Infantilização como Forma de Violência Sob o Idoso

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Resumo: O presente trabalho foi escrito no intuito de compreender a respeito da infantilização do idoso, a critério de esclarecer sobre essa violência velada. Também chamada de violência simbólica, pois ocorre em forma de cuidado e carinho. Na maior parte das vezes quem pratica não percebe que comete o ato, mas tira do idoso sua capacidade de individualidade, e o anula como ser de desejo.

Palavras-chave: idoso, violência velada, infantilização.

1. Introdução

É notório no cuidado com idosos, seja no seio familiar ou em uma instituição de cuidados, um tratamento baseado na excessividade do cuidado para com este. Encontramos discursos baseados na linguagem infantil. O trato com idosos passa a ser muito similar  ao trato  com infantes,  relativos a hora do banho,  a hora de comer, remédios, até mesmo a hora da caminhada ou de passear como se fosse a hora de ir ao “parquinho” com as crianças.

O que não se nota, é que esse cuidado excessivo acaba ultrapassando a linha que põe o idoso como ser desejante, um ser individual, subjetivo, que possuem direitos e deveres. Não só no trato verbal infantilizado, mas também como agimos para com eles, como muitas vezes falamos algo por trás deles, ou trocam-se olhares a respeito do mesmo, ou até quando estamos o ‘poupando’ de algo que ele poderia aguentar, mas julgamos que não.

Segundo Souza (1996) a velhice é denominada de terceira infância, pois significa uma volta ao passado. Já é possível observar uma incoerência aqui quando a velhice é associada a uma terceira infância. Um aspecto que chama atenção para autora  é a capacidade que as crianças tem de sintonizar com os idosos; então ela levanta a questão, será que entre eles existe um lado comum, a dependência?

Esta dependência mencionada por Souza, em momento algum pode se deixar assemelhar com a dependência infantil, lembremos que um bebê precisa do outro pra construir sua personalidade que está nos primórdios da formação, já o idoso - não deixando de está em construção até sua morte - possui uma personalidade estruturada, algo que diz muito do que ele foi e do que ele é, e se em algum momento o assemelhamos a uma criança, tiramos dele todas as marcas que a vida lhe deu, ou seja, o anulamos como ser humano.

Essa anulação do idoso como ser desejante se encaixa em um quadro de violência. Vista de longe, enxerga-se apenas como carinho, atenção e cuidado, por isso que chamamos de violência velada ou simbólica. Mas se vista de perto, observa-se um abuso ao idoso, um abuso sobre suas capacidades cognitivas, um abuso a sua personalidade, entre tudo, um ataque ao seu psiquismo.

2. Infantilização como Forma de Violência Sob o Idoso

Ao falar do idoso, esquece-se às vezes que se trata de um ser humano que já passou por todas as outras fases do desenvolvimento, é alguém que nasceu e se tornou criança, enfrentou os conflitos da adolescência, foi adulto em uma construção social que exige atitudes e responsabilidades, enfrentou os conflitos da meia idade, incluindo a menopausa ou andropausa, e agora, a posteriori a todas essas mudanças, chega à velhice, ao envelhecimento do corpo e cérebro.

De acordo com o do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE -2012) a expectativa média de vida do brasileiro aumentou para 74 anos e 29 dias, contudo, já se encontram muitos idosos na faixa dos 80 e 90 anos, alguns chegando até ao centenário. O sujeito começa a ser considerado velho a partir dos seus 60 anos, mas vale ressaltar que, a velhice é um fator cultural podendo haver variações de um lugar para o outro.

A organização das nações unidas (ONU, 2002) estabeleceu os 60 anos como a idade que demarca o estágio da velhice nos países em desenvolvimento, e 65 nos países desenvolvidos. É em torno dessa idade que se acentuam as transformações biológicas, é também nesse momento que há a aposentadoria, e também o descompromisso com alguns papéis tradicionais da vida (MASCARO, 1997). O psicanalista Jack Messy (1999 apud PITANGA, 2006, p. 80) ressalta que a entrada na velhice seria circunstancial e ocorreria por ocasião de uma ruptura brutal do equilíbrio entre as perdas e as aquisições.

Segundo Mascaro (p.39; 1997) o envelhecimento pode ser diferenciado em vários conceitos: a idade cronológica que é marcada pela data de nascimento e nem sempre caminha junto com a idade biológica, esta por sua vez se caracteriza pela herança genética e pelos fatores ambientais que diz respeito às mudanças fisiológicas, anatômicas, hormonais, bioquímicas do organismo.

