Envelhecimento e Subjetividade da Pessoa Idosa: O idoso como protagonista de um envelhecimento saudável

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Resumo: Este artigo retrata o fenômeno do envelhecimento e da subjetividade da pessoa idosa, dando ênfase ao idoso como protagonista de um envelhecimento saudável, a partir de uma análise bibliográfica do processo de envelhecimento e de sua importância durante as distintas fases da vida. Também buscou-se destacar indagações pertinentes a sua historicidade nas condições de prolongamento da longevidade, com a intencionalidade de tornar mais evidente a discussão da finitude da vida, tanto numa perspectiva teórica e ética, como numa perspectiva política e subjetiva diante da dependência e da morte.

Palavras-chave: Envelhecimento. Subjetividade. Morte.

1. Introdução

O referido artigo aborda assuntos pertinentes à problemática do envelhecer e da subjetividade da pessoa idosa, fazendo referência ao idoso como protagonista de um processo saudável de envelhecer, e, sobretudo, trazendo à tona reflexões sobre esta fase da vida, frente à atual realidade brasileira. Destaca alguns apontamentos referentes às dimensões da heterogeneidade da velhice e do envelhecimento na pós-modernidade, com toda a sua multidimensionalidade e seus desafios; da relação entre autonomia, proteção e trocas sociais, com referência à visão da subjetividade social na velhice.

Neste sentido, objetiva-se no presente artigo levantar questionamentos que possam contribuir na assimilação do processo de envelhecimento dentro da dinâmica da sociedade contemporânea, destacando a importância de se afirmar e valorizar a cidadania na terceira idade. Esta abordagem se impõe na conjuntura da atual sociedade capitalista, a qual se mantém centrada na exploração do trabalho e na obtenção sempre crescente de lucros. Segundo este sistema, aqueles indivíduos considerados não aptos ao trabalho ou ao consumo extremamente estimulado são percebidas como incapazes, inaptos, inoportunos, indolentes e às vezes até mesmo com parasitas, “sorvedouro do dinheiro dos contribuintes” [01], através dos precários sistemas previdenciários de benefícios e aposentadorias.

Assim, predomina uma visão do envelhecimento como momento simples, descontraído de uma das fases da vida humana. No entanto, deve ser considerado que o envelhecimento e a velhice não se resumem a um estereótipo como também a um estigma, mesmo num contexto construído socialmente para o lugar do “improdutivo”. Sendo assim, o presente estudo descreverá o envelhecimento, em sua diversidade e no prolongamento da vida, que passou a ser visto não só como uma etapa de desenvolvimento, mas como uma conquista da sociedade.

Desta forma, optou-se por utilizar como abordagem geral neste estudo a pesquisa qualitativa e como procedimento metodológico o método dialético, segundo o qual nada permanece estático ou inalterado, mas tudo, seja na natureza ou na sociedade, se modifica e se constrói num processo continuo de devir e decadência,tornando-se desenvolvimento progressivo(MARCONI & LAKATOS, 2003). Essa visão vale tanto para o idoso, entendido enquanto espécie que segue em um contínuo e complexo ciclo de desenvolvimento, quanto para a visão que a sociedade vai formulando a respeito deste. Como técnica de coleta de dados utilizou-se a pesquisa bibliográfica em livros, revistas científicas, internet, etc. com finalidade de levantar os processos históricos referentes ao envelhecimento e ao processo de envelhecer de modo saudável, tanto físico quanto emocionalmente.

Para a estruturação desse artigo buscou-se dividí-lo em títulos, subtítulos e seções, na perspectiva de sistematizar o estudo e dar destaque a temática abordada, e, por fim mensurar apontamentos esquematizados, para posterior elaboração de novas reflexões a cerca do tema proposto.

2. Breve Análise do Processo de Envelhecimento

O processo de envelhecimento no Brasil segundo a abordagem de Silva (2008) enfatiza ser este um fenômeno relativamente recente na população. Estudos sobre o tema não são numerosos, entretanto, os poucos existentes têm apontado de forma recorrente que o processo de envelhecimento da população brasileira causa danos irreversíveis, dado a ausência de uma política que trate da prevenção à saúde dos idosos e as poucas condições socioeconômicas e culturais que estes passam nas fases anteriores da vida, levando a uma grande maioria ao envelhecimento com pouca ou nenhuma qualidade de vida saudável.

Na definição de gestão por sujeitos/idade, encontrada da obra Desafios de envelhecimento, Faleiros e Loureiro (apud BORGES & COIMBRA, 2008, p. 26) destacam as dimensões da “heterogeneidade da velhice do envelhecimento hoje na sua multidimensionalidade, seus desafios, da relação ente autonomia, proteção e trocas sociais com uma referência à visão subjetiva socialmente”.

As referidas autoras acrescentam, além da multidimensionalidade de envelhecer, as diferenças do envelhecimento passivo e participativo. O primeiro pode ser visto tanto do ponto de vista biológico como social e está centrado na falta ou perda de adaptação ou capacidade. O envelhecimento biológico foi também pontuado por Leme e Silva (apud BORGES & COIMBRA, 2002, p. 26) para quem “[...] a velhice carrega consigo uma queda geral (sic) da capacidade de ‘adaptação’, seja pela a incapacidade de mudanças ou catástrofes”. Por isso, segundo essas autoras, deve-se tratar o envelhecimento como gestão das perdas, com compensações para uma renda, e um consolo para falta de renda, medicamentos e posterior situação de abrigamento.

Com base nas autoras supracitadas percebe-se que a velhice deve ser vista como uma relação biopsicossocial, estudada e analisada, além de ser compreendida numa dimensão individual, familiar, social e cultural, entre cruzamento de trabalho/inutilidade, dentre outros aspectos.

