Impacto da Senescência na Vida Sexual de Sujeitos Entre 60 e 80 Anos no Município de Jequié, Interior da Bahia

(Tempo de leitura: 20 - 39 minutos)

Resumo: A população mundial tem passado por um crescente processo de envelhecimento, não sendo diferente no Brasil. Com isso, surgem também as necessidades específicas desse grupo populacional, especialmente aquelas relacionadas à saúde e à qualidade de vida. Dentro desse escopo, temos o tema da sexualidade, que também vem sendo cada vez mais discutido aberta e cientificamente na sociedade. Levando em consideração esses aspectos, decidimos unir esses dois temas em uma pesquisa, com o objetivo de compreender as mudanças que o envelhecimento natural - a senescência – pode trazer para a sexualidade humana. Nosso público alvo foi composto por sujeitos entre 60 e 80 anos de idade, moradores do município de Jequié, interior da Bahia. Realizamos entrevistas semiestruturadas com essas pessoas e identificamos que, no processo de senescência, alguns fatores interferem de formas diversas e com diferentes intensidades na vida sexual. Percebemos que as mudanças físicas em si interferem pouco na expressão da sexualidade, que é mais influenciada pela ocorrência de doenças, que afetam não apenas o físico, mas o psicológico dessas pessoas, que acabam por se sentir desestimuladas às práticas sexuais.

Palavras-Chave: Senescência. Sexualidade. Qualidade de vida.

1. Introdução

O mundo vem passando, há algumas décadas, por um processo de envelhecimento da sua população que se iniciou nos países mais desenvolvidos, principalmente os da Europa, e que, nos últimos anos, tem alertado países em desenvolvimento, como o Brasil. O relatório do Banco Mundial aponta que no Brasil, no ano de 2050, a quantidade de idosos será de 63 milhões, representando quase 30% da população total do país [1], colocando, desta forma, o país entre os cinco primeiros com maior população idosa do planeta.

Essas mudanças produzem diferentes formas de se perceber as pessoas nessa faixa etária, incluindo as denominações utilizadas para esse grupo e os principais conceitos sobre sexualidade, os quais serão abordados ao longo deste artigo.

Estes limites, porém, tornam-se bastante complexos, pois algumas pessoas não se acham velhas e nem agem como tal. Esses conceitos variam de acordo a concepção de envelhecimento que cada indivíduo possui, sentimento este alavancado pela influência social que ainda insiste em direcionar um olhar preconceituoso e excludente para a pessoa de terceira idade, com um olhar que se encontra enraizado em nossa cultura, a exemplo das limitações de idade em concursos públicos, a exclusão no mercado de trabalho e as tirinhas folclóricas que são ditas às crianças em algumas regiões do país: “Lá vem o velho” ou “O velho do saco”, contos que tem como objetivo utilizar de forma equivocada a figura estética do idoso para por medo às crianças como forma de impor a eles limites.

A terceira idade constitui, antes de tudo, um estágio ímpar, sinônimo de maturação psicofísica humana em que o indivíduo carrega uma experiência singular, seus conhecimentos, seu percurso, o que ganhou aqui no Ocidente uma conotação diferenciada e pouco valorizada, se comparada à visão que é dada na cultura oriental: “sabemos que para os orientais o idoso é tido como sábio detentor de poderes e crenças, sendo merecedor de todo o respeito, enquanto que a sociedade ocidental exclui os velhos, não lhes atribuindo funções nem os ajudando a tornar a vida mais significativa” [2].

No Brasil, a partir de estudos, pesquisas, previsões e do advento de leis a exemplo da Política Nacional do Idoso e do Estatuto do Idoso, além de outras propostas voltadas para este público, a sociedade passou a perceber o idoso de forma diferenciada e, apesar de ainda persistir o estigma que o acompanha, o idoso vem através de seus direitos tentando consolidar sua presença de forma ativa e transformadora na sociedade, desfazendo o mal entendido que impera há anos na cultura do Ocidente, diferente da que vimos em outros pontos do globo, em que a presença do idoso é sinônimo de conhecimento. Conhecimento este, que dá sustentação para a sua superação pessoal, fazendo-o direcionar um olhar de forma intrapessoal em pontos importante de sua vida, a exemplo da sexualidade.

A sexualidade é algo extremamente complexo de se definir, aja vista as diferentes conotações e abrangências do termo em torno do mundo, pois sua manifestação não está associada apenas a fatores genéticos, mas principalmente culturais, dificultando, desta forma, o estabelecimento de um padrão fixo e pré-estabelecido. De forma geral, a sexualidade está relacionada à busca do prazer e esta descoberta tem como instrumento principal de condução o toque, este contato, esta atração não acontece de forma homogeneizada, pois ela apresenta-se da forma mais diferenciada possível.

De acordo com Seixas (1998), esta manifestação corpórea que é a sexualidade delineia-se em múltiplos objetivos, onde o prazer, a reprodução, e o poder sobrepõem-se, e esteve e ainda encontra-se associado unicamente ao sexo propriamente dito. Muitos avanços ocorreram ao longo dos aproximadamente cinco milhões de anos em que os primeiros hominídeos surgem no período jurássico até os dias atuais, liberdades, opressões, dogmas, radicalismo, exclusão, privações e intolerâncias ainda insiste a persistir, apesar das ciências humanas e genéticas terem bem definido conceitos e dimensões. Demonstrando assim, o poder que a cultura exerce sobre o posicionamento social frente à sexualidade humana.

