Dinâmica de Grupo e sua Contribuição para a Qualidade de Vida na Terceira Idade

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Resumo: O presente artigo tem por objetivo relacionar a prática de dinâmicas de grupo com idosos e verificar se essa relação contribui para o aumento da qualidade de vida dessas pessoas. Através de uma pesquisa bibliográfica, buscou-se apontar os conceitos e implicações de dinâmica de grupo e qualidade de vida, e fazer uma interação desses temas com a questão da gerontologia, confirmando que essas dinâmicas possuem influência positiva na qualidade de vida da terceira idade.

Palavras-chave: Dinâmica de grupo. Idosos. Qualidade de vida.

Introdução

O envelhecimento populacional é um fenômeno mundial que vem adquirindo características peculiares no Brasil, dada a velocidade com que vem se instalando. Segundo os padrões estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil, hoje, já pode ser considerado um país estruturalmente envelhecido. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), afirma que, em 2030 o Brasil terá a sexta população mundial de idosos em números absolutos.

Essa transição demográfica está sendo acompanhada por uma transição epidemiológica, com uma mudança no perfil de mortalidade da população, sendo as doenças infecto-contagiosas substituídas pelas doenças crônico-degenerativas. Esses tipos de doenças, além de crônicas, geram incapacidades e dependência, fatores que são considerados como as maiores adversidades da saúde associadas ao envelhecimento. Daí então a importância de se oferecer aos idosos alternativas que atendam às diferentes condições biopsicossociais dos mesmos, valorizando a promoção da saúde e a prevenção das incapacidades que essas doenças podem desvirtuar nas pessoas.

Devido às doenças crônico-degenerativas e às repercussões destas sobre a condição mental, a população idosa tende a requisitar mais os serviços de saúde mental do que os grupos etários mais jovens. É importante frisar que envelhecer não é sinônimo de adoecer, especialmente se esse processo for acompanhado de uma boa qualidade de vida.

Os idosos têm necessidades e características próprias que devem ser atendidas através da criação de novos espaços, serviços e produtos, assim como da reformulação de posturas e conceitos. Sendo a inatividade o elemento que mais compromete a qualidade de vida na terceira idade, deve-se ter em mente, então, alternativas para combater essa inatividade, estando aí a realização de atividades educativas e integradoras, e nesse caso, através de dinâmicas de grupo.

As medidas preventivas para a terceira idade têm como objetivo melhorar a saúde e a qualidade de vida dos idosos, de modo que eles tenham suas atividades menos afetadas por doenças crônicas. Nesse contexto, as dinâmicas de grupo possibilitam vivências, que ao serem refletidas e partilhadas geram um aprendizado pessoal e grupal libertador, contribuindo para uma melhoria da qualidade de vida dessas pessoas.

Conclui-se, então, que as práticas de ações educativas e as dinâmicas de grupo propiciam uma melhoria sensível da qualidade de vida com implicações sociais, psíquicas e fisiológicas para as pessoas de terceira idade.

I. Dinâmica de Grupo

A dinâmica de grupo constitui um campo de pesquisa voltado para o estudo da natureza do grupo, para as leis que regem seu desenvolvimento e para as relações indivíduo-grupo, grupo-grupo e grupo-instituição (MINICUCCI, 2009).

A atuação de Kurt Lewin torna-se referência obrigatória nos estudos referentes à dinâmica de grupo, pois suas pesquisas praticamente marcaram o aparecimento desse campo, e a partir delas numerosos pesquisadores contribuíram para a construção desse saber. Segundo Minicucci (2001), Moreno, Piaget, Bales, Mucchielli, entre outros, completaram as pesquisas de Lewin. Moreno trouxe uma conotação mais psicanalítica, criando os grupos de psicodrama, sociograma, role-playing e outras técnicas. Piaget criou a corrente da epistemologia genética, na psicologia do desenvolvimento, enfatizando o grupo como elemento fundamental na educação do pensamento lógico. Bales, na comunicação no grupo, desenvolveu trabalho acerca do chamado grupo de trabalho.