 À luz destes pressupostos, pode-se tomar como ponto de partida a heterogeneidade e a multidimensionalidade para discutir a perspectiva de que a velhice é uma oportunidade de desenvolvimento, implicando uma imprevisibilidade no seu desenrolar. O envelhecimento é inabalável, mas, a velhice é inevitável e não estagna o processo de relações e de auto-desenvolvimento e nem encerra o ciclo da vida, mas estabelece um período, uma fase de conquistas e de perdas numa estabilização inconstante entre ambos.

Sendo que, para este equilíbrio estável no caminhar da vida é necessário situar-se no mesmo contexto, onde as compreensões sobre o envelhecimento individual e social passa a ser a primazia para o envelhecimento saudável. Dessa forma, é importante destacar que tanto os conceitos como os preconceitos sobre velhice ou idade avançada passam a ser o desafio na contemporaneidade.

É importante mencionar a Lei Federal nº 8.842 da Política Nacional do Idoso [02] em seu Art. 3º que menciona “o processo de envelhecimento diz respeito à sociedade em geral, devendo ser objeto de conhecimento e informação para todos”.

Destarte, no contexto da modernidade, a categoria dominante para classificar as pessoas de maior idade é referenciá-las à ausência do trabalho em suas vidas e colocá-las como não produtivas principalmente para os homens. E em relação à mulher, o envelhecimento está associado a não reprodução em função da menopausa. E nas sociedades mais tradicionais havia o que foi denominado gerontocracia, com valorização dos papéis atribuídos aos idosos, de aconselhamento, de transmissão da experiência e de cuidado. Por isso, criou-se na sociedade um estereótipo positivo do velho, portador da sabedoria, visão decorrente do papel social predominante em muitas dessas sociedades tradicionais.

O processo do envelhecimento provoca, no organismo, modificações biológicas, psicológicas e sociais, incidido do nascimento á velhice, tais orientações são naturais e gradativas. Porém, são na velhice que esse processo se torna mais aparente e suscetível a doenças que causam deficiências, muitas delas irreversíveis (SANTOS, 2004 apud SILVA, 2008, p. 11).

De acordo com as ideias deste autor, o envelhecer pressupõe alterações físicas e psicológicas no indivíduo. Tais alterações são gerais, podendo se verificar em idade mais precoce ou mais avançada e em maior ou menor grau, de acordo com as características genéticas de cada indivíduo e, principalmente, com o modo de vida de cada um. A alimentação adequada, a prática de exercício físico, a exposição moderada do sol, a estimulação mental, o controle do estresse, o apoio psicológico, a atitude positiva perante a vida e o envelhecimento são alguns fatores que podem retardar ou minimizar os efeitos da passagem do tempo.

No entanto é importante mencionar que para o idoso consiga tornar-se o protagonista de um envelhecimento saudável, é imprescindível a sua atuação como principal beneficiário neste processo. Sendo que o próprio idoso consiga visualizar seus potenciais e suas limitações, e a partir delas, estruturar sua vida.

Neste sentido, pode-se observar que, o processo de envelhecimento tem suas peculiaridades, envolvendo assim, de forma significativa os aspectos biopsicossociais. Contudo, o autor Stuart-Hamilton (2002) define envelhecimento como sendo, um estado final do desenvolvimento, que todo individuo sadio e que não sofreu acidentes vai atingir.

No entanto, é importante destacar que, quando se menciona o termo “desenvolvimento” deve-se estar atento, para que essa palavra não vire uma palavra ambígua, pois, dependendo da forma como se menciona pode expressar que o envelhecimento implica ter uma melhora.

Desta forma, o autor Stuart-Hamilton (2002) menciona que todas as capacidades latentes de desenvolvimento foram realizadas, deixando apenas potencialidades de dano de ação tardia.

Portanto, devem-se utilizar critérios extremamente cautelosos quando aludir-se sobre o processo de envelhecimento.

2.1 Alguns Conceitos de Envelhecimento

Com base na obra de Stuart-Hamilton (2002) o envelhecimento pode ser descrito em termos de processos, que afetam a pessoa com o passar dos anos. Eles podem ser divididos em acontecimentos relativamente distantes, conhecidos como efeitos distais (distantes) de envelhecimento, e mais recentes (como falta de mobilidade devido uma perna quebrada), também conhecido como efeitos proximais do envelhecimento. Por isso, o envelhecimento pode ser definido em termos da probabilidade de se adquirir uma determinada característica da velhice. Os aspetos do envelhecimento universais são aqueles que todas as pessoas mais velhas compartilham em certa extensão (pele enrugada), enquanto os aspectos do envelhecimento probabilísticos são prováveis, mas não universais (artrite).

Esses termos podem ser comparados aos conceitos de envelhecimento primário que se manifestam com as mudanças (corporais da idade), secundário (que ocorrem com maior frequência), mas, não são acompanhados. O autor ainda expõe que alguns pesquisadores acrescentam o terceiro termo envelhecimento terciário para se referir à rápida e acentuada deterioração física anterior à morte. (STUART- HAMILTON, 2002, p.19-20, grifo nosso).

Destarte, a chamada terceira idade e os movimentos que se organizam em torno dela indicam mudanças radicais no envelhecimento, que deixam de ser compreendida como decadência física, perda de papéis sociais e retraimento. O número de programas para a terceira idade no país, como grupos de convivência, as escolas abertas, as universidades - cresceu de maneira considerável. Neles as etapas mais avançadas da vida são consideradas momentos propícios para as novas conquistas.