Para Butler (1985), o processo de envelhecimento resulta em mudanças tanto nos aspectos físicos, quanto nos aspectos fisiológicos do indivíduo, o que não implica, necessariamente, em disfunções sexuais, a não ser que o indivíduo sofra de alguma doença ou efeito colateral medicamentoso. O ato sexual em si é complexo, envolve o corpo, a mente e as emoções e as pessoas são estimuladas sexualmente de diversas formas, seja através da visão, olfato, tato, pensamentos e sensações.

A partir destas reflexões, questionamos qual o impacto da senescência na vida sexual de sujeitos entre 60 e 80 anos de idade, no município de Jequié-BA. Utilizamos os termos senescência ou velhice para definir a terceira idade, que é uma etapa da vida do indivíduo que se inicia a partir dos 65 anos. Para alguns autores da Biologia, como Balcombe & Sinclair (2001, apud TEIXEIRA e GUARIENTO, 2010, p. 2.846) os termos envelhecimento e senescência são vistos como sinônimos por se referirem às alterações progressivas que ocorrem nas células, nos tecidos e nos órgãos. Nessa direção, objetivou-se analisar o impacto da senescência na vida sexual de sujeitos entre 60 e 80 anos de idade, no município de Jequié/BA, discutir acerca dos significados atribuídos à sexualidade por esses sujeitos; pesquisar sobre a forma como essas pessoas vivenciam sua sexualidade, bem como, identificar se os aspectos decorrentes da ausência de saúde física repercutem na vida sexual.

Compreendendo que a sexualidade é algo pessoal (RIBEIRO, 2002), e que sua vivência é de importância ímpar na vida sócio-afetiva das pessoas na sociedade e percebendo que o tema ainda é pouco discutido na cidade de Jequié, decidimos pesquisar sobre a sexualidade na terceira idade. Também houve uma motivação pessoal, produzida a partir de contatos com grupos de terceira idade no período da graduação, quando passei a interessar-me em compreender o impacto da senescência na vida sexual, pois acredito que estudos deste tipo são importantes para desmistificar estereótipos e auxiliar a aquisição de um olhar diferente da sociedade para o indivíduo da terceira idade.

Enfim, falar de sexualidade na terceira idade é tentar dar um retorno em forma de respeito e dignidade a essas pessoas que vêm sendo historicamente no Brasil vitimadas pelo preconceito fruto de uma processo sociocultural, pois:

acreditamos que a cultura domina a expressão do sexo de maneira incrivelmente poderosa, apesar de sua base biológica. A cultura, entendida como síntese das crenças, hábitos, experiências e ponto de vistas, filtra a influência biológica da sexualidade e torna inseparáveis os aspectos naturais e sociais, articulando-os infinitamente (SEIXAS, 1998, p.107).

Segundo Ottaviano (2000), a sexualidade faz parte do aspecto vital do ser humano, mesmo em idade avançada, sendo esta dependente de alguns fatores a exemplo da historicidade, oportunidade e estado de saúde. A sexualidade sofre com o mesmo estigma relegado a eles e foi, ao longo dos anos, sendo tratada de forma marginalizada, vitimada por piadas de modo que a sexualidade do idoso passou a ser considerada como uma coisa indecente: As próprias pessoas quando chegam a essa idade se consideram assexuados e assim permanecem. Essa postura se deve à ignorância sobre o assunto (VITIELLO, 1987)

A sexualidade na terceira idade tem se tornado alvo de discussões na sociedade de modo a promover a quebra de estereótipos que cercam a sexualidade do idoso. O advento desta discussão toma o curso natural, à medida que a qualidade de vida associada à longevidade da população vem se destacando cada vez mais em nosso meio.

Butler (1985), assinala que a figura do idoso incapaz, doente e desprovido de estímulo sexual vem a cada dia sendo substituída pelo idoso como sujeito participativo em seu meio. A intenção de ser sujeito participativo sugere que ele tem necessidade de vivenciar não só seus direitos como cidadão, mas seus direitos de homem, de humano, independente de suas limitações; a propósito, falar da limitação do idoso é falar do processo natural do qual passa o ser humano por toda etapa de sua vida, processo este que se inicia no seu nascimento, infância, adolescência, fase adulta e terceira idade. Há um processo de amadurecimento que na terceira idade culmina com algumas restrições no que diz respeito principalmente às mudanças de ordem fisiológica, que vão desde as doenças características, como disfunção cardíaca, hipertensão, diabetes, artrite e outros, até algumas mudanças distintas relativas ao ato sexual.

2. Metodologia

Esta pesquisa configurou-se enquanto um estudo de campo, com a utilização da abordagem qualitativa, de caráter descritivo-exploratório. Segundo Minayo (2002),

A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivados, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis (p. 21-22)

A seleção dos informantes foi feita através de contato com grupos de terceira idade e outras pessoas indicadas. Participaram desta pesquisam 10 (dez) pessoas na faixa etária dos 60 (sessenta) a 80 (oitenta) anos, sendo 5 (cinco) do sexo masculino e 5 (cinco) do sexo feminino, de nível socioeconômico variado. Foi realizada uma entrevista semi-estruturada, gravada com consentimento dos participantes. É importante destacar que as falas transcritas neste artigo, após a entrevista, foram também lidas e consentidas pelos participantes.

