Terapia Familiar e Psicomotricidade Relacional: um Diálogo Possível e Necessário

Terapia Familiar e Psicomotricidade Relacional: um Diálogo Possível e Necessário
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Resumo: Este trabalho visa estabelecer uma relação entre a psicomotricidade relacional no âmbito clínico com crianças e a terapia familiar. A psicomotricidade relacional visa desenvolver o sujeito em sua globalidade, através da comunicação corporal, da livre expressão, espaço para legitimação de desejos. É também uma prática que busca a decodificação de comportamentos atuais mostrando suas significações simbólicas e suas necessidades. Todavia nem sempre a família é incluída como parte necessária para a decodificação do comportamento de uma criança, por exemplo, e devido a isso se faz necessário e urgente que a família seja incluída no tratamento e que a criança seja vista de uma perspectiva sistêmica, não como um produto isolado do seu meio. Este trabalho procura demostrar a importância de se manter uma estreita relação com a família da criança durante todo o processo terapêutico e, além disso, de incluí-la no processo desde o começo.

Palavras-chave: psicomotricidade, terapia familiar, estrutura familiar, relação.

1. Psicomotricidade Relacional, Suas Raízes e os Novos Paradigmas

O Termo psicomotricidade foi usado pela primeira vez em 1870, a partir do saber médico no início do século XIX, “quando foi necessário nomear zonas do córtex cerebral situadas além das regiões motoras” (Associação Brasileira de Psicomotricidade - ABP). Desde então a psicomotricidade vem se desenvolvendo e incorporando novas concepções e constituindo-se como uma ciência.

Regina Morizot (1984) relata que a partir da década de 30 começou-se incorporar outras noções, decorrentes de pesquisas de outras áreas do saber que, apenas como citação, recorda as contribuições de Charcot que se interessava pela função motora, para fazer dela a base da patologia psiquiátrica.

Segundo ABP

na década de 70 diferentes autores definem a psicomotricidade como uma motricidade de relação. Começa então, a ser delimitada uma diferença entre uma postura reeducativa e uma terapêutica que, ao despreocupar-se da técnica instrumentalista e ao ocupar-se do “corpo de um sujeito” vai dando progressivamente, maior importância à relação, a afetividade e ao emocional (ABP. Online;).

A visão que a Sociedade Brasileira de Psicomotricida

Psicomotricidade tem da psicomotricidade é uma visão global e não-fragmentária. Segundo a ABP:

Psicomotricidade é a ciência que tem como objeto de estudo o homem através do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo. Está relacionada ao processo de maturação, onde o corpo é a origem das aquisições cognitivas, afetivas e orgânicas. É sustentada por três conhecimentos básicos: o movimento, o intelecto e o afeto (ABP).

A Psicomotricidade Relacional é uma vertente dentro do extenso corpo teórico desenvolvido no campo psicomotor. Foi desenvolvida por André Lapierre em conjunto com Bernard Aucouturier, que depois de anos de parceria se separaram por conflitos de ideologias. Para José Leopoldo Vieira

A psicomotricidade relacional visa desenvolver e aprimorar os conceitos relacionados à globalidade humana. Busca superar o dualismo cartesiano corpo/mente, enfatizando a importância da comunicação corporal, não apenas pela compreensão da organicidade de suas manifestações, mas essencialmente, pelas relações psicofísicas e socioemocionais do sujeito. (VIEIRA, 2005. p. 23).