[...] Encorajando a busca da auto-expressão e a exploração de identidades de um modo que era exclusivo da juventude, esse movimento está abrindo espaço para que a experiência de envelhecimento possa ser vivida de maneira inovadora (GUITA, 2007 apud BORGES & COIMBRA, 2008, p. 28).

No entanto, no Brasil pode ser observada uma contramão destas perspectivas baseando-se nas apreciações negativas relacionadas à velhice como improdutivas, com prerrogativas baseadas na dependência, no isolamento e na desvalorização social. Porém, paralelo às negativas existem as apreciações positivas, que estão dirigidas, através da sabedoria e à dignidade, como preconizado o Estatuto do Idoso [03] em seu Art. 26, que “o idoso tem direito ao exercício de atividade profissional, respeitadas suas condições físicas, intelectuais e psíquicas”. Cabe ressaltar que estes apontamentos encontram-se intrinsecamente ligados a fatores sócio culturais e históricos do indivíduo dentro de uma perspectiva de totalidade.

Neste sentido Goldman afirma que:

O envelhecimento como um processo complexo que ocorre em cada pessoa, individualmente, mais condicionado a fatores sociais, culturais e históricos, que vão rebater a sociedade como um todo, envolvendo os idosos e as várias gerações (GOLDMAN, 2003, p. 71).

É importante mencionar que, as ideias dos autores supramencionados não estabelece o caráter de regra geral sobre a velhice e o processo de envelhecimento, fato este que justifica-se a partir de indagações divergentes de seus posicionamentos.

Neste contraponto, Beauvoir ressalta que:

A velhice aparece como uma espécie de segredo vergonhoso, do qual é indecente falar (...). Com relação às pessoas idosas, essa sociedade, não é apenas culpada e criminosa. Abrigada por trás de mitos da expansão e da abundância trata os velhos com párias (BEAUVOIR, 1990 apud BORGES & COIMBRA, 2008, p.08).

A partir destes pressupostos pode-se compreender que a “idade biológica” refere-se ao estado corporal de desenvolvimento/degeneração física. O termo é usado para descrever o estado geral do corpo de uma pessoa. Mas, algumas vezes, é empregado para termos específicos: idade anatômica (estrutura óssea, constituição corporal). O envelhecimento social da população traz modificação no status do velho e no relacionamento dele com outras pessoas em função de uma crise de identidade, provocada pela falta de papel social, o que levará o velho a perda de sua auto-estima, mudanças de papéis na família, no trabalho e na sociedade.

Com a longevidade a pessoa idosa, deverá se adequar a novos papéis; aposentadoria, já que nos dias atuais, ao aposentar-se, ainda restam para a maioria alguns anos de vida; por isso, devem estar preparados para não acabarem isolados, deprimidos e sem rumo. No decorrer dos anos as perdas são diversas, que vão da condição econômica, a decisão de parentes e amigos, da independência, da autonomia e diminuição de contatos sociais, que se tornam reduzidos em função de suas possibilidades peculiares, distâncias, vida agitada, falta de tempo, circunstâncias financeiras e a realidade da violência na rua (STUART-HAMILTON, 2002, p. 22).

Dessa forma, os pressupostos anteriores direcionam para possibilidades de se desenvolver trabalhos, a fim de reajustar as perdas e as relações sociais com filhos, netos, colegas e amigos. Assim, criam-se novos relacionamentos, já que muitos acabaram assim com a aprendizagem de um novo estilo de vida para que as perdas sejam minimizadas.

Estudos internacionais realizados por Zimerman, no início da década de (2000), salientam que 15% dos velhos [04] necessitam de atendimento em saúde mental e 2% das pessoas com mais de 65 anos apresentam quadro de depressão, que muitas vezes, não são percebidos pela família e cuidadores, sendo encarados como características comuns do envelhecimento. Estas experiências também mostram que, as características físicas e psicológicas estão relacionadas com hereditariedade e a atitude de cada indivíduo. Neste sentido, Zimerman, (2000, p. 25) corrobora que “as pessoas mais saudáveis e otimistas têm mais condições de adaptarem-se às transformações trazidas pelo envelhecimento”.

2.2 A Crise da Melhor Idade

A crise da meia-idade, ou melhor, dizendo da melhor idade, durante a maior parte da história permaneceu ignorada. Tendo em vista que, o nascimento, a juventude, a velhice e a morte, sempre receberam o devido cuidado em meio ao contexto social.

Neste sentido, pode-se mencionar que algumas transformações pessoais potencialmente perturbadoras se concentram na faixa etária dos 40 anos. Entretanto, é importante destacar que o processo que envolve a meia-idade, não permeia somente o universo feminino, os homens também se encaixam nesse contexto. Entretanto, a meia-idade feminina é vista pelo corpo, enquanto que para o homem é vivida pelo social.

Portanto, a meia-idade em termos cronológicos, geralmente é definida como o período entre os 40 e 60 anos, embora uma pessoa de meia-idade também seja descrita como aquela que tem filhos crescidos ou pais idosos. Apesar disso, hoje em dia, algumas pessoas que estão com 40 anos ou mais, ainda se encontram criando filhos pequenos e com aparência bem conservada. Especialmente na sociedade contemporânea, há casos de adultos, independentemente da idade, que optam por não ter filhos, impondo assim limites aquele entendimento de tradicional da “meia idade”.

O desenvolvimento psicossocial na meia-idade descrita por Erikson (1974), considerado como um dos mais importantes psicanalistas americanos, expandiu a teoria psicanalítica do desenvolvimento para fora dos vínculos da família nuclear, focando sua veemência além das questões da importância das primeiras experiências do bebê e do romance familiar edípico, para o mundo mais amplo, a sociedade, onde por sua vez, a criança interage com amigos, professoras, dentro do contexto da cultura onde a mesma está inserida.

