.9).

Segundo Levin (2007, p.11), o mundo da criança mudou como também, as expectativas e exigências sobre ela e para com ela aumentaram. Os tipos de brinquedos são outros, “as crianças da atualidade têm outro jeito de brincar, imaginar, sofrer, pensar e construir sua realidade infantil.

Para  a  mesma  autora  essas  experiências  infantis  estruturam-se  de  maneira diferente que em qualquer outra época, “hoje, o fascínio e a sedução exercidos pela imagem estão em posição central” (LEVIN,2007, p.11).

A mesma autora comenta que as representações não se sustentam mais no objeto externo, e sim na nova realidade computadorizada, informatizada e digitalizada. A realidade artificial, as imagens dominam as crianças que acreditam no oposto, levando-as a uma experiência solitária e individual. Ao se identificarem com a imagem, banalizam o sofrimento, a violência, o perigo, o horror, a dor, a morte, a sexualidade, o pudor, o amor.

Existe o perigo do uso incorreto da tela consumir o elemento infantil, fazendo com que se distorça a experiência corporal.

Nas palavras de Levin (2007, p.15):

Não se trata de julgar, acusar, desconhecer ou dispensar os avanços científicos, tecnológicos, informáticos, digitais. Longe disso, pois eles são necessários, até imprescindíveis, para a criação e a descoberta do universo cênico da meninice. A questão é situar o desenvolvimento atual em função das necessidades, dos desejos e problemas que as crianças nos apresentam, em lugar do contrário, isto é, que o impulso, a imaginação, o pensamento e as experiências infantis fiquem condicionadas à própria evolução e reprodução tecnológica, como tem acontecido até agora.

Ao decorrer do trabalho, abordaremos temas que consideramos relevantes em relação à infância, como foi e ainda é tratada a criança durante as décadas, chegando à atualidade da infância, de alguns aspectos da experiência contemporânea na qual as crianças estão inseridas “mantendo um relacionamento vivo, de transformação, de ruptura, que nos permita refletir não só a respeito do valor estruturante do acontecimento infantil, mas também sobre este modo original de pensamento que não deixa de nos indagar” (LEVIN, 2007, p.9).

2. O Discurso Sobre a Criança e a Infância ao Decorrer das Décadas

“Sercriança, não é ter infância” Lilian S.

A forma de representar a cronologia humana passou por várias mudanças, indicando diferentes formas de representar esses períodos. Essas representações utilizariam os elementos da natureza, estudo dos astros, aspectos das crenças populares, fenômenos naturais e sobrenaturais, os quais faziam parte de um contexto governado pelas leis da teologia, enfatizando uma visão mística. Dessa forma, as representações da idade do homem pareciam abstratas, mesmo porque, muitos morriam antes de percorrer todos os ciclos da vida (ARIÈS, 1981).

Para o mesmo autor a infância era comparada à velhice, pois se, de um lado, temos a infância constituída pela falta de razão, por outro, teríamos a velhice marcada pela senilidade, “porque as pessoas velhas já não têm os sentidos tão bons como já tiveram, e caducam em sua velhice (...) o velho está sempre tossindo, escarrando e sujando” (ARIÈS, 1981, p. 37).

Até por volta do século XII, a arte medieval desconhecia a infância, não tentava representá-la, ou era provável que não houvesse lugar para a infância nessa época (ARIÈS, 1981, p.50).

Como também discorre Dolto (2005), nesta época a criança era considerada aos sete anos como um pré-adulto, para assim ser útil à sociedade, seu grupo social.

Por volta do século XIII, surgiram alguns tipos de crianças que lembram as crianças de hoje, ou seja, mais próximo do sentimento moderno e estas começaram a ser representadas no mundo da arte, através de pinturas (ARIÈS, 1981).

Ele descreveu basicamente três tipos de criança (ARIÈS, 1978, p. 52-53):

    • O anjo, representado por um jovem rapaz, independentemente da idade, as crianças eram educadas para ajudar à missa, eram pintadas com traços redondos e graciosos. O corpo da criança “não é tomado por aquilo que é na realidade, mas por aquilo que a sociedade quer ocultar da infância” (DOLTO, 2005, p.13).
    • Menino Jesus ou pela Nossa Senhora menina. A criança seria o modelo e o ancestral de todas as crianças pequenas da história da arte. A infância se ligava ao mistério da maternidade da Virgem e ao culto de Maria, as crianças eram representadas pelo Jesus em pé vestindo uma camisa leve e quase transparente, tendo os dois braços em torno do pescoço de sua mãe. Aqui se pode observar uma evolução numa direção sentimental em relação à criança.
    • A criança na fase gótica era representada nua, exceto o menino Jesus que na maioria dos casos era enrolado em cueiros. Só ao final da idade média é que ele foi representado nu.
    • Um adendo às palavras de Ariès, a criança a partir do século XIX, era pintada sendo vista como vítima da sociedade (DOLTO, 2005).

Ao tentar buscar uma resposta para esta questão do conceito de infância se faz necessário levar em consideração a época em que estamos, pois ser criança na sociedade contemporânea é muito diferente de ser criança nos períodos históricos anteriores. Segundo Pinto e Sarmento:

Quem quer que se ocupe com a análise das concepções de criança que subjazem quer ao discurso comum quer à produção científica centrada no mundo infantil, rapidamente se dará conta de uma grande disparidade de posições. Uns valorizam aquilo que a criança já é e que a faz ser, de fato uma criança; outros, pelo contrário, enfatizam o que lhe falta e o que ela poderá (ou deverá) vir a ser. Uns insistem na importância da iniciação ao mundo adulto; outros defendem a necessidade da proteção face a esse mundo. Uns encaram a criança como um agente de competências e capacidades; outros realçam aquilo de que ela carece (1997, p. 33).

Ferretti (2004, p.24) comenta que Rousseau aponta um esclarecimento do que é o infantil, pois, na sociedade há um desconhecimento sobre a infância, esquecendo-se de levar em conta o que ela é, e as “condições de aprender em sua singularidade: ela é algo antes de ser homem, sujeito sobre o qual deve agir”.

Ressalta Postman (1999) que a "cultura" infantil ganhou uma nova conotação na sociedade contemporânea, alterando, inclusive, características próprias como a vestimenta, a alimentação, a linguagem e as brincadeiras.

Ariès (1981, p.72) afirmava que “podiam-se observar as etapas do crescimento das crianças através do seu traje” quando se referia àquelas bem pequenas, três ou quatro anos.

Segundo o mesmo autor, foi na Idade Média e por muito tempo ainda que nas classes populares as crianças que eram capazes de dispensar ajuda das mães ou das amas, ou seja, depois do desmame tardio, por volta de sete ou oito anos, eram ingressadas na comunidade dos adultos, onde não havia uma diferenciação de idade, nos trabalhos e jogos cotidianos, assim eram transmitidas a cultura e os valores da sociedade para a criança.

Observa-se que a passagem da vida infantil para a vida adulta seria uma condição a ser superada, “a passagem da criança pela família e pela sociedade era muito breve e muito insignificante para que tivesse tempo ou razão de forçar a memória e tocar a sensibilidade” (ARIÈS, 1981, p. 10).

Segundo Dolto (2005), em 1677 perder uma criança era a mesma coisa que perder um objeto, fazia parte dos acontecimentos comuns. Na idade média era um fato comum, tanto nascer quanto morrer crianças, a criança não era vista como um sujeito e sim como um objeto.

Antes de 1789, comenta Dolto (2005), o nascimento da criança como sujeito se deu através da aprendizagem, como sendo um rito de passagem, um sujeito do fazer - este fazer de algo útil – tratada como uma máquina de produção, pois a educação se dava no bater; era permitido bater até que esta morresse.

Pio X, no século XVI, antecipou a idade da razão para sete anos estabelecido no Concílio de Trento (1545-1563) - decretos disciplinares que especificaram claramente as doutrinas católicas quanto à salvação e o índex, no momento da contra-reforma. No século XVI, meninos e meninas de 12 anos eram admitidos à mesa de comunhão e à mesa da família, somente depois de passarem por um ritual da comunhão solene, e pela confissão geral das faltas, perdão, tendo consciência ou não pelos atos cometidos aos pais em sua infância - sendo o momento em que se considerava o término da infância. Diante de Deus tornavam- se iguais aos pais, podendo ter uma inserção social (DOLTO, 2005).

A partir do século XIX, esta visão de infância muda, isto é demonstrado na pintura com a distinção entre menino e menina, sentimentos pintados no rosto dotado de afetividade, um ser humano. Como a atitude perante a esta criança também mudou dentro do âmbito familiar, colocando-a como aprendiz aos sete anos em casa e não mais para o fora de casa (DOLTO, 2005).

Segundo a mesma autora, na primeira parte do século XX tratam a criança como personagem integral e cercada de símbolos, que as aprisionam. Símbolos estes de uma projeção dos sonhos, da idade de ouro perdida.