O roteiro de entrevista dividiu-se em duas partes: a primeira composta por itens relativos a dados sócio-demográficos dos participantes e a segunda em questões que visavam à obtenção das informações do conteúdo qualitativo e pertinente ao presente projeto de pesquisa. É importante ressaltar que foi atribuído um código ao informante para que sua identificação seja preservada.

Após a coleta, as informações foram organizadas e submetidas à análise qualitativa. Para compreensão do leitor, os depoimentos foram transcritos, discutidos e analisados à luz da literatura pertinente. No que tange aos aspectos éticos, o presente estudo foi submetido à Comissão de Ética da Faculdade de Tecnologia e Ciências, com vistas a ser avaliado.   Uma vez informado o interesse em participar, o informante assinou um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE, onde consta o detalhamento do objetivo da pesquisa e a natureza do estudo, a sua divulgação e a possibilidade de recusarem a participar em qualquer momento do estudo se assim o desejarem. Esta pesquisa foi embasada de acordo com as diretrizes e normas da resolução 196 de 10 de outubro de 1996, do Ministério da Saúde, que normatiza as pesquisas realizadas com seres humanos.

A partir dos dados qualitativos obtidos, foram organizadas cinco subtópicos de análise, as quais foram discutidas com base nos enfoques teóricos pertinentes, com a finalidade de responder às seguintes questões: O que é sexualidade; a frequência da atividade sexual; relacionamentos afetivo-sexuais; a sexualidade diante das mudanças físicas e doenças e; agravos à saúde típico da terceira idade e sua influência na sexualidade.

Para Minayo (2003) a análise de conteúdo visa verificar hipóteses e ou descobrir o que está por vir em cada conteúdo em estudo:

(...) o que está escrito, falado, mapeado, figurativamente desenhado e/ou simbolicamente explicitado sempre será o ponto de partida para a identificação do conteúdo manifesto (seja ele explícito e/ou latente). A análise e a interpretação dos conteúdos obtidos enquadram-se na condição dos passos (ou processos) a serem seguidos (MINAYO, 2003, p. 74).

A fim de produzir uma análise mais aprofundada das informações obtidas nesta pesquisa e, ao mesmo tempo, não nos repetirmos na argumentação teórica, optamos por trazer a revisão da literatura juntamente com a análise e discussão dos dados. Antes disso, apresentaremos os sujeitos da nossa pesquisa:

Tabela 1: Dados Sociodemográficos dos Entrevistados

ENTREVISTADO

IDADE

SEXO

ESCOLARIDADE

ESTADO CIVIL

OCUPAÇÃO

H-1

63

M

Superior incompleto

Casado

Empresário

H-2

60

M

Sup.(concluindo especialização)

Casado

Analista financeiro

H-3

80

M

Primário

Casado

Aposentado

H-4

65

M

Primário Incompleto

Casado

Corretor

H-5

61

M

Segundo grau completo

Solteiro

Alfaiate

M-1

75

F

Segundo grau completo

Casada

Aposentada

M-2

78

F

1° grau incompleto

Casada

Do lar

M-3

66

F

Segundo grau completo

Casada

Aposentada

M-4

70

F

Primário

Divorciada

Do lar

M-5

68

F

Superior

Casada

Aposentada

3. Análise e Discussão dos Dados

3.1 O Que é Sexualidade

De acordo com Seixas (1998), a sexualidade pode trazer na velhice a possibilidade de emoção e romance, expressando a alegria de estar vivo.  Apesar desse grupo ainda sofrer com estereótipos e preconceitos, vítima da sociedade que impõe regras de comportamento, impondo o que julga adequado ou inadequado para o idoso, Bonança (2008) afirmaque:

nascemos como sujeitos sexuados e desfrutamos de sexo/sexualidade de maneira diferente de acordo com a etapa de nossa vida, mas infelizmente a sociedade como um todo, e as pessoas de modo individual, tendem a pensar que o sexo/sexualidade pertencem ao mundo dos jovens, relegando os indivíduos da terceira idade ao amor platônico ou a abstinência sexual (p. 2).

Vasconcelos et al (2004), assinalam que durante muito tempo a sexualidade associou-se à reprodução. Este entendimento gerou alguns estereótipos relacionados à atividade sexual, como a ideia de que a partir dos cinquenta anos as mulheres vivenciavam um declínio da função sexual em decorrência da menopausa e ainda os homens por conta de disfunções da ereção. Estes autores referem-se à importância da obra de Freud (1905/1969), no que tange à sexualidade humana enquanto meio para obtenção de prazer e não apenas de reprodução. Estas ideias, corroboradas por outros conceitos, como o de saúde sexual, destaca a importância da vida sexual para o bem estar da vida do sujeito.

Analisando as respostas dadas pelos entrevistados do sexo masculino, encontramos quase que na totalidade deles uma perspectiva mais ampliada do que é a sexualidade, associando a outras formas de carinho e de relacionamento. Com exceção do informante (H-2) que trouxe uma perspectiva um pouco mais delimitada, mas mesmo assim associando a sexualidade à liberdade, uma escolha do indivíduo na forma de expressá-la. Para o informante (H-5) não há necessidade de uma definição teórica para o que seria sexualidade, antes o que importa é a prática conforme suas possibilidades.