Mesmo com tantas contribuições e diferentes aspectos a serem abordados, pode-se dizer que dinâmica de grupo é, antes de tudo, reformulação de comportamento, isto é, a democratização de atitudes tão necessárias ao trabalho produtivo (MINICUCCI, 2001).

Ainda segundo esse autor, as definições de relações humanas estão ligadas à experiência vivencial dos indivíduos, que se desempenham dentro dos roles correspondentes a seus agrupamentos biológicos (sexo, idade), e a sua adaptação social, adquirida através de seu crescimento e capacitação. Os acontecimentos mais significativos para a vida dos indivíduos e dos grupos estão vinculados ao esclarecimento dessas diferenças funcionais e biológicas, referentes a cada ser humano. As comparações, imitações, rivalidades, satisfações e desilusões de cada um constituem o drama dos seres humanos, que convivem e que se empenham em encontrar a maneira de manter sua posição individual num mundo que pertence aos demais. As inter-relações existentes dos grandes e dos pequenos, dos jovens e dos velhos, dos homens e das mulheres satisfazem a esta descrição universal das diferenças possíveis com uma significação dinâmica para cada ser humano.

Nesse contexto, as atividades recreativas podem aumentar a produtividade de qualquer grupo, quando são escolhidas adequadamente e também conduzidas convenientemente. Isso se dá pois todas as pessoas participantes de reuniões gostam de passar alguns momentos agradáveis e divertir-se com atividades que não exijam estruturação e dedicação ao trabalho (MINICUCCI, 2001).

É nesse sentido que se busca promover a qualidade de vida dos idosos, bem como manter um relacionamento mais amigável com eles, já que estão num momento mais avançado de suas experiências vivenciais, e que constituem um grupo que merece cada vez mais atenção.

II. Terceira Idade

A velhice é o último período da evolução da vida. É natural, indiscutível e inevitável. Implica um conjunto de mudanças biológicas, fisiológicas, psicológicas, sociais, econômicas e políticas que compõem o cotidiano das pessoas que vivem essa fase. Não há uma idade universalmente aceita como o limiar da velhice. No entanto, a idade da velhice aceita é de 65 anos, quando se encerra a fase economicamente ativa da pessoa e começa a aposentadoria.

Na velhice ocorrem mudanças que podem ser sentidas de maneira consciente e tranqüila, como também com grande intensidade. As mudanças físicas são graduais e progressivas, e vão desde o aparecimento de rugas e progressiva perda da elasticidade e viço da pele, diminuição da força muscular, da agilidade e da mobilidade das articulações, aparição de cabelos brancos e perda dos cabelos entre os indivíduos do sexo masculino até a redução da acuidade sensorial, da capacidade auditiva e visual, distúrbios do sistema respiratório, circulatório, alteração da memória e outras. Ocorrem também mudanças psicossociais que modificam a afetividade e a cognição da pessoa. Nesse aspecto, inicia-se a consciência da aproximação do fim da vida e sensação de inutilidade pela suspensão da atividade profissional por aposentadoria como também solidão por afastamento de pessoas da família, dificuldade econômica e declínio no prestígio social.

Esses aspectos geram no indivíduo implicações negativas, pois interrompe de vez as atividades que rotineiramente eram exercidas por uma pessoa. A aposentadoria representa também a quebra de certas relações significativas para o indivíduo. As mudanças funcionais afetam o desempenho das atividades básicas do dia-a-dia, ocorrendo a diminuição da independência na realização dessas atividades. Em alguns casos, ocorre o desenvolvimento da doença de Alzheimer. No entanto, em relação ao processo de envelhecimento, estudos recentes comprovam que o avanço da idade não determina a deterioração da inteligência e memória, pois ela está associada à educação, ao padrão de vida, à vitalidade física, mental e emocional.

Em muitas culturas e civilizações, a velhice é vista com respeito e veneração. Representa a experiência, o valioso saber acumulado ao longo dos anos, a prudência e a reflexão. A sociedade urbana moderna transformou essa condição, pois a atividade e o ritmo acelerado da vida marginalizam aqueles que não os acompanham. Isso se torna preocupante no sentido de que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, mulheres brasileiras têm expectativa de vida de 75 anos e os homens de 68 anos, segundo o relatório de Estatística Sanitária Mundial 2007. O fenômeno se deve aos avanços na área de saúde pública e da medicina em geral, e à melhoria das condições de vida em seus mais variados aspectos. Dessa forma a população de idosos vai crescendo ao longo dos anos e mais se torna necessária a criação de políticas de cuidado e atenção ao idoso.