Nas palavras de Mrech (2003, p.19):

A infância está inserida “num momento novo na história da humanidade: o da sociedade da informação e da globalização [...] um agir e pensar iguais em todos os contextos sociais [...] e o que vem sendo excluído na sociedade atual é a diferença, a singularidade, as exceções [...] e o que impera é a semelhança, o grupo a padronização.

Vivemos numa sociedade que transforma tudo em produto, até mesmo a emoção humana. Os objetos tornam-se os produtos mais elaborados de uma cultura, que se caracteriza pela criação contínua do lixo e do desperdício (MRECH, 2003)

Ao decorrer do desenvolvimento humano, a visão perante as crianças foi se modificando e seriam necessários estudos mais apurados sobre o que é ser criança, de qual é a concepção desta criança e sobre o meio onde ela vive. Ainda é preciso muito tempo para e um olhar aguçado perante a criança para que a constitua como sujeito de diretos dentro desta realidade da sociedade moderna, pois a mudança de visão perante a criança estacionou na idade média e depois da segunda guerra mundial, ela ressurge como consumidora. Percebe-se a construção ainda deste saber, e de que a imagem que hoje temos das crianças está em construção e que esta ainda não existe como sujeito de direitos. Por mais que a sociedade tenha elaborado um dizer sobre estas ainda não existe a explicação sobre este tema, em explicar o que ainda é inexplicável, a infância.

A infância é parte da sociedade. Antes para o entendimento da infância, o que Pinto e Sarmento (1997, p.25) salientam:

Que olhar das crianças permite revelar fenômenos sociais que o olhar dos adultos deixa na penumbra ou obscurece totalmente. Assim, interpretar as representações sociais das crianças pode ser não apenas um meio de acesso à infância como categoria social, mas às próprias estruturas e dinâmicas sociais que são desocultadas no discurso.

Para investigar a infância vista pela própria criança, se faz necessário pontuar de que crianças estamos falando, de que camada social, faixa etária, bem como o a época em que estamos falando etc. Isso porque não se trata de uma infância e sim de várias infâncias a depender do contexto socioeconômico, cultural e psicológico.

3. Representação Social

Segundo Jodelet (2001), Durkheim foi o primeiro a postular a existência de um tipo especial de produções mentais sociais, localizando-as no conceito das representações coletivas, tendo sua origem na Sociologia e na Antropologia e servindo de base para o conceito de Representações Sociais, conceito este mencionado pela primeira vez por Moscovici.

Moscovici em 1961 recuperou este conceito, ampliando sua análise. Para ele a representação social engloba explicações, ideias e manifestações culturais que caracterizam um determinado grupo. As representações sociais podem ser observadas nas interações com o outro, no cotidiano das pessoas, na maneira como elas pensam sobre algum objeto, ou dão significado a ele.

Segundo Jodelet (2001) as representações sociais circulam nos discursos, nas palavras e nas mensagens mediáticas, materializando-se em condutas e organizações materiais e espaciais. As representações sociais são criadas pelas pessoas e grupos. Para Moscovici (2003) “uma vez criadas, contudo, elas adquirem uma vida própria, circulam, se encontram se atraem e se repelem e dão oportunidade ao nascimento de novas representações, enquanto velhas representações morrem” (p. 41).

Para o mesmo autor, as representações sociais são fruto tanto de traços individuais, quanto coletivos, pois, o sujeito constitui-se na interação com o mundo e seus objetos, ou seja, com o outro, “e emergem de uma forma em que o sujeito ou grupo adquire capacidade de definição, uma função de identidade, que é uma das maneiras como as representações expressam um valor simbólico” (p.20-21)

Para Moscovici (2003, p.54) a finalidade de todas as representações “é tornar familiar algo não-familiar, ou a própria não-familiaridade”. Isto é uma alternativa de classificar, categorizar e nomear novos acontecimentos e idéias, com as quais não tínhamos contato anteriormente, para que possa possibilitar a compreensão e manipulação destes a partir de idéias, valores e teorias já preexistentes e internalizadas por nós e que são aceitas pela sociedade.

E ainda na tentativa de conceituar a representação social, Moscovici (2003) fala que ela é equivalente, em nossa sociedade, “aos mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais” (p. 181).

Segundo Aiello (1997), questões antropológicas, sócio-psicológicas, sociológicas e cognitivas têm sido tematizadas através da teoria das representações sociais de Moscovici e, tem recebido atenção dos pesquisadores os mais variados objetos sociais, “desde a representação social da psicanálise até a representação social da loucura, da homossexualidade, feminilidade, do trabalho, do amor” (p.255).

Pode-se pensar que as investigações sobre esses objetos sociais são necessárias para que faça possível, intervenções acerca do objeto investigado. Para Aiello (1997), são necessárias investigações que elucidem o campo estruturante das representações sociais para, a partir daí, ser possível a concepção de intervenções pertinentes, de acordo com o paradigma clínico.

Para a autora, grande parte dos estudos se atém à utilização de procedimentos de coletas de dados sem dar ênfase às dimensões inconscientes desses fenômenos e assim não chegando às devidas intervenções que têm por finalidade a desconstrução de representações. Ela fala sobre um exemplo claro – o tratamento que os pacientes soropositivos vinham recebendo em hospitais no qual foi constatado que o medo de contágio é maior em pacientes homossexuais e prostitutas e menor se for uma esposa fiel, neste caso, os cuidados de assepsia são relaxados neste segundo caso e exagerados no primeiro.

Sendo assim, Aiello (1997) diz que somente quando a pesquisa pode produzir conhecimento acerca do inconsciente relativo da representação social da soropositividade, podem ser realizadas intervenções que focalizem aspectos informativos acerca do contágio, bem como o substrato afetivo-emocional, para que então se desconstrua a representação social da AIDS, fazendo nascer outras.

Nesse sentido pode-se pensar, porque queremos saber sobre a representação social da infância? E ainda, vista pela própria criança? Porque é a partir daí que poderemos saber o que a criança está pensando sobre a infância dela ou de colegas, Daremos então voz para que ela diga o que se passa com ela em relação à infância, para depois se necessário, pensar em intervenções.

Dolto (2005) diz que é na criança bem pequena, de quatro anos, que devemos dar atenção particular, que tudo se decide antes dos seis anos e quando diz “tudo se decide” não quer dizer a futura carreira ou o sucesso social, “mas sim de tudo que se pode sobre o plano da prevenção para evitar lesões, bloqueios, deslizes” (p.326).

A mesma autora ressalta que estar à escuta das crianças não é observá-las como um objeto de pesquisa, nem procurar educá-las, “mas respeitar e amar nelas essa geração nova que elas trazem” (p.326).

3. A Infância Simbólica da Humanidade: a Criança e a Sociedade

O olhar para a criança tornou-se objeto de preocupações, meditações, planos e projetos de exploração e debate, que só triunfou quando a sociedade tradicional cedeu o passo ao individualismo que domina a nossa sociedade moderna. A infância preenche a função cultural essencial de tornar a modernidade suportável, de estender o sentido e a expectativa de suas vidas para além do limite de sua sobrevivência individual (CALLIGARIS, 2000).

Valladares (2005) comenta que Freud ao considerar a infância como condição fundamental do humano, ajudou a dar um novo olhar à criança através de seus longos estudos de casos clínicos.

Com o surgimento do panorama psicanalítico de Melanie Klein passou-se a investigar e trabalhar com crianças pequenas e com o comportamento de bebês, possibilitando uma contribuição para o progresso da psicanálise com criança (VALLADARES, 2005).

Os seres humanos nascem prematuros, precisando de cuidados para assegurar a sobrevivência da espécie. “Sem uma dose brutal de amor dos pais e esforços, nossa espécie estaria presumivelmente ameaçada [...] sem amor e cuidados de certo não sobreviveriam” (CALLIGARIS, 2000, p.61). E ainda acrescenta que qualquer adulto parece estar na dupla missão de proteger as crianças e torná-las feliz trazendo a idéia de um tempo da vida distinto da idade adulta, miticamente feliz, protegido pelo amor dos pais. Este amor e cuidados pelas crianças no decorrer dos tempos não foram sempre os mesmos.

Todavia, não podemos desconsiderar o fato de que nenhum adulto pode viver sem ter sido criança. A infância termina e esse final não tem retorno, sem dúvida, mas o elemento infantil que nela se estabelece perdura no tempo. “Mais preocupados com o final do que com o início, os adultos  tendem a esquecer o lado infantil, em lugar de tentarem recuperá-lo com afinco (LEVIN, 2007, p.13).