“Sexualidade é tudo que envolve relação com o corpo, com o parceiro, com afinidade, com tesão, com sentimento tudo que mexe com o prazer, com o emocional, tudo que está na escala da satisfação prazerosa com relação ao sexo, o toque, a pele, o carinho, o olhar. Até simplesmente o olhar já faz pare da sexualidade”. (H-1)

“É uma condição definida do indivíduo, deve ser percebida e acompanhada ainda na adolescência e acompanha sua formação pelo resto da vida, com opções que hoje já existem várias distorções do que é sexo masculino e sexo feminino, mas na verdade isso é uma questão de opção. A sexualidade é um pouco complexa, mas eu vejo por esse lado”. (H-2)

“Sexualidade é uma coisa que completa o ser humano, com prazer por livre e espontânea vontade sendo de acordo com o casal. Não coisa impulsiva, mas que venha trazer liberdade e prazer”. (H-3)

“Na minha maneira de pensar é a pessoa ser muito dedicada ao outro, ter muito amor, muito carinho e ter respeito pela pessoa. Sexualidade é essas coisas, e não só fazer sexo, vem do carinho, do amor, da maneira especial quando a pessoa gosta de outro. Sexualidade se torna isso”. (H-4)

“Eu não tenho aquela preocupação em certas coisas, como sexualidade, não tenho preocupação em formar um conceito, um paradigma. Eu sabendo o que sexo, ai agora eu parto para fazer de acordo a minha capacidade, minhas possibilidades, o que eu penso o que eu acho. Eu não me preocupo em formar um conceito”. (H-5)

Diferentemente do que se espera no senso comum, as mulheres trouxeram respostas até um pouco mais restritas do que os homens, uma delas inclusive definiu a sexualidade como sendo fazer sexo. Outras, no entanto, associam a sexualidade a características como carinho, afeto, amor, trazendo um tom de romantismo para essa prática. Uma delas fala de uma perspectiva mais ampliada, como também foi levantada pelos homens.

“Sexualidade é fazer sexo”. (M-1)

“Para mim é difícil falar em sexualidade, porque eu tive realmente uma educação muito..., não sei nem explicar, castrada naquele tempo. No meu tempo não se falava nessas coisas, e a gente ia crescendo e ficava inibida, e nunca se via, mas falar, e realmente eu ainda tenho essa dificuldade hoje de falar da sexualidade. Mas eu creio que envolve carinho, afeto e tudo mais”. (M-2)

“É uma série de fatores, principalmente o amor”. (M-3)

“Eu acho que a sexualidade é um prazer que a pessoa tem né. Não sei se tem um pouco a mais, eu sou um pouco leiga nesse caso ai. Mais acho que é um prazer né”. (M-4)

“Sexualidade pra mim, no meu entender não é somente o ato sexual  é toda preparação para esse ato, são os carinhos, beijos, abraços o envolvimento”. (M-5)

3.2 Sobre a Frequência da Atividade Sexual

Segundo Seixas (1998, p. 209), “na idade avançada, a melhor forma de manter a saúde do corpo e do espírito é praticar atividade mental, física e sexual”. Para esse autor, além da cópula, a vida sexual envolve outras práticas, como afago, prazer de ser tocado e acariciado, afeto, ternura, possibilidade de ter intimidade, companheirismo, lealdade.

Todos os homens declararam ter vida sexual ativa, mas tem algumas peculiaridades, inclusive já trazem uma valoração, uma qualificação dessa vida sexual ativa. Alguns falam mais ou menos, mais ao mesmo tempo diz que tem duas vezes por semana. As histórias foram bem peculiares. Um dos entrevistados, por exemplo, disse ter uma vida sexual completamente ativa, inclusive citando a participação da companheira dele, que não haveria como ser diferente. 

 “Se eu não tivesse, eu ia mentir, risos... Claro que eu tenho uma vida sexual ativa. Em situações normais duas vezes por semana, é o que eu vejo normal, as vezes mais, as vezes menos, as vezes passa a semana sem fazer nada, e as vezes passa a semana futucando todo dia. É comum, depende muito do estado de espírito do casal, da situação, do que está envolvido no momento”. (H-1)

“Sexual ativa. Com a frequência hoje não muito, não considero boa pelo fato da minha esposa não conviver comigo aqui na cidade, ela vive em outra cidade. Mas eu diria entre uma e duas vezes por semana”. (H-2)

“Ainda resta, graças a Deus, e também com a mulher que eu tenho só tem é que ter sempre. Quando a diabetes está alta eu manero um pouco, quando a diabetes cai melhora um pouquinho a atividade. Graças a Deus está tudo bem, pela minha idade eu não tenho do que me queixar. Pela a minha idade sou até um herói e ela também uma heroína pelo prazer que ela demonstra”. (H-3)

“Geralmente tenho. Mas esses meses que estou operado de próstata ai tem um resguardo a cumprir. Eu me sinto bem como te falei antes. Duas três vezes por semana. Nesse período que estou cuidando da próstata nada”. (H-4)

“Mais ou menos, duas vezes por semana. É bom”. (H-5)

Apenas uma mulher disse que não tem vida sexual ativa e as demais sim. Uma inclusive enfatiza bastante a importância dessa atividade no seu cotidiano, que tem uma vida “completamente ativa”, que faz parte de seu hábito, dos seus costumes diários, tem uma vida equilibrada, muito ativa, pratica atividades físicas regulares.

