O Jovem Adolescente e a Escolha Profissional

Entrar no mundo dos adultos – desejado e temido – significa para o adolescente a perda definitiva de sua condição de criança. É o momento crucial na vida do homem e constitui a etapa decisiva de um processo de desprendimento que começou com o nascimento. [...] Neste período flutua entre uma dependência e uma independência extrema, e só a maturidade lhe permitirá, mais tarde, aceitar ser independente dentro de um limite necessário de dependência. (ABERASTURY E KNOBEL. 1981; p. 13)

Começamos este capítulo com este trecho por considerar que ele expressa de forma sintética alguns dos principais fatores que abordaremos a partir de agora. A adolescência é um tema muitas vezes difícil de ser explicitado. Muitas vezes encarada como um período de transição dotado de dilemas e problemáticas, ora visto como uma das melhores fases da vida humana, ela é sem dúvida um período ou um momento muito importante, onde o tornar-se adulto parece algo inevitável.

Aberastury e Knobel (1981) nos relatam que as mudanças psicológicas e corporais que se produzem neste período levam a uma nova relação com os pais e com o mundo. É como se ocorresse um corte com tudo o que até antes foi vivido, sendo o adolescente um estranho em um corpo que não é dele, vivendo um papel que ele não conhece e convivendo com pais que também lhe são estranhos.

Existem inúmeras tentativas de se definir o conceito de adolescência, embora nem todas as sociedades concordem com a existência desse período da vida. Cada cultura possui uma forma distinta de demarcar esse momento da vida, baseando-se em diversos fatores que vão de acordo com suas crenças, estilos de vida, etc. Nas sociedades ocidentais industriais a adolescência como um período efetivo da vida, com características próprias e demarcadas é algo tomada como certo. No Brasil o Estatuto da Criança e do Adolescente define esta fase como característica dos 12 aos 18 anos de idade. Ampliando um pouco mais o conceito de adolescência, aplica-se o termo Juventude para a faixa etária que vai dos 15 aos 29 anos de idade.

A adolescência, por sua vez, pode ser tomada como uma atitude cultural. A Adolescência é uma atitude ou postura do ser humano durante uma fase de seu desenvolvimento, que deve refletir as expectativas da sociedade sobre as características deste grupo. A adolescência, portanto, é um papel social. E esse papel social de adolescente, parece sempre ter sido simultâneo à puberdade.

Para Erikson (1987) a principal tarefa da adolescência é confrontar a crise de identidade versus confusão de identidade, de modo a se tornar um adulto único com um senso de identidade coerente e um papel valorizado na sociedade. Ainda para este autor a identidade forma-se pela resolução de três questões importantes: a escolha de uma ocupação, a adoção de valores nos quais acreditar e segundo os quais viver e o desenvolvimento de uma identidade sexual satisfatória. A fidelidade seria a virtude alcançada com a resolução satisfatória dessa crise – ser fiel aos ideais conquistados.

Contardo Calligaris em seu livro A Adolescência (2000), diz que:

[...] Erikson entende a crise da adolescência como efeito dos nossos tempos. Para ele, a rapidez das mudanças na modernidade torna problemática a transmissão de uma tradição de pais para filhos adolescentes. Estes devem portando se constituir, se inventar, sem referências estáveis. Erikson foi o primeiro a usar o termo "moratória" para falar de adolescência. Também foi um dos raros a perceber que a crise da adolescência se tornava muito difícil de administrar, já que o mesmo tipo de crise começava a assolar os adultos modernos. (p. 78)

Calligaris (2000) nos fala da moratória como um período situado entre a infância e a fase adulta, no qual o adolescente que já adquiriu as características dos mais velhos deve adiar sua entrada e aceitação no mundo dos adultos, em prol de uma melhor preparação. A adolescência seria um tempo de suspensão entre a chegada à maturação dos corpos e a autorização de realizar os valores pregados na sociedade, tais como independência e sucesso.

[...] há um sujeito capaz, instruído e treinado por mil caminhos – pela escola, pelos pais, pela mídia – para adotar os ideais da comunidade. Ele se torna um adolescente quando, apesar de seu corpo e seu espírito estarem prontos para a competição, não é reconhecido como adulto. Aprende que, por volta de mais dez anos, ficará sob tutela dos adultos, preparando-se para o sexo, o amor e o trabalho, sem produzir, ganhar ou amar; ou então produzindo, ganhando e amando, soque marginalmente. (p. 16)

A adolescência pode aqui ser entendida como processo de passagem entre o período das atividades infantis e a plena integração do indivíduo ao grupo produtivo e reprodutor. Para que ocorra esta passagem, o adolescente vivencia um período de crise, onde ocorrem questionamentos e rupturas com os modelos vigentes. A "crise" adolescente é, portanto, a expressão do questionamento da ordem social estabelecida, tornando-se um espaço de reflexão sobre os conflitos da cultura da qual faz parte.