A cada dia a preocupação em relação à família e a infância está se evidenciando até mesmo nos meios de divulgação popular, como comenta Avoglia (2006), “mesmo separados os pais devem deixar de lado questões pessoais e ajudar a criança a se integrar à nova realidade [...] É preciso ter equilíbrio. A família deve ser modelo de amor, compreensão e tolerância” (p.41). E assim mostra que muitos veem nessa diversidade familiar um ponto positivo se, introduzirem a criança adequadamente na família, respeitando seus espaços, opiniões, etc. Mas, não podemos deixar de apontar que a realidade atual registra situações especificas na vida familiar: desemprego dos pais, pais ausentes, meio irmãos, drogas etc. Esta diversidade de situações pode desestruturar a criança, que precisa ser indicada para onde deve ir, como deve ir, já que está em formação.

Com a vinda de um bebê há uma mudança na estruturação desta família. Quando uma mulher tem um bebê, ela tem direito legal a 120 dias de licença-gestante - decretada no Art. 392 da consolidação das leis do trabalho CLT. Após o período de licença maternidade, esta mulher volta ao trabalho, momento no qual se inicia o desmame do bebê, sendo que do ponto de vista psicológico e biológico para este bebê é um momento precoce e delicado do seu desenvolvimento emocional. É quando ele começa a lidar com perdas, separações, luto.

Segundo Valladares (2005), os pais e filhos vivem numa sociedade globalizada, dominada pela invasão de imagens, pela televisão, onde o espaço para indagação e reflexão está cada vez menor e a febre do consumo tampona as faltas, a castração, a dor psíquica.

A criança hoje é educada pela escola e pelo ambiente sócio-cultural onde está inserida, ficando para os pais, algumas vezes, somente os cuidados materiais, que são impostos para a criança como forma de tapar a ausência destes. Esses cuidados são os mais variados possíveis, com um gigantesco aparato tecnológico de computadores, vídeo games, MP3 e outros objetos, fazendo com que as crianças atualmente tenham uma super exposição a alguns subprodutos bastante específicos do mundo capitalista.

Vivemos em um momento no qual a imagem impera sobre os sujeitos, os ideais tem sido continuamente recriados acabando por se transformar em seu produto mais destacado, a saber: o corpo ideal, a relação ideal, a família ideal, tudo isso com uma concepção prévia e não como um processo de vinculação a um contexto valorativo (MRECH, 2003).

Para a mesma autora esta é uma forma padronizada de conceber o mundo, no qual todas as crianças precisam brincar com os mesmos brinquedos, onde a indústria vende esse valor a ser consumido não importando a idade, mas a regra é consumi-lo porque o outro tem que sair logo do mercado ou até manter os filhos mais “quietos, comportados”.

A cada dia, as crianças são deixadas mais cedo afastadas dos seus pais. São crianças de dois anos em escolinhas, creches, babás, e até sozinhas. O ficar sozinha não precisa ser somente no sentido de ausência destes pais, pois muitas vezes os pais podem estar em casa, mas não interagem com essa criança.

Na sociedade em que vivemos cada sujeito tem de se portar conforme a sua idade. As pessoas que não exercem esse tipo de comportamento dito “correto” são ridicularizadas pelas suas atitudes, desde vestuários, modos de se comportar, falar, como agir e sentir suas emoções.

No imaginário social contemporâneo, as estruturas de alienação que Mrech (2003) discute, passam a se tornar a corporificação de um modelo que fornece uma crença prévia, estereótipos de como os sujeitos devem pensar, fazer, ensinar, aprender, sentir e agir socialmente, criando-se uma crença de um saber universal a ser seguido por todos, sendo mais um produto de consumo.

Estas são estruturas de alienação do saber ou estruturas sociais que fornecem o código geral onde os sujeitos terão guias de condutas de ações determinadas para os seus comportamentos diante da sociedade (MRECH, 2003).

Diante disso parece estarmos perdendo nossas crianças, ou pelo menos o sentimento que a infância nos traria.

Dolto (2004) ressalta que hoje o homem não é o que ele acreditava ser e a criança não é o que eles creem que ela seja. “Os adultos reprimem em si a criança, ao passo que visam que a criança se comporte como eles querem” [...] “Ele visa fazer com que se repita uma sociedade para adultos” (p.176).

Hoje temos um saber a ser consumido e não um produto real estabelecido e elaborado pelos sujeitos, que acaba não dando conta de dizer a realidade, é uma forma padronizada de conceber esta realidade. Este saber não é estático, é modificado e transformado em cada época e no meio biopsicossocial. (MRECH, 2003).

Este saber em relação à infância, para as crianças, não está sendo diferente, é algo ambíguo, de não saber quando pode fazer algo e quando não pode, ser muito criança para fazer algo e em outros casos ser grande demais, quando tem de brincar e quando não. Essa ambiguidade vem se ampliando a cada dia, como se observa nas palavras de Sarmento e Pinto (1997):

As crianças são importantes e sem importância; espera-se delas que se comportem como crianças, mas são criticadas nas suas infantilidades; é suposto que brinquem absorvidamente quando se lhes diz para brincar, mas não se compreende porque não pensam em parar de brincar quando se lhes diz para parar; espera-se que sejam dependentes quando os adultos preferem a dependência, mas deseja-se que tenham um comportamento autônomo; deseja-se que pensem por si próprias, mas são criticadas pelas suas 'soluções' originais para os problemas (p.13).

Infelizmente os filhos são superexpostos à mídia, logo, os pais acabam esquecendo-se que afeto, carinho, e atenção são fundamentais para o desenvolvimento afetivo e relacional pais X filhos.

As bases principais da família configuram-se pela qualidade das trocas afetivas que ocorrem entre os vínculos estabelecidos entre pai-mãe-irmãos que fundamentam as relações que o sujeito construirá, e será um modelo ao longo da vida. E “no futuro buscará referenciais similares aos que lhe foram apresentados na infância. Tais valores são internalizados apenas quando pessoas significativas lhe atribuíram sentido” (PASSOS, 2008, p.9).

Na sociedade atual está sendo difícil a conciliação dos pais entre casa e família. É uma tarefa complexa

4. Os Males da Sociedade e a Criança Hoje

“Quando a realidade técnica da imagem atinge essa perfeição que tanto cativa e fascina as crianças, qual é a fronteira entre o real e o simulado, entre presença e ilusão, entre realidade e aparência”? (LEVIN, 2007, p.11).

Antes da chegada da televisão, o espelho era a primeira janela onde ela descobria uma criança, que logo compreendia que era ela mesma no espelho (DOLTO, 2005).

A televisão na vida das pessoas é algo que não se pode contestar, quase tudo que é comentado hoje, se refere a algo que foi noticiado ontem na T.V.

Segundo Abarca (2004), “ela é o símbolo da modernidade, da capacidade de noticiar os fatos ao vivo para todo o mundo via satélite” (p.09), mas esse fato não parece tão ruim. Ruim é o mau uso que se faz dela, e esse mau uso permite que ela isole as pessoas. Se uma família está reunida vendo televisão, não estão interagindo entre eles, apesar de estarem no mesmo ambiente, e, não se pode conversar para não atrapalhar o som vindo do aparelho.

Com a introdução da televisão na vida das pessoas, surgem consequências no processo de educação dos filhos e estrutura familiar. “A família fica sujeita às tendências ideológicas das emissoras, que estão a serviço de uma informação de consumo e da consequente individualização das pessoas” (ABARCA 2004, p. 10).

Hoje, são muitos os autores que se referem aos efeitos causados pelo uso inadequado da televisão, computador e vídeo-game como, por exemplo, (SOIFER, 1992; POSTMAM, 1987; MYRTEK e SCHARFF, 2000).

Em geral esses autores se referem aos cuidados que os pais deveriam tomar em relação aos seus filhos frente à televisão, segundo eles o uso da televisão traz sérios transtornos  como,  por  exemplo,  mania,  onipotência,  ansiedade  fóbica,  tendência  à imitação, submissão (Soifer 1992), e agressividade (Postmam 2002).

Está comprovado que, quanto mais as crianças veem TV, pior são as notas na escola entre onze e 15 anos, além do déficit da aquisição do vocabulário em crianças de oito a 16 meses de idade, Myrtek e Scharff (2000).

O sono também é prejudicado pelo mau uso da televisão. Segundo Abarca (2004), “até os seis anos, a criança necessita de onze a doze horas de sono por noite. Dos seis ao final da adolescência, necessita de nove a dez horas”. (p.34). Como também comenta que a televisão tem a capacidade de atrair as pessoas e envolvê-las na sua programação, direcionando o telespectador a neutralizar outros estímulos e estar voltado só para ela.

Hoje as crianças, mal levantam já se colocam no sofá para assistir aos programas infantis, ou então são colocadas pelos cuidadores e ali ficam durante horas.                                                                           Soifer (1991) diz que esses são momentos marcados pela:

Sensação de prostração, atordoamento, inércia e incapacidade [...] quantas vezes desejamos que outros desligassem o aparelho para nós, e quantas outras, agradeceríamos que alguém compreendesse nossa situação e nos alcançasse o que necessitamos e não podemos buscar (p.9-17).

