Influência da Família na Crise dos Lutos na Adolescência

Resumo: A adolescência tem sido o foco de muitos estudos. A revisão da literatura que foi abordada demonstrou que há evidências consistentes de que a família nos dias de hoje, ainda exerce um papel de suma importância no desenvolvimento de seus membros, principalmente no período da adolescência. Portanto, esta pesquisa buscou investigar a influência da família na crise dos lutos na adolescência. Discorremos com os conceitos de Freud e as fases na organização da libido, elucidando os lutos na adolescência. Através de uma pesquisa bibliográfica, buscou-se uma compreensão clara e precisa das relações familiares, no processo adolescente, emergindo como possíveis soluções para a compreensão dos seus membros, nesta fase da vida, visando desta forma, um pleno desenvolvimento psicossexual do adolescente.

Palavras-chave: Família, Adolescência, Desenvolvimento Humano.

Introdução

Esta pesquisa tem por objetivo investigar de que forma a família pode entender a crise dos lutos da adolescência e ajudar o adolescente em um crescimento saudável. Para tanto, perfaz o seguinte trajeto: inicialmente apresentou o conceito da psicanálise, como surgiu e os principais pressupostos que regem a abordagem, discorrendo com a função da família, além disso, apresentou as fases de organização da libido elaboradas por Freud, com uma clara e precisa compreensão dos lutos da adolescência, concluindo com os resultados encontrados.

A estrutura familiar e seu importante papel, exercendo marcante influência em seus membros, têm sido alvo de constantes discussões, reflexões e estudos no contexto sócio cultural da atual sociedade. Estes debates visam contribuir para uma melhor compreensão nas relações internas e externas de todos os envolvidos.  Segundo Drummond e Drummond Filho (1998), o grupo familiar tem um papel fundamental no comportamento dos seus membros, através das medidas educativas no contexto familiar. O diálogo é fundamental, pois ocorre nesta troca a transmissão dos valores, segurança, afeto, respeito e cuidado. Entretanto, alguns pais não sabem ao certo, quais condutas adotar na interação educativa com os filhos, e assim, tendem seguir exemplos de outras culturas. Assim, o presente estudo se torna relevante pela complexidade dos fatores relacionados a esta fase de maturidade. Emerge como possíveis soluções para a compreensão das famílias, nesta fase da vida, que tanto pode aproximar quanto pode afastar o adolescente de uma transição com possíveis neuroses, podendo ser deste modo, prejudicial ao seu desenvolvimento psicossocial.

Anna Freud assinala que é muito difícil encontrar o limite entre o normal e o patológico na adolescência. Em sua opinião, toda a comoção deste período deve ser considerada como normal, afirmando mesmo que seria anormal a presença de um equilíbrio estável, durante o processo adolescente (Knobel,1981, p.9). 

Decerto, o adolescente é um ser que sofre, exaspera a família e sente-se sufocado por ela, mas é principalmente aquela que assiste à eclosão do próprio pensamento e ao nascimento de uma nova força; uma força viva sem a qual nenhuma obra duradora seria realizada na idade adulta. Tudo que construímos hoje é erigido com energia e a inocência do adolescente que sobrevive dentro de nós. Incontestavelmente, a adolescência é uma das fases mais fecundas de nossa existência (Nasio, 2011, p.16).  

De acordo com Aberastury e Konobel (1981, p.11) “o adolescente apresenta uma vulnerabilidade especial para assimilar os impactos projetivos de pais, irmãos, amigos e de toda a sociedade. Ou seja, é um receptáculo propício para encarregar-se dos conflitos dos outros e assumir os aspectos mais doentios do meio em que vive, isto é o que atualmente presenciamos em nossa sociedade, que projeta suas próprias falhas nos assim chamados excessos da juventude, responsabilizando-os pela delinquência, pela aderência às drogas, pela prostituição, etc.” Assim, a família é fortemente responsabilizada a assumir sua função educativa, no que tange a formação para os filhos, com base em seus princípios e valores. Naturalmente, os pais exercem o seu papel de educadores, quando desenvolvem mecanismos que colaboram com as suas formas de transmitir-los e, principalmente, demonstrando interesse contínuo de cuidar dos filhos, buscando compreensão e respeito à individualidade sem deixar de orientá-los. 

