Gravidez na Adolescência: com a Palavra Pais e Adolescentes

(Tempo de leitura: 13 - 26 minutos)

Resumo: O objetivo do estudo é identificar a visão de adolescentes grávidas e responsáveis sobre a gravidez na adolescência, considerada como um fenômeno social complexo. Com base na abordagem sócio-histórica, desenvolveu-se uma pesquisa descritiva, exploratória e qualitativa junto a cinco adolescentes grávidas e responsáveis. Os colaboradores foram selecionados em uma Unidade Básica de Saúde, na cidade de Lins, SP. A pesquisa foi desenvolvida entre agosto e setembro/2011, utilizando como referencial metodológico a história oral e entrevista semi-estruturada; sendo estas gravadas. Os dados são apresentados na forma de narrativas, os pontos comuns são explorados por meio do referencial da Análise de Conteúdo de Bardin. Os colaboradores atribuem diferentes significados à gravidez na adolescência, revelam expectativas, dificuldades e a existência de sentimentos ambíguos com relação à ocorrência deste fenômeno. Constata-se que há necessidade de oferecer aos usuários orientação psicológica, pois o atendimento médico somente não responde com resolutividade adequada às necessidades desta população.

Palavras-chave: Adolescência, Gravidez, Psicologia.

1. Introdução

Este estudo trata do tema gravidez na adolescência. Não se pretende esgotar a discussão acerca desta temática e das possibilidades de intervenção da Psicologia neste campo de trabalho, visto tratar-se de um assunto complexo. O objetivo geral deste estudo é identificar a visão de adolescentes grávidas e seus responsáveis sobre a gravidez na adolescência.

Com base nas leituras realizadas elencou-se como problema de pesquisa a seguinte questão: Como a gravidez na adolescência está sendo vista e tratada pela grávida adolescente e seus responsáveis?

A fim de responder a esta questão formulou-se como hipótese de trabalho a seguinte proposição: A visão dos pais e das próprias adolescentes grávidas, precisa ser identificada pelo fato desta concepção está diretamente relacionada aos valores sociais e morais que existem no meio onde esta jovem adolescente está inserida. Estes valores recaem sobre o comportamento da adolescente e de sua família que podem ser positivos ou negativos, mas que provocam e exige uma adaptação dos atores envolvidos diante desta nova situação de vida, encarar a maternidade e a paternidade numa época marcada por fortes transformações pessoais e profissionais.

Para demonstrar a veracidade ou não desses pressupostos, realizou-se uma pesquisa descritiva e exploratória, com abordagem qualitativa. Os métodos empregados neste estudo incluem a história oral e análise de conteúdo e as técnicas são a história oral temática (somente para as adolescentes) e a entrevista (para as adolescentes e responsáveis). Para este estudo foram desenvolvidos dois instrumentos: roteiro da história oral temática para adolescentes grávidas e roteiro de entrevista para adolescentes grávidas e responsáveis.

Após aprovação pelo Comitê de Ética e Pesquisa – UNISALESIANO (Protocolo 393/2011) realizou-se uma pesquisa de campo na Unidade Básica de Saúde (UBS) – “Dr. Mohanna Adas”, Centro, no município de Lins, estado de São Paulo, no período de agosto a setembro de 2011. Todas as adolescentes grávidas participantes são usuários desta UBS. Os endereços das participantes foram obtidos na própria UBS, por meio da enfermeira responsável. Após concordância prévia entre pesquisador e participantes as entrevistas foram agendadas na residência das adolescentes em data, horário e local apropriados. As entrevistas foram individuais e realizadas em ambiente adequado, preservando-se a privacidade do entrevistado. A história oral e as entrevistas foram gravadas em áudio, com duração de 30 a 45 minutos.

O critério de inclusão estabelecido para as adolescentes foi o de estar grávida pela primeira vez.  O critério de inclusão para ser reconhecido como responsável pela adolescente foi o de ser pai, mãe, ou o de ser outro adulto pertencente à família que pudesse responder pelos pais. As adolescentes, usuárias da UBS, que nunca engravidaram ou que já tivessem filho(s) foram excluídas deste estudo (critério de exclusão). Os Termos de Consentimento foram apresentados aos responsáveis (pais ou adulto responsável pela adolescente) em duas vias, sendo uma entregue ao responsável e a outra arquivada pelo pesquisador; após a devida assinatura dos mesmos foi iniciada a aplicação dos instrumentos de pesquisa.