A exposição intermitente do ritmo frenético de imagens que se sobrepõem umas às outras, sem que o pequeno espectador tenha tempo de assimilar o conteúdo do que vê, se incorporam ao seu inconsciente (SOIFER, 1991)

Para a autora o correto é que não se deveria oferecer-lhes essa suposta recreação, pelo menos antes dos cinco anos de idade. Esta idade é  considerada porque a partir desse período e, tendo se desenvolvido em condições normais, uma criança sabe medianamente diferenciar a fantasia da realidade, e porque seu psiquismo já tem certo grau de organização e solidez.

Ela comenta ainda que o ato de assistir programas televisivos deveria ser ocasional, ou seja, apenas meia hora, uma vez por semana para crianças entre cinco e seis anos, já que ainda estão desenvolvendo suas funções intelectuais, quer dizer, sua capacidade de aprendizagem.

Para Postman (1999), o “desaparecimento da infância”, expressão usada por ele, deve-se aos meios de comunicação, em especial à televisão, que transmitem às crianças imagens do mundo adulto, mesmo em programas “infantis”.

Os desenhos animados substituíram as histórias contadas às crianças pelos adultos. Os heróis, animais anões possibilitam que os menores de cinco anos se identifiquem com eles, e as crianças que têm pouco vocabulário compreendem o texto latente. É pena faltar uma pessoa amada que traduza em palavras as emoções suscitadas por essa história em imagens que fazem eco a experiências reais ou a fantasmas que as crianças criam nos momentos de solidão (DOLTO, 2005, p.41).

A mesma autora se refere aos desenhos animados dizendo que são histórias sem palavras, com som e colorido. São histórias ou/e heróis que resolvem com amor os problemas da vida, como “de sobrevivência, de vizinhança, de rivalidade, de prestígio, de inveja, de malevolência, de maus tratos, de violência, do fraco vitimado pelo forte” (p. 41).

Com a aparição de comerciais para crianças, a partir de 1968 ela passa a ser considerada como consumidora. A publicidade brinca com a linguagem visual e verbal, indagando Dolto (2005, p.42), se “É possível que a publicidade por meio da linguagem visual e verbal desenvolva as faculdades críticas da criança mais do que a escola?”

5. A Criança na Família: Relações Significativas

A infância é o momento onde se estruturam as primeiras bases da personalidade, através dos cuidados da função materna e paterna transmitindo segurança, carinho e afeto. É a partir disto que começam a ser “introjetados” pelo bebê, através do processo identificatório, resultante de uma multiplicidade de identificações parciais, os primeiros valores sócio-culturais, particularmente os da família (VALLADARES, 2005, p.2).

Mrech (2003, p.75) comenta que para Lacan “o sujeito olha o mundo com uma concepção prévia introduzida pelo Outro. O sujeito começa com algo que vem do Outro”.

No século XVII, as crianças eram criadas por amas, apenas as babás e as amas conheciam as crianças, pois os pais as ignoravam (não sendo diferente de hoje, no qual é a escola, a babá, o google, o outro que conhece o seu próprio filho). A criança encontrava-se identificada com amas e educadores; se identificava e se projetava para o mundo agindo como eles. Somente no século XVIII e XIX que as mães começaram a amamentar seus próprios filhos, conforme Dolto (2005), em historiedes mères du Moyen age à nos jours.

Neste âmbito, um tema relevante a ser abordado é o instinto materno, ou amor materno. Muitos ficam escandalizados quando a mulher decide não ter filhos, ou não é aquela mãe tão apegada que deixa de viver seus planos em função dos filhos. Mas segundo Banditer (1985), até o século XVIII as crianças ao nascerem eram entregues às amas-de-leite, para serem amamentadas e só voltavam ao lar depois de três ou quatro anos.

Badinter (1985) afirma que o primeiro sinal de rejeição do filho está em recusar-lhe o seio, mesmo porque isso poderia significar uma possibilidade maior de sobrevivência da criança.

Hoje ao invés de ser entregue às amas, esta é levada a creches ou babás – locais onde se encontra grande quantidade de crianças juntas - e muitas destas instituições estão despreparadas para exercer a função de “mãe substituta” (VALLADARES, 2005).

Badinter (1985), na interpretação dos processos de criação e educação das crianças comenta sobre três atos de abandono que pode ser observados. Primeiro na entrega do filho a uma governanta e depois a um preceptor, após o aleitamento. O segundo ato de abandono é no período medieval, no qual a escolha do preceptor é pelo mais barato e menos qualificado, e o terceiro ato é o envio das crianças para a aprendizagem e para a escola, é um exemplo de “como abandonar seus filhos de cabeça erguida” (p.127-131).

“Como explicar que uma mulher que já perdera dois ou três filhos colocados em casa de amas-de-leite continuasse a enviar outros filhos para o mesmo lugar?” (BADINTER, 1985, p.13). E depois de três ou quatro anos como seria esse encontro, ou seja, de uma mãe e filho que não estiveram juntos nesses primeiros anos?

A mesma autora entende que dizer que as mães não sabiam o que acontecia é querer eximi-las de um pecado insuportável que é o desinteresse pelo filho, e essa prática de entrega da criança à ama-de-leite é considerada uma forma de se livrar dos bebês e, uma forma de recusa da maternidade. Ressalta ainda que esses encontros não eram muito felizes na maioria das vezes, “o amor materno é um sentimento humano. E como todo sentimento, é incerto, frágil e imperfeito” (BADINTER, 1985, p.22).

Segundo Dolto (2005), “não podemos simplesmente dizer que o amor materno não existia no século XIX, e sim que não é historicamente exato” (p.94).

A função paterna tem o emprego de super-ego. Freud (1933), especifica as atividades do super-ego: a) a função do ideal, ideais e normas, que serve como parâmetro comparativo de referência - o que o sujeito deve ser; b) a função de auto- observação e, por fim, c) a consciência crítica, a qual contrasta as normas e ideais com as representações do sujeito – que castiga ou premia.

A função de autoridade exige maturidade, preocupação, cuidado, respeito, responsabilidade, disponibilidade, esperança e fé no desenvolvimento do outro. “A cabeça que porta uma coroa não possui tranqüilidade” (Henrique IV, Parte 2, 3° Ato, Cena 1, linha 31).

A função da autoridade é criar, garantir e propiciar a vida de seres sociais, capazes de respeitar tanto aos outros como a si mesmos, para que as potencialidades humanas possam vir a florescer num autêntico desenvolvimento psíquico e em permanente construção do si mesmo.

Segundo Dolto (2005 p.23):

O número de pessoas com a as quais a criança tem contato é mais reduzido em relação ao número de adultos que a cercavam antigamente [...] cada vez mais fechadas na tríade: pai, mãe, filho único. Finalmente sufocada neste núcleo, enquanto tendemos a dizer que, por ter televisão, por sair em grupos e por viajar, a criança tem o seu espaço ampliado. Isto é muito relativo. Ela tem um espaço material ampliado, mas um espaço relacional-afetivo reduzido.

Isto é relativo porque se percebe, nos dias de hoje, as relação que são estabelecidas entre as pessoas, a criança tanto quanto o adulto achou outros meios de se comunicar com o outro sem sair de sua casa ou trabalho. A internet, por exemplo, onde tem os sites de comunicação como o Facebook, Orkut, Twiter, Msn, entre outros que são os quais o sujeito mantém uma relação “afetiva”, mas fria, distanciada, de se reunirem, sem saírem de suas individualidades e relações interpessoais. “Mas em que medida mudou o espaço no qual a criança se desenvolve?” questiona Dolto (2005, p.43).

A mesma autora responde que hoje o espaço da criança é mais fechado do que na era medieval devido à privatização dos espaços sociais e familiares.

O fenômeno da privatização do espaço é algo da modernidade. Desde o século XV, começou-se a reunir a família em um lugar em comum, onde as atividades e repousos aconteciam no mesmo local, mas, isto fez com que se reduzisse a convivência com outras pessoas, reduzindo os espaços de vida (DOLTO, 2005).

O que ela ganha em trocas coletivas com parentes mais próximos, mais atentos, mais preocupados com sua saúde, ela perde em autonomia, em contato com os outros. Esse fechamento burguês lhe confere uma proteção ilusória, pois apenas a experiência dos riscos imuniza verdadeiramente contra os perigos que podem ameaçar sua integridade física (DOLTO, 2005, p. 44).

Em 1990 é estabelecido o terror da violência, com a entrada da globalização, a internet, fazendo com que a criança fique mais e mais utilizando estes meios de comunicação, pois, estas não podem sair de casa, brincar na rua, verem seus amigos como era feito nos anos 80.

Podemos pensar que existem resquícios de antes da guerra de 1914, conforme Dolto (2005) as crianças tinham de ir da escola para casa, sem passar em outro lugar, e quando estavam na rua na hora do período de aula, caso os policiais a pegassem, estas eram levadas às delegacias, até que os pais as retirassem e pagassem uns trocados. Hoje a criança passa o dia trancado na escola, depois que saem de lá, não se sabe aonde ir.