III. Qualidade de Vida, Terceira Idade e Dinâmicas de Grupo

Com a expectativa de vida cada vez mais alta, tem-se realizado estudos a fim de contribuir para a melhoria da qualidade de vida na terceira idade. O conceito de qualidade de vida é bastante amplo e envolve diversos aspectos.

Dentre os diversos pontos a serem considerados no que diz respeito à qualidade de vida temos: o nível socioeconômico, o estado emocional, a interação social, a atividade intelectual, o suporte familiar, o estado de saúde, os valores culturais, éticos e religiosos, o estilo de vida, bem-estar pessoal e com o ambiente em que se vive. Vemos que é um conceito bastante abrangente, além de ser, também, um conceito subjetivo estando relacionado à auto-estima, à satisfação e às aspirações e realizações pessoais do indivíduo idoso.

Numa pesquisa realizada por Vecchia et al (2005), 365 idosos de uma cidade interiorana de São Paulo responderam sobre o que consideravam qualidade de vida, no que emergiram diversas categorias diferentes, em que se destacavam: preservação dos relacionamentos interpessoais, boa saúde, bom equilíbrio emocional e lazer. A maioria dos entrevistados frisou que qualidade de vida significa dispor de uma rede social de suporte sólida, associada à saúde física e mental.

Segundo Ferraz e Peixoto (1997), um dos aspectos fundamentais para a percepção da felicidade - indicador subjetivo de qualidade de vida - é o convívio social, através da integração do idoso em grupos onde se sinta amado, respeitado, útil e, principalmente, envolvido em atividades físicas, ocupacionais e de recreação, o que encontra respaldo na literatura sobre o tema, além desses indicativos estarem relacionados com os objetivos de aplicação de dinâmicas de grupo.

A partir disto, faz-se necessário uma concentração de esforços nas diferentes áreas profissionais, objetivando um maior conhecimento sobre o fenômeno do envelhecimento e principalmente como envelhecer de forma saudável priorizando esses esforços na manutenção da independência e autonomia do idoso. Inatividade é um dos elemento que mais compromete a qualidade de vida na terceira idade. Assim, tem-se como uma das alternativas para combater essa inatividade, a realização de atividades educativas e integradoras, através de dinâmicas de grupo, como meio de socialização dos idosos, ou seja, inserindo o idoso novamente em um campo de atividades em que ocorra um diálogo entre eles.

São varias as atividades que podem ser realizadas visando à melhoria da qualidade de vida dos idosos, onde o que deve ocorrer é um conjunto de atividades multidisciplinares. Porém deve-se frisar a utilidade que as dinâmicas de grupo podem oferecer nesse processo de busca da melhoria da qualidade de vida na terceira idade, principalmente entre idosos institucionalizados. Barroso (1999) destaca que mesmo na velhice é importante que as pessoas não percam o interesse pelas alegrias da vida. É igualmente essencial que prossigam desenvolvendo tarefas físicas e intelectuais e que a sociedade continue a se beneficiar com sua eficiência.

Assim, segundo Gonçalves & Perpétuo (2000) apud Moura e Camargos (2005), através de atividades de dinâmicas coletivas ou individuais realizadas com idosos institucionalizados, valorizando o lúdico como meio de estimulação pessoal, mantém-se um bom relacionamento entre eles e uma melhor vivência na instituição. A vivência, o jogo e o lúdico, viabilizados através de dinâmicas de grupos, possibilitam o surgimento de condições para a constituição do grupo e do ensino-aprendizagem, instigando o idoso a inovar, descobrir e vivenciar novas situações, evitando diversas doenças crônicas, como a depressão, por exemplo.