Para alcance dos objetivos, foi utilizado o método bibliográfico, possibilitando assim uma compreensão das contribuições que interagem nas relações familiares para o desenvolvimento no estágio da adolescência. 

Nesta pesquisa optamos por abordagem psicanalítica. Trata-se de uma teoria, desenvolvida por Freud, sobre a sexualidade infantil, que pelo seu impacto se tornou fundamento da teoria psicanalítica. Considera que, na constituição do sujeito, as pulsões parciais são organizadas a partir dos modos de articulação da criança com o Outro, que pode ser representada por seus pais.

A teoria psicanalítica originou-se com Sigmund Fred (1856-1939), um médico que desenvolveu sua teoria como o resultado de seu trabalho clínico com pacientes que sofriam de histeria. Esta interpreta o desenvolvimento humano em termos de impulsos e motivos internos, sendo muito dos quais irracionais e inconscientes, "escondidos" da consciência. Essas forças básicas subliminares são vistas como influenciando todos os aspectos do pensamento e do comportamento da pessoa, desde os mínimos detalhes da vida cotidiana até as escolhas cruciais de toda a vida. A teoria psicanalítica também considera esses impulsos e motivos como aqueles que fornecem o fundamento para os estágios universais do desenvolvimento de todo ser humano. Para qualquer um, cada estágio implica tarefas específicas do desenvolvimento, desde a formação do vínculo afetivo na infância até a busca da realização emocional e sexual na fase adulta (Berger, 2000, p.24).

A função da Família

O conceito de família pode ser definido como uma instituição que se organiza socialmente, dentro da qual está vinculado o ser humano através do nascimento, casamento e filiação, conforme os costumes, configurações políticas do Estado e da cultura da época onde está inserida (Maluf, 2010).

Neste sentido, se constitui como o agrupamento de pessoas que se unem, podendo ser parentes ou através de relação conjugal impregnada de propósitos comuns e afetividade, possibilitando ao indivíduo um desenvolvimento subjetivo (Maluf, 2010).

Em conformidade com a Constituição Federal de 1988 e pelo Código Civil de 2002, o conceito de família foi se modificando em relação às formulações passadas, tendo em vista as novas concepções dos seus componentes, cuja mulher passa a alcançar os mesmos direitos que o marido. Reconhece, inclusive, a união estável e a monoparentalidade, também, como uma entidade familiar e não só a família “legítima” constituída pelos laços matrimoniais (Maluf, 2010).

Batista e Teodoro (2012) entendem que a família tem como função básica educar, socializar e suprir as necessidades dos seus membros dentro de uma estrutura familiar interativa qualificada, com a qual envolve a comunhão de seus afetos e responsabilidades com a tarefa de transmitir a outros. Para esta realidade, se faz necessário seus membros buscarem a compreensão de assumirem os devidos papéis, considerando a subjetividade nas diversas manifestações de cada indivíduo.

Segundo Minuchin (1982) exercer a função de proteção é, principalmente, propiciar um ambiente favorecedor de bem-estar, pois, na fase da adolescência, as vivências da infância serão de fundamental importância (Campos, 2010).

No que corresponde à função social da família, a essência está na transmissão da cultura de uma dada sociedade aos indivíduos (Osório, 1996), bem como na preparação dos mesmos para o exercício da cidadania (Amazonas et al., 2003). Sendo assim, é a partir do processo socializador que o indivíduo elabora sua identidade e sua subjetividade (Romanelli, 1997), adquirindo, no interior da família, os valores, as normas, as crenças, as ideias, os modelos e os padrões de comportamento necessários para a sua atuação na sociedade (Drummond e Drummond Filho, 1998; Tallón et al., 1999). Ressalte-se que as normas e os valores que introjetamos no interior da família permanecem conosco durante toda a vida, atuando como base para a tomada de decisões e atitudes que apresentamos no decorrer da fase adulta. Além disso, a família continua, mesmo na etapa adulta, a dar sentido às relações entre os indivíduos, funcionando como um espaço no qual as experiências vividas são elaboradas (Sarti, 2004).