A criança tem hoje a dupla internação, segundo Dolto (2005), a da família e da escola, “o espaço concedido à criança das cidades estreita-se cada vez mais. E o que resta é ser trancado, balizado, delimitado por proibições” (p.49).

Segundo a mesma autora, os pequenos aldeões ao caminho da escola viam as paisagens, inventavam esconderijos marcavam encontros. Diferentemente de  hoje, onde as crianças ou são levadas por seus pais de carro ou o transporte escolar, que os leva como uma encomenda, privatizando-os de todo o contato com a natureza,

para os pais saber a dosagem do que fazer e o que não fazer.

6. O Vestir, Meu ou do Outro?

Segundo Calligaris (2000), a criança moderna é objeto de contemplação, agrado e descanso para os olhos dos adultos, criando, vestindo, arrumando as mesmas para comporem uma imagem perfeita e segura de felicidade, sendo tidas como mini-adultos.

Dolto (2005) cita, a partir do livro L’ enfantetlaviefamilialesousl’AncienRégime, um comentário de 1655, onde explica que as meninas usam as mesmas roupas que a mãe - modelos reduzidos - e as ajuda nas refeições. No entanto, por volta do séc. XVII, os meninos não são vestidos como seus pais, mas sim como seus avôs dos tempos medievais, demonstrando que neste século tanto para a menina quanto para o menino, não haviam ainda inventado roupas, fazendo-os usar as roupas dos adultos do passado.

Ariès (1973) comenta sobre um diário da família de Luis XIII, no qual foi registrado o pequeno Delfim em 1602, com um ano de idade, usando um vestido com tiras a guisa de guias; aos três anos e dois meses recebeu seu primeiro vestido sem as guias e ficou encantado, podendo andar sozinho; aos quatro anos usou calças justas pelos joelhos por baixo do vestido e aos cinco anos foi-lhe retirada a “touca de criança” e recebeu um chapéu de homem. Esse ato de receber um chapéu de homem tinha um significado: “Agora que deixais vossa touca, não sereis mais uma criança, começais a vos tornar homens” (ARIÈS, 1973 p. 73).

Aos sete anos e oito meses foi vestido com um “gibão” (casaco de couro usado por vaqueiros) e calças pelos joelhos, porém algumas vezes, era-lhe colocados novamente o vestido e, ele não gostava disso. Quando “vestiam o gibão e as calças pelo joelho, [...] ficava extremamente contente e alegre, e não queria pôr o vestido”.

Assim ele conclui que o ato de se vestir, portanto, não é apenas uma frivolidade. “A relação entre  o traje e a compreensão daquilo que ele representa está aqui bem marcada” (ARIÈS, 1973 p.73).

No século XIII, “assim que a criança deixava os cueiros, ela era vestida como os outros homens e mulheres de sua condição” (ARIÈS, 1978, p.69).

Segundo Dolto (2005), no século XVII quando as crianças davam os primeiros passos ou os pais saiam, estas eram amarradas com as fitas de sua roupa, ou com rédea de cavalos, penduradas a parede para que ficassem longe dos ratos e aquecido. Hoje ainda se vende arreios nas lojas para que fique aos olhos do adulto.

Apenas no século XIX a criança aparece com atitudes de criança em grupos de amigos ou de irmãos. Neste período a distinção entre os sexos eram os meninos de cabelos compridos e as meninas de cabelos presos, avental e vestido (DOLTO, 2005).

Na visão moderna da infância, a criança era vestida aquém da diferença sexual, seu desejo era negado, atribuindo a um ser “não desejante” de que sorriam que são amadas, encantadas, vivendo em outro mundo (CALLIGARIS, 2000).

Dolto (2005) comenta que após maio de 1968, a criança é considerada como consumidora. A mídia hoje reforça esse comportamento, com lançamento de cosméticos, batons, fixador para cabelo para as meninas, como, por exemplo, o 1º salão da Barbie aberto em Buenos Aires. Hoje as meninas não usam vestidos coloridos e sapatinhos de boneca, mas vestem-se com roupas de jovens adultas. Os meninos andam, falam e agem como adolescentes, assim eles estão a cada dia, mais autônomos e exigentes com tudo em sua volta, achando que com cinco anos não é mais criança, mas isso não acontece só na atualidade.

Então se pode perguntar, porque a preocupação hoje em relação às crianças quererem  se  vestir  como  adultos?  Na verdade  a  preocupação  é:  O  que  esse comportamento representa?

Com esse comportamento a criança não vivencia as etapas do desenvolvimento, não brinca, não tem as atividades que favorecem o desenvolvimento dela como correr, pular, mexer com as mãos (com tintas, massas de modelar), do desenvolvimento de sua criatividade enfim, não fantasiam. É bem provável que pulando essa etapa do desenvolvimento, pode se tornar um “adulto infantilizado”.

Em cada etapa do desenvolvimento social, os pais tiveram um tipo de tratamento perante seus filhos, e esse modelo de pais será introjetado por essa criança, e logo projetado em seus filhos.

Na psicanálise de crianças lidamos com o discurso da criança e também com o discurso do adulto, revelando o quanto o discurso da criança pode ser encoberto, através de conteúdos transferenciais, pela fala dos pais, professores e pessoas significativas (MRECH, p.105).

A história ajuda-nos a compreender esse fenômeno de espelhos que intervêm entre o adulto e a criança; eles refletem-se como dois espelhos colocados indefinidamente um diante do outro. A criança é o que acreditamos que ela seja o reflexo do que queremos que ela seja. Estamos todos indiscutivelmente ligados pelo fato de que o outro é, em relação a nós, o que somos em relação a ele. Só a história pode fazer-nos sentir até que ponto é os criadores da mentalidade infantil. Em parte alguma a tomada de consciência e tão difícil quanto quando se trata de nós, e o fenômeno nos escapa quase sempre quando estamos diretamente implicados na situação. Através da história e da etnografia compreendemos a pressão que fazemos pesar sobre a criança (MERLEAU - PONTY, p.96).

A noção de criança vem mudando de tempos em tempos e a nossa preocupação nos leva a perguntar como essa criança esta sendo vista por ela mesma, como um mini-adulto? Ou como alguém incapaz de ter opinião? A sua atitude para explorar os seus primeiros anos de vida, se desenvolver e amadurecer sem um apego excessivo em coisas materiais e esquecendo-se do que é ser família, sendo isso um reflexo do adulto de hoje.

O que se observa são crianças que não gostam de serem crianças por ser pejorativo e, usar roupas de adultos para se sentirem capazes de fazer algo maior, crianças que não tem limites, outras que querem um colo, um carinho e os pais negam porque talvez doa nelas mesmas a lembrança do que não tiveram.

Isto acaba  proporcionando um não olhar para a criança real, seu mundo de significantes particulares ou específicos de cada sujeito, que fazem parte da estrutura de alienação no saber ou individuais cristalizados (MRECH, 2003, p.16).

7. A Criança, o Brinquedo e o Brincar

Mrech (2003) comenta que existe um vínculo direto e imediato entre a criança, o brinquedo e o brincar, onde a vida para a criança é mais frágil e complexa que para um adulto. A sociedade solicita da criança um esforço adaptativo, que consiste em aprender para sobreviver, e para isso a criança utiliza jogos e brincadeiras, não importando a estrutura do mesmo.

Mrech (2003) discorre que Freud comentou que a criança não repete apenas ações prazerosas, mas também as situações complicadas e difíceis, chamando assim este processo de Mais Além do Princípio do Prazer.

Lacan, segundo Mrech (2003, p.116), comenta que a criança repete situações passadas como presentes não por causa de seus sentidos e significações, e sim se constitui como formas de gozar. A criança repete porque aquilo tem um determinado sentido. “Durante muito tempo os psicanalistas acreditaram que bastava o sujeito saber o sentido e os significados das suas ações para mudar. O problema é muito maior: estamos presos às cadeias de gozo - formas de gozar padronizadas - das quais não conseguimos nos desvencilhar, nem saber o sentido”.

Há uma insistência da cadeia de significantes do próprio sujeito, que Lacan segundo Mrech (2003) chama de automatismo da repetição que está vinculado  à pulsão como algo que precisa ser dito, decifrado e cada repetição é diferente da outra.

Na atividade lúdica, as ações já estão aparelhadas com formas estruturadas de pensar e de saber, a criança se situa no seu momento presente, no passado e no seu futuro, possibilitando que esta supere a situação traumática. Com isso simbolizando, representando para nomear e conhecer melhor as situações, ideias, pessoas e coisas a sua volta, pois, todos os acontecimentos são novos, e atribuídos de sentidos singulares para cada sujeito, em uma busca do sentido, tecendo este saber do sujeito através da linguagem e da fala (MRECH, 2003).