Neste estudo foram definidos dois grupos distintos de categorias. O primeiro grupo, constituído por seis categorias, refere-se à história oral temática, aplicada somente nas adolescentes grávidas. E, o segundo grupo, constituída igualmente por seis categorias, refere-se à entrevista, aplicada nas adolescentes e responsáveis.

  1. Categorias de análise para a história oral temática: Categoria I - Percepção das adolescentes grávidas quanto a suas características pessoais; Categoria II - Início da sexualidade; Categoria III - Descoberta e comunicação à família sobre a gestação; Categoria IV - Comparação de sua vida antes e depois da gravidez; Categoria V - Assistência em saúde prestada pela UBS e Categoria VI - Sentimentos e expectativas de vida.
  2. Categorias de análise para a entrevista: Categoria I - Visão sobre a gravidez na adolescência; Categoria II - Sentimentos vivenciados com a confirmação da gravidez; Categoria III - Os reflexos da gravidez sobre a família e a vida das adolescentes; Categoria IV - Atitudes e expectativas com relação ao pai da criança e sua família e suas reações; Categoria V - Quanto à existência de preconceito e de fatores desencadeadores da gravidez na adolescência e; Categoria VI - Acolhimento e atendimento das adolescentes e responsáveis na UBS.

Para sintetizar as principais ideias é redigido um parecer final sobre a pesquisa.

2. Principais Concepções Sobre Adolescência

2.1 A adolescência segundo a abordagem da Psicologia Sócio-Histórica

Segundo Ozella (2002), a concepção vigente na psicologia sobre adolescência está fortemente ligada a estereótipos e estigmas, desde que Stanley Hall a identificou como uma etapa marcada por tormentos e conturbações vinculadas à emergência da sexualidade. Essa concepção foi reforçada por algumas abordagens psicanalistas que a caracterizaram como uma etapa de confusões, estresse e luto também causados pelos impulsos sexuais que emergem nessa fase do desenvolvimento.

Por volta de meados da década de 70 (1976) Erik Erikson foi considerado o grande responsável pela institucionalização da adolescência como uma fase especial no processo de desenvolvimento. Erikson introduz o conceito de moratória, identificando essa fase com confusão de papéis e dificuldades de estabelecer uma identidade própria, e como um período situado entre a infância e a idade adulta.

Na América Latina e particularmente, no Brasil, Aberastury (1980) e Aberastury e Knobel (1981) são um marco histórico no estudo da adolescência na perspectiva psicanalítica. Aberastury considera a adolescência como “um momento crucial na vida do homem e constitui a etapa decisiva de um processo de desprendimento” (p. 15); além disso, destaca esse período como de “contradições, confuso, doloroso” (p. 16) e afirma que a “adolescência é o momento mais difícil da vida do homem [...].” (p.29). Knobel, ao introduzir a “síndrome normal da adolescência”, traz uma grande contribuição dentro dessa perspectiva. Para Aberastury e Knobel os adolescentes passam por três lutos: luto pelo corpo infantil; luto pela identidade perdida; luto pelos pais da infância. Apesar de Aberastury (1981, p. 28) enfatizar que “toda a adolescência leva, além do selo individual, o selo de meio cultural e histórico”, junto com Knobel (1981) condicionam a realidade biopsicossocial a circunstâncias interiores ao afirmarem a existência de uma crise essencial da adolescência. As características são colocadas de forma inerente ao jovem; pressupõe-se que exista uma crise preexistente no adolescente. Knobel (1981) parte do pressuposto de que o adolescente passa por desequilíbrios e instabilidades extremas e que se apresenta vulnerável para assimilar os impactos projetivos de pais, irmãos, amigos e de toda a sociedade. Aberastury e Knobel (1981) entendem a adolescência como uma fase crítica. Trata-se de uma concepção de adolescência da qual a psicologia tradicional se apropriou e que marca esse período de maneira universalizante, naturalizante e crítica. Esta ideia da adolescência passou a ser compartilhada pela psicologia, sendo incorporada pela cultura ocidental.

Santos (1996) identifica em Rousseau a invenção da adolescência como um período típico do desenvolvimento, marcado pela turbulência, no qual o jovem não é nem criança nem adulto. Trata-se de uma visão naturalista, pois a infância e a adolescência são vistas como um estado, e não como uma condição social.