Ele considera que uma pessoa evolui durante toda a vida, interagindo com o meio ambiente. Neste sentido, vale dizer que, sua teoria é voltada para o desenvolvimento do ego ao longo do ciclo vital, sendo o ego a ferramenta utilizada pelo indivíduo para organizar informações externas, testar percepções, selecionar memórias, realizar ações adaptativas e integrar capacidades de orientação e planejamento. O autor [05] descreve oito estágios do desenvolvimento do ego, que abrangem desde o nascimento até a morte. Cada estágio apresenta aspectos positivos e negativos, marcados por crises emocionais e afetados pela cultura particular do indivíduo e pela sua interação com a sociedade da qual faz parte. Define como fundamental o princípio epigenético, no qual cada estágio psicossocial serve como base para o subsequente.

No entanto, dentre esses oito estágios, fica um cuidado maior ao sétimo, que se refere ao estágio adulto, cujo principal conflito é ode Generatividade x estagnação. Para Erikson (1974), o impulso para promover o desenvolvimento da geração seguinte leva as pessoas de meia-idade a tornarem-se mentores dos jovens adultos. O desejo de ter filhos é natural e, assim, as pessoas que não tem filhos devem reconhecer seu senso de perda e propagar seus impulsos de procriação de outras maneiras, diretamente ajudando a cuidar dos filhos de outras pessoas ou como protetores no local de trabalho. Certa estagnação pode adequar um descanso que leva a maior criatividade no futuro, mas a estagnação excessiva pode levar a prejuízos de forma física ou psicológica. Generatividade é a preocupação de adultos maduros com o estabelecimento e a orientação da nova geração. Antecipando o desaparecimento gradual de suas próprias vidas, as pessoas sentem a necessidade de participarem da continuação da vida.

De acordo com Berger:

Assim como o desejo de intimidade, a busca de realização – ou o impulso de ser produtivo – é um influente aspecto da idade adulta. A expressão observável desse motivo varia bastante. Alguns indivíduos e algumas culturas são altamente competitivos na busca de realização pessoal; outros são muito cooperativos, buscando sucesso em grupo. Alguns procuram sinais tangíveis de status, enquanto outros se empenham em feitos menos materiais. Alguns ressaltam autoridade no ambiente de trabalho; outros buscam o respeito dos filhos, dos netos e da comunidade. Todo adulto precisa sentir-se bem-sucedido em algo que faça sua vida parecer produtiva e significativa. Isto é universal. Todavia, os adultos satisfazem essa necessidade de realização de muitas maneiras (BERGER, 2003, p. 340).

Deste modo, o impulso gerativo não se limita necessariamente aos próprios filhos e netos de uma pessoa. A tarefa do meio da vida é a de “gerar no sentimento mais abrangente com os filhos, produtos, ideias e obras de arte” (ERIKSON, 1974, p.122). O meio da vida vem a ser compreendido então, como qualquer atividade que colabore para apassagem de uma geração a outra.

A meia-idade é um período delimitado por modificações, em especial psicológico para os homens. Isso porque a percepção do envelhecimento, da proximidade da fase adulta, dos filhos e a competição com pessoas mais jovens no mercado do trabalho podem deflagrar a chamada “crise da meia-idade”. Neste sentido, esse momento pode tanto levar a uma ponderação ea um redirecionamento existencial como a uma estagnação, demarcada pelo receio de explorar mudanças, pois pode haver uma compreensão de que a proximidade da morte faz parte de sua vida. Em um olhar para os homens, nessa fase do desenvolvimento, norteou-se pelos aspectos da paternidade, da sexualidade e de seus futuros projetos de vida,que de acordo com Strauch (2011), a transição da meia-idade é uma época de crise moderada ou grave. Todos os aspectos da vida são questionados e os homens se horrorizam com muito do que vem a se revelar.

O ser humano em seu pleno arco de meia idade se vê em competição com um profissional mais jovem e sagaz nas provocações na ordem de trabalho. Com a preocupação de manter-se ativo, mas já não tendo a plena certeza, se o que está realizando realmente coincide como delineado no início da vida. Torna-se imprescindível mencionar que a maioria das pessoas no início de sua entrada no mercado de trabalho, não possui muitas escolhas de atividades, talvez pela falta de conhecimento ou pelo fato de ainda não dar um valor exato para as diretrizes da vida, acaba se acomodando em sua fonte de renda, por ser o mantenedor de sua família.

Neste processo, as habilidades não são mais as mesmas, mas a vontade de algo que ainda não foi adquirido fica intermitente, cabe ao ser se estagnar e sofrer com suas decepções e objetivos não alcançados ou virar a página e ir atrás de seus objetivos com a maturidade deque não há mais tempo de apostas, mas sim de concretas realizações.

2.2.1 Características da crise

Esta fase é compreendida como um momento de auto-avaliação e possíveis mudanças, típico de crises de desenvolvimento que se manifestam tanto no homem quanto em mulheres. Modificações como na sexualidade, família, trabalho e relações sociais são discutidos e mostram a devida necessidade da intervenção do psicólogo para facilitar a elaboração da crise.

A crise da meia-idade é também mais uma transição nebulosa e vaga sendo desencadeada não por modificações fisiológicas ou cognitivas, mas por um novo conjunto de modificações que dependem de vários fatores como: se a pessoa casou e teve ou não filhos; se a carreira estagnou ou decolou; se ainda vive com os pais ou não e, se a pessoa sente algum declínio físico. Para muitos adultos, o acúmulo dessas e de outras mudanças leva a um novo período de muitas dúvidas. Em torno dos vinte e cinco anos o adulto cria expectativas do que será feito de sua vida e começa o árduo trabalho para isso. Por volta dos 40 anos fazem uma auto-avaliação que pode levar a uma sensação de perda ou fracasso.

