Psicologia e a Magia dos Contos na Terapia Realizada no SUS

(Tempo de leitura: 7 - 14 minutos)

1. Introdução

O presente estudo tem como objetivo a relevância do uso dos contos infantis na prática clínica com grupos de crianças em atendimentos psicológicos. Pois se sabe que os contos de fadas são, ao longo dos tempos, contados e recontados para crianças, adolescentes e adultos, Moreno & Amadeo (2010). Mas há poucos estudos elaborados sobre contos infantis e seus benefícios em grupo. Desta forma no atual projeto serão realizados levantamentos teóricos com o objetivo de esclarecer se através dos contos as crianças podem diminuir seus conflitos e se há reflexos positivos destes contos na psicoterapia de grupo realizada no SUS.

O procedimento para a pesquisa será analisado por mecanismos de busca por temas como: símbolos infantis; histórias infantis; contos de fadas; contos infantis; contos na psicoterapia; e prática grupal. Sendo estes buscados em: livros; periódicos científicos; teses; dissertações; periódicos de indexação e resumo.

Busca-se verificar se a influência dos contos no psiquismo infantil. Sabe-se que responder a estas questões é complexo, mas podemos refletir, segundo relatos de alguns autores que serão citados ao longo do trabalho. E conforme estes, os contos infantis contribuem com a linguagem, seja em sua leitura, no ato de se contar, de escrever e de escutar, sendo essa prática considerada como um recurso terapêutico e utilizada por muitos psicanalistas.

Os contos infantis contribuem para ajudar no campo emocional, podem auxiliar as crianças a elaborar e vencer dificuldades psicológicas bastante complexas, pois oferecem a possibilidade de se construir uma ponte entre o mundo inconsciente e a realidade externa. Visto que há em cada história uma linguagem simbólica que se comunica diretamente com o inconsciente e, mesmo que a criança não expresse sua compreensão acerca da mensagem contida na história, isto não significa que esta não foi assimilada.

2. Pequeno Resumo da História dos Contos

As autoras Schneider e Torossian (2009) relatam que os contos de fadas são histórias difundidas desde a antiguidade e têm comprovada influência e relevância entre infância também na contemporaneidade. Silva (2007) complementa que a cultura de contar histórias para as crianças não é algo recente. “Pelos escritos de Platão sabemos que as mulheres mais velhas contavam às suas crianças histórias simbólicas”. Segundo Schneider e Torossian (2009), os contos se configuravam em artifícios fascinantes à fantasia infantil, narrados pelas amas, governantas e, ou, pelas “cuidadoras” das crianças, que se incumbiam de contar e perpetuar histórias de origem popular, construídas com base na cultura do povo. As autoras nos relembram que no Brasil e em Portugal, os contos de fadas como são conhecidos hoje, surgiram no final do século XIX sob o nome de Contos da Carochinha. Somando, aproximadamente, 61 contos populares, e passaram a ser denominados contos de fadas somente no final do século XX, Schneider e Torossian (2009). Magalhães (2008) complementa dizendo que os tempos mudaram, mas a necessidade de compartilhar experiências, ouvir de outro algo que fale ao nosso coração permanece. E que até hoje, sempre que alguém senta para contar uma história, pratica a deliciosa arte de abrir as portas da imaginação. A autora vai mais além dizendo que se considerarmos que as histórias são inerentes à criança e à infância, essa compreensão poderá nos ajudar a entender a própria criança em seus processos de descoberta rumo ao desenvolvimento, abrindo-se um grande leque de possibilidades. E Ressurreição (2012) finaliza descrevendo que, embora os histórias infantis e os contos serem bem antigos, ainda hoje podem ser consideradas verdadeiras obras de arte, e seus enredos falam de sentimentos comuns a todos nós, como: ódio, inveja, ciúme, ambição, rejeição e frustração, que só podem ser compreendidos e vivenciados pela criança através das emoções e da fantasia.

Sobre as crianças, Magalhães (2008) nos relembra que a maneira de ver a criança e o tratamento dado a ela passou por inúmeras mudanças ao longo da história da humanidade. De adulto em miniatura a criança passou a ser o objeto de estudo de inúmeras teorias do desenvolvimento, denotando uma preocupação com esta importante etapa da vida humana. E junto a essas mudanças surgiu à literatura infantil, refletindo também, com o passar dos anos, a concepção de criança. Pois, antes não havia um tratamento diferenciado para as crianças, não havia também a necessidade de um acervo cultural próprio para elas. E à medida que a criança recebe diferentes olhares, os contos e as histórias vão se modificando de modo a acompanhar estas mudanças (Magalhães, 2008). Com essas modificações Cadore et al (2010)  expõem que as conflitivas das crianças e a possibilidade de elaboração ocorrem pela via da projeção. Neste sentido, os contos infantis ampliam a capacidade imaginativa pela sua riqueza de simbologia. E Pokorski e Pokorski (2004) nos recordam que o ser humano se constitui a partir da linguagem, em todas as culturas.