A idade social se relaciona as normas, crenças, estereótipos e eventos sociais, já a idade psicológica envolve as mudanças de comportamento decorrentes das transformações biológicas do   envelhecimento,  é influenciada pelas   normas   e expectativas  sociais  e  por  componentes  de  personalidade,  sendo,  portanto,  algo extremamente individual. Do ponto de vista de Maud Mannoni (1995):

a velhice nada tem haver com a idade cronológica. É um estado de espírito. Existem “velhos” de 20 anos, e “jovens” de 90. É uma questão de generosidade de coração, mas também uma maneira de guardar em si uma certa dose de cumplicidade com a criança que se foi.

Entre tantos os fenômenos que rodeiam o idoso - diminuição da capacidade produtiva, suas incapacidades relativas à idade, medo real da morte, as diversas perdas que sofreu até então - podem modificar o idoso subjetivamente diminuindo sua capacidade ativa. Isto, somado à correria dos dias atuais, o idoso acaba se tornando um fardo para seus filhos e netos, o que muitas vezes leva a violências.

Quanto à violência contra esse grupo, ocorre desde os primórdios da humanidade, variando conforme a cultura (HUDSON, 1999). Em relação ao termo usado, podemos enquadrar as violências em maus tratos, pois representa toda uma ação, com diferentes tipos e categorias.

Segundo Minayo (2004) a violência é uma noção referente aos processos e às relações sociais interpessoais, de grupos, de classes, de gênero, ou objetivadas em instituições, quando empregam diferentes formas, métodos e meios de aniquilamento de outrem ou de sua coação direta ou indireta, causando-lhes danos físicos, mentais e morais,sendo o termo “mau trato” sinônimo de “abuso”.

Fora os abusos cometidos pelas famílias, instituições e a sociedade, que são visíveis, como a violência física, ainda há as violências que muitas vezes passam despercebidas, mas não para o idoso, que sofre subjetivamente com essas formas de violências veladas.

Zolotow (2005) chama a atenção para esse tipo de violência, a violência implícita, pois acomete os idosos de maneira velada, quando os mesmos são, supostamente, preservados de situações com as quais teriam condições cognitivas e emocionais de lidar. Alguns pesquisadores relacionam tal fato à infantilização do idoso, que acaba por privá-lo de um direito de participação e decisão.

Há duas maneiras subjetivas de infantilizar o idoso, a primeira seria a rejeição/negação ao envelhecimento deste idoso, quando os familiares sustentam no olhar aquele indivíduo como alguém jovem e capaz de tudo, não assumindo suas limitações. E a segunda maneira, é quando a sociedade designa o idoso como um ser impotente, incapaz e debilitado tanto fisicamente como mentalmente, seja pela preservação excessiva do mesmo em relação a algo que ele tem condições de lidar, ou seja, pela postura de tratá-lo, referente a banho, alimentação, lazer, entre outros. Nesse momento de cuidados ao idoso que está fragilizado, acabamos pondo-o em uma condição infantil.

A maneira mais comum de infantilizar o idoso é atestando a ele a incapacidade de gerir sua própria vida, retirando-o do seu habitat - mesmo que essa atitude seja visando o bem estar e a comodidade dos mesmos, seja para casa de familiares ou para uma instituição asilar, para que possam exercer melhores cuidados - desconsiderando totalmente os anseios do idoso. Com isso, a família toma as decisões por ele, o manipulando como um objeto, retirando dele o direito de expressar as suas próprias vontades, anulando-o como ser de desejo.

Segundo Jaciara Serra (2010) esse poder dos familiares para com o idoso está legitimado socialmente como uma prerrogativa das novas gerações sobre aqueles e aquelas que deixam de ser vistos como sujeitos capazes de decidir sua vida pela condição de ‘ser velho’.

Esta atitude de infantilizar o idoso pode ser considerada uma forma de violência simbólica no tratamento para com o mesmo, tratando-os como criança, utilizando uma linguagem carregada no diminutivo e modificando suas ações e postura no cotidiano. Essa forma de violência simbólica vem sido exercitada em nome do carinho, do bem estar e do amor dos cuidadores.