Segundo Ferreti (2004), ao brincar o sujeito se reconhece a partir da presença do outro e simula para si próprio o raciocínio do outro. Este reconhecimento, formulando suas próprias teorias se junta com a do Outro, permitindo assim a cada um formar a sua própria personalidade medindo-se a partir das ideias dos outros.

Ariès (1978) menciona que as crianças, independente do sexo, brincavam de bonecas, e os meninos por volta dos quatro, cinco anos praticavam arco, jogava cartas, xadrez e participava dos jogos dos adultos, como o jogo de raquetes.

Dolto (2005) conta sobre uma criança de quatro - cinco anos de idade  que brincava com uma máquina feia de madeira, e este brincava de fazer “clique-clique” o dia inteiro como se tivesse tirando fotos de verdade.

Será que estes aparelhos tecnológicos suprem a necessidade que a criança tem de brincar? Ou seja, é a mesma coisa brincar com um vídeo game e brincar com outros brinquedos, que não sejam tecnológicos como o dominó e outros tipos de jogos que fazem as crianças terem outro tipo de raciocínio e interação interpessoal com outras crianças?

Esta indagação vem do fato de que as crianças andam passando a maioria de seu tempo em frente às “telas” de televisão, assim como a tela do computador, que trazem um mundo novo cheio de possibilidades e curiosidades. “Ela me olha, quer dizer, ela tem a ver comigo, no nível do ponto luminoso onde esta tudo que me olha” (LACAN, 1979, p.94).

Na sociedade pós-moderna, a era da informática, lidamos mais com signos e imagens do que com o próprio objeto concreto, o real. No imaginário da sociedade pós- moderna, “a imagem se impôs no lugar do objeto, esse processo adquiriu intensidade na sociedade atual, que passa a visar à recriação da realidade, transformando-a em outra realidade – a realidade virtual” (MRECH, 2003, p.123). O imaginário confere uma aparência de ser ao sujeito, e este adere à imagem apresentada. Toma-a como real.

A informática encobre a falta, as falhas do sujeito, do significante, como sendo um modelo ideal da comunicação humana, que segundo Lacan é algo impossível, pois, a linguagem é equívoca, pois, podemos dizer coisas e omitir outras fazendo com que o enunciado seja percebido da forma que o outro não saiba toda a verdade (MRECH, 2003).

8. A Criança de Cinco Anos

Antes dos cinco anos, a criança não entende que seus pais já foram crianças. Ela só consegue representá-lo a partir do que eles são para ela (DOLTO, 2005).

Aos cinco anos, as crianças encontram-se em um período mais tranquilo. “algumas estão bem mais adiantadas do que outras” (p. 15). E neste período, “ainda estão descobrindo as diferenças entre realidade e fantasia e delas assegurando-se” (p.16). Em questão da realidade, o senso é maior, que facilita a tolerância a frustração, ajudando a compreende que os comportamentos tem uma consequência, e isto as ajuda a aprender que na realidade não podem fazer com que as coisas aconteçam na hora que querem, seus desejos não são satisfeitos de imediato (OSBORNE, 1974).

Uma criança de  cinco anos “possui um conhecimento mais equilibrado de si mesmo em relação a outras pessoas. É consciente das diferenças devidas a hierarquia e prestígio, atua bem em grupos de três, aceita brinquedos coletivos”. A coletividade começa a fazer parte como o começo do interesse pela sociedade, na forma de compreender os papéis sociais próximos à família (SOIFER, 1987, p. 84).

E a amizade com outras crianças é para ela muito importante neste momento do desenvolvimento, e que os comportamentos destes novos amigos podem influenciar suas atitudes e  opiniões, e estas amizades muitas vezes são instáveis, sendo as amizades estáveis mais raras.

Assim a companhia dos irmãos em casa pode não importar tanto “é importante que a criança de cinco anos tenha liberdade para fazer essas novas amizades e que não se espere que encontre em casa todos os divertimentos e prazeres” (OSBORNE, 1974, p. 46). Só que não é o que está acontecendo no momento atual da nossa sociedade, os amigos e aonde brincar são impostos.

Soifer (1987) diz que a criança nesta idade tem o vocabulário mais amplo, pensando antes de falar. Estes pensamentos são pragmáticos, concretos e com pouca abstração. Aprende a ler letras, palavras e números como também a escrevê-las.

Antes de aprender tudo isso citado a cima, segundo Osborne (1974, p.17), “a criança precisa apreender a ideia de que uma coisa pode ser substituir outra, como um código. O maior exercício nesse campo foi o uso da linguagem: descobrir que as palavras podem representar coisas reais. Agora, entretanto, deve-se conquistar um código escrito e isto também constitui um notável avanço na aprendizagem”. O tempo que antes não era pensado, hoje começa a compreender o ontem e o amanhã, de que o tempo tem dias e que pode ser visto através do relógio e do calendário (SOIFER, 1987).

Com os brinquedos tende a repetir um número limitado, brincando com um linguajar prático, não usando mais histórias fantasmáticas. Ao desenhar, este sabe o que irá fazer antes mesmo de começar a desenhar. Não sabe que mão usar, mas já definiu a sua lateralidade (SOIFER, 1987). A estrutura do brincar está mais organizada, e a liberdade de expressão em relação aos seus sentimentos ainda é algo muito importante. Como também a aprendizagem é apreendida por outrem. O equilíbrio entre educação e  o brincar é um dos aspectos mais cruciais da criança de cinco anos (OSBORNE, 1974).

O certo e errado é algo ainda conflituoso, e a partir das experiências começam a ter consciências. Elas encontram ao estabelecerem normas em suas brincadeiras, que acabam sendo muito mais severas e inflexíveis, mas não conseguem mantê-las por muito tempo. Com isto elas aprender a tolerar e com bom humor as experiências ao aplicar estas normas (OSBORNE, 1974).

Continua este mesmo autor que, grande parte destas brincadeiras é uma exploração deste controle, e algumas delas até a necessidade de serem controladas. E muitas vezes as mentiras que as crianças de cinco anos acabam contando são por representar uma confusão entre a fantasia e a realidade.

Para Soifer (1987, p.83) e Osborne (1974), o psicodinamismo da criança de cinco anos é de um caráter “descansado, claro, decidido, tem equilíbrio e controle” dos seus músculos e adorando usar estes poderes, mas, a habilidade manual ainda está se desenvolvendo. Neste período se tem o maior autocontrole em relação aos seus sentimentos e outras atividades mentais que se encontram em justaposição como seu controle corporal, e sua personalidade já está assentada.

Os sentimentos são vividos e expressos fortemente e, a falta de malícia e a transparência de sua conduta perturbam os adultos. Mesmos os sentimentos de afeição, podem ocorrer de serem demonstrados de forma violenta. Este demonstra aos poucos características de independência, podendo se vestir, amarrar os sapatos, tomar banho como também comer sozinho e, ajuda nas tarefas simples de casa (OSBORNE, 1974).

Também para as crianças os sentimentos são confusos. Em alguns aspectos, ela gosta de se agarrar aos prazeres da infância; em outros, quer igualar-se aos adultos. Na maioria das vezes, reagimos com amor ao aspecto mais infantil, e com orgulho ao mais adulto. Eventualmente ambos podem ser irritantes, especialmente quando surgem no momento errado, Às vezes a criança teima em fazer tudo sozinha, exatamente quando queremos vestí-la por estarmos apressados, ou porque é necessário que se apresente bem numa ocasião especial. Por outro lado, pode mostrar-se carente e solicitadora bem na hora de dormir, quando queremos que ela vá deitar-se imediatamente para podermos jantar (OSBORNE, 1974, p. 20).

Os comportamentos citados são algo, para este mesmo autor, normal para a idade de cinco anos. Às vezes os adultos querem facilitar as coisas para eles, a criança quer a proximidade. Ainda mais nestes tempos, em que os pais ficam afastados por um longo período de tempo de seus filhos.

Nesta fase existe a oscilação de humor entre a independência e o apego, onde normalmente aparece no lar, e até muitas vezes por acasião de doenças ou tensão em sua vivência de determinada experiência. Os impulsos são difíceis de serem controlados nesta idade, muitas vezes vem através da hostilidade e da agressividade (OSBORNE, 1974).

Nesta idade são encorajadas a usar as suas habilidades de modo integrado, o que exige concentração e persistência. Entretanto com tantas coisas novas e habilidades que se pode  fazer, surge a vontade de experimentá-las, com isto abandona uma atividade em prol de outra novidade, “os pais seriam mais tolerantes a respeito se soubessem que isso é muito comum e normal nessa idade, e mesmo depois” (OSBORNE, 1974, p. 40).

Segundo o mesmo autor, as crianças neste período por mais que tenham novos relacionamentos, o modelo ainda continua sendo os pais. O menino querendo ser como o pai e a menina ser como a mãe. Ao tentar imitar os pais nas brincadeiras e no modo de agir com um pouco de aumento ligeiro de responsabilidade, e exigir que ela se responsabilize demais pode fazer com que esta tenha medo de crescer. Esta responsabilidade para o autor é real.