Na faixa etária dos 40 anos, a perda da resistência e mesmo da beleza física gera uma angústia que vai afligindo a auto-estima, causando angústias, conflitos e gerando comportamentos compulsivos e inesperados relacionados à maturidade, onde o indivíduo na busca muitas vezes da manutenção da juventude emite comportamentos relativos à faixas etárias anteriores da vida. A impressão de "última chance" ou de "preciso recuperar o tempo perdido" pode ter um efeito positivo para alguns, quando encarada como um desafio para se adentrar uma vida mais plena e rica. Inadvertidamente, para outros esse processo pode tornar-se um emaranhado de problemas, onde há uma desestruturação de valores individuais e sociais que podem ter consequências danosas à saúde física e mental.

Neste período a realização de sonhos como, por exemplo, viagens, montar seu próprio negocio, inserir-se em grupos da terceira idade, e etc., poderão auxiliar neste processo que por muitas vezes, não tem perspectiva alguma de reconhecimento do próprio sujeito. Os planejamentos conjunto com seu parceiro, poderá gradativamente ser de grande valia para que assim, possa passar por esta fase da meia-idade sem transtornos.

2.3 Sexualidade, Sexo e Amor

As influências culturais são importantes e devem ser levadas em consideração, principalmente quando se procura enfocar a sexualidade da pessoa. A questão da sexualidade, sexo e amor na terceira idade, continua sendo alvo de diferentes discussões, interpretações e visões, sendo considerada por muitos pesquisadores como um vasto campo da experiência humana, apesar de se revelar, ainda, cheia de mitos, preconceitos e estereótipos.

Papaléo Netto (2007) mostra que nos últimos anos vem ocorrendo uma revolução na concepção e na prática da sexualidade, o que tem se refletido de forma indiscutível na terceira idade.

Desta forma Papaléo testifica que:

Determinados fatores tiveram influência direta no processo, sendo três os mais importantes.Primeiramente, a vida sexual deixou de ser apenas a função de procriação para se tornar uma fonte de satisfação e realização de pessoas de todas as idades. Segundo: o aumento notável e progressivo de pessoas que chegam a uma idade sempre mais avançada em condições psicofísicas satisfatórias e não dispostas a renunciar à vida sexual. E por último: o aparecimento da AIDS obriga todos a repensar a sexualidade, reforçando a necessidade de informarem-se e falarem mais abertamente sobre sexo(PAPALÉO, 2007, p. 47).

Na terceira idade, a dificuldade em vivenciar a sexualidade pode ter relação com diversos fatores relacionados à manutenção de corpos perfeitos, a busca do vigor físico por mais tempo e à continuidade da juventude. Que potencializam de forma significativa as crises vivenciadas por um expressivo número de idosos no contexto brasileiro. Neste sentido, propositalmente por entender que este assunto merece uma discussão mais aprofundada, o mesmo será trabalho em dimensões mais amplas, para que o mesmo não venha a ser tratado de modo reducionista, tornando-se incipiente quanto à discussão sobre a sexualidade e longevidade.

Sendo assim, para melhor enfatizar estes questionamentos e trazer a tona que o ato sexual independente da identidade de gênero, os sentimentos e reações são semelhantes.

Segundo Butler:

O ato sexual é complexo, abrangendo o corpo, a mente e as emoções, a fisiologia do sexo inclui também o sistema nervoso e a atividade hormonal assim como órgãos específicos do corpo. Todos esses elementos estão envolvidos com o ato sexual que tem quatro fases: a excitação ou fase de início do desejo erótico; fase de excitação máxima ou fase platô; a fase orgásmica ou clímax; e a resolução ou fase de recuperação. Este é o chamado ciclo de reação sexual. Essencialmente estas mesmas fases acontecem tanto no homem como na mulher (BUTLER, 1985, p. 19).

De acordo com as ideias do autor supramencionado, o sexo e a sexualidade diante das mudanças físicas próprias da idade, acarretam diversos fatores que trazem a reflexão sobre qual a melhor forma de se enfrentar esse grande tabu que por muitas vezes é imposto pela própria sociedade.

Entretanto, deve-se esclarecer que a partir do período do climatério, o ser humano sofre algumas importantes alterações corporais. Para as mulheres, as principais modificações são [06]:

  • Diminuição da lubrificação vaginal;
  • A parede da vagina fica mais fina estando sujeita a irritações, dores e sangramentos durante a penetração;
  • Pode haver uma maior exposição do clitóris ou redução do seu tamanho, flacidez nos grandes lábios;
  • Na vagina pode ocorrer um encurtamento ou estreitamento e perda de sua elasticidade.

Os homens sofrem um pouco mais com o envelhecimento gradativo, mesmo porque, enquanto o homem atinge seu apogeu sexual aos 18 anos, a mulher chega ao ápice depois dos 35-40 anos. O fato de sua parceira encontrar-se naturalmente desejosa de sexo pode torná-lo angustiado e achar que não consegue mais “corresponder”. Algumas alterações com relação ao gênero masculino a partir dos 40 anos são [07]:

  • Maior tempo e estimulação genital mais direta;
  • A ereção é menos rígida;
  • Existe menor necessidade física de ejacular e maior controle desta;
  • Diminuição do volume do sêmen e do jato no orgasmo;
  • Às vezes diminuição da resposta orgástica;
  • Queda da ereção mais rápida após a ejaculação.