Apesar de estudos antropológicos que, desde Mead (1945), têm questionado a universalidade dos conflitos adolescentes, a psicologia convencional insiste em negligenciar a inserção histórica do jovem e suas condições objetivas de vida (BOCK, 1997; CLIMACO, 1991).

Peres (1998), ao investigar a concepção de adolescente/adolescência no discurso da Saúde Pública, identifica também a noção de universalidade do fenômeno, bem como a noção da adolescência como um período crítico no desenvolvimento humano. Da mesma forma, Bock (1997), considera que a universalidade “traz implícita a ideia de uma evolução natural do ser humano, linear, independente das condições concretas de sua existência.” (p. 64). Herrán (1997) considera que haja alguma concordância entre autores e linhas teóricas sobre o fato de a adolescência ser um período de transição marcado por mudanças físicas e cognitivas.

As concepções presentes nas vertentes teóricas da psicologia, apesar de considerarem a adolescência como um fenômeno biopsicossocial, ora enfatizam os aspectos biológicos, ora os aspectos ambientais e sociais, não conseguindo superar visões dicotomizantes ou fragmentadas. Dessa forma, os fatores sociais são encarados de forma abstrata e genérica, e a influência do meio torna-se difusa e descaracterizada contextualmente, agindo apenas como um pano de fundo no processo de desenvolvimento já previsto no adolescente. Essa situação é identificada por Bock (1997), dentro de uma concepção liberal, na qual o homem é concebido a partir da ideia de natureza humana, ou seja, um Homem apriorístico (que pode ou não revelar-se na sua integridade) que tem seu desenvolvimento previsto pela sua própria condição de homem, livre e dotado de potencialidades.

Há atualmente uma clara dificuldade em delimitar o término da adolescência. Busca-se uma saída teórica que supere a visão naturalizante e patologizante da adolescência presente na Psicologia. Uma saída que supere a visão de homem, baseada na ideologia liberal, que vê o homem como autônomo, livre e capaz de se autodeterminar e, vê a adolescência como uma fase natural do desenvolvimento, apontando nela características naturais como rebeldia, desequilíbrios e instabilidades, lutos e crises de identidade, instabilidade de afetos, busca de si mesmo, tendência grupal, necessidade de fantasiar, crises religiosas, flutuações de humor e contradições sucessivas.

Ao definir a adolescência se está constituindo significações, interpretando a realidade, a partir de realidades sociais e de marcas que serão referências para a constituição dos sujeitos. A adolescência não é um período natural do desenvolvimento. É um momento significado e interpretado pelo homem.

De acordo com Bock (1997 apud Ozella, 2002) na perspectiva sócio-histórica, só é possível compreender um determinado fato a partir de sua inserção na totalidade, onde este fato foi produzido. Esta totalidade o constitui e lhe dá sentido. Entende-se que a adolescência deva ser compreendida nessa inserção. A totalidade social é constitutiva da adolescência, ou seja, sem as condições sociais, a adolescência não existiria. Isto quer dizer que, as condições sociais constroem uma determinada adolescência; a adolescência, portanto, é uma construção histórica.

2.2 Contribuições da Psicologia à sexualidade e saúde reprodutiva do adolescente

A gravidez na adolescência passou a ser uma preocupação a partir das décadas de 60 e 70, quando, como resultado dos movimentos sociais voltados para a liberdade do comportamento sexual, elevou-se o número de mulheres com início da atividade sexual antes do casamento.

A saúde dos adolescentes causa preocupação, pois é um assunto que o mundo defrontará no próximo milênio. O meio em que os jovens estão vivendo passa por grande mudança global dos valores que atinge diretamente a juventude, porque ela é extremamente sensível a todos os fatores que influenciam a sua transformação em indivíduos adultos. Alterações econômicas e sociais afetam a sua saúde, incluindo a saúde reprodutiva.

Portanto, quanto mais cedo programar-se e iniciar-se uma solução, mesmo parcial desses problemas, menores serão as repercussões desfavoráveis sobre os jovens. As ideias e iniciativas de como lidar com os próprios problemas são múltiplas e criativas. Os jovens são realistas quanto aos problemas que enfrentam, quando cedo aprendem a lidar com eles.