Freud e as Fases da Organização da Libido 

Os estágios da organização da libido, são aqueles momentos em que certos impulsos relacionados com partes específicas do corpo da criança adquirem privilégio em relação aos outros. Isso não implica que outros impulsos não possam estar atuando ao mesmo tempo ou que os anteriores tenham sido superados e/ou deixado de atuar. Contudo, é necessário que entendamos como se constituem esses impulsos e quais são essas fases (Furtado e Vieira, 2014).

Fase oral - Freud considerou sendo a primeira fase da evolução sexual pré-genital. Nela o prazer ainda está ligado a ingestão de alimentos e à excitação da mucosa dos lábios e da cavidade bucal. O objetivo sexual consiste na incorporação do objeto, o que funcionará como protótipo para identificações futuras como, por exemplo, a significação comer-ser comido que caracteriza a relação de amor com a mãe (Freud, 2009, p.104).

Fase anal-sádica - Esta é a segunda fase pré-genital da sexualidade infantil. É caracterizada por uma organização da libido sob o primado da zona anal e por um modo de relação de objeto que Freud denomina “ativo” e “passivo”. Contudo, de valor simbólico, ligado às fezes, como é o caso da significação que se reveste a atividade de dar e receber ligada à expulsão e retenção das fezes (Freud, 2009, p.104).

Fase fálica - Corresponde à organização da libido que vem depois das fases oral e anal, na qual já há um predomínio dos órgãos genitais. [...] A importância da fase fálica está ligada ao fato de que ela assinala o ponto culminante e o declínio do Complexo de Édipo pela ameaça da castração. [...] É essa diferença que vai marcar a oposição fálico-castrado que substitui, nessa fase o par atividade-passividade da fase anal (Freud, 2009, p.106).

O Complexo de Édipo - A Psicanálise entende este conceito como sendo universal e, portanto, comum a todos os seres humanos.  É caracterizado por sentimentos contraditórios de amor e hostilidade, ou seja, amor a mãe e ódio ao pai.

Como o ser humano não pode ser concebido sem mãe e pai, mesmo que não venha a conhecê-los, a relação nesta tríade é a essência do conflito humano.

A ideia central do conceito de Complexo de Édipo, inicia-se na ilusão de que o bebê tem que ter proteção e amor total, por causa da condição frágil e dependente de um recém-nascido, proteção essa relacionada à figura materna. Em torno dos 3 anos, a criança começa a ter contato com determinadas situações em que vai sofrer interdições, vai ouvir o “não pode”. São as proibições e limites que começam a acontecer nesta idade. A criança, por estar maior, não pode mais fazer determinadas coisas como: brincar pelado em piscina ou praia, não pode dormir na cama dos pais, começa a ser ensinado a sentar de forma correta, começa o processo de retirada da fralda, além de outros ensinos e cobranças, é o exato momento em que ela percebe que não é o centro do mundo.

A criança começa a perceber que os pais pertencem a uma realidade cultural e que não podem se dedicar somente a ela porque possuem outros compromissos. O pai pertence a mãe e por isso dirige sentimentos hostis a ele, inclusive, é um sentimento contraditório pois entende que ama o pai. A diferenciação acontece pela identificação da criança com um dos pais. Na identificação positiva, o menino identifica o pai e a menina a mãe. O menino quer ser forte como o pai, mas o hostiliza pelo ciúme que sente da mãe. A menina hostiliza a mãe porque ela possui o pai mas quer se parecer com ela para competir e ao mesmo tempo, tem medo de perder o amor da mãe, que sempre foi tão acolhedora.

Na identificação negativa, o medo de perder aquele a quem hostiliza faz com que a identificação aconteça com a figura do sexo oposto, o que pode gerar comportamento homossexuais, isto é, a filha se identifica com o pai e o menino com a mãe.

Período de Latência -  É o período de elaboração de todas as vivências do indivíduo: “Para Freud, essa é a fase conhecida como período de latência, quando tudo que foi vivido anteriormente está sendo elaborado. Esse termo refere-se ao fato de que os conteúdos das fantasias infantis foram jogados para o inconsciente e que começam a formar satisfações substitutas para aqueles antigos impulsos” (Furtado e Vieira, 2014).