Psicomotricidade relacional é uma intervenção metodológica que estuda o ser humano em relação ao seu mundo interno e externo e de suas possibilidades de perceber, atuar e agir com o outro, com os objetos e consigo mesmo. Utiliza a perspectiva lúdica, onde o sujeito tem o direito de transitar por diferentes espaços, vivenciar diferentes papéis, sem ser submetido ao julgamento. É uma prática que permite à criança e ao adulto manifestar suas dificuldades relacionais e superá-las. Para José Leopoldo “a metodologia da psicomotricidade relacional prioriza o trabalho em grupo e tem como características fundantes o jogo espontâneo, a comunicação tônica e a decodificação simbólica dos atos vivenciados”. (VIEIRA, 2016)

Hoje em dia, segundo Isabel Bellaguarda e Jose Leopoldo Vieira, “há um movimento no sentido de se focar mais as possibilidades de saúde física, emocional e social das crianças, descentralizando o foco da doença, das dificuldades de aprendizagem, motoras ou sociais, sem, contudo, perde-las de vista.” (VIEIRA & BELLAGUARDA, 2016). De certa forma essa descentralização foca mais nos aspectos relacionais e nos conceitos relacionais trabalhados em psicomotricidade.

Segundo Jocian Machado Bueno os principais conceitos relacionais trabalhados são: Expressão, Comunicação, Afetividade, Agressividade, Limites e Corporeidade.

Expressão 

Manifestação de algum pensamento, ideia, emoção, sentimento via verbal ou não- verbal, manifestação de algum ou atitude. Diz sempre sobre o sujeito que expressa. Uma expressão plena, de corpo inteiro, só é possível com a coordenação física e psíquica integradas. A tomada de consciência dos sentimentos e emoções e sua habilidade de expressa-los de forma verdadeira e coerente é uma conquista que deve ser ensinada, ou antes, não reprimida pela educação e/ou pelos pais e sociedade. Quando se está triste saber que se está triste e expressar a própria tristeza, ou quando se está com raiva poder sentir a raiva e exprimi-la de forma adequada. A expressão também está diretamente relacionada com a capacidade criativa. Criar é expressar o que se tem dentro de si, ou seja, um autêntico esforço interior.

Comunicação

Comunicação e expressão estão intimamente ligadas. Uma boa capacidade expressiva, seja ela verbal ou corporal, traduz se em assumir a própria identidade e capacidade comunicativa e relacional com outro, pois comunicar é tornar algo a alguém. A palavra comunicação deriva do latim communicare, que significa "tornar comum", "partilhar", "conferenciar". A comunicação pressupõe, deste modo, que algo passe do individual ao coletivo, embora não se esgote nesta noção, uma vez que é possível a um ser humano comunicar consigo mesmo. A comunicação é uma condição sine qua non da vida humana e da ordem social.

Afetividade 

A afetividade é uma sensação de extrema importância para a saúde mental dos seres humanos por influenciar o desenvolvimento global, o comportamento e o desenvolvimento cognitivo e é um fator importantíssimo para o desenvolvimento psicomotor das crianças. Para Piaget existe uma correlação importante entre o desenvolvimento da afetividade e as funções intelectuais. Qualquer ação não é puramente intelectual ou puramente afetiva, os dois elementos se misturam porque um supõe o outro. Segundo Wallon a inteligência não é o principal componente do desenvolvimento, mas defende que a vida psíquica é formada por três dimensões: motora, afetiva e cognitiva.

Agressividade

A agressividade é um fator extremamente relevante para o desenvolvimento saudável de uma criança. Segundo Lapierre e Aucouturier a agressividade “é resultado de um conflito entre o desejo de afirmação pela ação e os obstáculos e interdições que a afirmação encontra.” A agressividade é um componente afetivo do ser humano. É a capacidade saudável de expressar o desejo de existir, pulsão de vida. A agressividade tem um aspecto interessante que pressupõe um respeito pelo próximo uma vez que é um componente afetivo de afirmação de si no mundo, e toda vida é por natureza agressiva uma vez que todos querem se afirmar. Se a agressividade não é bem canalizada, bem vivida, respeitada e principalmente desculpabilizada, pode transformar-se em violência e um ato violento por sua própria constituição desrespeita o próximo, pois invade e viola o direito do outro de se afirmar.