É muito mais aceitável socialmente denominar o velho como uma criança grande, pois é mais fácil controlar o idoso nessa condição, levando-o a aceitar  a categoria imposta, uma vez que se encontra em condição frágil, tendo que lidar com todos os desajustes que o envelhecimento trás.

A imagem do velho semelhante a uma criança grande ocorre desde sempre, o que demarca uma figura velada dessa violência simbólica difícil de ser percebida e reconhecida, tanto por quem a exerce, como pelo idoso. Tal caráter acaba destituindo o velho da condição de sujeito, transformando-o em uma peça de quebra cabeça, tentando encaixar-lhe em lugar que possivelmente ele não queira ou deseja, e com isso o impossibilita de conduzir a sua própria vida, configurando assim essa violência velada e perspicaz que é a infantilização do idoso.

Em seu trabalho sobre violência e envelhecimento, Herrera (2004) ressalta a relação de invisibilidade estabelecida com o idoso por seus familiares que, conhecendo o seu ser, ter e sentir, faltam com o reconhecimento social, político e pessoal, faltando com respeito a sua individualidade, capacidade de decisão, participação e exigência de seus direitos.

O abuso de idosos, segundo Steinmet (1993 apud DIAS, 2005) pode assumir também uma dimensão institucional, trata-se, segundo o autor do chamado abuso institucional que pode acontecer nos lares e em centros de apoio e acolhimento de idosos. Geralmente é praticado por pessoas que são remuneradas para prestarem cuidados e serviços aos idosos como é o caso do pessoal de enfermagem, vigilantes e auxiliares de centros de terceira idade, cuidadores, entre outros que compõem essa instituição.

Em contexto institucional os tipos de maus-tratos mais frequentemente infligidos aos idosos são: a existência de restrições excessivas, a sub ou sobre-medicação, a agressão verbal, exploração financeira, a infantilização, a despersonalização, desumanização e vitimização (STEINMETZ, 1993 apud DIAS, 2005).

Independentemente dos abusos serem praticados no contexto familiar ou institucional os seus efeitos são semelhantes. Os idosos tendem a desenvolver atitudes de culpa, baixa autoestima, isolamento sociais e entram mais facilmente em depressão, sofrem perturbações do sono, reforçam as suas dependências e o estigma social (DIAS, 2005).

O idoso violentado psicologicamente, sente medo, apatia e tem dificuldade em tomar decisões, pois as pessoas a sua volta acabam anulando os desejos e o poder de decisão desse indivíduo, como se o mesmo não tivesse mais subjetividade. É um tipo de abuso que conduz a uma diminuição da dignidade e da autoestima da pessoa idosa.

Martins e Rodrigues (2004) comprovam que,

essa rotulação (infantilização) é a causa de enorme perturbação nos idosos, uma  vez que,  negam o seu processo de crescimento e os impedem de reconhecer as suas potencialidades, de procurar soluções precisas para os seus problemas e de encontrar medidas adequadas.

Contudo, o artigo 10 do Estatuto do Idoso (2004) nos mostra que é obrigação da sociedade, e ressalta-se  aqui a família e a instituição, assegurar a pessoa idosa a liberdade, o respeito e a dignidade, como pessoa humana e sujeito de direitos civis, políticos, individuais e sociais, garantidas a constituição e nas leis. Esse direito a liberdade inclui o direito a opinião e expressão. É o direito de expressão que é tirado do idoso quando o infantilizamos, tiramos deles a oportunidade de expressar suas especificidades.

A velhice não precisa ser encarada de forma negativa, pois se trata apenas de mais uma das etapas naturais da vida, talvez a que se deva mais respeito, porém, há certa distorção perversa da imagem desse idoso, como algo que não dá mais frutos passando assim a ser um peso sociocultural.

A saída para essa violência velada, é também a saída para as diversas violências direcionadas ao idoso. Um grande passo para acabar com essas violências é de certa forma acabar com normas e tabus que envolvem, difamam e põem o idoso em uma posição passiva. Deixar o idoso na posição de quem só rememora o passado, retira o sujeito idoso de qualquer possibilidade de existir, talvez já comece a partir daqui uma violência simbólica. Essa rememoração do passado, tão comum nas pessoas mais velhas pode servir para afastar a depressão e também para lembrar a ele de um tempo em que se sentia digno.