Contudo, padrões de comportamento são criados pela sociedade, que limitam a sexualidade humana a um período compreendido entre a puberdade e o início da maturidade. Sendo assim, o comportamento sexual não costuma ser reforçado pela sociedade na velhice. Ao contrário, é severamente punido através do preconceito que permeia essas relações. Submetido ao controle social o qual desencadeia os conflitos psicossociais inibidores da sexualidade, aliado às modificações fisiológicas que, normalmente, ocorrem com o envelhecimento, os idosos parecem incorporar e aceitar essa sexualidade como um processo normal da idade.

A falta de informação é um fator que influência a queda da atividade sexual na terceira idade. Até pouco tempo, o tema sexo era estritamente proibido dentro dos lares, e as mulheres possuíam a função de procriar; e cuidar do lar e dos filhos. Esse quadro tem se modificado ao longo do tempo até na contemporaneidade.

2.4 A Visão Social do Idoso, Imaginário e Representação Social

O ser velho representa um conjunto de atribuições e modificações negativas que estão ligadas ao conceito clássico de velhice. No imaginário social o velho está inteiramente associado à estagnação e perdas que levam à ruptura e ao isolamento; inflexibilidade decorrente de apego a valores ultrapassados e cristalizados que também levam ao isolamento social; imagem negativa do aposentado, significando um final de vida, falta de capacidade pessoal e a exclusão da rede produtiva; pessoa que necessita de cuidados, sem força, sem vontade, sem vida, doente, incapacitado e que por todos esses motivos fez opção pela passividade.

Cabe aqui um parêntese, cujo desígnio é chamar a atenção para um movimento que vem se delineando na atualidade, sinalizando uma valorização do idoso, no sentido da desconstrução desse conceito negativo da pessoa idosa. Para Camarano (2002) o aumento da taxa de desemprego que vitima a população jovem nos últimos vinte anos faz com que os benefícios previdenciários dos idosos, em muitos casos, sejam a única fonte de renda das famílias.

No que se refere à representação negativa da velhice, aos idosos, enquanto grupo, são atribuídas às características ruins do pior estágio da velhice como a doença crônica, a incompetência, a dependência, a incapacidade física e mental. Como assinala Elias (2000) o grupo dominante se afirma pelo que há de melhor em seu conjunto e estigmatiza e exclui os outros por serem diferentes, não por suas características individuais, mas por pertencerem ao grupo dos diferentes que são considerados inferiores. Inclui-se aqui o seu esclarecimento sobre essa questão:

O grupo estabelecido tende a atribuir ao conjunto do grupo outsider as características “ruins” de sua porção “pior” [...]. Em contraste, a auto-imagem do grupo estabelecido tende a se modelar em seu setor exemplar, [...]. Essa distorção em direções opostas, faculta ao grupo estabelecido provar suas afirmações a si mesmo e aos outros; há sempre algum fato para provar que o próprio grupo é “bom” e que o outro é “ruim” (ELIAS, 2000, p. 22-23).

Configura-se dessa forma uma desqualificação do idoso, que vai desembocar na estigmatização e justificar as várias apreensões que lhe são impostas além de, sutilmente, imputar-lhe a responsabilidade por sua exclusão. Essa representação pretende universalizar um processo que é individual: o processo do envelhecimento. Cada velhice tem suas peculiaridades próprias decorrentes da história de vida de cada um, das opções feitas, dos acidentes, do presente, das possíveis doenças e do contexto social que o indivíduo está inserido.

Num movimento de oposição à velhice e toda a carga de representação social negativa e depreciativa que ela traz consigo, a expressão Terceira Idade, uma criação da sociedade contemporânea, vem dar uma nova conotação a esta fase da vida que oficialmente começa aos sessenta anos de idade. O aumento da longevidade, decorrente de inúmeras conquistas no campo social e da saúde, criou demandas de políticas públicas diferenciadas no tratamento da questão do envelhecimento e de serviços focados nesse segmento populacional. É na verdade, uma redefinição dos conceitos e das concepções sobre o envelhecimento e diz respeito a novas formas de viver essa etapa da vida, formas essas que devem estar associadas ao prazer e às realizações pessoais. Para os aposentados, significa também um novo sentido para o tempo da aposentadoria focalizando atividades voltadas para o lazer, respaldadas no salário proveniente da aposentadoria.

Neste sentido, é de extrema importância o pensamento de Dias (1998) no que diz respeito ao eufemismo da expressão estar na terceira idade. Ela traz consigo uma exterioridade é por sua vez, um envelhecimento moderno que pensa essa fase da vida a partir de uma nova perspectiva, vinculada a ações positivas como participar, questionar, mudar e evoluir, onde o idoso ocupa uma posição ativa dentro do seu processo de envelhecimento, tornando-se responsável pelo seu estilo de vida. Diz respeito também à aceitação das limitações sob o aspecto biológico, no vislumbramento da possibilidade de busca de novas alternativas e adaptação às perdas; a busca de novas práticas visando o auto-desenvolvimento e a auto-realização e a busca de novos espaços onde houver possibilidades de expressão.

A nomenclatura Terceira Idade traz consigo uma convocação a práticas de atenção e cuidados com a saúde, vida social ativa e exercício da cidadania na busca de um envelhecimento visando melhor qualidade de vida. Essa nova terminologia conota o estabelecimento de novas necessidades e aspirações para os indivíduos idosos, todas elas ligadas a uma auto-imagem positiva. Portanto, pretende-se associada ao lazer, a realização de planos que ficaram para trás por circunstâncias adversas durante o curso de vida, a aposentadoria ativa. Mas, de forma sublinear está também associada ao retardamento e a negação da velhice.