Limites

A palavra limite remete a ideia de fronteira, de linha que separa. Se existe um limite é porque há pelo menos dois continentes, sejam concretos ou abstratos, separados. Limite também pode nos dar a ideia de restrição de algo que não se deve ultrapassar. Também pode nos remeter a ideia de algo que pode ou deve ser transposto. A questão é saber se o limite é um convite a passar para o outro lado da fronteira ou se é para permanecer, estagnar. Limite e liberdade/responsabilidade são faces da mesma moeda, uma não existe sem a outra. As crianças têm direitos e privilégios correspondentes a sua idade e tem também deveres e responsabilidades pertinentes a sua idade. Descobrir a sua liberdade é, acima de tudo, descobrir seu próprio limite nessa liberdade. O poder de ser, o poder de sua autonomia, só é adquirido quando a criança assume sua responsabilidade nessa autonomia. Quando não há limites, seja na escola ou no ambiente familiar, as crianças se sentem perdidas, desprotegidas e angustiadas podendo, crescer com um sentimento de abandono e insegurança.

Corporeidade

Corporeidade é a vivência do próprio corpo na relação com o outro e com o mundo, ou seja, é o corpo vivenciado e em movimento no tempo e espaço. Para a construção da corporeidade é imprescindível que o sujeito tenha estímulos que favoreçam a apropriação das funções básicas da psicomotricidade. É um dos canais mais importante para facilitar isso.

A psicomotricidade relacional leva em conta também os conceitos funcionais, ou seja, os conceitos que se referem às condutas cujas ações e mensuração são passiveis de observação.

Tendo em vista o aspecto relacional e os conceitos relacionais acima expressados propostos pela psicomotricidade relacional, é importante levarmos em conta e termos em perspectiva as relações fundantes de todo ser humano, que se ocorrem no ambiente familiar. Para Leopoldo Vieira

André Lapierre adicionou o adjetivo relacional ao termo Psicomotricidade para diferenciar suas concepções e sua prática em relação a outras técnicas. Colocou ênfase sobre a relação com o outro e seus conteúdos projetivos, simbólicos e fantasmáticos (VIEIRA, 2016 p.40).

Os estudiosos da psicomotricidade relacional defendem a necessidade de se olhar para a pessoa como um ser integral, no qual corpo, emoção e cognição são indivisíveis. O presente estudo tem por objetivo incluir nesse olhar as relações familiares. Para Nathan Ackerman, psicanalista e psiquiatra americano,

a identidade é simultaneamente individual e social. Ela é uma imagem refletida, um microcosmo de seu grupo familiar. Em um certo momento da vida, ele condensa uma hierarquia total de configurações familiares, cada uma delas correspondendo à sua personalidade individual em um estágio específico de crescimento. Uma concepção significativa de saúde mental pode ser atingida apenas quando relacionamos o funcionamento do individuo com os padrões de relações humanas de seu grupo primário, a família. (ACKERMAN, 1986, p.20)

Por isso não é possível considerarmos o individuo como um ser global se deixarmos de lado o “seu grupo primário”, a sede de seus primeiros e mais caros aprendizados. A família modela e influencia de forma marcante seus membros. A psicanalista argentina Alba Flesler discorre muito bem sobrea influência paterna e materna sobre a criança mesmo ela ainda não tendo nascido. Segundo Flesler “para o ser humano a existência não é assimilável à vida. Por essa razão a criança pode ter lugar na família antes de nascer.” (FLESLER, 2012). Com isso ela aborda o desejo dos pais como constituintes do sujeito. Para Flesler:

junto com esse desejo, engendra-se e desperta-se, no melhor dos casos, uma ânsia sustentada de completude. Mais tarde essa ânsia vai se revelar na criança da mesma maneira que o negativo de uma fotografia, como um movimento impulsor que a levará, por sua vez, a se propor como aquela que, imaginariamente, cobre as expectativas da falta do Outro. (FLESLER, 2012, p.40)

Flesler observa que “Freud identificou o momento fundador para o filhote humano, que só entra no mundo através de uma equivalência simbólica significativa para outro ser humano, a mãe”. (Flesler, 2012)