A Adolescência e a fase genital - É na puberdade que se iniciam mudanças corporais causadoras de impacto profundo sobre o sujeito. Seu corpo funciona de forma diferente e sua imagem fica diferenciada. As pulsões já estão organizadas numa imagem de corpo próprio e que agora passa por mudanças. Todas, de uma forma geral agora estão orientadas para função sexual. O corpo está pronto para reproduzir e perpetuar a espécie. Entretanto, essa função sexual vai obedecer às fantasias, frustrações e satisfações vividas nos períodos anteriores. Os interesses do adolescente e as exigências que lhes são dirigidas reeditam a intensidade que viveu os interesses da primeira infância. Mas a forma como sua busca de satisfação é encarada agora adquire novos delineamentos. Podemos dizer, de acordo com Alberti (2004), que apesar do conceito de adolescência constituir uma delimitação teórica de nossos tempos, a principal característica deste período da vida é a reedição da separação ocorrida no Complexo de Édipo. Em outros termos, é na adolescência que o sujeito se vê confrontado com mais uma importante separação em relação ao Outro, que pode ser representado por seus pais.

Seguindo na compreensão do desenvolvimento da teoria freudiana, o primeiro objeto erótico de uma criança é o seio da mãe que alimenta. O nascimento do amor está ligado à necessidade satisfeita de nutrição. Este primeiro objeto – o seio – é dirigido à figura da da mãe da criança, que não apenas a alimenta, mas também cuida dela e, assim, desperta-lhe um certo número de outras sensações físicas, agradáveis e desagradáveis. Através dos cuidados com o corpo da criança, a mãe torna-se seu primeiro “sedutor”. “Nessas duas relações reside a raiz da importância única, sem paralelo, de uma mãe, estabelecida inalteravelmente para toda a vida como o primeiro e mais forte objeto amoroso e como protótipo de todas as relações amorosas posteriores – para ambos os sexos” (Freud, 1940/1996, p. 202).

O menino revela seu interesse por seus órgãos genitais com o comportamento de manipulação do mesmo. Logo, descobre que os adultos reprovam tal comportamento à medida que inferem a ele uma punição – a castração. Essa ameaça provém de mulheres, que buscam reforçar sua autoridade por uma resistência ao pai, afirma o seguinte autor (Freud, 1924/1996).

O final do Complexo de Édipo é sinalizado pela ameaça da castração. Nesse caso, a catexia (processo pelo qual a energia libidinal disponível na psique é vinculada a ou investida na representação mental de uma pessoa, ideia ou coisa) objetal da mãe deve ser abandonadaO seu lugar pode ser preenchido por uma das duas coisas: uma identificação com a mãe ou uma intensificação de sua identificação com o pai, como resultado mais normal e que consolidaria a masculinidade, no caso do menino. Na menina, ela aceita a castração como um fato consumado, já o menino, teme sua ocorrência.

Lutos da Adolescência: Luto pelo corpo, pela identidade e pelos pais infantis

A adolescência é uma fase do ciclo vital, sinalizando grandes mudanças corporais neste período da vida. Para os autores Aberastury e Knobel (1981, p.63) estas transformações em conjunto com a adaptação social, constituem-se inicialmente como invasão, exigindo do adolescente novas formas de convivência. Como defesa, retém muitas de suas conquistas infantis, ainda que anseie alcançar uma posição favorável na sociedade. Também o leva a refugiar-se em seu mundo interno, em busca de unir-se novamente com seu passado, para então encarar o futuro.

A perda da sua identidade de criança, implica buscar uma nova identidade que vai se construindo num plano consciente e inconsciente. Fatores genéticos, condições nas quais o geraram vida intrauterina e qualidade do trauma de nascimento, ajudam a elaborar a crise da adolescência. Trata-se de um processo lento, pois como toda a elaboração de luto, requer tempo. A conduta dos pais pode favorecer ou não a uma verdadeira elaboração, sem as características de uma negação maníaca. O adolescente deve aceitar uma dupla perda ao fazer o luto pelo corpo, ou seja, a de seu corpo de criança, e o aparecimento da menstruação na moça e do sêmen no rapaz, atestando a definição sexual e o papel que terão de assumir, não só na união com o parceiro, mas também na procriação (Aberastury e Knobel, 1981, p.64).