Correa (apud GUIMARÃES; ALVES; VIEIRA, 2004), mostra que ao longo dos últimos anos os termos saúde sexual e reprodutiva vêm sendo compreendidas de maneira diferente. Moreira; Sarriera (2006) entendem que se torna uma exigência aprofundar o entendimento acerca da sexualidade na adolescência. Muitas vezes, este processo não se desenvolve de forma ideal. E assim, a gestação na adolescência pode vir como uma resposta à prática da sexualidade sem uma maturação psicológica para tanto. A gravidez precoce gera sérias mudanças no cotidiano e também em aspectos emocionais desses jovens e, por essa e outras razões, trata-se de um tema que deve ser estudado em profundidade.

Com relação à orientação materna no pré-natal para adolescentes grávidas, Hoga, Borges e Rebert (2010) consideram que a adolescente deve receber acompanhamento. O pré-natal torna-se um procedimento de grande importância por permitir que a gestante receba acompanhamento desde a concepção do feto até o início do trabalho de parto. O problema é que, na grande maioria dos casos, essas condições não existem e a dificuldade de relatar o fato para a família ou até mesmo constatar a própria gravidez faz com que as adolescentes não iniciem corretamente o pré-natal.

3. Gravidez na Adolescência

A gravidez na adolescência não é um fenômeno novo e nem mesmo uma regra geral da atualidade. Segundo Neme (apud SOUZA, 2011), até no início do século XX, a gravidez entre a idade de 12 a 19 anos ainda era considerada acontecimento habitual para os padrões culturais e para os costumes vigentes. Para Pereira (apud SOUZA, 2011) somente a partir da terceira década do século XX, a taxa de fecundidade de meninas com idade inferior a 19 anos foi diminuindo, na maioria dos países, tornando a gravidez nessa faixa etária mal vista pela sociedade. Segundo Heilborn et al. (apudSOUZA 2011), foi a partir da segunda metade do século XX, inicia-se o processo de separação entre sexo e procriação e a preservação da virgindade até o casamento foi perdendo seu significado moral. Neste contexto de transformação de comportamentos surgiu o fenômeno da “gravidez na adolescência” como elemento perturbador do desenvolvimento dos jovens.

Conforme Ozório (1992) a adolescência atualmente tem sido um fenômeno estudado por vários segmentos sociais e áreas da ciência. Nas últimas décadas a adolescência tem sido considerada como um momento crucial do desenvolvimento humano. Com relação aos motivos do aumento no número de gestações em adolescentes, Cobliner (apud PEREIRA, 2009) considera como aspecto relevante a mudança ocorrida no controle exercido pelas famílias em relação aos filhos. Afirma que este controle dos pais tem sido relaxado, os filhos tem maior liberdade de ação e os pais procuram não se tornar empecilhos na vida dos filhos. A gravidez precoce pode estabelecer relação com diferentes fatores, desde estrutura familiar, formação psicológica e diminuição da autoestima. Além disso, há evidências de que gestantes adolescentes podem sofrer mais intercorrências médicas durante gravidez e mesmo após esse evento do que as gestantes de outras faixas etárias (DIAS; TEIXEIRA, 2010, p.124).

A gravidez na adolescência constitui-se como um problema de saúde pública mundial, em razão do acréscimo de sua incidência; atinge, sobretudo a classe social mais pobre e com menores níveis de escolaridade sendo que a gravidez na maioria das vezes não é programada. Em função das repercussões sobre a mãe e sobre a concepção, a Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou a gravidez adolescente de risco, embora se considere atualmente que este risco seja mais social do que biológico.