Todos esses apontamentos corroboram de forma enfática a importância de sustentar um olhar para além do indivíduo, um olhar que cuide e esteja atento às relações familiares, ao modo de interação da família, aos desejos inconscientes dos pais que se manifestam em seus filhos. Segundo Alicia Fernández, em seu livro Inteligência Aprisionada, “a observação de diferentes circunstâncias vinculares e sua incidência na modificação do agir do comportamento da criança, abrem um caminho de investigação e possibilidade de esclarecimento muito interessante” (FERNANDEZ, 1991, p. 94). Por isso é condição sine qua non que o olhar seja sistêmico, que o indivíduo seja visto dentro do seu contexto relacional, que ele seja visto ao mesmo tempo como parte e como todo, num movimento complexo entre o pertencimento a um sistema e o processo de individuação, para Nathan Ackerman “nenhum de nós vive sozinho. Aqueles que tentam estão condenados de antemão; eles se desintegram como seres humanos” (ACKERMAN, 1986, p.29). Por isso se faz necessário que se faça um novo corte epistemológico na psicomotricidade. Para Esteban Levin

Historicamente, desde o ano 1900 até a presente data, o percurso e a evolução do campo psicomotor desenvolvem-se, no nosso modo de ver, de acordo com diferentes cortes que vão modificando e esboçando um acionar clínico específico. (LEVIN, 1995, p.30).

O primeiro corte epistemológico sofrido foi a superação do dualismo cartesiano. No início as práticas psicomotoras tinham uma atuação mais orientada para a reeducação. A proposta de estabelecer uma relação entre o mental e o motor representa o primeiro corte, segundo Levin “as práticas reeducativas determinadas pelo conceito de paralelismo metal-motor” (LEVIN, 1995, p.30). O reeducador tem uma visão mais mecanicista do corpo, propõe a concertá-lo.

O segundo corte epistemológico proposto por Levin diz respeito à passagem da visão de motor para uma visão de corpo, ou seja, uma orientação menos mecanicista, o corpo não precisa de concerto. Passa a ser visto como um “instrumento de construção da inteligência humana.” (LEVIN, 1995, p.31). O olhar muda do motor-mecânico para um corpo que se move e é produtor de sua realidade. Para Levin:

já não se trata de uma reeducação, mas de uma terapia psicomotora que se ocupa, observa e opera num corpo em movimento que se desloca, que constrói a realidade, que conhece à medida que começa a movimentar-se, que sente, que se emociona e cuja emoção manifesta-se tonicamente. (LEVIN, 1995, p.31).

O aspecto emocional agora está em jogo e faz parte da constituição desse corpo, existe um paralelismo entre emoção, tônus e corpo, por isso o psicomotricista centra seu olhar em três aspectos constitutivos do sujeito: a dimensão instrumental, a dimensão cognitiva e a dimensão tônico-emocional.

O terceiro e último corte expressado por Levin diz respeito à entrada da psicanálise em jogo. Segundo Levin “já não centra seu olhar num corpo em movimento, mas num sujeito com seu corpo em movimento” (LEVIN, 1995, p.31). A entrada em cena de um sujeito que tem um corpo em movimento desloca os aspectos terapêuticos de objetivos e técnicas definidos em uma clínica centrada em um sujeito desejante. O inconsciente é incluído e levado em conta no âmbito da psicomotricidade, “não se trata mais de uma globalidade, de uma totalidade, mas de um sujeito dividido, escindido, com um corpo real, imaginário e simbólico”. (LEVIN, 1995, p.31).

Apoiando-se em Nathan Ackerman, a introdução da psicanálise, o terceiro corte epistemológico na psicomotricidade, ainda não introduz a noção de família e suas inter- relações e a importância para o desenvolvimento infantil. Ackerman nos diz

que os conceitos de Freud são infinitamente ricos em suas reflexões sobre a natureza da experiência humana. Contudo, oculto nessas reflexões está o profundo enigma das inter-relações entre desenvolvimento individual e o “pertencer” à família à medida que evoluem no tempo. O mistério choca-se persistentemente com um grau de indecisão sobre até que ponto a personalidade é individual, até que ponto é familiar ou social (ACKERMAN, 1986, p.39).