Entretanto, outro aspecto de extrema proeminência é a mídia, grande parceira das representações, que por sua vez se encarrega de difundir uma visão fantasiosa de um envelhecimento bem sucedido, com independência e grandes possibilidades de novas atividades atraentes ao alcance de todos indiscriminadamente, trazendo também propostas de adiamento interminável da velhice e a imposição de estilos de vida. Em seu trabalho Baczko (1985) enfatiza o papel da mídia nesse processo, afirmando que a dominação simbólica é garantida através de valores, de crenças e da persuasão. Conforme sua argumentação, as identidades coletivas, formadas no imaginário social por meio de um sistema simbólico, podem ser amplificadas e canalizadas para os interesses do grupo dominante com o auxílio da propaganda moderna e todas as possibilidades técnicas, culturais e políticas, confirmando a legitimidade do poder desse grupo.

Pode-se afirmar que a simbologia das representações sociais determina a forma como a sociedade encara o processo de envelhecimento, o valor dado ao indivíduo que envelhece e ao velho. Essa representação da velhice determina também o tipo de relação que a família, célula dessa sociedade, estabelecerá com seus idosos. Certos mitos sociais são construídos de forma a respaldarem, naturalizando, tipos de comportamentos de determinados grupos em relação a outros, podendo levar a aceitação generalizada da injustiça.

Como enfatiza Cardia:

A natureza e o conteúdo dos mitos aceitos como objetivamente verdadeiros por diferentes categorias sociais são fortemente afetados pela localização dos indivíduos no sistema social. [...] Estes mitos, que isentam os indivíduos da construção de justificativas individuais para a injustiça, em geral, se baseiam no supremo bem da coletividade (CARDIA, 1994, p. 26).

No entanto, a natureza dessas relações tem um efeito direto na qualidade de vida [08] dos velhos.

2.5 A Questão da Morte e do Morrer

A morte, por ter muitos significados pessoais pode ser entendida como um evento biológico, um rito de passagem, algo inevitável, uma ocorrência natural, uma punição, a extinção, o cumprimento do desígnio de Deus, um Absurdo, uma separação. Em síntese, este acontecimento torna-se algo presente e intrínseco a realidade humana durante sua historicidade.

Porém cabe ressaltar que a aceitação não deve ser confundida como um estágio feliz. Ela é quase destituída de sentimentos. É como se a dor tivesse cessado, a luta tivesse acabado, e tivesse chegado o momento do descanso final antes da grande viagem. Neste sentido, Kastenbaum (1992, p. 53) explicita que este processo pode ser compreendido na verdade como, “a rejeição, a raiva e a depressão aprecem e reaparecem, e, que esta negociação é um pensamento rápido, e a aceitação é enganosa”.

Sendo a morte uma dimensão integrante da vida, o viver plenamente implica a aceitação e o convívio com ela, muito embora a pessoa idosa crie dispositivos de segurança, negando, assim, essa realidade. Os mecanismos de defesa apresentados pela pessoa idosa possibilitam que se ignore a morte e se dificulte a percepção da finitude do ser no mundo. O idoso por sua vez, admite a morte como um fato, porém apresenta grande dificuldade em assumi-la como um modo de ser da natureza humana. Adotar uma postura de autodefesa diante da morte garante ao ser o simples ato de pensar e agir, dissimulando seu verdadeiro significado.

Embora a morte chegue para todos, as ideias sobre ela variam bastante. A morte tem sido negada, procurada, temida, combatida e sentida pelas famílias, pelas comunidades e pelos próprios moribundos de maneira muito diferentes. Desta forma, salienta-se no decorrer desta análise que os amigos e a família ajudam as pessoas idosas durante todas as passagens da vida. Isso não é menos verdadeiro para a morte do que para outras mudanças, e a sensibilidade às questões relativas à morte são sempre necessárias para o processo de elaboração do luto.

2.5.1 Como se trabalhar o “luto”?

O processo de elaboração do luto pode ser entendido, segundo Bromberg (2000), como um conjunto de reações a uma perda significativa. O enlutamento é o processo de adaptação a essa perda.

Neste sentido, entende-se que existe uma necessidade de se passar adiante as roupas do falecido, geralmente como um estímulo, contado por Didion (2006) como fazendo parte das coisas que sempre são feitas depois de uma morte. Isso faz parte do ritual, é uma espécie de dever a ser cumprido. Ou em outra análise, uma tentativa de manter vivos os mortos, para mantê-los conosco. Existe uma hora que é preciso abandonar os mortos, deixá-los ir, mantê-los mortos. Deixar que se tornem uma fotografia em cima da mesa, um nome nas contas do inventário.

O luto é um processo psicossocial onde há a transferência da vinculação em relação a um objeto perdido, perante a irresponsabilidade do seu desaparecimento físico. Rebelo (2005) confirma que no luto há uma desorganização emocional. O luto é entendido como uma constelação de reações psíquicas conscientes e inconscientes. Domingos (2003) diz que há uma perda significativa, o luto é uma experiência complexa que transcende o âmbito individual. Entende-se então que o luto só é resolvido quando a pessoa perdida, ao invés de esquecida, é internalizada e tomada parte da pessoa que sofreu a perda e se adequar à realidade.

Neste sentido, menciona-se que a pessoa idosa em luto permanece sentindo a solidão por muitotempo e que os mecanismos para conviver com esta é aceitá-la como algo comum nas circunstâncias da viuvez, e que não é culpa do indivíduo em luto, mas, uma vivência de extrema importância.

O fato de cada indivíduo experimentar perdas de maneiras diferentes intensifica a reverência pela singularidade do ser humano. Fukumitsu (2004) conta que lidar com perdas é um processo que pode ou não ter um fim. Para o referido autor, o luto não precisa necessariamente ser terminado/concluído, mas, deve ser abordado como um processo que precisa ser experienciado como parte preponderante do desenvolvimento humano.