“Tenho”. (M-1)

“Não”. (M-2)

“Sim, normal”. (M-3)

“Há pouco tempo eu arrumei um namorado, risos....e assim, estamos tendo um certo tipo de intimidade, mas só que ele também não está tendo potência né. Então só brincadeira, mais que é prazerosa”. (M-4)

“Completamente ativa. A frequência umas duas vezes por semana, depende de vários fatores do dia a dia, do cansaço. Mas como eu sou uma pessoa absolutamente normal, pratico muita atividade física, tenho uma alimentação totalmente equilibrada. Então a minha frequência é de duas vezes por semana e o meu parceiro também é fortemente ativo”. (M-5)

3.3 Sobre os Relacionamentos Afetivo-Sexuais

Percebemos três eixos de respostas sobre o tipo de relacionamento. Alguns responderam mais com relação à parte afetiva, outros que focaram mais a parte sexual e outro que falam mais da normalidade, que é o cair na rotina. As pessoas que enfatizaram a parte afetiva expressaram-se da seguinte forma:

“Essa é a melhor parte do meu casamento. Minha esposa é tudo que eu tenho de bom, eu acho até que ela foi mandada por Deus pra tomar conta desse traste. Eu acho que não mereço a mulher que eu tenho, ela realmente é retada, é 100% retada. E o nosso relacionamento sempre foi muito bom, eu não diria por minha causa, que homem é sempre estovado mesmo, mas ela tem um equilíbrio muito bom, e ela faz tudo pra manter a relação da gente muito boa. É claro que eu gosto disso”. (H-1)

“Desde quando a gente convive há aproximadamente 37 anos, a melhor possível, apesar das dificuldades pelo fato de pontos de vista um pouco diferente, em termos de formação de criação. Mas eu sempre procurei entendê-la, compreendê-la e conviver da melhor maneira possível”. (H-2)

“Bem, porque somos muito ligado um ao outro, quando precisa de realmente tratar de assuntos importante a gente se sente bem um com o outro”. (H-4)

“Dou muito carinho, amor, tudo que é favorável ao casal”. (M-1)

“Como eu já disse da minha juventude entendeu? Carícias, beijos, abraços, tudo isso é antes do ato sexual em si. Por que eu não admito fazer só sexo sem fazer amor. Amor que eu digo é: carícias, companheirismo, atenção e o dia todo estar envolvida naquele contexto”. (M-5)

“Normal. Carinho, carícias tudo isso faz parte”. (H-3)

Ter um relacionamento afetivo não é privilegio apenas dos jovens, mas de todos que se sintam atraídos por alguém e que tenham interesse em unir-se a ele e/ou ela, desde que esta vontade seja recíproca. As relações que estabelecemos durante nossa vida estão permeadas pelas relações amorosas.

Como pudemos perceber nos relatos acima, o vínculo afetivo funciona como um dos principais elementos de manutenção do carinho e da vida sexual na terceira idade, período em que a atração física e o ato sexual em si perdem espaço para as carícias de outro tipo, que privilegiam o toque mais suave, porém não menos prazeroso (PORTELLA et al, 2006). Esses autores referem, ainda, que o que se perde em quantidade pode ser substituído por qualidade, por, pelo menos, um bom período de tempo.

Para que não haja prejuízo nas relações afeti­vas, é necessária uma adaptação às mu­danças ocorridas nesta fase (AZEVEDO, 2000). Com o passar dos anos, as pessoas tendem a querer ficar juntas como forma de proteção, pois percebem que ficar sozi­nhas gera tristeza e que demonstrações de carinho não são uma “fraqueza”. A idade avançada também mostra que a necessida­de de receber ajuda do companheiro não é apenas indispensável, como também é agradável (CAPODIECI, 1996).

Essa valorização da afetividade, muitas vezes é associada exclusiva ou majoritariamente ao gênero feminino. Desconstruindo essa ideia, muitos entrevistados do sexo masculino também atribuíram grande importância a esse aspecto, enfatizando a relevância dos seus relacionamentos afetivos na construção do seu bem-estar.

Para Portella et al (2005), para que as mudanças psicofísicas ocorridas com o passar dos anos acon­teçam de forma positiva, é preciso que o casal idoso estabeleça estratégias de enfrentamento, nas quais a serenidade e o amor sejam partilhados. De acordo com Capodieci (1996, p. 165), “a terceira idade pode ser uma oportunidade para rever ou, se for preciso, mudar alguns aspectos da própria vida sexual”. Diante de um novo relacionamento, tanto os homens como as mulheres podem se sentir inseguros e sentir preparadas para relações íntimas ou para o casamento. É im­portante que, além da atração física, haja respeito, confiança, e que um parceiro possa “cuidar” do outro; assim, a relação tornar-se-á duradoura (CAPODIECI, 1996).

Além disso, a afetividade é um deter­minante do processo de ser saudável dos seres humanos em qualquer fase do ciclo vital. Chopra (2001) salienta que aquele que vive feliz é saudável e que nossas emoções e sentimentos positivos são convertidos em substâncias químicas que podem evitar e curar a doença.