Segundo Ackerman 

Freud concebia a família como um instrumento para disciplinar os impulsos instintivos, biologicamente fixados, da criança e para impor repressão à sua liberação espontânea. A criança epitomiza o prazer animal. Nesse aspecto de relações familiares, pais e filhos são concebidos como virtuais inimigos um do outro. (ACKERMAN, 1986,p.41).

Certamente Freud deixa de forma bem obscura a noção de amor nas relações familiares,   sendo uma força nestas relações, como uma experiência mutuamente intensificada, que dá impulso à vida (ACKERMAN).

O que poderia ser o quarto corte epistemológico é a introdução da visão sistêmica, ou nova-paradigmática, e familiar no trabalho com crianças e no trabalho como um todo da psicomotricidade relacional. Para Alicia Fernández “quando o paciente designado é uma criança ou adolescente, nosso modo de diagnosticar talvez tenha a ver com olhar- conhecer a criança ou o adolescente através da família”.

O quarto corte epistemológico diz respeito ao rompimento com as dimensões da ciência tradicional com sua visão simplista, objetiva e estável, é levar em conta a complexidade sistêmica do sujeito e a importância da família nessa construção complexa e tão cara ao indivíduo. Esta visão tem em conta por exemplo, que o comportamento de uma criança é mantido pelo esforço combinado de todos os membros da família, adminitindo que a mesma tem uma estrutura organizacional abrangente que molda a vida de seus membros. O que não significa dizer que a criança é nada além do tratamento parental, o que ignoraria a complexidade da realidade da criança, mas significa reconhecer, nas palavras de Salvador Minuchin (2002, p.108), “que as crianças são autores e reatores, e muitas vezes mais adaptáveis do que imaginamos”.

O percurso do desenvolvimento teórico e prático da psicomotricidade de certa forma acompanhou e foi fortemente influenciado pelo modus operandi da ciência tradicional e seu paradigma com seus aspectos reducionistas, fragmentários, objetivistas e principalmente onde o observador não é parte do sistema observado, ou seja, o observador não interfere no objeto observado.

Para entender “paradigma” podemos recorrer a Thomas Kuhn que desvelou os mecanismos internos das ciências. Para ele, as ciências evoluem através de paradigmas. Paradigmas são modelos, representações e interpretações de mundo, universalmente reconhecidas, que fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade científica. Os paradigmas são, portanto, os pressupostos das ciências. A prática científica ao fomentar leis, teorias, explicações e aplicações criam modelos que fomentam as tradições científicas. Segundo Kuhn, os “paradigmas são as realizações cientificas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (Kuhn, 1991, p.13).

Fritjof Capra (1982) expressa em seu livro, O Ponto de Mutação, uma visão semelhante a de Thomas Kuhn sobre paradigma, quando diz que paradigma significa a totalidade de pensamentos, percepções e valores que formam uma determinada visão da realidade que é a base do modo como uma sociedade se organiza.

Vasconcellos (2002) considera o pensamento sistêmico como o novo paradigma da ciência moderna. O paradigma científico em que a psicomotricidade foi forjada, durante o período da chamada ciência tradicional que é do século XVII até o século XIX, é delineada por três pressupostos básicos que balizam seu modo de entender o mundo. Para Vasconcelos os três pressupostos são:

  • Simplicidade: a crença que separando o mundo complexo em partes, ou seja, que é preciso separar as partes para entender o todo. Busca das relações causais
  • Estabilidade: a crença que o mundo é estável, ou seja, que o mundo já é. 3- Objetividade: é possível conhecer o mundo tal como ele é. Dai decorrem os esforços para colocar entre parênteses a subjetividade do cientista. (VASCONCELOS, 2003, 69).