3. A Magia dos Contos Infantis

Ao falar da mágica viagem do “era uma vez”, Cyrulnik (2005) em Schneider e Torossian (2009) antecipa que as crianças feridas emocionalmente encontram certa dificuldade para embarcar nessa aventura, uma vez que compartilhar uma história de infelicidades é sofrer uma segunda vez. Mas assinala que a narração oferece uma proteção ao psiquismo da criança, um reviver sua história por meio do faz de conta. Magalhães (2008) descreve que os contos de fadas, com seus enredos repletos de elementos mágicos, oferecem inúmeros estímulos para a imaginação infantil. E compartilhar um conto e acolher a fantasia infantil, significa acolher a criança em sua integridade. Dessa forma, a criança sentirá que não está só e que suas emoções não são assustadoras, mas pertencem à natureza humana e podem ser controladas, Magalhães (2008). Por meio dos contos de fadas, as crianças podem satisfazer seus desejos na fantasia, enquanto que mantém uma relação equilibrada na vida real, Silva (2007). Mas Souza (2012) nos lembra de que a compreensão da mágica parece ser influenciada também pelas valorizações advindas do contexto cultural do grupo em que vivem estas crianças. E a contação da história infantil, estimula a construção e a (re)invenção de uma narrativa da história pessoal de cada criança (Cadore et al, 2010).

4. A importância dos Contos na Vida Psíquica da Criança

Com os relatos dos autores citados, sobre a narração dos contos oferecerem proteção ao psiquismo da criança, os enredos nos contos apresentarem estímulos para imaginação infantil, e a satisfação dos desejos na fantasia dos contos. Pode-se fazer outro questionamento: Os contos infantis contribuem para que as crianças diminuam seus conflitos?  Segundo Pokorski e Pokorski (2004) sim, os contos infantis contribuem para o imaginário, com a fantasia e a variedade de cenas possíveis, bem como as alternativas para as situações de angústia. E psicanalistas contemporâneos, atribuem ao conto uma função organizadora do psiquismo. Conforme Magalhães (2008), as histórias são fontes de prazer para a criança. Ajudam a formar a personalidade, auxiliam na organização do pensamento infantil, oferecendo estímulos para a imaginação. Barreto (2005), diz que as histórias ajudam a organizar os sentimentos complexos e ambivalentes. Já Schneider e Torossian (2009), descrevem que os contos favorecem na introspecção, fazendo com que a criança pense sobre seus sentimentos e assim ter mais esperanças que seus sofrimentos serão passageiros. E Caldin (2004), também concorda que por intermédio dos contos, a criança tem a possibilidade de pensar sobre seus sentimentos e tem a esperança de que o sofrimento que a acomete venha a ser passageiro. Bettelheim (1985) apud Simões (2000) expõe que os contos de fada transmitem à criança, que uma luta contra dificuldades graves na vida é inevitável, é parte inseparável da existência humana, mas que, se a pessoa se defronta de modo firme com as opressões inesperadas, ela dominará os obstáculos, e ao fim emergirá vitoriosa”.  Caldin (2004), completa relatando que texto escrito direcionado à criança pode ter aplicabilidade terapêutica, podendo produzir emoções e apaziguá-las, e conduzindo ao equilíbrio necessário à mente infantil, pode produzir o riso, que transforma a dor em prazer. E Freud citado por Gutfreind (2010), diz que “o triunfo do ego é o humor que é um ganho de prazer”. Finalizando, Ressurreição (2012) expõe que a capacidade de simbolizar é fundamental para a nossa natureza psíquica e emocional.

Em seguida aos esclarecimentos dos autores citados acima, que nos descrevem as histórias serem fontes de prazer para as crianças, auxiliando na organização dos pensamentos. Produziu-se outra questão: Há benefícios com contos infantis em psicoterapia? Segundo Caldin (2004) citado em Schneider e Torossian, (2009), os contos são fonte de prazer para as crianças tanto pelo ouvir quanto pela sua representação. Prazer produz alegria, e alegria é terapêutica. Mas essa deve ser uma construção conjunta, na qual tanto o terapeuta e os participantes são ativos no processo. Schneider e Torossian (2009) dizem que os contos podem ser usados de forma terapêutica, como mediadores entre o mundo interno e a realidade externa da criança, como dispositivos de contenção de seus aspectos psíquicos, sendo, ainda, uma possibilidade de intervenção em seu processo de desenvolvimento. Cadore et al (2010) compartilha expondo que contos infantis como mediador simbólico é um dos fatores para sua utilização como instrumento terapêutico.