Dolto (2005) fala que a criança com menos de dez anos adapta suas respostas à demanda do adulto, ela o imita voluntariamente, ou se fecha em um mimetismo inconsciente, ou seja, se faz parecer cada vez mais com os adultos. “Seus interlocutores decodificam sua linguagem, conforme seus próprios critérios, referências e modelos” (p.131).

As fantasias de quererem ser e virem a tomar o lugar de um dos pais são menos definidas, e os sentimentos para com isto, menos intensos. Porque para a criança de cinco anos, segundo Osborne (1974), são as pessoas mais importantes do mundo, e que necessita perceber que é amada e desejada pelos pais.

A obra autobiográfica brasileira “Meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos, conta a história de um menino de cinco anos que tem como confidente uma árvore. Descrevendo segundo Dolto (2005, p.33), o luto de toda a vida imaginária de seus primeiros anos, “ele consegue escrever do ponto de vista da subjetividade da criança que ele foi – sua própria subjetividade memorizada -, algo completamente diferente da subjetividade do adulto, - sua subjetividade de escritor”. Isto prova a tentativa de reconstruir e recriar a subjetividade da infância, sendo comunicável e de grande valor literário.

Uma subjetividade que passou pela castração, a árvore representa sua vida simbólica, seu mundo imaginário, ele deixou-a para a aceitação do mundo real ao escolher um pai simbólico. A crise edipiana é resolvida por uma fixação homossexual de criança, em um velho senhor, onde vez sustentáculo de sua evolução. Quando o senhor ia adotá-lo ele vem a falecer, assim o menino conhece a morte e a morte do mundo imaginário, entrando em um mundo de comércio e luta não se revoltando (DOLTO, 2005).

A mesma autora explica que os dois vivem algo junto e se compreendem, onde o velhinho não tem mais uma vida sexual erótica, e a criança ainda não a tem, vivendo um amor de um que vai morrer e daquele que acabou de sair do limbo.

9. Método

O presente trabalho tem como ponto de partida enfatizar o sentido que a criança de 5 anos tem sobre as questões de sua infância, com o objetivo de investigar a percepção que a criança  tem sobre a própria infância.

Ao pesquisar sobre o assunto verificou-se que há muitas produções acadêmicas sobre os adultos em relação às crianças, porém aparentemente são poucas sobre a criança falando dela mesma. Assim este trabalho será relevante, pois pretende trazer contribuições para que se entenda o universo infantil a partir das próprias crianças.

9.1 Participantes

Participaram desta pesquisa 09 crianças de ambos os sexos, sendo 05 meninas e 04 meninos de cinco anos de idade, de uma escola pública da cidade de Diadema.

9.2 Instrumentos

Foi utilizado o procedimento de Desenhos livre temático tal como proposto por Tânia Maria José Aiello Vaisberg, de 1997, (Desenhos-Estórias) com tema. O tema proposto foi de desenhar uma criança, contar uma historia sobre esta e em seguida responder perguntas referentes ao desenho e à vida cotidiana da criança

O instrumento para pesquisas sobre a representação social, o procedimento de D- E (Desenhos-Estórias) com tema desenvolvido por Tânia Aielllo em 1997, é uma extensão do procedimento desenhos-estória de Walter Trinca em 1972 e difundido em 1976 com a publicação da obra: Investigação Clínica da Personalidade: O Desenho Livre como Estímulo de Apercepção Temática (Trinca 1976).  O procedimento D-E com tema tem o intuito de estudar temas específicos, como no caso desta pesquisa, em observar a criança em seu universo infantil e o que ela pensa sobre este.

O D-E favorece a condução de uma exploração ampla da personalidade ao por em relevo a dinâmica emocional dos processos inconscientes das pessoas que a ele se submetem. O D-E é formado, basicamente, pela associação de processos expressivos

– representados por desenhos livres que servem para desencadear relatos, ou seja, o desenho é o estímulo para a apercepção temática (TRINCA, e TARDIVO, 2000).

Em relação à pesquisa de representação social, “o Procedimento de D-E com Tema apresenta-se como alternativa inegavelmente fecunda” (AIELLO, 1997 p.271). Segundo a mesma autora, tal procedimento apresenta algumas vantagens, como por exemplo, a facilidade de treinamento do pesquisador em sua aplicação, além de possibilitar sua interpretação por pesquisador que não tenha feito pessoalmente  a coleta e ainda a possível aplicação individual ou coletiva.

Aiello (1997) diz que o Procedimento de D-E com Tema consiste no pedido de um desenho temático: “desenhe um doente mental, um deficiente físico, uma pessoa gorda, um menino que faz xixi na cama, uma escola, férias felizes, etc.” (p. 272). Ao fim do desenho é  pedido  ao  sujeito que invente uma estória sobre o mesmo. Quando a aplicação é coletiva, espera-se que todos terminem, com as folhas desenhadas sobre as carteiras e se solicita que inventem a estória e as registrem por escrito no verso do desenho. Quando a aplicação é individual, o próprio investigador escreve a estória relatada, podendo ser aplicado em qualquer faixa etária em diferentes condições psicopatológicas, com variados graus de instrução.

9.3 Material

Folhas sulfite branca, lápis nº2, uma caixa de lápis de cor de 12 cores, borracha e apontador.

9.4 Procedimento

Foi entregue aos pais das crianças um termo de consentimento livre e esclarecido (anexo A) para  explicar do que se trata a pesquisa e para o aval deste. Após a assinatura do termo, foi explicado para a criança o porquê dela estar lá e se esta gostaria de participar. Logo, a criança foi levada a uma sala de aula vazia no dia previamente marcado. Foram disponibilizados a elas folha de sulfite, uma caixa de lápis de cor de 12 cores, lápis de nº2 e borracha. O participante foi convidado a desenhar a figura de uma criança, logo após contar uma história sobre esta criança, ao final, eram feitas perguntas referentes ao desenho e à vida cotidiana da criança.

10. Resultados e Discussão

O presente estudo é guiado pelo princípio da pesquisa qualitativa. Minayo (2000) entende a pesquisa qualitativa como aquela capaz de incorporar a questão do significado e a intencionalidade como inerente aos atos e as estruturações sociais.

A partir do desenho e da história contada pelas crianças, pôde-se revelar as ideias, desejos e sentimentos que envolvem a infância das mesmas.

Para Jodelet (1989 apudSÁ, 1996, p.32), as representações sociais são “uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, que tem um  objetivo prático e concorre para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”, assim os dados coletados formam o que poderíamos pensar ser o universo da criança hoje.

Vale ressaltar que para o presente estudo, os sujeitos pertencem a uma classe social menos privilegiada, no qual nem todos tem acesso ao computador, celular, por exemplo. Levou-se em consideração que as crianças como qualquer ser humano são sujeitos sociais e como tais, devem ser compreendidos com base nas  condições sociais, psicológicas e culturais em que vive.

A análise do conteúdo das falas das crianças permitiu identificar algumas questões relevantes que caracterizam a concepção de infância para a própria criança. Pode-se observar que a criança traz hoje tanto conteúdos infantis como brincar de boneca, pular corda, como também conteúdos adultos como, preocupação em relação com o corpo e maquiagem.

Das 09 crianças pesquisadas, todas relataram gostar de brincar, e as brincadeiras vão desde pega-pega, esconde-esconde, Barbie até os super-heróis e vídeos games.

No presente estudo as crianças trouxeram conteúdos relacionados à sua infância, os quais foram separados em 03 categorias: rotina das crianças, consumo e solidão, no entanto observamos a dificuldade em analisá-las separadamente, pois acreditamos que elas estão juntas, interligadas, não sabendo onde começa uma e termina outra.

A respeito da rotina das crianças do presente estudo, pode-se perceber um aspecto relevante em seus relatos. Observou-se que sua vida basicamente resume-se em ir para a escola, jantar, assistir televisão e ir dormir, sendo que hoje não só os pais, mas também as mães trabalham fora para o sustento da família, tendo de deixar seus filhos nas escolas, e ao retornarem, já cansados só resta jantar, assistir televisão e dormir, ou seja, não há infância verdadeira, na sua autenticidade e sim como os adultos querem ou precisam que seja. Faz-se necessário seguir o horário dos pais, os filhos são criados a partir da necessidade dos adultos. Nota-se na fala dessa criança“... ninguém, porque não dá tempo, quando chego da escola, janto, vou sistir TV, e vou dormir...sábado num vô na escola, mas vou sistir TV” (sic).

Segundo Valladares (2005), os pais e filhos vivem numa sociedade globalizada, dominada pela invasão de imagens, pela televisão, onde o espaço para indagação e reflexão está cada vez menor e a febre do consumo tampona as faltas, a castração, a dor psíquica.