Aberastury e Knobel (1981) nos falam de uma Síndrome Normal da Adolescência. Para esses autores está seria caracterizada por um serie de características típicas da adolescência. A saber:

Sintetizando as características da adolescência, podemos descrever a seguinte sintomatologia que integraria esta síndrome: 1) busca de si mesmo e da identidade; 2) tendência grupal; 3) necessidade de intelectualizar e fantasiar; 4) crises religiosas, que podem ir desde o ateísmo mais intransigente até o misticismo mais fervoroso; 5) deslocalização temporal, onde o pensamento adquire as características do pensamento primário; 6) evolução sexual manifesta, que vai do auto-erotismo até o heterossexualidade genital adulta; 7) atitude social reivindicatória com tendências anti ou associais de diversa intensidade; 8) contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta, dominada pela, que constitui a forma de expressão conceitual mais típica deste período da vida; 9) uma separação progressiva dos pais; e 10) constantes flutuações de humor e do estado de ânimo. (p. 129)

Aberastury e Knobel (1981), ressaltam que poder aceitar a anormalidade habitual do adolescente, vista desde o ângulo da personalidade idealmente sadia ou da personalidade normalmente adulta, permitirá uma aproximação mais produtiva a este período da vida. Este estado dito como "doentio" do adolescente pelo adulto seria algo extremamente normal e necessita ser compreendido, para que ambos (adolescente e adulto) possam se tornar mais próximos.

Para Ozzela (2002) a concepção vigente na psicologia sobre adolescência está fortemente ligada a estereótipos e estigmas. Para este autor grande parte das teorias psicológicas principalmente as baseadas em conceitos psicanalíticos vê a adolescência sob a ótica da ideologia vigente, considerando-a como um fator universal e intrínseco à existência humana. Ainda para este autor a adolescência não é um período natural do desenvolvimento, mas é um momento significativo e interpretado pelo homem.

O conceito de adolescência é uma construção social e histórica. A par das intensas transformações biológicas que caracterizam essa fase da vida, e que são universais, participam da construção dessa noção elementos culturais que variam ao longo do tempo, de uma sociedade a outra e, dentro de uma mesma sociedade, de um grupo a outro. As representações sobre as responsabilidades e os direitos que devem ser atribuídos às pessoas nessa faixa etária, assim como o modo como tais direitos devem ser protegidos, compõem o arcabouço cultural através do qual as sociedades constroem sua humanidade. Para Ozzela (2002), é importante perceber que a totalidade social é constitutiva da adolescência, ou seja, sem as condições sociais, a adolescência não existiria ou não seria essa da qual falamos. Ainda para Ozzela (2002):

A adolescência refere-se, assim, a esse período de latência social constituída a partir da sociedade capitalista, gerada por questões de ingresso no mercado de trabalho e extensão do período escolar, da necessidade do preparo técnico e da necessidade de justificar o distanciamento do trabalho de um determinado grupo social. Essas questões sociais e históricas vão constituindo uma fase de afastamento do trabalho e de preparo para a vida adulta. (p. 22)

Podemos perceber que segundo este pensamento a questão da adolescência está muito mais ligada às questões materiais de existência desses jovens em questão. A idéia de características intrínsecas ao estado de adolescência se torna ultrapassada, quando pensamos que são as condições de vida que determinarão as formas de adolescência se expressar e também as formas que será interpretada.

Com estas considerações chegamos a um ponto importante de nossa análise, quando consideraremos a questão da escolha profissional. A escolha profissional é um momento determinante na vida de todo adolescente. A escolha profissional, nos dias de hoje, se deve ao fato da diversidade de opções, que parece confundir ainda mais. O momento da escolha é sempre muito difícil pelas características da própria escolha, o adolescente precisa optar não só pela profissão que terá, mas por quem ele quer ser, qual o estilo de vida que ele quer levar, isto em um momento em que ele não sabe nem quem ele é, ou seja, para complicar ainda mais, já é sabido que este momento é determinado por intensos conflitos de identidade.

Bock (2002) citando Bohoslavsky diz que:

Quando uma pessoa pensa em seu futuro, ela nunca o faz de forma despersonificada. Ao escolher uma forma de se envolver no mundo do trabalho bem como a atividade que vai desenvolver, a pessoa mobiliza imagens que adquiriu durante sua vida. Assim, ao pensar em profissões especificas, o indivíduo esta expressando que "Quer ser como tal pessoa, real ou imaginada, que tem tais e quais possibilidades ou atributos e que supostamente, os possui em virtude de posição ocupacional que exerce. Ao pensar numa profissão, a pessoa mobiliza uma imagem que foi construída a partir de sua vivência por meio de contatos pessoais, de exposição à mídia, de leituras [...] de ouvir dizer (transposição de experiências de outros) [...]. (p. 78 e 79)

Para Bohoslavsky (1998), o processo de constituição da identidade profissional ocorre desde a infância, a partir das inúmeras identificações que o indivíduo irá realizando durante sua história de vida com adultos significativos que desempenham papéis profissionais. Essas identificações vão sendo incorporadas à personalidade tornando-se próprias. Das gratificações ou frustrações com esses profissionais significativos, nas relações atuais e passadas, se constituirá o tipo de relação com o mundo adulto em termos profissionais e a formação do ideal de ego, ou seja, é a partir do que se admira e deseja e do que se rejeita que surgirão as expectativas a respeito de si mesmo e as aspirações do modo de ser que se quer alcançar.