Esses pressupostos geraram uma visão de mundo que desconectou o corpo e a construção dos conceitos tanto relacionais como dos conceitos funcionais (que de certa forma são mais corporais, mas que ainda assim sofrem a interferência do meio em que esta inserida) do ambiente relacional do sujeito, ou seja, não levou em consideração a importância que o contexto afetivo/emocional/social tem para a construção da identidade individual, que inicialmente passa pelo corpo, e principalmente o ambiente familiar. A psicomotricidade relacional fez um esforço plausível no sentido de romper com essa visão reducionista quando leva mais em consideração os aspectos relacionais, focando também as relações parentais. Para André Lapierre:

A estrutura familiar, o “papel” do pai e da mãe, vão marcar profundamente a criança e suscitar nela os fantasmas que farão de um ou de outro imagens simbólicas, lançando assim as bases de toda uma organização inconsciente que vai se projetar no futuro. (LAPIERRE, 1984, p.9).

Em contra posição ao modelo tradicional da ciência o modelo novo-paradigmático avançou em relação aos três pressupostos básicos. Para Vasconcelos:

Podemos distinguir três modelos que correspondem a avanços nos três eixos da descrição do paradigma tradicional. Do pressuposto da simplicidade para o pressuposto da complexidade: o reconhecimento de que a simplificação obscurece as inter-relações de fato existentes entre todos os fenômenos do universo. Do pressuposto da estabilidade para o pressuposto da instabilidade: o reconhecimento de que “o mundo está em processo de tornar-se”. Do pressuposto da objetividade para o pressuposto da intersubjetividade: o reconhecimento de que não existe uma realidade sem um observador. (VASCONCELOS, 2003, p.101).

Esse novo paradigma ao encontro das bases da terapia familiar e de parte da psicomotricidade relacional que aborda e trata os problemas psicológicos, emocionais, afetivos como tendo origem nas relações, nas interações da criança com seu meio.

2. Terapia Familiar

A corrente de pensamento sistêmica dentro da terapia familiar através de alguns de seus expoentes oferece conceitos interessantes sobre o que é a família e sua importância na vida de seus indivíduos. Para Nathan Ackerman

família é a unidade básica de crescimento e experiência, desempenho ou falha. É também a unidade básica de saúde e doença. A família é uma designação para uma instituição tão antiga quanto a própria espécie humana. A família é entidade paradoxal e indefinível. (ACKERMAN, 1986, p.29)

Levando-se em consideração a visão que a família é a “unidade básica de saúde e doença” Alicia Fernandez nos diz que

Através das séries complementares Freud nos proporciona um modelo excelente para compreender o lugar da família na gestação do problema de aprendizagem. A combinação de fatores congênitos, hereditários, junto com as experiências infantis no ambiente familiar ou social, constitui a chamada série da disposição, a qual, por influência dos motivos atuais ou desencadeantes, por sua vez condicionados pela disposição, determina o surgimento da enfermidade mental (FERNANDEZ, 1991, p.96).

Obviamente essa visão não se restringe aos problemas de aprendizagem e podem ser extensivos à outras dificuldades tanto de ordem emocional/afetivo e física/motora.

Segundo Ackerman

a família tem duas funções: assegurar a sobrevivência física e construir a humanidade essencial do ser humano. A satisfação das necessidades biológicas básicas é essencial para a sobrevivência, mas a simples satisfação dessas necessidades não garante de forma alguma o desenvolvimento das qualidades dessa humanidade. (ACKERMAN, 1986, p.32)

Segundo Salvador Minuchin “família é um grupo social natural, que governa as respostas de seus membros aos inputs de dentro e de fora. Sua organização e estrutura peneiram e qualificam as experiências dos membros da família.” (1982, p.16).