Outro ponto que merece a devida análise é a questão simbólica da morte, como é o caso da vestimenta preta, que por sua vez, tem dois sentidos: primeiro, o caráter sombrio da morte, que se desenvolve com a iconografia macabra, mas principalmente a ritualização mais antiga do luto; segundo a qual a roupa preta expressa o luto e dispensa a gesticulação mais pessoal e mais dramática, diz Ariès (1989).

A dor da morte é posta em relação, não com os sofrimentos reais da agonia, mas com a tristeza de uma amizade rompida. Ariès (1990) coloca que a dor da saudade pode permanecer no coração do sobrevivente. G. Gorer (apudARIÈS, 1990) distingue três categorias de enlutados: aquele que consegue esconder completamente a sua dor; o que a esconde dos outros, guardando-a para si mesmo; e o que a deixa aparecer livremente.

No primeiro caso, o enlutado se obriga a proceder como se nada tivesse acontecido, continuando a sua vida normal sem qualquer interrupção. No segundo caso, quase nada transparece externamente e o luto subsiste apenas em âmbito particular. Constitui, sem dúvida, a atitude mais aprovada pelo senso comum, que admite ser necessário tolerar algum desabafo, contanto que permaneça secreto. No último caso, o enlutado obstinado fica impiedosamente excluído como um louco.

Os sobreviventes aceitam com dificuldades a morte do outro. O luto é a dor por excelência cuja manifestação é legitima e necessária. Ariès (1997) fala da dor diante da morte de alguém próximo ser a expressão mais violenta dos sentimentos mais espontâneos, que precisam ser trabalhadas na perspectiva de aceitação desta, e não com a intencionalidade de superação da perda.

Com base nos questionamentos apresentados nesta análise, destaca-se que o envelhecimento e a subjetividade da pessoa idosa devem ser visualizados dentro de um contexto biopsicossocial, e para que o idoso seja o protagonista de um envelhecimento saudável não se pode analisá-lo sem que seja levado em consideração as expressões e/ou manifestações das questões que permeiam este processo do ciclo da vida. Neste sentido, o presente estudo buscou propiciar significativas contribuições para possíveis reflexões na construção ou reconstrução e na visualização que se tem a respeito do idoso, dentro deste contexto, buscou-se desfazer os paradigmas, estigmas e os estereótipos impostos historicamente pela sociedade com relação a esta população.

Acredita-se que ao se aproximar as condições de prolongamento da longevidade fica mais evidente a discussão da finitude da vida. Contudo, quando mencionada palavra velhice, busca-se adotar como ponto de partida a importância de sua heterogeneidade e de sua multidimensionalidade e, ao mesmo momento, a perspectiva de que a velhice é uma oportunidade de desenvolvimento, implicando uma imprevisibilidade na sua ocorrência.

O envelhecimento é inexorável, mas a velhice é imprevisível. Esta é a lógica do movimento e do desenvolvimento ao longo da vida o que não representa um curso contínuo de crescimento e depois de perdas, mas, dentro de uma expectativa de concretização de cidadania íntegra, pode-se pensar em envelhecer com desenvolvimento.

Portanto, percebeu-se no decorrer deste estudo que a velhice não estanca o processo de relações e de auto desenvolvimento e nem encerra o ciclo da vida, mas constitui-se em um momento, uma etapa de ganhos e de perdas num equilíbrio instável entre ambos.

Mediante o exposto neste esboço, conota-se que o mesmo possa contribuir para a discussão da importância do aprofundamento científico sobre a temática e em relação às pesquisas relacionadas ao processo de envelhecimento e as questões subjetivas que permeiam esta fase do ciclo de vida.

Forma significativa atentar para as determinações e mitos, presentes no contexto familiar e social, para que, assim, seja possível instituir uma nova cultura de incentivo/apoio à população idosa. Principalmente no tocante a sensibilização dos representantes legalmente constituídos, no que se refere à formulação e efetivação de políticas públicas, que por sua vez não tem acompanhado esta substancial transição do envelhecimento populacional brasileiro.

Desta forma, conclui-se o referido estudo, levantando reflexões pertinentes à temática abordada. Não se poderá mencionar aqui que este sucinto ensaio esgote argumentações a um tema desta natureza, de tão grande relevância social. No entanto, que esta abordagem sirva de subsídio para novas investigações sobre a temática, não somente no meio acadêmico de psicologia, mas a todos quanto necessitarem desta contribuição para futuros questionamentos sobre o tema em questão.

Sobre o Artigo:

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como parte dos requisitos para obtenção do grau de Bacharel em Psicologia pela UNINORTE – AC. Rio Branco, 2012.

Sobre o Autor:

Elissandra Paula da Silva - Graduada em Administração pela Universidade Norte do Paraná (2007). Especialista em Saúde Pública pela União Educacional do Norte – UNINORTE (2011). Acadêmica do 10ª período do Curso de Psicologia da União Educacional do Norte – UNINORTE. Pós-Graduanda em Gerontologia pela União Educacional do Norte – UNINORTE. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Orientação:

Vera Alice Pereira da Silva - Professora Orientadora, Graduada em Psicologia pela UNIMEP (1994) e Mestre em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro IUPERJ (2009). Especialista em Psicopedagogia e Saúde Pública. Atualmente é psicóloga do Núcleo de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação – NAAH/S da Secretaria de Estado de Educação do Acre, Coordena o Curso de Graduação em Psicologia da Faculdade Barão do Rio Branco e Escolar na União Educacional do Norte – UNINORTE, é também professora de Psicologia nos cursos de Psicologia, Direito, Ciências Contábeis e Fisioterapia na União Educacional do Norte – UNINORTE, além de realizar atendimentos clínicos individuais com psicoterapia e orientação vocacional. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

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