A escolha profissional vai depender – assim como outras escolhas – das influências externas sofridas por estes adolescente no decorrer de sua vida, pela forma que desenvolveu as relações com o mundo e com os outros. Para Bock (2002) "o ser humano desenvolve suas habilidades, personalidade, suas atitudes na relação com o outro e esta relação está mediada pela sociedade". Então se torna impossível pensar qualquer fator da vida do homem desconectado desta mesma sociedade. Ainda segundo Bock (2002):

A escolha profissional resulta de um processo, mas é efetivada em determinado momento, estabelecido socioculturalmente. A ocasião da escolha profissional não acontece em função de um pressuposto amadurecimento biopsicológico do indivíduo, mas é determinada pela cultura educacional / profissional de uma classe social e / ou de uma sociedade. (p. 179)

A necessidade de se pensar a adolescência como fator histórico social, se faz necessária para que as ações de auxílio sejam de fato eficazes. Para Bock, Gonçalves e Furtado (2002):

A Orientação Profissional, quando vê a adolescência como fase natural caracterizada por dúvidas e crises de identidade, terá, com certeza, um tipo de proposta de trabalho; a própria escolha de profissão fica naturalizada. Contudo, quando considera que essa fase é construída historicamente e que suas dificuldades são geradas fundamentalmente pela contradição condição/autorização, terá outro tipo de proposta para esses jovens. Contribuir para que compreendam esse processo e se apropriem de suas determinações, tornando-se mais capazes de interferir no mundo social, deve ser a meta desse trabalho. (p. 171)

Por que segundo Bock (2002):

A melhor escolha profissional é aquela que consegue dar conta (reflexão) do maior número de determinações para, a partir delas, construir esboços de projetos de vida profissional e pessoal. Utiliza-se o termo projeto para firmar a possibilidade de transformação / mudança da pessoa e, por que não, também de a sociedade na qual ela está inserida. (p. 181)

Portanto, um verdadeiro trabalho de orientação profissional/vocacional deve ser centrado no jovem, possibilitando a ele enxergar a sociedade na qual está inserida, o mercado de trabalho atual, e principalmente a se conhecer, saber quais são as suas habilidades, o que gosta e o que não gosta com o que se identifica o que pensa sobre o futuro, enfim, levá-lo ao ponto de amadurecer suas idéias, a fim de superar suas expectativas vindouras.

Sobre os Autores:

Kátia B. L. Amorim - Pedagoga. Discente do curso de Psicologia da Universidade Católica de Santos.

Lucian S. Barros - Discente do curso de Psicologia da Universidade Católica de Santos. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq.

Referências:

ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. 7. ed. Porto alegre: Artes Médicas, 1998. 92 p.

BOCK, Ana Mercês Bahia; GONÇALVES, M. Graça M; FURTADO, Odair. Psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica em psicologia . 2 ed., rev. São Paulo: Cortez, 2002. 224 p.

BOCK, Silvio Duarte. Orientação profissional: a abordagem sócio-histórica. São Paulo: Cortez, 2002.

BOHOSLAVKSY, Rodolfo. Orientação vocacional: a estratégia clínica. 11 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 210 p.

CALLIGARIS, Contardo. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000. 81 p.; (Folha explica).

ERIKSON, Erik H. Identidade juventude e crise. 2 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1987. 322p

OZZELA, Sérgio. Adolescência: uma perspectiva crítica. Em: Adolescência e psicologia – Concepções, práticas e reflexões críticas. Coordenação Maria de Lourdes Jeffery Contini; organização Sílvia Helena Koller. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Psicologia, 2002. 144p

Como citar este artigo:

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AMORIM, Kátia B. L.; BARROS, Lucian S.. O Jovem Adolescente e a Escolha Profissional. Psicologado, [S.l.]. (2011). Disponível em https://psicologado.com.br/psicologia-geral/desenvolvimento-humano/o-jovem-adolescente-e-a-escolha-profissional . Acesso em .

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Amorim, K. & Barros, L., 2011. O Jovem Adolescente e a Escolha Profissional. [online] Psicologado. Available at: https://psicologado.com.br/psicologia-geral/desenvolvimento-humano/o-jovem-adolescente-e-a-escolha-profissional [Acessed 03 Aug 2020]

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AMORIM, Kátia B. L.; BARROS, Lucian S.. O Jovem Adolescente e a Escolha Profissional [online]. Psicologado, (2011) [viewed date: 03 Aug 2020]. Available from https://psicologado.com.br/psicologia-geral/desenvolvimento-humano/o-jovem-adolescente-e-a-escolha-profissional