Precisa-se ofertar a esse sujeito um lugar que lhe permita viver ao invés de sobreviver esperando a morte. O tempo da velhice não pode ser vazio e nem sem significado, mas o contrario, deveria ser repleto de sentidos e realizações, havendo a possibilidade de um horizonte de futuro com abertura para novas perspectivas. O desafio está em cada idoso de buscar algo de novo dentro de si e no meio ambiente, mas também, nas pessoas a sua volta, no olhar narcísico que elas podem lhe proporcionar.

Pois é necessário lembrar que o corpo envelhece, mas o espírito pode permanecer jovem, sem que haja uma negação do envelhecimento, e sim uma aceitação das faltas que a velhice lhe proporciona. Aceitando as limitações da idade, o velho pode seguir em frente através de saídas positivas, que significa criatividade, e essa por sua vez, significam boa saúde mental.

3. Considerações Finais

Acredita-se que é necessário haver uma disseminação sobre essa violência velada, pois na maior parte das vezes, os cuidadores/familiares não percebem nos seus atos e pronúncias a condição de infante que colocam os idosos, pelo discurso mascarado de afeto. É válido também garantir que quem pratica essa violência, não faça uso dela para machucar, embora machuque subjetivamente o idoso.

Os maus-tratos físicos e/ou psicológicos que ocorrem na vida desses idosos muitas vezes são provindos das estruturas sociais e de seus mecanismos de desigualdade e exclusão, contudo, é através desse mecanismo de violência velada que é possível visualizá-la onde não se costuma, como nas classes média/alta.

Tematizar a respeito dessa violência é contribuir para que ela cesse, quebrando com alguns estigmas e normas criados em torno da figura do idoso. A conscientização sobre a violência pode modificar a estrutura social, o idoso que foi instituído como improdutivo, altamente passivo e dependente; talvez possa resgatar a imagem do idoso que era transmissor de conhecimento aos mais jovens, que era posto no lugar do saber.

Através disto entende-se que esse fenômeno da infantilização sobre o idoso, possui um vasto campo de pesquisa a ser explorado, onde precisa-se de pesquisadores que se especifiquem e divulguem a respeito. É um campo que se abre, que se apresenta como desafio de investigação.

Sobre os Autores:

Agnes Regina Silva dos Santos - Graduanda de Psicologia da Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE).

Maria Cecília da Silva Laurentino - Graduanda de Psicologia da Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE).

Sob orientação de Dra. Fernanda Andrade.

Referências:

DIAS, Isabel (2005), “Envelhecimento e violência contra os idosos”, in Sociologia, Revista da Faculdade de Letras do Porto, n.º 15, pp. 249-273.

ESTATUTO do idoso: e legislação correlata. São Paulo: Revista dos tribunais, 2004. 224 p.

HERRERA, A. M. M. Considerações maus tratos na terceira idade: a luz da atualidade de vida.Disponível em: http://www.gerontologia.org>

HUDSON, M.F. Elder Abuso e Negligência. Disponível em: http://www.seniornet.org

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo demográfico: resultados preliminares – São Paulo. Rio de Janeiro, 2012.

MANNONI, Maud. O nomeável e o Inominável: a última palavra da vida. Tradução de Dulce Duqeu Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed., 1995

MARTINS, R. & RODRIGUES, M. (2004). Estereótipos sobre Idosos: uma representação social gerontofóbica. Millenium Revista do ISPV, N.º 29,249-254. [Consultado em 1/05/2012]. Disponível na internet em URL: http://www.ipv.pt/millenium/Millenium29/32.pdf.

MASCARO, Sônia De Amorim. O que é velhice. São Paulo: Brasiliense, 1997. 93 p.

MINAYO, M. C. S. Violência contra idosos: o avesso do respeito à experiência e à sabedoria. Brasília, DF:Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2004.

ONU. Secretaria Especial dos Direitos Humanos.Plano de ação internacional sobre o envelhecimento: 2002. Brasília, DF, 2003.

PITANGA, D. A. (2006). Velhice na cultura contemporânea. Dissertação de Mestrado não publicada, Universidade Católica de Pernambuco, Recife.

SOUZA, Anna Maria Nunes De. A família e seu espaço: uma proposta de terapia familiar. 2. ed. Rio De Janeiro: Agir, 1996. 339 p.

ZOLOTOW, D. Violência, família e terceira idade. Disponível em: http://www.pucsp.br/portaldoenvelhecimento/artieop/geral/artigo40.htm.2004

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