Alguns outros enfatizaram o “esfriamento” dos relacionamentos, a predominância de uma rotina e até mesmo a caracterização como uma relação mais fraternal:

“Pra te falar a verdade é um relacionamento mais de irmão.”(M-2)

“Se torna mais complicado, porque depois dos 60 anos não é mais uma relação normal é aquela relação que se passa a ser pacífica.”(M-3)

Segundo Butler (1985), torna-se monótono a relação sexual entre casais de mais idade, como podemos perceber nas falas de dois entrevistados do sexo feminino. O motivo desse tédio é por conta de atividades sexuais repetitivas e sem imaginação.  O próprio tempo é um dos fatores que contribui para que essa relação se torne tediosa, além de outros fatores que afetam o relacionamento e não estão diretamente ligados ao sexo.

Houve, ainda, quem enfatizasse o aspecto puramente sexual e físico do relacionamento, como podemos observar nas falas abaixo:

“É só ficante mesmo”. (H-5)

“As brincadeiras que você deve saber, né?”(M-4)

Na contramão do que o senso comum e mesmo as teorias mais clássicas sobre o desenvolvimento humano na terceira idade acreditam, também há pessoas na terceira idade que não necessariamente estão interessadas em relacionamentos mais sérios, rígidos e fechados, como pudemos perceber nas falas acima, principalmente entre aquelas pessoas que se divorciaram ou ficaram viúvas e não oficializaram outra relação.

3.4 A Sexualidade Diante das Mudanças Físicas

De acordo com Butler (1985), o processo de envelhecimento resulta em mudanças tanto nos aspectos físicos, quanto nos aspectos fisiológicos do indivíduo, influenciado, sobretudo, pelos hormônios sexuais, tanto no homem quanto na mulher, o que não implica, necessariamente, em disfunções sexuais, a não ser que o indivíduo sofra de alguma doença ou efeito colateral medicamentoso. O ato sexual em si é complexo, envolve o corpo, a mente e as emoções e as pessoas são estimuladas sexualmente de diversas formas, seja através da visão, olfato, tato, pensamentos e sensações.

Para a grande maioria das mulheres, as mudanças físicas interferem de alguma forma. Uma cita, por exemplo, que o carinho supre a energia física que diminui, mas o carinho supre o prazer, passa a ser uma relação mais calma e mais pacífica. Outra que relatou que já não tem mais relação sexual ativa, diz sentir falta principalmente do carinho, suponhamos que essa pessoa atrela a diminuição da vida sexual às mudanças físicas, já que trouxe quando perguntado sobre esse aspecto. Outra, ainda, fala que as mudanças físicas podem ser até mais complicadas no caso de doenças. Percebemos que há uma diferenciação entre mudanças físicas relacionadas ao envelhecimento natural, e quando há a presença de uma doença, sendo este avaliado como o fator mais complicador para vida sexual.

De acordo com Papalia (2006), até um simples observador percebe essas mudanças tipicamente associada ao envelhecimento, que vai desde a pele enrugada, mudanças no tônus muscular, cabelos grisalhos e outros, sem contar com as mudanças não perceptíveis que afetam os órgãos internos e sistemas corporais, o cérebro e o funcionamento sensório, motor e sexual.

“A pele enrugou, a barriga cresceu, engordou, deformou. Se tiver uma relação saudável, se tem um relacionamento bom, acho que não tem muito a haver essa questão da diferença do que porque isso, do porque aquilo. Eu acho que em qualquer idade o sexo aflora, depende do estado de saúde.”(H-1)

“O individuo precisa acompanhar sua própria condição, saber até onde ele pode acompanhar, situações que ocorre na própria idade.”(H-2)

“Eu tenho um pouco de diabetes, eu procuro reduzir para não se agravar. Graças a Deus até agora com 80 anos eu ainda tenho prazer.”(H-3)

“Eu me sinto realmente como deveria estar, cumprindo o resguardo. Minha parceira realmente me entende. Um tem compreensão pelo outro, e a gente se entende bem.”(H-4)

“É logico que a gente sente o impacto, é diferente, os impulsos, as sensações, os desejos diminui mais. No meu caso me preocupo muito com meus familiares, gosto das coisa direitinho, gosta de andar com as dividas em dia, então acho que tudo isso tem contribuído para diminuir a questão do desejo, aquela coisa constante toda hora, todo momento. Eu atribuo a esses fatores.”(H-5)

“Normal. Tem os carinhos pra fazer e ai não faz tanta falta. Diante das mudanças físicas o carinho supre.”(M-1)

“É um pouco estranha, eu acho estranha, muito estranha. Por que o tempo de namoro existia o carinho, o toque, o pegar em mão, sair de mãos dadas, coisas que hoje não existe mais, e isso realmente não é legal, eu sinto falta disso.”(M-2)

“Se torna mais complicado, porque depois dos 60 anos não é mais uma relação normal, é aquela relação que passa a ser pacífica.”(M-3)

“Se houver doenças é meio complicado. Como eu sou diabética até que, ele disse que a mulher dele quando ele tinha, deu um problema na vagina por causa da diabetes né. Eu tenho diabetes, mas por enquanto eu não tô sentindo nada. Às vezes eu fico preocupada de vir a ter um poblema desses.”(M-4)