Os efeitos da diminuição natural do desempenho do idoso podem ser atenuados, se forem desenvolvidos pelos facilitadores programas de atividades e dinâmicas educativas que, além de educar sobre a própria saúde, visam à melhoria das capacidades motoras, sociais, emocionais e intelectuais que apóiam a realização da vida cotidiana e da melhoria da qualidade de vida do idoso, o que, confirmado por Moura e Camargos (2005), conclui-se que as práticas de ações educativas propiciam uma melhoria sensível da qualidade de vida com implicações sociais, psíquicas e fisiológicas.

Considerações Finais

A dinâmica de grupo é, antes de tudo, reformulação de comportamento. Para isso, ela utiliza-se, dentre outros, de métodos que visam a produção, análise e observação de comportamentos, que promovem a percepção do todo e das partes, tanto da vida como da realidade que nos cerca, bem como autoconhecimento como ser único e social, e confronto e avaliação da vida e da prática.

Nesse âmbito, as atividades recreativas têm grande probabilidade de aumentar a produtividade do grupo, em especial um grupo de idosos, já que todas as pessoas que estão, de certa forma, isoladas do ambiente familiar ou que precisem de ajuda referente às conseqüências dos sintomas da velhice, gostam de passar alguns momentos agradáveis, bem como determinadas vivências que, ao serem refletidas e partilhadas, gesram um aprendizado pessoal e grupal libertador.

É nesse sentido que se busca promover a qualidade de vida dos idosos, bem como manter um relacionamento mais amigável com eles, já que estão num momento mais avançado de suas experiências vivenciais, e constituem-se num grupo que merece cada vez mais atenção, haja vista seu aumento demográfico e sua influência para a sociedade.

Outro aspecto que é importante das dinâmicas de grupo é o de proporcionar a realização de atividades físicas, que têm como uma das alternativas combater a inatividade, dando lugar a realização de atividades educativas e integradoras como meio de socialização dos idosos, ou seja, inserindo o idoso novamente em um campo de atividades em que ocorra um diálogo entre eles.

Dessa forma, conclui-se que as práticas de ações educativas, em especial as dinâmicas de grupo, propiciam uma melhoria sensível da qualidade de vida, tendo implicações sociais, psíquicas e fisiológicas.

Sobre os Autores:

Hélem Soares de MENESES, Lorenna e Silva Mendes BARRADAS, Pedro Ben Santos BEZERRA são alunos do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Médicas – FACIME, UESPI

Sobre o Artigo:

Artigo desenvolvido na disciplina Dinâmica de Grupo e Relações Humanas, ministrada pela professora Ana Joyce Meyer, em 2010, pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI

Referências:

FERRAZ, A. F. PEIXOTO, M. R. B. Qualidade de vida na velhice: estudo em uma instituição pública de recreação para idosos. Rev.Esc.Enf.USP. V.31, n.2, p.316-38, ago, 1997.

MINICUCCI, Agostinho. Dinâmica de grupo: teorias e sistemas. 5. Ed. 6. Reimpr. São Paulo. Atlas, 2009.

MINICUCCI, Agostinho. Técnicas do trabalho de grupo. 3. Ed. São Paulo. Atlas, 2001.

MOURA, Luciana; CAMARGOS, Anadias. Atividades educativas como meio de socialização de idosos institucionalizados. 2005. Disponível em < http://www.ufmg.br/proex/arquivos/8Encontro/Saude_11.pdf >

STELLA, F. GOBBI, S. CORAZZA, D. I. COSTA, J. L. R. Depressão no idoso: Diagnóstico, Tratamento e Benefícios da Atividade Física. Motriz, Rio Claro. Vol.8 n.3, pp. 91-98, dezembro, 2002.

VECCHIA, Roberta. RUIZ, Tânia. BOCCI, Silvia Cristina M., CORRENTE, José Eduardo. Qualidade de vida na terceira idade: um conceito subjetivo. 2005. Disponível em < http://www.scielosp.org/pdf/rbepid/v8n3/06.pdf >

Empreendedorismo, Trabalho e Qualidade de Vida na Terceira Idade / Organizador Juarez Correia Barros Júnior – 1.ed - São Paulo: Editora Edicon, 2009, 500 p. Disponível em < http://www.trabalhoevida.com.br/download/livro.pdf

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