Durante o processo de luto, surgem as defesas, com o objetivo de negar a perda da infância. Os sentimentos de angústia costumam acompanhar a menstruação e o aparecimento do sêmen, que têm o significado defensivo da não aceitação de que é no próprio corpo que se estão reproduzindo estas transformações (Aberastury e Knobel, 1981, p.65). 

O adolescente deve aprender a lidar com o luto pelo corpo infantil perdido, o luto pelo papel e identidade infantis e o luto pelos pais da infância. Quando aceita simultaneamente os dois aspectos, o de criança e o de adulto, pode começar a aceitar de forma flutuante as mudanças do seu corpo, surgindo sua nova identidade. O processo de busca de identidade envolve grande parte da sua energia, sendo assim a consequência da perda da identidade infantil que se produz quando começam as mudanças corporais. Quando o adolescente adquire uma identidade, aceita o seu corpo, e decide habitá-lo, enfrenta-se com o mundo e usa-o de acordo com o seu sexo. As modificações em seu corpo levam-no à estruturação de um novo ego corporal, à busca de sua identidade e ao cumprimento de novos papéis (Aberastury e Knobel, 1981, p.66).

O mundo externo, em sua dificuldade de aceitar o crescimento genital, vai pondo obstáculos, não facilitando o livre exercício de sua genitalidade, de suas capacidades econômicas e práticas em geral, reforçando as defesas que inicialmente erigiu frente ao crescimento (Aberastury e Knobel, 1981, p.64).

Finalmente, ao conquistar sua identidade e a independência, o adolescente integra-se no mundo adulto agindo com uma ideologia coerente com seus atos (Aberastury e Knobel, 1981, p.64).

Discussão

De acordo com (Aberastury e Knobel, 1981), a adolescência começa com a puberdade, sendo um termo que se refere ao conjunto de mudanças físicas e hormonais que levam à maturidade sexual. É o início da capacidade de reprodução. O termo puberdade refere-se à obtenção da maturidade sexual. Logo, a adolescência é marcada por transformações corporais, enquanto, o fim da adolescência parece ser marcado pelas mudanças sociais, ou seja, quando o indivíduo completa as tarefas desenvolvimentais do período. É o período de transição entre a infância e a vida adulta, caracterizado pelos impulsos do desenvolvimento físico, mental, emocional, sexual e social e pelos esforços do indivíduo em alcançar os objetivos relacionados às expectativas culturais da sociedade em que vive. A adolescência se inicia com as mudanças corporais da puberdade e termina quando o indivíduo consolida seu crescimento e sua personalidade, obtendo progressivamente sua independência econômica, além da integração em seu grupo social. 

O conceito de "síndrome da adolescência normal" foi criado por Aberastury e Knobel, para evidenciar aspectos na passagem da infância para a vida adulta. Um período de tempo, em que o sujeito terá de cumprir a tarefa de viver os lutos pela perda do corpo infantil e dos pais da infância, ressituando-se subjetivamente como adulto.

Considerando-se este contexto, é necessário que a família supere as crises pelas quais passa e consiga modificar-se, englobando as diferenças e mudanças pessoais dos membros que a constituem, como as que ocorrem nos períodos considerados típicos de transição da adolescência. Orientações e regras básicas, segundo Bock (2007), têm sido consideradas como referências para pais e professores, como a tolerância, a compreensão, a paciência e a aceitação. Além disso, conflitos e tensões correspondem a aspectos marcantes da vida familiar em todos os momentos de sua existência, uma vez que, na família, conforme Romanelli (1997), a expressão de sentimentos, aspirações e emoções é mais livre. Entretanto, destaca-se que a manutenção da saúde familiar não depende apenas da capacidade de superação das crises, mas também da boa qualidade das relações entre os membros da família e da boa qualidade das trocas familiares com o meio social no qual está inserida (Scabini,1992).

O conceito de normalidade, difícil de ser estabelecido, varia em relação ao meio social, econômico, político e cultural, podendo-se empregá-lo como uma abstração com valor operacional, regido pelas normas vigentes do ambiente em que o adolescente é estudado. A relação entre pais e filhos é a que apresenta o vínculo mais forte dentro do contexto familiar, ligando-se “à reprodução da família em sentido mais amplo, englobando a reprodução biológica e, sobretudo, a reprodução social” (Romanelli, 1995). Além disso, Tallón et al. (1999) ressaltam que o tipo de interação estabelecido entre pais e filhos, bem como as expectativas e sentimentos dos pais em relação aos filhos, exercem um papel muito importante no tipo de personalidade futura dos filhos.