André Lapierre em seu livro Da Psicomotricidade Relacional à Análise Corporal da Relação escreve muito sucintamente um capítulo dedicado à terapia familiar e à psicomotricidade relacional, salientando que “se o meio familiar é patológico, a criança se permite descarregar as tensões neuróticas, assumindo-as por meio da sua própria neurose.” (2010, p.185). Essa premissa muito bem colocada por Lapierre vai ao encontro da premissa básica da terapia familiar que diz que o comportamento de uma criança é mantido pelo esforço combinado de todos os membros da família. A terapia familiar muda o foco do indivíduo para o foco nas transações familiares. A essência da terapia familiar é descobrir o padrão que cerca o problema e mudá-lo.

Para Nichols:

meu eixo de referência é a terapia familiar, um conjunto de conceitos e métodos que aborda o indivíduo em seu contexto interpessoal. Com base nisso, a terapia é dirigida a uma mudança na organização da família. Quando o padrão organizacional do grupo familiar é modificado, a vida de cada membro da família é consequentemente mudada (NICHOLS, 1990, p.33).

Para Minuchin “talvez a mais importante pergunta que um terapeuta sistêmico faz é a seguinte: o que os membros da família estão fazendo que colabora para manter os sintomas da criança, ou paciente identificado?” (MINUCHIN, 2009, p. 36). Esse levantamento obviamente descentraliza o problema somente na criança e coloca em jogo a dinâmica relacional tanto do casal quanto da família.

Tendo em vista a importância que o casal assume na criação e arquitetura da família Michael Nichols acredita que nove em dez vezes, quando uma criança se comporta mal e mantem tal comportamento, os pais estão se movendo em direções diferentes. Não fosse assim, eles formariam uma frente unida e agiriam com eficiência. (NICHOLS, 1990, p.21).

Para Virginia Satir “o relacionamento conjugal constitui o eixo em torno do qual se formam todas as outras relações familiares. Os cônjuges são os arquitetos da família.” (SATIR, 1976, p.22).

É importante salientarmos uma distinção importante que nem sempre é muito clara para as famílias e principalmente para o casal, a diferença entre o subsistema casal e o subsistema parental. A relação entre um homem e uma mulher inaugura a relação de casal e é precedente à relação de pais que somente surge quando chega um filho/a biológico ou natural. Dessa perspectiva a relação de casal tem precedência em relação à paternidade. A inversão dessa precedência pode gerar conflitos no seio familiar e causar uma série de desorganizações hierárquicas e estruturais.

Salvador Minuchin é bem claro quanto a essas desorganizações. Segundo Minuchin “o padrão comum em casais com conflitos maritais é a existência de excessiva proximidade de um dos pais com relação aos filhos e distanciamento do outro, situado em uma posição crítica ou não.” Então o problema apresentado pela criança tem a “função” de aproximar seus pais ou então permite que eles briguem e discordem abertamente sobre o fato de como tratar o filho. Ainda de acordo com Minuchin “dessa forma uma apresentação estrutural mais comum em uma triangulação entre pais é vermos a mãe e os filhos aglutinados e o pai afastado” (2009, p.36).

Para Virginia Satir

em famílias disfuncionais, os cônjuges geralmente se desesperaram ou abandonaram seus papeis conjugais, tornando-se simplesmente pais, concentrados exclusivamente nos filhos porque não ousam se concentrar um no outro. (SATIR, 1976, p.209).

Um casal assim exerce muito pouco de suas funções maritais, o esposo como esposo e a esposa como esposa, e exagera nas funções parentais sobrecarregando dessa maneira o filho ou filhos.

O trabalho sistêmico em uma família assim disfuncional consistiria em aproximar o genitor afastado trazendo-o ao círculo familiar, o que garantiria de certa forma a fronteira geracional adequada, e reaproximar o casal para que possam agir juntos frente às questões parentais. Na visão da psicomotricidade relacional o trabalho seria proporcionar condições emocionais à criança que porventura seja o paciente identificado e dar-lhe condições internas para que possa também fazer seu movimento para colocar-se no seu devido lugar de filho.