“No meu caso, não tive mudança nenhuma, porque tenho uma vida totalmente ativa, como se fosse uma pessoa de 30, 40 anos de idade. Então pra mim, como me cuido muito, faço reposição hormonal, então a minha vida é totalmente equilibrada, totalmente ativa sexualmente e junto com meu companheiro, porque eu sozinha não podia fazer nada. Eu não tive muita mudança física, isso por causa do cuidado com minha saúde e principalmente por causa da reposição hormonal. Não tenho nenhum problema sexual, porque tenho esse equilíbrio hormonal, eu acho que isso é o principal e um companheiro a altura.”(M-5)

Segundo Butler (1985, p. 20), “muitas mudanças sexuais que ocorrem na mulher, com a idade, podem ser atribuídas à diminuição dos hormônios femininos (como o estrogênio) após a menopausa, mas do que ao “envelhecimento” em si”.

3.5 Doenças e Agravos à Saúde Típicos da Terceira Idade e sua Influência na Sexualidade

De acordo com Butler (1985), a enfermidade afeta a sexualidade das pessoas, de forma que o corpo se envolve na confrontação com a ameaça física, sobrando pouca ou nenhuma energia para as sensações sexuais. Após a superação da fase aguda da doença, a pessoa volta lentamente para a sexualidade. No entanto, se o tempo da recuperação se prolongar, ou se a doença ocasionar uma condição crônica podem surgir vários problemas.

De acordo com o relato de dois entrevistados, sendo um do sexo masculino e outra do sexo feminino, que tem diabetes, observamos a preocupação de ambos com relação à sexualidade. O entrevistado do sexo masculino, diz cuidar da saúde, para a doença não se agravar. Logo após a entrevista relata que teve um amigo, que por conta da diabetes, ficou cego e impotente. Segundo Butler (1985, p. 34), “a impotência ocorre duas a cinco vezes mais frequente em diabéticos do que na população em geral, apesar do interesse e do desejo sexual permanecerem.” O autor ressalta ainda que a impotência pode ser o primeiro sintoma do diabetes.

Já a entrevista do sexo feminino, diz tem medo de ter algum problema na vagina, pois segundo ela, a primeira esposa do seu namorado, teve diabetes e teve problema na vagina. Este autor acrescenta que é mais difícil a avaliação dos efeitos da diabetes na mulher, pelo fato de não ter nenhum indicador físico evidente, como a ereção.

Outra doença que também que apareceu nas falas de dois entrevistados foi relacionado à próstata. Um deles relatou ter feito uma cirurgia na próstata há 30 anos e que foi retirada 1/3 da mesma, nesse caso, segundo o entrevistado não interferiu no sexo, porque cuidou do inicio. Já no segundo caso, foi diferente, o entrevistado não cuidou no inicio, relatando após a entrevista que quando procurou o médico, a doença já tinha se agravado, fez uma cirurgia a 2 anos, desde então não teve mais relação sexual, teve melhoras, mas no momento a doença se agravou novamente, sente muitas dores, diz que sua companheira o compreende, mas que à vezes percebe que ela fica nervosa, ele sabe que ela tem necessidades e no momento ele não pode satisfazê-la por conta da doença.  De acordo com Butler (1985), surgem problemas nos casais quando um parceiro está impossibilitado ou com doença crônica e o outro saudável. “Se o parceiro saudável tem necessidade de atividade sexual, e irritação muitas vezes traz culpa, como se ele estivesse deixando de se preocupar e ter pena do parceiro. Este, por sua vez, pode se sentir culpado por ser incapaz de participar do ato sexual” (p.15). Vale ressaltar que essas falas após a entrevista, foram autorizadas pelos entrevistados, a serem utilizadas neste artigo.

Seixas (1998) relata que as moléstias crônicas mais comuns ocorrem com pessoas de mais de 70 anos, são: cardiopatia, derrame, artrite, dor lombar, anemia, mal de Parkinson e incontinência urinária, porém mesmo nesses casos se a pessoa desejar continuar com sua vida sexual, em quase todos estes, após a recuperação e uma avaliação médica, com uma medicação indicada e uma alimentação equilibrada, e posição adequada o sexo pode e deve ser retomado. E ainda ressalta o beneficio do sexo, referindo-se a este como sendo uma excelente atividade terapêutica.

No geral, os homens tiveram o mesmo padrão de respostas das mulheres, falando que a condição física interfere, sendo mais específica no homem. Um deles fala que não tem como negar que o pico de atividade sexual do homem acontece na sua juventude, mas que dá pra manter sim, alguns falam principalmente quando tem o carinho associado e o mais complicado é quando há uma doença associado a essa mudança física. Um deles fala do período de resguardo, que ele está vivendo após uma cirurgia na próstata. No geral, as mudanças físicas interferem, mas não é motivo para eliminar a atividade sexual.