Considerações Finais

O tema adolescência é relevante pela complexidade dos fatores relacionados a esta fase de maturidade. Por esta razão, a análise emerge como possíveis soluções para compreensão nas famílias, nesta fase da vida, que tanto pode aproximar quanto pode afastar o adolescente de uma transição com possíveis neuroses, podendo deste modo, ser prejudicial ao seu desenvolvimento psicossocial.

A família é uma instituição que se organiza socialmente tendo como base de funcionalidade educar, socializar e suprir as necessidades dos seus membros dentro de uma estrutura interativa qualificada, envolvendo principalmente a comunhão de seus afetos e responsabilidades. A essência deste núcleo consiste na transmissão da cultura de uma dada sociedade aos indivíduos, objetivando a cidadania. Neste sentido, a família é responsabilizada a desenvolver e adotar condutas na interação educativa com os filhos. Logo, destaca-se a importância de manter a saúde familiar, uma boa qualidade das relações entre os membros e das trocas familiares com o meio sócio-cultural onde está inserida, desenvolvendo mecanismos visando superar as crises do luto na adolescência, consideradas típicas de transição para a fase adulta.

A teoria psicanalítica da sexualidade infantil desenvolvida por Freud, considera que na constituição do sujeito, as pulsões parciais são organizadas a partir dos modos de articulação da criança, que pode ser representado por seus pais. Freud entende esses impulsos e motivos, como aqueles que fornecem o fundamento para os estágios universais do desenvolvimento de todo ser humano. 

No decorrer desta pesquisa, buscou-se apresentar a influência da família em uma das fases mais crítica na constituição do indivíduo, caracterizada pelos impulsos do desenvolvimento psíquico, social, emocional e sexual. Os autores Aberastury e Knobel (1981) criaram o conceito de “síndrome da adolescência normal” para esta passagem da infância para a adolescência.

A sequência de modificações biológicas no corpo do pré-adolescente, leva-o a refugiar-se em seu mundo interno, a um sentimento de impotência a natureza de sua realidade. É importante que os membros da família fiquem atentos aos sinais de isolamento. De acordo com Bock (2007), regras básicas como a tolerância, a compreensão, a paciência e a aceitação, estão sendo consideradas por pais e professores. A relação entre pais e filhos é a que apresenta o vínculo mais forte dentro do contexto familiar. A pesquisa constatou que, de acordo com o pensamento freudiano, o Complexo de Édipo que é vivido entre ao três e os cinco anos, desempenha um papel fundamental na estruturação da personalidade e na orientação do desejo humano. Acontece na infância e é revivido na adolescência e seus resultados estão presentes na vida de qualquer adulto. Ele ainda ressalta a influência do comportamento dos pais na vida da criança, favorecendo ou não a uma verdadeira elaboração. Os resultados acumulados sugerem continuidade nas investigações, com a proposta de uma melhor compreensão das relações familiares no processo adolescente, voltados principalmente para o desenvolvimento psicossexual, na adolescência.

Assim, esta pesquisa com Freud e a teoria psicanalítica veio aprofundar a compreensão do adolescente neste processo natural, em suas relações familiares, no período de transição da fase infantil para a fase adulta. Contribuiu ainda, potencializando temas de fundamentação, como por exemplo, o Complexo de Édipo, trazendo uma vasta compreensão, antes pouco conhecida.

Sobre os Autores:

Júlia Márcia Souza Silva

Gisele Araújo de Souza Silveira

Professor Orientador: Richard Couto.

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SILVA, Júlia Márcia Souza; SILVEIRA, Gisele Araújo de Souza. Influência da Família na Crise dos Lutos na Adolescência. Psicologado, [S.l.]. (2020). Disponível em https://psicologado.com.br/psicologia-geral/desenvolvimento-humano/influencia-da-familia-na-crise-dos-lutos-na-adolescencia . Acesso em .

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