Alicia Fernández, dentro da perspectiva da psicopedagogia, traz uma visão muito semelhante acerca da influência da família sobre seus indivíduos ao discorrer sobre um dos efeitos no processo de aprendizagem de uma criança quando a família tem uma configuração de aglutinação, ou indiferenciação. Segundo Fernández

sendo o aprender um possibilitador de autonomia, tanto para a criança como para o adulto, e sendo possível ser atrapado por desejos de ordem inconsciente, os sistemas familiares estruturados e estruturantes de indiferenciação são um terreno fértil para problemas de aprendizagem (FERNANDEZ, 1991, p.97).

3. Considerações Finais

Somos seres sociais, gregários e, portanto, também relacionais. Dizer que a família é um sistema social significa que a natureza humana é um produto da interação; o comportamento é construído no dar-e-receber de seres sociais interdependentes. (NICHOLS). Por isso devemos ter na mais alta conta quando se trabalha no campo das terapias e dos saberes sociais e humanos o valor e a relevância da família para a constituição da sociedade e dos indivíduos que a ela pertencem.

Talvez o choque mais evidente da importância de envolver toda a família no tratamento de crianças e adolescentes seja a contundente frase expressa pelo eminente terapeuta familiar Michael Nichols: “os terapeutas não podem salvar crianças, ainda que alguns tentem; são os pais que têm de fazê-lo.” (NICHOLS, 1990, p.30). Essa frase marca de forma categórica como os profissionais que atuam com crianças se arrogam o dever de “curar” crianças, na sua grande maioria das vezes sem levar em consideração seu sistema familiar, perceber se o sintoma infantil serve de alguma forma àquela família, se o sistema familiar deseja realmente que aquele sintoma seja sanado ou que continue tudo como está, mantendo a criança como o “problema” enquanto a família se esquiva de forma camuflada de outros sintomas mais sérios que corroboram para o sintoma da criança ou do paciente identificado.

Isolar a criança, tratá-la como um indivíduo isolado de sua família cria uma serie de confusões e dificulta o bom prognóstico do sintoma. Para Nathan Ackerman:

Além disso, a tendência a isolar conceitualmente o indivíduo de sua família torna a previsão do curso da doença virtualmente impossível. A unidade adequada de previsão não pode ser a pessoa sozinha, mas deve ser o ambiente pessoa-família como uma unidade integrada. O equilíbrio dinâmico de indivíduo e grupo influência a precipitação da doença, o curso da doença, a possibilidade de recuperação e o risco de recidiva. Até agora a grande importância da experiência familiar cotidiana é quase ignorada em grande parte pelo sistema atual (ACKERMAN, 1986, P.24).

Virginia Satir talvez tenha sido a terapeuta familiar que tenha mais se aproximou de expressar uma interação, mesmo que de forma não proposital, entre psicomotricidade relacional e terapia familiar quando afirma que “cada palavra, cada expressão facial, cada gesto ou ação dos pais dá para a criança uma mensagem sobre o seu próprio valor. É triste que tantos pais não percebam a mensagem que estão enviando” (SATIR). É uma visão que leva em consideração as mensagens não verbais, a comunicação tônica, as mensagens analógicas e digitais, enfim todo o aparato tão valorizado pela psicomotricidade relacional. Retrata ainda uma triste realidade que as pessoas estejam cada vez menos conscientes de toda essa comunicação para além do verbal.

Sobre o Autor:

Bruno Furst Guimarães de Andrade - Sócio-Diretor do Horizonte - Instituto de Terapias Integradas e Desenvolvimento Humano. Psicólogo - CRP 04/37297 (membro da Sociedade Brasileira de Psicologia e da American Psychological Association). Psicomotricista Relacional, especialista em psicomotricidade pelo Conselho Federal de Psicologia, sócio titular psicomotricista da ABP - Associação Brasileira de Psicomotricidade e especialista em psicomotricidade com pós-graduação pela FUMEC), Terapeuta Sistêmico (individual, casal e família); Gestalt-Terapeuta.

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