Uma Introdução aos Processos de Construção da Identidade

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Etapa do desenvolvimento humano, muito importante no amadurecimento individual e, portanto, social em nossa cultura.  Surge como um tempo de transformações e de passagem para a vida adulta. Sob o prisma da psicanálise, caracteriza-se por ser uma crise psíquica, pois o adolescente é chamado a ocupar um novo lugar, o de responder por suas atitudes e palavras e assim construir essa nova identidade subjetiva.  Essa história já está iniciada, começou bem antes, desde o desejo dos pais sob este filho que irá chegar (Berço Simbólico) e agora essa história deverá ser reescrita em nome próprio na infância, geralmente, as coisas parecem se resolver por si mesmas já que até então estávamos protegidos pelo Outro.

Muitas pessoas confundem adolescência com puberdade. A puberdade é anterior a adolescência, sendo caracterizada pelas transformações físicas e biológicas no corpo dos meninos e meninas. É durante a puberdade que ocorre o desenvolvimento dos órgãos sexuais.  Consta nos termos do art. 2º da Lei 8.069/90 do Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, que considera-se Criança a pessoa de até 12 (doze) anos de idade incompletos. E considera-se adolescente quem tenha entre 12 (doze) e 18 (dezoito) anos de idade.

Em História Social da Criança e da Família, Ariès (1981) coloca que infância e adolescência não ganhavam atenção especial na sociedade ocidental antiga. Adolescência e infância não eram distinguidas, mas sim agrupadas no conceito de juventude que equivalia á maturidade. Ainda, segundo ele, a juventude foi mais privilegiada no século XVII, e infância e adolescência respectivamente nos séculos XIX e XX.

Afirma-se que a adolescência é uma crise psíquica devido a esta ser uma fase evidenciada por uma turbulência emocional, mudanças e descobertas acontecem, gerando conflitos. Além de já ser exigido que tome uma posição no social.

(CORSO, 2004).  Ocasionando a retomada das pesquisas sexuais antes presentes na infância e da sexualidade latente.

Anterior a puberdade, ocorre um processo em que os impulsos libidinais pertencentes ao Complexo de Édipo são dessexualizados e em partes inibidos em seu fim e transformados em impulsos de ternura e assim, interrompem o desenvolvimento sexual da criança, resguarda e paralisa as funções genitais e introduz a latência – período em que as pulsões sexuais que estimularam as fantasias construídas na infância adormecem. O que induz ao recalque do período edípico são as palavras paternas, as quais transmitem ao filho que este deverá abrir mão da mãe – objeto de desejo - para no futuro ter outras mulheres.

Após o conturbado tempo do Édipo, surge um novo tempo de reflexão, onde o sujeito “se fecha”, ele silencia, observa e escuta. Segundo Freud, a latência é um tempo de adormecimento. Corso pontua em seu texto (p.137) que a latência somente tem aparência de “águas calmas”, pois além de ser um período para organização, também é de intenso trabalho psíquico para organizar o conteúdo sexual adquirido no Édipo e que se colocará em cena na adolescência.

É o momento que se apresenta como um declínio da sexualidade e das posições identificatórias (pais, professores...), a criança também cessa a aquisição de novos conteúdos sexuais e surge uma intensificação do recalque em relação às experiências sexuais infantis. Para Freud (1924), essa dessexualização é condição para que a criança seja alfabetizada – “recalca-se o objeto fálico em nome do saber”.

Uma passagem do texto de Lúcia Alves Mees (2004, p. 22/3) caracteriza muito bem esse período: “A criança aceita a latência como tempo de espera do dia que poderá se preocupar menos com a inteligência e mais, de novo, com sexo. Esse dia chega com a adolescência e, com ela, a descoberta que esse objeto não retorna e que para constituí-lo terá de se ver sozinho na relação ao Outro sexo”. O jovem conclui que só tem a si próprio para enfrentar o desamparo que a vida lhe impõe e o mal-estar que dele decorre, necessitando operar com o Nome-do-Pai para assumir a posição de sujeito desejante e efetuar suas escolhas.

Freud compara a latência a uma posição de espera, em que ocorre uma precipitada invocação para que o sujeito responda as questões do social em nome-próprio, como se ele já tivesse superado e elaborado a perda do objeto infantil. Essa é a condição para a constituição de um sujeito com desejo de existência, quando o jovem adolescente se percebe como castrado. O efeito é de trauma: “algo que chega cedo demais ou intenso demais para as condições de sujeito, sem que ele tenha a possibilidade de inclusão no psiquismo” (MEES, 1995, p.23).

Na adolescência essas fantasias retornam juntamente com as descobertas do sexo. Junto vem a frustração de descobrir que a restituição do objeto que o pai havia prometido não irá se realizar, sendo visto pelo filho como castrado ou impotente. O encontro com o real do sexo na adolescência é revelador para o sujeito. Constata-se a impossibilidade, a não satisfação plena através do objeto sexual – esse objeto desejado não é real, é apenas um revelador da falta simbólica há que todos nós estamos submetidos, pois somos seres faltantes.