“A ausência da saúde física é claro que interfere na sexualidade, porque a depender o que quer dizer saúde física, a pessoas não tem disposição pra fazer sexo. Quando a pessoa está com problemas físicos, ele normalmente está voltado ao problema, está irritado, está depressivo. Não creio que ele tenha uma disposição pra sexualidade, mas é claro que a sexualidade está presente. Como eu disse antes, a partir do momento que você é saudável a sexualidade está sempre presente, claro que diminui a frequência, mas é possível fazer sexo enquanto tiver vida”. (H-1)

“Com certeza sim. Por que se individuo não tem uma saúde física perfeita, consequentemente vai afetar na sua vida sexualidade, isso pela questão do prazer, pela questão da frequência das relações, e há uma interferência muito grande na realização sexual tanto pra ela quanto pra sua parceira, ou vice e versa”. (H-2)

“Interfere. Principalmente nessa parte da diabetes. A mais de 30 anos eu conheci um colega que tinha a diabetes forte, ele ficou cego com 40 e poucos anos. A esposa dele comentava com minha esposa que não estava tendo mais prazer com o marido, por causa do diabetes. Há 30 anos eu fiz uma cirurgia de próstata, foi retirado um terço. Eu perguntei para o médico se iria interferir no sexo e o medico me explicou que não. Isso também é outro motivo que interfere na sexualidade. No meu caso não interferiu porque eu cuidei do inicio”. (H-3)

“Interfere sim. Porque a gente na saúde tem uma reação e na doença é outra. Interfere porque a gente sente essa dificuldade, porque na saúde é uma maneira e na doença é outra”. (H-4)

“Depende do tipo de doença. No caso de próstata por exemplo afeta. No meu caso o que tem afetado é mais a questão psicológica, preocupações diárias”. (H-5)

Com relação à ausência de saúde física interferindo na sexualidade, é quase unânime a opinião de que interfere bastante; alguns enfatizam a relação com a doença, citando, por exemplo, a diabetes, como interferindo nisso e principalmente as doenças relacionadas ao aparelho reprodutor sexual de uma forma mais específica principalmente no caso dos homens, problemas ligados à próstata. É quase unânime a opinião de que a doença interfere na vida sexual. Apenas uma mulher entrevistada fala que ela acha que não interferiria tanto, mas ela também diz não ter uma vida sexual ativa há algum tempo, então supomos que ela fala de uma perspectiva mais teórica do que prática, mas de uma forma geral, interfere sim e eles se preocupam muito. E além de falarem sobre a própria mudança física e incapacidade física da doença, falam dos aspectos subjetivos de que uma pessoa estando doente não tem tanta vontade, tanto desejo de fazer sexo quanto uma que está com a saúde plena.

“Depende da doença. O cansaço, por exemplo, não faz diferença. Eu ainda não sentir isso”. (M-1)

“Eu vejo um pouco de saúde física, mas acho que não chegaria a tanto, a interferir”. (M-2)

“Interfere e muito. Dependendo do tipo de doença. No caso de problema de coluna há uma interferência muito grande, porque nem todo dia você está disposto a fazer sexo”. (M-3)

“É porque desde que você está com qualquer problema ou doença física ou mental, acho que de qualquer jeito afeta um pouco, porque se você tá triste angustiado, você não tem prazer, não tem vontade de ter relação né”. (M-4)

“Como é que pode uma pessoa doente fazer sexo? Não tem nem condições física. Então a saúde interfere demais. Como eu já disse e repito, no meu caso que cuido muito da minha saúde, por isso que estou até hoje com essa idade normal, fazendo sexo normal, atividades normais, carícias, beijos, abraços, envolvimento sexual, tudo isso porque cuido da minha saúde. E cuidar da saúde eu acho no meu modo de pensar na minha idade é exercício físico, alimentação e a reposição hormonal”. (M-5)

4. Considerações Finais

O envelhecimento é um processo natural da vida, que traz consigo potencialidades únicas e distintas de cada indivíduo. Muitas vezes a senescência é associada à incapacidade e à diminuição ou extinção de alguns hábitos, entre eles os relacionados à sexualidade.

No entanto, as informações que obtivemos com essa pesquisa mostram que a sexualidade está longe de ficar congelada ou extinta. Na problemática deste estudo, questionamos acerca do impacto da senescência na vida sexual. Sabe-se que, em oposição ao que se pensava sobre a sexualidade na terceira idade, atualmente existe uma vasta a literatura que indica que a senescência pouco interfere na vivência sexual, entretanto, este estudo apresenta algumas nuances.

Apesar de relatos de pessoas que não tem vida sexual ativa, uma maioria continua a exercê-la por apresentar boas condições físicas e por terem parceiros. Mesmo quando não há o ato sexual, eles expressam sua sexualidade através de carícias e troca de afetos, que são tidas agradáveis e prazerosas, mesmo na faixa etária de 60 (sessenta) a 80 (oitenta) anos.

A partir dos dados levantados, infere-se que no processo de senescência alguns fatores interferem de formas diversas e com diferentes intensidades na vida sexual. Percebemos que as mudanças físicas em si interferem pouco na expressão da sexualidade, que é mais influenciada pela ocorrência de doenças, que afetam não apenas o físico, mas o psicológico dessas pessoas, que acabam por se sentir desestimuladas às práticas sexuais.

Este estudo não esgota as possibilidades de discussão a respeito do tema, entretanto, apresenta a possibilidade de pensar na senescência não enquanto uma etapa da vida em que a vivência sexual se esgote, mas como momento em que é possível que ela se configure sob outras formas, que não apenas associadas ao ato sexual propriamente dito, mas que permitam situações de desejo e prazer.

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