Segundo Badinter (1985), até o século XVIII as crianças eram entregues a amas de leite, depois eram criadas por governantas e logo após eram colocadas na escola, hoje a criança vai direto para a escola desde muito cedo.

Em relação ao consumo, fica claro na fala das crianças pesquisadas, o desejo de ter o video-game porque o amigo tem, “minha mãe vai comprar porque meu amigo também tem” (sic), pois hoje é comum termos algo porque o outro tem, ou então, “eu tenho a Barbie, mas falta minha mãe comprar outras roupinhas pra ela” (sic).

Confirmando MRECH (2003), uma forma padronizada de conceber o mundo, onde todas as crianças precisam brincar com os mesmos brinquedos, onde a indústria vende esse valor a ser consumido não importando a idade, mas a regra é consumi-lo porque o outro tem que sair logo do mercado ou até manter os filhos mais “quietos, comportados”.

Segundo Abarca (2004), a partir da introdução da TV no cotidiano das pessoas surgem algumas consequências no processo de educação dos filhos e estruturação familiar, “é através da programação da TV que entramos no mundo da fantasia, desejando ter o que não temos e, talvez nunca tenhamos” (p.20). Isto pode ser observado claramente na fala dessa criança,“eu tenho umas bonecas, mas não tenho a Barbie, mais a minha mãe vai comprar” (sic).

Das cinco meninas pesquisadas, quatro mencionaram a boneca Barbie. A Barbie é a representação da mulher moderna, tanto que seus acessórios, como chapinha, secador de cabelo, maquiagem, roupas, sua casa com piscina, e todas as suas versões: Barbie Conto de fadas, Barbie fashionista, Barbie profissões, roqueira, verão noiva, bailarina, estão evoluindo de acordo com a sociedade moderna e as crianças estão acompanhando esta evolução o que por um lado é bom, pois a mulher sai do papel de passiva, mas por outro há que pensar: Será que esse é o padrão em que as crianças têm que se encaixar? A mulher poderosa, linda, alta, magra, branca e muito bem sucedida? E ainda, as crianças não querendo ser mais crianças e sim adultas, pode-se observar esse conteúdo na fala das crianças pesquisadas “... euvou poder me maquiar igual a minha irmã me maqueia...adoro porque minha mãe diz que fico parecendo uma mocinha” (sic), e ainda, “ela usa maquiagem no olho, aqui azul, marrom e bege...” (sic) e “tem um celular que a mãe dela sempre usa, mas é dela”(sic).

Segundo Dolto (2005), no final dos anos 70, as crianças começam a ser vistas como clientes, consumidoras, tornando-se um segmento autônomo do mercado. A publicidade passa a ser dirigida às crianças e por um marketing que conjuga informação, persuasão, diversão e venda, com forte poder de convencimento. Esse mercado voltado para a infância consolidou-se especialmente nos anos 90 e vem ganhando crescente densidade.

A mídia viu nas crianças um grande potencial consumidor, pois a criança é puro desejo, mas elas não consomem sozinhas, os pais é quem consomem para elas, logo esse desejo é também do adulto. Do adulto que talvez por culpa em não poder ficar com seu filho e assim, tente não deixar evidente sua ausência, dando-lhe algo em troca.

Infelizmente os filhos são superexpostos à mídia, logo, os pais acabam esquecendo-se que afeto, carinho, e atenção são fundamentais para o desenvolvimento afetivo e relacional pais X filhos. As bases principais da família configuram-se pela qualidade das trocas afetivas que ocorrem entre os vínculos estabelecidos entre pai- mãe-irmãos que fundamentaram as relações que o sujeito construirá, e será um modelo ao longo da vida. E “no futuro buscará referenciais similares aos que lhe foram apresentados na  infância. Tais valores são internalizados apenas quando pessoas significativas lhe atribuíram sentido” (PASSOS, 2008, p.9)

O resultado desse comportamento pode estar fazendo com que se dê mais importância para as coisas matérias que para os afetivos, o “ter é melhor que ser” está visível hoje em nossa sociedade. Hoje as crianças não se reúnem para brincar e sim para disputar, quem tem mais Barbie, tem mais cards Pokémon, enfim quem está sempre atualizado é que está feliz, mas questionamos, se essa felicidade se baseia em estar sempre atualizado, qual é a consistência desse sentimento, já que tudo muda tão rápido hoje em dia?

Acredita-se que esses sentimentos, estão tão consistentes quanto à rapidez em que as coisas acontecem atualmente.

A cada dia, as crianças são deixadas mais cedo afastadas dos seus pais. São crianças de dois anos em escolinhas, creches, babás, e até sozinhas. O ficar sozinha não precisa ser somente no sentido de ausência destes pais, pois muitas vezes os pais podem estar em casa, mas não interagem com essa criança.

Diante disso parece estarmos perdendo nossas crianças, ou pelo menos o sentimento que a infância nos traria.

Dolto (2004) ressalta que hoje o homem não é o que ele acreditava ser e a criança não é o que se crê que ela seja. “Os adultos reprimem em si a criança, ao passo que visam que a criança se comporte como eles querem” [...] “Ele visa fazer com que se repita uma sociedade para adultos, isto é amputada das forças inventivas, criativas e poéticas da infância e da juventude; bloqueiam a renovação das sociedades” (p.176).

Tudo isso está relacionado também com outro conteúdo observado na fala das crianças em relação à solidão, as crianças relataram brincar sozinhas, “voubrincar sozinha,porque a mãe trabalha muito” (sic), ou ainda “brincosozinhademotocanoquintal daminha casa“(sic).

Pode-se pensar que o desejo em ter tantas coisas, reflete a falta de algo, a falta da presença dos pais, afeto, atenção. Hoje os pais não podem ficar na rua para que seu filho possa brincar, mas isso é um reflexo do crescimento da nossa sociedade, pois é perigoso deixar os filhos na rua como antigamente.

11. Considerações Finais

Na tentativa de promover um espaço para que a criança fosse ouvida, respeitando suas emoções e opiniões compreendendo a mesma como um ser dinâmico e ativo, que contribui para a formação de uma sociedade, o Procedimento de Desenhos-Estórias com tema mostrou-se um instrumento de grande valia para investigar as Representações Sociais. Por meio desta técnica foi possível acessar conteúdos que as crianças trouxeram sobre a própria infância.

Pôde-se concluir que a infância vista pela própria criança mudou assim como a sociedade vem mudando, ou seja, a infância está em transformação.

Para Sarmento (2002), a infância está passando por um processo de “reinstitucionalização” como resultado das transformações e das crises que acompanham a segunda modernidade, as quais radicalizaram as condições em que vive o homem moderno, e particularmente a infância. Tal reinstitucionalização, tem como núcleo central a inserção da criança na esfera econômica.

Um bom exemplo disso pôde ser observado na presente pesquisa, hoje parece que o que é mais importante e valorizado são os brinquedos que se pode adquirir, a Barbie e seus inúmeros acessórios, o vídeo-game, maquiagens, roupas, etc.

Acredita-se que é assim que as crianças são apresentadas como adultos e esse estereótipo do adulto passa a ser o ideal e referência da estética infantil: as bonecas Barbie constituem um bom exemplo que aparece no ideal feminino adulto transplantado para o universo infantil. Nesta perspectiva as brincadeiras e jogos vivenciados pelas crianças, que eram passados pelos adultos como forma de preservar valores ancestrais das comunidades ou preparar a infância para ser introduzida no universo adulto, foram se extinguindo.

O que os meios atuais de comunicação fizeram foi transformar a criança em potencial consumidor e para tanto, foi preciso transformá-la em adultos em miniatura, a boneca Barbie e seu namorado Ken são exemplos de brinquedos que despertam o desejo de consumo e instigam a infância a imitar o adulto.

Acreditamos que vale ressaltar a dificuldade em encontrar uma escola que permitisse a realização desse trabalho, sendo relevante pensarmos o porquê dessa dificuldade, e acabamos por analisar o quão realmente as crianças são importantes para os educadores, pois muitas das respostas que recebíamos era: “É melhor vocês não mexerem com isso não”(sic) ou “vou pensar e depois dou a resposta”(sic) ou mesmo nem atendiam o telefone.

Sendo assim, acredita-se que essa pesquisa possa abrir caminhos para que o tema infância seja abordado e discutido sob outros vértices, ou seja, os resgates de valores, bem como possa oferecer suporte para que se pense na criança enquanto criança e não só como alguém que possa consumir, mas como um indivíduo que é sim diferente dos adultos com sua subjetividade própria.

Sobre os Autores:

Elisângela Barbosa Quintiliano - Psicólogada graduada pela Universidade Metodista de São Paulo.

Suzana Cilira Pedro - Psicóloga, Psicóloga Judiciária/ Forense; Capacitação em Saúde Mental e Direito; Aperfeiçoamento em Violência Doméstica, com diversos cursos na área Psicojuridica, Avaliação Psicológica e Neuropsicologia Forense.

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