Complexo de Édipo, latência e puberdade deixa conteúdos, restos que serão usados mais tarde pelo sujeito, na adolescência quando irá pôr em prática (que se dá corpo ao enunciado sexo), pois é nesse tempo que iram se confirmar ou não. É um processo contínuo.

A passagem adolescente–adulto dura o tempo que o sujeito necessita para elaborar o evento traumático - a antecipação para ocupar uma posição que ainda não era sua.

O Outro pede algo ao jovem que ainda não tem condições para lhe responder, “sendo o trauma efeito da presença do Outro, o qual o aliena e funda” (MEES, 1995, p.24). Para a autora, a três possíveis caminhos para o adolescente:

- escolher a deslocar/ fabricar alguém que talvez vá cumprir melhor essa função, como amigos e o Outro sexo;

- e/ou buscar reeditar instâncias ideais, como por exemplo, a figura dos avós;

- ou ainda procura afastar a instância Outra, portador do evento traumático, ao qual o sujeito evita, por ser o anunciador do real ao qual não consegue elaborar e significar.

Ao final do período edípico, conteúdos objetais ficam abandonados e são substituídos por identificações, Freud, traz sobre elas em Psicologia dos grupos e análise do ego (1976) e Lacan também comenta sobre no Seminário 9:

- A primeira identificação, é o laço mais antigo que podemos ter com alguém – eu e Outro. Sendo uma identificação direta, não mediada pelo Complexo de Édipo;

- A identificação por regressão é a segunda. Ocorre depois de passado o tempo do Édipo, onde surgiram momentos em que se produz esta identificação. Provocada quando determinado laço se rompe, porque algum investimento não foi bem-sucedido, formada pela via sintomática. O sujeito então captura um traço, inconscientemente, e molda seu eu em função de um traço de outro, como no caso de filhos adotivos que são “parecidos” com os pais adotivos;

- Não é um laço, mas investimento, em relação àquele a quem irá ocorrer a identificação. O lugar desse outro mobiliza algo no sujeito que se identifica. Freud chamou de identificação pelo/ao lugar e destaca que essa é a forma encontrada em grupos.

A adolescência é um tempo onde o corpo passa a ocupar um lugar de destaque em função da imagem que se transforma, de determinações imaginárias e simbólicas que irão lhe imprimir novas inscrições, junto com a articulação entre as tentativas de sedução (olhar na mulher; voz no homem), namoro até a chegada ao ato sexual. Dá-se através de experiências entre si e com outros que o jovem conhece os processos de identificação sexual: namoro, primeiras relações sexuais, amor e do laço fraterno.

É precipitado afirmar que um adolescente seja heterossexual ou homossexual, pois são estas experiências que ao longo do tempo iram se questionar, confirmar ou afastar.

Quanto ao início se dá aos 12 anos completos, segundo consta no Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA. Mas estudando psicanálise veremos que pode durar muito mais do que até os 18 anos. Por isso tantos conflitos aparecem na adolescência para filhos e pais.  Para filhos, que enfrentam inúmeras dificuldades, dúvidas, escolhas e ainda terão que renunciar e deixar para trás o corpo infantil para assim, reconstruir a imagem corporal que a puberdade transformou. E para os pais que não estão lidando com uma criança, nem com um adulto, então, de que maneira agir? Muitos se identificam com esse “estilo adolescente”, sempre haverá reedição da sua adolescência (dos pais), dos desejos relacionados a esse tempo.

Considerações Finais

Por isso tudo, finalizo acreditando que as elaborações e restos de toda uma vida irão formar a identidade própria de cada sujeito, sendo assim a duração e o estilo da adolescência de cada jovem têm a influencia de fatores psicológicos, biológicos, sociais e culturais mais que qualquer outro período na vida de um ser humano.  Com apoio, diálogo transparente e compreensão será mais fácil atravessar esse tempo de vida que mexe com toda a família.

Sobre o Autor:

Luana Poletto - Aluna do 7º semestre de Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul - UNIJUI, Campus Santa Rosa - RS.

Referências:

ARIÈS, P. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: JC, 1981.

CORSO, D. Édipo, latência e puberdade: a construção da adolescência. In: COSTA, A. [et alli] (Org.) Adolescência e experiências de borda. Porto Alegre; UFRGS, 2004.

FREUD, S. Psicologia dos grupos e análise do ego. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

KEHL, M. R. A teenagização da cultura. Folha de S. Paulo, Caderno Mais! 1998.

KESSLER, C. A encruzilhada adolescente: entre os ideais e a identificação. In:

COSTA, A. [et alli] (Org.) Adolescência e experiências de borda. Porto Alegre; UFRGS, 2004.

MESS, L. A. I trauma infantil e o adolescente. In: COSTA, A. [et alli] (Org.) Adolescência e experiências de borda. Porto Alegre; UFRGS, 2004.

RASSIAL, J. J. O adolescente e a sexualidade. In: O adolescente e o psicanalista. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.

RASSIAL, J.-J. Os pais do adolescente. In: A passagem adolescente: da família ao laço social. Porto Alegre; Artes e ofícios, 1997.  

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