Após estes relatos, surgem ainda mais questionamentos: Os contos infantis e os grupos contribuem para diminuir a espera dos atendimentos psicológicos no SUS? Conforme Rasera e Rocha (2010), as práticas grupais, estão em conformidade com o preconizado pelo SUS e seus princípios de universalidade do acesso, integralidade da atenção e controle social, pois podem contribuir para a democratização do acesso à saúde no país. Continuam as autoras, lembrando que “grupo como alternativa para a demanda” trata-se de um repertório muito comum, utilizado para justificar a adoção das práticas grupais por um viés econômico e administrativo. O grupo constitui uma resposta a uma exigência do sistema público, que não tem condições de oferecer atendimento individual a todos que procuram o serviço (Rasera e Rocha, 2010). Grings (2013) esclarece que, no entanto, pode-se pensar que a própria grupalidade configura-se como um espaço terapêutico, ultrapassando a única função de reduzir a lista de espera e otimizar tempo e recurso humano. Continua a autora expondo que o grupo, por si só, produz efeitos terapêuticos e que a grupalidade pode ser vista como aquilo que nos desloca do lugar do sujeito que sofre solitariamente, Grings (2013). Com tais esclarecimentos dos autores, podemos compreender que os grupos de contos infantis além de contribuir para a diminuição da espera nos atendimentos psicológicos no SUS, os grupos beneficiam as crianças por proporem a socialização e assim elas percebem que não estão sozinhas em seus sofrimentos.  Freud em Gutfreind descreve que a entrada de outra pessoa no mundo interno da criança é que pode fazer a neurose sair. Hoje, o que cura é o encontro. A técnica mudou, mas a importância do encontro ainda é a mesma, Gutfreind (2009). Sendo assim, Levisky (1997) conclui que não é preciso falar como criança, mas para a criança. Elas percebem que o terapeuta e o grupo são capazes de serem continentes de suas angustias e sentem-se comprometidas. Assim desenvolvem um “olhar” interno para suas experiências emocionais, crescendo um espaço para o pensar.

Referências:

BARRETO, Cintia. Histórias de Bruxa Boa: Desconstrução e Subjetividade na Narrativa Luftiana. 2005. Disponível em: <http://www.cintiabarreto.com.br/docs/historiasdebruxaboa.pdf>. Acesso em: 28 mar. 2013.

CADORE, C.; Lüdtke, M. F.; Cassel, P. A.; Costa, A. M. da; Ramos, M. dos S.; Dias, H. Z. J. De Conto em Conto: A Construção de Histórias Singulares. Promovendo Saúde na Contemporaneidade: desafios de pesquisa, ensino e extensão Santa Maria, RS, 08 a 11 de junho de 2010.  Disponível em: < http://www.unifra.br/eventos/jis2010/Trabalhos/127.pdf>. Acesso em: 03 abr. 2013.

CALDIN, Clarice Fortkamp. A Aplicabilidade Terapêutica de Textos Literários para Crianças.  v. 9, n. 18.  2004.  Disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/eb/article/view/15182924.2004v9n18p72/5474>. Acesso em: 03 abr. 2013.

GIL, Antonio Carlos. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. Ed.5. São Paulo: Editora Atlas, 2010.

GRINGS, Ana Emilia. O reflexo da lista de espera em um CAPS: um analisador do serviço. 7/3/13. 2013. Disponível em: <http://www.redepsi.com.br/portal/modules/smartsection/item.php?itemid=2117>. Acesso em: 30 mar. 2013.

GUTFREIND, Celso. O Pequeno Hans discutido e sentido entre o passado e o presente. Rev. bras. psicanálise v.43 n.2 São Paulo jun. 2009. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0486641X2009000200008&script=sci_arttext>.  Acesso em: 13 abr. 2013.

GUTFREIND, Celso. O Terapeuta e o Lobo: A utilização do conto na psicoterapia da criança. Rio de Janeiro: Artes e Ofícios, 2010.

LEVISKY, Ruth Blay. In: ZIMERMAN, David E. , OSORIO, Luiz Carlos. Como Trabalhamos com Grupos.  Grupos com Crianças. Cap. 28. Pag. 311 a 320. Porto Alegre. Artes Médicas, 1997.

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SCHNEIDER, Raquel Elisabete Finger e TOROSSIAN, Sandra Djambolakdijan.  Contos de fadas: de sua origem à clínica contemporânea.  2009. Disponível em: <http://periodicos.pucminas.br/index.php/psicologiaemrevista/article/viewFile/P.1678- 9563.2009v15n2p132/873 >. Acesso em: 10 mar. 2013.

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