3.1 Situações de vulnerabilidade, violência, preconceito e implicações da maternidade na adolescência

A Vulnerabilidade pode ser vista como o produto da interação entre as características do indivíduo, cognição, afeto, psiquismo ­ e estruturas sociais de desigualdade, ­ gênero, classe e raça­ determinando acessos, oportunidades e produzindo sentidos para o sujeito sobre ele mesmo e o mundo. (VILLELA; DORETO, 2006). Ainda de acordo com Villela; Doreto (2006), um indivíduo pode tornar-se menos vulnerável se for capaz de voltar a interpretar de modo crítico as mensagens sociais que o colocam em situações de desvantagem ou desproteção, porém sua vulnerabilidade pode aumentar se a mesma não tem oportunidades de ressignificar às mensagens emitidas em sua volta. As autoras ressaltam que a escola nas sociedades contemporâneas tem sido o espaço privilegiado para a aquisição de habilidades cognitivas e sociais por crianças e jovens, facilitando os processos de recriação de si e do mundo e, assim, reduzindo a sua vulnerabilidade social. Jovens fora da escola têm menos chances de reinterpretar as mensagens pejorativas relacionadas às ideias de pobreza, negritude e feminilidade, o que interfere no modo como será exercida a sua sexualidade (VILLELA; DORETO, 2006). As características assumidas pelo adolescente em busca de uma nova identidade, a procura de modelos fora da família, aliadas à necessidade de participar de grupos como forma de vivenciar e reformular novos conceitos faz com que o jovem fique mais vulnerável à pressão do grupo, podendo vir a apresentar tendências a comportamento de risco.

3.2 Influência da mídia sobre e na sexualidade do adolescente

De acordo com Strasburger; Wilson; Jordan (2011) a televisão atua como uma fonte de informação sexual, pois é capaz de transmitir informações e moldar atitudes, influencia a percepção que os espectadores têm do comportamento e da realidade social. O conteúdo sexual atrai muito os adolescentes como constatado por Brown et al. (2006) e Sutton et al. (2002). Também a mídia impressa, em especial, apresentada sob a forma de revistas, reflete a mesma tendência apresentada pela televisão, assim como a dos filmes (cinema).

3.3 Promoção de saúde e metas de vida na adolescência

De acordo com Liebesny; Ozella (2002, p.61-67) referindo-se ao projeto de vida na promoção de saúde de adolescentes afirmam que estes estão em constante relação com os outros, “vivenciando permanente e contínuo processo de construção e transformação de si e das próprias relações sociais nas quais é ser ativo”.  Na adolescência o indivíduo passa por um processo de construção de identidade e individualidade que se concretiza por meio do estabelecimento de uma rede de relações sociais, afetivas, nas quais o adolescente reconhece a si mesmo e reconhece que pertence a um grupo.     

Ao questionar sobre o projeto de vida de um adolescente deve-se atentar para as condições nas quais esse projeto é ou será construído. Torna-se necessário refletir sobre quem é o sujeito desse projeto, analisando as condições oferecidas para que o adolescente possa construir esse projeto de vida.

Na opinião de Liebesny; Ozella (2002, p.65) o jovem não se vê como sujeito da sua própria ação; pois se contenta em “ir a reboque dela. Ele não é sujeito, é objeto”. O adolescente deve ser colocado “no papel de sujeito do seu processo de individuação e construção de projeto de vida” (LIEBESNY; OZELLA, 2002, p.66), mas para isto é necessário que o adolescente se aproprie das multiderterminações inerentes a este processo. Assim, o adolescente estará apto a realizar escolhas, de delinear seu projeto de vida e de ser sujeito de ações e transformações.

4. Gravidez na Adolescência na Perspectiva de Adolescentes Grávidas e seus Responsáveis

4.1 Caracterização das adolescentes grávidas

Observa-se que as adolescentes tem idade variando entre 14 e 16 anos de idade, residentes em Lins, sendo que três residem com a mãe e duas com a sogra. Com relação ao estado civil, três relatam ser solteira, uma casada e a outra amasiada, morando com o pai da criança. Constata-se que todas as adolescentes dependem financeiramente de seus parceiros ou pais, pois nenhuma trabalha no momento. A escolaridade varia do 7º ano do Ensino Fundamental até o 1º ano de Ensino Médio. E o tempo de gestação variou de 03 a 08 meses entre as adolescentes.

4.2 Caracterização dos responsáveis

Com relação aos responsáveis foram entrevistadas três mães e duas avós, sendo uma paterna e outra materna. Nenhum dos pais das adolescentes encontrava-se casados no momento, em sua maioria são separados ou divorciados, dois dos casais são solteiros. O grau de escolaridade dos pais varia de Ensino Fundamental a Ensino Médio, exercendo diferentes profissões: pedreiro, cozinheira, garçonete, diarista e/ou cuidadora de idoso, faqueira e operadora de telemarketing.

4.3 A gravidez na adolescência sob a ótica das adolescentes e responsáveis

A partir da análise das categorias descritivas referentes à história oral temática (obtida junto às adolescentes) e das categorias descritivas referentes à entrevista (obtida junto às adolescentes e responsáveis) verifica-se que as colocações tanto das adolescentes grávidas como dos pais são bastante significativas, evidenciam que o fato de uma adolescente ficar grávida veio revestido de muita inquietação, sentimentos emergem, em alguns momentos positivamente e em outros em forma de silêncio, risos ou choro.

Alguns colaboradores atribuem a gravidez a uma atitude de irresponsabilidade, outros a curiosidade sexual, e outros a descuido. Na maioria dos casos, as adolescentes tinham conhecimento sobre os métodos anticoncepcionais, sendo os mais conhecidos a “camisinha masculina” e a “pílula” algumas usando de forma errada outras deixando de usar com a regularidade necessária para manter o efeito desejado.

A visão da adolescente dos colaboradores é de que se trata de um momento difícil, delicado, mas que tem que ser enfrentado, é preciso aceitar, pois a criança precisa ser recebida com carinho e ser cuidada, mas que a responsabilidade num primeiro momento deve ser atribuída aos pais, que neste momento precisam de apoio para enfrentar esta nova situação. Nenhuma das adolescentes participantes desejou engravidar, foram pegas de surpresa.

Na UBS percebe-se que, em geral, as adolescentes mantém contato com dois profissionais, sendo um responsável por medir a pressão e o peso e depois à aplicação de história oral (temática) e entrevista. Esta medida facilitou o relato concreto da experiência relativa à gravidez na adolescência e, atribuiu credibilidade às narrativas. O processo de análise de conteúdo utilizado tem por base a metodologia proposta por Bardin (1977). A técnica de história oral temática possibilitou a busca por esclarecimentos de situações conflitantes, polêmicas e contraditórias.  E a entrevista possibilitou ao pesquisador maior flexibilidade e oportunidade para observar atitudes e reações, obtendo dados relevantes e mais precisos sobre o objeto de estudo (BARROS; LEHFELD, 2007).

Com relação à visão da gravidez na adolescência por parte das adolescentes verificou-se que, em geral, atribuem a gravidez a uma atitude de descuido, e associam a gravidez a aspectos negativos, como o fato de não poder voltar atrás, de sentir-se presa, de ter que parar de estudar, de ter perdido a liberdade, por ter acontecido muito cedo em suas vidas, como uma situação complicada e difícil. Para os responsáveis a visão da gravidez na adolescência é a de que é algo que exige responsabilidade, que não é fácil ficar grávida quando ainda se é tão jovem, quando o momento seria de estudar; entendem como uma atitude irresponsável, pois informação sobre métodos contraceptivos e sexo até na escola se recebe, o que leva a crer que é mesmo irresponsabilidade engravidar neste período. Verificou-se que as colocações dos colaboradores expressam sentimentos de aceitação e rejeição, alegria e tristeza, inquietações, e tendem a culpar-se pelo ocorrido. No entanto, nas UBS o atendimento se restringe à área médica deixando a desejar em termos de atendimento psicológico, pois neste aspecto não há nenhum tipo de respaldo. Com base nas análises efetuadas neste estudo conclui-se que a hipótese de trabalho foi confirmada na medida em que foi constatado que a visão dos responsáveis e das adolescentes grávidas precisa ser identificada porque está diretamente relacionada aos valores sociais e morais existentes no meio do qual esta adolescente faz parte ou do qual participa.

Entende-se que este trabalho é relevante na medida em que possibilita refletir sobre a gravidez na adolescência como um fenômeno social, presente na atualidade e merecedor de estudos considerando sua complexidade. Com base na abordagem sócio-histórica entende-se o sujeito como ativo, social e histórico. Os resultados podem ser utilizados por diferentes profissionais, pois trazem com amplitude a discussão de questões relacionadas à gravidez na adolescência. E, em especial, serve de alerta para se refletir sobre a possibilidade de implantar apoio psicológico a esta população nos serviços oferecidos pelas Unidades Básicas de Saúde.

Sobre o Autor:

Lucia Helena Tavares - Graduada em Psicologia - UNISALESIANO - LINS/SP.

Referências:

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BOCK, A. M. B. As aventuras do Barão de Münchhausen na Psicologia: um estudo sobre o significado do fenômeno psicológico na categoria dos psicólogos. Tese de Doutorado não publicada. Curso de Pós-Graduação em Psicologia Social. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo - SP, 1997.

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